Sandokan - Da Literatura para o Écran




      Personagem literária criada por Emilio Salgari (1862-1911), escritor Italiano de romances de aventuras de “capa e espada”. Durante mais de um século, os seus romances foram leitura obrigatória de gerações de leitores ávidos de aventuras exóticas.  É  Considerado  o pai  da ficção italiana de aventuras  e da cultura pop em itália e o avô do “Western Spaghetti”. 
      Autor de mais de 200 romances de aventura e novelas, cuja acção se passava quase sempre em locais exóticos e os seus heróis eram sempre duma enorme variedade de culturas. Inspirando-se na literatura estrangeira, jornais, folhetos de viagens, enciclopédias,  etc . , que depois usava para retratar os mundos das suas personagens. A sua escrita tornou-se tão popular que o seu editor foi obrigado a contratar outros escritores para desenvolver as aventuras , escrevendo em seu nome. Neste esquema foram adicionadas cerca de 50 romances, mas percebia-se a diferença entre aqueles que foram escritos por outros autores e os que eram escritos pela pena de Salgari.
     Da sua vasta obra, destacam-se  várias séries,  entre as quais uma cuja acção se passa no velho Oeste; outra intitulada “Os Piratas da Bermuda”, que se passa durante a Guerra da Independência dos Estados Unidos. Mas a sua fama veio e  internacionalizou-se com duas das mais famosas séries da literatura de aventuras: A Saga do Corsário Negro, onde somos apresentados ao Conde de Ventimiglia, mais conhecido como “O Corsário Negro” e a série “Os Piratas da Malásia”, onde aparece a sua personagem mais famosa de sempre: o Pirata Sandokan. Publicado  pela primeira vez em 1883, no diário “La Nuova Arena” , onde Emilio Salgari trabalhou no principio da sua vida , depois de ter sido reprovado na Academia Naval de Veneza onde ingressara com o desejo de explorar os mares e seguir uma carreira na marinha.
      Muito popular em Portugal , Espanha e em países de língua espanhola e lido por autores latinos de renome mundial como Gabriel Garcia Marquez, Isabel Allende, Jorge Luis Borges, Carlos Fuentes, Umberto Eco, Pablo Neruda, entre outros,  Salgari nunca foi muito do agrado dos críticos que lhe enxovalharam o trabalho ao longo de toda a sua vida permanecendo quase ignorado durante grande parte do  século XX. Foi somente nas últimas décadas que a sua obra começou a ser revisitada, com novas traduções. Graças ás  adaptações televisivas e cinematográficas de que algumas das suas obras foram objecto,  é que se pode apreciar a riqueza dos seus enredos e a grandiosidade das suas personagens.
        Emilio Salgari escreveu vários romances onde conta as aventuras de Sandokan, e Yanez de Gomera, o aventureiro português, amigo do pirata. Ao longo de onze romances, assistimos à luta de Sandokan, conhecido como “O Tigre da Malásia”, e dos seus tigres, contra as forças Holandesas e do Império Britânico que tentam limpar os mares do oriente da presença dos piratas. Posteriormente  assistimos á luta contra James Brooke, Rajá de Sarawak e inimigo jurado de Sandokan e de toda a pirataria  e também vamos á Índia lutar contra os Tugues, a terrível seita de Estranguladores.
         O primeiro livro da série foi escrito em 1895 e intitulava-se “I Misteri della Jungla Nera – Os Mistérios da Floresta Negra” e conta a história de Tremal-Naik, caçador de serpentes que vive na floresta negra e, por amor a uma mulher, vê-se a braços com a seita dos Tugues. Adoradores da deusa Kali pela qual matam as suas vitímas estrangulando-as com laços de seda. A história passa-se na ìndia e apresenta-nos as personagens de Tremal-Naik e o seu fiel criado Kammamuri, que virão, em outros romances posteriores, a cruzar-se com Sandokan , tornando-se amigos e viver aventuras inesquecíveis.
