quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MIKE OLDFIELD III

                                                        MIKE OLDFIELD III 

                           - Depois da fama, o Ocaso (1987-2023)

 

           


 
Entre 1984 e 1985, Mike Oldfield embarcou numa tournée europeia de promoção do seu mais recente álbum, “Discovery” e também de apresentação de alguns temas da banda sonora do filme “The Killing Fields – Terra Sangrenta” (Roland Joffé, 1984) que ele havia composto e que seria lançada durante os concertos na europa. 

Terminada a tour europeia, Maggie Reilly, a vocalista habitual nos últimos álbuns e nas tournées saiu do grupo e decidiu seguir uma carreira a solo, Oldfield começou a trabalhar num novo álbum. Além de música que não utilizara na banda sonora, começou a compor novos temas para continuar a fazer aquilo que já vinha fazendo nos álbuns anteriores, ou seja, uma peça instrumental num dos lados e uma variedade de canções pop/rock no outro. O resultado foi “Islands”, editado em 1987. 


 

            No lado um do LP vinha o tema “The Wind Chimes (Part One and Part Two)” um longo tema instrumental com algumas partes vocais cantadas pela sueca Anita Hegerland, que,em 1985 já havia gravado um tema com Oldfield, lançado como single, intitulado “Pictures in the Dark” onde, uma vez mais, fica patente o virtuosismo de Mike na variedade de instrumentos que toca, igualmente repartido pelos músicos que o acompanham. O segundo lado é inteiramente composto por temas rock cantados por uma série de vocalistas onde se inclui Bonnie Tyler, que canta o tema-título que foi o primeiro single, dos quatro que o álbum produziu e onde a cantora galesa tenta preencher o vazio deixado por Reilly. Outros vocalistas convidados são Kevin Ayers, Max Bacon e Anita Hegerland que começava a ganhar algum espaço no grupo ao interpretar quatro dos temas. O álbum, apesar das boas vendas que obteve, incluindo várias certificações de ouro e platina, não conseguiu convencer o público.

           


 Em 1989, Mike Oldfield volta aos estúdios durante a maior parte do ano para trabalhar num novo álbum que, segundo, o próprio, seria diferente dos seus anteriores. “Earth Moving”, viu a luz do dia em julho desse ano. Com nove temas, sete vocalistas e uma pequena banda de acompanhamento (o músico toca apenas guitarra e teclados) e, tal como afirmara, este álbum é o primeiro da sua carreira em que não existe nenhuma peça instrumental, o álbum mostrava uma faceta do músico mais virada para o pop-rock tal como acordara com a sua editora. Mais uma vez, com vendas modestas (apesar do primeiro lugar no top alemão e um terceiro no top suíço), o público pareceu corresponder melhor a este álbum do que ao anterior. Produziu três singles de sucesso; “Earth Moving”, “Innocent” e “(One Glance Is) Holy”. Desta vez não houve espaço para tournée de promoção, apenas divulgação nas rádios e em televisão.

    


Em 1990, a “Virgin Records” insistiu, para colmatar as falhas do álbum anterior, que o trabalho seguinte do músico teria de ser instrumental e queriam chamar-lhe “Tubular Bells 2”. Oldfield não concordou e entregou “Amarok” como forma de protesto contra a editora por esta não o apoiar convenientemente. O álbum consiste num único tema com uma duração de 60 minutos de música ininterrupta, mas com constantes variações. O músico toca practicamente todos os instrumentos e sente-se muita influência africana nos poucos vocais que se ouvem ao longo do tema. Por não haver tournée nem nenhum single promocional, o álbum vendeu pouco e Oldfield diria, anos mais tarde, que foi uma tentativa de perceber se ainda era capaz de produzir música sem a ajuda de computadores que, nesta altura, começavam a ocupar algum espaço na indústria.

            Em fevereiro de 1991, Mike Oldfield terminou o seu contrato com a “Virgin”, editora que o havia lançado há quase 20 anos. Lançou “Heaven’s Open” sob o nome de Michael Oldfield, a única vez que o fez em toda a sua carreira, canta em todos os temas e apresenta o álbum como uma obra conceptual acerca da libertação de um artista do seu contracto com uma editora. A selecção musical trouxe de volta o formato do início da década de 80 de temas pop rock, produziu dois singles “Gimme Back” e “Heaven’s Open”, que não foram um sucesso por aí além, e um tema longo, “Music from the Balcony” que exala libertação.


Com nova editora. A “Warner Music”, Mike Oldfield acedeu finalmente a uma vontade que desde os tempos da “Virgin Records” o perseguia: fazer uma sequela da sua obra-prima musical de 1973. Ele sempre se recusou a fazê-lo por considerar desnecessário voltar aquele universo. No entanto, achou ser uma boa maneira de se apresentar na nova editora. Quando começou a escrever a música para o álbum, revisitou o original e dividiu-o em diferentes secções dando-lhe uma nova roupagem e adequando-o a uma nova e desafiante década.

           


 Em agosto de 1992, “Tubular Bells II” viu a luz do dia e foi um sucesso imediato atingido o nº1 em diversos países europeus, nomeadamente no Reino Unido e Espanha onde produziu três singles, “Sentinel”, “Tattoo” e “The Bell” entre 1992 e 1993. Uma curiosidade acerca deste álbum reside no facto de, na secção final do tema, o “Master of Ceremonies”, ou seja, quem anuncia a entrada dos instrumentos que se vão ouvindo, ter mudado. No álbum inicial era Viv Stanshall, um músico britânico e amigo de Oldfield. Em “Tubullar Bells II”foi escolhido o Actor Alan Rickman (1946-2016), mais conhecido pelo seu papel do vilão Hans Gruber em “Die Hard – Assalto ao Arranha-Céus” (John Mctiernan, 1988). O actor, de formação teatral, foi uma escolha pessoal de Mike Oldfield depois de assistir a uma adaptação de Shakespeare onde ele entrava. O álbum foi motivo para o músico voltar a fazer tournées de apresentação. O arranque deu-se em setembro de 1992 com um concerto na esplanada do Castelo de Edinburgo para cerca de 6.000 espectadores. A ”Tubular Bells II 20th Anniversary Tour” passou pelos Estados Unidos e Europa durante os meses de março a outubro de 1993.  Em abril deste mesmo ano o álbum tinha vendido mais de três milhões de cópias no mundo inteiro. A sua carreira ganhava um novo fôlego que se iria manter durante a década de 90, onde o músico continuou a abraçar novos estilos musicais.

