O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
A Broadway sempre teve (e terá), através do seu poderio artístico,
grande influência na Sétima Arte e, na altura em que o Musical, género maior no
cinema, dava cartas, durante as décadas de 40, 50 e um pouco na década de 60,
muitos filmes foram buscar inspiração (escrita e artística) á Broadway, dando
origem a muitos sucessos cinematográficos que fizeram as delícias dum público
cada vez mais exigente.
Foi assim que a
peça teatral “Jesus Christ Superstar”, com música de “Sir” Andrew Lloyd Webber e
letras de “Sir” Tim Rice, que começou por ser um álbum conceptual, ganhou
estatuto de Ópera Rock, por causa do estilo musical em que foi escrita e dos
músicos que nele participaram (nomes como Ian Gillan, Murray Head, Neil
Hubbard, Chris Spedding ou Alan Spenner), obtendo um grande sucesso, acabou por
estrear na Broadway em 1971. Nela se narrava as lutas pessoais e políticas de
Jesus e de Judas Iscariotes e, vagamente, baseada nos Evangelhos, conta a
última semana de Cristo desde a sua entrada triunfal em Jerusalém até á Crucificação.
O enorme sucesso obtido pela peça teatral, que esteve em cena desde outubro de
1971 até 30 de junho de 1973, ao fim de 711 representações, levou a que da
Broadway até Hollywood, decorresse apenas um pequeno passo.
Norman Jewison e Carl Anderson durante a rodagem
Foi durante a
rodagem do filme “A Fiddler On the Roof – Um Violino no Telhado”, em 1971, que Barry
Dennen, actor no filme e que também entrava na peça da Broadway onde
interpretava Poncio Pilatos, quem sugeriu a Norman Jewison, realizador do
filme, que este deveria realizar a versão cinematográfica de “Jesus Christ
Superstar”. O realizador ouviu o álbum e assistiu á peça e decidiu que queria fazer
a dita adaptação. Mas o realizador queria que aquela fosse a sua versão e não
apenas uma adaptação de um sucesso da Broadway e para isso optou por
distanciar-se um pouco da peça. O argumento, escrito por Jewison e Melvyn
Bragg, inspirado na peça, mostra-nos então uma encenação feita por um grupo de
turistas, da última semana de vida de Cristo, vista do ponto de vista de Judas,
que começa com a sua entrada triunfal em Jerusalém e termina co
a
Crucificação.
Inicialmente, Jewison queria
Ian Gillan no papel de Jesus porque este tinha-o interpretado no álbum e na
peça, mas o cantor recusou, porque
entendeu que alegraria mais os seus fans se andasse em tournée com os “Deep
Purple”, o seu grupo musical. Outros nomes, como Micky Dolenz, vocalista dos
“The Monkees” ou David Cassidy, foram considerados pelos produtores para
interpretar Jesus, mas acabaram por se decidir por Ted Neeley, que já o
interpretava na peça, depois de ter levado a cabo um exaustivo estudo sobre a
personagem. O mesmo viria a acontecer com Carl Anderson, no papel de Judas, no
qual o actor se revezava com Ben Vereen no mesmo espectáculo na Broadway. Do
mesmo elenco teatral transitariam para o filme retomando os seus papéis: Yvonne
Elliman, no papel Maria Madalena; Barry Dennen, no papel de Poncio Pilatos e
Bob Bingham, no papel de Caiafás (Yvonne Elliman e Barry Dennen também tinham
feito parte do elenco do álbum original), além de outros actores e actrizes da
peça.
Reunido o elenco
necessário, escrito o argumento, toda a equipa partiu para Israel e outros
locais no MédioOriente, para filmar em
localizações que se assemelhassem o mais possível com a realidade de há mais de
2000 anos. A rodagem decorreu durante grande parte de 1972.
O filme abre com um
“travelling” numa paisagem desértica até ao início de umas ruínas onde a
câmera, mantendo quase o mesmo movimento anterior, se “passeia” por entre essas
mesmas ruínas, ao som do tema “Overture” (cuja sonoridade minimal e algo
assustadora, será ouvida em alguns outros temas ao longo do filme), para depois
se fixar num autocarro que avança por uma estrada de terra batida em direcção
ás ruínas, onde pára e vemos os participantes a sair, a preparem tudo e também
eles próprios a arranjar-se para a reconstituição da “Paixão de Cristo”, por
fim, com todas as personagens a assumir as suas posições e, num belo “plongée”
por sobre o cenário escolhido, como se de um palco se tratasse, surge o título
do filme e termina a Abertura. O que se segue é o que se poderia chamar de
banalidade comercial transformada num filme bíblico de qualidade.
