domingo, 19 de abril de 2020

                                 TWIN PEAKS III – O MISTÉRIO CONTINUA

         Em 1991, a ABC Television Studios decidiu suspender a série “Twin Peaks” que ia a meio da sua segunda temporada, alegadamente por quebra de audiências. A primeira temporada desta série tinha sido um sucesso quase sem precedentes, alcançara níveis de audiência nunca antes vistos e, mais importante que tudo, mudara a forma de fazer televisão para sempre. Os seis episódios que constituíam essa temporada giravam em volta de uma única pergunta que a todos intrigava: “Quem matou Laura Palmer?”

       A resposta à pergunta surgiu e foi revelada, mas com ela vieram também outras perguntas e outros mistérios que, dado o enorme sucesso obtido, seriam respondidas numa segunda temporada que entretanto já fora encomendada e já se encontrava em plena produção. 29 novos episódios que se propunham a aprofundar e revelar quais os acontecimentos que decorriam no quotidiano de Twin Peaks e que haviam levado a que  Laura Palmer, a rainha da beleza da cidade fosse assassinada.

      Há medida que íamos sendo enredados nos mistérios de Twin Peaks, o público ia perdendo o interesse porque achava que os rumos que a nova temporada tomara, com a adição de novas personagens  e a saída de cena de outras, estavam longe das orientações iniciais da série e levaram ao cancelamento da sua exibição logo após o último episódio desta temporada. No entanto ficou no ar o mistério sobre o que é que era afinal o “Black Lodge” e porque é que a personagem (ou espírito) de Laura Palmer no final do episódio, dentro do “Black Lodge”,diz ao agente do FBI, Dale Cooper, que se voltarão a encontrar dali a 25 anos? A resposta, talvez tenha (ou não) sido encontrada a partir de 2016 (imagine-se 25 anos depois do ultimo episódio da segunda temporada!!) na nova temporada de Twin Peaks! Pelo meio, em 1992, Lynch ainda voltou ao universo da pequena cidade americana com “Twin peaks – Os Últimos sete dias de Laura Palmer”, uma espécie de prequela da série que terminava com a morte da rainha da beleza daquela cidade, mas problemas na produção, nomeadamente as restrições impostas pelo produtor quanto á duração do filme, mais a má recepção geral quando o filme estreou, ditaram o final prematuro daquele universo fantástico e prometedor...até 2016!
            
Os rumores de um eventual regresso da série começaram em 2013, quando Lynch filmou um vídeo promocional para ser incluído nos extras da edição em Blu- Ray de “Twin Peaks: The Complete Mystery”. Quando questionado sobre um eventual regresso da série, respondeu que era uma possibilidade, mas que teria de se esperar. Em outubro de 2014, a “Showtime” anunciou que iria exibir uma mini-série em nove episódios, escrita por David Lynch e Mark Frost e os episódios realizados por Lynch e que não se tratava de nenhum “remake” ou “reboot”, mas sim uma continuação da série. Entre avanços e recuos, o elenco possível das temporadas anteriores foi sendo reunido (practicamente todos voltaram para vestir a pele das suas personagens), o argumento ia sendo desenvolvido e, em breve, de nove episódios, a série chegou aos dezoito episódios, com Lynch a realizá-los todos (apesar de, a principio, ele só querer realizar nove). Com o argumento todo escrito, a rodagem, que decorreu entre setembro de 2015 e abril de 2016, pode começar como um todo que depois seria editado para caber nos 18 episódios planeados.
            Passaram-se 25 anos desde que Laura Palmer, estudante de 17 anos e rainha da beleza da cidade de Twin Peaks, mas também com uma vida dupla, foi assassinada. A sua morte despoletou diversos acontecimentos que tiveram consequências, quer a nível social, quer a nível pessoal nos habitantes da pequena cidade do estado de Washington. Mas, se por um lado, o crime aparentemente terá sido resolvido pelo Agente Especial do FBI, Dale Cooper enviado para o efeito, outros mistérios e acontecimentos ficaram por esclarecer.
            Para se entender o universo de Twin Peaks, a típica cidade americana pacata, mas cheia de mistérios, é preciso recuar até ao 3º episódio da primeira temporada, a uma cena em que no “Double R Diner”, o restaurante central da cidade, Harry S.Truman (Michael Ontkean), Xerife de Twin Peaks, acompanhado do seu adjunto, Hawk (Michael Horse) e de Ed Hurley (Everett McGill), dono de um posto de abastecimento da cidade, revelam ao Agente  Especial do FBI, Dale Cooper (Kyle McLachlan), encarregado de descobrir quem matou Laura Palmer, que Twin Peaks não é como as outras cidades americanas, existem, nos seus bosques, coisas más, presenças que, desde tempos imemoriais, os homens têm tentado combater, mas que se recusam a ir embora. Cooper, que gosta das coisas do oculto, mostra-se interessado em estudar este mistério, sem, no entanto, se desviar do assassinato de Laura Palmer. É aqui que nasce, no meu entender, todo o interesse pela série que mudou a televisão. É um mistério muito mais profundo do que aquilo que se passava na altura em que estreou a série e que, depois da terceira temporada, ainda mais profundo ficou.
       
David Lynch, um dos criadores de Twin Peaks
A dualidade sempre fez parte do universo de Twin Peaks e parece ter um importante papel a desempenhar em toda a trama: se existe o “Black Lodge” também existe o “White Lodge”; Sheryll Lee, a actriz que faz de Laura Palmer, regressa a meio da primeira temporada no papel de Madeleine Ferguson, prima de Laura  e parecidíssima com ela; ou até o próprio título da série, revela alguma dualidade quanto ao seu verdadeiro significado, mas em “Twin Peaks – The Return”, essa mesma dualidade é fonte de tragédia e agitação e isso torna-se mais que evidente há medida que a série se encaminha para o seu final, já que, percebe-se, que a David Lynch apenas lhe interessa retratar os traumas da maldade humana em vez do aparente e profundo poder do amor. Temos pois, um realizador que se dedica a explorar os mundos internos do trauma humano  tão bem  retratado no final do último episódio (o grito furioso, algo descontrolado e aterrorizante de Laura Palmer/Carrie Page, ao perceber a personalidade multidimensional do seu próprio ser e a passagem brusca para o escuro do écran), é profundamente triste. É Lynch no seu melhor!
            
