quarta-feira, 16 de novembro de 2016

The Lamb Lies Down on Broadway – Um Enigma Musical

                    
   Em 1974, a seguir á tournée de promoção do álbum “Selling England by the Pound” (1973), os Genesis, grupo britânico de Rock Progressivo, juntaram-se para escrever e desenvolver o seu álbum seguinte que queriam que fosse um álbum conceptual, de acordo com a moda que se instalara na música desde o início da década de 70. Assim, reuniram-se em “Headley Grange”, uma quinta nos arredores de Londres e que, segundo outros grupos musicais que já a haviam utilizado anteriormente, era um local acolhedor para quem queria compor música e escrever letras. O que o grupo não sabia é que, apesar de vários contratempos, o álbum que dali iria resultar seria uma obra incontornável na história da música, uma obra de Rock Progressivo que o tempo se encarregaria de transformar numa obra-prima.
   Devido a problemas pessoais e também a estar envolvido em outros projectos fora do grupo (incluindo um possível filme com o realizador William Friedkin que nunca chegou a ver a luz do dia), Gabriel, que inicialmente se isolou do resto do grupo para poder escrever livremente as letras das canções, esteve ausente durante grande parte do processo de criação e dos ensaios, mas mesmo assim e apesar de grande parte da música ter sido escrita pelos restantes membros do grupo, ainda regressou a tempo de participar na gravação do álbum.
   
“The Lamb Lies Down on Broadway”, assim se chamou o  álbum, conta história de Rael, um jovem delinquente Porto-Riquenho que vive em Nova York. Numa manhã de um qualquer dia normal, Rael, acabado de sair da estação de metro em Manhattan, depara-se com um cordeiro deitado no passeio da Broadway e que tem um estranho e profundo efeito nele. Enquanto continua a sua caminhada, vê vir do céu uma nuvem negra que mais ninguém vê e que se transforma num écran de cinema, apanha tudo o que lhe surge á frente. Rael tenta fugir, mas em vão, é apanhado e arrastado para dentro do mesmo. Começa assim uma odisseia por um mundo estranho.
   O álbum abre com “The Lamb Lies Down on Broadway”, tema-título, ao som de um piano introdutório, com a voz de Peter Gabriel e o verso “And the Lamb Lies Down on Broadway”, a dar o mote para logo de seguida o resto do grupo juntar-se em harmonia, formando imagem sonora descritiva de Manhattan a despertar para um qualquer dia normal de trabalho e nela surge Rael, o nosso herói, a sair numa  estação de metro, deparar-se com aquela estranha visão do cordeiro deitado no passeio da Broadway e ser apanhado por uma estranha nuvem vinda do céu, que parece devorar tudo á sua volta e assume a forma de um écran cinematográfico. “Fly on a Windshield” usa sons etéreos e acústicos para dar a impressão do vento a arrastar tudo aquilo que encontra no caminho, incluindo um Rael que se apercebe que não consegue fugir daquele écran devorador que, no entanto, parece ser ignorado pela multidão. “The Broadway Melody of 1974” exibe- imagens do dia e também de algumas vedetas de Hollywood assim como da Broadway de ontem, que desfilam numa espécie de parada por um Rael inconsciente, mas que vai ouvindo no seu subconsciente ecos de vozes sem distinguir quem são. Com “Cuckoo Cocoon”, Rael acorda e interroga-se sobre o local onde se encontra (é isso que o verso “I wonder where the hell I am”, nos diz)  e esta interrogação é também transmitida ao ouvinte que está tão (ou, se calhar, mais) intrigado como ele. Apercebe-se, enquanto avança, que se encontra numa gruta que se vai modificando a cada sua movimentação. O poderoso “riff” de baixo que introduz “In the Cage”, seguido de um subtil som de teclas e de um toque suave de pratos na bateria acompanhados pela voz ansiosa de Gabriel, mostra-nos um Rael, a descrever aquilo que o rodeia e que, de repente, se vê aprisionado numa espécie de jaula formada por estalactites e estalagmites que se deslocam na sua direcção. Enquanto tenta escapar, Rael vê o seu irmão, John, do lado de fora, pede-lhe para o ajudar mas ele afasta-se e, ao mesmo tempo, a jaula desaparece e Rael começa a cair numa série de voltas e voltas que parecem não ter fim e, quando finalmente pára, encontra-se no chão duma fábrica.

