O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Um dos grandes
truques do cinema sempre foi contar histórias simples e apelativas garantindo
sempre bons resultados junto do público e também junto de alguma crítica. Foi o
que se passou com este "Carteiro de Pablo Neruda".
Mário vive numa ilha em Itália na década de 50
do século passado, é filho de um pescador mas não se consegue adaptar aquela
vida. Graças a saber ler e escrever, ele consegue um emprego como carteiro
encarregado de levar a correspondência ao poeta chileno Pablo Neruda que se
encontra exilado naquela ilha. Com o passar do tempo os dois tornam-se amigos e
Mário pede ao poeta que o ajude a conquistar a rapariga que ele ama.
O filme é baseado
no livro “Ardiente Paciencia”, escrito por Antonio Skármeta, em 1983, com
argumento da autoria de Anna Pavignamo, Michael Radford, Furio Scarpelli,
Giacomo Scarpelli e Massimo Troisi e situa a acção na década de 50, enquanto o
livro e o filme homónimo, que o próprio Skármeta realizara em 1985, a situava
em 1970, no Chile, na Ilha Negra, onde Pablo Neruda vivia.
O primeiro
vislumbre que temos de Mario, numa cena em que ele conversa com o pai, ficamos
com a ideia de que ele deve ser deficiente mental, assim como o pai que também
nos deixa essa ideia, tal é a conversa entre ambos que não leva a lugar nenhum.
Mas logo depois, noutra cena adiante, quando Mario discute com o encarregado do
posto de correios da ilha acerca do poeta, antes de aceitar o lugar de carteiro
de Pablo Neruda, percebemos que ambos têm poucos conhecimentos sobre poesia e que afinal ele é uma pessoa normal, que foi
criado numa ilha cuja única ocupação dos
seus habitantes é a pesca e onde não
existe nada de importante que se possa falar. Mas tudo isso está para mudar com
a chegada de Pablo Neruda, o poeta chileno que veio para o exílio e torna-se
uma atracção na ilha, os ílhéus, apesar de não saberem nada de poesia,têm alguém a quem não negam nada, Neruda,
apesar de estar exilado,encontra a paz
que não tem no seu Chile natal e Mario,
finalmente, encontra alguém que lhe ensine como falar com raparigas, e que
existe algo mais do que a vida naquela ilha tranquila, de gente simples onde as
mudanças e as ideia novas tardam a chegar, se é que alguma vez chegarão.
A relação entre ambos
cresce lentamente. O poeta é um homem calmo, que vive com uma mulher (não
chegamos a saber se é a sua esposa ou não), Mario percebe que eles estão
apaixonados, então, fascinado pela personalidade do poeta aliada á sua fama e a
avultada correspondência que recebe, principalmente de mulheres, ele utiliza
todos os meios ao seu alcance para ganhar a amizade de Neruda, incluindo o
conseguir arranjar um livro de poemas dele e pedir-lhe que o autografe, o que o
poeta faz, indiferentemente, escrevendo “com amizade, Pablo Neruda” (como se
fosse mais um dos seus leitores), o que deixa o pobre carteiro abatido, pois o
autógrafo não está nem sequer personalizado! Como é que Mario poderá alguma vez
impressionar as mulheres (principalmente Beatrice Russo, a jovem por quem ele
está apaixonado, interpretada pela belíssima ex-modelo e actriz Maria Grazia
Cucinotta), se o seu autógrafo não for personalizado?! O carteiro procura a
ajuda de Neruda para que este lhe ensine palavras para poder escrever um poema
para a sua amada Beatrice, para poder comunicar melhor com ela (e ultrapassar a
sua timidez).
Maria Grazia Cucinotta
Há ainda uma cena que também é marcante, nomeadamente no que diz
respeito a Mario; alguns meses depois de o poeta ter deixado o seu exílio
naquela ilha mediterrânea, o carteiro recebe um recorte dum jornal onde Neruda
fala da vida de solidão que manteve entre as gentes simples do mundo. O rosto
de Mario contrai-se ao ler aquelas palavras do seu ídolo e essa contracção é
suficiente para mostrar que ele já não é tão “simples” quanto o poeta diz. São
estas pequenas cenas que fazem os filmes grandes!
