O panorama do cinema Norte-Americano no início da década de 60: o cinema musical pouco ou nada produzia de relevante, o Western mudara-se de armas e bagagens para o velho continente Europeu a fim de dar início ao chamado “Western Spaghetti” (filmes maioritariamente feitos. em Espanha e Itália). Para enfrentar a forte concorrência da televisão, os estúdios apostavam em superproduções para as quais a televisão (ainda) não tinha meios. Foi nesta altura de começaram a surgir alguns dos grandes cineastas que haveriam de mudar a face do cinema nas décadas subsequentes. Norman Jewison, cineasta canadiano foi um desses nomes.
Nascido em 1926 em Toronto, cumpriu serviço militar entre 1944 e 1945, começou a sua carreira no início da década de 50 em Londres na BBC como argumentista de programas para crianças e actor. Em 1951, desempregado, regressou ao Canadá para estudar produção e, em 1952, conseguiu entrar na CBC Television e rapidamente foi promovido a assistente de realização e nos anos seguintes escreveu, produziu e realizou diversas comédias, musicais, dramas e programas especiais que, em 1958, o levaram até NBC em Nova York para produzir e realizar especiais de nomes famosos como Harry Belafonte, Danny Kaye ou Judy Garland e que o puseram em contacto com muita gente de Hollywood com quem viria a trabalhar anos mais tarde. Tony Curtis foi um dos nomes que o impulsionaram a tentar dar o salto para a meca do cinema, através da produtora, “Curtleigh”, que fundara com a sua então esposa Janet Leigh.
Em 1962 Jewison estreava-se em Hollywood com “40 Pounds of Trouble – 20 Quilos de Sarilhos” com Tony Curtis como protagonista. Ele é dono de um casino em Las Vegas, assombrado pela sua ex-mulher a quem não quer pagar a pensão alimentar e que se vê obrigado a adoptar uma rapariga depois dela ter sido abandonada no casino pelo seu pai que é um jogador inveterado e que lhe vai causar muitos sarilhos. Com alguns momentos inteligentes e humorísticos, o filme não convenceu muito público e apenas se destaca por ter sido o primeiro filme a ser filmado na Disneylandia original.
No ano de 1963, Jewison formou a sua própria companhia independente de produção, a Simkoe e, apesar de manter o acordo com a produtora de Tony Curtis, os dois filmes que estavam acordados não chegaram a ser feitos e foram substituídos por dois outros para a Universal-International Pictures.
O primeiro deles foi “The Thrill of it All – O Tempero do Amor” com Doris Day e James Garner. Day é uma dona de casa que se torna uma locutora de televisão, o que lhe vai trazer uma série de complicações em casa. O filme não foi um grande sucesso por não trazer nenhuma novidade ao género comédia e serviu apenas de veículo para Jewison se tornar conhecido no público.
No ano seguinte, “Send Me no Flowers – Não Me mandem Flores”, Jewison continuou no registo comédia e desta vez, para alem de Doris Day, trazia Rock Hudson, um nome de peso dentro da indústria. Hudson é um hipocondríaco que está convencido que tem pouco tempo de vida e tenta, a todo o custo, arranjar um novo marido para a sua esposa. Pode-se considerar que este filme foi o primeiro grande sucesso do realizador, mas também é certo que muito desse sucesso se deveu mais a nome de Rock Hudson (ainda no apogeu da sua carreira) do que a Jewison.
“The Art of Love – A Arte de Amar”(1965), foi o projecto seguinte do realizador. Novamente no registo de comédia, o filme acompanha um artista de renome, que simula a sua morte para assim poder aumentar o valor da sua obra. No elenco estavam os nomes de Dick Van Dyke, James Gardner, Elke Sommer e Angie Dickinson ainda em princípio de carreira. Filmado em França, o filme foi bem recebido pelo público e com alguma indiferença por parte da critica especializada que o considerou uma comédia vulgar sem qualquer novidade para o género. Apesar do sucesso, o realizador estava determinado a não ficar ligado ao registo comédia e a querer apostar em projectos mais exigentes. A sua oportunidade não tardou a chegar.
