domingo, 13 de março de 2016

Platoon - Os Bravos do Pelotão - A Quinta Essência do Vietname!


   François Truffaut, um dos maiores realizadores europeus de sempre e também um dos nomes grandes da “Nouvelle Vague” do cinema francês dos anos 60, disse que não era possível fazer um filme anti-guerra porque todos os filmes de guerra acabam, de uma maneira ou de outra, por transformar  o combate numa espécie de brincadeira para adultos. Ora, Truffaut, faleceu em 1984 e, como tal, não viu “Platoon – Os Bravos do Pelotão”, nem “Full Metal Jacket – Nascido para Matar” (Stanley Kubrick, 1987), porque se tivesse visto qualquer um destes filmes, provavelmente mudaria de opinião.
   
O Vietnam, como conflito bélico, sempre foi de má memória para os americanos. Para o cinema foi e continua a ser, fonte de inspiração. Dos muitos títulos existentes sobre este tema, poucos são aqueles que se aproveitam ou que até explicam alguma coisa sobre este conflicto. "Platoon – Os Bravos do Pelotão" é um deles.
Partindo da sua própria experiência naquele conflito (foi o primeiro filme a ser escrito e realizado por um Veterano do Vietname), Oliver Stone fez um grandioso filme, pleno de violência mas também cheio de humanidade. Stone piscou também o olho ao eterno conflito entre o bem e o mal, utilizando para isso as figuras dos dois sargentos, Barnes e Elias, dois veteranos com opiniões e comportamentos diferentes, sempre em constante conflito o que origina cissões inevitáveis e a necessidade de se tomar partido numa fação, dentro do que deveria ser um grupo coeso, neste caso o pelotão (“Platoon”), de que fala o título do filme.
   Quando a sua comissão terminou, em 1968, Stone escreveu um argumento para um possível filme chamado “Break”, um registo autobiográfico onde descreve detalhadamente as suas experiências, tanto com os seus pais, como com a sua estadia no Vietname. O seu regresso da comissão resultou numa enorme mudança em vários aspectos, nomeadamente na maneira como passou a encarar a vida e como via a guerra. “Break” não foi avante como filme porque o Vietname ainda estava muito fresco na memória do povo americano e os estúdios não estavam dispostos a arriscar dinheiro em filmes sobre essa temática, mas tornou-se na base daquilo que seria o argumento de “Platoon”.
   
Durante a década de 70, Oliver Stone escreveu diversos argumentos para outras tantas produções, incluindo um argumento intitulado “The Cover-up” para Robert Bolt (também ele argumentista, que trabalhou várias vezes com David Lean nas suas superproduções na década de 60), que não passou do papel, mas foi suficiente para que Stone chamasse a atenção do produtor Martin Bregman e este o incentivasse a re-escrever o seu “Break”, que pouco a pouco se transformou no futuro “Platoon”, pelo meio, Oliver Stone trabalhou na adaptação de “The Midnight Express – O Expresso da Meia-Noite”, realizado por Alan Parker em 1978, com a qual ganhou o Oscar de Melhor Argumento Adaptado. Mas mesmo assim, os estúdios continuavam relutantes em financiar um filme sobre a guerra do Vietname, já que ainda havia muita ferida por cicatrizar. Foi já bem dentro da década de 80, depois do triunfo de “The Deer Hunter – O Caçador” realizado por Michael Cimino em 1978, que arrebatou os prémios da academia para Melhor Filme e Melhor Realizador do Ano, entre outros, e de já haver passado mais de uma década sobre o fim do conflicto é que os estúdios perceberam que Oliver Stone estava a tentar fazer um filme de guerra que não era nenhuma fantasia, nenhuma lenda, nenhuma metáfora, nenhuma mensagem, mas apenas uma memória do que tudo aquilo tinha sido para ele.
   