   Com “The Grand Parade of Lifeless Packaging”, Rael é levado, por uma mulher, numa visita ás instalações fabris e onde vê pessoas no chão numa longa linha de produção a serem processadas e acondicionadas como se fossem embalagens e depois devolvidas á vida. Pouco depois, no mesmo local, encontra novamente o seu irmão John, imóvel e com um nº9 estampado na testa e, uma vez mais, não fala. Depara-se igualmente com membros do seu antigo gang e, temendo, pela sua vida, foge da fábrica.
Rael, depois de sair, vai deparar-se com a visão da Nova York da sua juventude. “Back in NYC” relembra a sua vida quando ainda era um jovem membro de um gang, o seu regresso de um assalto aos 17 anos de idade e quando a cidade era apenas para os mais fortes e aptos. É um longo “flashback” de memórias que ele vê desfilar á sua frente: “Hairless Heart”, um lindíssimo instrumental (das melhores peças que alguma vez o grupo compôs), mostra o sonho em que Rael vê o seu coração peludo ser removido e escanhoado com uma lâmina de barbear (esta minha interpretação pode ser entendida de maneira diferente...); “Counting Out Time” fala-nos da altura em que ele comprou e decorou um livro sobre encontros sexuais (“And I have studied every line, every page in the book”), do seu primeiro encontro com uma rapariga á qual tenta ministrar prazer mas falha redondamente por ter tudo numericamente organizado (“Touch and go with 1-6”, Bit of trouble in zone nº7”, “There’s heaven ahead in nº11!”).
   
“Carpet Crawlers” começa quando o desfile de memórias termina e Rael encontra-se novamente sozinho e tem á sua frente um longo corredor alcatifado, cheio de gente que tenta alcançar a porta que está ao fundo. Mais rápido que todos, ele alcança a porta, abre-a e vai-se encontrar numa longa escadaria que termina numa enorme câmara com 32 portas e assim chegamos a “The Chamber of 32 Doors” onde um Rael, cercado de diversa gente, incapaz de se concentrar e decidir qual a porta que deve escolher, pois apenas uma leva á saída, todas as outras conduzem novamente aquele local, encontra uma mulher que deseja conduzi-lo para fora da câmara.
“Lilywhite Lilith” apresenta-nos a mulher que ajuda Rael a sair pela porta certa para um outro aposento subterrâneo e grande onde o deixa sozinho. Medo e pânico é o que se pode deduzir do estranho e aterrorizante “The Waiting Room”, um tema instrumental que nos revela o que Rael sentiu naquele aposento onde foi deixado, no meio da escuridão e como única companhia um zumbido crescente e dois globos dourados iluminados que flutuam no ar encaminhando-se para ele. Rael destrói ambos os globos, mas provoca uma derrocada de rochas que o deixa preso e tudo parece indicar que acabou por selar o seu destino ao ver-se numa situação da qual não consegue sair.
   
 
“Anyway” começa com um piano insinuante (quase um eco distante do início de “The Lamb Lies Down on Broadway”) e Rael conta aquilo que está a sentir, sente a morte a aproximar-se (“Anyway, they say she comes on a pale horse”), como gostaria de morrer e, num tom quase sarcástico goza com a sua própria situação ( “How wonderful to be so profound, when everything you are is dying underground”). Mas, rapidamente, Rael percebe que a sua hora ainda não chegou, pois uma visita inesperada, deixa-o surpreso: a Morte vem visitá-lo e ajudá-lo a sair daquela situação, é o que acontece em “The Supernatural Anaesthetist”, outro tema instrumental, no qual, Rael, após ser liberto por aquele convidado indesejável, segue o seu caminho, metendo novamente por um corredor iluminado por candelabros e, desta vez, é o seu nariz que lhe dá a direcção a seguir pois uma fragância doce entra-lhe pelas narinas e, a cada passo, a intensidade do cheiro aumenta e Rael acaba por ir ter uma grande câmara onde uma piscina cuja água é em tons rosados e uma fina camada de neblina paira sobre ela.
   
