sábado, 5 de março de 2022

O HOMEM TRANQUILO – FORD & WAYNE NO SEU MELHOR

                      

 

            É um dado adquirido que num filme quanto mais simples for a história, melhor ou pior esse filme pode ser. Mas quando um realizador de renome internacional e de créditos firmados na Sétima Arte se propõe fazer uma obra simplista em tom de comédia romântica, o caso muda de figura e pode até tornar-se num projecto arriscado. Foi o que em 1952 John Ford resolveu fazer quando realizou “The Quiet Man – O Homem Tranquilo”. 

            


A ideia para “O Homem Tranquilo” nasceu a partir dum conto escrito em 1936 por Maurice Walsh, intitulado “Green Rushes”, que por sua vez foi inspirado numa notícia que o autor leu numa revista em 1933, em que se contava a história de um pugilista irlandês que, ao regressar à sua terra, se viu envolvido numa contenda com o irmão mais velho da sua noiva por causa do dote dela. Walsh diria mais tarde que o seu conto, para além da notícia que lera, se inspirava também num mito Celta em que dois reis (deuses) combatiam anualmente pela atenção e afectos de uma rainha (deusa). Ford viu o potencial da história e, já a pensar numa adaptação, comprou-a e entregou a escrita do argumento a Frank S. Nugent. Mas a proliferação de projectos, levou-o a guardar aquela história por mais algum tempo até poder pô-la no écran…na realidade foram 15 anos!! - 15 anos em que a John Ford e a “Republic Pictures”, para a qual trabalhava desde a sua formação em meados da década de 40, chegaram a um acordo que satisfizesse ambas as partes. A Produtora só deu luz verde a esta produção (que sempre achou que era uma aventura arriscada) depois do realizador fazer mais um Western e impôr que John Wayne e Maureen O’Hara fizessem parte do elenco - Foi só após terminar a rodagem de “Rio Grande” (1950) que Ford e companhia viajaram para a Irlanda e concretizaram este sonho antigo do realizador. Ford queria dar um tom de autenticidade ao seu filme e isso só poderia ser conseguido se a rodagem fosse feita no país onde decorre a acção.

       

John Wayne é Sean Thornton

Sean Thornton é um antigo pugilista que viveu a vida toda na cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Quando pendura as luvas de combate, decide voltar para o seu país, a Irlanda e regressar à sua terra de origem, a pequena aldeia de Inisfree, para viver e comprar a velha quinta da família. Porém nem todo serão facilidades para Thornton, pelo meio, ele conhece Mary Kate Danaher, uma jovem camponesa, altiva e apaixona-se por ela, o problema é que ela é irmão de Will Danaher, cuja família sempre rivalizou com a de Thornton e que quer comprar as terras do primeiro que se encontram nas mãos de Sarah Tillane, uma viúva rica. 

        


O filme decorre na comunidade fictícia de Inisfree (que simbolicamente representa a liberdade e o regresso a um passado inocente) e serve para nos mostrar uma sociedade que Ford idealizou cujas únicas implicações sociais se baseiam nas diferenças entre as classes e afiliações políticas e religiosas e isso vê-se na relação que o Padre Lonergan, Católico e o Reverendo Playfair, Protestante, mantêm ao longo do filme, representa, de certa maneira, a norma sob a qual se regiam as tensões religiosas que ocorreram nos anos 30 na Irlanda do Norte (a acção do filme passa-se nos anos 20).

       


Desde que iniciou a rodagem do filme e até mesmo depois de ter deixado de realizar, John Ford sempre disse que “O Homem Tranquilo” era o seu filme mais pessoal e também um dos seus favoritos, já que, à semelhança do protagonista Sean Thornton, um irlandês-americano, também Ford era de descendência irlandesa e não é de espantar que o realizador se sinta projectado naquela figura bruta, porém um coração mole tal é a facilidade com que se apaixona pela altiva, bonita e doce Mary Kate. Ele gosta de afirmar que “O Homem Tranquilo” era a sua primeira história de amor, “uma história de amor para adultos”, o que não é inteiramente verdadeiro, já que todos os seus outros filmes (westerns e não só) continham, quase sempre, um enredo amoroso que, na maior parte da vezes, estava submergido na história e quase não se dava por ele. No entanto, neste filme particular, essa história é trazida habilidosamente para primeiro plano graças a um momento quase mítico: Thornton acabado de chegar, vem a pensar numa casa e numa terra e eis que dessa terra e nessa origem, surge no prado, vestida de blusa azul e saia vermelha, num fabuloso grande plano, Mary Kate para logo se sumir atrás das árvores num (igualmente) fabuloso plano geral…e este é só um primeiro momento, pode-se dizer, mágico, desta obra memorável cheia de grandes momentos, tão ao gosto de John Ford. 


Outro momento, que revela um Ford místico mas também algo erótico, mas igualmente grande, é a cena do beijo, na sequência que decorre no cemitério, quando começa a tempestade e a chuva vai colando a camisa ao corpo de Thornton revelando a sua carne (por alguma razão esta sequência acontece entre as lápides celtas). Claro que o grande momento do filme estava guardado para o final quando acontece a monumental cena de pancadaria entre os cunhados depois de Thornton ter ido buscar a sua mulher, que se preparava para o deixar, não porque deixara de o amar, mas por o considerar um cobarde, e a arrastar pelos cabelos pelo cais e a obrigar a caminhar a pé até à casa do cunhado para que este pague o dinheiro do dote. Will recusa e entre ambos começa uma cena de pancadaria, que decorre ao longo de algumas milhas e atrai cada vez mais habitantes da vila. É um final esperado, já que se percebe que devido ao comportamento e atitudes de cada um deles ao longo do filme, vamos sendo direccionados para uma das maiores cenas de pancadaria alguma vez vista no cinema. Ford poderia ter aproveitado para esta cena culminar num grande momento de acção, mas não! Ele opta (e se calhar aqui está outro dos grandes momentos que fizeram John Ford ser o realizador que foi e este ser o filme que é!) por manter o tom ligeiro e percebe-se que nunca existe a intenção fazer mal ao outro. A solução encontrada, no pub (e fora dele), que leva a paz em Innisfree e à harmonia na casa de Thornton, representa o final perfeito para o filme. Curiosamente, “O Homem Tranquilo” acaba por ser o primeiro filme de cinema, tanto quanto me consigo lembrar, a ter uma cena pós-créditos finais.

