Os Eleitos – À Conquista do Espaço


 
O ano de 1983, viu nascer um dos grandes filmes de década de 80 e um dos grandes clássicos contemporâneos. "The Right Stuff" em português chamou-se "Os Eleitos" e foi uma das pouca vezes em que o título nacional fez justiça ao nome original.
Em 1947, após o final da IIªGuerra Mundial, a América começa a olhar para o espaço, alguns pilotos de ensaio, residentes na Base Aérea de Muroc, na Califórnia, tentam ultrapassar a barreira de som (que se dizia ser um demónio que vivia no céu e impedia os pilotos de passar por si), sabendo que outros já o haviam tentado e nem todos haviam sobrevivido. Alguns anos depois, em 1953, Muroc, agora Base Aérea de Edwards, transforma-se no centro de ensaio e todos os pilotos, dignos desse nome, rumam para lá na expectativa de entrarem no Programa Espacial da corrida ao espaço que estava a começar.
 
Adaptado do romance de Tom Wolfe, com o mesmo nome, o filme esteve, por diversas razões, para não ser feito. Em finais de 1979, Robert Chartoff e Irwin Winkler, produtores independentes venceram a Universal Pictures na corrida para a adaptação cinematográfica do livro que tinha sido publicado no início do ano. William Goldman, argumentista de renome foi encarregado de transformar o livro em filme. O argumento focava-se inteiramente nos astronautas e no Programa Mercúrio, ignorando totalmente os feitos de Chuck Yeager. Os produtores não gostaram da adaptação de Goldman, opinião também partilhada pelo realizador Philip Kaufman. Em meados de 1980, William Goldman afastou-se do projecto. Foi feita uma aproximação a Tom Wolfe, que se mostrou desinteressado em adaptar o seu próprio livro. Foi então que Kaufman pegou na obra e, em oito semanas, escreveu um argumento que trouxe de volta Yeager e estabeleceu os contrastes existentes entre este e os “sete do Projecto Mercúrio” e suas famílias, porque, nas suas próprias palavras “Se se está a traçar a história de como o futuro começou, o futuro das viagens no espaço, ele começou com Yeager e o universo dos pilotos de ensaio. Os astronautas descendem deles…”
 
Em 1981, porém o fracasso de “Heaven’s Gate – Ás Portas do Céu”, um western visionário, ao estilo superprodução, realizado por Michael Cimino, pôs “Os Eleitos” em espera, já que a United Artists , responsável por aquele filme, declarou falência. Foi então que a Ladd Company, pertencente a Alan Ladd, Jr., filho do actor Alan Ladd, associada á Warner Bros., entrou com 17.000.000 de dólares necessários para avançar com a produção, (embora o orçamento total tenha sido de 27.000.000 de dólares), que teve início em março de 1982 e terminaria em outubro do mesmo ano.
 
Realizado por Philip Kaufman, argumentista de “Os Salteadores da Arca Perdida” (Steven Spielberg, 1981) ou de “O Rebelde do Kansas” (Clint Eastwood, 1976); realizador do curioso “Invasion of the Body Snatchers – A Invasão dos Violadores” (1978), com Donald Sutherland e Brooke Adams, remake do clássico de ficção científica com o mesmo título original, mas que por cá se chamou “A Terra em Perigo” (Don Siegel, 1956); do semi-erótico “Henry & June – Henry e June” (1990), sobre os amores da escritora Anais Nin com o também escritor Henry Miller, com os desempenhos de Fred Ward, Uma Thurman e da portuguesa Maria de Medeiros; do interessante “The Unbearable Lightness of Being – A Insustentável Leveza do Ser” (1988), adaptação do romance de Milan Kundera cuja acção se passa na Checoslováquia antes e depois da Invasão Soviética em 1956, com o ainda relativamente desconhecido Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin; ou de “Rising Sun – Sol Nascente” (1993) um excitante policial tecnológico adaptado do romance de Michael Crichton com Sean Connery e Wesley Snipes, entre outros, "The Right Stuff", a obra-prima do realizador, cedo se transforma num filme excitante, embora longo, nunca se torna aborrecido.
 
Rapidamente se percebe que “Os Eleitos” assenta em dois aspectos que são fundamentais para o desenvolvimento desta história dos primeiros passos em direcção á conquista do espaço: o primeiro, são os dois homens que assombram o filme. Um fala pouco e o outro, nada. O primeiro é, claro, Chuck Yeager (interpretado por Sam Shepard, num dos seus melhores papéis), geralmente reconhecido como o melhor piloto de ensaio de todos os tempos, que se julga a si próprio pelos feitos (logo desde o início se percebe que ele é o único que tem “The Right Stuff”, ou seja, utilizando uma definição algo provocadora, é “aquele que tem tudo no lugar”!) e não pelas palavras. O outro é o padre da força aérea que oficializa os frequentes funerais e é uma presença agoirenta no bar onde os pilotos confraternizam (brilhante a cena em que uma esposa recém-chegada pergunta como é que um piloto pode ter a sua foto na parede por detrás do balcão. A resposta, lacónica, dada por Pancho Barnes, a dona do bar, é imediata: Só tem de morrer.).
O segundo aspecto é a meticulosa reconstituição duma época em que se estava a iniciar a guerra fria (com alguma paranóia própria à mistura), torna o filme por vezes algo complexo. Mas não é só no ambiente histórico que se constrói este fabuloso filme: a produção trouxe também uma enorme quantidade de modelos de aviões; entre simuladores de vôo, aviões de exposição e aviões verdadeiros daquele período, são mais de 80 os modelos que vão surgindo ao longo das mais de três horas de filme.