O “Jesus Cristo
Superstar” de Norman Jewison é uma brilhante versão, por vezes, de cortar a
respiração, de uma ópera rock, em alguns momentos chega mesmo a ser superior, á
peça teatral do mesmo nome. Usando a maior parte das mesmas músicas (apesar de
para a banda sonora do filme terem sido compostos dois novos temas) e as mesmas
letras (com algumas pequenas modificações em relação á peça teatral), o filme
ganha por ser uma abordagem mais ligeira em vez de manter o tom pesado da peça
e por mostrar um olhar de fora para dentro (do ponto de vista de Judas) em vez
do olhar narcisista que por vezes se assumia na peça. Tudo isto conduzido pela
mão talentosa de Jewison ( que não resiste a fazer uma breve aparição no filme
como o anciãoque reconhece Pedro no
tema “Peter’s Denial”).
A ideia com que se
fica depois de ver este filmeé que
estivemos perante um grande videoclip (na altura, o termo ainda não se
utilizava e chamar-lhe teledisco gigante, também parece uma ideia pouco
atractiva (para não dizer ridícula!) para uma produção desta qualidade), no
qual o realizador se limita a gerir os meios técnicos e humanos postos á sua
disposição tendo em vista um produto final que agradasse ao público, o que
acabou mesmo por acontecer.Desde o
primeiro momento em que ouvimos “Heaven on Their Minds”, no qual um Judas
preocupado alerta Jesus para o rumo que as coisas estão a tomar, até á última
cena, em que os actores embarcam novamente no autocarro e apenas três olham
para alguma coisa fora de cena, o autocarro arranca e no último plano do filme,
ao som do tema “John 19:41” vemos uma cruz erigida contra um magnifico pôr-do-sol
enquanto vemos um pastor e o seu rebanho a atravessar o monte (que muita gente
considerou com se fosse o momento da Ressurreição, mas que Jewison disse não
ter nada a ver com esse momento, já que nem a peça nem o filme a mostravam e
que, apesar da cena não ter sido planeada deste modo, ele entendeu queassim estava bem e deixou-a ficar na montagem
final).
Todo o filme é
composto de grandes momentos, sejam eles colectivos ou individuais. Os
primeiros são importantes em temas como “Simon Zealotes”, onde Jewison faz uso
de todo um potencial técnico, utilizando grande parte dos movimentos de câmera,
para mostrar a exaltação/devoção do Apóstolo Simão a Jesus perante uma
audiência maioritariamente romana e a indiferença de um Judas cada vez mais
alheado daquela realidade; ou em “The Last Supper” cuja beleza fotográfica,
vista pelo olhar profissional de Douglas Slocombe, o director de fotografia, é
um dos grandes momentos do filme (a imobilidade de Jesus e dos Apóstolos no
início da Última Ceia é de uma beleza atroz lembrando o famoso quadro de
Leonardo DaVinci), preparando-nos para aquilo que está para chegar; ou ainda em
“Trial Before Pilate”, momento crucial e dramático, excepcionalmente captado
pelo realizador em grandes e médios planos para acentuar o dramatismo da cena
em que Pilatos tenta apaziguar uma multidão irada que não cessa de lhe lembrar
qual o seu papel em todo este processo, forçando-o a tomar uma decisão que inevitavelmente levará á flagelação de
Jesus.
Os segundos
momentos são absolutamente indispensáveis no decorrer da acção, quer seja Maria
Madalena a cantar o seu amor/devoção a Jesus e á sua Causa, no belíssimo “I
Don’t Know how to Love Him” (é difícil conceber outra voz que não a de Yvonne
Elliman a interpretar este tema); Judas a demonstrar o seu desacordo com as
orientações de Jesus em “Heaven on Their Minds”; ou o mesmo Judas, depois de
muito meditar, em “Damned for All Time/Blood Money”, decidir-se pela entrega de
Jesus; O próprio Jesus depois da Última Ceia a vaguear pelo jardim de
Gethsemane enquanto pede explicações a Deus, seu Pai em “Gethsemane (I Only Want
to Say)”, aqui percebe-se que a escolha do actor para interpretar este papel
foi a melhor porque Ted Neeley é dono de uma voz poderosa (e isso fica
demonstrado neste tema), além de encarnar na perfeição o papel e isso vê-se
quase no final do tema, quando, inevitavelmente, aceita o seu Destino.