Há 25 anos atrás, O Agente especial Dale Cooper do FBI, “viajou” para o “Black Lodge” onde “há sempre música no ar” (talvez por por isso, os episódios de “Twin Peaks – The Return”, terminem sempre com um número musical no “Roadhouse”), para resolver o mistério da morte de Laura Palmer e para acabar de vez com os poderes demoníacos de Bob que ele impusera em Twin Peaks. Lá, encontra o espírito de Laura num estado de angústia total impossibilitado de descansar para toda a eternidade. Cooper, vê-se obrigado a “viajar” novamente, mas desta vez com consequências para si, porque o seu espírito divide-se em duas partes, formando dois duplos de si mesmo: um é o calmo e tranquilo “Dougie Jones”, homem de negócios, casado e pai de filhos; o outro é “Mr.C”, assassino bruto e violento que tem de encontrar o seu caminho desde o Dakota do Sul até á cidade de Twin Peaks não olhando a meios para o fazer. No seu encalço estão, além de assassinos contratados (que chegam a confundi-lo com “Dougie”), Gordon Cole, chefe do FBI (uma interpretação carismática de David Lynch) e Diane Evans, secretária de Cooper (a misteriosa Diane para quem o agente do FBI ditava indicações no pequeno gravador que trazia sempre consigo, interpretada por Laura Dern). Ambos os duplos têm que se reunir ao seu “eu” verdadeiro (o Cooper que ficou impossibilitado de sair da sala vermelha no “Black Lodge”). Quando isso acontece, Dale Cooper, finalmente liberto da sua prisão, tem de “viajar” novamente e desta vez intacto, para outra dimensão e assim completar a sua missão (dar paz ao espírito de Laura). A sua regressão temporal acontece no momento interdimensional de tormento quando Laura se aventura nos bosques de Twin Peaks para conhecer a sua morte. Cooper oferece-se para a ajudar a evitar ser morta impedindo assim todos os acontecimentos na cidade de acontecerem. Mas os espíritos do “Black Lodge”, não podem permitir que ambos os duplos caminhem em simultâneo sobre a terra. O espírito de Laura desaparece e no seu lugar aparece Diane que viaja com Cooper para o Texas onde nova revelação será mostrada ao agente do FBI. É-lhe apresentada uma empregada de mesa que se parece com Laura Palmer, mas que se chama Carrie Page. Cooper trá-la de volta para Twin Peaks e leva-a até á casa onde Laura vivera e também onde o espírito de Bob a violara pela primeira vez e onde finalmente tudo será resolvido...ou talvez não!. Esta última parte permite que Lynch exponha um dos seus maiores e mais significativos temas: a inevitabilidade da natureza.
            
Os duplos do Agente Especial do FBI, Dale Cooper
O que se assiste em “Twin Peaks – The Return” é, não só ao final de uma história começada há mais de 30 anos, com o trágico destino de Laura Palmer, brutalmente violada e assassinada, como também é uma reescrita completa (não um “reboot”!) de um longo filme de terror dividido em 18 partes, cada uma mais terrível e bizarra que a outra, mas, das quais, o espectador simplesmente não consegue ignorar e passar á frente, porque todas elas são verdadeiramente aterrorizantes. Também ao longo dos episódios, o realizador vai-nos dizendo que o mal existe no mundo, mas que, no seu entender, é criado pelo Homem e não nos vai deixar tão cedo. Esta ideia é perfeitamente ilustrada no episódio mais visto, mais estudado, de todos desta temporada: o 8º episódio, intitulado “Gotta Light?”. Totalmente filmado num magnífico preto-e-branco (nem poderia ser de outra maneira, senão não teria o impacto que teve nos espectadores!), começa com uma explosão atómica no Novo México em 1945, da qual, vemos, ao longo de todo o episódio, o nascimento de uma cidade de lenhadores (que, percebemos mais tarde, dará origem ao “Black Lodge”). Este episódio metamorfoseia a tese de que as pessoas boas podem ser corrompidas através das más intenções com aquela outra que diz que todo o mal é culpa do Homem e só do Homem. Aqui percebemos também que Bob, o demónio que violava Laura Palmer desde criança e que possuiu o seu pai, Leland, era na realidade um ser de outro mundo e no qual se tropeçou por acaso e que despertou do seu longo sono, mas este episódio diz-nos ainda mais, que o desejo de fazermos mal uns aos outros, foi o que despertou Bob e o seu mundo, O “Black Lodge” e também que a bomba atómica no início do episódio foi meticulosamente planeada e fabricada por uma espécie que queria destruir o seu próximo.
            
A Misteriosa Diane 
Confusos?! Não fiquem, porque, afinal de contas, estamos a lidar com um realizador habituado a mexer com todos os nossos sentimentos graças á sua enorme criatividade, associada a alguma genialidade incompreendida. Foi essa mesma genialidade criativa que criou, há mais de 30 anos, este universo bizarro, esta cidade intrigante, mágica, misteriosa, mas sempre fascinante, aos quais gostamos de voltar para nos deixarmos encantar uma e outra vez.


Nota: as imagens e video que ilustram o texto foram retiradas da Internet.








sábado, 28 de março de 2020

                             MANON DAS NASCENTES – UM DRAMA RURAL II

            Em anos recentes, o cinema tem vindo a assistir a histórias que, de um momento para outro, se transformam em dezenas de pequenas coisas com muita acção, carros que são arremessados pelo ar, personagens são esburacados por tiros, heróis que num momento de perigo conseguir esboçar piadas ou frases feitas, tudo isto sem qualquer relação com o fulcro da história que se tenta contar, etc. e tudo em nome de quê? De dinheiro. Hoje em dia, infelizmente, substitui-se a qualidade duma construção narrativa pelo “box-office” que esse filme possa fazer, é um sinal dos tempos.
        Com “Manon das Nascentes”, que é a conclusão da história iniciada em “Jean de Florette”, Claude Berri, o seu realizador dá-nos precisamente o oposto daquilo que escrevi acima. Avança com ritmo certo ao longo dos acontecimentos de quatro gerações, demonstrando com grande qualidade o impacto que os pecados dos pais podem vir a ter nos filhos. Apesar deste poder ser visto sem se ver o filme anterior, impacto só é compreendido na sua grandeza depois de se ver toda a história desde o princípio; só então é que o final do filme pode ser entendido na sua totalidade.
         