            

Maureen O'Hara é Mary Kate Danaher

Ter John Wayne como personagem principal deste drama em tom de comédia romântica (há falta de uma melhor definição), foi uma escolha acertada, já que a sua personagem, Sean Thornton é o tipo de pessoa que todos queremos ser e com quem as mulheres querem estar: ele é forte, silencioso (o “Tranquilo” a que se refere o título), paciente, amável e, acima de tudo, disposto a perdoar. Mas o sucesso do filme também deve ser repartido pelo restante elenco: desde logo Maureen O’Hara, irlandesa de nascimento, é Mary Kate Danaher, ruiva, impetuosa e de nariz empinado, revelou-se o par perfeito para o Sean Thornton de John Wayne. Ela quase nunca o deixa brilhar sem lhe fazer frente e, em algumas ocasiões, evidenciar-se por si mesma. Entre ambos os actores a química é mais que evidente, pode mesmo dizer-se que as suas personagens são daqueles casos em que os opostos atraem-se, mesmo quando Mary Kate se recusa a consumar o casamento enquanto não tiver o seu dote. Outro dos chamados “habitués” de Ford é Ward Bond, no papel de padre Peter Lonnergan (o narrador que nos conta a história em “flashback”), é uma daquelas personagens cuja aproximação calma e cuidada aos assuntos, tornam-na simpática e difícil de não se gostar; Barry Fitzgerald, é Michaeleen Flynn, o casamenteiro de serviço e responsável por alguns dos momentos cómicos do filme, principalmente quando está bêbado (é com ele que Thornton está quando vê Mary Kate pela primeira vez); Também Victor McLaglen, no papel de Will Danaher, o bruto e fanfarrão irmão de Mary Kate, que, apesar de se querer ver livre da irmã, não a vai deixar ir sem receber algo em troca  (o seu interesse amoroso é a viúva Tillane e as suas terras que incluem algumas pertencentes à família de Thornton).


           


 John Ford sempre soube tirar o melhor partido dos cenários em que decorrem as suas obras (dificilmente algum realizador conseguiria filmar “Monument Valley” da maneira que Ford o fez nos seus inúmeros westerns), em “O Homem Tranquilo”, tal também não é excepção. Graças à direcção de fotografia de Winton C. Hoch, colaborador do realizador desde o filme “She Wore a Yellow Ribbon – Os Dominadores” (1949), com o qual ganhou o seu primeiro Oscar, o filme ganha muito com o aproveitamento fotográfico que Hoch faz ao  tirar partido das cores dominantes na Irlanda de Ford: o quente verde e o ardente vermelho que predominam nesta obra-prima, com o público, daquela e de todas as gerações vindouras, a tirar o mesmo prazer que os actores e o realizador, em particular, a celebrar e, tal como a comunidade de Innisfree, o momento em que Sean Thornton, com quem já partilhavam alguns dos seus problemas, principalmente quando Mary Kate se recusa a ceder em relação à ordem dominante, ou ao seu marido, até ter aquilo que é seu por direito (neste caso o dote prometido pelo casamento), a alegria quando ele se reconcilia com a mulher. É neste confronto que o filme é inteligente e assume-se como uma espécie de conto de fadas em relação á mudança da natureza do poder numa relação sexual entre duas pessoas que não conseguem viver juntas até que cada uma delas aprenda a ser humilde e a submeter-se uma à outra.

            

O Realizador John Ford 

Ao contrário do que seria de esperar (e também para grande surpresa dos responsáveis da “Republic Pictures”), o filme acabou por ser um enorme sucesso, quer por parte do público, quer por parte da crítica. Recebeu sete nomeações para os Oscares, incluindo uma para Melhor Filme, para Melhor Realizador e para Melhor Actor Secundário (Victor McLaglen foi o único actor do filme a ser nomeado para os Oscares). Ganhou, infelizmente, apenas em duas categorias: a Melhor Fotografia e o Melhor Realizador (ao ganhar o seu quarto Oscar de realização, John Ford tornou-se o realizador mais vezes premiado pela Academia, recorde que ainda hoje se mantém). 

    



    

Goste-se, ou não, de “O Homem Tranquilo”, que se considere uma obra-prima como muitos o apelidaram, o que conta, na verdade, é que o filme foi uma viragem na carreira, não só de John Ford, que assim provou que conseguia fazer outro tipo de filmes que não fossem apenas westerns (embora filmes como “O Vale era Verde” ou  “As Vinhas da Ira”, provém isso mesmo), mas também na de John Wayne, que aqui mostra também ter algum talento para o drama (mesmo em tom de comédia romântica) e sensibilidade para outros papéis que não os de “cowboy” puro e duro! 

Em 2013, 60 anos depois da sua estreia, o filme foi selecionado para registo e preservação no Registo Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, por ser cultural, histórico e esteticamente significativo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

                         “Citizen Kane” – O Melhor Filme de Sempre? 
    

 Numa votação levada a cabo em dezembro de 2000, pela revista de cinema “Empire”, na qual se pedia que o publico escolhesse aquele que considerava o melhor filme do século XX, o filme escolhido foi “Citizen Kane – O Mundo a seus Pés” (1941). De resto, o filme consta em todas as listas de escolhas que se fizeram, década após década, desde que o filme estreou. Mas, afinal, o que é que fez este filme ganhar o estatuto e a importância que adquiriu e que, já em pleno século XXI, continua a ter? Tudo começou depois da polémica, e hoje famosa, adaptação radiofónica do livro “The War of the Worlds – A Guerra dos Mundos”, escrito por H.G.Wells em 1895, que Orson Welles fez a partir do “Mercury Theatre”, na Broadway no seu programa “Mercury Theatre on the Air”. A transmissão da adaptação foi tão realista que practicamente todos os americanos acreditaram que estava realmente a acontecer uma invasão alienígena do nosso planeta. 
    Nessa altura, enquanto Hollywood procurava talentos na Broadway, a “RKO Radio Pictures” viu em Welles um possível novo e grande talento e contratou-o como realizador para fazer dois filmes com completa liberdade de escolha de argumento, de elenco, técnicos e ainda com direito ao “Final Cut” dos filmes (algo que só se tornaria realidade muitas décadas depois). Depois de algumas tentativas falhadas de realização, juntou-se ao argumentista Herman J. Mankiewicz (irmão do realizador Joseph L. Mankiewicz), que era escritor de peças na rádio onde Orson Welles trabalhava e ambos escreveram o argumento do filme “Citizen Kane” e mal sabiam que estavam a escrever uma nova página na história da Sétima Arte. 
     