Mas, na minha
opinião, num filme cheio de tantos e tão bons momentos, tem de haver aquele que
marca tudo e todos, elevando-se acimada
acção e esse acontece no tema “Superstar” quando Jesus, depois de ter sido
traído, vaiado, espancado e flagelado, encontra-se às portas do Céu e surge-lhe
o espírito de Judas, pendurado numa cruz, que vem questioná-lo sobre o porquê
da sua vinda naquele tempo e daquela maneira, se tudo aquilo que lhe aconteceu,
teria sido parte de um Plano Divino e se ele acredita mesmo naquilo que dizem
que ele é (Superstar). O tema termina num “plongée” estudado (o único momento
em que vemos a acção do ponto de vista de Jesus, no início da sua Ascensão ao
Céu) e intercalado com imagens da caminhada para a Crucificação. Este tema é
talvez o momento mais marcante de todo o filme.
Apesar de ser um filme
datado, “Jesus Christ Superstar" não perdeu nenhuma da sua frescura desde que
estreou em 1973. Continuaa ser referido
como uma das melhores adaptações da peça teatral e certamente a melhor produção
cinematográfica do género. Não existe em nenhum momento aquela sensação de que
o espectador está a ser manipulado para acreditar naquilo que acontece diante
dos olhos, não se vê nenhuma situação em que se perceba que as personagens são
forçadas a ter aquela pose obrigatória numa coreografia de palco. As
personagens vivem naquele deserto livremente, encenando aquela história como se
ela não fosse o acontecimento que é, nem tivesse a importância que tem no seio
da religião Católica.
E isso é muito bom.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet.
Clint Eastwood, o último dos duros de um certo cinema
que, ao longo de várias décadas, encheu as medidas a várias gerações de
espectadores, principalmente nos westerns que fez na década de 60 ao serviço de
Sergio Leone e de Don Siegel ou nos vários westerns, policiais, e outros
géneros por que passou enquanto actor e realizador, ensinou-nos que, além de se tornar
legitimamente popular, principalmente com o Inspector Harry Callahan, a sua
personagem mais famosa, conseguiu
reduzir á expressão mais simples a equação mais complexa que se possa imaginar:
um grande homem, uma grande arma, um vilão e justiça instantânea!
Na
zona da baía de São Francisco acontece um crime com contornos sexuais. O
Inspector da polícia, Harry Callahan, conhecido pelos seus métodos poucos
convencionais mas eficazes, como o seu próprio chefe reconhece, é chamado á
investigação e esta vai levá-lo á pequena cidade costeira de San Paulo, na
califórnia onde os segredos são muitos e poucos os que gostam de falar,
principalmente com estranhos. Há medida que os crimes recomeçam, Callahan vê-se
cada vez mais envolvido no mistério que os circunda e também com uma jovem
artista com quem se cruza.
Oargumento inicial, escrito por Charles B.
Pierce e Earl E. Smith, destinava-se a ser um filme para Sondra Locke, que
seria produzido por Clint Eastwood, mas acabaria por ser adaptado por Joseph
Stinson para um novo filme da série “Dirty Harry”, protagonizado novamente por
Eastwood que também acabaria por o realizar. O actor e realizador não estava
muito interessado em regressar á personagem, mas também precisava de um sucesso
que lhe anadava a fugir desde “Escape From Alcatraz – O Fugitivo de Alcatraz”
(Don Siegel, 1979), o último grande sucesso de bilheteira que obtivera. A
orientação que pretendera fazer na sua carreira, procurando outros géneros, não
tinha conseguido convencer muita gente, apesar da qualidade de alguns dos seus
filmes mais recentes, portanto, quando o argumento deste filme lhe passou pelas
mãos, Eastwood viu nele uma oportunidade de regressar a um dos seus grandes
sucessos como actor.