Ainda em 1965, Norman Jewison foi convidado para substituir o realizador Sam Peckinpah que tinha sido despedido por desavenças com os produtores da MGM durante a produção do filme “The Cincinnati Kid – O Aventureiro de Cincinnati”. No elenco estavam os nomes de Steve McQueen, Edward G. Robinson e Anne Margaret. No filme alguns grandes nomes do Poker viajam para Nova Orleans para participar num campeonato de cartas, entre eles está um jovem que se quer afirmar nesse universo. O filme foi um grande sucesso quer do público, quer entre os críticos que louvaram o talento que o realizador, numa proeza de encenação fílmica, demonstra na cena do jogo final. Foi o passo decisivo na carreira de Jewison.
O ano de 1966 vê nascer pelas mãos do realizador uma nova comédia, “The Russians are Coming, the Russians are Coming! – Vêm aí os Russos, vêm aí os Russos!”. Um submarino Russo encalha em Nantucket, Nova Inglaterra. O comandante do navio e alguns tripulantes vão a terra para tentar obter ajuda. Os habitantes da ilha quando os vêem, pensam tratar-se de uma invasão. No elenco estavam os nomes de Carl Reiner, Alan Arkin, Brian Keith, Eva-Marie Saint, entre outros. Foi o primeiro filme produzido pelo realizador.
O filme, na época, foi recebido com alguma frieza por parte da critica que ainda tinha bem presente o filme “Dr.Strangelove, or: How I learned to stop worrying and love about the Bomb? – Dr.Estranhoamor” que Stanley Kubrick fizera em 1964, uma sátira enorme à guerra fria, mas o público recebeu-o bem e tornou-o um sucesso. A guerra fria continuava a servir de motivo para humor, servido pelos actores, nesta década tão conturbada. A bela fotografia e o argumento com algumas soluções originais (como por exemplo toda a sequência final do submarino no porto da ilha), tornaram o filme uma das grandes comédias da década de 60. Nomeado para 4 Oscares da Academia, incluindo uma para Melhor Filme, é uma referência na carreira do realizador.
1967 seria um ano decisivo para a carreira do realizador. “In the Heat of the Night – No Calor da Noite”, um thriller policial. Numa cidadezinha do Mississippi, é cometido um crime e pouco tempo depois da descoberta do cadáver, um negro é detido na estação de caminho de ferro e acusado de assassinato. A surpresa acontece quando se fica a saber que ele chama-se Virgil Tibbs e é um detective de Filadélfia que se encontrava de passagem pela cidade. Realizado com mestria e garra, Jewison consegue manter-se sempre num campo neutral para evitar quaisquer polémicas ou questões raciais que estavam ainda muito acesas nos Estados Unidos. Com Rod Steiger e Sidney Poitier nos principais papeis, o confronto entre os dois protagonistas, um detective negro que tenta convencer um xerife racista de que não tem nada a ver com aquele crime, atinge o seu maior momento quando Tibbs, para responder a Gillespie, que o questiona sobre como é que o tratam em Filadélfia, levanta a voz e diz-lhe “Chamam-me Mister Tibbs!”. Quincy Jones, produtor e músico, compôs a banda sonora com o tema-título a ser interpretado por Ray Charles para ambientar ainda mais o filme.
Nomeado para 7 Oscares da Academia, o filme venceria em cinco categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Actor para Rod Steiger, Jewison também foi nomeado como realizador, mas ficou-se por aí.
“No Calor da Noite” tornou-se um clássico dentro do género thriller e um dos melhores filmes da década, deu origem a duas continuações em 1970 e 1971, com Sidney Poitier e a uma série de televisão com o mesmo título entre 1988 e 1995.
No ano seguinte, renovado pela vitória obtida no ano transato, Jewison quis voltar ao thriller, mas não se queria repetir e por isso optou por fazer um policial diferente. Nasceu assim “The Thomas Crown Affair – O Grande Mestre do Crime”. Thomas Crown é um industrial milionário que pilota planadores e joga Polo divertindo-se à sua maneira, mas, por detrás da sua faceta de milionário esconde-se um génio criminal que planeia assaltos a bancos de modo a não deixar pistas. Um dia, uma agente de seguros inteligente descobre, a partir de uma suspeita muito ténue, que pode haver uma ligação entre o milionário e o assalto ao banco que ela investiga. Usando uma técnica inovadora que divide o écran em várias imagens, permitindo acompanhar várias acções das personagens ao mesmo tempo, fruto do trabalho do editor Hal Ashby, Jewison filma os seus actores, Steve McQueen como Thomas Crown e Faye Dunaway como Vicki, num constante jogo de gato e rato que culmina na sequência do jogo de xadrez da sedução entre os dois, com uma elegância enorme servindo todo este prato ao som da banda sonora de Michel Legrand e do tema, vencedor de um Oscar, “Windmills of Your Mind” cantado por Noel Harrison. O próprio espectador sente-se transportado para o filme e torna-se, ele mesmo, cúmplice de Crown quando este executa o seu último golpe e sofre com Vicki durante toda a sequência final no cemitério.