Passaram-se dez anos desde os acontecimentos de “Jean de Florette”. Ugolin Soubeyran (“Galinette”, é como lhe chama o seu tio, César), é um próspero homem de negócios graças á plantação de cravos que faz em “Les Romarins”, propriedade que pertencera a Jean Cadoret, antigo cobrador de impostos que herdara o terreno e que nunca o conseguiu cultivar por falta de água, graças a um esquema montado por César e Ugolin que taparam a nascente. Jean acabou por morrer, e César e o seu inútil sobrinho compraram a propriedade a Aimée, viúva de “Jean” que queria regressar a Paris, por um preço barato e destaparam a nascente. Entretanto, “Manon”, filha de “Jean”, foi viver para as montanhas com um casal idoso de poceiros e tornou-se numa linda pastora. Um dia Ugolin vê-a a tomar banho e apaixona-se obsessivamente por ela, mas “Manon” não quer nada com ele porque nunca esqueceu aquilo que testemunhou ainda criança e anseia por vingança contra quem lhe destruiu a família.

Emmanuelle Béart é o nome que se junta ao elenco que transitou do filme anterior, Yves Montand e Daniel Auteuil. A actriz, que já havia actuado em outras produções francesas, consegue aqui o papel que lhe deu fama tanto na frança como fora dela. A sua interpretação de “Manon” é magnética, consegue cativar a atenção do espectador através da sua beleza estonteante e interpretação poderosa, principalmente baseada nos seus olhos expressivos, daí que talvez as suas falas sejam espaçadas.
            
Apesar de rodados ao mesmo tempo, consegue perceber-se a diferença de tom e ritmo narrativo entre ambos. ”Jean de Florette”é leve, talvez devido ao optimismo ilimitado que preenche Jean na sua constante procura por água para as suas culturas e existem momentos em que parece que ele vai ter sucesso, apesar dos obstáculos postos no seu caminho por “César” e “Ugolin”. 
Em “Manon das Nascentes” o tom é cruel e sinistro. O feitiço volta-se contra o feiticeiro sem piedade, neste caso contra tio e sobrinho quando “Manon” começa a sua cruzada para vingar a morte do seu pai. Ironicamente não é a sua decisão que irá causar a destruição dos seus inimigos, mas sim outros acontecimentos que entretanto surgem e revelações que ninguém estava á espera.
            “Jean de Florette e “Manon das Nascentes”, ao longo das suas quase quatro horas de duração, avançam implacavelmente como se duma tragédia grega se tratasse. Vistos como um filme só, é um verdadeiro tratado sobre a natureza humana e o retrato que mostra é muito pouco lisonjeiro. Jean, cujas características que o definem são a sua inocência e, como já referi, o seu optimismo ilimitado, é destruído por aqueles que o rodeiam motivados pelo engano e pela ganância e interesse próprio. Existem momentos em que Jean parece ser indomável na sua vontade, mas, no fim, nem ele próprio consegue vencer a natureza e a crueldade dos seus pares. Ugolin e César, donos do poder na vila, se bem que são os principais culpados, não são os únicos; os habitantes da vila, ao encobrirem aquilo que sabem com o seu silêncio, também são culpados. No segundo filme, o poder muda de César e Ugolin para Manon e ela vinga-se sem dó nem piedade ou compaixão sobre tudo e todos. No final, Manon é a única a ter um final feliz.
       
     
Poderia dar-se o caso de um filme (ou melhor, dois) cujo enredo pormenoriza os problemas e tribulações em torno do abastecimento de água a uma comunidade agrícola rural, não ser interessante, mas não é o caso de “Jean de Florette” e “Manon das Nascentes”. Aquelas são só as situações que vão tecer a história, mas o cerne da questão é mesmo a complexidade das acções humanas e suas interações. As personagens ganham vida e parecem sair do écran. Claude Berri, responsável pelo argumento juntamente com Gerárd Brach, ao adaptarem a novela de Marcel Pagnol, tinham em vista um alcance maior. “Jean de Florette e “Manon das Nascentes” foram as suas primeiras produções a serem exportadas para o outro lado do atlântico e, com o sucesso que ambos os filmes obtiveram, as suas produções continuaram a receber alguma distribuição americana.
     
Nestes dois filmes, apesar da sensação de justiça poética que Berri pretende imprimir numa escala que apanhe gerações, ele é solidário com todas as personagens, até mesmo com aqueles cujos motivos são, acima de tudo, obscuros. Ele não os demoniza nem os trata como vedetas. Ele desafia-nos a aceitá-los tal como são, nos seus comportamentos e promessas e a passarmos algum tempo na sua companhia. As voltas e reviravoltas da narrativa, a qualidade das interpretações, a fotografia soberba novamente por Bruce Nuytten e a mestria da realização de Berri, tornam estes dois filmes parte da grande produção europeia e obras-primas da cinematografia francesa da segunda metade do século XX.
            Tal como “Jean de Florette”, “Manon das Nascentes”, quando estreou, alguns meses depois do seu antecessor, foi um grande sucesso e abriram-se-lhe as portas da época da premiação. Mas ao contrário do que acontecera com o primeiro filme, “Manon das Nascentes” ganhou apenas um “César” de melhor Actriz Secundária” para Emmanuelle Béart em dois possíveis e uma nomeação para os BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro.  
Os dois filmes formam uma só narrativa complexa e indissociável (apesar de no final de “Jean de Florette” aparecer a palavra “intermission”), e não faz qualquer sentido ver um sem ver o outro. 
Este é uma das mais poderosas e emocionalmente complexas histórias alguma vez transpostas para o cinema. É uma tragédia de proporções épicas, mas numa escala pessoal e que nas mãos de outro realizador menos eficaz, provavelmente resultaria num filme lamechas e muito dado á lágrima. 







Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet


sábado, 21 de março de 2020

                                  JEAN DE FLORETTE – UM DRAMA RURAL

            Escrever sobre cinema francês é quase como ir aos primórdios do cinema e contar toda a sua história sem nos esquecermos de que muito do que se faz por esse mundo fora tem inspiração directa no velho continente. A “Nouvelle Vague” francesa que se fez sentir no início dos anos 60, liderada por nomes como Jean-Luc Godard e François Truffaut, foi o início duma revolução que iria marcar não só o cinema francês como toda a cinematografia europeia.
           