           
 Em 1994, “The Songs of Distant Earth” viu a luz do dia. Baseado no livro escrito por Sir Arthur C. Clarke em 1986. A ideia foi sugerida pelo presidente da “Warner Music”, Rob Dickins, que lhe sugeriu que fizesse um álbum conceptual baseado naquela obra. Oldfield achava que por ser uma obra menor na carreira do escritor, não seria uma boa escolha, mas, ao mesmo tempo, reconhecia que tinha bastante atmosfera. Quando começou a desenvolver ideias para o álbum, Oldfield visitou Clarke no Sri Lanka e descobriu que ele era um fan incondicional de “The Killing Fields” e ficou encantado com a perspectiva do álbum inspirado no seu livro e aceitou colaborar com o músico naquilo que fosse necessário. Produziu apenas o single “Let There Be Light” e não conseguiu passar do décimo lugar nos tops britânico e americano, apesar do disco duplo de Platina que recebeu pelas vendas em Espanha.

            


1996, viu nascer o álbum “Voyager”, depois da experiência de fazer um álbum conceptual e na continuação da vontade do músico em explorar novas sonoridades. É um álbum de inspiração celta, com alguns temas tradicionais de folclore. A ideia inicial era usar única e simplesmente instrumentos tocados à mão, mas depois entendeu que poderia ser um pouco aborrecido, Oldfield acrescentou-lhe sintetizadores e outros instrumentos. “The Song of the Sun”, “She Moves through the Fair” ou “Women of Ireland”, temas tradicionais que ganham uma nova sonoridade bem mais apelativa, particularmente este último. Escrito por Seán Ó Riada, ganha muito com a incorporação a meio da composição do quarto movimento “Sarabande” de George Frederic Handel, tocado em sintetizador, muito popularizado pela sua utilização no clássico de Stanley Kubrick, “Barry Lyndon” (1975). O sucesso foi relativo, conseguindo, em vários países, uma certificação de ouro e platina.

            
Na busca de um novo sucesso musical, Mike Oldfield decidiu, em 1998, regressar ao seu primeiro álbum. Inspirado pela música tecno dos bares e clubes nocturnos de Ibiza, onde agora residia, e que ganhava terreno ao rock habitual, decidiu explorar caminhos ainda não descobertos nessa obra-prima. “Tubular Bells III” viu a luz do dia em agosto de 1998. Desde “Source of Secrets” com que o álbum abre, que mais não é do que uma versão dançável da agora famosa abertura de “Tubular Bells part one” (graças à sua inclusão em “The Exorcist – O Exorcista) até ao tema “Far Above the Clouds” com que encerra o álbum, este é o menos interessante da trilogia “Tubular Bells”, apesar de ter sido um relativo sucesso e que nem a sua apresentação ao vivo em setembro do mesmo ano durante a “Horse Guards Parade”, em frente a “Whitehall”, em Londres, para uma audiência estimada em cerca de 7.000 pessoas. A tournée “Live Now & Then 1999” serviria para promover o álbum e também o seguinte.

           
 Em 1999, Mike Oldfield lançou dois álbuns. O primeiro, “Guitars”, editado em maio de 1999, tinha um conceito decidido pelo artista de apenas tocar músicas em guitarras de diversos tipos. O ponto mais alto do álbum é o tema “Four Winds”, dividido em quatro partes, musicalmente ilustrando os quatro pontos cardiais. Durante o ano e na tournée que decorria, alguns temas iam sendo apresentados, mas era sempre o tema acima referido que entusiasmava as audiências e que geralmente era tocado no alinhamento entre os clássicos.

Seis meses depois e após a conclusão da tournée, surge “The Millennium Bell”. Editado em novembro de 1999, o álbum é uma reflexão sobre diferentes períodos da história humana 2000 anos após o nascimento de Jesus de Nazaré, numa altura em que o amanhecer do Terceiro Milénio estava a chegar. Oldfield gravou a maior parte dos temas em casa com uma variedade de vocalistas, e depois acrescentou-lhes a música tocada e gravada nos “Abbey Road Studios” pela “London Session Orchestra”. O álbum foi apresentado num concerto grátis em Berlim, na Alemanha, para 500.000 pessoas na véspera da passagem de ano de 1999.

  


 2002, Mike Oldfield entrou pelos caminhos da Realidade Virtual, com a qual ele sonhava desde a década de 90.  uma experiência musical virtual em 3D em que se oferecida uma experiência imersiva semelhante á utilizada nos jogos de computador. “Tres Lunas” foi o resultado dessa experiência imersiva na qual o músico gravou em casa e se limitou a utilizar um computador no qual registou uma partitura musical que dividiu em diversas partes (as faixas) e onde contou com a colaboração de sua irmã, Sally e alguns amigos que contribuíram nos vários temas com percussões computorizadas e algumas sonoridades parecidas com saxofone que são, na realidade, guitarras sintetizadores. Produziu dois singles que não fizeram grande história e teve vendas modestas. Deste álbum nasceu também a banda sonora para um jogo de computador. 