Na sua mansão principesca de Xanadu, o magnata do jornalismo Charles Foster Kane, ás portas da morte, ao mesmo tempo que segura um globo de neve, pronuncia a palavra, “Rosebud” e morre. O sensacionalismo que a sua morte causa repercute-se pelo mundo inteiro e Jerry Thompson, um jornalista, é encarregado de investigar a vida e também a morte de Kane e tentar descobrir qual o significado da sua última palavra. 
O argumento do filme é inspirado na vida de William Randolph Hearst, um verdadeiro magnata da imprensa escrita americana com estreitas ligações ao poder político e de quem Mankiewicz era amigo até ser expulso pelo próprio do seu círculo de amigos. As semelhanças entre Hearst e Kane eram tantas (graças ao ódio de estimação que Mankiewicz passou a ter com o magnata) que o filme foi proibido de ser sequer mencionado nos jornais de Hearst. 
    


     

“Citizen Kane”é um dos (primeiros) raros filmes em que o elenco é quase todo composto por actores e actrizs desconhecidos no mundo do cinema, alguns deles vieram da companhia de teatro a que Welles pertencia e, além dele gostar de os usar neste filme e em outras obras futuras, muitos tiveram nesta obra a sua rampa de lançamento para carreiras cinematográficas. Para Orson Welles, William Alland, Ray Collins, Joseph Cotten, Agnes Moorhead e muitos outros, este filme representou o primeiro contacto com Hollywood e o seu mundo, ou, por outras palavras, foi a sua estreia na meca do cinema. No início da rodagem, Miriam Geiger, consultora na produção, preparou uma compilação manual de técnicas de filmagem que deu a Welles que a estudou cuidadosamente juntamente com visionamentos de alguns filmes clássicos europeus de Fritz Lang, René Clair ou Jean Renoir, mas também de filmes americanos de Frank Capra, King Vidor ou John Ford, que, revelou o actor- realizador mais tarde, foi a sua maior influência  
     

Com grande vontade de inovar e não desapontar, Welles rodeou-se de alguns nomes grandes do cinema em termos de técnica, como foi o caso de Gregg Tolland, director de fotografia de algumas grandes produções antes e depois de “Citizen Kane”. Gregg Tolland era um experimentalista, já com créditos firmados no cinema e na sua constante procura de inovação assistiu a diversas produções da “Mercury Stage Production” e percebeu que Welles era a sua melhor opção para mostrar técnicas de câmera que outras produções de Hollywood não lhe permitiam fazer. Tolland queria trabalhar com alguém que nunca tivesse feito cinema e, literalmente, ofereceu-se para trabalhar com Welles e a RKO contratou-o em junho de 1940. Orson Welles, Com toda a gente a bordo, obteve luz verde para começar oficialmente a rodagem a 1 de julho de 1940, embora os primeiros “takes” já estivessem filmados desde junho. A rodagem seria interrompida em outubro do mesmo ano para permitir que o realizador, o director de fotografia e o Produtor Artístico, Jerry Ferguson, procurassem outros localizações para filmar, mas em novembro a produção seria retomada para re-filmar alguns “takes”. A última cena a ser filmada (e a primeira a aparecer no filme) é a morte de Kane que aconteceu a 30 de novembro. 
     

A montagem do filme ficou a cabo de Robert Wise e do seu assistente, Mark Robson, ambos futuros realizadores de sucesso. O processo de montagem começou ainda decorriam as rodagens e, ao contrário do que hoje acontece, o realizador não estava sempre presente. Welles dera instruções detalhadas a Wise pelo que não lhe era necessário estar sempre presente pois o filme e a sua montagem estavam extremamente bem planeados. Tanto Robert Wise como Mark Robson percebiam que estavam a fazer algo diferente e inovador só não sabiam o quanto o seu trabalho iria mudar a história do cinema. 
     “Citizen Kane” começa com diversos planos de “Xanadu”, a mansão onde Charles Kane se encontra a morrer e pronuncia a enigmática palavra “Rosebud”, para depois nos mostrar em formato “cinejornal”, uma espécie de noticiário cinematográfico muito em voga nos cinemas nas décadas de 30, 40 do século passado, a vida do magnata dos jornais desde o seu começo e até ao seu falecimento e só depois destes primeiros minutos introdutórios (e já por si só enigmáticos) e que entramos verdadeiramente no filme, o que, também aqui era algo nunca visto até então. 
    
     

O filme rejeita a tradicional narrativa linear e cronológica (novamente a romper com aquilo a que se estava habituado a ver), e conta a história de Kane em “flashbacks” através de diferentes pontos de vista das muitas pessoas, interessantes e desinteressantes, que conviveram com ele, ou seja o equivalente cinematográfico àquilo a que se poderia chamar, em literatura, o narrador de pouca confiança. Welles, noutra ruptura com o filme tradicional, corta com a ideia de um só narrador e utiliza múltiplos narradores para contar a vida do magnata, em que cada um conta a vida dele sobrepondo-se à anterior e mostra-nos um Kane como um enigma, um homem complicado que deixa, no espectador, mais dúvidas que respostas acerca da sua personalidade. Orson Welles, de acordo com Gregg Toland, utilizou na rodagem uma extensa profundidade de campo, ou seja tudo o que está em primeiro plano, segundo plano, e tudo no meio está em foco, de modo que tanto a composição das cenas como os movimentos das mesmas determinavam para onde o olhar se dirigia primeiro. Outra técnica inovadora usada no filme foi as cenas de baixo para cima, permitindo que os tectos das habitações fossem mostrados em fundo em várias cenas e fazendo com que até as coisas mais aborrecidas fossem interessantes. Welles quis que todos os cenários fossem construídos de raiz ( para esconder os microfones) e com tecto . Ele queria que a câmera mostrasse aquilo que os olhos vêem. Na cena em que Kane se encontra com Jedediah Leland, o seu maior amigo, depois daquele ter perdido as eleições para Governador, Welles mandou cavar partir o cimento do chão para utilizar nesse buraco a câmera e assim obter um perfeitíssimo ângulo baixo. 
    

