quinta-feira, 14 de maio de 2020

MAHAVISHNU ORCHESTRA – MÚSICA DE FUSÃO
         Entre o final da década de 60 do século passado e meados da década de 70, a música sofreu muitas transformações, algumas delas foram derivadas da conjuntura socio-política que se vivia naqueles tempos: foi a guerra do Vietname que esteve na génese do chamado “Flower Power”, do movimento “Hippie” que teve o seu apogeu nesse memorável festival de música pop que ocorreu em Woodstock, nos arredores de Nova York, em 1969.
Já nos anos 70, foi a vez do Rock Progressivo tomar conta da cena musical. Inspirando-se no psicadelismo musical, derivado das experiências  com drogas como o LSD,  que muitos músicos experimentaram durante os anos 60 e  na altura em que os Pink  Floyd se haviam afirmado como um grupo inspirador deste novo género musical,  bandas como Yes, Genesis, Emerson  Lake & Palmer, Focus,  King Crimson, entre muitos outros, vieram mostrar todo o seu virtuosismo técnico em composições enormes: letras inspiradoras e instrumentações a tocar um brilhantismo fora-de-série em muitos casos.
         
       
John McLaughlin, o mentor da Mahavishnu Orchestra
Outros géneros houve que, nesta década, se fundiram com o rock. Foi o caso do Jazz, um estilo com uma grande vertente musical, nascida no final do século XIX em Nova Orleans, no Estado de Louisiana, que juntava desde música religiosa de inspiração afro-americana com vários outros estilos e instrumentos  musicais, tendo tido grande expansão e aceitação durante as décadas de 20 e 30 mantendo-se sempre nesse registo até ao início da década de 70, quando sofreu uma transformação que o mudou por completo, modificando também a visão e, em muitos casos, a opinião, para melhor, mas também para pior, que se tinha daquele género musical. A Mahavishnu Orchestra foi um dos grupos impulsionadores desta transformação.
            
O grupo veria a luz do dia em 1971, na cidade de Nova York, pela mão do guitarrista britânico John McLaughlin que já tocara com nomes grandes da música como Jimi Hendrix, Miles Davis, Tony Williams, entre outros que lhe permitiram tocar diversos géneros musicais desde blues, passando pelo rock e fixar-se definitivamente no Jazz onde desde cedo quis primar pela diferença. A ele, nesta busca pela diferença musical, viriam a juntar-se o baterista panamiano Billy Cobhan, o baixista irlandês Rick Laird, o teclista checoslovaco Jan Hammer  e o violinista americano Jerry Goodman. McLaughlin já trabalhara com Cobhan e Goodman no seu terceiro álbum a solo, “My Goal’s Beyond” (1971).  John queria o seu amigo francês Jean-Luc Ponty para violinista, mas devido a problemas de emigração que envolveram o músico francês, McLaughlin trouxe Jerry Goodman. No baixo John queria Tony Levin, mas este não estava disponível, por isso a escolha caiu sobre Rick Laird, que já conhecia o britânico. Jan Hammer foi recomendado por Miroslav Vitous dos “Weather Report” que era amigo de John McLaughlin.
          O grupo juntou-se em julho de 1971 para ensaiarem durante uma semana pois tinham sido convidados para fazer a primeira parte de vários concertos de John Lee Hooker em Nova York. A primeira noite não correu muito bem, mas a segunda e seguintes foram bem melhores e foi pedido ao grupo que ficasse para actuar mais algumas noites. As ideias de McLaughlin para a instrumentação do grupo eram muito específicas pois ele queria contribuições musicais de todos os músicos de modo a conceber a mistura de vários géneros nas composições, nomeadamente contribuições do violino e do sintetizador na sonoridade geral do grupo. Esta mistura resultou de tal maneira que o grupo ficou mais duas semanas a actuar no “Gaslight at the Au Go Go”, antes de entrarem em estúdio.
            
No final de 1971, “The Inner Mounting Flame” chegava ás lojas  Desde o tema inicial, “Meeting of the Spirits”, que se  percebe que uma mistura de sons exótica, doseada com grandes momentos de puro improviso por vezes numa cadencia acelerada orientada pela batida de Billy Cobhan (como no tema “Noonward Race”) ou em momentos do virtuosismo acústico de McLaughlin  no tema “A Lotus in Irish Streams”. O estilo musical do álbum resultou numa mistura de géneros (que seria inicialmente a marca do grupo) que iam desde o rock puro ao funk,  a ritmos próprios da música europeia, passando, devido ao interesse de McLaughlin na música clássica indiana ( o que o levaria a adoptar o nome de “Mahavishnu” que lhe foi dado pelo Guru indiano Sri Chinmoy, pouco tempo depois do grupo começar a actuar em grandes concertos e festivais) por ritmos complexos e pouco habituais de ouvir. A sua música era totalmente instrumental tanto no primeiro álbum como no segundo, intitulado “Birds Of Fire”, que seria editado em 1973. Tal como o seu antecessor, este álbum consiste em temas escritos por John McLaughlin,  mostrando as diversas influências musicais que presidiam á formação musical, alguns deles quase a raiar o perfecionismo musical como “One Word” (onde está patente a harmonia musical entre todos os instrumentos) ou “Celestial Terrestrial Commuters” que consiste num magnifico diálogo entre a guitarra de McLaughlin e o violino de Goodman, mediado pelo sintetizador de Jan Hammer, não esquecendo “Miles Beyond” dedicado a Miles Davis com quem John McLaughlin tocou em várias ocasiões no início da sua carreira. A meio de 1973, “A Mahavishnu Orchestra” andava nas bocas do mundo da música, os dois álbuns vendiam bem e o grupo era permanentemente solicitado para concertos em festivais, eventos musicais e até haviam encetado uma mini-tournée europeia, durante o ano de 72, que os apresentara ao velho continente.  Mas, como tudo aquilo que é bom, cedo se começa a degradar.