Realizado por Michael Radford, que já nos dera
o profético "Nineteen Eighty-Four - 1984" (1984) com John Hurt e
Richard Burton no seu derradeiro papel no cinema ou o "The Merchant of Venice
- O Mercador de Veneza" (2004) com Al Pacino e Jeremy Irons, que constitui
uma das melhores adaptações de Shakespeare ao grande écran, que consegue com "O Carteiro de Pablo Neruda" fazer
um filme simples, misto de comédia e
romance, digno de alguns clássicos na melhor tradição do cinema italiano. Tudo
graças a uma realização competente que tira o melhor partido dos locais de
filmagem e também do trabalho dos actores.
Massimo Troisi & Philippe Noiret
Philippe Noiret tem aqui, a par de “La Grande
Bouffe – A Grande Farra” (Marco Ferreri, 1973), oudo fabuloso“Nuovo Cinema Paradiso – Cinema Paraíso” (Giuseppe Tornatore, 1988), um
dos melhores trabalhos da sua longa carreira. O seu Pablo Neruda é perfeito
graças à semelhança do actor com o verdadeiro poeta. Massimo Troisi teve aqui o
papel da sua vida. Aliás, segundo o próprio realizador, a dedicação do actor ao
filme foi total, nem mesmo o problema de saúde que o afectava o impedia de
trabalhar (Troisiadiou uma operação ao
coração, para poder completar a sua participação no filme) . Infelizmente, não
viveu o suficiente para ver o resultado do seu esforço, pois faleceu
exactamente 12 horas depois do fim das filmagens, de paragem cardíaca. Ficou a
interpretação inesquecível.
Juntos, os dois
actores conseguem transformar a simplicidade intencional do filme numa
verdadeira meditação sobre o destino, tacto, diplomacia e poesia. Pode até
dizer-se que, se as circunstâncias fossem um bocadinho diferentes, Mario
poderia ser ele mesmo o poeta, Neruda o carteiro, apesar desta ser uma ideia que
ocorra mais facilmente a Mario.
"O Carteiro de Pablo Neruda" foi um
grande sucesso de bilheteira a nivel mundial. Vencedor de inúmeros prémios e nomeado
para cinco Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme, Melhor Actor e Melhor
Realizador, mas venceu apenas na categoria de Melhor Banda Sonora.
É um filme sobre a amizade, sobre como é que
duas pessoas de mundos completamente diferentes se relacionam e como é que esse
relacionamento muda as suas vidas radicalmente. Poder-se-ia dizer que a relação
de amizade entre o poeta e o seu carteiro, um simples homem de poucos
conhecimentos, poderia ter sido mais desenvolvida e aprofundada, mas a beleza
do filme reside precisamente na sua calma e pacatez.
Nota: as imagens que vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet.
François Truffaut,
um dos maiores realizadores europeus de sempre e também um dos nomes grandes da
“Nouvelle Vague” do cinema francês dos anos 60, disse que não era possível
fazer um filme anti-guerra porque todos os filmes de guerra acabam, de uma
maneira ou de outra, por transformaro
combate numa espécie de brincadeira para adultos. Ora, Truffaut, faleceu em
1984 e, como tal, não viu “Platoon – Os Bravos do Pelotão”, nem “Full Metal
Jacket – Nascido para Matar” (Stanley Kubrick, 1987), porque se tivesse visto
qualquer um destes filmes, provavelmente mudaria de opinião.
O Vietnam, como
conflito bélico, sempre foi de má memória para os americanos. Para o cinema foi
e continua a ser, fonte de inspiração. Dos muitos títulos existentes sobre este
tema, poucos são aqueles que se
aproveitam ou que até explicam alguma coisa sobre este conflicto. "Platoon
– Os Bravos do Pelotão" é um deles.
Partindo da sua
própria experiência naquele conflito (foi o primeiro filme a ser escrito e
realizado por um Veterano do Vietname), Oliver Stone fez um grandioso filme,
pleno de violência mas também cheio de humanidade. Stone piscou também o olho
ao eterno conflito entre o bem e o mal, utilizando para isso as figuras dos
dois sargentos, Barnes e Elias, dois veteranos com opiniões e comportamentos
diferentes, sempre em constante conflito o que origina cissões inevitáveis e a
necessidade de se tomar partido numa fação, dentro do que deveria ser um grupo
coeso, neste caso o pelotão (“Platoon”), de que fala o título do filme.