Chris Taylor (Charlie Sheen, numa interpretação credível, talvez a mais credível da sua carreira), chega ao Vietnam como soldado e é colocado num pelotão cuja diversidade de personalidades e o conflito latente entre dois sargentos, o leva a questionar-se sobre se terá feito a escolha certa ao alistar-se para combater numa guerra incompreensível para si e para a américa. O filme é narrado do seu ponto de vista (baseado no próprio realizador), ele é um estudante da classe média americana que voluntariou para ir combater porque acredita que é o seu dever patriótico fazê-lo. Pouco tempo depois de lá chegar, alguém lhe diz “Tu não pertences aqui!” e ele acredita. No filme não existem falsos heroísmos nem heróis-tipo; Taylor rapidamente se encontra á beira dum colapso físico e psicológico também, ajudado pelas longas marchas, noites sem dormir, formigas, cobras, sanguessugas, cortes, ferimentos e o medo constante que os assola. Numa cena, logo no início, Taylor está de guarda no meio da selva e quando vê os inimigos aproximarem-se da sua posição, simplesmente bloqueia e por pouco não consegue reagir. Só muito mais á frente é que ele, gradualmente e sem se aperceber, se tornará num soldado a sério.
   
W.Dafoe, C.Sheen, T.Berenger
Ao contrário de outros filmes de guerra, mas também de outros géneros, não existe um argumento delineado que nos conduza, o que, tal como as personagens, nos deixa desorientados. Tudo pode acontecer, de preferência, sem aviso. Do écran, emergem assim, grandes figuras como o Sargento Barnes (Tom Berenger, numa interpretação magnífica, que lhe valeu uma nomeação para o Oscar), o veterano da guerra, com a cara cheia de cicatrizes, o sobrevivente de tantos combates que os seus homens acreditam que ele não pode ser morto; o Sargento Elias (Willem Dafoe, excelente interpretação que também lhe valeu uma nomeação ao Oscar), outro bom combatente, mas que tenta escapar de toda aquela realidade através das drogas; Bunny (Kevin Dillon, quase irreconhecível), o rapaz assustado que se tornou perigoso e meio doido porque lhe parece ser a maneira correcta de se proteger contra tudo e todos. Juntamente com estas personagens podemos ainda encontrar em papéis mais discretos Forest Whitaker e Johnny Deep.
   
Outro aspecto que torna “Platoon” uma obra diferente da habitual película de guerra é o facto de, ao longo de todo o filme, raramente termos o vislumbre, claro e inequívoco, dos soldados inimigos. Estes surgem em “travellings” apressados, quais fantasmas no meio da vegetação, sente-se a sua presença nos caminhos no meio da selva, vemos provas da sua passagem em diversos locais e esconderijos debaixo das aldeias, onde a presença de civis, aparentemente indefesos e confusos, cria uma sensação de perigo a toda a volta e serve para enraivecer ainda mais os americanos.  A cena que melhor ilustra esta raiva americana é a cena da destruição da vila vietnamita. Nela vemos (e percebemos) as suspeitas de que a aldeia pode ter ligações com o exército vietnamita, o que origina uma variedade de comportamentos que, conseguimos perceber, só poderão terminar num massacre total. Stone, porém, doseia e ilustra bem os momentos. Uma parte do pelotão está disposta a matar e destruir tudo ao menor pretexto (a morte da mulher, o marido que, mesmo enquanto está a ser interrogado, prefere chorar a mulher, ignorando as perguntas que lhe fazem e a filha que grita e chora enquanto Barnes a mantém refém  apontando-lhe uma pistola á cabeça) e percebemos que a raiva se torna em violência.
   Outros há que ainda conseguem controlar e manter alguma moralidade na situação, apesar de sentirem que as suas vidas podem estar em perigo no esgrimar dos seus argumentos, percebe-se o grande perigo que paira no ar quando discordam (Taylor a impedir que três ou quatro soldados violem brutalmente uma criança). Felizmente, ao contrário da magnifíca cena do ataque dos helicópteros no fabuloso “Apocalypse Now” (Francis “Ford” Coppola, 1979), que resulta na destruição duma aldeia e massacre dos seus habitantes ao som da espectacular e verdadeiramente apocalíptica “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner, em “Platoon” fica-se apenas pela destruição da aldeia levada a cabo pelos soldados americanos ao som de “Adagio For Strings” de Samuel Barber, que é um momento verdadeiramente nostálgico, belo e triste ao mesmo tempo.
     