 Todo o filme é construído a partir de imagens visualmente magnificas, mas que na altura poucos deram por isso: as torres de “Xanadu”, Kane a discursar perante os seus eleitores; a porta do prédio da sua amante a dissolver-se numa fotografia de um jornal rival; o movimento da cãmera através duma claraboia em direcção a Susan no seu clube nocturno; ou aquele grande momento em que a câmera se eleva sobre o rosto de Susan na sua estreia no palco para um ajudante de palco e o plano que se segue de Kane, com o rosto escondido pela sombra a aplaudir desafiadoramente no salão silencioso; são tantos os momentos de magia cinematográfica neste filme que se torna difícil eleger um só que o possa definir. 
 A palavra à volta da qual gira tudo o filme aumentando o mistério à volta de Kane, o tal “Rosebud” nunca nos é explicado a que se refere mas ficam algumas pistas no ar, nomeadamente o que Jerry Thompson diz acerca dela “Talvez Rosebud seja alguma coisa que ele não pode ter ou algo que perdeu”, ou talvez a explicação esteja na cena final do filme, em que “Rosebud” significa a segurança, a esperança e a inocência da infância. na qual um homem passa toda a sua via a tentar alcançar. Seja como for, Charles Foster Kane foi um homem que teve tudo, um império nas suas mãos, o poder de fazer e desfazer, de criar, um homem que teve “O Mundo a Seus Pés” ( o que justifica plenamente o título em português) e que tudo perdeu. 
     Estreado com pompa e circunstância no RKO Palace Theatre a 1 de maio de 1941, “Citizen Kane” obteve um êxito mediano e assim continuou nas mais de 500 salas onde se estreou nos dias e semanas seguintes. A crítica olhou para o filme e considerou-o uma obra inovadora e de qualidade técnica superior a muitas produções da altura. O público, por seu lado, preferiu olhar para outras produções de mais fácil entendimento e ignorar quase por completo a obra de Welles. As comparações que faz com a vida de William Randolph Hearst eram tantas no seu entender que ele baniu o filme dos seus meios de comunicação e proibiu qualquer referência ao mesmo. Talvez estas fossem algumas das razões que impediram o filme de estrear em muitas cidades grandes, o medo das repercussões que teriam do verdadeiro magnata da imprensa. 
     

O filme só chegaria á Europa em 1946, com um sucesso igual ao dos Estados Unidos e, apesar das críticas negativas, vindas duma certa área intelectual de esquerda, principalmente a francesa, que acusava o filme de fazer uma apologia ao capitalismo e ao imperialismo americanos, o que, tendo em conta que a Europa e o mundo acabavam de sair duma guerra mundial, teve algum impacto na recepção ao filme. Foi só a partir de meados da década de 50 e 60, por via da “nouvelle vague” francesa é que o filme esteve no centro de uma nova reavaliação, principalmente por Jean-Luc Godard e François Truffaut e desta vez a impressão seria completamente diferente. Nomeado para nove Oscares da Academia, incluindo para Melhor Filme e Melhor Realizador, “Citizen Kane” seria apenas premiado com o Oscar de Melhor Argumento co-partilhado entre Orson Welles e Herman J. Mankiewicz, o que diga-se de passagem, é manifestamente pouco para um filme que ainda hoje é uma lição de como fazer cinema. Nas décadas seguintes, a importância do filme foi crescendo a tal ponto que foi, e continua a ser, considerado o melhor filme de todos os tempos. A influência do filme continua a ser nítida em todo o panorama cinematográfico e não existe nenhum realizador, americano ou não, que não tenha visto “Citizen Kane” pelo menos uma ou duas vezes na sua vida e não se sinta tocado pela história, pela técnica, mas principalmente pelos ensinamentos inovadores que a obra mostra e o considere uma referência obrigatória nos anais dos cinema. .

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

O REMAKE - VER OU NÃO VER O MESMO FILME?

                                                          



            
            
            E se algum realizador, de repente, anunciasse que em 2021 iria fazer um “remake” de “Citizen Kane – O Mundo a Seus Pés” que Orson Wells realizou em 1941 e que, desde então, é considerado o melhor filme da história do cinema, o filme que, contra tudo e contra todos, rompeu com todas as regras para criar outras novas, o filme que aparece em todas as listas dos especialistas classificado como o filme mais importante do século XX. No ano em que aquela obra-prima celebra 80 anos, qual seria a reacção da comunidade cinematográfica a tal anúncio?

Será que valerá a pena vermos a mesma história, as mesmas cenas, as mesmas personagens ou os mesmos comportamentos que vimos há dezenas de anos atrás, novamente no écran, mesmo que se trate duma actualização da história? Por outras palavras: será que valerá a pena vermos o mesmo filme que vimos antes, mesmo que a história seja actualizada?  A resposta a esta questão não é fácil e, pode mesmo, levantar outras questões pertinentes que para o assunto em epígrafe não são importantes. 

            
            


O que é afinal o “remake”? Trata-se de fazer um filme baseado numa produção anterior e acaba por, na maior parte das vezes, contar a mesma história que o original, em vez de pegar na história que lhe deu origem, apesar de utilizar um elenco diferente e poder alterar uma ou outra situação pontual, alterar a temática ou ser dirigido para um público diferente. Na maior parte das vezes o “remake” faz alterações significativas nas personagens, no argumento, no género e também do estilo cinematográfico que se pretende imprimir á obra e aqui encontramos duas opções possíveis para o realizador: ou filma cena por cena e o “remake” acaba por ser igual ao original, como aconteceu em 1998 quando Gus Van Sant fez um remake de “Psycho” igualzinho ao que Alfred Hitchcock fez em 1960 (a única diferença é que o de Van Sant foi filmado a cores) e não acrescentou nada de novo ao original.

           


O “remake” também pode ser re-imaginado num género ou numa época diferente do original e, até, da fonte que lhe esteve na origem e acaba por ganhar (algum) interesse, como aconteceu, por exemplo, com “The Thomas Crown Affair – O Grande Mestre do Crime” de 1968 e que se centrava no roubo de um banco, enquanto que “Thomas Crown Affair – O Caso Thomas Crown”, realizado em 1999, girava em torno do roubo duma pintura; “Scarface – O Homem da Cicatriz”, o filme original de 1932, realizador por Howard Hawks, era sobre o contrabando ilegal de Àlcool, enquanto que o “remake” de 1983, “Scarface – A Força do Poder”, realizador por Brian De Palma, é sobre contrabandistas de cocaína. A mesma situação acontece em “The Italian Job – Um Golpe em Itália” uma comédia de acção realizada por Peter Collinson em 1969, que gira á volta do roubo de um carregamento de ouro em Turim com a ajuda de um grande engarrafamento e respectiva confusão nas ruas da cidade. O filme foi um sucesso e ajudou a cimentar a carreira de Michael Caine no cinema com a ajuda de Noel Coward e Benny Hill. Em 2003, o realizador F. Gary Gray pega no argumento do filme de 1969 escrito por Troy Kennedy-Martin e actualiza “The Italian Job – Um Golpe em Itália” para a cidade de Veneza onde 35.000.000 de dólares em barras de ouro estão guardadas num cofre altamente guardado e vão ser roubadas por um grupo chefiado por James Bridger e Charlie Crocker, os mesmos cérebros do filme de 1969, a que se juntam alguns elementos como a ganância e vingança que tornaram esta versão algo diferente do original, além do elenco que tinha nomes como Charlize Theron, Edward Norton, Mark Wahlberg ou Jason Staham, os dois últimos “habitués” neste género de produções o que contribuiu para o filme ser rentável nas bilheteiras.