Quando a sua
comissão terminou, em 1968, Stone escreveu um argumento para um possível filme
chamado “Break”, um registo autobiográfico onde descreve detalhadamente as suas
experiências, tanto com os seus pais, como com a sua estadia no Vietname. O seu
regresso da comissão resultou numa enorme mudança em vários aspectos,
nomeadamente na maneira como passou a encarar a vida e como via a guerra.
“Break” não foi avante como filme porque o Vietname ainda estava muito fresco
na memória do povo americano e os estúdios não estavam dispostos a arriscar
dinheiro em filmes sobre essa temática, mas tornou-se na base daquilo que seria
o argumento de “Platoon”.
Durante a década de
70, Oliver Stone escreveu diversos argumentos para outras tantas produções,
incluindo um argumento intitulado “The Cover-up” para Robert Bolt (também ele
argumentista, que trabalhou várias vezes com David Lean nas suas superproduções
na década de 60), que não passou do papel, mas foi suficiente para que Stone
chamasse a atenção do produtor Martin Bregman e este o incentivasse a
re-escrever o seu “Break”, que pouco a pouco se transformou no futuro
“Platoon”, pelo meio, Oliver Stone trabalhou na adaptação de “The Midnight
Express – O Expresso da Meia-Noite”, realizado por Alan Parker em 1978, com a
qual ganhou o Oscar de Melhor Argumento Adaptado. Mas mesmo assim, os estúdios
continuavam relutantes em financiar um filme sobre a guerra do Vietname, já que
ainda havia muita ferida por cicatrizar. Foi já bem dentro da década de 80,
depois do triunfo de “The Deer Hunter – O Caçador” realizado por Michael Cimino
em 1978, que arrebatou os prémios da academia para Melhor Filme e Melhor
Realizador do Ano, entre outros, e de já haver passado mais de uma década sobre
o fim do conflicto é que os estúdios perceberam que Oliver Stone estava a
tentar fazer um filme de guerra que não era nenhuma fantasia, nenhuma lenda,
nenhuma metáfora, nenhuma mensagem, mas apenas uma memória do que tudo aquilo
tinha sido para ele.
Chris Taylor
(Charlie Sheen, numa interpretação credível, talvez a mais credível da sua
carreira), chega ao Vietnam como soldado e é colocado num pelotão cuja
diversidade de personalidades e o conflito latente entre dois sargentos, o leva
a questionar-se sobre se terá feito a escolha certa ao alistar-se para combater
numa guerra incompreensível para si e para a américa. O filme é narrado do seu
ponto de vista (baseado no próprio realizador), ele é um estudante da classe
média americana que voluntariou para ir combater porque acredita que é o seu
dever patriótico fazê-lo. Pouco tempo depois de lá chegar, alguém lhe diz “Tu
não pertences aqui!” e ele acredita. No filme não existem falsos heroísmos nem
heróis-tipo; Taylor rapidamente se encontra á beira dum colapso físico e
psicológico também, ajudado pelas longas marchas, noites sem dormir, formigas,
cobras, sanguessugas, cortes, ferimentos e o medo constante que os assola. Numa
cena, logo no início, Taylor está de guarda no meio da selva e quando vê os
inimigos aproximarem-se da sua posição, simplesmente bloqueia e por pouco não
consegue reagir. Só muito mais á frente é que ele, gradualmente e sem se
aperceber, se tornará num soldado a sério.
W.Dafoe, C.Sheen, T.Berenger
Ao contrário de
outros filmes de guerra, mas também de outros géneros, não existe um argumento
delineado que nos conduza, o que, tal como as personagens, nos deixa
desorientados. Tudo pode acontecer, de preferência, sem aviso. Do écran,
emergem assim, grandes figuras como o Sargento Barnes (Tom Berenger, numa
interpretação magnífica, que lhe valeu uma nomeação para o Oscar), o veterano
da guerra, com a cara cheia de cicatrizes, o sobrevivente de tantos combates
que os seus homens acreditam que ele não pode ser morto; o Sargento Elias (Willem
Dafoe, excelente interpretação que também lhe valeu uma nomeação ao Oscar), outro
bom combatente, mas que tenta escapar de toda aquela realidade através das
drogas; Bunny (Kevin Dillon, quase irreconhecível), o rapaz assustado que se
tornou perigoso e meio doido porque lhe parece ser a maneira correcta de se
proteger contra tudo e todos. Juntamente com estas personagens podemos ainda
encontrar em papéis mais discretos Forest Whitaker e Johnny Deep.