Em “The Lamia”, a única canção romântica do álbum, acontece a descrição daquilo que Rael vê perante os seus olhos. Despe-se das roupas rasgadas e entra na piscina com o intuito de se refrescar pensando que está sozinho, mas rapidamente percebe que tal não é verdade quando se depara com três “Lamias”, uma espécie de criaturas parecidas com cobras, mas com rostos de belas mulheres. Rael, espantado com aquelas beldades, deixa-se envolver e acaba seduzido por elas. Mal as “Lamias” provam o seu sangue, morrem, a água da piscina muda de cor para um azul gelado. “Silent Sorrow in Empty Boats”, mostra-nos um Rael, consternado com as mortes que provocou e que, esfomeado, alimenta-se da carne das “Lamias” e, ao som de coros sintetizados, abandona aquele local prosseguindo a sua viagem através de outra passagem.
 
“The Colony of Slippermen” é um tema dividido em três segmentos que acompanham a transformação de Rael. O primeiro segmento, “The Arrival” mostra a sua chegada a uma colónia de “Slippermen”, uma espécie de seres humanos grotescamente deformados pela experiência que tiveram com as “Lamias” e que lhe dizem que também ele se transformou num deles (“Don’t be alarmed at what you see, You yourself are just the same as wha you see in me”), Rael não acredita no que lhe dizem (“Me, like you? Like that!”) , mas, ao ver o seu irmão John entre os “Slippermen” e depois dele lhe confirmar a realidade, ele aceita e fica também a saber que a única maneira de voltar a ser humano é ir visitar o Doutor Dyper e submeter-se a uma castração, o que acontece no segundo segmento do tema “A Visit to the Doktor” em que ambos se submetem á operação ( Don’t delay, dock the dick!”) e guardam os seus órgãos num recipiente que penduram á volta do pescoço (“he places the number into a tube, it’s a yellow plastic “shoobedoobe””) e continuam ambos pelo mesmo túnel á procura duma saída. Chegamos ao terceiro segmento “The Raven” onde os dois irmãos são atacados por um enorme corvo negro que rouba o recipiente de Rael, que o persegue e que John, com medo, se recusa a seguir (“Where the raven flies there’s jeopardy”) e vai-se embora deixando Rael sózinho.  Este persegue o corvo e só tem tempo de ver  que este, de repente, atira o recipiente por uma ravina abaixo que vai dar a um rio subterrâneo. 
   