A “Nouvelle Vague” francesa deu origem a um novo tipo de cinema que rapidamente iria influenciar todo o conjunto europeu e abriu a porta a muitos novos talentos quer na interpretação, quer na realização, casos houve em que os primeiros acabariam por transitar e firmar o seu talento em muitos casos, atrás das câmeras. Um desses casos foi Claude Berri que de actor relativamente desconhecido e secundário passou a realizador de renome graças a alguns sucessos que obteve. “Jean De Florette” foi, talvez o seu maior sucesso e abriu-lhe as portas do Panteão do cinema francês. 
         Ugolin Soubeyran, recentemente desmobilizado do serviço militar, regressa á sua aldeia, na Provença, em França, onde é recebido pelo seu tio, César “Le Papet”( que, no dialecto local se traduz por avô). Ugolin quer dedicar-se á plantação de cravos na sua propriedade nas montanhas. Céptico, a principio acerca desta ideia, César acaba por entender que o negócio até pode ser rentável desde que haja boa terra e àgua para a plantação. Ambos vão então ter com o vizinho de César, Pique Bouffigue para tentar comprar a sua terra que, apesar de aparentar ser muito seca, César sabe de uma nascente escondida que pode resolver o problema. O negócio corre mal e Pique Bouffigue acaba por ser morto. Ugolin e César, tapam a nascente e preparam-se para adquirir os terrenos pois não é conhecido nenhum familiar de Bouffique. Mas a surpresa é enorme quando se sabe que os terrenos são afinal pertença de um sobrinho de Bouffique (filho de sua irmã, Florette, entretanto falecida), chamado Jean Cadoret que, de acordo com o costume local, será conhecido como “Jean de Florette”, que é colector de impostos e corcunda, que chega passados alguns dias na companhia da esposa, Aimée e da filha, Manon, para tomar conta dos terrenos, criar coelhos e cultivar produtos para se alimentar a si e á sua família, sem saber, no entanto, os problemas que o esperam.
Imagem do filme de Marcel Pagnol (1952)
           Em 1952, Marcel Pagnol, escritor francês de contos, novelas, romances e peças de teatro, também realizador de cinema, adaptou o seu conto “Manon des Sources” para cinema e transformou-o num filme de quatro horas de duração. Demasiado longo para o conto em si, foi subsequentemente cortado pelo seu distribuidor para uma versão mais aceitável . Insatisfeito com o resultado final, mas sem nada poder fazer, Pagnol decidiu reescrever o conto e transformá-lo numa novela, dividida  em duas partes: na primeira parte, intitulada “Jean de Florette”, explorava os ambientes retratados no filme, uma espécie de “prequela” (ainda não se usava a expressão) de género; a segunda, mantinha o título do conto “Manon des Sources” e narrava a história contada no filme. Os dois volumes formam a série que Marcel Pagnol chamou “L’Eau des Collines”. 
Claude Berri, quando leu os romances, sentiu-se logo cativado pela história e quis adaptá-los para o cinema, mas, de modo a fazer-lhes justiça, o filme teria que ter duas partes, ou seja dois filmes. Da mesma maneira que o épico de quase cinco horas, “Novecento – 1900” (Bernardo Bertolucci, 1976) foi rodado todo de uma só vez, mas teve estreias diferentes (1900 – 1ªParte e 1900- 2ªParte), também “Jean de Florette” e “Manon des Sources” seriam rodados ao mesmo tempo, mas teriam estreias espaçadas ( três meses em frança e quatro meses nos estados Unidos) entre si.

Com Luz verde por parte dos produtores e a distribuidora e,  Claude Berri, que de actor secundário no cinema francês, passou a produtor de renome internacional em filmes como “Tess - Tess” (Roman Polanski, 1979), ou “The Bear – O Urso” (Jean-Jacques Annaud, 1988) antes de se tornar um realizador em filmes como “le Maítre d’École – O Mestre da Escola (1981); “Tchau Pantin” (1983) ou “Germinal – Germinal”(1993), pôde durante sete meses (entre maio e dezembro de 1985) rodar aquele que foi, até á altura, o filme mais caro de sempre, que viria a ser um grande sucesso nacional e internacional.
            
A actuação do elenco é sem mácula. Yves Montand, vedeta internacional e um dos melhores actores da sua geração (anos 50, 60 e 70), aqui num dos seus últimos grandes papéis, é César, um índividuo fanancioso, astucioso e amoral, tão obcecado com os seus objectivos que só se apercebe das consequências dos seus actos quando é tarde demais; Daniel Auteuil, outra das grandes promessas do cinema francês dos anos 80 e 90, é Ugolin, sobrinho de César, igualmente ganancioso, porém patético e fraco ( a sua paixão por Manon será a sua perdição); finalmente, Gerard Depardieu, um dos nomes incontornáveis do cinema francês das últimas décadas do século XX, é Jean, inocente e dono de um optimismo ilimitado, apesar da sua mal-formação, é ingénuo o suficiente para não ver a inveja e ganãncia que o rodeiam (o facto de Ugolin se fazer passar por seu amigo tolda-lhe o senso) o que o leva á sua perdição.
          
O realizador, Claude Berri
O realizador Claude Berri não trata a história como um melodrama, os motivos dela são apresentados bem cedo,  logo no início percebe-se rapidamente o que vai acontecer. A ideia do filme não é criar “suspense”, mas sim capturar a impiedosa ganância humana (Ugolin torna-se amigo de Jean, ajuda-o a vender os seus produtos na aldeia mas nada lhe diz acerca da nascente que ele e o seu tio taparam), o sentimento de que a terra é tão importante que o espírito humano pode ser sacrificado em prol dela. Para captar este sentimento, o realizador trabalha-o muitíssimo bem com a câmera, ao evitar grandes planos que tornariam a história numa série de grandes momentos que não existem, seria uma espécie de “dejá-vú” em tantas outras produções. Em vez disso, envolve as cenas mais tensas na paisagem e no céu. O melhor exemplo disto é. A cena em que o céu se enche de nuvens  e ouve-se ao longe o ruído da trovoada que se aproxima, parece que vai chover e então Jean e a sua família saem de casa para a sentir cair, mas acaba por chover noutro local. Jean, enraivecido, aponta o seu punho para o céu e pergunta a Deus porque é que foi esquecido. Mas Deus não o esqueceu nem o traiu, foram os seus vizinhos que o fizeram e a enormidade do seu crime é o mote principal deste filme  e esta é a grande cena de todo o filme.