Enquanto o ano de 1973 ia avançando, o grupo começou a mostrar alguma tensão interna. A pressão da fama súbita, exaustão e alguma falta de comunicação entre os membros do grupo, apenas acelerou os conflictos que atingiram repercussões enormes e desastrosas durante as gravações de um novo álbum de originais nos estúdios da Trident, em Londres, onde a banda chegou ao cúmulo de os seus elementos não falarem uns com os outros, descontentes com a liderança de McLaughlin que chegou ao ponto de não permitir que temas compostos pelos seus companheiros fizessem parte do alinhamento, quer dos álbuns quer dos concertos ao vivo. A gravação ficaria incompleta e permaneceria assim até 1999, quando houve um redescobrimento da música do grupo e as “masters” originais do álbum inacabado foram descobertas em perfeito estado de conservação (apesar de terem sido gravadas 26 anos antes!). O material encontrado consistia em temas escritos por todos os membros da banda, com especial incidência em McLaughlin e era mais que suficiente para editar em álbum. Com a devida autorização de todos os envolvidos, foi editado “The Lost Trident Sessions”. O grupo nunca mais se recompôs destas guerras internas, mas ainda tinham compromissos a cumprir em Nova York.
             
Em agosto de 1973, o grupo actuou duas noites no “Schaefer Music Festival” , que reunia grandes nomes do jazz e que acontecia anualmente no Central Park . O material que tocaram fazia parte do novo álbum que deveria ter saído em junho, mais alguns temas dos dois álbuns anteriores. Apesar da enorme tensão que existia entre todos, esta não foi visível na sua actuação que foi unanimemente considerada a melhor do festival. Três dos temas tocados nas duas noites, foram aproveitados para o único álbum oficial do grupo ao vivo, “Between Nothingness & Eternity” que seria lançado em novembro de 1973 quando o grupo já se separara. É o melhor exemplo da energia que o grupo tinha quando se encontrava em palco. Em 2011, quando foi editada uma caixa com os álbuns originais da primeira formação do grupo, incluindo “The Lost Trident Sessions”, vinha também um outro CD intitulado “Unreleased Tracks from Between Nothingness & Eternity” que continha os outros temas gravados durante os concertos do Central Park.
            Mas  a separação não parou John McLaughlin que, logo em 1974, reformulou o grupo com um novo elenco de músicos: trouxe finalmente  Jean-Luc Ponty ( que entretanto havia resolvido os problemas de emigração e já tocara com Frank Zappa e os “Mothers of Invention”) para tocar violino. ao qual se juntou Gayle Moran, nos teclados, Ralphe Armstrong no baixo, Narada Michael Walden (anos mais tarde viria a tornar-se um produtor de sucesso) na bateria, aos quais ainda juntou outros músicos para sessões de estúdio. A “nova” “Mahavishnu Orchestra”, como lhe chamou McLaughlin, foi para Londres gravar com a “London Symphony Orchestra” o seu álbum seguinte, intitulado “Apocalypse”
O álbum é, tal como o seu título indica, uma revelação musical a todos os níveis, muito graças ao facto de tocarem com uma orquestra completa . Desde as secções de cordas, passando pelos metais e continuando na guitarra inconfundível de McLaughlin no tema “Visio nis A Naked Sword” ou nas secções mais calmas, melodias mais suaves e estimulantes de “Wings of Karma” que nos preparam para o grande momento do álbum, “Hymn to Him”, em que o quinteto nos mostra o que melhor sabe fazer. As variações entre o violino de Ponty e a guitarra de McLaughlin no climax do tema, são o verdadeiro ponto alto deste álbum perfeito em todos os sentidos, apesar da estupefacção e algum afastamento com que foi recebido pelos fans do grupo.
a primeira reencarnação da MO
     Em 1975, satisfeito com  experiência em Londres, McLaughlin manteve a estrutura do grupo e o recurso a músicos de estúdio para gravar um novo álbum, “Visions of Emerald Beyond”, que, apesar de manter a qualidade musical do seu antecessor, permanece como um dos álbuns menos apreciados do grupo, talvez por conter alguns temas que soam como uma espécie de ritmo “funkie”, uma vertente musical que McLaughlin nunca explorara anteriormente. Seja como for o álbum tem momentos de verdadeiro delírio musical como o tema “Eternity’s Breath” onde a guitarra soa pesada, a bateria de Walden é forte e propulsiva e o violino de Ponty tem momentos de verdadeira magia musical que o músico nunca atingiu nos seus álbuns a solo. “Cosmic Strut”, escrito por Michael Walden é um verdadeiro tema “funkie” e, goste-se ou não, somos contagiados pelo ritmo. 

          Mas o álbum não conseguiu convencer aqueles que pensaram que esta era uma reencarnação da “Mahavishnu Orchestra” original. Quando se percebeu que isso não iria acontecer, viraram as costas ao grupo, que, após alguns dissabores internos, nomeadamente a partilha de créditos musicais entre Jean-Luc Ponty e John McLaughlin, levou a que o francês batesse com a porta e partisse para uma carreira de sucesso a solo, a que se seguiu a saída do teclista Gayle Moran por desavenças criativas com McLaughlin. 
Reduzida a quatro elementos, com Stu Goldberg, um dos músicos das sessões de estúdio a assumir os teclados, o grupo gravou em 1976 o álbum “Inner Worlds”, onde a criatividade dos músicos e a diversidade musical nunca deixa de estar presente em vários temas com créditos repartidos entre McLaughlin e Walden. “All in the Family” é um tema inspirado e cheio de energia e muito apoiado na bateria e nas marimbas de Walden, enquanto “Miles Out” contém um momento “jamming” de McLaughlin e a sua guitarra, “Planetary Citizen” traz o momento “funkie” inspirado ainda nos temas de “Visions”, o tema-título traz John McLauglin a tocar uma guitarra-sintetizador ainda muito no início. Mas este álbum seria o canto do cisne para esta versão da “Mahavishnu Orchestra”, pois McLaughlin queria explorar outras e novas vertentes musicais que o afastavam irremediavelmente do som do grupo. Teriam de passar quase dez anos até que uma nova encarnação da “Mahavishnu Orchestra” (a terceira) surgisse.
            