Em “Ravine”, Rael , de pé, numa espécie de plataforma e com medo de saltar para  dentro da água agitada do rio que passa lá por baixo, decide descer a ravina até chegar lá. Enquanto faz a perigosa descida, Rael relembra os seus dias em Nova York e, num “flashback” momentâneo, regressa aos sons que lhe eram familiares e queridos, ao som de “The Light Dies Down on Broadway”, regressa ao ano passado,  aquele que era o seu  mundo e também á beleza dos temas  “The Lamia” e ”The Lamb Lies Down on Broadway” (se quisermos, o “Upper World” do ínicio do álbum) e imagina que o seu pesadelo (ou sonho?) está perto de chegar ao fim quando vê uma espécie de janela que lhe surge sobre a cabeça, que se abre e o convida a sair por ela (“Is this the way out from this endless scene? or just  an entrance to another dream?”).
   Mas de súbito, o seu “flashback” é interrompido por um grito que vem do fundo. Rael vê John dentro de água a tentar manter-se á tona.  Em “Riding the Scree”, Rael tem que fazer a escolha mais difícil da sua vida: Passa pela janela que entretanto se começa a fechar regressando assim á sua vida normal ou salva o seu irmão, apesar deste já o ter abandonado á sua sorte por duas vezes?  Rael escolhe salvar John e, enchendo-se de coragem, salta sem rodeios para dentro de água. Com “In the Rapids”, Rael  esforça-se, numa luta titânica contra a força da água, salvar o irmão e também a si próprio. Apelando para todas as sua forças, elel consegue, no último momento,  tirar John da água e arrastá-lo para terra. Quando Rael olha para o seu rosto para lhe captar sinais de vida, vê-se  a si próprio! (“Something’s changed, that’s not your face, it’s mine!”).  É com “It” que  se explica aquilo que realmente aconteceu: a sua consciência  (espírito?) vagueia entre os corpos e ele vê o cenário envolvente dissolver-se numa espécie de neblina enquanto ambos os corpos se dissolvem assim como o espírito de Rael se torna uno com aquilo que o rodeia. “It” providencia muitas respostas e abre inúmeras possibilidades que vão sendo apresentadas ao longo de toda a narrativa, mas, no fim, nenhuma é  definitiva. Peter Gabriel sumariza a história de um modo simplista: é com cada um de nós!.
Os Genesis no Palácio da Pena, em Sintra
     “The Lamb Lies Down on Broadway” foi editado a 18 de novembro de 1974. A 20 do mesmo mês, os “Genesis” davam início a uma tournée que os levaria á América do Norte e á Europa (Portugal, incluído, onde deram dois concertos nos dias 6 e 7 de março de 1975, no velhinho Dramático de Cascais), num total de 102 concertos onde tocaram o álbum integralmente. A tournée terminou a 22 de maio de 1975. Em agosto, Peter Gabriel, que já anunciara a sua vontade de sair, depois de terminada a tournée, abandona o grupo.
Recebido inicialmente com um misto de perplexidade e devoção, e até algum desinteresse por parte de alguma crítica que, depois de “Selling England by the Pound”, esperava outro algum do género e não um “Concept Album” que muitos consideraram incompreensível, “The Lamb Lies Down on Broadway”, conseguiu dividir também os fans da banda, mas nunca perdeu a importância que ganhou dentro da discografia do grupo nem o estatuto que ganhou na música. Década após década o álbum continuou a manter-se entre os dez melhores álbuns da história do rock e nos cinco primeiros lugares dos melhores do Rock Progressivo.
Já neste século, em dezembro de 2001,  foi considerado o quarto Melhor álbum da história da música e em 2012, os leitores da “Rolling Stone”, consideraram-no o quinto Melhor álbum de Rock Progressivo de todos os tempos.












domingo, 8 de maio de 2016

O Carteiro de Pablo Neruda - Simplicidade acima de tudo!

   Um dos grandes truques do cinema sempre foi contar histórias simples e apelativas garantindo sempre bons resultados junto do público e também junto de alguma crítica. Foi o que se passou com este "Carteiro de Pablo Neruda".
 Mário vive numa ilha em Itália na década de 50 do século passado, é filho de um pescador mas não se consegue adaptar aquela vida. Graças a saber ler e escrever, ele consegue um emprego como carteiro encarregado de levar a correspondência ao poeta chileno Pablo Neruda que se encontra exilado naquela ilha. Com o passar do tempo os dois tornam-se amigos e Mário pede ao poeta que o ajude a conquistar a rapariga que ele ama.
   O filme é baseado no livro “Ardiente Paciencia”, escrito por Antonio Skármeta, em 1983, com argumento da autoria de Anna Pavignamo, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Massimo Troisi e situa a acção na década de 50, enquanto o livro e o filme homónimo, que o próprio Skármeta realizara em 1985, a situava em 1970, no Chile, na Ilha Negra, onde Pablo Neruda vivia.
   