Norman Jewison fecha a década de 60 com uma nova comédia, “Gaily, Gaily – Chicago, Chicago”, que conta a história de um jovem que, no princípio do século XX vem para Chicago para se tornar aprendiz de jornalista. Comédia fraca, apesar da riqueza dos cenários e de uma cuidadosa reconstituição do período em que se passa a acção. O elenco trazia os nomes de Beau Bridges, Melina Mercouri e Brian Keith dão-nos algum humor, doseado, nem demasiado forçado nem demasiado hilariante. Apesar das três nomeações ao Oscar, o filme obteve um sucesso relativo junto do público.
A década de 70 começa para o realizador com trabalho como produtor para filmes realizados por si, como por outros, entre eles a estreia como realizador de Hal Ashby, “The Landlord” (1970). Começa também para o realizador, desencantado com o clima político nos Estados Unidos, uma espécie de exílio voluntário em Inglaterra onde continua a trabalhar e o seu cinema adquire uma categoria de temático, se bem que não tenha filmes relevantes, fez escolhas cuidadas e todas demonstravam um cuidado posto na sua realização.
“A Fidler On the Roof – Um Violino no Telhado”, de 1971, marca a sua estreia como realizador na nova década. Tevye é um pobre judeu leiteiro que trabalha o dia inteiro para poder sustentar a sua família constituída pela esposa e cinco filhas, na pequena aldeia de Anatevka, algures na rússia czarista aonde começam a chegar lentamente os ventos da mudança e que ele não consegue acompanhar. Filme longo (três horas), mas que graças à técnica apurada, aliada a um gosto pelo espectáculo, do realizador, torna a sua visão muito interessante sem se dar pela sua duração. No filme, inspirado numa peça de teatro escrita por Sholom Aleichem, escritor ucraniano, os costumes e tradições do povo judeu são apresentados em tom de comédia, nomeadamente o tema “If I Were a Rich Man”, com Tevye a dançar e a cantar no seu estábulo, mas também com algum drama à mistura (em especial a cena do “Sabbath” e a sequência do casamento). O elenco trazia os nomes de Topol e Norma Crane, Leonard Frey ou Paul Michael Glaser, actores que ainda se encontravam em princípio de carreira.
O filme foi um sucesso de bilheteira e receberia oito nomeações para os Oscares da Academia, incluindo para Melhor Filme e Melhor Realizador, mas ganharia apenas em três categorias técnicas, incluindo uma para Melhor Banda Sonora Adaptada a cargo de um promissor compositor chamado John Williams. Pessoalmente, considero-o uma das obras-primas do realizador.
Em 1973, Jewison animado pelo sucesso do seu filme anterior, faz nova incursão no musical religioso através de um dos seus actores da produção anterior que lhe fala de uma ópera-rock escrita por Andrew Lloyd Webber e Tim Rice que estava a ser um sucesso na Broadway desde 1971. O realizador foi assistir e ficou imediatamente cativado pelo conceito e quis passa-la para o grande écran. Nascia assim “Jesus Christ Superstar – Jesus Cristo Superstar”. O realizador levou todo o elenco (incluindo os actores Ted Neeley, Carl Anderson Yvonne Eliman e Bob Bingham da ópera original) para Israel para filmar os últimos dias de Cristo em cenários naturais onde supostamente a acção se passou há mais de 2000 anos.
Todo o filme é cantado, toda a acção é-nos contada e mostrada através das canções e a interacção das personagens também, é uma visão moderna da Paixão de Cristo desde que Judas põe em dúvida a palavra e o poder do Messias até à ressurreição deste. Tanto a primeira cena (a chegada do autocarro ao local) como a penúltima (os actores a embarcarem no autocarro) anuncia-nos que estamos perante uma reconstituição de um acontecimento. Apesar de original, a ideia e o filme dividiu a crítica, criando alguma controvérsia pelo tratamento da religião, mas o público deu um sucesso relativo ao filme.