Logo
desde o início do filme, percebe-se que a intenção do realizador é, não apenas fazer
um “comeback” em grande de Harry Callahan uma personagem marcante do cinema
másculo e machista da década de 70, mas também quebrar as regras do género
policial na sua vertente de “thriller”, indo mais além das convenções do
género, o que o realizador consegue sem grande dificuldade e fá-lo, sem rodeios,
ao mostrar logo o assassino, ou neste caso, a assassina nos primeiros minutos
do filme. Assistimos então á execução levada a cabo pela assassina, onde, ao
contrário dos filmes anteriores da série, Eastwood baralha e dá de novo, o
assassínio não é visto, mas ouvido (numa excelente e rápida montagem em que se
vê o casal dentro do carro, a sedução assume o seu papel, a arma surge
subtilmente nas mãos dela apontada ás partes mais íntimas do homem e depois,
num plano visto do exterior do carro ouvem-se duas detonações secas como se não
quisessem interromper o silêncio da noite), logo a seguir, mostra a assassina
junto a um penhasco numa atitude quase suicida, depois volta-se lentamente e
vemos o seu rosto sereno e sem uma pinga de arrependimento pelo que acabou de
fazer.
“Impacto Súbito”, o quarto filme da série “Dirty
Harry”, é, basicamente, um filme-vingança em forma de tragédia e os motivos que
levam a essa vingança são rapidamente explicados em vários “flashbacks” (cirurgicamente
inseridos em alguns momentos-chave) que surgem ao longo do filme. Há dez anos atrás, Jennifer
Spencer e a sua irmã, Elizabeth, foram violadas por um grupo de homens, durante
uma feira. Elizabeth fica traumatizada para sempre e vive internada numa
instituição e Jennifer, que se tornou uma pintora e ocasionalmente recupera
carrousseis, não se esqueceu do que aconteceu equer vingar-se daquilo por que ela e a irmã passaram. A própria
Jennifer, apesar da frieza com que leva a cabo a sua vingança, dá ao espectador
(que desde o momento em que sabe quais são os seus motivos para levar a cabo
aqueles assassinios, está do lado dela) a ideia que quer ser detida e dá
mostras de alguma demência (a cena em que pinta o seu auto-retrato ou aquela em
que se vê ao espelho e estilhaça-o com um tiro) que parece não ter fim.
Sob a direcção de Clint Eastwood é fácil perceber que
este é visualmente o mais negro de todos os filmes da série: um vilão que é das
coisas mais sádicas com que alguma vez o detective de São Francisco se deparou
(pior ainda que “Scorpio”, o seu inimigo no primeiro filme da série); um chefe
de polícia que esconde um segredo e nada faz para acabar com a onda de crimes
que, de repente, acontece em San Paulo; a acção e violência surgem naturalmente
(assim como o aumento do número de mortes), á medida que vamos acompanhando a
investigação de Harry e a vingança de Jennifer , vamos percebendo que
rapidamente Harry acabará por identificar a assassina e, sendo um romântico
disfarçado de duro, acabará por se apaixonar por ela...mas irá matá-la?
Prendê-la...ou não? É um dilema que acompanha Harry ao longo de toda a segunda
parte do filme.
Para interpretar Jennifer, Eastwood escolheu Sondra
Locke com quem já havia contracenado em outros filmes. O ar frágil, mas ao
mesmo tempo, duro daactriz e também a
sua beleza, que não sendo estonteante, mas sim discreta, tornou-a a escolha
óbvia para interpretar o papel. O realizador aproveita o seu ar frágil para a
filmar em grandes planos ou em contraluz de forma a mostrá-la quase como um
anjo vingador e em alguns momentos consegue quase esse efeito quase na
perfeição ( a cena em que ela surge na garagem de Tyrone para levar a cabo a
sua vingança); a sua faceta vingativa, ainda que um pouco humana, vem ao de cima numa breve cena quando
Jennifer visita a irmã na instituição onde ela se encontra internada e
conta-lhe como localizou e matou um dos homens que as violaram brutalmente, Eastwood
mostra, no mesmo plano, o rosto de ambas as raparigas e, enquanto Jennifer
fala, vê-se uma subtil alteração no rosto de Elizabeth como se ela quisesse
sair daquele estado catatónico em que se encontra, mas não o faz (as lágrimas
que lhe caem rosto abaixo no último plano, desmentem a sua última intenção).
Go ahead, make my day!