   
O primeiro vislumbre que temos de Mario, numa cena em que ele conversa com o pai, ficamos com a ideia de que ele deve ser deficiente mental, assim como o pai que também nos deixa essa ideia, tal é a conversa entre ambos que não leva a lugar nenhum. Mas logo depois, noutra cena adiante, quando Mario discute com o encarregado do posto de correios da ilha acerca do poeta, antes de aceitar o lugar de carteiro de Pablo Neruda, percebemos que ambos têm poucos conhecimentos sobre poesia e  que afinal ele é uma pessoa normal, que foi criado numa ilha  cuja única ocupação dos seus habitantes é a pesca e  onde não existe nada de importante que se possa falar. Mas tudo isso está para mudar com a chegada de Pablo Neruda, o poeta chileno que veio para o exílio e torna-se uma atracção na ilha, os ílhéus, apesar de não saberem nada de poesia,  têm alguém a quem não negam nada, Neruda, apesar de estar exilado,  encontra a paz que não tem no seu Chile natal  e Mario, finalmente, encontra alguém que lhe ensine como falar com raparigas, e que existe algo mais do que a vida naquela ilha tranquila, de gente simples onde as mudanças e as ideia novas tardam a chegar, se é que alguma vez chegarão.
   
A relação entre ambos cresce lentamente. O poeta é um homem calmo, que vive com uma mulher (não chegamos a saber se é a sua esposa ou não), Mario percebe que eles estão apaixonados, então, fascinado pela personalidade do poeta aliada á sua fama e a avultada correspondência que recebe, principalmente de mulheres, ele utiliza todos os meios ao seu alcance para ganhar a amizade de Neruda, incluindo o conseguir arranjar um livro de poemas dele e pedir-lhe que o autografe, o que o poeta faz, indiferentemente, escrevendo “com amizade, Pablo Neruda” (como se fosse mais um dos seus leitores), o que deixa o pobre carteiro abatido, pois o autógrafo não está nem sequer personalizado! Como é que Mario poderá alguma vez impressionar as mulheres (principalmente Beatrice Russo, a jovem por quem ele está apaixonado, interpretada pela belíssima ex-modelo e actriz Maria Grazia Cucinotta), se o seu autógrafo não for personalizado?! O carteiro procura a ajuda de Neruda para que este lhe ensine palavras para poder escrever um poema para a sua amada Beatrice, para poder comunicar melhor com ela (e ultrapassar a sua timidez).
Maria Grazia Cucinotta
    Há ainda uma cena que também é marcante, nomeadamente no que diz respeito a Mario; alguns meses depois de o poeta ter deixado o seu exílio naquela ilha mediterrânea, o carteiro recebe um recorte dum jornal onde Neruda fala da vida de solidão que manteve entre as gentes simples do mundo. O rosto de Mario contrai-se ao ler aquelas palavras do seu ídolo e essa contracção é suficiente para mostrar que ele já não é tão “simples” quanto o poeta diz. São estas pequenas cenas que fazem os filmes grandes!
     
Realizado por Michael Radford, que já nos dera o profético "Nineteen Eighty-Four - 1984" (1984) com John Hurt e Richard Burton no seu derradeiro papel no cinema ou o "The Merchant of Venice - O Mercador de Veneza" (2004) com Al Pacino e Jeremy Irons, que constitui uma das melhores adaptações de Shakespeare ao grande écran, que consegue com  "O Carteiro de Pablo Neruda" fazer um  filme simples, misto de comédia e romance, digno de alguns clássicos na melhor tradição do cinema italiano. Tudo graças a uma realização competente que tira o melhor partido dos locais de filmagem e também do trabalho dos actores.
Massimo Troisi & Philippe Noiret
    Philippe Noiret tem aqui, a par de “La Grande Bouffe – A Grande Farra” (Marco Ferreri, 1973), ou  do fabuloso  “Nuovo Cinema Paradiso – Cinema Paraíso” (Giuseppe Tornatore, 1988), um dos melhores trabalhos da sua longa carreira. O seu Pablo Neruda é perfeito graças à semelhança do actor com o verdadeiro poeta. Massimo Troisi teve aqui o papel da sua vida. Aliás, segundo o próprio realizador, a dedicação do actor ao filme foi total, nem mesmo o problema de saúde que o afectava o impedia de trabalhar (Troisi  adiou uma operação ao coração, para poder completar a sua participação no filme) . Infelizmente, não viveu o suficiente para ver o resultado do seu esforço, pois faleceu exactamente 12 horas depois do fim das filmagens, de paragem cardíaca. Ficou a interpretação inesquecível.
Juntos, os dois actores conseguem transformar a simplicidade intencional do filme numa verdadeira meditação sobre o destino, tacto, diplomacia e poesia. Pode até dizer-se que, se as circunstâncias fossem um bocadinho diferentes, Mario poderia ser ele mesmo o poeta, Neruda o carteiro, apesar desta ser uma ideia que ocorra mais facilmente a Mario.
    "O Carteiro de Pablo Neruda" foi um grande sucesso de bilheteira a nivel mundial. Vencedor de inúmeros prémios e nomeado para cinco Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme, Melhor Actor e Melhor Realizador, mas venceu apenas na categoria de Melhor Banda Sonora.