Tanto em frança como intrnionalmente, “Jean de Florette” foi um enorme sucesso de bilheteira e abriu caminho para a época dos prémios, apesar desta em frança ter gerado grande expectativa com a nomeação do filme para oito “Césares” (Oscares franceses), incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, acabou por ser recompensado com apenas um, o de Melhor Actor para Daniel Auteuil. Já nos prémios da Academia Britânica, os BAFTA (“British Academy of Film and Television Arts”), o filme portou-se melhor: recebeu dez nomeações, incluindo, claro, Melhor Filme e Melhor Realização e ganhou quatro, incluindo O Melhor Filme, além de outros prémios e menções honrosas em outros festivais..
        Tecnicamente, o filme não poderia ser melhor, do ponto de vista cénico, a fotografia de Bruno Nuytten (anos mais tarde, tornar-se-ia realizador) é quase perfeita na maneira como capta a beleza da paisagem da Provença e nas dificuldades diárias que a sua população enfrenta e também ficámos com a sensação de que, apesar da inveja e da ganância serem muito pacientes  e que podem levar anos até que se cumpram os objectivos, uma vingança, também pode levar anos a ser cumprida e é disso que se ocupa o segundo filme deste díptico, “Manon des Sources – Manon das Nascentes”.
                                                                                                                    (CONTINUA)



Nota do autor: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019


                             “THE WARRIORS” - OS SELVAGENS DA NOITE
                         
                        Um Filme de Acção Contemporânea

         Em 1961,“West Side Story – Amor sem Barreiras “ realizado por William Wyler e Jerome Robbins estreou nos cinemas. Tratava-se de um filme musical, adaptado duma peça de teatro da Broadway, por sal vez inspirada na famosa tragédia de William Shakespeare, “Romeu e Julieta”. No filme, dois gangs rivais, os “Jets” e os “Sharks”, disputam a posse dos territórios que se encontram entre as suas zonas na cidade de Nova York. Pelo meio, uma história de amor entre Tony, ex-líder dos “Jets” e Maria, irmã de Bernardo e chefe dos “Sharks” ameaça complicar a situação já por si muito delicada. O filme foi um enorme sucesso de bilheteira e venceu 10 Oscares da Academia, incluindo o de Melhor Filme do Ano. O filme reabilitou as lutas de gangs que tantas delícias fizeram nos westerns das décadas anteriores e deu-lhes um toque de modernidade que se mantém até aos dias de hoje fazendo com que os filmes sobre gangs rivais continuem a ter grande aceitação junto do público. 
"The Warriors - Os Selvagens da Noite", estreado em 1979 apenas veio confirmar essa mesma tendência.
     
Cyrus, o líder dos “Riffs”, o gang mais poderoso de Nova York convoca uma reunião com todos os gangs da cidade, convidando a que todos se unam sobre a sua liderança e formar um exército para fazer frente à polícia e a quem quer que venha reclamar territórios. Durante o evento ele é assassinado a tiro e, no meio da confusão que se gera, alguém aponta os “Warriors” como potenciais culpados.  De repente o grupo vê-se perseguido por todos os bandos da cidade enquanto tentam, a todo o custo, chegar a Coney Island, a sua zona de conforto, o que significa atravessar toda a cidade de Nova York transformada em território inimigo.

       Antes de ser transformado em filme, “The Warriors” é um livro escrito por Sol Yurick, em 1965. Foi o seu primeiro livro e também o mais famoso porque o escritor baseando-se na obra “Anabasis”, escrita por Xenofonte, por volta do ano 370 a.C., onde o antigo militar e historiador relata a chamada “Marcha dos 10.000” que trata da caminhada que o exército grego fez, no ano 401 a.C., desde a costa até ao interior do Império Persa, ganhou inspiração para escrever “The Warriors”, tornando-o num grande sucesso literário entre a juventude dos anos 60. Os direitos de adaptação para o cinema foram comprados em 1969 pela “American International Pictures”, mas, devido a diversos problemas, o filme nunca avançou. Já na década de 70, Lawrence Gordon, produtor, conseguiu adquirir os direitos de adaptação e encarregou o seu amigo, David Shaber, de escrever o argumento. Gordon, que tinha produzido os filmes “Hard Times – O Lutador da Rua“ (1975) e “The Driver – O Profissional” (1978) com o realizador Walter Hill, até então argumentista de alguns sucessos cinematográficos como “The Getaway – Tiro de Escape”, realizado por Sam Peckinpah em 1973, enviou ao realizador o argumento juntamente com uma cópia do livro de Yurick, que Hill adorou e quis adaptar para o grande écran.  
   
 Lawrence Gordon e Walter Hill, inicialmente, queriam fazer um western, mas quando o financiamento, por parte da “American International Pictures” falhou, o produtor, beneficiando da excelente relação que tinha com os executivos da “Paramount Pictures” (que estava interessada em produzir filmes sobre a juventude), conseguiu garantir o financiamento e o projecto teve luz verde para avançar. 
O argumento, tal como estava escrito por Shaber, era extremamente realista no que toca aos gangs e ás suas rivalidades, mas Hill era um grande fan de banda desenhada e queria que o filme fosse dividido em capítulos, os quais eram apresentados em banda desenhada (uma espécie de “Storyboards”, mas mais realistas) e depois ganhavam vida e entrava-se num novo capítulo, mas, devido ao baixo orçamento com que se estava a trabalhar, tal ideia nunca foi usada nas versões de cinema e também porque a produção estava numa luta contra o tempo para fazer com que o filme estreasse antes de “The Wanderers – Os Vagabundos de Nova York”(Philip Kaufman, 1979),  outro filme de gangs produzido por outro estúdio.   
     
Realizado por Walter Hill, que viria mais tarde a assinar filmes como "48Hrs - 48 Horas" (1982), "Extreme Prejudice - Fronteira do Perigo"(1987), "The Long Riders - O Bando de Jesse James" (1980), “Streets of Fire – Estrada de Fogo” (1984) ou o excelente "Southern Comfort – Estado de Guerra” (1981), teve aqui o seu primeiro grande sucesso de bilheteira, devido não só ao elenco desconhecido que povoa o filme, como também graças ao brilhante trabalho técnico de fotografia nocturna (Nova York talvez nunca tenha sido tão assustadora de noite como neste filme), de montagem (rápida ) e de som (a voz da locutora de rádio, cujo rosto nunca vemos, que vai relatando a evolução da caça aos Warriors, chega ser tão ou mais sinistra que os próprios gangs); o próprio início do filme, o genérico, entrecortado com os”Warriors”  a se interrogarem sobre o propósito daquela reunião e imagens dos gangs a chegarem ao local do encontro, ganha alguma vitalidade visual e sonora com a música da autoria de Barry De Vorzon. Walter Hill é um artesão que, com os seus conhecimentos e perícias, consegue obter o efeito desejado, sabe aquilo que faz e em “The Warriors” prova-o e bem: O filme passa-se todo numa noite e parte da manhã, e além disso existe muita vitalidade e energia (nomeadamente na coreografia das cenas de acção e na coordenação dos duplos que nelas trabalham), mas também nos encontros com a polícia. Espaços e sequências que o realizador gere muito bem.
 Ao contrário do que se poderia esperar, o filme nunca perde ritmo nem interesse e consegue mesmo captar o espírito de uma certa cultura pop que ainda hoje se mantém intacta, levando também o espectador a torcer pelo destino dos Warriors. 
   
