terça-feira, 20 de outubro de 2026

NORMAN JEWISON II – A Consolidação e Final de Carreira



A década de 80 começou relativamente bem para Norman Jewison ao produzir, Juntamente com Patrick Palmer, seu colaborador habitual desde a década anterior, o filme “The Dogs of War – Cães de Guerra” (John Irvin, 1980), um filme de acção baseado no best- seller de Frederick Forsyth. O filme não foi um grande sucesso de bilheteira mas igualou o custo da sua produção e permitiu a Jewison continuar a sua carreira sem qualquer problema.


Em 1982 “Best Friends – As Loucuras de um Casal”, foi o seu projecto seguinte, desta vez como realizador e um regresso à comédia. A história é a de um casal que após cinco anos de vida em comum, tanto pessoalmente como profissionalmente, decidem casar e é aí que começam os problemas. Com Burt Reynolds e Goldie Hawn no elenco, o filme foi um sucesso de bilheteira, mas arrasado pela crítica que considerou a escolha dos actores como bastante desequilibrada, já que Reynolds era um actor mais ligado a filmes de acção, com poucas comédias no seu activo e apenas Hawn, sempre ligada á comédia, conseguiu salvar o filme do fracasso.

           
 Revisitando o tema das tensões raciais, que haviam tornado famoso na década de 60, a atenção de Jewison volta-se, em 1984, para uma peça teatral, escrita por Charles Fuller e vencedora do prémio Pulitzer. “A Soldier’s Story – A História do Soldado” foi adaptada pelo próprio autor para o grande écran. O Capitão Davenport, do exército americano é encarregado de investigar a morte do duro Sargento Waters, instructor de um pelotão de soldados negros numa base segregacionista da Louisiana durante a IIª Guerra Mundial.

A tensão racial, a questão estrutural do “Who Dunnit”, a autenticidade histórica e a constante estimulação intelectual do drama mudam as ideias previamente assumidas pelo espectador.

No elenco pontuavam os nomes de Howard Rollins JR., Adolph Caesar, Art Evans e um ainda relativamente desconhecido Denzel Washington, que, graças à mestria da realização de Jewison e uma excepcional direcção de actores, entregam interpretações marcantes, principalmente Adolph Caesar que foi nomeado para o Oscar de Melhor Actor, uma das três nomeações, incluindo outra para Melhor Filme do Ano, que o filme recebeu. 

Tanto o público como a crítica responderam positivamente ao filme, fazendo dele um dos grandes sucessos do ano, apenas atrás de “Indiana Jones and the Temple of Doom – Indiana Jones e o Templo da Perdição” e “Amadeus – Amadeus”. Também em 1984, o realizador produziu o filme “Iceman” de Fred Schepisi.

            
Animado pelo sucesso obtido, o filme seguinte do realizador foi novamente uma adaptação duma peça teatral de sucesso. “Agnes of God – Agnes de Deus”, escrita por John Pielmeier viu a luz do dia em 1985. Num convento do Quebec, no Canadá, uma noviça ingénua é encontrada com um bébé recém-nascido morto no colo. O tribunal aponta a psiquiatra, Dra. Martha Livingston, para investigar o caso. 

No elenco, os nomes de Jane Fonda, Anne Bancroft e Meg Tilly comandavam um elenco maior, mas a história apenas gira à volta delas, tal como no teatro acontecera. Uma vez mais, Jewison consegue gerir e tirar o melhor partido das actuações das actrizes, principalmente Anne Bancroft como a Madre Superiora do convento. Grande sucesso de bilheteira tanto a nível doméstico como internacional, a crítica gostou, não tanto como do filme anterior, mas mesmo assim a Academia nomeou-o para três Oscares.

           


 Em 1986, depois de um desacordo com o produtor britânico David Puttnam, chefe de produção da Columbia Pictures, Jewison deslocou a sua produtora, Yorktown, para a Metro-Goldwyn-Mayer com um contracto de três anos para realizar, produzir ou desenvolver qualquer projecto seu ou de terceiros. Com carta branca por parte dos executivos da MGM, o realizador avançou para o seu filme seguinte, que se revelou ser uma das comédias românticas mais populares de sempre. “Moonstruck – O Feitiço da Lua”. A história é a de Loretta Castorini, uma livreira de Brooklyn, Nova York, que se vai achar em dificuldades quando se apaixona por Ronny, irmão do homem com quem é suposto casar, enquanto tenta resistir aos avanços do seu futuro cunhado, ela sente-se cada vez mais atraída para ele, ao mesmo tempo que descobre não ser a única a ter um romance secreto. No elenco estavam os nomes de Cher, Nicholas Cage e Olympia Dukakis, além de Vincente Gardenia e Danny Aiello. Todas as tensões e situações do filme, tanto as cómicas, como as mais sérias, são muito bem geridas pelo realizador e pelo elenco.

O filme foi um enorme sucesso de bilheteira e foi nomeado para seis Oscares da Academia, vencendo em três categorias: Melhor Actriz para Cher, Melhor Actriz Secundária para Olympia Dukakis e Melhor Argumento Original para John Patrick Shanley. Norman Jewison recebeu aqui a sua terceira nomeação para Melhor Realizador.

