“Heaven’s Gate” - Ás Portas do Céu – Um Filme injustiçado


   
Há filmes que ficam na história do cinema pelas melhores razões, mas também é verdade que também os há que figuram na mesma história pelas piores razões. E desses quase nunca reza a história. “Heaven’s Gate – Ás Portas do Céu”,  realizado em 1980 por Michael Cimino, foi um desses filmes que ficou na sétima arte pelas segundas razões, mas que, ao contrário de muitas outras produções, esta acabou por ser reconhecida como uma das maiores injustiças do cinema.
   Em 1890, a cidade de Casper, no Condado de Johnson, no Wyoming, está a ferro e fogo, pois a Associação dos Criadores de Gado, constituida por homens ricos já estabelecidos no território está em Guerra com os emigrantes europeus recém-chegados ao Wyoming que por vezes lhes roubam o gado para alimentar as suas numerosas familias. Os nativos têm na sua posse uma lista com 125 nomes  que irão ser assassinados. Será a Jim Averill, um “Marshall” de passagem pela cidade a quem os emigrantes irão recorrer para impedir que aquele massacre aconteça.
   Em 1971, Michael Cimino era um aspirante a realizador. O seu nome já aparecera nos créditos de alguns filmes de Hollywood como argumentista e foi nessa qualidade que apresentou o argumento de “Heaven’s Gate” (então chamado “The Johnson County War”) aos executivos da United Artists. O argumento circulou pelos estúdios durante algum tempo, mas, por não atrair nenhum nome sonante, acabou por ser arrumado durante alguns anos. Foram precisos dois sucessos do realizador “Thunderbolt and Lightfoot – A Última Golpada” (1974, produzido e protagonizado por Clint Eastwood) e o multipremiado  “The Deer Hunter – O Caçador” (1978) para que recebesse luz verde dos executivos da United  e voltasse a pegar no argumento.
   
O filme é dividido em três partes: o início, passa-se em 1870 em Harvard e funciona como uma espécie de prólogo e nele conhecemos Jim Averill (Kris Kristofferson) e Billy Irvine (John Hurt), que são dois finalistas daquela universidade que, depois de serem formados, tomam parte, juntamente com os restantes finalistas, numa serenata ás suas namoradas presentes no evento. Na segunda parte, a acção passa para Johnson County, no Wyoming, em 1890 onde decorre praticamente toda a acção do filme. Passaram-se 20 anos desde a sua formatura, Averill, agora “Marshall” dos Estados Unidos, reencontra Billy Irvine que está do lado da Associação dos Criadores de Gado e toma conhecimento do que está para acontecer, mas não se quer meter porque acha que o assunto não lhe diz respeito por que ele está apenas de passagem pela cidade e a sua atenção está focada na bela Ella Watson (Isabelle Huppert), dona dum bordel, dividida entre dois amores, por Averill e por Nate Champion (Christopher Walken), pistoleiro de renome e amigo de Averill. Mais tarde ou mais cedo, as posições de cada um terão que se extremar e as consequências que dai resultantes  serão penosas para todos os envolvidos.
   
Finalmente a terceira parte passa-se em Newport, Rhode Island, em 1903 e funcionará como um epílogo. Jim Averill já não é o mesmo homem que era, as feridas do passado são mais que muitas e profundas (apesar de já se terem passado mais de dez anos e estarmos num novo século), dos acontecimentos sangrentos que testemunhou e que viveu “in loco” e isso nota-se na longa cena que encerra o filme, é uma cena feita de silêncios cúmplices e acusatórios e recordações dolorosas de perdas  duma vida que, apesar de toda a sua classe e riqueza nunca mais foi a mesma.
   A rodagem teve início em abril de 1979 e seria terminada quase um ano depois, em março de 1980. A data inicial para terminar a rodagem era dezembro de 1979, mas Cimino achava-se um perfeccionista e queria tudo o mais realista possível, por isso mandou desmontar cenários, repetir “takes”, alterou a ordem da rodagem, reescreveu o argumento inúmeras vezes para que tudo ficasse o mais fiel possível á sua ideia. Conforme ia atrasado a produção, assim também aumentaram os custos.
 
 De um orçamento inicial de cerca de 11.000.000 de dólares, a produção final ficou em cerca de 44.000.000 de dólares! O triplo daquilo que estava planeado. Entre muitas histórias que se contaram sobre a rodagem e contadas num livro intitulado “The Final Cut”, algumas houve que davam Cimino como despedido por incompatibilidades pessoais (e essa hipótese esteve várias vezes em cima da mesa dos executivos do estúdio durante a interminável rodagem), não só com os actores, como também com os técnicos, e que estaria a ser considerado convidar David Lean para tomar o leme das rodagens. O realizador britânico negou que tivesse sido convidado para o terminar o filme pois isso era contra os regulamentos da “Directors Guild of America”, pois o realizador original ainda não tinha sido despedido. Outra história famosa, do mesmo livro, conta que durante a pos-produção, o realizador terá mudado a fechadura da sala de montagem para proibir os executivos do estúdio (que já estavam fartos do realizador e da sua megalomania), de verem o filme até a montagem estar concluída. A equipa de editores queixou-se, mais tarde, de que Cimino os obrigava a montar o filme de acordo com a sua visão, desprezando a técnica de cada um, porque estava convencido que o seu filme se iria tornar numa obra-prima. Algum tempo depois, um elemento anónimo de dentro do estúdio terá dito que “O nível de pretensão dentro daquela sala de montagem só foi igualado pelo nível do desastre financeiro em que o filme se tornou”.
   