Por vezes, o “remake” pode ser dirigido pelo mesmo realizador do original, na maior parte dos casos, o argumento não sofre qualquer alteração e apenas pode mudar o elenco.  Nesta situação, temos o exemplo de Alfred Hitchcock e do seu “The Man Who Knew Too Much – O Homem que Sabia Demais”, que foram realizados em 1934 e 1956, respectivamente; a mesma coisa aconteceu com “The Ten Commandments – Os Dez Mandamentos” que Cecil B. DeMille realizou em 1923 e depois refilmou em 1956.

            


Nem todos os “remakes” utilizam o mesmo título que o filme original, mas mesmo assim conseguem estar ao nível, em termos de qualidade, do original, ou mesmo até podem ser oriundos de países diferentes e, neste caso particular, existem variados exemplos recentes e outros não tanto: em 1953, o realizador francês H.G. Clouzot realizou “Le Salaire de la Peur – O Salário do Medo” que William Friedkin actualizaria em 1977 com o título de “Sorcerer – O Comboio do Medo”; do mesmo Clouzot, “Les Diaboliques – As Diabólicas” de 1955, seria re-filmado em 1996, nos Estados Unidos, com o mesmo título da versão original por Jeremiah S. Chechik; da França chegou também “Nikita – Nikita – Dura de Matar”, realizado por Luc Besson em 1990 e que obteria tal sucesso em terras americanas que veria surgir em 1993 “Point of No Return – A Assassina” realizado por John Badham; O thriller espanhol “Abre Los Ojos – Abre os Olhos” que Alejandro Amenábar realizou em 1997 daria origem a “Vanilla Sky – Vanilla Sky” que Cameron Crowe fez em 2001; em 2006, Martin Scorsese realizou o filme “The Departed – Entre Inimigos”, o qual  ganhou os Oscares de Melhor Filme e Melhor Realizador, que era uma versão americana condensada duma trilogia filmada em Hong Kong, “Infernal Affairs – Infiltrados” realizada entre 2002 e 2003 por Andrew Lau e Alan Mak. 

            


Um exemplo de “remake” de grande sucesso foi aquele que Steven Soderbergh fez em 2001 do filme “Oceans’s 11 – Os 11 do Oceano”, filme de 1960, realizado por Lewis Milestone em que Danny Ocean (Frank Sinatra) junta 11 ex-companheiros da IIª Guerra Mundial e planeia assaltar cinco casinos em Las Vegas numa só noite. Com Sinatra estavam Dean Martin, Sammy Davis jr.(o famoso "Rat Pack"), Peter Lawford, Angie Dickinson, entre outros nomes sonantes do cinema. Soderbergh actualizou então a história, acrescentou-lhe uma vingança que Danny Ocean (George Clooney) quer levar a cabo sobre Terry Benedict, dono de vários casinos em Las Vegas, por este lhe ter roubado a mulher, Tess (Julia Roberts) e ter mandado espancar um dos seus amigos. Ocean quer roubar três casinos de Benedict simultaneamente. Ao lado de Clooney e Roberts estão os nomes de Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia, Elliott Gould, Bernie Mac, entre muitos outros e com um elenco assim o sucesso não podia ser maior e permitiu ao realizador esticar mais ainda a história com duas sequelas, “Ocean’s Twelve” (2004) e “Ocean’s Thirteen” (2007) e ainda uma espécie de prequela, “Ocean’s Eight” (2018), que apenas produziu, entregando a realização a Gary Ross, cujo sucesso ficou muito aquém do esperado.

Os “remakes” são transversais aos géneros pelo que acabam por passar um pouco por todos, principalmente quando a versão original obtém grande sucesso, não só no seu pais de origem como em outros países, o que origina o “remake” que, pode ou não, fazer história no cinema.

       


Os exemplos mais conhecidos de remakes que fizeram história no cinema e que contribuíram, de alguma forma, para se conhecer uma mentalidade diferente da de Hollywood, foram “The Magnificent Seven – Os Sete Magníficos”, que John Sturges realizou em 1960 baseado no épico feudal Japonês “The Seven Samurai – Os Sete Samurais” que Akira Kurosawa tinha realizado em 1954 e que obteve um sucesso enorme na Europa antes de ser importado para os Estados Unidos e transformado num western de sucesso, muito graças ao seu “all stars cast” liderado por Steve Mcqueen e Yul Brynner, mas também à temática abordada, filme que, por sua vez, já foi objecto de outro “remake”, com o mesmo título e realizado em 2016 por Antoine Fuqua; outro caso de sucesso importado do oriente para a europa, foi “Yojimbo – Yojimbo, o Invencível”, também de Kurosawa e realizado em 1961, que Sergio Leone transformou em “For a Few Dollars – Por um Punhado de Dólares” em 1964, que foi, não só um enorme sucesso em ambos os lados do Atlântico, como abriu a porta à criação dos “Western Spaghetti” de inspiração europeia.  

 


A verdade é que, em anos recentes, esta forma de actuação, de fazer novas versões de clássicos, tem sido muito seguida na Sétima Arte que lhe dá o nome de “Remake” e nem sempre resulta da melhor maneira para todos. Um caso curioso de um “remake” não ser um “remake” do original, mas sim uma nova versão por vontade do realizador: em 1968, Franklin J. Schaffner realizou “Planet Of The Apes – O Homem que Veio do Futuro” (o título do filme traduzido não faz grande sentido), que foi um grande sucesso muito graças ao final absolutamente surpreendente e inesperado. Em 2001, Tim Burton, fan incondicional da obra literária de Pierre Boulle que deu origem ao filme, quis adaptá-la, não como um remake, mas uma nova versão, a sua versão, do livro e garantiu que o seu final seria igualmente surpreendente e não teria nada a ver com o do filme de Schaffner que Burton considera único. O filme obteve um sucesso relativo, apesar do final de Burton ser, não só muito próximo do final do livro, como também foi, no mínimo, original. 