 É um filme sobre a amizade, sobre como é que duas pessoas de mundos completamente diferentes se relacionam e como é que esse relacionamento muda as suas vidas radicalmente. Poder-se-ia dizer que a relação de amizade entre o poeta e o seu carteiro, um simples homem de poucos conhecimentos, poderia ter sido mais desenvolvida e aprofundada, mas a beleza do filme reside precisamente na sua calma e pacatez.

Nota: as imagens que vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet.


domingo, 13 de março de 2016

Platoon - Os Bravos do Pelotão - A Quinta Essência do Vietname!


   François Truffaut, um dos maiores realizadores europeus de sempre e também um dos nomes grandes da “Nouvelle Vague” do cinema francês dos anos 60, disse que não era possível fazer um filme anti-guerra porque todos os filmes de guerra acabam, de uma maneira ou de outra, por transformar  o combate numa espécie de brincadeira para adultos. Ora, Truffaut, faleceu em 1984 e, como tal, não viu “Platoon – Os Bravos do Pelotão”, nem “Full Metal Jacket – Nascido para Matar” (Stanley Kubrick, 1987), porque se tivesse visto qualquer um destes filmes, provavelmente mudaria de opinião.
   
O Vietnam, como conflito bélico, sempre foi de má memória para os americanos. Para o cinema foi e continua a ser, fonte de inspiração. Dos muitos títulos existentes sobre este tema, poucos são aqueles que se aproveitam ou que até explicam alguma coisa sobre este conflicto. "Platoon – Os Bravos do Pelotão" é um deles.
Partindo da sua própria experiência naquele conflito (foi o primeiro filme a ser escrito e realizado por um Veterano do Vietname), Oliver Stone fez um grandioso filme, pleno de violência mas também cheio de humanidade. Stone piscou também o olho ao eterno conflito entre o bem e o mal, utilizando para isso as figuras dos dois sargentos, Barnes e Elias, dois veteranos com opiniões e comportamentos diferentes, sempre em constante conflito o que origina cissões inevitáveis e a necessidade de se tomar partido numa fação, dentro do que deveria ser um grupo coeso, neste caso o pelotão (“Platoon”), de que fala o título do filme.
   Quando a sua comissão terminou, em 1968, Stone escreveu um argumento para um possível filme chamado “Break”, um registo autobiográfico onde descreve detalhadamente as suas experiências, tanto com os seus pais, como com a sua estadia no Vietname. O seu regresso da comissão resultou numa enorme mudança em vários aspectos, nomeadamente na maneira como passou a encarar a vida e como via a guerra. “Break” não foi avante como filme porque o Vietname ainda estava muito fresco na memória do povo americano e os estúdios não estavam dispostos a arriscar dinheiro em filmes sobre essa temática, mas tornou-se na base daquilo que seria o argumento de “Platoon”.
   