Em Junho de 1980, o realizador faz um visionamento do filme aos executivos da United Artists. Com uma duração de cerca de cinco horas e vinte e cinco minutos, que Cimino disse “ ser quinze minutos mais longa do que seria a versão final”. Os executivos recusaram-se a estrear um filme com aquela duração e consideraram novamente despedir o realizador. Mas Cimino prometeu-lhes que iria remontar o filme para uma duração mais aceitável. Durante quatro meses, o realizador fechou-se na sala de montagem a trabalhar na versão do filme que estreou em novembro de 1980, com a duração de 219 minutos.
   Lá diz a sabedoria popular que “o que nasce torto  tarde ou nunca se endireita” e foi precisamente isso que aconteceu a “Heavens  Gate”. Ao fim duma semana de exibição, de más receitas de bilheteira e de péssimas críticas, a United Artists e o realizador, retiraram o filme  de circulação e adiaram a sua estreia mundial.  Em april de 1981, o filme estreou novamente numa versão do realizador de 149 minutos, ou seja, pela terceira vez consecutiva, o filme foi remontado e desta vez foram cortados mais de dois quartos de cenas. Esta versão, não só era menor em duração, mas também se diferenciava radicalmente da anterior na montagem de cenas e escolha de “takes” dessas mesmas cenas. Mas ainda não seria desta que o filme iria resultar. Ao fim de duas semanas de exibição e tendo feito uma bilheteira de apenas 1.300.000 dólares, o filme saiu de exibição e, desta versão, nunca mais se ouviu falar porque nunca foi editada nos Estados Unidos, mas chegou á europa onde obteve algum sucesso porque o público europeu ainda se lembrava do sucesso mundial que fora “O Caçador”. A promissora carreira de Cimino pareceu ter-se afundado com a United Artists. O seu nome passou a ser sinónimo de desastre e nem sequer os dois únicos filmes que conseguiu realizar na década de 80, “The Year of the Dragon - O Ano do Dragão” (1985) e “The Sicilian - O Siciliano” (1987) conseguiram retirar o seu nome da lista dos mais indesejáveis de Hollywood
   
Em 1982, o canal de TV por cabo,  “Z Channel” exibiu a versão de 219 minutos que estreara em 1980 – foi a primeira vez que essa versão foi exibida e foi também graças a essa exibição que a expressão “Director’s Cut”, largamente publicitada por esse canal, se tornou tão popular que, hoje em dia, as “Director’s Cut”, são como que o “Santo Graal” de qualquer filme!
Durante vários anos, esta versão, de 219 minutos, distribuída posteriormente pela MGM, que adquiriu todo o catálogo da United Artists quando esta faliu, foi a única a circular em todos os circuitos e era vulgarmente chamada de “Uncut” ou “Original Version”, ou ainda “Heaven’s Gate…The Legendary Uncut Version”. Inúmeras vezes, Michael Cimino, quando questionado sobre a “Original Version”, insistia de que não a considera como tal porque, por se encontrar sob demasiada pressão para estrear o filme nas datas previstas, mas, essencialmente como uma espécie de “Filme inacabado”
   
Em 2005, foram localizados diversos negativos, ainda em boas condições que incluíam diversas cenas que nunca tinham sido vistas no cinema. O filme foi remontado, aumentando consideravelmente a metragem. a MGM estreou o filme em algumas salas nos estados unidos e na europa, sempre com casas cheias de um público que começava a mudar a sua opinião acerca do filme, e a presença, além de todo o elenco que incluía, Kris Kristofferso, Christopher Walken, Isabelle Huppert, John Hurt, Sam Waterston, Jeff Bridges, entre outros, de Michael Cimino. Por falta de verba dentro da MGM, esta versão nunca foi comercializada.
   
Em 2012, 32 anos depois da estreia, a MGM estreia no Festival de Veneza, uma versão digitalmente restaurada de “Heaven’s Gate” com a duração de 216 minutos, supervisionada pessoalmente por Michael Cimino e na qual ele explica que (finalmente) esta é a versão que ele sempre quis fazer e que é a sua preferida…longe vão os tempos da megalómana (suposta) versão de mais de cinco horas de duração cuja, existência, de resto, nunca foi confirmada por ninguém, nem pelo próprio realizador e argumentista, que continua em busca de um rumo que terá perdido algures durante a produção deste filme.
   Com a chegada do novo século, a obra tem sido reavaliada pela crítica e pelo público e tem sido objecto de uma nova atenção, não sei se, por obra e graça das novas tecnologias, se pelo facto de já se ter escrito e falado tanto deste filme. Hoje, grande parte do que se escreve sobre ele, é para explicar o porquê de se ter injustiçado tanto a visão grandiosa (embora algo megalómana) e crítica de um realizador sobre um episódio verídico que ocorreu no seu próprio país, mais do que a explicar o próprio filme.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet





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