Quando estreou, o filme, apesar do sucesso que obteve, foi algo envolto em polémica por mostrar demasiada violência, tendo, inclusive, sofrido alguns cortes antes da sua estreia nacional. 
Na realidade foram cerca de cinco minutos de cenas diversas, incluindo uma parte da luta na casa de banho da estação de metro entre os “Warriors” e um grupo de “punks” em patins; e da remontagem da cena final, quando os “Riffs” cercam e matam os “Rogues”, os verdadeiros culpados da morte de Cyrus.
   Em 2001 quando o filme foi editado para o circuito DVD os cinco minutos que tinham sido retirados do filme já vinham incluídos restabelecendo a metragem total do filme para os 92 minutos, em vez dos 86 minutos com que o filme chegou aos cinemas.

Mesmo após vários visionamentos e do tempo que já tem, "The Warriors - Os Selvagens da Noite", continua a ter a mesma frescura, a mesma vitalidade e a mesma actualidade que tinha quando estreou em 1979.
Na altura, o filme foi motivo de notícias sobre actos de vandalismo e alguma violência verbal e física, que causaram três mortos (dois no sul da Califórnia e um em Boston) que envolveram espectadores que vinham de assistir ao filme  obrigando a “Paramount Pictures” a adiar a sua estreia e/ou a suspender a sua exibição nas salas de diversas cidades americanas que, por motivos de segurança, contrataram seguranças profissionais para evitar eventuais confrontos. Sómente quando a distribuidora ameaçou proibir a sua distribuição nacional e internacional, é que a situação acalmou.
     Apesar de algum negativismo inicial por parte da crítica, num ou noutro momento, face a algum realismo inerente pouco comum na altura, tem mudado a sua opinião para algo mais positivo e o filme só tem ganho com isso pois tem vindo a ganhar algum estatuto de “filme-culto”.


Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet





quarta-feira, 21 de agosto de 2019

                                                               Grease - Um fenómeno musical fora de tempo! 


       Alguém disse, um dia, que a fórmula do musical era simples: rapaz e rapariga conhecem-se, cantam e dançam, apaixonam-se, zangam-se, cantam e dançam, fazem as pazes e vivem felizes para sempre. Tal simplicidade resultou durante as décadas de 40 e 50 no auge do musical. Mais recentemente em filmes como “Mamma Mia” (2008), “Chicago” (2002), “Os Miseráveis” (2013) ou em mais uma versão de “Assim Nasce Uma estrela” (2018), essa mesma fórmula foi reaplicada e resultou igualmente."Grease - Brilhantina" é um musical fora de tempo e um dos exemplos marcantes da reinvenção do género Musical.
        Originalmente, “Grease” é um musical de teatro criada em 1971 por Jim Jacobs e Warren Cassey sobre os gangs de jovens que existiam no nordeste e sudeste dos Estados Unidos, que se intitulavam “Greasers”, na maior parte eram filhos dos trabalhadores de classe média nos anos 50 e cujos modos e estilo de vida se tornaram muito populares entre a juventude da época. A acção da peça passa-se no ano de 1959, na (fictícia) Escola de Rydell High, é baseada nas experiências de Jacobs naquele tempo segue a vida de dez adolescentes (rapazes e raparigas), acompanhando-os na sua realidade escolar, namoros, amores, carros, “Drive-ins” sempre com música da época. 
Estreada em Chicago em 1971 e na Broadway em 1972, “Grease” bateu todos os recordes de permanência em exibição, em 1980 quando terminou o seu ciclo, tinham sido mais de 3.338 apresentações e foi a peça de maior longevidade na Broadway até ser ultrapassada por “A Chorus Line”, três anos depois. Tal como outras peças da Broadway, era apenas uma questão de tempo até chegar aos grandes écrans.
Califórnia, década de 50, Danny Zuko e Sandy  Olsson são dois jovens que se apaixonam durante o verão e vivem um intenso romance. Porém, as férias acabam e cada um tem que voltar para casa, ele para a sua terra e ela para a Austrália, não sabendo se alguma vez se voltarão a encontrar. Será o destino que se vai encarregar de lhes responder a essa questão.
John Travolta já tinha trabalhado anteriormente com Robert Stigwood, o produtor do filme, em “Saturday Night Fever – A Febre de Sábado á Noite” (John Badham, 1977) e até já tinha dado os primeiros passos na dança e no canto com o tema “Let Her In”, em 1976 além de já ter feito uma temporada de “Grease” onde interpretava “Doody” (um dos membros dos T-Birds). Depois de várias audições, o actor acabou por ser contratado pelo produtor. Seguro no papel da versão cinematográfica da peça teatral, John Travolta sugeriu a Stigwood o nome de Randal Kleiser, que o havia dirigido num telefilme de 1976, “The Boy in the Plastic Bubble” e avançou também o nome de Olivia Newton-John para o papel de Sandy que até então era apenas conhecida com cantora de música Country. O produtor aceitou as sugestões do actor e em bom tempo o fez. O filme não poderia ficar atrás da peça musical e, na esteira, da sua predecessora, foi um tremendo êxito de bilheteira.
   
Randal Kleiser fez aqui a sua estreia como realizador e faz um trabalho honesto, bonito, a camera acompanha bem as coreografias e as canções, mantendo ao longo de todo o filme uma "espécie" de relação amorosa com o par central ao filmá-los exaustivamente no seu dia-a-dia, cujo auge é atingido no baile de finalistas onde vêm ao de cima todos os conhecimentos e truques usados para filmar um bom número musical. Somos surpreendidos com algumas das melhores sequências do filme, nas quais não é alheio o trabalho de Patricia Birch,  coreógrafa de todos os números musicais do filme ( que anos mais tarde viria a dirigir o lamentável “Grease 2” com uma estreante chamada Michelle Pfeiffer). Foi o melhor trabalho e também o mais rentável da carreira do realizador. Nem mesmo "Lagoa Azul"(1980), seu filme seguinte, conseguiu ultrapassar a bilheteira de "Grease".
     