 
Carregado de cenas memoráveis ( como, logo no início, o vôo de Yeager a tentar quebrar a barreira do som; a cena, carregada de simbolismo, do funeral que é sobrevoado por aviões em homenagem ao falecido, dos quais um se ausenta da formação; ou o treino dos futuros astronautas), extremamente realistas, principalmente na recriação dos vôos espaciais (ver a cena do vôo de John Glen que o torna no primeiro homem a orbitar a terra ou, quase no final, o de Gordon Cooper que, de acordo com a voz-off, por momentos foi “aquele que foi mais alto, mais longe e mais depressa do que qualquer outro e que foi o último astronauta a voar sozinho”) e interpretado por um elenco de actores e actrizes que se viriam a tornar, alguns deles, em verdadeiras estrelas: além do já referido Sam Shepard, incluem-se também, Ed Harris, Dennis Quaid, Barbara Hershey, Fred Ward, Scott Glenn, Lance Henrikssen, Veronica Cartwright, Jeff Goldblum, entre outros.
 
Sam Shepard e Chuck Yeager
Para conferir um grau de autenticidade ao filme, o verdadeiro Chuck Yeager foi contratado como consultor técnico e faz uma pequena participação. Ele levou os actores que interpretaram os sete astronautas a voar, analisou minuciosamente os “storyboards” de cada cena e os Efeitos Especiais, apontando e corrigindo erros que encontrasse. Para além disto, Kaufman deu aos seus técnicos de montagem, uma lista de documentários, contendo imagens de arquivo da época, necessários para o filme pedindo-lhes que investigassem todos os locais possíveis (desde a Base Aérea de Edwards até á NASA, passando pelos arquivos da Força Aérea), no decorrer destas investigações, foram encontradas imagens de arquivo russas nunca vistas em mais de 30 anos.

 
Mas como acontece sempre quando um filme conta uma história real, nunca se livra de alguma polémica á mistura. Como tal, “Os Eleitos” não foi exepção: apesar do filme tomar algumas liberdades em relação aos acontecimentos retratados, os detractores do filme focaram-se numa dessas “liberdades dramáticas”: o retrato do pânico que o astronauta Gus Grisson (Fred Ward) sente quando a sua cápsula “Liberty Bell 7" se afunda após a queda no mar. Muitos estudiosos, da época, assim como engenheiros que trabalhavam na NASA, estão convencidos que a detonação da escotilha se deveu a uma falha técnica do foguetão e não a erro humano deliberado (como acontece no filme), mas como Kaufman seguiu á risca o livro de Wolfe, que se foca, não no porquê ou como a escotilha detonou, mas sim como os colegas e familiares depreenderam que tinha sido ele a causar a detonação, não alterou nada, deixando que toda a sequência siga á risca a narrativa.
 
Vencedor de 4 Óscares da Academia, incluindo Melhor Montagem e Melhor Banda Sonora ( a música de Bill Conti é extremamente épica e integra plenamente a acção do filme), entre oito nomeações, perdeu o Melhor Filme e a Melhor Realização para "Laços de Ternura" (vá-se lá saber porquê!), "Os Eleitos" foi um grande sucesso de bilheteira, principalmente na europa, já que nos estados unidos, apesar de bem recebido e louvado pela crítica, o filme rendeu apenas 21.500.000 dólares. Dir-se-á que o público não estava preparado para um filme que fizesse a aproximação ao programa espacial, com cepticismo, comédia e alguma ironia á mistura. Mas rapidamente subiu ao pódio dos grandes filmes, ao lado de outras obras-primas contemporâneas, como "Touro Enraivecido" (Martin Scorsese, 1980), "Os Salteadores da Arca Perdida" (Steven Spielberg, 1981), “E:T. - O Extraterrestre” (Steven Spielberg, 1982) ou mesmo “Gandhi” (Richard Attenborough, 1982) e abrindo caminho para futuras incursões cinematográficas na história espacial americana, como por exemplo “Apollo13 – Apollo 13” (Ron Howard, 1995).
   Grande filme de aventuras, carregado de romance, de heroísmo de todos aqueles homens e suas mulheres, mas, principalmente, foi uma história verídica que aconteceu no nosso tempo e isso diz tudo!

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet












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