Outro aspecto que
torna “Platoon” uma obra diferente da habitual película de guerra é o facto de,
ao longo de todo o filme, raramente termos o vislumbre, claro e inequívoco, dos
soldados inimigos. Estes surgem em “travellings” apressados, quais fantasmas no
meio da vegetação, sente-se a sua presença nos caminhos no meio da selva, vemos
provas da sua passagem em diversos locais e esconderijos debaixo das aldeias,
onde a presença de civis, aparentemente indefesos e confusos, cria uma sensação
de perigo a toda a volta e serve para enraivecer ainda mais os americanos. A cena que melhor ilustra esta raiva americana
é a cena da destruição da vila vietnamita. Nela vemos (e percebemos) as
suspeitas de que a aldeia pode ter ligações com o exército vietnamita, o que
origina uma variedade de comportamentos que, conseguimos perceber, só poderão
terminar num massacre total. Stone, porém, doseia e ilustra bem os momentos.
Uma parte do pelotão está disposta a matar e destruir tudo ao menor pretexto (a
morte da mulher, o marido que, mesmo enquanto está a ser interrogado, prefere
chorar a mulher, ignorando as perguntas que lhe fazem e a filha que grita e
chora enquanto Barnes a mantém refémapontando-lhe uma pistola á cabeça) e percebemos que a raiva se torna em
violência.
Outros há que ainda conseguem controlar e manter alguma moralidade
na situação, apesar de sentirem que as suas vidas podem estar em perigo no
esgrimar dos seus argumentos, percebe-se o grande perigo que paira no ar quando
discordam (Taylor a impedir que três ou quatro soldados violem brutalmente uma
criança). Felizmente, ao contrário da magnifíca cena do ataque dos helicópteros
no fabuloso “Apocalypse Now” (Francis “Ford” Coppola, 1979), que resulta na
destruição duma aldeia e massacre dos seus habitantes ao som da espectacular e
verdadeiramente apocalíptica “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner, em
“Platoon” fica-se apenas pela destruição da aldeia levada a cabo pelos soldados
americanos ao som de “Adagio For Strings” de Samuel Barber, que é um momento
verdadeiramente nostálgico, belo e triste ao mesmo tempo.
De louvar também o
trabalho que Stone fez com as sequências de batalha. Enquanto no filme de
guerra convencional, o campo de batalha está claramente delineado e obedece a
regras próprias de combate.Em
“Platoon”, ele deu a esse mesmo campo de batalha uma dimensão de 360º graus, ou
seja, qualquer tiro pode estar a ser dirigido ao inimigo como também a um
amigo, como se vê na sequência decombate final, no calor da batalha, os soldados não sabem em quem é que
estão a atirar depois do inimigo ter penetrado nas sua linhas defensivas. O
efeito obtido por esta maneira de filmar os combates, com disparos quase
incendiários na escuridão da noite, acaba por se revelar dramático,
completamente avassaladore, logo,
emocionante, porque o espectador ao pôr-se na pele das personagens,
identifica-se com elas e entende que se se esconder atrás daquela árvore
ounaquela vala, estará mais seguro e
protegido do fogo inimigo.
Oliver Stone, o realizador
Segundo o
realizador este foi o primeiro filme de uma trilogia sobre o Vietnam e os seus
efeitos na sociedade americana. Seguiram-se-lhe o incómodo "Born on the Fourth
of July - Nascido a 4 de Julho" (1989), cuja acção acompanha o trajecto do veterano Ron Kovic,
antes durante e depois do conflicto, e o
curioso, embora quase ignorado, " Heaven & Earth - Quando o Céu e a
Terra mudaram de Lugar" (1993) que conta a história dos tormentos porque
passou uma jovem rapariga de uma aldeia vietnamita enquanto guerrilheira, jovem
mãe, prostituta e posteriormente mulher de um Marine americano.
Platoon - Os Bravos do Pelotão
Vencedor de quatro
Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador do Ano, dos oito para que
estava nomeado, "Platoon" teve o condão de, se exceptuarmos o caso de
"O Caçador", ser o primeiro filme a abordar directamente a temática
desta guerra e ganhar a estatueta de Melhor Filme.