            


O realizador fecharia a década de 80 com um novo drama, desta vez sobre a guerra do Vietname e os seus veteranos. “In Country – Um Herói como Nós” trazia no elenco um Bruce Willis acompanhado por Emily Lloyd e Joan Allen e contava a história de uma jovem, cujo pai morreu no Vietname e ela tenta saber mais coisas sobre ele e sobre as suas experiências com a ajuda do seu tio, Emmett Smith, também ele um veterano estropiado do Vietname. 

Apesar da excelente interpretação de Willis, o filme teve o problema de ter surgido pouco tempo depois de “Born On The 4th of July – Nascido a 4 de Julho” de Oliver Stone, com Tom Cruise, o que não ajudou a que o filme fosse um esperado sucesso, mas sim um fracasso de bilheteira. Ainda em 1989, produziria o filme “January Man – Agarrem este Detective” de Pat O’Connor.

            
A década de 90 começa para o realizador com mais uma comédia social, “Other People’s Money – Larry, o Liquidador” em 1991”. Um especulador compra acções numa empresa que está a desvalorizar no mercado e acaba por se apaixonar por uma advogada que é nada mais, nada menos, que a enteada do dono da empresa da qual ele comprou as acções.

A base do filme é a ganância dos anos 80, o capitalismo e aquisições corporativas. 

No seu elenco estavam os nomes de Danny DeVito, Gregory Peck e Penelope Ann Miller que nos brindaram com interpretações complexas, principalmente DeVito e Peck que, no entanto, não convenceram o público neste início de década e o filme não se conseguiu pagar.

            


Apesar do insucesso do seu filme anterior, o realizador pareceu querer recuperar a veia de comédia que nas décadas de 60 e 80 lhe haviam granjeado sucesso. “Only You – Só Tu” foi a expressão dessa vontade em 1994. Uma comédia romântica ao estilo de “Feitiço da Lua” passada em Itália. Quando era criança, Faith Corvatch fora prometida a um homem chamado Damon Bradley. Anos mais tarde, na véspera do seu casamento, Faith recebe uma chamada de um tal Damon Bradley a desejar-lhe felicidades. Sem pensar duas vezes, ela cancela o casamento e parte com Damon para Itália. Marisa Tomei e Robert Downey Jr. São o par romântico do filme, que funcionam com uma química quase perfeita, mas que, apesar das belas localizações italianas de Roma, Veneza e Positano, não convenceu nem a crítica nem o público, apesar da receita mundial do filme ter igualado o custo da produção.

            
Em 1996, Norman Jewison regressa com uma nova comédia com alguns toques de fantasia. “Bogus – Bogus”, e conta a história de um órfão que vive com a sua madrinha que descobre que o seu afilhado tem um amigo imaginário e que ela, chocada com o facto, também o consegue ver: trata-se de um charmoso mágico francês chamado Bogus. 

No elenco, os nomes de Whoopi Goldberg, Haley Joel Osment e o consagrado actor francês Gerard Depardieu (a tentar singrar no cinema americano), pouco mais conseguem fazer do que interpretar os seus papéis sem qualquer vislumbre de graça, fazendo deste filme o pior da carreira do realizador que tanto na opinião da crítica como na bilheteira falhou redondamente.

Pelo meio da década, o realizador serviu como Produtor Executivo do filme canadiano “Dance Me Outside” (Bruce McDonald, 1994) e regressou brevemente à televisão como Produtor do telefilme “Gerónimo – O Último Guerreiro” (Roger Young, 1993) e da série “The Rez” (1996-98).

            


No final da década (e também do século), o realizador regressa pela terceira vez à temática do racismo, um tema que sempre lhe foi querido. “The Hurricane – O Furacão”, onde conta a história verídica de Rubin “Hurricane” Carter, um boxeur falsamente acusado de um triplo homicídio em New Jersey nos anos 60 e a luta que travou para provar a sua inocência. No elenco estava Denzel Washington, naquele que terá sido um dos seus grandes papéis e que lhe rendeu uma nomeação ao Oscar de Melhor Actor. O filme foi um sucesso entre a critica e apenas um triunfo moderado na bilheteira mundial. Também em 1999, o trabalho do realizador foi reconhecido pela Academia de Cinema, Artes e Ciências ao ser receptor do prestigiado prémio Irving G. Thalberg.

Ainda em 1999, Jewison realizou para o canal de televisão HBO “Dinner With Friends”, baseado na peça de Donald Margulies, filme que foi nomeado para 2 Primetime Awards, incluindo uma nomeação para Norman Jewison.

            


Foi em 2003 que Jewison realizou o seu último filme, “The Statement – A Declaração”, com “Sir” Michael Caine, Tilda Swinton e Alan Bates no elenco, o filme, baseado num romance de Brian Moore, conta a história de um antigo executor nazi que se torna um alvo a abater, tanto por assassinos contratados, quer por investigadores da polícia. 

O filme não foi o sucesso esperado, nem sequer se conseguiu pagar na bilheteira mundial, apesar do excepcional trabalho dos actores, principalmente de Caine, cuja interpretação foi louvada pela crítica. Como realizador, merecia ter um final de carreira bem melhor.

            Norman Jewison faleceu a 20 de janeiro de 2024, com 97 anos de idade, deixando para trás uma carreira invejável que atravessou várias décadas, com grandes sucessos entre a variedade de géneros em que trabalhou.

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário

NORMAN JEWISON II – A Consolidação e Final de Carreira

A década de 80 começou relativamente bem para Norman Jewison ao produzir, Juntamente com Patrick Palmer, seu colaborador habitual desde a dé...