         Sandokan e os seus piratas são apresentados em “Le Tigri di Mompracem – Os Tigres de Mompracem”, naquele que é o primeiro livro do ciclo malaio  das aventuras de Sandokan. Oficialmente é o terceiro romance da série, já que foi  escrito em 1900, mas cronologicamente pode situar-se antes ou depois de “Os Mistérios...”, já que ambos podem ser lidos independentemente do resto da série.  Sandokan é um pirata que durante doze anos tem lutado contra os holandeses e ingleses ao longo de toda a Malásia e atingiu  o ponto mais alto do seu poder. É então que ouve falar duma rapariga de beleza extrema a quem chamam  “A Pérola de Labuan”, o pirata, após ouvir diversas histórias, sente-se atraído por ela e quer conhecê-la, não olhando nem aos perigos nem ás consequências que dai possam advir.
      Entre “Os Mistérios...” e “Os Tigres...”, aparece, em 1896, “I Pirati della Malesia – Os Piratas da Malásia”, que se pode considerar uma sequela (utilizando a terminologia hoje empregue)   dos romances anteriores, já que os desfechos de um e outro são referidos quando as vidas de Tremal-Naik e Kammamuri  se cruzam com as de Sandokan, permitindo que entre eles nasça uma amizade que durará os restantes oito romances da série levando-nos a viver com eles as aventuras mais emocionantes da série que vão desde a destruição dos Tugues na ìndia, até à conquista de um Império por amor a uma mulher.
     Muitos autores do final do século XIX escreveram outras aventuras de Sandokan. Autores como por exemplo Luigi Motta ou Emilio Fancelli, tentaram imitar o estilo de Salgari: muito movimentado, grandes batalhas sangrentas, violência  e, pontualmente, algum humor O seu estilo foi muito imitado, mas nenhum conseguiu igualar ou duplicar o seu sucesso. O estilo de Salgari, porém, rapidamente se estendeu ao cinema e á televisão. Os “Western Spaghetti” de Sergio Leone são disso exemplo. Os fora-da-lei dos seus filmes são inspirados nas aventuras dos piratas de Salgari.
      Mais de 50 filmes e séries foram adaptados dps seus romances e muitos outros foram inspirados nos seus trabalhos ( histórias de corsários,  aventuras na selva, filmes de série B de “capa e espada”, etc.). Desde a década de 20 que são conhecidas algumas adaptações de obras de Salgari, mas foi, a partir da década de 50  e de 60 que aconteceu o maior número de adaptações de livros de Salgari, nomeadamente os de Sandokan, interpretado por Steve Reeves, o actor tornado famoso pela sua interpretação de Hércules em vários filmes. Mas foi já na década de 70 que Sandokan e o seu criador se iriam imortalizar .
       Em 1976,  a mini-série “Sandokan”, tornava-se um marco na televisão ao ser exibida por toda a europa onde foi vista por mais de 80 milhões de espectadores. A canção-tema, interpretada por Oliver Onions ,  esteve no top 10 da maior parte dos países europeus onde foi exibida.
     No centro da acção dos seis episódios, está o idílio amoroso vivido entre Sandokan, interpretado pelo actor Indiano Kabir Bedi, que viria a ser considerado a quintaessência da personagem e transformou o actor, do dia para a noite,  num “sex simbol” da década  e Mariana Guillonk, “A Pérola de Labuan”, interpretada pela lindíssima actriz Italiana Carole André (absolutamente divinal quando surge vestida de princesa indiana). Além da história de amor, assistimos também á luta de Sandokan e Yanez, interpretado por Philippe Leroy, contra o Rajá Branco de Sarawak,  James Brooke, interpretado por Adolfo Celi, um actor especializado em papéis de vilão. 
        A série, baseada maioritariamente em “os Tigres de Mompracem”, importa também personagens de outros livros e estabelece o primeiro encontro entre Sandokan e Tremal-Naik durante uma caçada ao tigre, na qual os dois homens se reconhecem e se ajudam mutuamente e cria também um triângulo amoroso já que Sergio Sollima, realizador encarregado de transpor a obra para o pequeno écran, junta a personagem de Sir William Fitzgerald, comandante dos Sipaios,  na luta pelo amor de Mariana.