A mesma situação aconteceu em 1972 com o filme “Solaris” do realizador Soviético Andrei Tarkovski que, muitos críticos consideraram uma resposta soviética a “2001: A Space Odyssey – 2001: Odisseia no Espaço” que Stanley Kubrick realizara em 1968. Já em pleno século XXI, o realizador Steven Soderbergh quis fazer a sua versão de “Solaris” (2002), também ela baseada no romance de Stanislaw Lem com o mesmo nome, escrito em 1961 e livro de cabeceira do realizador e o resultado ficou aquém do esperado.

Leonel Vieira e o "seu" Pátio das Cantigas

Em relação ao cinema nacional, apenas houve três incursões, até agora, no universo dos “remakes”: em 2015, o produtor e realizador Leonel Vieira actualizou a acção dos filmes “O Pátio das Cantigas” e de “O Leão da Estrela” que haviam sido realizados em 1942 e 1947, respectivamente por Francisco Ribeiro (mais conhecido como “Ribeirinho”) e Artur Duarte; e em 2016, o mesmo Leonel Vieira produziu uma nova versão de “A Canção de Lisboa”, realizado por Pedro Varela, que Cottinelli Telmo tinha feito em 1933. Os três filmes foram sucessos de bilheteira, mesmo não estando á altura dos originais.

Na minha opinião, mexer com os clássicos é um risco desnecessário, porque, por mais que queiramos, clássicos são clássicos e é nesse estatuto que devem permanecer, por mais que achemos que talvez seja bom actualizar a história, aproximar mais o público do filme ou vice-versa, aquele nunca estará á altura do que lhe é proposto, porque simplesmente não está para aí virado, a sua preferência vai para outro tipo de filmes e dificilmente compreenderá as razões que estiveram na elevação dos filmes ao estatuto de clássicos e também facilmente se percebe que não seria uma nova versão desses filmes que lhe iria atrair a atenção. 

 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

                                       O Caçador – O Vietname em Três Actos

            
    
Se exceptuarmos os filmes sobre a IIª Guerra Mundial (1939-45), a guerra do Vietname (1955-1975) é o confronto armado que mais vezes foi levado ao grande écran. Nas últimas décadas do século XX, deverão ter sido poucos os realizadores que não abordaram o Vietname na sua filmografia. Alguns fizeram-no bem, outros nem tão bem assim, mas houve aqueles que, na sua obra, abordaram o conflicto de tal maneira que esta se transformou na “Quinta essência sobre o Vietname” (ver meus artigos sobre “Apocalypse Now”, “Platoon” e “Full Metal Jacket”).

Mike, Steven e Nick são três operários metalúrgicos numa fundição na Pensilvânia que vão embarcar para combater no Vietname. Porém, antes de o fazerem, vão casar Steven e participar numa última caçada juntamente com outros amigos. Na guerra a experiência revela-se traumática para os três, o que traz consequências quando apenas Mike e Steven regressam a casa enquanto o paradeiro de Nick é desconhecido.

            A história do filme começou a ser contada por volta de 1968, quando Michael Deeley, produtor americano, comprou um primeiro esboço de uma história escrita por Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker, intitulada “The Man Who Came to Play”, acerca de pessoas que iam a Las Vegas para jogar a Roleta Russa. Apesar de não estar completa, Deeley percebeu que tinha em mãos uma história inteligente e a sua ideia foi completá-la de modo a torna-la num possível filme. Mas um filme sobre o quê? Deeley guardou o esboço durante algum tempo enquanto estudava possibilidades de fazer alguma coisa com aquela história. 

Nos anos 70 a temática do Vietname ainda era um tabu entre os grandes estúdios de Hollywood, Michael Deeley viu ali uma possibilidade de poder usar a história, mas nenhum estúdio queria arriscar fazer um filme sobre um tema ainda tão delicado, com muitas feridas por sarar e numa América a recuperar duma guerra que ainda não percebera bem o porquê do seu envolvimento nela.    

    

Michael Cimino

Depois de ver fecharem-se algumas portas, Deeley encontrou Michael Cimino, que além de argumentista nalguns filmes menores, já tinha alguma experiência de televisão e já realizara “Thunderbolt and Lightfoot – A Última Golpada”, em 1974, com Clint Eastwood (que na altura já começava a dar nas vistas em Hollywood e produzira o filme) e Jeff Bridges como protagonistas. Sentiu-o confiante e convidou-o para trabalhar na história e fazer dela um argumento cinematográfico. Depois duma reunião com os autores da história, Cimino trabalhou durante seis semanas na escrita do argumento em colaboração com Deric Washburn com quem já havia trabalhado juntamente com Steven Bochco no argumento de “Silent Running – O Cosmonauta Perdido” (Douglas Trumbull, 1972). Os dois retiraram elementos da personalidade de Merle, o protagonista da história original, psicologicamente afectado durante a sua comissão no Vietname, e colocaram-nos nos três amigos que são o centro da acção: Michael, Steve e Nick e moldam as personagens de acordo com os elementos retirados de Merle.

           


 Escrito o argumento que acabou por ser assinado por Deric Washburn e ainda foram dados créditos da história a Cimino, Washburn, Garfinkle e Redeker (foram conjuntamente nomeados para o Oscar) e escolhido o elenco que incluía Robert  De Niro, John Savage, John Cazale ( no seu último papel antes de falecer em 1978, não chegou a ver a estreia do filme), Meryl Steep e Chistopher Walken, entre outros, a rodagem começou a 20 de junho de 1977 e terminaria em dezembro do mesmo ano.

“O Caçador” é um filme feito em três actos, três movimentos como se se tratasse de uma sinfonia ou uma ópera, avança progressivamente desde um casamento até a um funeral e, pelo meio, temos um dos filmes mais emocionalmente devastadores de que há memória.    