Depois de várias experiências musicais, umas com mais sucesso que outras, em 1984, McLaughlin reformula a “MO” com Bill Evans, um dos seus músicos favoritos, no saxofone, Jonas Hellborg no baixo, Mitchel Forman nos teclados e consegue que Billy Cobhan, membro original do grupo, regresse para assegurar a bateria apenas nas sessões de estúdio. Gravam o álbum “Mahavishnu” que não conseguiu convencer, nem público nem os críticos que acharam que os músicos não tinham a focagem que o grupo original tinha e que McLaughlin perdera o seu toque de midas na guitarra em detrimento de um uso mais extensivo da guitarra sintetizada. 
Em 1987, já sem Billy Cobhan, substituído por Danny Gottlieb, a “MO” grava o seu último álbum, “Adventures in Radioland” que, apesar de ser superior ao seu antecessor e mostrar que esta nova “MO” tinha pernas para andar. A inspiração musical estava lá com bons momentos de virtuosismo musical, não conseguiu convencer ninguém e pouco mais havia a fazer. Claramente e em face da evolução musical presente na década de 80, a “MO” já não tinha razão para continuar activa. McLaughlin percebeu isso rapidamente e arrumou o projecto na gaveta e foi dedicar-se novamente á sua carreira a solo, felizmente, com grande sucesso.
            Para a história da música e do jazz em particular, fica um grupo que ousou romper as barreiras entre géneros e estilos musicais e criar um sub-género único que veio a influenciar muitos artistas e grupos da cena jazz e também nos outros géneros que proliferaram na música durante as décadas de 70 e 80 do século XX.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet.






domingo, 19 de abril de 2020

                                 TWIN PEAKS III – O MISTÉRIO CONTINUA

         Em 1991, a ABC Television Studios decidiu suspender a série “Twin Peaks” que ia a meio da sua segunda temporada, alegadamente por quebra de audiências. A primeira temporada desta série tinha sido um sucesso quase sem precedentes, alcançara níveis de audiência nunca antes vistos e, mais importante que tudo, mudara a forma de fazer televisão para sempre. Os seis episódios que constituíam essa temporada giravam em volta de uma única pergunta que a todos intrigava: “Quem matou Laura Palmer?”

       A resposta à pergunta surgiu e foi revelada, mas com ela vieram também outras perguntas e outros mistérios que, dado o enorme sucesso obtido, seriam respondidas numa segunda temporada que entretanto já fora encomendada e já se encontrava em plena produção. 29 novos episódios que se propunham a aprofundar e revelar quais os acontecimentos que decorriam no quotidiano de Twin Peaks e que haviam levado a que  Laura Palmer, a rainha da beleza da cidade fosse assassinada.

      Há medida que íamos sendo enredados nos mistérios de Twin Peaks, o público ia perdendo o interesse porque achava que os rumos que a nova temporada tomara, com a adição de novas personagens  e a saída de cena de outras, estavam longe das orientações iniciais da série e levaram ao cancelamento da sua exibição logo após o último episódio desta temporada. No entanto ficou no ar o mistério sobre o que é que era afinal o “Black Lodge” e porque é que a personagem (ou espírito) de Laura Palmer no final do episódio, dentro do “Black Lodge”,diz ao agente do FBI, Dale Cooper, que se voltarão a encontrar dali a 25 anos? A resposta, talvez tenha (ou não) sido encontrada a partir de 2016 (imagine-se 25 anos depois do ultimo episódio da segunda temporada!!) na nova temporada de Twin Peaks! Pelo meio, em 1992, Lynch ainda voltou ao universo da pequena cidade americana com “Twin peaks – Os Últimos sete dias de Laura Palmer”, uma espécie de prequela da série que terminava com a morte da rainha da beleza daquela cidade, mas problemas na produção, nomeadamente as restrições impostas pelo produtor quanto á duração do filme, mais a má recepção geral quando o filme estreou, ditaram o final prematuro daquele universo fantástico e prometedor...até 2016!
            
Os rumores de um eventual regresso da série começaram em 2013, quando Lynch filmou um vídeo promocional para ser incluído nos extras da edição em Blu- Ray de “Twin Peaks: The Complete Mystery”. Quando questionado sobre um eventual regresso da série, respondeu que era uma possibilidade, mas que teria de se esperar. Em outubro de 2014, a “Showtime” anunciou que iria exibir uma mini-série em nove episódios, escrita por David Lynch e Mark Frost e os episódios realizados por Lynch e que não se tratava de nenhum “remake” ou “reboot”, mas sim uma continuação da série. Entre avanços e recuos, o elenco possível das temporadas anteriores foi sendo reunido (practicamente todos voltaram para vestir a pele das suas personagens), o argumento ia sendo desenvolvido e, em breve, de nove episódios, a série chegou aos dezoito episódios, com Lynch a realizá-los todos (apesar de, a principio, ele só querer realizar nove). Com o argumento todo escrito, a rodagem, que decorreu entre setembro de 2015 e abril de 2016, pode começar como um todo que depois seria editado para caber nos 18 episódios planeados.
            Passaram-se 25 anos desde que Laura Palmer, estudante de 17 anos e rainha da beleza da cidade de Twin Peaks, mas também com uma vida dupla, foi assassinada. A sua morte despoletou diversos acontecimentos que tiveram consequências, quer a nível social, quer a nível pessoal nos habitantes da pequena cidade do estado de Washington. Mas, se por um lado, o crime aparentemente terá sido resolvido pelo Agente Especial do FBI, Dale Cooper enviado para o efeito, outros mistérios e acontecimentos ficaram por esclarecer.
            Para se entender o universo de Twin Peaks, a típica cidade americana pacata, mas cheia de mistérios, é preciso recuar até ao 3º episódio da primeira temporada, a uma cena em que no “Double R Diner”, o restaurante central da cidade, Harry S.Truman (Michael Ontkean), Xerife de Twin Peaks, acompanhado do seu adjunto, Hawk (Michael Horse) e de Ed Hurley (Everett McGill), dono de um posto de abastecimento da cidade, revelam ao Agente  Especial do FBI, Dale Cooper (Kyle McLachlan), encarregado de descobrir quem matou Laura Palmer, que Twin Peaks não é como as outras cidades americanas, existem, nos seus bosques, coisas más, presenças que, desde tempos imemoriais, os homens têm tentado combater, mas que se recusam a ir embora. Cooper, que gosta das coisas do oculto, mostra-se interessado em estudar este mistério, sem, no entanto, se desviar do assassinato de Laura Palmer. É aqui que nasce, no meu entender, todo o interesse pela série que mudou a televisão. É um mistério muito mais profundo do que aquilo que se passava na altura em que estreou a série e que, depois da terceira temporada, ainda mais profundo ficou.
       
David Lynch, um dos criadores de Twin Peaks
A dualidade sempre fez parte do universo de Twin Peaks e parece ter um importante papel a desempenhar em toda a trama: se existe o “Black Lodge” também existe o “White Lodge”; Sheryll Lee, a actriz que faz de Laura Palmer, regressa a meio da primeira temporada no papel de Madeleine Ferguson, prima de Laura  e parecidíssima com ela; ou até o próprio título da série, revela alguma dualidade quanto ao seu verdadeiro significado, mas em “Twin Peaks – The Return”, essa mesma dualidade é fonte de tragédia e agitação e isso torna-se mais que evidente há medida que a série se encaminha para o seu final, já que, percebe-se, que a David Lynch apenas lhe interessa retratar os traumas da maldade humana em vez do aparente e profundo poder do amor. Temos pois, um realizador que se dedica a explorar os mundos internos do trauma humano  tão bem  retratado no final do último episódio (o grito furioso, algo descontrolado e aterrorizante de Laura Palmer/Carrie Page, ao perceber a personalidade multidimensional do seu próprio ser e a passagem brusca para o escuro do écran), é profundamente triste. É Lynch no seu melhor!
            
Há 25 anos atrás, O Agente especial Dale Cooper do FBI, “viajou” para o “Black Lodge” onde “há sempre música no ar” (talvez por por isso, os episódios de “Twin Peaks – The Return”, terminem sempre com um número musical no “Roadhouse”), para resolver o mistério da morte de Laura Palmer e para acabar de vez com os poderes demoníacos de Bob que ele impusera em Twin Peaks. Lá, encontra o espírito de Laura num estado de angústia total impossibilitado de descansar para toda a eternidade. Cooper, vê-se obrigado a “viajar” novamente, mas desta vez com consequências para si, porque o seu espírito divide-se em duas partes, formando dois duplos de si mesmo: um é o calmo e tranquilo “Dougie Jones”, homem de negócios, casado e pai de filhos; o outro é “Mr.C”, assassino bruto e violento que tem de encontrar o seu caminho desde o Dakota do Sul até á cidade de Twin Peaks não olhando a meios para o fazer. No seu encalço estão, além de assassinos contratados (que chegam a confundi-lo com “Dougie”), Gordon Cole, chefe do FBI (uma interpretação carismática de David Lynch) e Diane Evans, secretária de Cooper (a misteriosa Diane para quem o agente do FBI ditava indicações no pequeno gravador que trazia sempre consigo, interpretada por Laura Dern). Ambos os duplos têm que se reunir ao seu “eu” verdadeiro (o Cooper que ficou impossibilitado de sair da sala vermelha no “Black Lodge”). Quando isso acontece, Dale Cooper, finalmente liberto da sua prisão, tem de “viajar” novamente e desta vez intacto, para outra dimensão e assim completar a sua missão (dar paz ao espírito de Laura). A sua regressão temporal acontece no momento interdimensional de tormento quando Laura se aventura nos bosques de Twin Peaks para conhecer a sua morte. Cooper oferece-se para a ajudar a evitar ser morta impedindo assim todos os acontecimentos na cidade de acontecerem. Mas os espíritos do “Black Lodge”, não podem permitir que ambos os duplos caminhem em simultâneo sobre a terra. O espírito de Laura desaparece e no seu lugar aparece Diane que viaja com Cooper para o Texas onde nova revelação será mostrada ao agente do FBI. É-lhe apresentada uma empregada de mesa que se parece com Laura Palmer, mas que se chama Carrie Page. Cooper trá-la de volta para Twin Peaks e leva-a até á casa onde Laura vivera e também onde o espírito de Bob a violara pela primeira vez e onde finalmente tudo será resolvido...ou talvez não!. Esta última parte permite que Lynch exponha um dos seus maiores e mais significativos temas: a inevitabilidade da natureza.
            
Os duplos do Agente Especial do FBI, Dale Cooper
O que se assiste em “Twin Peaks – The Return” é, não só ao final de uma história começada há mais de 30 anos, com o trágico destino de Laura Palmer, brutalmente violada e assassinada, como também é uma reescrita completa (não um “reboot”!) de um longo filme de terror dividido em 18 partes, cada uma mais terrível e bizarra que a outra, mas, das quais, o espectador simplesmente não consegue ignorar e passar á frente, porque todas elas são verdadeiramente aterrorizantes. Também ao longo dos episódios, o realizador vai-nos dizendo que o mal existe no mundo, mas que, no seu entender, é criado pelo Homem e não nos vai deixar tão cedo. Esta ideia é perfeitamente ilustrada no episódio mais visto, mais estudado, de todos desta temporada: o 8º episódio, intitulado “Gotta Light?”. Totalmente filmado num magnífico preto-e-branco (nem poderia ser de outra maneira, senão não teria o impacto que teve nos espectadores!), começa com uma explosão atómica no Novo México em 1945, da qual, vemos, ao longo de todo o episódio, o nascimento de uma cidade de lenhadores (que, percebemos mais tarde, dará origem ao “Black Lodge”). Este episódio metamorfoseia a tese de que as pessoas boas podem ser corrompidas através das más intenções com aquela outra que diz que todo o mal é culpa do Homem e só do Homem. Aqui percebemos também que Bob, o demónio que violava Laura Palmer desde criança e que possuiu o seu pai, Leland, era na realidade um ser de outro mundo e no qual se tropeçou por acaso e que despertou do seu longo sono, mas este episódio diz-nos ainda mais, que o desejo de fazermos mal uns aos outros, foi o que despertou Bob e o seu mundo, O “Black Lodge” e também que a bomba atómica no início do episódio foi meticulosamente planeada e fabricada por uma espécie que queria destruir o seu próximo.
            
A Misteriosa Diane 
Confusos?! Não fiquem, porque, afinal de contas, estamos a lidar com um realizador habituado a mexer com todos os nossos sentimentos graças á sua enorme criatividade, associada a alguma genialidade incompreendida. Foi essa mesma genialidade criativa que criou, há mais de 30 anos, este universo bizarro, esta cidade intrigante, mágica, misteriosa, mas sempre fascinante, aos quais gostamos de voltar para nos deixarmos encantar uma e outra vez.


Nota: as imagens e video que ilustram o texto foram retiradas da Internet.








sábado, 28 de março de 2020

                             MANON DAS NASCENTES – UM DRAMA RURAL II

            Em anos recentes, o cinema tem vindo a assistir a histórias que, de um momento para outro, se transformam em dezenas de pequenas coisas com muita acção, carros que são arremessados pelo ar, personagens são esburacados por tiros, heróis que num momento de perigo conseguir esboçar piadas ou frases feitas, tudo isto sem qualquer relação com o fulcro da história que se tenta contar, etc. e tudo em nome de quê? De dinheiro. Hoje em dia, infelizmente, substitui-se a qualidade duma construção narrativa pelo “box-office” que esse filme possa fazer, é um sinal dos tempos.
        Com “Manon das Nascentes”, que é a conclusão da história iniciada em “Jean de Florette”, Claude Berri, o seu realizador dá-nos precisamente o oposto daquilo que escrevi acima. Avança com ritmo certo ao longo dos acontecimentos de quatro gerações, demonstrando com grande qualidade o impacto que os pecados dos pais podem vir a ter nos filhos. Apesar deste poder ser visto sem se ver o filme anterior, impacto só é compreendido na sua grandeza depois de se ver toda a história desde o princípio; só então é que o final do filme pode ser entendido na sua totalidade.
         
Passaram-se dez anos desde os acontecimentos de “Jean de Florette”. Ugolin Soubeyran (“Galinette”, é como lhe chama o seu tio, César), é um próspero homem de negócios graças á plantação de cravos que faz em “Les Romarins”, propriedade que pertencera a Jean Cadoret, antigo cobrador de impostos que herdara o terreno e que nunca o conseguiu cultivar por falta de água, graças a um esquema montado por César e Ugolin que taparam a nascente. Jean acabou por morrer, e César e o seu inútil sobrinho compraram a propriedade a Aimée, viúva de “Jean” que queria regressar a Paris, por um preço barato e destaparam a nascente. Entretanto, “Manon”, filha de “Jean”, foi viver para as montanhas com um casal idoso de poceiros e tornou-se numa linda pastora. Um dia Ugolin vê-a a tomar banho e apaixona-se obsessivamente por ela, mas “Manon” não quer nada com ele porque nunca esqueceu aquilo que testemunhou ainda criança e anseia por vingança contra quem lhe destruiu a família.

Emmanuelle Béart é o nome que se junta ao elenco que transitou do filme anterior, Yves Montand e Daniel Auteuil. A actriz, que já havia actuado em outras produções francesas, consegue aqui o papel que lhe deu fama tanto na frança como fora dela. A sua interpretação de “Manon” é magnética, consegue cativar a atenção do espectador através da sua beleza estonteante e interpretação poderosa, principalmente baseada nos seus olhos expressivos, daí que talvez as suas falas sejam espaçadas.
            
Apesar de rodados ao mesmo tempo, consegue perceber-se a diferença de tom e ritmo narrativo entre ambos. ”Jean de Florette”é leve, talvez devido ao optimismo ilimitado que preenche Jean na sua constante procura por água para as suas culturas e existem momentos em que parece que ele vai ter sucesso, apesar dos obstáculos postos no seu caminho por “César” e “Ugolin”. 
Em “Manon das Nascentes” o tom é cruel e sinistro. O feitiço volta-se contra o feiticeiro sem piedade, neste caso contra tio e sobrinho quando “Manon” começa a sua cruzada para vingar a morte do seu pai. Ironicamente não é a sua decisão que irá causar a destruição dos seus inimigos, mas sim outros acontecimentos que entretanto surgem e revelações que ninguém estava á espera.
            “Jean de Florette e “Manon das Nascentes”, ao longo das suas quase quatro horas de duração, avançam implacavelmente como se duma tragédia grega se tratasse. Vistos como um filme só, é um verdadeiro tratado sobre a natureza humana e o retrato que mostra é muito pouco lisonjeiro. Jean, cujas características que o definem são a sua inocência e, como já referi, o seu optimismo ilimitado, é destruído por aqueles que o rodeiam motivados pelo engano e pela ganância e interesse próprio. Existem momentos em que Jean parece ser indomável na sua vontade, mas, no fim, nem ele próprio consegue vencer a natureza e a crueldade dos seus pares. Ugolin e César, donos do poder na vila, se bem que são os principais culpados, não são os únicos; os habitantes da vila, ao encobrirem aquilo que sabem com o seu silêncio, também são culpados. No segundo filme, o poder muda de César e Ugolin para Manon e ela vinga-se sem dó nem piedade ou compaixão sobre tudo e todos. No final, Manon é a única a ter um final feliz.
       
     
Poderia dar-se o caso de um filme (ou melhor, dois) cujo enredo pormenoriza os problemas e tribulações em torno do abastecimento de água a uma comunidade agrícola rural, não ser interessante, mas não é o caso de “Jean de Florette” e “Manon das Nascentes”. Aquelas são só as situações que vão tecer a história, mas o cerne da questão é mesmo a complexidade das acções humanas e suas interações. As personagens ganham vida e parecem sair do écran. Claude Berri, responsável pelo argumento juntamente com Gerárd Brach, ao adaptarem a novela de Marcel Pagnol, tinham em vista um alcance maior. “Jean de Florette e “Manon das Nascentes” foram as suas primeiras produções a serem exportadas para o outro lado do atlântico e, com o sucesso que ambos os filmes obtiveram, as suas produções continuaram a receber alguma distribuição americana.
     
Nestes dois filmes, apesar da sensação de justiça poética que Berri pretende imprimir numa escala que apanhe gerações, ele é solidário com todas as personagens, até mesmo com aqueles cujos motivos são, acima de tudo, obscuros. Ele não os demoniza nem os trata como vedetas. Ele desafia-nos a aceitá-los tal como são, nos seus comportamentos e promessas e a passarmos algum tempo na sua companhia. As voltas e reviravoltas da narrativa, a qualidade das interpretações, a fotografia soberba novamente por Bruce Nuytten e a mestria da realização de Berri, tornam estes dois filmes parte da grande produção europeia e obras-primas da cinematografia francesa da segunda metade do século XX.
            Tal como “Jean de Florette”, “Manon das Nascentes”, quando estreou, alguns meses depois do seu antecessor, foi um grande sucesso e abriram-se-lhe as portas da época da premiação. Mas ao contrário do que acontecera com o primeiro filme, “Manon das Nascentes” ganhou apenas um “César” de melhor Actriz Secundária” para Emmanuelle Béart em dois possíveis e uma nomeação para os BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro.  
Os dois filmes formam uma só narrativa complexa e indissociável (apesar de no final de “Jean de Florette” aparecer a palavra “intermission”), e não faz qualquer sentido ver um sem ver o outro. 
Este é uma das mais poderosas e emocionalmente complexas histórias alguma vez transpostas para o cinema. É uma tragédia de proporções épicas, mas numa escala pessoal e que nas mãos de outro realizador menos eficaz, provavelmente resultaria num filme lamechas e muito dado á lágrima. 







Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet


sábado, 21 de março de 2020

                                  JEAN DE FLORETTE – UM DRAMA RURAL

            Escrever sobre cinema francês é quase como ir aos primórdios do cinema e contar toda a sua história sem nos esquecermos de que muito do que se faz por esse mundo fora tem inspiração directa no velho continente. A “Nouvelle Vague” francesa que se fez sentir no início dos anos 60, liderada por nomes como Jean-Luc Godard e François Truffaut, foi o início duma revolução que iria marcar não só o cinema francês como toda a cinematografia europeia.
           
A “Nouvelle Vague” francesa deu origem a um novo tipo de cinema que rapidamente iria influenciar todo o conjunto europeu e abriu a porta a muitos novos talentos quer na interpretação, quer na realização, casos houve em que os primeiros acabariam por transitar e firmar o seu talento em muitos casos, atrás das câmeras. Um desses casos foi Claude Berri que de actor relativamente desconhecido e secundário passou a realizador de renome graças a alguns sucessos que obteve. “Jean De Florette” foi, talvez o seu maior sucesso e abriu-lhe as portas do Panteão do cinema francês. 
         Ugolin Soubeyran, recentemente desmobilizado do serviço militar, regressa á sua aldeia, na Provença, em França, onde é recebido pelo seu tio, César “Le Papet”( que, no dialecto local se traduz por avô). Ugolin quer dedicar-se á plantação de cravos na sua propriedade nas montanhas. Céptico, a principio acerca desta ideia, César acaba por entender que o negócio até pode ser rentável desde que haja boa terra e àgua para a plantação. Ambos vão então ter com o vizinho de César, Pique Bouffigue para tentar comprar a sua terra que, apesar de aparentar ser muito seca, César sabe de uma nascente escondida que pode resolver o problema. O negócio corre mal e Pique Bouffigue acaba por ser morto. Ugolin e César, tapam a nascente e preparam-se para adquirir os terrenos pois não é conhecido nenhum familiar de Bouffique. Mas a surpresa é enorme quando se sabe que os terrenos são afinal pertença de um sobrinho de Bouffique (filho de sua irmã, Florette, entretanto falecida), chamado Jean Cadoret que, de acordo com o costume local, será conhecido como “Jean de Florette”, que é colector de impostos e corcunda, que chega passados alguns dias na companhia da esposa, Aimée e da filha, Manon, para tomar conta dos terrenos, criar coelhos e cultivar produtos para se alimentar a si e á sua família, sem saber, no entanto, os problemas que o esperam.
Imagem do filme de Marcel Pagnol (1952)
           Em 1952, Marcel Pagnol, escritor francês de contos, novelas, romances e peças de teatro, também realizador de cinema, adaptou o seu conto “Manon des Sources” para cinema e transformou-o num filme de quatro horas de duração. Demasiado longo para o conto em si, foi subsequentemente cortado pelo seu distribuidor para uma versão mais aceitável . Insatisfeito com o resultado final, mas sem nada poder fazer, Pagnol decidiu reescrever o conto e transformá-lo numa novela, dividida  em duas partes: na primeira parte, intitulada “Jean de Florette”, explorava os ambientes retratados no filme, uma espécie de “prequela” (ainda não se usava a expressão) de género; a segunda, mantinha o título do conto “Manon des Sources” e narrava a história contada no filme. Os dois volumes formam a série que Marcel Pagnol chamou “L’Eau des Collines”. 
Claude Berri, quando leu os romances, sentiu-se logo cativado pela história e quis adaptá-los para o cinema, mas, de modo a fazer-lhes justiça, o filme teria que ter duas partes, ou seja dois filmes. Da mesma maneira que o épico de quase cinco horas, “Novecento – 1900” (Bernardo Bertolucci, 1976) foi rodado todo de uma só vez, mas teve estreias diferentes (1900 – 1ªParte e 1900- 2ªParte), também “Jean de Florette” e “Manon des Sources” seriam rodados ao mesmo tempo, mas teriam estreias espaçadas ( três meses em frança e quatro meses nos estados Unidos) entre si.

Com Luz verde por parte dos produtores e a distribuidora e,  Claude Berri, que de actor secundário no cinema francês, passou a produtor de renome internacional em filmes como “Tess - Tess” (Roman Polanski, 1979), ou “The Bear – O Urso” (Jean-Jacques Annaud, 1988) antes de se tornar um realizador em filmes como “le Maítre d’École – O Mestre da Escola (1981); “Tchau Pantin” (1983) ou “Germinal – Germinal”(1993), pôde durante sete meses (entre maio e dezembro de 1985) rodar aquele que foi, até á altura, o filme mais caro de sempre, que viria a ser um grande sucesso nacional e internacional.
            
A actuação do elenco é sem mácula. Yves Montand, vedeta internacional e um dos melhores actores da sua geração (anos 50, 60 e 70), aqui num dos seus últimos grandes papéis, é César, um índividuo fanancioso, astucioso e amoral, tão obcecado com os seus objectivos que só se apercebe das consequências dos seus actos quando é tarde demais; Daniel Auteuil, outra das grandes promessas do cinema francês dos anos 80 e 90, é Ugolin, sobrinho de César, igualmente ganancioso, porém patético e fraco ( a sua paixão por Manon será a sua perdição); finalmente, Gerard Depardieu, um dos nomes incontornáveis do cinema francês das últimas décadas do século XX, é Jean, inocente e dono de um optimismo ilimitado, apesar da sua mal-formação, é ingénuo o suficiente para não ver a inveja e ganãncia que o rodeiam (o facto de Ugolin se fazer passar por seu amigo tolda-lhe o senso) o que o leva á sua perdição.
          
O realizador, Claude Berri
O realizador Claude Berri não trata a história como um melodrama, os motivos dela são apresentados bem cedo,  logo no início percebe-se rapidamente o que vai acontecer. A ideia do filme não é criar “suspense”, mas sim capturar a impiedosa ganância humana (Ugolin torna-se amigo de Jean, ajuda-o a vender os seus produtos na aldeia mas nada lhe diz acerca da nascente que ele e o seu tio taparam), o sentimento de que a terra é tão importante que o espírito humano pode ser sacrificado em prol dela. Para captar este sentimento, o realizador trabalha-o muitíssimo bem com a câmera, ao evitar grandes planos que tornariam a história numa série de grandes momentos que não existem, seria uma espécie de “dejá-vú” em tantas outras produções. Em vez disso, envolve as cenas mais tensas na paisagem e no céu. O melhor exemplo disto é. A cena em que o céu se enche de nuvens  e ouve-se ao longe o ruído da trovoada que se aproxima, parece que vai chover e então Jean e a sua família saem de casa para a sentir cair, mas acaba por chover noutro local. Jean, enraivecido, aponta o seu punho para o céu e pergunta a Deus porque é que foi esquecido. Mas Deus não o esqueceu nem o traiu, foram os seus vizinhos que o fizeram e a enormidade do seu crime é o mote principal deste filme  e esta é a grande cena de todo o filme.

Tanto em frança como intrnionalmente, “Jean de Florette” foi um enorme sucesso de bilheteira e abriu caminho para a época dos prémios, apesar desta em frança ter gerado grande expectativa com a nomeação do filme para oito “Césares” (Oscares franceses), incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, acabou por ser recompensado com apenas um, o de Melhor Actor para Daniel Auteuil. Já nos prémios da Academia Britânica, os BAFTA (“British Academy of Film and Television Arts”), o filme portou-se melhor: recebeu dez nomeações, incluindo, claro, Melhor Filme e Melhor Realização e ganhou quatro, incluindo O Melhor Filme, além de outros prémios e menções honrosas em outros festivais..
        Tecnicamente, o filme não poderia ser melhor, do ponto de vista cénico, a fotografia de Bruno Nuytten (anos mais tarde, tornar-se-ia realizador) é quase perfeita na maneira como capta a beleza da paisagem da Provença e nas dificuldades diárias que a sua população enfrenta e também ficámos com a sensação de que, apesar da inveja e da ganância serem muito pacientes  e que podem levar anos até que se cumpram os objectivos, uma vingança, também pode levar anos a ser cumprida e é disso que se ocupa o segundo filme deste díptico, “Manon des Sources – Manon das Nascentes”.
                                                                                                                    (CONTINUA)



Nota do autor: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019


                             “THE WARRIORS” - OS SELVAGENS DA NOITE
                         
                        Um Filme de Acção Contemporânea

         Em 1961,“West Side Story – Amor sem Barreiras “ realizado por William Wyler e Jerome Robbins estreou nos cinemas. Tratava-se de um filme musical, adaptado duma peça de teatro da Broadway, por sal vez inspirada na famosa tragédia de William Shakespeare, “Romeu e Julieta”. No filme, dois gangs rivais, os “Jets” e os “Sharks”, disputam a posse dos territórios que se encontram entre as suas zonas na cidade de Nova York. Pelo meio, uma história de amor entre Tony, ex-líder dos “Jets” e Maria, irmã de Bernardo e chefe dos “Sharks” ameaça complicar a situação já por si muito delicada. O filme foi um enorme sucesso de bilheteira e venceu 10 Oscares da Academia, incluindo o de Melhor Filme do Ano. O filme reabilitou as lutas de gangs que tantas delícias fizeram nos westerns das décadas anteriores e deu-lhes um toque de modernidade que se mantém até aos dias de hoje fazendo com que os filmes sobre gangs rivais continuem a ter grande aceitação junto do público. 
"The Warriors - Os Selvagens da Noite", estreado em 1979 apenas veio confirmar essa mesma tendência.
     
Cyrus, o líder dos “Riffs”, o gang mais poderoso de Nova York convoca uma reunião com todos os gangs da cidade, convidando a que todos se unam sobre a sua liderança e formar um exército para fazer frente à polícia e a quem quer que venha reclamar territórios. Durante o evento ele é assassinado a tiro e, no meio da confusão que se gera, alguém aponta os “Warriors” como potenciais culpados.  De repente o grupo vê-se perseguido por todos os bandos da cidade enquanto tentam, a todo o custo, chegar a Coney Island, a sua zona de conforto, o que significa atravessar toda a cidade de Nova York transformada em território inimigo.