Com carreira numa fase de grande criatividade, Norman Jewison aproveitou para produzir o western “Billy Two Hats” (1974) com Gregory Peck.
As preocupações do realizador levam-no no filme seguinte a abordar a ficção cientifíca, a violência e a vida.“Rollerball – Os Gladiadores do século XXI”, passa-se algures num futuro próximo onde não há fome nem guerras e o mundo é governado por corporações que fazem com que as tendências violentas das populações se concentrem num jogo estranho chamado “Rollerball”. Jonathan E. é o campeão mundial do jogo e quando se começa a tornar incómodo, as corporações, pela mão do seu patrão, Bartholomew, querem obrigá-lo a afastar-se. Baseado num romance do escritor William Harrison com argumento do próprio, é um filme violento, bem realizado, que conta no elenco com James Caan, John Houseman, Maud Adams ou John Beck, entre outros. O filme é um pouco difícil de entender, as situações não estão totalmente explicadas e tem que se tirar um pouco pelo sentido das imagens
O filme foi um fracasso de bilheteira e a critica, que antes louvara o seu realizador, não foi nada meiga com o trabalho obrigando o realizador a uma ponderação séria antes de avançar para o seu filme seguinte.
Sempre preocupado com aquilo que o rodeia, a atenção de Jewison volta-se, em 1978, para os bastidores do poder sindical que sempre fora muito forte nos Estados Unidos. “F.I.S.T. – F.I.S.T.”, relata a ascensão de Johnny Kovak um trabalhador de armazém, rebelde, de Cleveland nos anos 30, desde os seus começos até fundar o sindicato dos camionistas do qual se torna presidente. Mas as suas ligações ao crime organizado causarão a sua eventual quedaA sua ascensão ao poder é lenta, mas sempre procurando o lado mais humano de cada situação, sempre captada pela camâra atenta do realizador que usa um estilo quase documental para contar a história, vagamente inspirada na de Jimmy Hoffa, sindicalista desaparecido em 1975 (presumivelmente morto pela Mafia), que é um dos grandes méritos do filme.
No elenco estavam Sylvester Stallone (numa das suas boas interpretações), Peter Boyle, Rod Steiger, David Huffman, Melinda Dillon, entre outros. Com algumas boas cenas de acção, como por exemplo a cena do bloqueio da fábrica, ou a sequência do assassinato, ou a cena final em que se procura incessantemente por Johnny e vê-se um camião na estrada com a frase “Where´s Johnny?” pendurada num letreiro na parte detrás.
O filme obteve um sucesso relativo tanto da crítica como do público, que ainda não estava habituado a ver Stallone em papéis dramáticos, principalmente dois anos depois da sua consagração em “Rocky”.
O realizador e a família regressam, em 1978, ao Canadá e será a partir de lá que Jewison fechará a década de 70.
Com “...And Justice for All - ...E Justiça Para Todos”. Arthur Kirkland é um jovem advogado que segue demasiado as normas da Lei, mesmo que isso lhe traga algumas consequências, não só pessoal como profissionalmente, enquanto à sua volta todos usam e abusam tanto do poder da Lei como da Justiça que dela advém. Um dia, ao ser nomeado para defender um juiz com quem já tivera confrontos anteriores, acusado de violação duma mulher, Kirkland vê ali uma oportunidade de se desforrar, ao mesmo tempo que se debate com problemas de consciência sobre os limites da sua profissão.
Sátira corrosiva ao sistema judicial americano, mas ao mesmo tempo uma reflexão sobre os limites da Lei e do poder da Justiça nos Estados Unidos, Jewison faz uso novamente da realização em estilo documental usando a personagem de Arthur Kirkland como elo de ligação a todo esse uso e abuso de poder.
Al Pacino, Jack Warden e John Forsythe fazem um trabalho notável nos seus papéis, principalmente Pacino, que lhe valeria mais uma nomeação para o Oscar de Melhor Actor (a quarta consecutiva), assim como o argumento de Barry Levinson e Valerie Curtain igualmente nomeado aos Oscares. O filme foi um grande sucesso de bilheteira, assim como entre os críticos que não pouparam elogios ao trabalho de Al Pacino.
As décadas seguintes seriam, para o realizador, de continuação, mas longe do sucesso alcançado nos seus anos iniciais.
(CONTINUA)
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