       O sucesso foi tão grande que, um ano depois, a série foi exibida nos estados unidos, dividida em duas partes, penetrou no mercado americano conseguindo um sucesso relativo, não tão grande como na europa, mas ainda assim um sucesso. No mesmo ano, Sergio Sollima ealiza o filme “La Tigre è âncora viva: Sandokan alla riscossa! – O Tigre de Mompracem”, que é uma sequela à série onde Kabir Bedi, Philippe Leroy e Adolfo Celi regressam aos seus papéis. O filme torna-se confuso porque, embora recupere elementos da série, nomeadamente Mompracem é agora reino de um sultão, amigo de Brooke, traz de volta a personagem de Tremal-Naik  acompanhado do seu criado Kammamuri, vai buscar elementos que nada têm a ver com a série, como a personagem de Djamilla, o grego Teotokris ou até os Tugues, são importados de outros livros e nem sequer são referidos na série. Talvez por isso o filme tenha passado despercebido aquando da sua estreia e as adaptações dos romances do pirata tenham sido interrompidas abruptamente.
      Em 1991, Kabir Bedi interpreta Kammamuri na adaptaçãoo televisiva de “Os Mistérios da Floresta Negra”, realizada por Kevin Connor. A adaptação livre do romance de Salgari não convenceu muito o público, apesar da forte presença de Bedi, foi mesmo considerada uma traição ao espírito da obra.
      Depois dum longo interregno, Sandokan voltaria ao pequeno écran em 1996, com “Il retorno di Sandokan – Sandokan – O Regresso”, pela mão do veterano realizador Enzo G.Castellari. A acção, desta vez, passa-se na índia e é um Sandokan em busca de si mesmo que vamos encontrar, o tigre, cansado de anos e anos de lutas e da perda de muitas pessoas que lhe eram chegadas ( Mariana, o grande amor de Sandokan é referido numa breve cena), perdeu a vontade de lutar e apenas procura um canto para viver. Vem então até ao reino do Assame, onde Yanez, companheiro de tantas aventuras, governa, juntamente com Surama, a mulher que roubou o coração ao português. Mas as coisas complicam-se e está um golpe de estado a ser preparado. Sandokan  é chamado para ajudar e terá de enfrentar um inimigo do seu passado que actua na sombra. Sómente Kabir Bedi, novamente no papel de Sandokan, regressa para esta mini-série  de fraca qualidade  e confusa, principalmente para quem não conhece os filmes anteriores, já que é inspirada  nos  vários romances que constituem o ciclo indiano das aventuras de Sandokan..
     Em 1998, Sergio Sollima volta ao universo de Salgari e realiza “Il Figlio di Sandokan”, uma mini-série em dois episódios e que conta a história de Ken Hastings, um inglês que chega á Malásia em busca do seu pai, cujo nome a mãe, antes de morrer, não lhe quis revelar deixando-lhe apenas um anel com uma cabeça de tigre  que lhe teria sido dado durante uma estadia na Malásia. Quarto capítulo das aventuras de Sandokan, aparentemente sem nenhuma ligação com os anteriores, a não ser, claro, Kabir Bedi a interpretar o pirata malaio.
      Emilio Salgari, tal como Júlio Verne ou Alexandre Dumas, para citar os escritores mais conhecidos, pertence a uma época  onde os valores do cavalheirismo,romantismo, honra e  respeito eram bem marcantes na sociedade e estavam bem patentes nas obras destes, e de outros, conceituados escritores do séc.XIX. As suas obras são intemporais, passaram de avós para pais, de geração em geração (pela minha, inclusive!), ganhando fans que tentam fazer passar a mesma mensagem que lhe foi transmitida a si, através da leitura destes clássicos, ás gerações seguintes, mas não tem sido fácil porque cada vez mais se perdem hábitos de leitura, o  bom do livro é trocado por uma consola de jogos ou por um computador  com a mais avançada tecnologia da altura… o que é realmente uma pena!
  

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet

Comentários

  1. Para complementar o teu excelente texto, resta-me referir que as capas da colecção de Sandokan que saíram pela Europa-América são da autoria de um veterano da BD: José Ruy. Mas Sandokan foi também a inspiração para Nino Milani e Hugo Pratt que chegaram a conceber várias páginas, directamente inspiradas na Pérola de Labouan, que foi também a inspiração da primeira série. Mais recentemente, Santos Costa, fã confesso de Salgari, não adaptou para a BD Sandokan, mas sim Os Piratas do Deserto, do mesmo autor de O Tigre da Malásia. Um abraço.

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