Uma última nota:
para quem pretenda ver e perceber o que foi a guerra do Vietnam, quais as
repercussões que teve no país e na sociedade americanas, favor ver os seguintes
títulos: "Coming Home - O Regresso dos Hérois" (Hal Ashby, 1978);
"The Deer Hunter - O Caçador" (Michael Cimino, 1978); "Apocalypse
Now - Apocalypse Now e também na versão Apocalypse
Now Redux"(Francis Ford Coppola, 1979/2001); "Full Metal Jacket -Nascido
para Matar" (Stanley Kubrick, 1987) e também este "Platoon - Os Bravos
do Pelotão".
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet
Em
2005, o realizador Christopher Nolan surpreendia o mundo do cinema com uma
nova versãode “Batman”, o super-herói
criado por Bob Kane e Bill Fingers em 1939.
Com “Batman Begins – O Início”, Nolan apresentava
uma versão muito pessoal, mais negra, porém, mais próxima da criação de Kane
do que os filmes e as séries dos anos 60 do século passado, fizeram da
personagem. Nem mesmo Tim Burton, nos filmes que realizou na década de 80 e
90, conseguiu fazer justiça suficiente ao vigilante da capa negra, apesar do
sucesso de bilheteira obtido e de uma certa aceitação pelos fâns da banda
desenhadaque os dois filmes que
Burton realizou, obtiveram.
Perante o sucesso
que “Batman – O Início” obteve junto do público e também da crítica, não só
pela maneira como o realizador abordou a personagem, como também pelo final,
que deixava aberto o caminho para uma eventual sequela. Era apenas uma
questão de tempo até esta ser anunciada.
Batman, o justiceiro de capa negra, ajudado
pelo tenente da polícia, Jim Gordon e o novo procurador de Gotham, Harvey
Dent, estão dispostos a acabar com as organizações criminais que infestam a
cidade. No início tudo parece correr bem, mas rapidamente se vêem
confrontados com um outro tipo de ameaça, bem mais perigosa que os simples
mafiosos, que se intitula a si próprio “The Joker” e esta espécie de génio do
crime começa a semear o pânico e o caos entre a população da cidade.
Pouco tempo antes
da estreia de “Batman – O Início”, o argumentista David S. Goyer, escreveu
dois esboços para duas possíveis sequelas nas quais seriam introduzidas as
personagens de “The Joker” e de Harvey Dent. A sua ideia original era que, no
terceiro filme, “Joker”, durante o seu julgamento, marcasse Dent, de modo a
que este se transformasse no “Harvey Duas-Faces”. Christopher Nolan,
inicialmente não sabia se regressaria ou não para realizar qualquer eventual
sequela de “Batman”, queria reinterpretar “Joker” no écran e quando, a 31 de
julho de 2006, a “Warner Bros”, anunciou oficialmente que iria haver uma
sequela de “Batman Begins” e que se iria chamar “The Dark Knight”. Quando lhe
foi dada luz verde para filmar a sequela, o realizador não hesitou.
Depois de muita
pesquisa, apoiada na história que David S. Goyer delineara, inspirada na
série escrita “Batman – The Long Halloween – O Longo Halloween”, uma série de
contos escritos por Jeph Loeb e desenhados por Tim Sale e publicados pela DC
Comics entre 1996 e 1997 e que recontavam a história de “Harvey Duas-Faces”, Christopher
Nolan e o seu irmão, Jonathan, por sua vez inspiraram-se também no primeiro número darevista “Batman”, editada em 1940 onde o
“Joker” aparece por duas vezes. Igualmente influente na escrita do argumento
foi, segundo o realizador, o filme “Das Testament des Dr.Mabuse – O
Testamento do Dr.Mabuse” que Fritz Lang realizou em 1933,“é absolutamente
essencial para quem queira escrever sobre um super-vilão ver este filme” e
foi o que Nolan fez com o seu irmão antes de começarem a escrever o argumento.
A ideia, ainda segundo o realizador, não era mostrar as origens de “Joker”,
mas sim a sua ascensão como mente criminosa, sem diminuir a força ameaçadora
que representa. Era, pois, com alguma expectativa que se aguardava este
"O Cavaleiro das Trevas".