       Antes de ser transformado em filme, “The Warriors” é um livro escrito por Sol Yurick, em 1965. Foi o seu primeiro livro e também o mais famoso porque o escritor baseando-se na obra “Anabasis”, escrita por Xenofonte, por volta do ano 370 a.C., onde o antigo militar e historiador relata a chamada “Marcha dos 10.000” que trata da caminhada que o exército grego fez, no ano 401 a.C., desde a costa até ao interior do Império Persa, ganhou inspiração para escrever “The Warriors”, tornando-o num grande sucesso literário entre a juventude dos anos 60. Os direitos de adaptação para o cinema foram comprados em 1969 pela “American International Pictures”, mas, devido a diversos problemas, o filme nunca avançou. Já na década de 70, Lawrence Gordon, produtor, conseguiu adquirir os direitos de adaptação e encarregou o seu amigo, David Shaber, de escrever o argumento. Gordon, que tinha produzido os filmes “Hard Times – O Lutador da Rua“ (1975) e “The Driver – O Profissional” (1978) com o realizador Walter Hill, até então argumentista de alguns sucessos cinematográficos como “The Getaway – Tiro de Escape”, realizado por Sam Peckinpah em 1973, enviou ao realizador o argumento juntamente com uma cópia do livro de Yurick, que Hill adorou e quis adaptar para o grande écran.  
   
 Lawrence Gordon e Walter Hill, inicialmente, queriam fazer um western, mas quando o financiamento, por parte da “American International Pictures” falhou, o produtor, beneficiando da excelente relação que tinha com os executivos da “Paramount Pictures” (que estava interessada em produzir filmes sobre a juventude), conseguiu garantir o financiamento e o projecto teve luz verde para avançar. 
O argumento, tal como estava escrito por Shaber, era extremamente realista no que toca aos gangs e ás suas rivalidades, mas Hill era um grande fan de banda desenhada e queria que o filme fosse dividido em capítulos, os quais eram apresentados em banda desenhada (uma espécie de “Storyboards”, mas mais realistas) e depois ganhavam vida e entrava-se num novo capítulo, mas, devido ao baixo orçamento com que se estava a trabalhar, tal ideia nunca foi usada nas versões de cinema e também porque a produção estava numa luta contra o tempo para fazer com que o filme estreasse antes de “The Wanderers – Os Vagabundos de Nova York”(Philip Kaufman, 1979),  outro filme de gangs produzido por outro estúdio.   
     
Realizado por Walter Hill, que viria mais tarde a assinar filmes como "48Hrs - 48 Horas" (1982), "Extreme Prejudice - Fronteira do Perigo"(1987), "The Long Riders - O Bando de Jesse James" (1980), “Streets of Fire – Estrada de Fogo” (1984) ou o excelente "Southern Comfort – Estado de Guerra” (1981), teve aqui o seu primeiro grande sucesso de bilheteira, devido não só ao elenco desconhecido que povoa o filme, como também graças ao brilhante trabalho técnico de fotografia nocturna (Nova York talvez nunca tenha sido tão assustadora de noite como neste filme), de montagem (rápida ) e de som (a voz da locutora de rádio, cujo rosto nunca vemos, que vai relatando a evolução da caça aos Warriors, chega ser tão ou mais sinistra que os próprios gangs); o próprio início do filme, o genérico, entrecortado com os”Warriors”  a se interrogarem sobre o propósito daquela reunião e imagens dos gangs a chegarem ao local do encontro, ganha alguma vitalidade visual e sonora com a música da autoria de Barry De Vorzon. Walter Hill é um artesão que, com os seus conhecimentos e perícias, consegue obter o efeito desejado, sabe aquilo que faz e em “The Warriors” prova-o e bem: O filme passa-se todo numa noite e parte da manhã, e além disso existe muita vitalidade e energia (nomeadamente na coreografia das cenas de acção e na coordenação dos duplos que nelas trabalham), mas também nos encontros com a polícia. Espaços e sequências que o realizador gere muito bem.
 Ao contrário do que se poderia esperar, o filme nunca perde ritmo nem interesse e consegue mesmo captar o espírito de uma certa cultura pop que ainda hoje se mantém intacta, levando também o espectador a torcer pelo destino dos Warriors. 
   
Quando estreou, o filme, apesar do sucesso que obteve, foi algo envolto em polémica por mostrar demasiada violência, tendo, inclusive, sofrido alguns cortes antes da sua estreia nacional. 
Na realidade foram cerca de cinco minutos de cenas diversas, incluindo uma parte da luta na casa de banho da estação de metro entre os “Warriors” e um grupo de “punks” em patins; e da remontagem da cena final, quando os “Riffs” cercam e matam os “Rogues”, os verdadeiros culpados da morte de Cyrus.
   Em 2001 quando o filme foi editado para o circuito DVD os cinco minutos que tinham sido retirados do filme já vinham incluídos restabelecendo a metragem total do filme para os 92 minutos, em vez dos 86 minutos com que o filme chegou aos cinemas.

Mesmo após vários visionamentos e do tempo que já tem, "The Warriors - Os Selvagens da Noite", continua a ter a mesma frescura, a mesma vitalidade e a mesma actualidade que tinha quando estreou em 1979.
Na altura, o filme foi motivo de notícias sobre actos de vandalismo e alguma violência verbal e física, que causaram três mortos (dois no sul da Califórnia e um em Boston) que envolveram espectadores que vinham de assistir ao filme  obrigando a “Paramount Pictures” a adiar a sua estreia e/ou a suspender a sua exibição nas salas de diversas cidades americanas que, por motivos de segurança, contrataram seguranças profissionais para evitar eventuais confrontos. Sómente quando a distribuidora ameaçou proibir a sua distribuição nacional e internacional, é que a situação acalmou.
     Apesar de algum negativismo inicial por parte da crítica, num ou noutro momento, face a algum realismo inerente pouco comum na altura, tem mudado a sua opinião para algo mais positivo e o filme só tem ganho com isso pois tem vindo a ganhar algum estatuto de “filme-culto”.


Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet





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