O par central é formado por John Travolta como Danny Zuko, líder dos T-Birds um grupo de greasers que faz as delícias das meninas da escola, especialmente as "Pink Ladies". O actor canta e dança bem, o que não é de estranhar pois o seu filme anterior tinha sido "A Febre de Sábado à Noite” onde também dançava. Aliás, alguns maneirismos da personagem de Danny foram copiados do Tony Manero de "A Febre de sábado à noite".
Olivia Newton-John é Sandy Olsson a menina ingénua que se apaixona por Danny, que vê o mundo cor-de-rosa como as suas companheiras de grupo, mas que cedo se apercebe que nem tudo é como ela pensa e que vai ter de lutar por um lugar no coração de Danny e para isso terá de dar uma volta na sua vida. A actriz, até então tinha apenas creditada uma pequena participação num filme de 1970, intitulado “Toomorrow”que nunca chegou a estrear,  mas que lhe serviu para lançar a sua carreira como cantora fora do âmbito da música Country, fez aqui a sua estreia no cinema nunca largando a sua carreira de cantora (que ganharia algum fulgor em 1981 com o tema “Physical” que foi número 1 em muitos países), dividindo o seu tempo com algumas aparições esporádicas em filmes ou séries de televisão.
Apesar do filme viver muito da actuação de John Travolta a dançar e a cantar, músicas encaixam-se na perfeição na dupla, como “Summer Nights” ou o grande hit da banda sonora que foi “You’re the One that I want” ou nos momentos a solo de cada um como “Greased Lightin’” (onde Travolta canta e dança na perfeição) ou “Hopelessly Devoted to You” onde Newton-John canta tão bem e com tal sentimento que o tema chega a criar um nó na garganta do espectador. Seria também este último tema que daria ao filme uma nomeação para o Oscar de Melhor Canção, mas que ficaria apenas por aí.

Quando estreou, em junho de 1978, “Grease” foi um sucesso imediato e no primeiro fim-de-semana foi número 2 na bilheteira (ficou atrás de “Jaws 2”), a nível doméstico rendeu cerca de 188.755.690dólares. A nível internacional, o filme rendeu cerca de 206.200.00 dólares, totalizando cerca de 394.955.690 dólares e bateu o então recorde de bilheteira que “The Sound of Music – A Música no Coração” mantinha desde 1965 como o filme Musical mais rentável de todos os tempos. Em anos recentes este recorde já foi batido por outros filmes musicais como “Mamma Mia” ou “Les Misérables – Os Miseráveis”, fazendo com que “Grease” seja actualmente o quarto filme Musical mais rentável de sempre.
    
Sendo um filme de estreias, não poderia ser melhor, mas ele é mais do que isso: "Grease", com as suas canções alegres que ficam no ouvido, ritmos que marcaram a década de 50 do século passado, coreografias inesquecíveis que gostamos de ver e rever novamente, é uma bonita, divertida e sincera homenagem a uma década considerada de ouro no género musical e também a uma era que começava nesta altura a dar os seus primeiros passos: a era do Rock 'N' Roll.
A não perder!


Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet










quarta-feira, 19 de junho de 2019


                                    Rei Artur - Uma abordagem diferente!, 



   Os romances históricos que preencheram o imaginário da nossa juventude, também tiveram e têm o seu lugar na sétima arte. Quer sejam os romances de autores como Walter Scott, Alexandre Dumas, Emilio Salgari, Julio Verne ou Thomas Mallory, a todos eles o cinema foi, num tempo ou noutro, buscar inspiração ou até mesmo adaptar para o grande écran. A lenda do Rei Artur é um desses romances.

     

Bretanha, ano 452 a.C., Artur e os seus cavaleiros Sármatas são lendas vivas no que resta do decadente Império Romano do Ocidente. Após 15 anos ao serviço do Império, estão para ser libertados do seu compromisso, mas antes ainda vão ter de cumprir uma última missão: numa altura em que os Saxões invadem a Bretanha, Artur e os seus cavaleiros tem de ir atrás das linhas inimigas buscar uma família Cristã cujo filho está destinado a ser o próximo Papa da Cristandade.

   "Rei Artur" não é mais um filme sobre o Rei Artur, sobre Excalibur, sobre Guinevere nem sobre os seus Cavaleiros da Távola Redonda como a que nos foi dada a ver em “Knights of the Round Table  - Os Cavaleiros da Távola Redonda” (Richard Thorpe, 1953)", ou o musical “Camelot - Camelot” (Joshua Logan, 1967) ou ainda a versão romanceada de “First Knight - O Primeiro Cavaleiro" (Jerry Zucker, 1991). É uma versão, no minímo, diferente daquelas que estamos acostumados a ver. Fortemente inspirada em "Excalibur" (John Boorman, 1981), este sim, baseado no grande romance de cavalaria "Le Morte d’Arthur - A Morte de Artur" escrito por Thomas Mallory no século XV do milénio passado, "Rei Artur" dá uma nova luz às personagens principais ( Artur e Guinevere) e estabelece uma possível origem da lenda, o que, só por si, torna o filme original, diferente. 

   
Para esse facto, contribui a realização de Antoine Fuqua, que já nos dera "Um Dia de Treino" (2001, Óscar para Denzel Washington), "Operação Especial"(2003) ou "Atirador" (2007). A sua realização é dinâmica, movimentada o que torna a sua aproximação ao argumento viva e, em algumas cenas, como a a primeira aparição dos cavaleiros Sármatas ou particularmente na batalha final em Baddon Hill com os Sármatas a parecerem verdadeiros fantasmas contra o exército Saxão, verdadeiramente sobrenaturais, para o que contribui também uma fotografia adequada ás cenas e uma montagem também ela muito rápida, particularmente na cena da batalha do gelo onde se homenageia "Alexander Nevski" (Sergei Eisenstein,1938) e a sua famosa e muito imitada batalha no gelo. É pouco antes de começar a batalha que surge o momento mais desconcertante de todo o filme: a fala de Lancelot para Guinevere, onde ele diz que nas centenas de homens que se posicionam para enfrentar os sete cavaleiros (mais uma guerreira), existem muitos homens sós (numa alusão a uma possível violação ou pior caso percam a batalha), ao que ela responde ”não te preocupes, eu não os deixo violar-te!”.
O momento mais bonito e poético do filme acontece na cena final quando se vêem três cavalos a galopar livremente nos montes enquanto se ouve a voz de Lancelot, como que a testemunhar aquilo que descreve como sendo uma realidade, a dizer que os cavaleiros tombados em batalhas continuam vivos nas lendas que passam de geração em geração.        
   