“Impacto Súbito” foi o mais rentável dos filmes da
série (o filme custou cerca de 22.000.000 de dólares e, as suas receitas, só
nos estados unidos, foram superiores a 67.000.000 de dólares) e, para isso, apesar
dum argumento banal, mas sólido, onde não se perde tempo com coisas banais e
apenas se deixou ficar o melhor, da realização segura e intuitiva de Eastwood num
género onde nunca se deu mal, contribuíram definitivamente dois momentos que
valorizam em definitivo o género em que o filme se enquadra: o primeiro momento
acontece logo no início, depois de mais
umaaudiência em tribunal que correu
mal, Callahan vai a um café que está em vias de ser assaltado, o inspector não
se apercebe do que está para acontecer (ou finge que não vê?) e sai só para
voltar momentos depois e surpreender os assaltantes em pleno acto, depois do
tiroteio que se segue, Harry acaba por encurralar um dos assaltantes que segura
um refém. Com a frieza que se lhe conhece, aponta-lhe a sua “Magnum .44” de
cano longo e profere a frase “Go ahead, make my day”( literalmente, “Vá, faz-me
ganhar o dia!”) que se tornou viral daqui para a frente, muitas vezes
pronunciada, muitas vezes imitada, mas nunca igualada, a frase ganhou estatuto
de “superstar” iconográfico no universo da sétima arte. O desfecho, porém, não
será aquele que se pretendia.
O segundo momento acontece no final, quando Callahan
se vai confrontar com Mick e os seus dois companheiros, numa cena, toda filmada
de noite com o herói a fazer a sua aparição num contraluz (digno do melhor
justiceiro) homenageando o melhor Western, onde o inspector reitera, pela
segunda vez, no filme a sua frase mortífera “Go ahead, make my day” e desta vez
o resultado não se faz esperar.
Com “Impacto Súbito”, Clint Eastwood firmou os seus
créditos como realizador e, ao mesmo tempo,como já disse atrás , valorizou um género atribuindo-lhe um carácter no
qual, não apenas se valoriza a acção, como também personagens como aquele que
Sondra Locke interpreta, podem e devem ser, mais interessantes do que costumam
ser, mas também podem ser e geralmente costumam ser, mais perversos pela
crueldade das circunstâncias, do que nós habitualmente pensamos que são.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet
O western, assim como o musical,
foram os géneros mais queridos do cinema. O western, inclusive, chegou a ser
"importado" para a europa, pela mão de Sergio Leone criando assim as
raízes de um sub-género intitulado "western spaghetti" que viria a
obter um considerável sucesso tanto na europa como nas terras do tio Sam.
"O Bom, o Mau e o Vilão" é a história de
três homens que procuram um tesouro que está enterrado algures num cemitério.
Cada um deles sabe uma parte da localização do tesouro, pelo que vão estar
dependentes uns dos outros para lá chegar. Sem olhar a meios para obter os
fins, os três vão tentar chegar ao local, onde os aguarda aquela recompensa,
através dum país devastado pela guerra civil.
A ideia do filme começou a tomar
forma, quando os executivos da United Artists se aproximaram de Luciano
Vincenzoni, argumentista do filme “Por Mais Alguns Dólares”, que acabara de
obter um sucesso inesperado em itália e convidaram-no a escrever outro argumento
para um projecto de um novo “Western Spaghetti”.Sem planos imediatos de
trabalho, Vincenzoni concordou desde que Alberto Grimaldi e Sergio Leone,
respectivamente, produtor e realizador do filme anterior fizessem parte deste
novo projecto. Quando os executivos da distribuidora concordaram, Vincenzoni
avançou com a ideia de três canalhas que procuravam um tesouro durante a Guerra
Civil Americana. Leone agarrou a ideia e, numa tentativa de mostrar o absurdo
da guerra, desenvolveu-a e transformou-a num argumento, com a ajuda de Sergio
Donati, com quem o realizador já trabalhara em “Por Mais Alguns Dólares”.
Realizado por
Sergio Leone, "O Bom o Mau e o Vilão" é, considerado pelo realizador,
o último filme da chamada "trilogia dos dólares", sendo os dois
primeiros "For a Few Dollars - Por um Punhado de Dólares" (1964) e
"For a Few Dollars More - Por Mais Alguns Dólares" (1965). Como a
acção de “O Bom O Mau e o Vilão” se passa durante a Guerra Civil Americana (ou
de Secessão), o filme pode, não só ser o final da trilogia como pode servir
também de prequela aos outros dois filmes, cuja acção decorre depois da Guerra
de Secessão.