Começa com homens a trabalhar algures numa fundição de metal, é o final de turno daquele que será o seu último dia de trabalho em muito tempo. Dirigem-se a um bar para beber umas cervejas. O filme, propositadamente, demora algum tempo com estas cenas iniciais antes de mergulhar na grande cena do casamento de Steve e Angela, que, segundo o realizador, demoraria cerca de 21 minutes, mas acabou por durar 51 minutos. Na realidade, o que Cimino queria era fazer um longo prólogo antes de deleitar os espectadores com algumas belas imagens de natureza, daquelas de cortar a respiração, numa caçada para celebrar o último dia de liberdade dos três amigos antes de embarcarem para o Vietname. A belíssima cena da caçada termina com um último momento no bar onde John, ao piano, toca um Nocturno de Chopin que, para os cinco amigos em silêncio, se torna emocionalmente mais intenso e doloroso que uma qualquer despedida.
      

Subitamente, sem qualquer aviso que nos prepare para isso, apenas uma explosão, estamos no Vietname e no segundo acto ou segundo movimento deste filme onde se jogam as experiências horrorosas e traumáticas a que os três amigos são sujeitos. Essas experiências surgem na forma de um jogo que eles, feitos prisioneiros, são obrigados a jogar: um jogo de Roleta Russa jogado sob o olhar atento e meio embrutecido dos seus captores que apostam em quem vai ou não morrer naquele jogo. É uma das mais terríveis e horrorosas sequências alguma vez criada em ficção. A Roleta Russa adquire um simbolismo próprio dentro do filme: a sua deliberada violência e o facto de mexer com a sanidade mental de cada um dos intervenientes, aplica-se brilhantemente ao filme já que contextualiza ideologicamente neste filme, numa metáfora perfeita, a completa inutilidade da guerra. 

        
    
Robert De Niro e Meryl Streep

A personagem de Michael (que De Niro interpreta brilhantemente), é aquele que encontra a sua própria força para continuar e para ajudar Steve e Nick (John Savage muito bem e Christopher Walken no papel da sua vida que, inclusive, lhe deu o Oscar de Melhor Actor Secundário) a continuarem. Ele sobrevive à prisão e, apesar da experiência traumática, ajuda os outros a escaparem. Quando finalmente regressa a casa, vai rodeado de um silêncio tão traumatizante que ninguém, nem mesmo Linda (Meryl Streep num dos seus primeiros papéis em cinema), a namorada de Nick mas que ele, secretamente, também deseja, consegue penetrar. Michael é o herói, que a cidade recebe calorosa e timidamente, mas que, intimamente, não se considera como tal e isso vê-se na cena em que ele chega de táxi, pede ao motorista para continuar sem parar na sua casa onde os amigos o aguardam e depois, escondido, espera que eles se retirem e só então vai para casa. Michael, sem vontade, tenta retomar a sua vida sem saber dos seus dois companheiros que pensa ter perdido no Vietname, é incapaz de se declarar a Linda (apesar desta o tentar vagamente) porque sabe que deixou o seu namorado para trás. Ele vive atormentado pela promessa que fez a Nick, na noite do casamento e sob a luz do luar que banha um campo de basketball vazio, de não o deixar no Vietname e que não conseguiu cumprir. Finalmente ganha coragem e vai visitar Angela, a mulher de Steven que se encontra numa grande depressão, à espera que ele venha para casa. Aquilo que ela lhe transmite, fá-lo ganhar uma espécie de nova vida.

            

O terceiro acto ou movimento, começa num tom muito tranquilo como que a preparar o espectador para o que aí vem. A caçada, com que se inicia, deveria ser um momento de alegria entre aqueles que estão presentes (Michael, Stanley, Axel e John, apesar de se sentir a falta de Nick e Steven), mas tal não acontece porque Michael não consegue matar um veado ( o ritual que ele tinha de matar o veado só com um tiro, agora é-lhe completamente estranho), Stanley, com a sua pistola que exibe e ameaça todos sem se aperceber que ela está carregada, estraga a caçada e onde todos percebem o estado mental em que Michael se encontra. Pouco tempo depois, ele tem uma nova missão: depois de ir buscar Steven, psicologicamente afectado pela dupla amputação que sofreu das pernas, ao hospital de Veteranos de Guerra e saber que afinal Nick está vivo, regressa a Saigão para cumprir a promessa que lhe fez.

Na última parte do filme, Nick e Michael estão frente-a-frente, num local onde um grupo de Vietnamitas, Franceses e Americanos, que representam o pior do ser humano, apostam nos jogadores em jogos sucessivos de Roleta Russa. A metáfora, repetida novamente, ganha aqui uma expressão monumental quando nos apercebemos que uma guerra trouxe a morte a um jogo de sorte e, naquele local, todos são vítimas, completamente esvaziados de qualquer tipo de humanidade. 


        A cena final, primeiro com conversa banal que rapidamente dá lugar ao silêncio, depois alguém começa a cantar “God Bless America” e todos se juntam espontaneamente, no bar do John, tem muito que se lhe diga pois a América nunca mais foi o mesmo país que era antes de se envolver no Vietname e faz com que reflectamos sobre o preço que se paga por guerras, que a maior parte das vezes, ninguém quer. 

  


O filme estreou em dezembro de 1979, em Nova York e Los Angeles, manteve-se em exibição durante uma semana e depois foi retirado do circuito comercial. Esta estratégia foi usada para que o filme pudesse qualificar-se para os Oscares e, ao mesmo tempo, aguçar o apetite do público e crítica e aparentemente conseguiu os seus intentos: foi nomeado para nove Oscares da Academia, e, naquela semana de exibição, rendeu qualquer coisa como 19.000.000 de dólares (no total só nos Estados Unidos, o filme obteria cerca de 48.979.000 de dólares).  O filme venceu cinco Oscares da Academia, que incluiram o de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actor Secundário, além de outros prémios em diversos festivais.

Apesar de ter estreado num ano particularmente cheio de filmes sobre o Vietname, dos quais se destacam “Coming Home – O Regresso dos Heróis” de Hal Ashby ou “The Boys in Company C – Os Rapazes da Companhia C” de Sidney J. Furie, “O Caçador” foi o primeiro a alcançar uma grande variedade de público, boas críticas e a ganhar o Oscar da Academia para Melhor filme do Ano que foi definitivo para o seu sucesso. Em 1996, o filme foi seleccionado para preservação no Registo Nacional de Filmes pela Biblioteca Nacional do Congresso por ser cultural, histórico e esteticamente significativo.

Uma das obras definitivas sobre a guerra do Vietname.


