Impacto Súbito – A Vingança serve-se fria



       
Clint Eastwood, o último dos duros de um certo cinema que, ao longo de várias décadas, encheu as medidas a várias gerações de espectadores, principalmente nos westerns que fez na década de 60 ao serviço de Sergio Leone e de Don Siegel ou nos vários westerns, policiais, e outros géneros por que passou enquanto actor e  realizador, ensinou-nos que, além de se tornar legitimamente popular, principalmente com o Inspector Harry Callahan, a sua personagem mais famosa,  conseguiu reduzir á expressão mais simples a equação mais complexa que se possa imaginar: um grande homem, uma grande arma, um vilão e justiça instantânea!
     
Na zona da baía de São Francisco acontece um crime com contornos sexuais. O Inspector da polícia, Harry Callahan, conhecido pelos seus métodos poucos convencionais mas eficazes, como o seu próprio chefe reconhece, é chamado á investigação e esta vai levá-lo á pequena cidade costeira de San Paulo, na califórnia onde os segredos são muitos e poucos os que gostam de falar, principalmente com estranhos. Há medida que os crimes recomeçam, Callahan vê-se cada vez mais envolvido no mistério que os circunda e também com uma jovem artista com quem se cruza.
       
O  argumento inicial, escrito por Charles B. Pierce e Earl E. Smith, destinava-se a ser um filme para Sondra Locke, que seria produzido por Clint Eastwood, mas acabaria por ser adaptado por Joseph Stinson para um novo filme da série “Dirty Harry”, protagonizado novamente por Eastwood que também acabaria por o realizar. O actor e realizador não estava muito interessado em regressar á personagem, mas também precisava de um sucesso que lhe anadava a fugir desde “Escape From Alcatraz – O Fugitivo de Alcatraz” (Don Siegel, 1979), o último grande sucesso de bilheteira que obtivera. A orientação que pretendera fazer na sua carreira, procurando outros géneros, não tinha conseguido convencer muita gente, apesar da qualidade de alguns dos seus filmes mais recentes, portanto, quando o argumento deste filme lhe passou pelas mãos, Eastwood viu nele uma oportunidade de regressar a um dos seus grandes sucessos como actor.
     
Logo desde o início do filme, percebe-se que a intenção do realizador é, não apenas fazer um “comeback” em grande de Harry Callahan uma personagem marcante do cinema másculo e machista da década de 70, mas também quebrar as regras do género policial na sua vertente de “thriller”, indo mais além das convenções do género, o que o realizador consegue sem grande dificuldade e fá-lo, sem rodeios, ao mostrar logo o assassino, ou neste caso, a assassina nos primeiros minutos do filme. Assistimos então á execução levada a cabo pela assassina, onde, ao contrário dos filmes anteriores da série, Eastwood baralha e dá de novo, o assassínio não é visto, mas ouvido (numa excelente e rápida montagem em que se vê o casal dentro do carro, a sedução assume o seu papel, a arma surge subtilmente nas mãos dela apontada ás partes mais íntimas do homem e depois, num plano visto do exterior do carro ouvem-se duas detonações secas como se não quisessem interromper o silêncio da noite), logo a seguir, mostra a assassina junto a um penhasco numa atitude quase suicida, depois volta-se lentamente e vemos o seu rosto sereno e sem uma pinga de arrependimento pelo que acabou de fazer.  
   “Impacto Súbito”, o quarto filme da série “Dirty Harry”, é, basicamente, um filme-vingança em forma de tragédia e os motivos que levam a essa vingança são rapidamente explicados em vários “flashbacks” (cirurgicamente inseridos em alguns momentos-chave) que surgem ao longo do filme. Há dez anos atrás, Jennifer Spencer e a sua irmã, Elizabeth, foram violadas por um grupo de homens, durante uma feira. Elizabeth fica traumatizada para sempre e vive internada numa instituição e Jennifer, que se tornou uma pintora e ocasionalmente recupera carrousseis, não se esqueceu do que aconteceu e  quer vingar-se daquilo por que ela e a irmã passaram. A própria Jennifer, apesar da frieza com que leva a cabo a sua vingança, dá ao espectador (que desde o momento em que sabe quais são os seus motivos para levar a cabo aqueles assassinios, está do lado dela) a ideia que quer ser detida e dá mostras de alguma demência (a cena em que pinta o seu auto-retrato ou aquela em que se vê ao espelho e estilhaça-o com um tiro) que parece não ter fim.
   