Desde sempre, Leone
teve como sua marcaos grandes planos de
rostos e das armas antes e durante um
duelo, que lhe permitem encenar e misturar cenas de rostos extremos, grandes
planos épicos, com os diálogos reduzidos ao minímo, onde as mãos, quase em
câmara lenta, se dirigem para as armas nos coldres e também grandes sequências
sem um único diálogo. Tudo isto cria um ambiente de tensão e suspense que permite
ao espectador saborear os desempenhos de cada personagem e perceber as suas
reacções, mas também dá ao realizador a possibilidade de filmar belas
paisagens. Não é, portanto, de estranhar que o inicio deste filme seja
precisamente um grande plano de rostos de cowboys, das suas armas e de uma
cidade em ruínas e sem um único diálogo, antes do duelo onde nos será
apresentado o primeiro protagonista do trio central da história: a imagem,
depois do duelo, congela e surge o título da personagem no écran; é um achado
fabuloso de Leone e que funcionará da mesma maneira para as outras duas
personagens do filme. Só então é que o filme começa verdadeiramente.
Por ser considerado
o pai do sub-género western-spaghetti, Leone enche o écran de constantes
referências aos filmes americanos de John Ford a Howard Hawks e toda a
simbologia do velho oeste está presente na obra do realizador desde
"dólares" até "Aconteceu no Oeste" (1968).
Sergio Leone não
trouxe dos Estados Unidos só o saber como fazer, trouxe também mão-de-obra para
edificar o sub-género no velho continente. Com ele vieram Eli Wallach, no papel
de Tuco (o Vilão), um eterno secundário que já brilhara em outro western
chamado "Os Sete Magnifícos" (John Sturges, 1960) remake americano
dessa obra-prima do cinema chamada "Os Sete Samurais" (Akira
Kurosawa, 1954). Apesar de ser uma prestação ao seu nível, o actor quase que
rouba o protagonismo a Eastwood e a Van Cleef, tal é a forma como agarra a sua
personagem, da qual, ao longo do filme, ficamos a conhecer toda a sua história,
já que conhecemos o seu irmão, um padre de nome Pablo Ramirez, de onde veio e
porque se tornou bandido;
Lee Van Cleef, é “Angel Eyes” (o Mau), mercenário sem
escrúpulos, obsessivamente insano, termina sempre o trabalho para que foi
contratado (que habitualmente é encontrar pessoas e matá-las), o actor sempre
associado a papéis de vilão e que teve, com Leone, o momento mais alto da sua
longa carreira;
Clint Eastwood (o Bom), é o “Homenm sem Nome” (apesar de Tuco
lhe chamar “Lourinho”), um ténue mas convencido caçador de prémios que se vê
obrigado a formar alianças pouco convencionais nas necessárias para encontrar o
tesouro com Tuco e temporariamente com “Angel Eyes”. Eastwood, na altura um
obscuro actor que, ao ir para itália filmar com Leone a "trilogia dos
dólares", passou do relativo anonimato a estrela de cinema e
posteriormente num realizador afamado que viria a tornar-se uma referência
obrigatória no panorama do cinema mundial. Juntos, Leone e Eastwood, tornaram a
personagem de “O Homem sem Nome”, não apenas numa personagem qualquer, mas numa
personagem Maior do cinema – uma personagem que nunca teve que se explicar, uma
personagem, cuja presença era mais que suficiente para encher o écran.
Apesar
da relação tempestuosa entre ambos, Eastwood, que nunca mais voltaria a ser
dirigido por Leone (mesmo quando este lhe ofereceu o papel de “Harmónica” em “
Aconteceu no Oeste”, que o actor declinou e que seria dado a Charles Bronson ),
o actor aprendeu muito, com a obsessão de Leone em filmar cenas de diferentes
ângulos prestando atenção aos mais ínfimos pormenores, o que muitas vezes
esgotava os actores, durante as rodagens dos filmes da trilogia e, anos mais
tarde, acabaria por lhe dedicar “Unforgiven – Imperdoável” (1992), uma das suas
obras-primas.
Majestoso,
visualmente estilizado, "O Bom, o Mau e o Vilão", avança num
crescendo de acção e tiros desde a já referida sequência inicial até ao final
onde o filme atinge o seu climax: o duelo a três no cemitério onde Sergio
Leone, chamando a si todo o seu conhecimento, homenageia o Western, com a
excepcional banda sonora de Ennio Morricone, colaborador frequente em todos os
filmes de Leone, como pano de fundo, num misto de mito e realismo.