           


 Em 2003, e para comemorar os 30 anos do álbum de estreia e quando os direitos autorais reverteram para ele, Mike Oldfield, que não ficara inteiramente satisfeito com o resultado final do álbum pois tivera pouco tempo para o ensaiar, re-gravou-o inteiramente para tentar melhorar alguma da sua sonoridade. “Tubular Bells 2003” surgiu em maio desse ano e teve como mestre de cerimónias, depois de Vivian Stanshall e Alan Rickman, o actor John Cleese, comediante do grupo “Monty Python”, a introduzir os instrumentos no tema “Finale” da primeira parte da peça, que foi também o single escolhido para apresentar a nova versão do álbum. Oldfield, tal como o original, toca todos os instrumentos e volta a ter a irmã nos vocais de apoio. Apesar de não ter sido objecto de nenhuma apresentação ao vivo, nem nenhuma tournée, o álbum foi um sucesso de vendas. Oldfield continuou a dedicar-se á Realidade Virtual.


2005 viu-o regressar á música. Mudou de editora para a “Mercury Records UK” e na continuação da sua exploração de novas sonoridades dentro da Realidade Virtual, lançou o álbum “Light + Shade”. Como o título indica, é dividido em duas partes: Light, composto por temas calmos e instrumentais; Shade, composto por temas mais negros, versões electrónicas, remixados e/ou alargadas da música que ele criara para o jogo de computador “Tres Lunas”. O álbum foi apresentado em 2006 e 2007 numa série de concertos que decorreram pela Europa. 

            


Cada vez mais afastado dos palcos, devido a diversos problemas pessoais, nomeadamente de saúde e mais dedicado à música na Realidade Virtual, Oldfield edita, em 2008 o seu primeiro álbum de música clássica, “Music of the Spheres”. Inicialmente, foi pensado como um álbum longo, dividido em três parte e totalmente instrumental, sem percussões e com elementos electrónicos, mas, à medida que se foi desenvolvendo, tornou-se uma peça orquestral escrita e tocada num computador Apple. Foi apresentado com o single “Spheres” e tocado integralmente ao vivo no Museu Guggenheim, em Bilbau, com a “Euskadiko Orkestra Sinfonikoa”. O concerto foi gravado e lançado na plataforma iTunes da Apple. Esteve em diversos tops no mundo inteiro, mas sem convencer por aí além. O seu público virava-se agora para outros géneros musicais. 

    


Em 2012 Mike Oldfield actuou na abertura dos XXXº Jogos Olímpicos da Era Moderna, em Londres e recuperou alguns dos seus temas clássicos, incluindo o eternamente clássico “Tubular Bells”, para grande satisfação de todo o público presente no estádio Olímpico da cidade e no mundo inteiro numa audiência estimada em cerca de 900 milhões de espectadores.

            “Man on the Rocks”, o segundo álbum de temas exclusivamente rock depois do já distante Earth Moving”) do músico viu a luz do dia em 2014. Sem qualquer tema instrumental, os temas variam entre experiências com a saúde mental até á Fé Cristã, passando pelo tema “Irene”, inspirando pela passagem do Furacão com esse nome pelas Bahamas onde Oldfield vivia em 2011. Dois singles foram extraídos do álbum, “Sailing” ouviu-se nas rádios antes do lançamento do álbum, e “Moonshine”. Nem o álbum nem os singles fizerem grande história nos tops europeus.

Mike Oldfield tinha vários projectos pendentes, mas nenhum avançou, por variadas razões quer pessoais quer profissionais. Em 2016 avançou que estava a trabalhar numa sequela de “Ommadawn”, o seu álbum de 1975.

           


 “Return to Ommadawn” foi editado em 2017 e cavalgou até número quatro no top britânico. Uma das inspirações de Oldfield foi saber que Jean-Michel Jarre, o multi-instrumentista francês, era um fan da sua música e ponderara, inclusive, convidá-lo para uma colaboração no seu díptico “Electronica” (2015-16), mas que acabou por não se concretizar por Jarre considerar a sua música demasiado acústica, mas a vontade estava lá e Oldfield aplicou-se neste trabalho dividido em duas longas peças e onde tocou todos os instrumentos que se ouvem. Algumas partes do álbum original podem ser ouvidas nesta nova versão. Desde “Incantations” (1978) que os seus temas não eram simplesmente divididos em Parte I e Parte II, permitindo ao ouvinte desfrutar duma experiência única.

           


 Em 2023, depois de alimentar a possibilidade de um quarto “Tubular Bells”, excerptos chegaram ser ouvidos em algumas apresentações e uma demo de cerca de 8 minutos foi gravada em 2017, Mike Oldfield anunciou a sua reforma e posterior retirada da vida musical, pondo fim a uma carreira de mais de 50 anos.

 

sexta-feira, 11 de julho de 2025

RONIN


           


 No Japão feudal do século XVI, um “Ronin”, era um guerreiro sem senhor a quem jurasse lealdade como o faziam todos os samurais na época. Eram considerados marginais e condenados a uma vida de penitência sem direito a ter novo senhor nem autorizados a cometer “seppuku” (suicídio que lhes traria nova honra). A sua vida não tinha qualquer sentido de existência.

Em 1998, o thriller “Ronin”, trouxe de volta um pouco desse espiríto e também voltou a pôr os filmes de acção na ordem do dia numa altura em que este género, desde a década de 80, não produzia um filme digno desse nome.

            Num café em Montmartre, Paris, Sam e Larry, ambos americanos, encontram-se com Vincent um francês e Deirdre, do IRA, que os contratou a quem se juntam Spence, um inglês e Gregor, um alemão. Deirdre, uma operacional do IRA, explica-lhes que foram contratados por serem ex-agentes ou ex-militares tornados mercenários, para desempenhar uma missão que consiste em assaltar um grupo de homens fortemente armados e roubar uma mala metálica. Com mais dúvidas que certezas, mas perante uma boa quantia em dinheiro como pagamento, eles aceitam a missão mesmo não sabendo qual o conteúdo da mala e quais as razões para tal assalto.




Foi em 1997 que John Frankenheimer se juntou ao projecto por achar que o argumento era bom, era o tipo de filme que ele gostaria de ir ver ao cinema, com poucos efeitos gerados por computador (CGI). Ele que já não fazia um filme de cinema com sucesso desde “The Challenge – O Grande Desafio” (1982) com Toshirô Mifune e Scott Glenn. O realizador passara a maior parte da década de 80 e de 90 com diversos fracassos e alguns filmes para televisão com relativo interesse. 