Como já disse “Rei Artur” é uma reinterpretação da lenda original, mas que não deixa de ser interessante na mesma: Artur não é um cavaleiro medieval, mas sim um oficial romano; Merlin, o mágico que na lenda original cria e protege Artur, aqui aparece como uma espécie de vilão que manda na Bretanha e observa o trabalho de Arur e dos seus cavaleiros; não existe o triângulo amoroso entre Artur, Guinevere e Lancelot. Artur e Guinevere envolvem-se romanticamente e apenas algumas (poucas) cenas mostram alguma tensãoe possível romance entre a guerreira celta (outra alteração á lenda original) e o cavaleiro Sármata; Tristão não tem direito á sua Isolda; Galahad, Gawain e Dragonet aparecem já como cavaleiros e companheiros de Artur e Bors é um cavaleiro barulhento, bravo e um extremoso pai de (nem ele sabe) inúmeros filhos, ao contrário do material da lenda, onde o seu estado celibatário, lhe permite testemunhar a importância do Cálice Sagrado; a própria Távola Redonda mal aparece no filme e existem muitas mais diferenças entre a lenda clássica e o que surge no filme.
   Além das personagens, a única ligação á lenda é a inclusão dos saxões como os adversários de Artur e a batalha de Badon Hill. Outra diferença, talvez a mais saliente de todas é que o pai de Artur, no filme é um general romano e a sua mãe é uma mulher celta. A lenda diz que o pai de Artur é Uther Pendragon, um dos primeiros reis da Bretanha e que a sua mãe é Igraine, uma mulher lindíssima que já fora casada com Gorlois, o duque da Cornualha e um dos súbditos mais leais de Uther. A ascendência de Artur é mostrada num “flashback” nocturno, onde também se vê como é que a espada chamada Excalibur (outro elemento pouco referido no filme) vai parar ás mãos de Artur.       
   
Apesar de alguma aproximação supostamente histórica, David Franzoni, que em 2000 escreveu o argumento de “Gladiador”, realizado por Ridley Scott, optou, em “Rei Artur” por alguma liberdade criativa em termos de pessoas, acontecimentos, religião, guarda-roupa e armamento. Assim posicionou a acção do filme, ao contrário de outras produções que a situam na Idade Média, a ter lugar no início dessa mesma Idade Média para dar alguma credibilidade a “Artorius Castus” (nome completo de Artur) e ás suas origens romano-celtas. Franzoni aprofundou ainda mais as diferenças entre a lenda e o seu argumento ao envolver Roma e o seu desejo de defender o seu território na Bretanha contra a invasão eminente dos Saxões, e a sua decisão de apoiar os “Woads”, liderados por Merlin, contra os bárbaros. Mas, percebe-se pelo comportamento de determinadas personagens, nomeadamente o Bispo Germanus, que Roma está em declínio e começa a falhar nos seus propósitos de manter os territórios nas partes mais longínquas do império. Isso deixa Artur sem sem grande apoio dos romanos e a ter que decidir se enfrenta os Saxões sózinho ou se conta com o apoio de Merlin e dos seus “Woads”
             
Com um  elenco onde pontuam os nomes de Clive Owen e Keira Knightley, ambos ainda no principio das suas carreiras, embora Owen, apesar da sua prestação ser dura e poderosa, pareça não estar á vontade no papel principal, Knightley, ao contrário, surge-nos com ar frágil quando entra em cena e depois torna-se simultaneamente sexy e uma mulher de acção que facilmente faz sombra a qualquer homem de acção. A dupla principal é bem secundada por Ioan Gruffud como Lancelot e melhor amigo de Artur, Ray Winstone que compõe um Bors cheio de basófia, mas um excelente guerreiro e seguidor fiel de Artur, Stephen Dillane é Merlin, o chefe dos Woads e ainda Stellan Skarsgard, como Cerdic, o chefe do exército Saxão cujo único fito é conquistar a Bretanha e derrotar Artur. O elenco inclui ainda os nomes de Mads Mikkelsen, Hugh Dancy e Til Schweiger.     
       Quando estreou, “Rei Artur” foi um inesperado sucesso, tanto da crítica como do público. 
   Inicialmente o filme era para estrear com uma classificação de “R”, que corresponde a um filme violento, mas depois de montado, o filme foi exibido para os executivos da Disney que exigiram que o filme fosse classificado como “PG-13, que corresponde a uma classificação para 13 anos (uma espécie de “não aconselhável a menores de 13 anos” ou “interdito a menores de 13 anos”, segundo a nossa antiga classificação dos filmes) e para obedecer a essa exigência, o filme teve de ser remontado. O sucesso, no entanto, encorajou Antoine Fuqua, a lançar, algum tempo depois da estreia, a “Director’s Cut”, passando a duração dos 126 minutos iniciais para os 142 minutos, com cenas adicionais das batalhas tornando-as mais sangrentas e com violência mais gráfica e mais cenas entre Lancelot e Guinevere aproximando o filme um pouco mais da lenda. Outras cenas incluem conversas entre os cavaleiros num acampamento á volta duma fogueira e uma remontagem da cena em que Artur e Guinevere fazem amor . Nenhuma destas inclusões altera a narrativa, apenas a completa, apesar de nada acrescentar ao que já lá estava.
   
“Rei Artur”, embora seja mais do mesmo, mais uma versão de uma lenda que já foi adaptada ao cinema vezes sem conta, tem a particularidade de, pelo menos, ser diferente na abordagem de tão famosa lenda o que o torna num bom entretenimento sem aspirar a ser algo mais do que isso.






Nota: as imagens e vídeo que ilustram este texto foram retirados da Internet





 





                                             

NORMAN JEWISON I – INÍCIO E SUCESSO

               O panorama do cinema Norte-Americano no início da década de 60: o cinema musical pouco ou nada produzia de relevante, o Weste...