O Rei Artur: Mito ou Realidade?

   O Rei Artur é uma figura lendária Britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores Saxões chegados à Grã-Bretanha (ou Bretanha como era conhecida na época) no início do século VI.  Os detalhes da sua história são compostos principalmente por folclore e literatura, a sua existência histórica, devido à escassez de antecedentes históricos ou por estes serem retratados em várias fontes, é debatida e contestada por historiadores modernos.
   A lenda do rei Artur ganha interesse através da popularidade do livro de Geoffrey Monmouth "Historia Regum Britanniae" (História dos Reis Britânicos) embora, o seu nome, tenha surgido em poemas e contos de Gales e da Bretanha, publicados antes deste livro. Neles, Artur surge com um grande guerreiro que defende a Bretanha dos homens e inimigos sobrenaturais e, portanto, associado com o Outro Mundo. No livro de Monmouth, mais baseado nos antigos do que inventado por ele, não existindo uma versão comprovada de veracidade do texto, os acontecimentos nele narrados são frequentemente usados como ponto de partida para as histórias posteriores. Geoffrey descreve o rei Artur como sendo um rei da Bretanha  que venceu os Saxões e estabeleceu um Império composto pela Bretanha, Irlanda, Islândia e Noruega.
   Na realidade muitos elementos e acontecimentos que fazem parte da história de Artur aparecem no livro de Geoffrey, incluindo Uther Pendragon, pai de Artur, o mágico Merlin, a espada Excalibur, o nascimento de Artur no castelo de Tintagel, Camelot, a sua batalha final em Camlann contra Mordred, e a ilha de Avalon. 
   A origem do rei Artur tem sido grandemente debatida pelos historiadores e estudiosos. Alguns acreditam que ele é baseado nalguma personagem histórica, provavelmente um chefe guerreiro da Bretanha que tenha vivido entre a Antiguidade Tardia e o inicio da Idade Média, donde terão sido criadas as lendas que hoje conhecemos. Outros acreditam que Artur é pura invenção mitológica, sem nenhuma relação com qualquer personagem real.
   O Artur histórico baseia-se em obras antigas como "Historia Brittonum" (História dos Bretões), escrito em Latim  por volta do ano 830 ou "Annales Cambriae" (Anais da Câmbria), escritos algures no século X, que relatam acontecimentos históricos ocorridos na Bretanha. Artur é apresentado como figura real, um líder romano-bretão (existiu um comandante romano que comandava os Sármatas na Bretanha no século II) que luta contra a invasão da Bretanha pelos Anglo-Saxões, situando a sua existência entre o final do século V e início do século VI. No entanto, ambas as obras tem sido postas em dúvida por estudos recentes que questionam a sua utilidade e  independência como fontes históricas. 
   Já o Artur mitológico terá vivido na Bretagne uma região da actual França, mais exactamente na região de Carnac e a sua história terá tido inicio no século V, quando Honório, imperador Romano mandou retirar as legiões e respectiva população romana da província da Bretagne, apenas as legiões situadas junto da Muralha de Adriano continuaram a cumprir o seu dever defendendo-a dos Pictos do norte e dos irlandeses que a atacavam constantemente. Inconformado com esta situação, Voltigern, um rei Picto pede ajuda aos Saxões do continente para tentar resolver esta situação. 
   Em finas do século V, Ambrosius Aurelianus, um romano da Bretanha, consegue derrotar os Saxões na famosa batalha de Mons Badicus e a situação acalma durante algumas décadas. Mas rápidamente a situação inverte-se e após uma série de batalhas, os reinos celtas da Bretanha ficam reduzidos à Cornualha e a Gales. No século VIII, Nennius, um Bretão, fala dos feitos de um comandante militar de nome Artur, que teria vencido 12 batalhas contra os Saxões. Mas, segundo os historiadores, Nennius tinha uma tendência de preencher lacunas com factos por ele inventados. Ele poderia muito bem ter embelezado a narrativa conforme as necessidades. Não foi ele, no entanto, o primeiro a referir o nome de Artur, já que baladas galesas do século VII, falavam num rei aventureiro do norte da Bretanha, que enfrentava seres fantásticos e corrigia injustiças.
   Nos finais do século XII, Chrétien de Troyes, escritor francês, escreve contos sobre as aventuras do Rei Artur, Sir Lancelot, Guinevere, o Santo Graal, Percival, Gawain, etc. Ao apoiar-se nos mitos populares, deu-lhes o seu cunho pessoal  e iniciou o género de romance arturiano que se tornou numa importante vertente da literatura medieval. Artur e as suas personagens eram muito populares na época e as histórias a partir da Bretanha, tinham-se espalhado por outros países. Salientam-se aqui algumas obras pela importância que tiveram para o nascimento do mito: O ciclo da "Vulgata" francesa (também conhecida como Matéria da Bretanha), "Parzival" de Wolfram von Eschenbach, "La Mort d'Arthur" (A Morte de Artur) de Thomas Mallory; Alguns escrevem sobre todo o ciclo desde a morte de Jesus Cristo até à morte de Artur, criando uma narrativa de séculos; outros descrevem apenas episódios que acontecem a cavaleiros (Tristão e Isolda é um exemplo) ou integram episódios sem ligação inicial ( O Mito do Santo Graal, a Távola Redonda, Tintagel, etc.), incorporam novas personagens ( Galahad).
   O século XVII viu o interesse neste género de narrativa perder algum interesse, embora na ópera se continue a utilizar o tema. Já o romantismo do século XIX fez renascer o interesse pelo tema (inclusive autores americanos como  Mark Twain com o seu "Um Americano na Corte do Rei Artur" homenageiam o género). No século XX, autores como Stephen Lawhead ( O ciclo Pendragon), Bernard Cornwell (O ciclo de "As Crónicas do Senhor da Guerra") e principalmente Marion Zimmer Bradley, conceituada escritora da ficção científica, revolucionou o tema com "The Mists of Avalon" (As Brumas de Avalon) ou a "Saga de Avalon", completaram o trabalho mantendo vivo o interesse e, com a ajuda do cinema e da banda desenhada, permitiram que cada vez mais público tenha acesso ao tema.
   Sem fim à vista, toda a polémica sobre a existência ou não do Rei Artur, continua bem viva: os historiadores, depois duma crítica ao mito, limitam-se a manter uma reserva sobre o assunto; os arqueólogos ( e estudiosos) preferem falar de um período sub-romano, definindo assim aquilo que poderia ser o período arturiano: os séculos V e VI. 
   Para nós, leitores e demais interessados, o que é que sobra, além das belas histórias? não sabemos se Artur existiu ou não, e não o podemos afirmar porque não existem relatos contemporâneos.
  

Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet.

   
   

Comentários

  1. Mais um texto muito interessante sobre a veracidade ou não do rei Artur, que, a ter existido, terá sido por alturas do declínio do Império Romano do ocidente. Mas é um facto que as peripécias de Artur e todas as outras personagens a elas associadas estão longe de acabar, porque é uma daquelas lendas que excita a imaginação de todos nós. Por isso, estou em crer que ainda assistiremos a mais relatos, filmes, músicas, pinturas, etc que irão beber a sua influência a uma das grandes mitologias do ocidente. Um abraço.

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