                


A ideia de “Ronin” foi concebida por John David Zeik, na altura recém-chegado ao cinema, depois de ler “Shógun”, o romance escrito por James Clavell em 1975, que ele lera quando tinha 15 anos e que, segundo o próprio, lhe dera informações suficientes sobre os ronins para que ele escrevesse a ideia anos mais tarde e a apresentasse à MGM para ser transformada num argumento para cinema. Pouco tempo antes de começar a rodagem, David Mamet foi trazido para reescrever algumas cenas, expandir o papel de Sam e acrescentar-lhe um interesse amoroso. O argumentista, não querendo diminuir o papel de Zeik, autorizou o seu nome em segundo lugar assinando o argumento sob o pseudónimo de Richard Weisz porque o seu principal interesse era assinar projectos em que ele fosse o único argumentista creditado, e aceitou partilhar os créditos com o colega.

           


 “Ronin” é, essencialmente, um filme feito de personagens, locais e comportamentos. Os primeiros dez minutos são de puro cinema. Sam observa o interior dum Bistro antes de entrar, pensa-se que ele vai atacar quem lá está, mas depois de o ver esconder a pistola, percebe-se que vai apenas ter uma reunião com todos aqueles que foram contratados para um trabalho que ainda não se sabe o que é. O diálogo entre Sam e Deirdre que se segue é algo significativo na medida em que aumenta a curiosidade do espectador sobre o que está a ver “Porque é que foi espreitar lá atrás?” - pergunta ela. “Eu nunca entro num lugar sem saber como posso sair dele”- responde ele e assim começa este thriller carregado de mistério (afinal o que é que a mala metálica continha? Picadela de olho a “Pulp Fiction” de Quentin Tarantino. Algo com que todos se preocupam sem olhar a meios para obter, apesar de não interessar o que é) e acção sem parar, violenta e sangrenta, perseguições de cortar a respiração em cidades como Paris, Nice e La Turbie e voltas e reviravoltas com a entrada em cena de personagens que, apesar de secundárias, acabam por ser há volta de quem toda a história gira.

            


A comandar todas estas operações está John Frankenheimer, conhecido por algumas boas obras cinematográficas, alguns thrillers inteligentes como “The Manchurian Candidate – O Enviado da Manchúria” (1962), “Seven Days in May – Sete Dias em Maio” (1964) ou dramas como “Seconds – Uma Segunda Vida” (1966), “Birdman from Alcatraz – O Prisioneiro de Alcatraz (1962), ou “Grande Prix – Grande Prémio” (1966), mas também em filmes de acção e grande espectáculo como “The Train – O Comboio” (1964), Black Sunday – Domingo Negro” (1977), ou “French Connection II – Os Incorruptíveis contra a Droga Nº2” (1975). Um dos nomes do grande espectáculo e da acção. Frankenheimer sempre mostrou nos seus filmes um grande gosto pelas localizações onde situar a acção, também aqui opta por um esplendor visual dos locais onde filma trazendo-os para fora do simples fundo onde acontece a acção, tornando-os uma parte integrante da mesma (principalmente na cena na antiga arena romana), aliado a uma realização movimentada e que poucos momentos de calma proporciona ao espectador.

O Elenco de "Ronin"
Rodeado de um grande elenco encabeçado por Robert DeNiro, que interpreta Sam, um ex-operacional da CIA, acompanhado por um Jean Reno, que interpreta Vincent, um agente francês que consegue arranjar tudo o que é preciso e ainda Natascha McElhone, Stellan Skarsgard, Sean Bean ou “Sir”Jonathan Pryce (excelente como Seamus, um assassino profissional frio e calculista), “Ronin” fez com que a carreira de John Frankenheimer voltasse a entrar nos eixos e foi também o último grande filme do realizador que faleceu em 2002.

            


Das poucas cenas calmas que o filme tem, destaca-se aquela em que Sam, ferido, dá instruções a Vincent em casa de Jean Pierre (Michael Lonsdale), um antigo companheiro de profissão do francês e que agora tem como hobbie principal a criação de figuras em miniatura, como remover a bala que o feriu “Uma vez retirei o apêndice de um tipo com uma colher de sobremesa”, explica Sam e continua “não a tires sem teres mesmo a certeza que o consegues”, a cena termina com um tom dramático mas ao mesmo tempo de comédia, “Achas que me consegues cozer sozinho? Então se não te importas, acho que vou desmaiar”. Mais tarde, já com Sam recuperado, Jean Pierre em conversa com eles, compara a situação de Sam com a lenda dos 47 ronins, é outro grande momento de cinema.

Como acontece muitas vezes em produções de cinema e televisão, são filmadas muitas cenas que depois acabam por não fazer parte do produto final. Com “Ronin” também aconteceu. Frankenheimer filmou dois finais alternativos: No primeiro, Deirdre está junto ás escadas do Bistro e pensa juntar-se a Sam e Vincent que estão lá dentro. Opta então por ir embora e quando chega ao seu carro, uma carrinha pára ao lado e dela saem homens mascarados (operacionais do IRA talvez?) e arrastam-na para dentro dela chamando-lhe traidora (presume-se que posteriormente seja morta). Sam e Vincent, sem saberem o que aconteceu, terminam a sua conversa, pagam e saem. A MGM detestou este final  Frankenheimer, por seu lado, achou que até poderia resultar; no segundo final, Deirdre vai para o seu carro depois de Sam e Vincent saírem do bistro. Também foi rejeitado por ser muito Hollywood e que poderia significar uma possível sequela. O filme termna, no meu entender com um final mais comprometido e mais lógico: Sam e Vincent a conversar no bistro onde tudo começara, Sam olha ansiosamente para a entrada na esperança de ver Deirdre. Vincente acaba por convencê-lo de que ela não vai voltar. Vincent pergunta a Sam o que é que estava na mala, Sam diz que não se lembra e parte com o seu contacto da CIA enquanto o francês paga a conta e sai também.


            “Ronin” foi apresentado no Festival de Veneza de 1998 antes da sua estreia em setembro do mesmo ano. Foi muito elogiado pela crítica pelos seus aspectos técnicos e houve até quem o considerasse um regresso em força de John Frankenheimer. Após a sua estreia, o filme fez uma bilheteira modesta no fim de semana de estreia nos Estados Unidos e Canadá, que foi compensada pela sua estreia na Europa. A crítica internacional disse que “Ronin” era um regresso em força de John Frankenheimede, mas também houve quem o considerasse uma obra-prima do realizador em final de carreira.

 

 

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

As Pontes de Madison County

           


Em 1973, Clint Eastwood, actor já com créditos firmados graças à sua participação na famosa “Trilogia dos Dólares” (1964-66) de Sergio Leone, começara, em 1971, uma carreira paralela atrás das câmaras obtendo um relativo sucesso com os seus dois primeiros filmes. 
Com “Breezy – Ontem ao fim do Dia”, o seu terceiro filme, aborda uma história entre Breezy (Kay Lenz), uma rapariga libertina que foge de casa e Frank (William Holden), um viúvo com idade para ser seu pai, que a encontra e recolhe e cujo relacionamento, apesar da diferença de idade e de ideais, vai crescendo ao ponto de se tornar um amor. Trabalho esforçado de Clint Eastwood e honesto dos seus actores, o filme, além de gerar alguma polémica, não se conseguiu livrar de ser um fracasso de bilheteira e é considerado um filme menor na carreira do seu realizador, que, no entanto, não foi afectada.

            


Vinte e dois anos depois, em 1995, já com o nome indissociável da história da sétima arte, o actor e realizador filma “As Pontes de Madison County”, onde aborda novamente uma história de amor, mas de uma forma que o torna indiscutivelmente numa das suas grandes obras. 

            Michael e Carolyn Johnson regressam à quinta no Iowa onde viveram a sua infância para tratar do testamento da sua mãe, Francesca, recentemente falecida. Ficam chocados quando sabem que a sua última vontade é ser cremada e as suas cinzas espalhadas da ponte coberta de Roseman, em vez de ser enterrada ao lado do marido. Ambos recusam cumprir esta última vontade da mãe. Mais tarde, num cofre-depósito do banco da cidade descobrem num envelope fotos e cartas e uma chave que abre um velho baú onde se encontram diversos pertences a Francesca, incluindo uma série de diários. Quando os começam a ler, mergulham numa parte desconhecida da vida de sua mãe.

            


Os direitos de adaptação do livro de Robert James Waller, publicado em 1992 e que rapidamente se tornou num best-seller, foram adquiridos pela “Amblin Entertainment”, a produtora de Steven Spielberg, em 1991, ainda antes da sua publicação. Spielberg convidou Sydney Pollack para filmar a adaptação, e este trouxe consigo Kurt Luedkte para escrever o argumento. Pollack acabou por recusar por estar envolvido noutro projecto. Kathleen Kennedy, o braço-direito de Spielberg na produtora, trouxe Ronald Bass para escrever um segundo rascunho do argumento que não satisfez os produtores. Foi chamado então Richard LaGravenese, que estava muito bem referenciado na indústria graças ao argumento de “The Fisher King – O Rei Pescador” (Terry Gillian, 1991). O seu trabalho agradou tanto a Spielberg como a Clint Eastwood, que entretanto havia sido convidado e aceitara fazer o papel masculino, ambos tinham gostado especialmente do facto da história ser contada do ponto de vista de Francesca e Spielberg queria realizar o filme, mas um atraso na post-produção de “A Lista de Schindler”, que obrigou a algumas refilmagens de cenas, obrigou o realizador a desistir do filme. Bruce Beresford, amigo de Spielberg e Kennedy, avançou como realizador e com ele veio Alfred Uhry, que quis escrever um quarto rascunho do argumento. Mas a Warner Bros., Spielberg e Eastwood preferiram o argumento de LaGravenese e Beresford abandonou o projecto. Eastwood ofereceu-se para realizar o filme, o que foi aceite pelos produtores.

                


O problema seguinte foi escolher quem interpretaria o papel feminino ao lado de Clint Eastwood. Entre vários nomes apontados, Catherine Deneuve e Isabella Rossellini chegaram mesmo a fazer testes de imagem, mas foi Meryl.Streep, amiga de longa data de Eastwood, quem acabou por ficar com o papel, apesar de alguma resistência inicial de Spielberg que entendia que sendo ela uma actriz já muito conceituada, seria um risco grande para a sua carreira caso o filme fosse um fracasso. Mas foi a insistência de Eastwood, desde a primeira hora, que acabou por convencer os produtores.

            


Uma das grandes ideias do filme é que este não é acerca de amor nem de sexo, mas sim sobre uma ideia, daí que a informação que surge logo no início, de que duas pessoas que se encontraram uma vez e apaixonaram-se, mas decidem não passar o resto das suas vidas juntas, porque se decidissem seguir os seus desejos (e se calhar os de muita gente), não seriam merecedores de tal amor. É esta ideia que percorre toda a obra e, ao optar, não pelo “happy-end” que seria de esperar, mas sim por outra vertente, mais lógica (quem sabe?), o filme afasta-se de todos aqueles conceitos cinematográficos próprios de qualquer história de amor que tenhamos visto no grande écran.

            


Quando Robert e Francesca se conhecem (ele a procurar direcções para ir fotografar as famosas pontes cobertas do Iowa, ela uma dona de casa solitária cujo marido e os filhos foram para uma feira de produtos agrícolas), percebe-se logo que vai acontecer uma paixão entre ambos. 