De louvar também o trabalho que Stone fez com as sequências de batalha. Enquanto no filme de guerra convencional, o campo de batalha está claramente delineado e obedece a regras próprias de combate.  Em “Platoon”, ele deu a esse mesmo campo de batalha uma dimensão de 360º graus, ou seja, qualquer tiro pode estar a ser dirigido ao inimigo como também a um amigo, como se vê na sequência de  combate final, no calor da batalha, os soldados não sabem em quem é que estão a atirar depois do inimigo ter penetrado nas sua linhas defensivas. O efeito obtido por esta maneira de filmar os combates, com disparos quase incendiários na escuridão da noite, acaba por se revelar dramático, completamente avassalador  e, logo, emocionante, porque o espectador ao pôr-se na pele das personagens, identifica-se com elas e entende que se se esconder atrás daquela árvore ou  naquela vala, estará mais seguro e protegido do fogo inimigo.
   
Oliver Stone, o realizador
Segundo o realizador este foi o primeiro filme de uma trilogia sobre o Vietnam e os seus efeitos na sociedade americana. Seguiram-se-lhe o incómodo "Born on the Fourth of July - Nascido a 4 de Julho" (1989), cuja acção  acompanha o trajecto do veterano Ron Kovic, antes durante e depois do conflicto,  e o curioso, embora quase ignorado, " Heaven & Earth - Quando o Céu e a Terra mudaram de Lugar" (1993) que conta a história dos tormentos porque passou uma jovem rapariga de uma aldeia vietnamita enquanto guerrilheira, jovem mãe, prostituta e posteriormente mulher de um Marine americano.
   
Platoon - Os Bravos do Pelotão
Vencedor de quatro Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador do Ano, dos oito para que estava nomeado, "Platoon" teve o condão de, se exceptuarmos o caso de "O Caçador", ser o primeiro filme a abordar directamente a temática desta guerra e ganhar a estatueta de Melhor Filme.

Uma última nota: para quem pretenda ver e perceber o que foi a guerra do Vietnam, quais as repercussões que teve no país e na sociedade americanas, favor ver os seguintes títulos: "Coming Home - O Regresso dos Hérois" (Hal Ashby, 1978); "The Deer Hunter - O Caçador" (Michael Cimino, 1978); "Apocalypse Now - Apocalypse Now e também na versão  Apocalypse Now Redux"(Francis Ford Coppola, 1979/2001); "Full Metal Jacket -Nascido para Matar" (Stanley Kubrick, 1987) e também este "Platoon - Os Bravos do Pelotão".

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet


domingo, 10 de janeiro de 2016

O Cavaleiro das Trevas - Um Filme sem Heróis!




     
Em 2005, o realizador Christopher Nolan surpreendia o mundo do cinema com uma nova versão  de “Batman”, o super-herói criado por Bob Kane e Bill Fingers em 1939.
Com “Batman Begins – O Início”, Nolan apresentava uma versão muito pessoal, mais negra, porém, mais próxima da criação de Kane do que os filmes e as séries dos anos 60 do século passado, fizeram da personagem. Nem mesmo Tim Burton, nos filmes que realizou na década de 80 e 90, conseguiu fazer justiça suficiente ao vigilante da capa negra, apesar do sucesso de bilheteira obtido e de uma certa aceitação pelos fâns da banda desenhada  que os dois filmes que Burton realizou, obtiveram.
Perante o sucesso que “Batman – O Início” obteve junto do público e também da crítica, não só pela maneira como o realizador abordou a personagem, como também pelo final, que deixava aberto o caminho para uma eventual sequela. Era apenas uma questão de tempo até esta ser anunciada.
    
