Era uma vez na América


 A América segundo Sergio Leone

     A América sempre exerceu um grande fascínio no realizador Italiano Sergio Leone. Foi lá que foi buscar o género que lhe haveria de dar fama dentro e fora da europa. Foi lá  que ele foi buscar os actores Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef para protagonizarem os seus westerns de sucesso. Não admira, pois, que o seu último filme tenha sido precisamente sobre essa América que tanto fascínio exerceu sobre a sua pessoa.
     Última parte duma trilogia dedicada à América, iniciada com “Aconteceu no Oeste (1968) e continuada com “Aguenta-te Canalha!” (1971). No primeiro, Leone mostrava uma América selvagem, feita de homens feios, porcos e maus, mulheres fúteis mas duras, assinalando também o avanço da civilização (simbolizada pelo caminho de ferro). No segundo, o tema é a Revolução, neste caso, é  a Revolução Mexicana que está no centro da acção daquele que é um dos filmes menos conhecidos e também menos amados do realizador. Em “Era uma vez na América”, o realizador fecha o ciclo ao explorar os temas da infância, amizades, amores frustrados, luxúria, inveja, perda e ralcionando-os com o nascimento e ascensão do Crime Organizado na sociedade americana.
    Leone começou a pensar neste filme ainda estava a meio da rodagem de “Aconteceu no Oeste”, quando leu o romance “The Hoods”, escrito por Harry Grey, pseudónimo de Harry Goldberg, antigo gangster que se tornou informador da polícia. A pré-produção do filme foi alvo de tantos avanços e recuos, que foram precisos treze anos, de uma dedicação sem precedentes, até que finalmente começassem as filmagens em 1982.
     "Era uma Vez na América" é contado através das memórias e recordações de Noodles (Robert DeNiro), que, em 1967, regressa a Nova York com o propósito de recuperar os corpos dos seus três amigos de infância.       
     A acção passa-se em três tempos distintos, cada um deles é importante para a consolidação do crime organizado na América. Cada tempo narrativo é reconstituído ao pormenor, principalmente em termos de fotografia (cada década tem um tom próprio) e impressiona só de se ver todo o trabalho de direcção artística, principalmente em 1920, nas sequências com as crianças.
    As interpretações são todas extraordinárias, principalmente Robert DeNiro e James Woods cujas interpretações dos dois amigos que começam o sonho que depois se torna num  império de crime organizado, são tão credíveis e realistas que nem parece que se trata de um filme. Todo o elenco que os acompanha, que inclui Elizabeth McGovern, Joe Pesci, William Forsythe, Tuesday Weld, Burt Young, Treat Williams, entre outros, faz deste épico uma experiência inesquecível.

    A realização de Sergio Leone é de uma dedicação quase extraordinária à história que conta. Com um ritmo deliberadamente lento e uma montagem propositadamente desorganizada, mas que faz milagres no que toca ás passagens no tempo (sendo a mais brilhante de todas aquela em que um envelhecido Noodles se passeia pelo café de Moe, vai até à casa de banho, abre o nicho na parede e, num belíssimo grande plano dos seus olhos, fruto dum excelente trabalho de montagem, recuamos no tempo), como se o filme fosse um gigantesco puzzle, cujas peças se vão encaixando e formando um magnífico  fresco da América de quase quatro horas de duração.
    Apesar da sua longa duração, estamos perante um filme que se vê de uma só vez  para isso terá contribuído grandemente a excelência da banda sonora da responsabilidade de Ennio Morricone, colaborador habitual de Leone. Juntamente com a grandeza das imagens, a música fala por si mesma. De tempos a tempos não existe uma única linha de diálogo, a música, conjugada com as imagens, contam a história. Morricone entendeu perfeitamente o que se pretendia contar e compôs cerca de três quartos da música sem o filme estar terminado.  
   A duração original do filme era de seis horas, que Leone queria dividir em duas partes, o que foi recusado pelos produtores devido ao fracasso critico e comercial de “1900” (Bernardo Bertolucci, 1976), que fora distribuído em duas partes. O realizador e o seu editor foram obrigados a reduzi-lo para uma versão de 269 minutos, que mesmo assim ainda foi considerada demasiado longa. Remontado por Leone para ser exibido em Cannes, o filme acabou por ficar com os 229 minutos  da duração corrente. Em junho de 1984, quando estreou nos Estados Unidos, o filme foi cortado para uma versão de 139 minutos pelo estúdio e contra a vontade do realizador que nunca autorizou a exibição da versão integral nos Estados Unidos até à sua morte em 1989. Nesta versão curta, as cenas de flashback foram alteradas e o filme foi montado por ordem cronológica tornando o filme impercebível contribuindo para o seu fracasso em terras americanas.
   A última imagem é simplesmente perfeita, ao mesmo tempo que é também enigmática. O filme termina onde começa. Noodles, em 1933,  refugia-se na casa de ópio chinesa para esquecer tudo o que se passou naquela noite, após uma baforada de droga, sente-se um homem livre, como quem se encontra noutro lugar, quiçá, noutra realidade ( se calhar  tudo o que vimos não passará duma fantasia da sua mente?) e simplesmente sorri espontaneamente, tornando  este último “close up” numa das mais belas imagens de toda a filmografia de Sergio Leone e traz-nos á memória o assombroso inicio de “O Padrinho” (Francis Ford Coppola, 1972) quando por sobre um écran totalmente negro se ouve a frase “Eu acredito na América…”


Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet
  


Comentários

  1. Rui, parabéns pelo blog e pelos textos.
    Um abraço.
    João Monteiro

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