Durante a década de 70, Oliver Stone escreveu diversos argumentos para outras tantas produções, incluindo um argumento intitulado “The Cover-up” para Robert Bolt (também ele argumentista, que trabalhou várias vezes com David Lean nas suas superproduções na década de 60), que não passou do papel, mas foi suficiente para que Stone chamasse a atenção do produtor Martin Bregman e este o incentivasse a re-escrever o seu “Break”, que pouco a pouco se transformou no futuro “Platoon”, pelo meio, Oliver Stone trabalhou na adaptação de “The Midnight Express – O Expresso da Meia-Noite”, realizado por Alan Parker em 1978, com a qual ganhou o Oscar de Melhor Argumento Adaptado. Mas mesmo assim, os estúdios continuavam relutantes em financiar um filme sobre a guerra do Vietname, já que ainda havia muita ferida por cicatrizar. Foi já bem dentro da década de 80, depois do triunfo de “The Deer Hunter – O Caçador” realizado por Michael Cimino em 1978, que arrebatou os prémios da academia para Melhor Filme e Melhor Realizador do Ano, entre outros, e de já haver passado mais de uma década sobre o fim do conflicto é que os estúdios perceberam que Oliver Stone estava a tentar fazer um filme de guerra que não era nenhuma fantasia, nenhuma lenda, nenhuma metáfora, nenhuma mensagem, mas apenas uma memória do que tudo aquilo tinha sido para ele.
   
Chris Taylor (Charlie Sheen, numa interpretação credível, talvez a mais credível da sua carreira), chega ao Vietnam como soldado e é colocado num pelotão cuja diversidade de personalidades e o conflito latente entre dois sargentos, o leva a questionar-se sobre se terá feito a escolha certa ao alistar-se para combater numa guerra incompreensível para si e para a américa. O filme é narrado do seu ponto de vista (baseado no próprio realizador), ele é um estudante da classe média americana que voluntariou para ir combater porque acredita que é o seu dever patriótico fazê-lo. Pouco tempo depois de lá chegar, alguém lhe diz “Tu não pertences aqui!” e ele acredita. No filme não existem falsos heroísmos nem heróis-tipo; Taylor rapidamente se encontra á beira dum colapso físico e psicológico também, ajudado pelas longas marchas, noites sem dormir, formigas, cobras, sanguessugas, cortes, ferimentos e o medo constante que os assola. Numa cena, logo no início, Taylor está de guarda no meio da selva e quando vê os inimigos aproximarem-se da sua posição, simplesmente bloqueia e por pouco não consegue reagir. Só muito mais á frente é que ele, gradualmente e sem se aperceber, se tornará num soldado a sério.
   
W.Dafoe, C.Sheen, T.Berenger
Ao contrário de outros filmes de guerra, mas também de outros géneros, não existe um argumento delineado que nos conduza, o que, tal como as personagens, nos deixa desorientados. Tudo pode acontecer, de preferência, sem aviso. Do écran, emergem assim, grandes figuras como o Sargento Barnes (Tom Berenger, numa interpretação magnífica, que lhe valeu uma nomeação para o Oscar), o veterano da guerra, com a cara cheia de cicatrizes, o sobrevivente de tantos combates que os seus homens acreditam que ele não pode ser morto; o Sargento Elias (Willem Dafoe, excelente interpretação que também lhe valeu uma nomeação ao Oscar), outro bom combatente, mas que tenta escapar de toda aquela realidade através das drogas; Bunny (Kevin Dillon, quase irreconhecível), o rapaz assustado que se tornou perigoso e meio doido porque lhe parece ser a maneira correcta de se proteger contra tudo e todos. Juntamente com estas personagens podemos ainda encontrar em papéis mais discretos Forest Whitaker e Johnny Deep.
   