Batman, o justiceiro de capa negra, ajudado pelo tenente da polícia, Jim Gordon e o novo procurador de Gotham, Harvey Dent, estão dispostos a acabar com as organizações criminais que infestam a cidade. No início tudo parece correr bem, mas rapidamente se vêem confrontados com um outro tipo de ameaça, bem mais perigosa que os simples mafiosos, que se intitula a si próprio “The Joker” e esta espécie de génio do crime começa a semear o pânico e o caos entre a população da cidade.  
Pouco tempo antes da estreia de “Batman – O Início”, o argumentista David S. Goyer, escreveu dois esboços para duas possíveis sequelas nas quais seriam introduzidas as personagens de “The Joker” e de Harvey Dent. A sua ideia original era que, no terceiro filme, “Joker”, durante o seu julgamento, marcasse Dent, de modo a que este se transformasse no “Harvey Duas-Faces”. Christopher Nolan, inicialmente não sabia se regressaria ou não para realizar qualquer eventual sequela de “Batman”, queria reinterpretar “Joker” no écran e quando, a 31 de julho de 2006, a “Warner Bros”, anunciou oficialmente que iria haver uma sequela de “Batman Begins” e que se iria chamar “The Dark Knight”. Quando lhe foi dada luz verde para filmar a sequela, o realizador não hesitou.
   
Depois de muita pesquisa, apoiada na história que David S. Goyer delineara, inspirada na série escrita “Batman – The Long Halloween – O Longo Halloween”, uma série de contos escritos por Jeph Loeb e desenhados por Tim Sale e publicados pela DC Comics entre 1996 e 1997 e que recontavam a história de “Harvey Duas-Faces”, Christopher Nolan e o seu irmão, Jonathan, por sua vez inspiraram-se também no  primeiro número da  revista “Batman”, editada em 1940 onde o “Joker” aparece por duas vezes. Igualmente influente na escrita do argumento foi, segundo o realizador, o filme “Das Testament des Dr.Mabuse – O Testamento do Dr.Mabuse” que Fritz Lang realizou em 1933,“é absolutamente essencial para quem queira escrever sobre um super-vilão ver este filme” e foi o que Nolan fez com o seu irmão antes de começarem a escrever o argumento. A ideia, ainda segundo o realizador, não era mostrar as origens de “Joker”, mas sim a sua ascensão como mente criminosa, sem diminuir a força ameaçadora que representa. Era, pois, com alguma expectativa que se aguardava este "O Cavaleiro das Trevas".
   
A história gira, mais ou menos, á volta das tentativas de “Joker” para humilhar as forças policiais e expor a identidade secreta de Batman, apresentando-o como um enigmático exibicionista e uma fraude. Ele inclui também Jim Gordon e Harvey Dent como alvos preferenciais e, para isso, planeia truques cruéis para jogar com o facto de que Bruce Wayne, que já foi namorado da bela Procuradora-Adjunta, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, num dos seus melhores papéis) e por quem Harvey Dent está agora apaixonado e esses truques são tão ou mais cruéis uma vez que o Joker não conhece a identidade de Batman. O conflicto que se estabelece entre os dois é entre adultos, pessoas que sofreram na infância ( a de Bruce é mostrada através de “flashbacks” no primeiro filme), agora é a vez de “Joker” e, se neste filme , não há qualquer referencia á de Bruce Wayne, já a de “Joker” é contada unicamente através de diálogo, uma tenta compensar-se a fazer o bem, a outra tenta fazê-lo através do mal e, talvez  instintivamente, ambos percebem isso.
   