A história gira,
mais ou menos, á volta das tentativas de “Joker” para humilhar as forças
policiais e expor a identidade secreta de Batman, apresentando-o como um
enigmático exibicionista e uma fraude. Ele inclui também Jim Gordon e Harvey
Dent como alvos preferenciais e, para isso, planeia truques cruéis para jogar
com o facto de que Bruce Wayne, que já foi namorado da bela Procuradora-Adjunta,
Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, num dos seus melhores papéis) e por quem
Harvey Dent está agora apaixonado e esses truques são tão ou mais cruéis uma
vez que o Joker não conhece a identidade de Batman. O conflicto que se
estabelece entre os dois é entre adultos, pessoas que sofreram na infância (
a de Bruce é mostrada através de “flashbacks” no primeiro filme), agora é a vez
de “Joker” e, se neste filme , não há qualquer referencia á de Bruce Wayne,
já a de “Joker” é contada unicamente através de diálogo, uma tenta
compensar-se a fazer o bem, a outra tenta fazê-lo através do mal e,
talvezinstintivamente, ambos percebem
isso.
Christopher
Nolan, que antes já nos dera o labiríntico “Memento” (2000), a história de um
homem em busca da sua identidade (não confundir com “The Bourne Identity –
Identidade desconhecida) e o excelente “The Prestige – O Terceiro Passo”
(2006), que conta a história da rivalidade entre dois ilusionistas de palco
na tentiva de criar o último grande número de ilusionismo de palco, realizou
um filme tecnicamente muito bem feito, quase perfeito, que consegue ir mais
além daquilo que seria expectável numa sequela, ou seja quando parece que se
atingiu o objectivo, ele força mais e mais até ser quase completamente
impossível sair das situações, tudo feito com uma precisão milimétrica sem
nunca perder a orientação traçada desde o início, na sequência do banco, que
é dos mais perfeitos e imprevisíveis assaltos a bancos que alguma vez se viu
no cinema ( Nolan admitiu ter-se inspirado em “Heat – Cidade sob Pressão, o
excelente filme policial que Michael Mann realizou em 1995,para filmar a cena). É uma das melhores
sequelas da história do cinema, digna de figurar ao lado de “The Godfather,
Part II – O Padrinho-Parte II” (Francis “Ford” Coppola, 1974).
“O Cavaleiro das Trevas” não é um simples filme sobre o Bem e o Mal. O Batman
é Bom, sim, o “Joker” é o mal, sim. Mas Batman apresenta-se como sendo um
puzzle muito mais complexo que o habitual (e isso já se vira no filme
anterior), aqui torna-se muito pior: os habitantes de Gotham estão em tumulto
por causa da morte dos seus concidadãos e polícias, culpam-no dessas mortes e
acusam-no de ser um “Vigilante” (alguém que faz justiça pelas suas próprias
mãos). O “Joker”, por seu lado, é muito mais que um vilão: ele é
maquiavélico, genial, violento, um verdadeiro Mefistófeles do crime, cujas
acções sãometiculosamente planeadas e
orientadas para criar verdadeiros dilemas morais nos seus inimigos e isso
vê-se na cena, perto do final, em que o “Joker” “convida” dois “ferry-boats”,
carregados de passageiros, a fazerem explodir-se um ao outro antes deles
mesmos serem destruídos. É uma cena carregada de tensão onde o simples
descontrole de alguém dentro de qualquer um dos barcos, pode fazer com que
ele vença sem fazer um grande esforço.
De acordo com
Nolan, um tema importante nesta sequela é a escalada, ou seja, as coisas têm
que ficar piores antes de melhorarem. O melhor exemplo disso é a rivalidade
amigável entre Bruce Wayne e Harvey Dent que funciona como uma espécie de
espinha dorsal da história de modo a dar ao filme um arco emocional que o
“Joker” não conseguia oferecer dadas as suas características malignas. Se o
final de "Batman - O Inicio" nos remetia para este "Cavaleiro
das Trevas", já este não nos remete para coisa nenhuma. O final, sem
glória para ninguém, é um dos achados do filme: Batman assume a culpa por
tudo aquilo que se passou na cidade e será perseguido para sempre, condena-se
a ser um Cavaleiro para sempre nas Trevas; o procurador Harvey Dent, depois
de ser o herói de Gotham, uma espécie de Cavaleiro Branco, por via dos
acontecimentos, cai em desgraça, transfigura-se num ser amargurado e torna-se
naquilo que inicialmente combatia; O Comissário Gordon transformado num herói
que não quer, nem nunca quis ser; o que é que resta então? um vazio. Fica-se
com a sensação de que toda a fundação moral de lenda de Batman está ameaçada.