Existe ao longo de todo o filme um clima quase erótico entre Robert e Francesca, mas que, inicialmente, quando ela o acompanha para lhe mostrar o caminho, apenas nos é mostrado, subtilmente, em pequenos gestos ou acções.  Clint Eastwood e Meryl Streep têm uma enorme química no écran que resulta num trabalho extraordinário de interpretação, principalmente dela. Não é qualquer actor que se deixa relegar para um plano secundário para fazer com que a outra parte se destaque e brilhe. Mas é precisamente isso que aqui acontece sem qualquer desprimor para nenhum dos actores. Streep, como Francesca, que vive o amor de sua vida, acrescenta mais uma  personagem inesquecível à  sua já longa galeria de personagens numa carreira que já conta com várias décadas, que começou em “Julia” (Fred Zinnemann, 1977) ao lado de grandes nomes como Vanessa Redgrave, Jane Fonda ou Jason Robards. Eastwood, com uma carreira bem mais longa que de Meryl Streep, já devidamente reconhecida e recompensada, quer como actor, quer como realizador, interpreta Robert, fotógrafo da “National Geographic”, um homem bom que vive uma paixão ao longo de quatro dias apenas,  uma personagem que não estamos habituados a ver o actor interpretar.


            

A realização de Eastwood é segura, não existem lugares-comuns na obra, nunca cai na banalidade de tantas e tantas histórias de amor que já vimos no cinema. Não se vê uma única cena no filme que lá esteja colocada de propósito para puxar à lágrima fácil. A serenidade com que o realizador nos mostra o contraste entre a família Johnson (que pode ser qualquer família banal, de classe média), quando reunida à mesa para jantar em que não existe qualquer conversa entre marido e mulher e a alegria que Robert e Francesca irradiam quando jantam e conversam sobre diversos assuntos, fumam cigarros e acabam a dançar ao som do rádio. É neste equilíbrio entre a segurança e a serenidade que nasce aquela que é a cena mais comovente e mais bonita que alguma vez vimos na obra do realizador que já nos dera obras como “Bird – O Fim do Sonho” (1988),“Unforgiven – Imperdoável” (1992) ou “A Perfect World – O Mundo perfeito” (1993):              

chove torrencialmente, Francesca está dentro da carrinha do marido, Richard e vê a carrinha de Robert parada e ele cá fora a avançar lentamente para ela, para depois parar a meio caminho, com a chuva a cair-lhe por cima, como que a pedir-lhe para ela ir com ele, o que ela, momentos mais tarde considera fazer  quando estão parados num semáforo vermelho e ela, com a mão no manípulo da porta, o que é mostrado em diversos planos entrecortados com a espera que o semáforo caia para verde, a forçar-se para não o abrir e assim seguir o seu coração. 

É um momento único no cinema e uma das melhores cenas jamais filmadas numa história de amor.    
“As Pontes de Madison County” é afinal, acerca de duas pessoas que encontram a promessa de alegria pessoal e compreensão mútua e percebem, com alguma tristeza e também aceitação de que as coisas mais importantes da vida não passam apenas por sermos  felizes.

        O filme estreou em junho de 1995 e foi um sucesso de bilheteira, tal como o livro também já fora. A crítica também foi practicamente unânime na sua apreciação da obra. Infelizmente em termos de prémios, apesar de alguns prémios recebidos em diversos festivais internacionais, em casa, o filme, infelizmente, ficou-se apenas por uma nomeação para o Oscar de Melhor Actriz para Meryl Streep, o que, manifestamente, é muito pouco para um filme maior na filmografia do seu realizador e considerado como uma das obras-primas da década de 90 do século XX.

             

 

domingo, 24 de março de 2024

EMERSON, LAKE & PALMER II


 

         


O trio, depois de um longo período de férias, sentindo-se revigorado, reuniu-se novamente em 1976, nos “Mountain Studios”, em Montreux, na Suiça e mais tarde nos “EMI Studios”, em Paris, França, para gravar um novo álbum. “Works Volume 1”, foi o título escolhido para o novo trabalho, editado em março de 1977, e, quando o título foi anunciado, imediatamente se começou a pensar que iria ser um “best of” dos primeiros álbuns do grupo.

        


Tratou-se de um duplo álbum em que os três primeiros lados são dedicados a cada um dos membros do grupo para que pudessem apresentar temas da sua própria autoria e o quarto lado apresentava composições do grupo. Keith Emerson contribuiu com “Piano Concerto nº 1”, um tema de 18 minutos dividido em três movimentos para piano e orquestra. O virtuosismo do músico com qualquer instrumento de teclas fica bem patente nesta peça, aliás durante grande parte da década de 70, Emerson manteve uma amigável disputa sobre quem era o melhor teclista do mundo com Rick Wakeman dos “Yes”, mas que por esta altura tinha saído do grupo e dedicava-se a uma carreira a solo. Emerson fez-se então acompanhar pela “London Philharmonic Orchestra”. Era sua intenção deixar escrita uma peça para ser futuramente tocada por outros músicos e quando chegou a altura de a inserir no álbum, contou com a colaboração do Maestro John Mayer, que conduziu a orquestra, para os arranjos finais. Greg Lake, no lado dois do álbum, apresentou uma série de baladas acústicas, escritas por ele e por Peter Sinfield, onde se destacam “C’est LaVie”, um lindíssimo tema que, juntamente com “Lucky Man” passou a fazer parte do alinhamento dos concertos, e “Closer to Believing”. O lado três do álbum ficou a cargo de Carl Palmer que, além de alguns temas da sua autoria, gravou alguma versões de temas clássicos como “The Enemy God  Dances with the Black Spirits” de Sergei Prokofiev com arranjo de Emerson, Lake e Palmer, “L.A.Nights” com a participação de Joe Walsh, o guitarrista dos “Eagles”, ou “Two part Invention in D Minor”, de Johann Sebastian Bach com arranjo feito pelo próprio Palmer. Finalmente o lado quatro do álbum contém dois temas: “Fanfare for the Common Man” de Aaron Copland (novamente autorizado pelo próprio) com arranjo feito pelo grupo e “Pirates”, baseado num tema que Emerson tinha escrito para o filme “The Dogs of War”, baseado num livro de Frederick Forsyth que acabou por ser cancelado. O tema, inicialmente fora escrito com mercenários em mente, o que Lake achou desagradável e queria que o tema fosse sobre outra coisa qualquer. Sinfield, ao ouvir o tema, imaginou cenas marítimas o que lhe trouxe à memória piratas. A ideia agradou ao grupo e Lake e Sinfield escreveram a letra.