Christopher Nolan, que antes já nos dera o labiríntico “Memento” (2000), a história de um homem em busca da sua identidade (não confundir com “The Bourne Identity – Identidade desconhecida) e o excelente “The Prestige – O Terceiro Passo” (2006), que conta a história da rivalidade entre dois ilusionistas de palco na tentiva de criar o último grande número de ilusionismo de palco, realizou um filme tecnicamente muito bem feito, quase perfeito, que consegue ir mais além daquilo que seria expectável numa sequela, ou seja quando parece que se atingiu o objectivo, ele força mais e mais até ser quase completamente impossível sair das situações, tudo feito com uma precisão milimétrica sem nunca perder a orientação traçada desde o início, na sequência do banco, que é dos mais perfeitos e imprevisíveis assaltos a bancos que alguma vez se viu no cinema ( Nolan admitiu ter-se inspirado em “Heat – Cidade sob Pressão, o excelente filme policial que Michael Mann realizou em 1995,  para filmar a cena). É uma das melhores sequelas da história do cinema, digna de figurar ao lado de “The Godfather, Part II – O Padrinho-Parte II” (Francis “Ford” Coppola, 1974).
    
“O Cavaleiro das Trevas” não é um  simples filme sobre o Bem e o Mal. O Batman é Bom, sim, o “Joker” é o mal, sim. Mas Batman apresenta-se como sendo um puzzle muito mais complexo que o habitual (e isso já se vira no filme anterior), aqui torna-se muito pior: os habitantes de Gotham estão em tumulto por causa da morte dos seus concidadãos e polícias, culpam-no dessas mortes e acusam-no de ser um “Vigilante” (alguém que faz justiça pelas suas próprias mãos). O “Joker”, por seu lado, é muito mais que um vilão: ele é maquiavélico, genial, violento, um verdadeiro Mefistófeles do crime, cujas acções são  meticulosamente planeadas e orientadas para criar verdadeiros dilemas morais nos seus inimigos e isso vê-se na cena, perto do final, em que o “Joker” “convida” dois “ferry-boats”, carregados de passageiros, a fazerem explodir-se um ao outro antes deles mesmos serem destruídos. É uma cena carregada de tensão onde o simples descontrole de alguém dentro de qualquer um dos barcos, pode fazer com que ele vença sem fazer um grande esforço.
   
De acordo com Nolan, um tema importante nesta sequela é a escalada, ou seja, as coisas têm que ficar piores antes de melhorarem. O melhor exemplo disso é a rivalidade amigável entre Bruce Wayne e Harvey Dent que funciona como uma espécie de espinha dorsal da história de modo a dar ao filme um arco emocional que o “Joker” não conseguia oferecer dadas as suas características malignas. Se o final de "Batman - O Inicio" nos remetia para este "Cavaleiro das Trevas", já este não nos remete para coisa nenhuma. O final, sem glória para ninguém, é um dos achados do filme: Batman assume a culpa por tudo aquilo que se passou na cidade e será perseguido para sempre, condena-se a ser um Cavaleiro para sempre nas Trevas; o procurador Harvey Dent, depois de ser o herói de Gotham, uma espécie de Cavaleiro Branco, por via dos acontecimentos, cai em desgraça, transfigura-se num ser amargurado e torna-se naquilo que inicialmente combatia; O Comissário Gordon transformado num herói que não quer, nem nunca quis ser; o que é que resta então? um vazio. Fica-se com a sensação de que toda a fundação moral de lenda de Batman está ameaçada.
   
