Blade Runner - A História de um Filme-Culto

   Desde que o cinema existe como entretenimento de massas, existiram sempre filmes marcantes e decisivos nesta ou naquela década, neste ou naquele género. Nas últimas décadas do século passado, filmes como "2001: Odisseia no Espaço" (Stanley Kubrick, 1968), as trilogias "Star Wars" (George Lucas, 1977-2005), "Matrix" (Andy & Larry Wachowski, 1999-2003), "Senhor dos Anéis" (Peter Jackson, 2001-2003), foram filmes marcantes nas diversas gerações de espectadores e na evolução do cinema. Mas talvez nenhum filme tenha ganho tanto carisma e sido tão rapidamente elevado ao estatuto de filme-culto como "Blade Runner".
   A acção situa-se em 2019 numa Los Angeles futurista. Após um motim a bordo de uma nave espacial levado a cabo por um grupo de "Replicants"  da série "Nexus-6", os mais avançados do mundo, idênticos aos humanos, mas muito mais fortes, regressam á Terra em busca do seu Criador para que este lhes aumente o tempo de vida limitado a 4 anos. Para os encontrar e "retirar" (matar) é chamado o ex-"Blade Runner",  Rick Deckard,  considerado o melhor no seu trabalho e que relutantemente aceita. O que parecia, à partida, mais uma missão para Deckard, transforma-se, a partir do momento em que conhece Rachel, numa outra busca.
   Publicado em 1968, o livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?" escrito por Philip K. Dick,  chamou desde logo as atenções pela maneira como tendo como pano de fundo uma história policial, o autor levantava questões morais sobre "o que é ser humano? o que é verdadeiro? o  que é falso?"  `as quais Rick Deckard tenta responder enquanto, um a um, vai "retirando" os "replicants". 
   No livro, a população vive em cidades decadentes, a humanidade foi quase destruída por uma guerra e ao posterior envenenamento radioctivo que destrói os genes humanos, os animais estão quase extintos , são raros e os seres humanos  são convidados a ter animais em sua posse para os poderem proteger e preservar, embora muita gente prefira ter um animal sintético por ser mais barato. No principio da história, Deckard teve uma ovelha real mas depois desta morrer, ele substitui-a por uma eléctrica.
   O autor, na altura, foi abordado por Martin Scorsese  que estava interessado em adaptar o livro para o grande écran, mas que nunca optou por o fazer. Durante a década de 70, vários produtores compraram os direitos do livro com intenção de o filmar apareceram mesmo diversos argumentos baseados na obra, mas Philip K. Dick nunca se mostrava suficientemente impressionado com o resultado. Finalmente em 1977, o argumento escrito por Hampton Francher  recebeu luz verde, mas o projecto não tinha pernas para andar.
   No inicio da década de 80, o produtor Michael Deeley interessou-se pelo argumento de Francher e convenceu o realizador Ridley Scott a utilizá-lo para fazer o seu primeiro filme americano. Scott que, anos antes, recusara o projecto, tinha acabado de abandonar a pré-produção de "Dune", queria fazer algo diferente do seu "Alien - O 8ºPassageiro" (1979), juntou-se ao projecto. Quando leu o argumento de Hampton Francher, que se focava mais nas questões ambientais do que nas questões humanas e da fé, que têm grande peso no livro, Scott  quis fazer mudanças. Francher abandona o projecto em divergência com o outro argumentista, David Peoples, que Michael Deeley tinha contratado para reescrever o seu argumento, embora tenha voltado mais tarde para contribuir com novas ideias.
   Philip K. Dick, ao tomar conhecimento deste novo desenvolvimento do projecto, ficou preocupado pois ninguém lhe tinha dito  nada acerca dum eventual filme, uma vez que ele fora muito crítico em relação ao primeiro argumento de Hampton Francher. Quando leu a revisão de David Peoples, Dick mostrou-se muito entusiasmado com o trabalho e com o resultado final para o grande écran que lhe foi mostrado pelo estúdio num visionamento particular. Agradeceu a Ridley Scott por este ter criado um mundo para o filme exactamente como ele tinha o tinha imaginado. Pouco tempo antes da estreia, Philip K. Dick morreu sem poder ver o sucesso que iria obter. O filme foi-lhe dedicado pelo realizador e pelos produtores.
Cartaz Original de 1982
   Apesar de ser primeiramente um filme de ficção científica, "Blade Runner" vai mais longe que isso, opera em múltiplos níveis quer dramáticos quer narrativos e é percorrido pelas convenções do "film noir"  dos anos 40 e 50: a mulher fatal, o protagonista-narrador ( a voz-off numa das primeiras versões para o cinema), a fotografia escura e cheia de sombras, o visual, de questionável moral, do herói (propositadamente, neste caso, usado para incluir reflexões sobre a sua humanidade). É um filme de ficção cientifíca literária cuja temática joga directamente com manipulação genética envolvida com questões filosóficas, religiosas e morais. Estes elementos temáticos providenciam uma atmosfera de incerteza ao longo do tema central de todo o filme: examinar a humanidade. Para isso é usado um teste de empatia, com perguntas acerca do tratamento a animais  designado para provocar uma resposta emocional que define quem é humano e quem não é. Enquanto os replicants mostram alguma compaixão e preocupação uns com os outros, o ser humano é mostrado como sendo  frios e sem personalidade ( as multidões que enchem as ruas de Los Angeles ao longo do filme são disso exemplo). O filme vai tão longe nesta questão que a própria humanidade de  Deckard é posta em dúvida e, através dela, somos levados a reavaliar o que é ser humano. Nem autor, nem realizador, nem argumentistas respondem a esta questão e ela tem sido tema para muitas discussões, contribuindo assim para o crescente interesse em volta do filme.