            O álbum foi editado na altura em que o movimento Punk estava a começar a dar cartas na cena musical, o que levou a fosse recebido com uma mistura de críticas tanto positivas como negativas e é geralmente visto como o princípio da curva descendente do grupo, apesar de “Fanfare for the Common Man” e “C’est La Vie” , os singles escolhidos, terem feito uma boa carreira nos tops em ambos os lados do atlântico.

     


Em novembro de 1977, “Works Volume 2” viu a luz do dia. O álbum continha temas gravados entre 1973 e 1976 durante as várias sessões de gravação dos álbuns anteriores e nunca foram usados. Entre os diversos temas compilados dessa altura, destacaram-se “When the Apple Blossoms Bloom in the Windmills of Your Mind I’ll be Your Valentine”, “Tiger in a Spotlight” e “Watching Over You” como os singles lançados para apresentação do disco. Incluia também o tema “Brain Salad Surgery”, do álbum de 1973, mas que devido á limitação de duração dos discos em vinyl, ficou de fora. No álbum vinham também algumas versões de temas como por exemplo “Maple Leaf Rag” de Scott Joplin, um dos temas mais famosos do tempo do “Ragtime”, “Honk Tonk Train Blues” um tema de “Boogie Woogie”, escrito por Meade Lux Lewis, arranjado Por Emerson, além claro, de algumas baladas escritas por Lake e Sinfield. 

O álbum não foi o sucesso comercial que o grupo esperava obter tal como já havia acontecido com os seus antecessores, mas, mesmo assim, foi motivo suficiente para que o grupo fizesse nova tournée de suporte aos dois álbuns. Entre maio de 1977 e fevereiro de 1978, o grupo percorreu os Estados Unidos e o Canadá com 120 concertos, inicialmente, com uma orquestra a acompanhar o grupo e que foi rapidamente posta de parte devido ao orçamento que toda aquela logística implicava. O último concerto com orquestra e coro aconteceu a 26 de agosto de 1977 no “Olympic Stadium” em Montreal, no Canadá perante uma assistência estimada em cerca de 80.000 pessoas e que seria a base do álbum ao vivo, 

“Emerson, Lake & Palmer in Concert”, editado em 1979 e que seria posteriormente re-editado numa versão expandida e re-intitulado “Works Live”, em 1993. O álbum, apesar de igual a tantos outos discos ao vivo abria com uma fanfarra introdutória do grupo e arrancava para uma excepcional versão de “Peter Gunn” um tema escrito por Henry Mancini para uma série de televisão dos anos 50 e 60 com o mesmo nome, com um arranjo musical feito pelo trio, que nunca tinha sido editada em nenhum dos seus álbuns  e que veio a ser nomeada para um prémio “Grammy” como “Melhor performance Rock Instrumental”. O disco incluía temas que abarcavam toda a carreira do grupo, como “C’est La Vie”, “Knife-Edge”, “Piano Concerto Nº1, Third Movement:Toccata com Fuoco” ou “Pictures at an Exhibition”, tocadas com a orquestra e outros em que apenas tocava o grupo. 

Emerson diria mais tarde, que tinha sido um erro querer usar uma orquestra durante a tournée, mas era grande a sua vontade de o fazer e não se via a tocar alguns dos temas sem ela. Admitiu também que o grupo se estava a aproximar do final da sua existência.

            


Depois da tournée de 1977-78, o grupo estava exausto e preocupado com o seu futuro imediato. O relacionamento entre os três elementos tinha-se vindo a deteriorar desde o início da tournée, Emerson queria reorganizar o grupo mantendo apenas a estrutura musical com um piano, uma guitarra-baixo e bateria deixando de lado toda a panóplia musical que os movera até ali, além de que a “Atlantic Records” queria que eles gravassem um novo disco para cumprirem o contrato. O trio deslocou-se então para o “Compass Point Studio”, em Nassau, nas Bahamas para trabalhar no novo disco. Nascia assim “Love Beach”, o mais desinspirado álbum que o grupo alguma vez gravou. As sessões de gravação foram difíceis, não só pelo mau ambiente que se verificava entre os três, mas também devido ao facto de Keith Emerson começar a desenvolver uma dependência de drogas que o impedia de trabalhar ou colaborar com outras pessoas. Peter Sinfield foi chamado para ajudar Lake a escrever as letras das canções do álbum que se pretendia que fosse mais orientado para a música pop. Escreveu-as quase todas, com excepção do tema “Canario”, um instrumental baseado no tema “Fantasia para um Gentilhombre” de Joaquin Rodrigo, um compositor Espanhol.

 Em novembro de 1978, o álbum foi lançado e “All I Want is You” foi o único single que se conseguiu arranjar para promover um álbum que não tinha nada a ver com o virtuosismo musical que o grupo tivera no início da sua carreira, a única aproximação a esses tempos e mesmo assim de uma forma muito pálida foi “Memoirs of an Officer and a Gentleman”, um tema com 20 minutos de duração e que ocupa todo o segundo lado do álbum. Dividido em quatro partes, é uma peça conceptual que fala de um romance entre um soldado e a sua noiva durante a IIª Guerra Mundial. O álbum nunca foi objecto de tournée porque o relacionamento entre o grupo deixara de existir. Greg Lake e Carl Palmer, mal completaram as suas partes, regressaram a Inglaterra deixando Keith Emerson entregue à produção.

