Seven - Sete Pecados Mortais – O Triunfo do Mal

       
   
O filme do género policial, habitualmente, remete-nos para assaltos ou roubos, para ladrões e polícias que, geralmente, depois duma cuidadosa investigação, acabam por se envolver em perseguições e tiroteio. Recentemente surgiu dentro do género, uma nova vertente que envolve “crimes em série”, ou seja crimes que ocorrem durante algum tempo, em determinados locais e, á partida, sem ligação entre si, perpetrados por “ Serial Killers”, dos quais o mais famoso é “Hannibal “The Canibal” Lecter” brilhantemente interpretado no cinema por Sir Anthony Hopkins no multi–premiado “Silence of the Lambs – O  Silêncio dos Inocentes” (Jonathan  Demme, 1991)  e também na sequela  “Hannibal” (Ridley Scott, 2001) e respectiva prequela, “Red Dragon – Dragão Vermelho” (Brett Rattner, 2002). Em 1995 “Seven - Sete Pecados Mortais” levou o tema do  “Serial Killer” um pouco mais longe.
   
David Mills é um detective recém- transferido para o departamento de homicídios de uma grande cidade onde vai fazer parelha com William Somerset, um detective veterano que está para se reformar. Os dois começam a investigar um estranho homicídio e rapidamente chegam á conclusão que este foi meticulosamente planeado com alguns requintes de sadismo. Quando ocorre um segundo homicídio, igualmente meticuloso, estranho e sádico, os dois detectives começam a aperceber-se que alguém pretende usar os “Sete Pecados Mortais” como arma de crime. 

   Escrito por  Andrew Kevin Walker enquanto viveu em Nova York e tentava ser escritor de argumentos, Walker não gostou da sua estadia na cidade e “Seven” reflecte um pouco essa experiência, já que, nas suas próprias palavras “ é verdade que se eu não tivesse vivido lá, eu provavelmente nunca teria escrito “Seven”,  e quando finalmente conseguiu escrever qualquer coisa, pensou no actor William Hurt para desempenhar o papel de William Somerset, cuja personagem foi baptizada com o nome do autor favorito de Walker, W. Somerset Maugham. Um primeiro esboço foi entregue á New Line que recusou por considerar demasiado violentas algumas cenas, principalmente a cena final, optando por um final com elementos mais tradicionais, próprios de um thriller de detectives e mais cenas de acção. Andrew Kevin Walker entregou um segundo argumento que, após diversas recusas, acabou por ficar esquecido dentro de uma qualquer gaveta dos executivos da distribuidora.
Andrew Kevin Walker
   Foram considerados diversos realizadores e até actores para trabalharem no filme. Inicialmente era Jeremiah S. Chechik, autor de “Benny and Joon” (1993), o realizador escolhido pela New Line para o fazer e o actor seria Al Pacino, que acabou por desistir em favor de “City Hall – A Sombra da Corrupção” (Harold Becker, 1996). Após Pacino desistir, Chechik seguiu o mesmo caminho por discordar do final do filme que a distribuidora quis lançar, tornando o filme mais tradicional e próximo da clássica história detectivesca. Com o projecto a meio-gás, mas sem realizador, Michael De Luca, presidente da distribuidora resolveu enviar o argumento original  a David Fincher, cuja primeira experiência cinematográfica não correra bem e o realizador não tinha vontade de voltar a filmar, apesar de estar disponível e dando-lhe luz verde para filmar. A história agradou-lhe pois viu ali a possibilidade  de contar uma história psicologicamente violenta e quase desumana cujas implicações eram não tanto “porque se faz”, mas sim “como se faz”, além de a achar mais uma meditação sobre o mal do que um policial com todas as regras normais numa produção típica do género.
   
Realizado por David Fincher, que fora técnico de Efeitos Especiais na “Industrial Light & Magic” de George Lucas antes de se tornar realizador de publicidade e posteriormente realizadou  videoclips para nomes sonantes como Sting, Madonna, Rolling Stones, Billy idol, Michael Jackson, entre outros, deu nas vistas quando realizou o videoclip “Self Control”, o tema interpretado por Laura Brannigan onde mostra um seio da cantora. Catapultado para a fama, veio a realizar “Alien 3 – A Desforra”, em 1993, mal-amado pela crítica e pelo público  por ser demasiado filosófico  em vez de terror e acção  como haviam sido os seus antecessores; entre este “Seven”  e a sua obra-prima chamada “Fight Club – Clube de Combate” (1999) , fez “The Game – O Jogo” em 1997 com Michael Douglas e Sean Penn. A sua abordagem a “Seven” é feita num estilo documentário, inspirada em diversas séries de televisão e no policial clássico “The French Connection – Os Incorruptíveis contra a Droga” (William Friedkin, 1971).
  Logo desde o início que se percebe que este filme não será o típico thriller a que nos habituamos a ver: o genérico inicial corre sobre imagens de alguém, algures numa zona da cidade a cozer tiras de papel, a escrever páginas e a raspar a pele dos dedos. Presumivelmente é John Doe a preparar o seu trabalho e a dar ao espectador uma ideia do tipo de pessoas que os detectives vão ter pela frente: metódico e organizado.
Com  a acção situada numa qualquer cidade  (nunca se chega a saber o seu nome), ruidosa, cheia de gente estranha e onde chove constantemente  (talvez um piscar de olhos à Los Angeles de 2019 de “Blade Runner – Perigo Eminente”, segundo Ridley Scott) agindo como uma força opressiva á investigação dos detectives, era assim que Fincher queria mostrar aquela cidade, nas suas palavras “queria aquele mundo sujo, violento, poluído e, por vezes, deprimente...tudo tinha de ser autêntico e o mais cru possível, só assim é que o filme resultaria...”, ou seja, por resultados, entenda-se choque e era isso mesmo que Fincher queria: chocar audiências e, tendo um argumento que o iria fazer, nada melhor do que escolher um elenco onde esse choque resultasse para todos e ficava-se com o melhor de dois mundos: um grande filme e grandes interpretações.
   