Nota: As imagens  que ilustram o texto foram retiradas da Internet.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

         XEQUE AO REI – O LADO OBSCURO DE UM COLÉGIO


          

         
           Em 1951, o escritor britânico J.D.Salinger publicou um romance intitulado “The Catcher in the Rye” que em português se chamou “O Apanhador de Centeio” ou “Uma Agulha no Palheiro”. O livro contava a história de um rapaz que, por alturas do natal, resolve fugir do colégio interno onde estuda devido aos maus resultados que obteve nesse semestre para evitar o confronto com os seus pais. O livro, originalmente dirigido a um público mais adulto, acabou por se tornar muito popular entre os adolescentes das décadas seguintes devido ás suas temáticas de alienação, angústia e alguma critica á sociedade em geral. O livro terá, certamente servido de inspiração para Joanne Harris, a escritora britânica de sucesso, escrever o seu livro “Gentlemen & Players” que em português se chamou “Xeque ao Rei”.

              


 St.Oswald é um colégio tradicional, masculino, situado no norte da Inglaterra e está-se a iniciar um novo ano lectivo. Roy Straitley, professor de Latim, é o decano dos professores do colégio e, face, aos avanços tecnológicos que começam a surgir no colégio, começa a pensar seriamente em reformar-se. Mas por entre as tradições colegiais e os ventos da mudança, algo maligno e negro move-se entre as paredes de St.Oswald, começam a acontecer coisas estranhas e inexplicáveis que vão afectar o quotidiano do colégio e levar a que Straitley adie a sua reforma.

        

         A acção decorre entre o presente e o passado e é contada a duas vozes, como se dum jogo de xadrez se tratasse e no tabuleiro apenas estão duas peças que são as únicas que importam: Roy Straitley é representado por um Rei branco, enquanto que o psicopata é um Peão negro. No início de cada capítulo surge a peça respectiva e é a personagem representada que narra os acontecimentos que, por vezes, se entrecruzam dentro de St.Oswald, ou seja, por vezes,  ambos os narradores estão presentes (quer seja nos capítulos de um ou do outro) e interagem, mas Joanne Harris, brilhantemente, nunca nos dá nenhuma indicação de quem é, na realidade, o psicopata e consegue-o durante mais de três quartos do livro, onde nos vai dando a conhecer (via o psicopata) o seu ódio e as suas motivações contra St.Oswald, os professores, os alunos e, particularmente, a Roy Straitley ao qual, a dado momento, num dos seus monólogos (para o leitor), revela, através do seu pseudónimo, “Mole”, que usa para escrever no jornal local da vila e onde surgem alegações danosas para o colégio, que o seu confronto está próximo, “O dia em que eu derrubar St.Oswald, quero que Roy Straitley lá esteja!”…e o resto é uma completa surpresa porque ninguém, mas mesmo ninguém (não só os leitores como também todas as personagens que gravitam em torno dos narradores) está á espera do desfecho final.

     


O título original “Gentlemen & Players” nunca é explicado no livro, mas sendo a acção passada num colégio inglês onde se praticam desportos, entre os quais o Cricket, practicado em toda a Inglaterra. Existiu, durante muitos anos (entre 1806 e 1962), um jogo que se disputava anualmente e que era considerado de primeira classe, entre Cavalheiros (Gentlemen), uma élite de jogadores de Cricket amadores (universitários e jovens independentes), e uma equipa de Jogadores profissionais (Players). Joanne Harris, com este título, quis fazer uma analogia entre o desporto practicado por aquelas equipas e o tipo de aluno que frequentava St.Oswald. “Gentlemen & Players” é uma referência ás diferenças de classe e ao snobismo que sempre existiu na sociedade.

Joanne Harris
            
Joanne Harris, antes de se tornar escritora, foi professora e durante alguns anos deu aulas de Línguas Modernas em escolas secundárias e em universidades, pelo que não é de estranhar a facilidade com que escreveu esta história de vingança e redenção, juntando-lhe  momentos de comédia negra misturada com  ambientes intensos de suspense de cortar a respiração que vai manter o leitor agarrado ao livro até á última página. Dona de uma prosa muito própria e actual, Joanne Harris transporta-nos para um universo do passado (as instituições de ensino internas) com uma actualidade real (a diferença de classes entre a população escolar, entre os pobres e os ricos) e o discernimento nas estruturas do poder que dominam dentro de uma instituição de aprendizagem na qual um professor não sabe se está a ser alvo de um ataque ao seu bem estar (Roy Straitley e o seu método de trabalho há muito ultrapassado) por malícia, por pura estupidez ou a junção das duas. Neste universo, através de uma narrativa complicada, com duas perspectivas e contada em dois tempos, emergem duas personagens, cada uma com as suas motivações para fazer o seu papel: de um lado, Roy Straitley, professor de Latim, que devotou a sua vida a St.Oswald que agora, no final da sua carreira profissional, enfrenta o maior desafio da sua vida, ao perceber que é o último sobrevivente de uma certa raça de professores clássicos; do outro, alguém que quer vingar-se de St.Oswald e da sua reputação como estabelecimento de ensino. 

     


De tempos em tempos “flashbacks” esmiúçam a infância, a adolescência e a juventude do segundo narrador dando assim uma imagem completa de uma mente perturbada e explicações sobre o porquê de alguém querer destruir a reputação de um colégio de renome e fazer mal a elementos da equipa. Harris joga com todos estes trunfos e consegue, com uma competência admirável, trabalhar todas as voltas e reviravoltas da história e ainda engendrar um final surpreendente e inesperado que nos deixa completamente boquiabertos. Contudo, este é um livro muito forte no drama e no mistério (quem é o autor da vingança?) e também muito plausível na apresentação dos motivos (o porquê?) e no qual existem ocasiões onde manter uma descrença total se torna quase impossível.

Este livro é a obra-prima de Joanne Harris, apesar dela ser mais conhecida pelo seu livro “Chocolate” (1999), que foi um sucesso de vendas. Mas foi a sua adaptação para o cinema em 2000 num filme com Johnny Depp e Juliette Binoche que, não só ajudou ao sucesso, mas também contribuiu para tornar a autora mais conhecida. “Xeque ao Rei”, quando foi publicado em 2005, acabou também por ser também um sucesso de vendas. 

Em 2016 Joanne Harris voltou ao universo de St.Oswald para escrever “Uma Questão de Classe”, uma sequela mais negra e sinistra de “Xeque ao Rei”.

            

    

MIKE OLDFIELD III

                                                          MIKE OLDFIELD III                               - Depois da fama, o Ocaso (1987-20...