Outro aspecto que torna “Platoon” uma obra diferente da habitual película de guerra é o facto de, ao longo de todo o filme, raramente termos o vislumbre, claro e inequívoco, dos soldados inimigos. Estes surgem em “travellings” apressados, quais fantasmas no meio da vegetação, sente-se a sua presença nos caminhos no meio da selva, vemos provas da sua passagem em diversos locais e esconderijos debaixo das aldeias, onde a presença de civis, aparentemente indefesos e confusos, cria uma sensação de perigo a toda a volta e serve para enraivecer ainda mais os americanos.  A cena que melhor ilustra esta raiva americana é a cena da destruição da vila vietnamita. Nela vemos (e percebemos) as suspeitas de que a aldeia pode ter ligações com o exército vietnamita, o que origina uma variedade de comportamentos que, conseguimos perceber, só poderão terminar num massacre total. Stone, porém, doseia e ilustra bem os momentos. Uma parte do pelotão está disposta a matar e destruir tudo ao menor pretexto (a morte da mulher, o marido que, mesmo enquanto está a ser interrogado, prefere chorar a mulher, ignorando as perguntas que lhe fazem e a filha que grita e chora enquanto Barnes a mantém refém  apontando-lhe uma pistola á cabeça) e percebemos que a raiva se torna em violência.
   Outros há que ainda conseguem controlar e manter alguma moralidade na situação, apesar de sentirem que as suas vidas podem estar em perigo no esgrimar dos seus argumentos, percebe-se o grande perigo que paira no ar quando discordam (Taylor a impedir que três ou quatro soldados violem brutalmente uma criança). Felizmente, ao contrário da magnifíca cena do ataque dos helicópteros no fabuloso “Apocalypse Now” (Francis “Ford” Coppola, 1979), que resulta na destruição duma aldeia e massacre dos seus habitantes ao som da espectacular e verdadeiramente apocalíptica “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner, em “Platoon” fica-se apenas pela destruição da aldeia levada a cabo pelos soldados americanos ao som de “Adagio For Strings” de Samuel Barber, que é um momento verdadeiramente nostálgico, belo e triste ao mesmo tempo.
     
De louvar também o trabalho que Stone fez com as sequências de batalha. Enquanto no filme de guerra convencional, o campo de batalha está claramente delineado e obedece a regras próprias de combate.  Em “Platoon”, ele deu a esse mesmo campo de batalha uma dimensão de 360º graus, ou seja, qualquer tiro pode estar a ser dirigido ao inimigo como também a um amigo, como se vê na sequência de  combate final, no calor da batalha, os soldados não sabem em quem é que estão a atirar depois do inimigo ter penetrado nas sua linhas defensivas. O efeito obtido por esta maneira de filmar os combates, com disparos quase incendiários na escuridão da noite, acaba por se revelar dramático, completamente avassalador  e, logo, emocionante, porque o espectador ao pôr-se na pele das personagens, identifica-se com elas e entende que se se esconder atrás daquela árvore ou  naquela vala, estará mais seguro e protegido do fogo inimigo.
   
Oliver Stone, o realizador
Segundo o realizador este foi o primeiro filme de uma trilogia sobre o Vietnam e os seus efeitos na sociedade americana. Seguiram-se-lhe o incómodo "Born on the Fourth of July - Nascido a 4 de Julho" (1989), cuja acção  acompanha o trajecto do veterano Ron Kovic, antes durante e depois do conflicto,  e o curioso, embora quase ignorado, " Heaven & Earth - Quando o Céu e a Terra mudaram de Lugar" (1993) que conta a história dos tormentos porque passou uma jovem rapariga de uma aldeia vietnamita enquanto guerrilheira, jovem mãe, prostituta e posteriormente mulher de um Marine americano.
   
Platoon - Os Bravos do Pelotão
Vencedor de quatro Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador do Ano, dos oito para que estava nomeado, "Platoon" teve o condão de, se exceptuarmos o caso de "O Caçador", ser o primeiro filme a abordar directamente a temática desta guerra e ganhar a estatueta de Melhor Filme.

Uma última nota: para quem pretenda ver e perceber o que foi a guerra do Vietnam, quais as repercussões que teve no país e na sociedade americanas, favor ver os seguintes títulos: "Coming Home - O Regresso dos Hérois" (Hal Ashby, 1978); "The Deer Hunter - O Caçador" (Michael Cimino, 1978); "Apocalypse Now - Apocalypse Now e também na versão  Apocalypse Now Redux"(Francis Ford Coppola, 1979/2001); "Full Metal Jacket -Nascido para Matar" (Stanley Kubrick, 1987) e também este "Platoon - Os Bravos do Pelotão".

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet


MAHAVISHNU ORCHESTRA – MÚSICA DE FUSÃO          Entre o final da década de 60 do século passado e meados da década de 70, a música sofreu...