Brad Pitt, recém-chegado de “Legends of the Fall – Lendas de Paixão”  (Edward Zuick, 1995), foi contactado por Fincher que o vira nesse filme e ficara impressionado com o seu potencial, leu o argumento e ficou entusiasmado com a possibilidade de compor a complexa personagem do Detective David Mills, jovem detective, recém-chegado aquela metrópole, que desconhece as amarguras da vida nas grandes cidades, casado com uma bonita e insegura jovem (Gwyneth Paltrow), e que, com o avançar da investigação, começa a conhecer um outro lado que até aí lhe passara ao lado, principalmente quando aceita a ajuda do veterano detective soberbamente interpretado por Morgan Freeman. Somerset  é um homem  experiente que viveu sempre no meio daquele universo sujo e decadente, tem um segredo obscuro no seu passado, e, agora que está á beira da reforma, não se quer envolver naquele caso, mas, ao mesmo tempo, sente que deve ajudar Mills.
   A dado momento, quase no final, Sommerset, em conversa com Mills, diz-lhe “Sabes que isto não vai  acabar bem”, Mills não concorda e diz que apanhar John Doe é apenas uma questão de tempo, ao que Somerset contrapõe lembrando que o criminoso já cumpriu quatro dos sete pecados mortais. Logo a seguir, quando é descoberto o quinto cadáver, é que nos começamos a aperceber que Somerset poderá ter razão no que diz. Acontece então o primeiro momento chocante do filme: John Doe (literalmente, “João Ninguém”), o “Serial Killer”, brilhantemente interpretado por Kevin Spacey (o actor que recebera um Oscar de Melhor Actor Secundário  pela sua interpretação em “Os Suspeitos do Costume” de Bryan Singer (1995),  pediu á produção para não incluir o seu nome no genérico inicial, para assim acentuar o efeito  choque da sua aparição), entra em cena, todo  ensanguentado para se entregar aos dois detectives. Nunca se havia visto nada assim no cinema policial nem em nenhuma das suas diversas vertentes. É mais uma regra que “Seven” e David Fincher  vieram quebrar.
   
Esta entrega voluntária (ou não, caberá a cada um ajuizar nesse sentido), do "Serial Killer" baralha as contas aos dois detectives e começa um jogo de vontades que durará até ao final, entre o maduro e cerebral Somerset ,o jovem e cabeça dura Mills e o meticuloso, frio e calculista John Doe que alega conhecer o paradeiro dos dois cadáveres que faltam e confessará os crimes, se forem os dois detectives a conduzi-los ao local onde se encontram, ou então alegará insanidade mental. Decidido a acabar com aquele caso, Mills aceita a condição, apesar das reservas e preocupação de Somerset. Tudo isto nos leva a uma das mais assustadoras cenas de que há memória no género desde “Manhunter – Caçada ao Amanhecer” (Michael Mann, 1986) a primeira aparição (embora secundária) de Hannibal Lecter na sétima arte: durante a viagem para o local onde Doe diz estarem os cadáveres em falta, este diz que foi Deus que o mandou punir “aqueles inocentes”, como lhes chama Somerset  e explica que os seus actos naqueles dias serão estudados, analisados e seguidos, além de tecer alguns comentários a Mills. Somos então conduzidos pela mão segura de Fincher até ao segundo momento chocante do filme: o final, quando são revelados os dois últimos pecados e permitindo que o mal, personificado por John Doe triunfe causando danos irreparáveis nas personagens.
  O impacto do final é tão chocante e inesperado que foi estudada a possibilidade de existir um final alternativo, que chegou, inclusive, a ser desenhado em “Storyboard”, mas Fincher não o quis utilizar, alegando que seria “contra-natura” utilizar-se outro final que não o previsto,  no que foi secundado por Brad Pitt.
   Estreado a 22 de setembro de 1995, o filme rendeu cerca de 13.900.000 de dólares na primeira semana, totalizando cerca de  100.100.000 de dólares  nos Estados Unidos e cerca de 227.100.000 de dólares no resto do mundo, fazendo com que “Seven - Sete Pecados Mortais” fosse o sétimo filme mais visto em 1995.
Indiscutivelmente um dos grandes  filmes da década de 90 do século passado.

Nota: as imagens e video que ilustram o texto foram retiradas da Internet




Comentários

Mensagens populares