   A recepção crítica ao filme foi diversa; enquanto alguns ficaram espantados pela grandeza da visão futurista e complexidade temática do filme, outros, mais conservadores, consideram o filme uma traição ao livro ao inverter as personagens de Rick Deckard, que no livro é um homem sem moral, no filme, a sua própria moral é posta em dúvida ao questionar se o que faz é moralmente aceitável ou não e de Roy Batty, o líder dos "Replicants" que no livro não é tão vilão como parece que no filme não olha a meios para ir ao encontro do seu Criador  e atingir a  humanidade. 
Na Europa, a recepção ao filme foi calorosa e foi um dos grandes sucessos de 1982 ( em Portugal foi o 2º filme mais visto, logo a seguir a "E.T. - O Extraterrestre") e hoje  "Blade Runner" é considerado um dos melhores filmes de sempre e um dos mais influentes nas décadas de 80 e 90.
   Desde 1982 que existem ao todo sete versões de "Blade Runner" que resultaram de mudanças feitas pelos executivos dos estúdios que queriam que o filme fosse um sucesso depois do enorme investimento inicial 2, 5 milhões de dólares na pré-produção e de 21,5 milhões de dólares durante a rodagem, que era uma fortuna no início da década de 80. As diferentes versões do filme são:
- A "Workprint version" (1982, 113 minutos), exibida para testar o impacto junto do público. Em 1990      foi exibida como sendo uma "Director's Cut" sem a aprovação de Ridley Scott.
- A "Sneak Preview version", semelhante  à "Workprint version" com três cenas adicionais.
- A "Versão Original" (1982, 116 minutos),  é a mais conhecida de todas as versões. Contém as diversas alterações impostas pelos produtores, incluindo a "voz off" e o final feliz.
- A "Versão Internacional" (1982, 117 minutos), apenas estreada e exibida na Europa e na Ásia, contém mais acção e violência que a versão original. Proibida durante anos nos Estados Unidos, seria editada em "Laser Disc" por ocasião do 10º aniversário do filme em 1992.
- A "Versão para Televisão" (1986, 114 minutos) é a versão original montada para televisão sem as cenas de violência.
- A "Versão do Realizador" (1991, 116 minutos), finalmente o filme idealizado por Ridley Scott e recusado pelos produtores, via a luz do dia e estreava em todo o mundo com grande sucesso. Inclui mudanças significativas na versão original: a "voz off" é removida, acrescenta-se a sequência-sonho do unicórnio e o final feliz, imposto e causa de todas as polémicas entre realizador e produtores, é retirado. Era o renascer de um filme de culto. 
- A "Versão Final" (2007, 116 minutos), no 25º aniversário de "Blade Runner", realizador e produtores estão de acordo e dão liberdade criativa a Ridley Scott para ultimar a versão definitiva do filme. Melhorias a nível de imagem e de som, inclusão de alguns planos deixados de fora em versões anteriores, são o prato forte desta versão final que nada mais é que uma versão remasterizada da versão do realizador.
A Edição definitiva de "Blade Runner"
   Algumas destas versões estão disponíveis, além dum sem número de documentários, entrevistas e outra documentação na excepcional edição de cinco dvd's ou  cinco blu-rays intitulada "The Ultimate Blade Runner Collection", editada em finais de 2007. 
   Sendo baseado num livro de sucesso  teria de acontecer, inevitavelmente tal como no cinema, surgirem sequelas à obra de Philip K. Dick. O encarregado disso foi K.W. Jeter, amigo e seguidor de Dick, escreveu até agora três livros que continuam a história de Rick Deckard e tentam resolver as  muitas diferenças assumidas entre o filme e o livro: "Blade Runner 2 - A Fronteira do Humano" (1995); "Blade Runner - A Noite dos Andróides" (1996) e "Blade Runner - Eye and Talon" (2000).
   Culturalmente influente desde a sua estreia, muito devido ao seu estilo negro e design futurista, "Blade Runner" influenciou grandemente o estilo dos filmes de ficção cientifica subsequentes, animação, vídeojogos e até em séries de televisão, mais recentemente na re-invenção de "Battlestar Galactica" (2003), cujos produtores Ronald D. Moore e David Eick, dizem ter sido influenciados pelo filme de Ridley Scott.

Nota: Todas as imagens deste texto foram retiradas da Internet



Comentários

  1. E o mais engraçado é que quando estreou, Blade Runner não foi recebido com muito entusiasmo pelos americanos. Actualmente será provavelmente um dos filmes mais marcantes do final do século passado. E também para mim é decididamente um filme de culto.

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  2. Uma verdadeira obra prima do cinema.
    Conseguir um ambiente futurista com esta qualidade em 82 não é para qualquer um...
    E mais uma grande malha do Vangelis!

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