A crítica arrasou o álbum e o público virou-lhe as costas. O disco nunca chegou aos lugares cimeiros dos tops, mas ainda conseguiu ser Disco de Ouro (vendas superiores a 500.000 unidades) nos Estados Unidos. Pouco tempo depois, já em 1979, o grupo separou-se sem fazer qualquer anúncio da sua separação, seguindo caminhos musicais separados.   

            


Keith Emerson, livre dos compromissos com os seus ex-colegas, dedicou-se à composição de bandas sonoras para filmes. O músico fez também alguns álbuns a solo e diversas colaborações mas tudo muito pouco relevante. Greg Lake regressou aos King Crimson com quem ainda gravou álbuns. Por fim, Carl Palmer, inicialmente formou os “PM” que gravaram apenas um álbum, antes de se juntar aos “Asia”, um dos primeiros supergrupos da década de 80 composto maioritariamente por músicos vindos de grupos da década de 70. Mas a meio da década de 80, as coisas iriam mudar.

            


Em 1985, Emerson e Lake, achando que já tinha passado o tempo necessário para se repensar o futuro, resolveram fazer uma reunião dos três membros originais da ELP. Palmer declinou o convite pois encontrava-se comprometido com os “Asia” que por esta altura estavam em tudo o que era tops musicais. Os dois elementos do grupo convidaram então o antigo baterista dos “Rainbow”, Cozy Powell para integrar o trio. O único álbum gravado pelo grupo, “Emerson Lake & Powell”, foi editado em maio de 1986. Foi escolhido o tema “Touch and Go”, inspirado numa canção folk Inglesa adaptada por Emerson, para apresentação. Nem o álbum nem o single fizeram grande história na música, apesar do grupo ter feito uma tournée de apresentação na qual tocavam também temas de Emerson Lake & Palmer. 

        


A reunião não resultou e, em breve, o trio estava separado. Em 1988, Keith Emerson juntou-se a Carl Palmer, que, entretanto saíra dos “Asia” e formaram, juntamente com o guitarrista Robert Berry, o grupo “3”, que depois de um álbum, também se separaram. Porém, a década de 90 que se aproximava, iria trazer boas notícias aos ELP originais.

            Foi em 1990 que Phil Carson, um antigo executivo da “Atlantic Records” aproximou-se do trio original com uma proposta para se reunirem e compor música para um filme. O projecto cinematográfico num viu a luz do dia, mas o trio começou a avançar com novos temas musicais inovadores e, em três meses, tinham preparado material para um novo álbum em detrimento da banda sonora de um filme. Dotados de toda uma moderna tecnologia, que complementava o seu trabalho durante as sessões de gravação, os estúdios da “Atlantic Records” aproveitaram a ocasião para fazer sair um “besto of” da banda com algum do seu material antigo que seria seguido, em 1993, com uma caixa com quatro discos com material inédito.


                   


“Black Moon  foi editado em julho de 1992. Apesar dos temas “Paper. Blood” e “Black Moon”, o tema-título, o álbum não conseguiu vingar nos maiores tops do mundo.  Os ELP, agora animados por estarem de novo juntos, fizeram uma tournée mundial de suporte ao álbum entre 1992 e 1993 que encerrou com concertos no Royal Albert Hall, em Londres e que deram origem a mais um álbum ao vivo, “Live at the Royal Albert Hall”,

 onde o grupo mostrou aquilo que valia a quem lá esteve e posteriormente num DVD editado com o mesmo título, para quem nunca os viu ao vivo, onde o grupo percorre toda a sua carreira.

            



O novo contrato com a editora obrigava à gravação de pelo menos dois álbuns, o que o grupo quis cumprir. Em 1994 “In The Hot Seat”, o nono e final álbum do grupo viu a luz do dia. Pontuado por diversos problemas financeiros e de saúde dos músicos Keith Emerson e Carl Palmer, a escrita, a produção e gravação dos temas foi demorada. Os estúdios queriam um álbum mais comercialmente orientado e foram trazidos diversos compositores para ajudar na escrita de temas. O álbum foi um completo fracasso comercial, ainda maior que “Love Beach” no já distante ano de 78. O estúdio ainda tentou salvar o álbum ao lançar temas como “Hand of Truth” ou “Daddy” como singles, mas pouco ou nada havia para salvar. Houve várias tentativas para fazer tournées pelos Estados Unidos e Japão, mas era tudo muito dispendioso a que se juntavam os problemas de saúde dos membros do grupo.

            Para recuperar algum investimento, em 1996 e 1997, o grupo aceitou fazer as primeiras partes de grupos como Jethro Tull, Deep Purple ou Dream Theater, nas quais conseguiam incluir um alinhamento de algumas das sua peças mais famosas. 

Havia planos para a gravação de um novo álbum, mas as fricções entre os membros de grupo reapareceram com Emerson a querer ficar com os louros como produtor ou que Lake não queria  contribuír com temas originais em detrimento de um possível álbum a solo, o grupo separou-se novamente em 1998.

           


 Já no século XXI, na primeira década, apesar de alguns encontros esporádicos para tocar em nome dos velhos tempos, houve planos para uma nova reunião para comemorar os 40 anos da formação do grupo que seria em forma de tournée com um alinhamento musical que incluiria temas, não só do grupo, mas também dos Nice e de King Crimson. O concerto inicial aconteceu no “High Voltage Festival”, no Victoria Park, em Londres, a 25 de julho de 2010, com enorme sucesso por parte de uma audiência carregada de entusiastas e fans do grupo. No final desse ano seria editado o duplo álbum ao vivo “High Voltage”. Foi também a última vez que o trio tocou junto.

            A 11 de março de 2016, Keith Emerson suicidou-se com um tiro na cabeça e a 7 de dezembro do mesmo ano, Greg Lake morreu de cancro, deixando apenas Carl Palmer como herdeiro e responsável por todo o espólio musical do grupo que continua a apresentar em concertos com a sua própria banda, sob a designação de “Carl Palmer’s ELP Legacy”.

MIKE OLDFIELD III

                                                          MIKE OLDFIELD III                               - Depois da fama, o Ocaso (1987-20...