Das
interpretações do elenco, todo ele feito de excelentes escolhas, salientam-se
as personagens secundárias a cargo dos grandes actores que são Morgan Freeman
e Michael Caine. Freeman é Lucius Fox, o génio científico, encarregado do
quartel-general subterrâneo de Bruce Wayne, cuja oposição ao método de
escutas a toda a população de Gotham criado por Wayne, acaba por, se bem que
sub-repticiamente, ter uma leitura política. Caine, por seu lado, é Alfred, o
mordomo dedicado que conhece Wayne melhor que ninguém o que lhe permite fazer
reparos á sua conduta. A meio do filme a sua decisão sobre uma carta para
Bruce Wayne, será decisiva. Christian Bale, Gary Oldman, retoman os seus
papéis respectivamente de Bruce Wayne/Batman e de Comissário Gordon, a quem
se junta Aaron Eckart, no papel do Procurador Harvey Dent. Mas na verdade, o
filme pertence na sua totalidade a Heath Ledger no papel de “Joker”: o
arqui-inimigo de Batman. A sua maquilhagem desleixada, as suas gargalhadas perversas que
denunciam uma mente perturbada, as cicatrizes que resultam de ferimentos auto
infligidos (ou não?), ele quer vingança pelos maus tratos que lhe foram
infligidos quando era criança. Os seus diálogos são um verdadeiro
achado, tornando-o psicologicamente mais complexo, delineando os dilemas que
ele próprio construiu e explicando as razões que o movem.
Heath Ledger criou
um Joker que, não ensombrando o Joker de Jack Nicholson em "Batman"
de Tim Burton, fica-nos na memória. Ledger aconselhou-se com Nicholson sobre
qual a melhor maneira de se transformar em “Joker” e, aparentemente, tal
aconselhamento terá resultado porque o actor agarrou o papel com tal vitalidade
que quando está em cena, consegue centrar todas as atenções como se não
houvesse mais ninguém presente e isso consegue-se ver na cena em que ele se
encontra detido pela polícia, frente a frente com Batman que quer saber do
paradeiro de Harvey Dent e o Joker olha-o por detrás da sua maquilhagem
descuidada e diz-lhe, no maior dos gozos, “para eles, tu és uma aberração,
tal como eu!” (“To them, you’re a freak, just like me!”). É o “Joker
definitivo no cinema, uma enorme interpretação de Heath Ledger, o seu melhor
papel e, infelizmente, também o seu último.
Heath Ledger (1979-2008), o "Joker" Definitivo
A 22 de janeiro
de 2008, Heath Ledger morria, aos 28 anos de idade, vitima duma overdose de
medicamentos, a poucos meses da estreia do filme Não saboreou o triunfo
absoluto que conseguiu com a sua interpretação que ganhou practicamente todos
os prémios para que foi nomeada, incluindo o Oscar para Melhor Actor
Secundário, entregue postumamente, tornando-se no primeiro actor a receber o
prémio nesta categoria, mas o segundo a ganhá-lo na categoria de interpretação
(o primeiro fora Peter Finch, como Melhor Actor, em 1976, com “Network –
Escândalo na TV”, realizado por Sidney Lumet), recebido por Christopher Nolan
e entregue aos seus familiares.
A 16 de julho de
2008, “O cavaleiro das Trevas” estreava em mais de 9000 salas nos estados
unidos e no canadá, tornando-se no maior sucesso de bilheteira do ano,
batendo o recorde de “Os Piratas das Caraíbas – Nos Confins do Mundo” (Gore
Verbinski, 2007), fazendo mais de 158.000.000 de dólares só no fim de semana
de estreia. Na totalidade o filme arrecadaria cerca de 533.000.000 de dólares
só nos estados unidos e cerca de 1 bilião de dólares no mundo inteiro,
tornamdo-se no quarto filme mais rentável da história do cinema.
Entre os inúmeros
prémios para que foi indicado, estão as oito nomeações para os Oscares da
Academia, das quais venceria apenas duas,
além da já citada para Melhor Actor Secundário, venceu igualmente na
categoria de Melhor Som.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet