MIKE OLDFIELD III
- Depois da fama, o Ocaso (1987-2023)
Entre 1984 e 1985, Mike Oldfield embarcou numa tournée europeia de promoção do seu mais recente álbum, “Discovery” e também de apresentação de alguns temas da banda sonora do filme “The Killing Fields – Terra Sangrenta” (Roland Joffé, 1984) que ele havia composto e que seria lançada durante os concertos na europa.
Terminada a tour europeia, Maggie Reilly, a vocalista habitual nos últimos álbuns e nas tournées saiu do grupo e decidiu seguir uma carreira a solo, Oldfield começou a trabalhar num novo álbum. Além de música que não utilizara na banda sonora, começou a compor novos temas para continuar a fazer aquilo que já vinha fazendo nos álbuns anteriores, ou seja, uma peça instrumental num dos lados e uma variedade de canções pop/rock no outro. O resultado foi “Islands”, editado em 1987.
No lado um do LP vinha o tema “The Wind Chimes (Part One and Part Two)” um longo tema instrumental com algumas partes vocais cantadas pela sueca Anita Hegerland, que,em 1985 já havia gravado um tema com Oldfield, lançado como single, intitulado “Pictures in the Dark” onde, uma vez mais, fica patente o virtuosismo de Mike na variedade de instrumentos que toca, igualmente repartido pelos músicos que o acompanham. O segundo lado é inteiramente composto por temas rock cantados por uma série de vocalistas onde se inclui Bonnie Tyler, que canta o tema-título que foi o primeiro single, dos quatro que o álbum produziu e onde a cantora galesa tenta preencher o vazio deixado por Reilly. Outros vocalistas convidados são Kevin Ayers, Max Bacon e Anita Hegerland que começava a ganhar algum espaço no grupo ao interpretar quatro dos temas. O álbum, apesar das boas vendas que obteve, incluindo várias certificações de ouro e platina, não conseguiu convencer o público.
Em 1989, Mike Oldfield volta aos estúdios durante a maior parte do ano para trabalhar num novo álbum que, segundo, o próprio, seria diferente dos seus anteriores. “Earth Moving”, viu a luz do dia em julho desse ano. Com nove temas, sete vocalistas e uma pequena banda de acompanhamento (o músico toca apenas guitarra e teclados) e, tal como afirmara, este álbum é o primeiro da sua carreira em que não existe nenhuma peça instrumental, o álbum mostrava uma faceta do músico mais virada para o pop-rock tal como acordara com a sua editora. Mais uma vez, com vendas modestas (apesar do primeiro lugar no top alemão e um terceiro no top suíço), o público pareceu corresponder melhor a este álbum do que ao anterior. Produziu três singles de sucesso; “Earth Moving”, “Innocent” e “(One Glance Is) Holy”. Desta vez não houve espaço para tournée de promoção, apenas divulgação nas rádios e em televisão.
Em 1990, a “Virgin Records” insistiu, para colmatar as falhas do álbum anterior, que o trabalho seguinte do músico teria de ser instrumental e queriam chamar-lhe “Tubular Bells 2”. Oldfield não concordou e entregou “Amarok” como forma de protesto contra a editora por esta não o apoiar convenientemente. O álbum consiste num único tema com uma duração de 60 minutos de música ininterrupta, mas com constantes variações. O músico toca practicamente todos os instrumentos e sente-se muita influência africana nos poucos vocais que se ouvem ao longo do tema. Por não haver tournée nem nenhum single promocional, o álbum vendeu pouco e Oldfield diria, anos mais tarde, que foi uma tentativa de perceber se ainda era capaz de produzir música sem a ajuda de computadores que, nesta altura, começavam a ocupar algum espaço na indústria.
Em fevereiro de 1991, Mike Oldfield terminou o seu contrato com a “Virgin”, editora que o havia lançado há quase 20 anos. Lançou “Heaven’s Open” sob o nome de Michael Oldfield, a única vez que o fez em toda a sua carreira, canta em todos os temas e apresenta o álbum como uma obra conceptual acerca da libertação de um artista do seu contracto com uma editora. A selecção musical trouxe de volta o formato do início da década de 80 de temas pop rock, produziu dois singles “Gimme Back” e “Heaven’s Open”, que não foram um sucesso por aí além, e um tema longo, “Music from the Balcony” que exala libertação.
Com nova editora. A “Warner Music”, Mike Oldfield acedeu finalmente a uma vontade que desde os tempos da “Virgin Records” o perseguia: fazer uma sequela da sua obra-prima musical de 1973. Ele sempre se recusou a fazê-lo por considerar desnecessário voltar aquele universo. No entanto, achou ser uma boa maneira de se apresentar na nova editora. Quando começou a escrever a música para o álbum, revisitou o original e dividiu-o em diferentes secções dando-lhe uma nova roupagem e adequando-o a uma nova e desafiante década.
Em agosto de 1992, “Tubular Bells II” viu a luz do dia e foi um sucesso imediato atingido o nº1 em diversos países europeus, nomeadamente no Reino Unido e Espanha onde produziu três singles, “Sentinel”, “Tattoo” e “The Bell” entre 1992 e 1993. Uma curiosidade acerca deste álbum reside no facto de, na secção final do tema, o “Master of Ceremonies”, ou seja, quem anuncia a entrada dos instrumentos que se vão ouvindo, ter mudado. No álbum inicial era Viv Stanshall, um músico britânico e amigo de Oldfield. Em “Tubullar Bells II”foi escolhido o Actor Alan Rickman (1946-2016), mais conhecido pelo seu papel do vilão Hans Gruber em “Die Hard – Assalto ao Arranha-Céus” (John Mctiernan, 1988). O actor, de formação teatral, foi uma escolha pessoal de Mike Oldfield depois de assistir a uma adaptação de Shakespeare onde ele entrava. O álbum foi motivo para o músico voltar a fazer tournées de apresentação. O arranque deu-se em setembro de 1992 com um concerto na esplanada do Castelo de Edinburgo para cerca de 6.000 espectadores. A ”Tubular Bells II 20th Anniversary Tour” passou pelos Estados Unidos e Europa durante os meses de março a outubro de 1993. Em abril deste mesmo ano o álbum tinha vendido mais de três milhões de cópias no mundo inteiro. A sua carreira ganhava um novo fôlego que se iria manter durante a década de 90, onde o músico continuou a abraçar novos estilos musicais.
Em 1994, “The Songs of Distant Earth” viu a luz do dia. Baseado no livro escrito por Sir Arthur C. Clarke em 1986. A ideia foi sugerida pelo presidente da “Warner Music”, Rob Dickins, que lhe sugeriu que fizesse um álbum conceptual baseado naquela obra. Oldfield achava que por ser uma obra menor na carreira do escritor, não seria uma boa escolha, mas, ao mesmo tempo, reconhecia que tinha bastante atmosfera. Quando começou a desenvolver ideias para o álbum, Oldfield visitou Clarke no Sri Lanka e descobriu que ele era um fan incondicional de “The Killing Fields” e ficou encantado com a perspectiva do álbum inspirado no seu livro e aceitou colaborar com o músico naquilo que fosse necessário. Produziu apenas o single “Let There Be Light” e não conseguiu passar do décimo lugar nos tops britânico e americano, apesar do disco duplo de Platina que recebeu pelas vendas em Espanha.
1996, viu nascer o álbum “Voyager”, depois da experiência de fazer um álbum conceptual e na continuação da vontade do músico em explorar novas sonoridades. É um álbum de inspiração celta, com alguns temas tradicionais de folclore. A ideia inicial era usar única e simplesmente instrumentos tocados à mão, mas depois entendeu que poderia ser um pouco aborrecido, Oldfield acrescentou-lhe sintetizadores e outros instrumentos. “The Song of the Sun”, “She Moves through the Fair” ou “Women of Ireland”, temas tradicionais que ganham uma nova sonoridade bem mais apelativa, particularmente este último. Escrito por Seán Ó Riada, ganha muito com a incorporação a meio da composição do quarto movimento “Sarabande” de George Frederic Handel, tocado em sintetizador, muito popularizado pela sua utilização no clássico de Stanley Kubrick, “Barry Lyndon” (1975). O sucesso foi relativo, conseguindo, em vários países, uma certificação de ouro e platina.
Na busca de um novo sucesso musical, Mike Oldfield decidiu, em 1998, regressar ao seu primeiro álbum. Inspirado pela música tecno dos bares e clubes nocturnos de Ibiza, onde agora residia, e que ganhava terreno ao rock habitual, decidiu explorar caminhos ainda não descobertos nessa obra-prima. “Tubular Bells III” viu a luz do dia em agosto de 1998. Desde “Source of Secrets” com que o álbum abre, que mais não é do que uma versão dançável da agora famosa abertura de “Tubular Bells part one” (graças à sua inclusão em “The Exorcist – O Exorcista) até ao tema “Far Above the Clouds” com que encerra o álbum, este é o menos interessante da trilogia “Tubular Bells”, apesar de ter sido um relativo sucesso e que nem a sua apresentação ao vivo em setembro do mesmo ano durante a “Horse Guards Parade”, em frente a “Whitehall”, em Londres, para uma audiência estimada em cerca de 7.000 pessoas. A tournée “Live Now & Then 1999” serviria para promover o álbum e também o seguinte.
Em 1999, Mike Oldfield lançou dois álbuns. O primeiro, “Guitars”, editado em maio de 1999, tinha um conceito decidido pelo artista de apenas tocar músicas em guitarras de diversos tipos. O ponto mais alto do álbum é o tema “Four Winds”, dividido em quatro partes, musicalmente ilustrando os quatro pontos cardiais. Durante o ano e na tournée que decorria, alguns temas iam sendo apresentados, mas era sempre o tema acima referido que entusiasmava as audiências e que geralmente era tocado no alinhamento entre os clássicos.
Seis meses depois e após a conclusão da tournée, surge “The Millennium Bell”. Editado em novembro de 1999, o álbum é uma reflexão sobre diferentes períodos da história humana 2000 anos após o nascimento de Jesus de Nazaré, numa altura em que o amanhecer do Terceiro Milénio estava a chegar. Oldfield gravou a maior parte dos temas em casa com uma variedade de vocalistas, e depois acrescentou-lhes a música tocada e gravada nos “Abbey Road Studios” pela “London Session Orchestra”. O álbum foi apresentado num concerto grátis em Berlim, na Alemanha, para 500.000 pessoas na véspera da passagem de ano de 1999.
2002, Mike Oldfield entrou pelos caminhos da Realidade Virtual, com a qual ele sonhava desde a década de 90. uma experiência musical virtual em 3D em que se oferecida uma experiência imersiva semelhante á utilizada nos jogos de computador. “Tres Lunas” foi o resultado dessa experiência imersiva na qual o músico gravou em casa e se limitou a utilizar um computador no qual registou uma partitura musical que dividiu em diversas partes (as faixas) e onde contou com a colaboração de sua irmã, Sally e alguns amigos que contribuíram nos vários temas com percussões computorizadas e algumas sonoridades parecidas com saxofone que são, na realidade, guitarras sintetizadores. Produziu dois singles que não fizeram grande história e teve vendas modestas. Deste álbum nasceu também a banda sonora para um jogo de computador.
Em 2003, e para comemorar os 30 anos do álbum de estreia e quando os direitos autorais reverteram para ele, Mike Oldfield, que não ficara inteiramente satisfeito com o resultado final do álbum pois tivera pouco tempo para o ensaiar, re-gravou-o inteiramente para tentar melhorar alguma da sua sonoridade. “Tubular Bells 2003” surgiu em maio desse ano e teve como mestre de cerimónias, depois de Vivian Stanshall e Alan Rickman, o actor John Cleese, comediante do grupo “Monty Python”, a introduzir os instrumentos no tema “Finale” da primeira parte da peça, que foi também o single escolhido para apresentar a nova versão do álbum. Oldfield, tal como o original, toca todos os instrumentos e volta a ter a irmã nos vocais de apoio. Apesar de não ter sido objecto de nenhuma apresentação ao vivo, nem nenhuma tournée, o álbum foi um sucesso de vendas. Oldfield continuou a dedicar-se á Realidade Virtual.
2005 viu-o regressar á música. Mudou de editora para a “Mercury Records UK” e na continuação da sua exploração de novas sonoridades dentro da Realidade Virtual, lançou o álbum “Light + Shade”. Como o título indica, é dividido em duas partes: Light, composto por temas calmos e instrumentais; Shade, composto por temas mais negros, versões electrónicas, remixados e/ou alargadas da música que ele criara para o jogo de computador “Tres Lunas”. O álbum foi apresentado em 2006 e 2007 numa série de concertos que decorreram pela Europa.
Cada vez mais afastado dos palcos, devido a diversos problemas pessoais, nomeadamente de saúde e mais dedicado à música na Realidade Virtual, Oldfield edita, em 2008 o seu primeiro álbum de música clássica, “Music of the Spheres”. Inicialmente, foi pensado como um álbum longo, dividido em três parte e totalmente instrumental, sem percussões e com elementos electrónicos, mas, à medida que se foi desenvolvendo, tornou-se uma peça orquestral escrita e tocada num computador Apple. Foi apresentado com o single “Spheres” e tocado integralmente ao vivo no Museu Guggenheim, em Bilbau, com a “Euskadiko Orkestra Sinfonikoa”. O concerto foi gravado e lançado na plataforma iTunes da Apple. Esteve em diversos tops no mundo inteiro, mas sem convencer por aí além. O seu público virava-se agora para outros géneros musicais.
Em 2012 Mike Oldfield actuou na abertura dos XXXº Jogos Olímpicos da Era Moderna, em Londres e recuperou alguns dos seus temas clássicos, incluindo o eternamente clássico “Tubular Bells”, para grande satisfação de todo o público presente no estádio Olímpico da cidade e no mundo inteiro numa audiência estimada em cerca de 900 milhões de espectadores.
Mike Oldfield tinha vários projectos pendentes, mas nenhum avançou, por variadas razões quer pessoais quer profissionais. Em 2016 avançou que estava a trabalhar numa sequela de “Ommadawn”, o seu álbum de 1975.
“Return to Ommadawn” foi editado em 2017 e cavalgou até número quatro no top britânico. Uma das inspirações de Oldfield foi saber que Jean-Michel Jarre, o multi-instrumentista francês, era um fan da sua música e ponderara, inclusive, convidá-lo para uma colaboração no seu díptico “Electronica” (2015-16), mas que acabou por não se concretizar por Jarre considerar a sua música demasiado acústica, mas a vontade estava lá e Oldfield aplicou-se neste trabalho dividido em duas longas peças e onde tocou todos os instrumentos que se ouvem. Algumas partes do álbum original podem ser ouvidas nesta nova versão. Desde “Incantations” (1978) que os seus temas não eram simplesmente divididos em Parte I e Parte II, permitindo ao ouvinte desfrutar duma experiência única.
Em 2023, depois de alimentar a possibilidade de um quarto “Tubular Bells”, excerptos chegaram ser ouvidos em algumas apresentações e uma demo de cerca de 8 minutos foi gravada em 2017, Mike Oldfield anunciou a sua reforma e posterior retirada da vida musical, pondo fim a uma carreira de mais de 50 anos.