Sob a direcção de Clint Eastwood é fácil perceber que este é visualmente o mais negro de todos os filmes da série: um vilão que é das coisas mais sádicas com que alguma vez o detective de São Francisco se deparou (pior ainda que “Scorpio”, o seu inimigo no primeiro filme da série); um chefe de polícia que esconde um segredo e nada faz para acabar com a onda de crimes que, de repente, acontece em San Paulo; a acção e violência surgem naturalmente (assim como o aumento do número de mortes), á medida que vamos acompanhando a investigação de Harry e a vingança de Jennifer , vamos percebendo que rapidamente Harry acabará por identificar a assassina e, sendo um romântico disfarçado de duro, acabará por se apaixonar por ela...mas irá matá-la? Prendê-la...ou não? É um dilema que acompanha Harry ao longo de toda a segunda parte do filme.
   
Para interpretar Jennifer, Eastwood escolheu Sondra Locke com quem já havia contracenado em outros filmes. O ar frágil, mas ao mesmo tempo, duro da  actriz e também a sua beleza, que não sendo estonteante, mas sim discreta, tornou-a a escolha óbvia para interpretar o papel. O realizador aproveita o seu ar frágil para a filmar em grandes planos ou em contraluz de forma a mostrá-la quase como um anjo vingador e em alguns momentos consegue quase esse efeito quase na perfeição ( a cena em que ela surge na garagem de Tyrone para levar a cabo a sua vingança); a sua faceta vingativa, ainda que um pouco humana, vem ao de cima numa breve cena quando Jennifer visita a irmã na instituição onde ela se encontra internada e conta-lhe como localizou e matou um dos homens que as violaram brutalmente, Eastwood mostra, no mesmo plano, o rosto de ambas as raparigas e, enquanto Jennifer fala, vê-se uma subtil alteração no rosto de Elizabeth como se ela quisesse sair daquele estado catatónico em que se encontra, mas não o faz (as lágrimas que lhe caem rosto abaixo no último plano, desmentem a sua última intenção).
   
Go ahead, make my day!
“Impacto Súbito” foi o mais rentável dos filmes da série (o filme custou cerca de 22.000.000 de dólares e, as suas receitas, só nos estados unidos, foram superiores a 67.000.000 de dólares) e, para isso, apesar dum argumento banal, mas sólido, onde não se perde tempo com coisas banais e apenas se deixou ficar o melhor, da realização segura e intuitiva de Eastwood num género onde nunca se deu mal, contribuíram definitivamente dois momentos que valorizam em definitivo o género em que o filme se enquadra: o primeiro momento  acontece logo no início, depois de mais uma  audiência em tribunal que correu mal, Callahan vai a um café que está em vias de ser assaltado, o inspector não se apercebe do que está para acontecer (ou finge que não vê?) e sai só para voltar momentos depois e surpreender os assaltantes em pleno acto, depois do tiroteio que se segue, Harry acaba por encurralar um dos assaltantes que segura um refém. Com a frieza que se lhe conhece, aponta-lhe a sua “Magnum .44” de cano longo e profere a frase “Go ahead, make my day”( literalmente, “Vá, faz-me ganhar o dia!”) que se tornou viral daqui para a frente, muitas vezes pronunciada, muitas vezes imitada, mas nunca igualada, a frase ganhou estatuto de “superstar” iconográfico no universo da sétima arte. O desfecho, porém, não será aquele que se pretendia.
O segundo momento acontece no final, quando Callahan se vai confrontar com Mick e os seus dois companheiros, numa cena, toda filmada de noite com o herói a fazer a sua aparição num contraluz (digno do melhor justiceiro) homenageando o melhor Western, onde o inspector reitera, pela segunda vez, no filme a sua frase mortífera “Go ahead, make my day” e desta vez o resultado não se faz esperar.
   
Com “Impacto Súbito”, Clint Eastwood firmou os seus créditos como realizador e, ao mesmo tempo,  como já disse atrás , valorizou um género atribuindo-lhe um carácter no qual, não apenas se valoriza a acção, como também personagens como aquele que Sondra Locke interpreta, podem e devem ser, mais interessantes do que costumam ser, mas também podem ser e geralmente costumam ser, mais perversos pela crueldade das circunstâncias, do que nós habitualmente pensamos que são.



Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet














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