Leone, durante a
rodagem, gostava de tocar a banda sonora para manter os actores dentro do
espírito da cena e isso percebe-se perfeitamente em duas cenas importantes no
enredo: a primeira acontece no campo de prisioneiros Nortista de Batterville
onde os prisioneiros cantam e tocam o tema melancólico “La Storia Di Un
Soldato” (The Story of a Soldier) enquanto Tuco é torturado e espancado por
Angel Eyes; a segunda é quando os três protagonistas se enfrentam em Sad Hill, com
“L’estasi dell’Oro” (The Ecstasy of Gold), seguida por “Il Triello” (The Trio)
em fundo. A composição desta cena é absolutamente magnífica: uma fortuna em
ouro está enterrada numa das campas, três homens, cada um na expectativa de lhe
deitar a mão, enfrentam-se sabendo que, se um dispara, todos disparam e todos
morrem. A não ser que dois decidem abater o terceiro homem antes que ele
dispare sobre eles. Mas a dúvida está instalada: quais dois? E qual terceiro? E
permanece durante os vários minutos que Leone dedica aquele momento único no
filme: começa com um admirável longo plano que depois se converte em
“close-ups” de armas de fogo, rostos, olhos e suor num interminável exercício
de estilo e “suspense” com que o realizador brinda os espectadores.
“O Bom, o Mau e o
Vilão” estreou em Itália a 15 de dezembro de 1967 e rendeu cerca de 6.300.000
dólares , o que na altura foi considerado bastante. Nos estados unidos, a
trilogia dos dólares estreou em 1967, mas em diferente datas para poder
rentabilizar os filmes obtendo o maior sucesso possível.
A versão original
italiana tem a duração de 177 minutos, mas inicialmente,a versão internacional foi exibida com
diversas metragens que vão desde cerca de 148 minutos até 161 minutos. Sendo
que esta última é a mais conhecida e a que foi mais exibida desde a estreia do
filme. Em 2002, o filme foi restaurado e as cenas cortadas foram todas
re-inseridas no filme com os actores, Clint Eastwood e Eli Wallach a repetirem
as suas falas no material recuperado e Simon Prescott, um actor de dobragens, a
fazer a voz de Lee Van Cleef , o actor faleceu em 1989.
Filme ambicioso, comquase três horas de duração, onde nada parece
faltar e ainda haveria espaço para mais história, senão vejamos: temos o
tiroteio inicial que envolve personagens que pouco ou nada têm a ver com trama
inicial. Temos o jogo do condenado, no qual, Wallach faz de homem procurado e
Eastwood aparece para o entregar e depois, quando ele está para ser enforcado,
o mesmo Eastwood salva-o “in extremis” com um tiro bem disparado e ambos
recebem a recompensa. Depois vem a magnifica sequência do deserto em que
Eastwood abandona Wallach no deserto e, mais tarde, será Wallach a fazer o
mesmo a Eastwood e, quando o sol queima e receamos o fim de “Loirinho”, surge a
diligência numa corrida desenfreada, carregada de mortos e moribundos e a
história ganha um novo fôlego que culminará no inevitável, porém, magnifico e
majestoso duelo. Pelo meio, acontece a ambiciosa sequência da Guerra Civil
Americana onde, além da cena da tortura, acontece outro momento tocante do
filme: Clinton, um capitão do exército da União (nortista), que se torna amigo
de Tuco e Blondie e que alimenta o sonho de ver a ponte de Branston, local
estratégico que separa os dois exércitos, destruída, explica o seu alcoolismo
de uma maneira absolutamente simplista “O comandante que tiver mais bebida para
embebedar as suas tropas antes da batalha, é aquele que vence”. Mortalmente
ferido no combate que se segue, sua última fala, pouco antes de morrer, é “Podem
ajudar-me a viver um pouco mais? Eu espero boas notícias”.
“O Bom, o Mau e o
Vilão” foi, indiscutivelmente, a obra mais inovadora que o sub-género
western-spaghetti viria a conhecer. Muitas vezes referida, imitada, mas nunca
igualada, tendo sido até homenageada em
"No Country for Old Men - Este País não é para Velhos" (Joel e Ethan
Coen, 2007), que venceu 4 Óscares da Academia, incluindo o de Melhor Filme do
Ano e Melhor Realização, o original de Sergio Leone permanece como um filme
intemporal, obra-prima do género em que se insere