Das interpretações do elenco, todo ele feito de excelentes escolhas, salientam-se as personagens secundárias a cargo dos grandes actores que são Morgan Freeman e Michael Caine. Freeman é Lucius Fox, o génio científico, encarregado do quartel-general subterrâneo de Bruce Wayne, cuja oposição ao método de escutas a toda a população de Gotham criado por Wayne, acaba por, se bem que sub-repticiamente, ter uma leitura política. Caine, por seu lado, é Alfred, o mordomo dedicado que conhece Wayne melhor que ninguém o que lhe permite fazer reparos á sua conduta. A meio do filme a sua decisão sobre uma carta para Bruce Wayne, será decisiva. Christian Bale, Gary Oldman, retoman os seus papéis respectivamente de Bruce Wayne/Batman e de Comissário Gordon, a quem se junta Aaron Eckart, no papel do Procurador Harvey Dent. Mas na verdade, o filme pertence na sua totalidade a Heath Ledger no papel de “Joker”: o arqui-inimigo de Batman. A sua maquilhagem desleixada, as suas gargalhadas perversas  que denunciam uma mente perturbada, as cicatrizes que resultam de ferimentos auto infligidos (ou não?), ele quer vingança pelos maus tratos que lhe foram infligidos quando era criança. Os seus diálogos são um verdadeiro achado, tornando-o psicologicamente mais complexo, delineando os dilemas que ele próprio construiu e explicando as razões que o movem.

   Heath Ledger criou um Joker que, não ensombrando o Joker de Jack Nicholson em "Batman" de Tim Burton, fica-nos na memória. Ledger aconselhou-se com Nicholson sobre qual a melhor maneira de se transformar em “Joker” e, aparentemente, tal aconselhamento terá resultado porque o actor agarrou o papel com tal vitalidade que quando está em cena, consegue centrar todas as atenções como se não houvesse mais ninguém presente e isso consegue-se ver na cena em que ele se encontra detido pela polícia, frente a frente com Batman que quer saber do paradeiro de Harvey Dent e o Joker olha-o por detrás da sua maquilhagem descuidada e diz-lhe, no maior dos gozos, “para eles, tu és uma aberração, tal como eu!” (“To them, you’re a freak, just like me!”). É o “Joker definitivo no cinema, uma enorme interpretação de Heath Ledger, o seu melhor papel e, infelizmente, também o seu último.
   
Heath Ledger (1979-2008), o "Joker" Definitivo
A 22 de janeiro de 2008, Heath Ledger morria, aos 28 anos de idade, vitima duma overdose de medicamentos, a poucos meses da estreia do filme Não saboreou o triunfo absoluto que conseguiu com a sua interpretação que ganhou practicamente todos os prémios para que foi nomeada, incluindo o Oscar para Melhor Actor Secundário, entregue postumamente, tornando-se no primeiro actor a receber o prémio nesta categoria, mas o segundo a ganhá-lo na categoria de interpretação (o primeiro fora Peter Finch, como Melhor Actor, em 1976, com “Network – Escândalo na TV”, realizado por Sidney Lumet), recebido por Christopher Nolan e entregue aos seus familiares.
   
A 16 de julho de 2008, “O cavaleiro das Trevas” estreava em mais de 9000 salas nos estados unidos e no canadá, tornando-se no maior sucesso de bilheteira do ano, batendo o recorde de “Os Piratas das Caraíbas – Nos Confins do Mundo” (Gore Verbinski, 2007), fazendo mais de 158.000.000 de dólares só no fim de semana de estreia. Na totalidade o filme arrecadaria cerca de 533.000.000 de dólares só nos estados unidos e cerca de 1 bilião de dólares no mundo inteiro, tornamdo-se no quarto filme mais rentável da história do cinema.
Entre os inúmeros prémios para que foi indicado, estão as oito nomeações para os Oscares da Academia,  das quais venceria apenas duas, além da já citada para Melhor Actor Secundário, venceu igualmente na categoria de Melhor Som.




Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




domingo, 22 de novembro de 2015

Na Linha de Fogo


   “Na Linha de Fogo” marcou o regresso de Clint Eastwood aos papéis principais, depois do triunfo absoluto de “Unforgiven - Imperdoável” (Clint Eastwood, 1992) e de um papel quase secundário em “A Perfect World - Um Mundo Perfeito” (Clint Eastwood, 1993). Seria também a última vez que seria dirigido por outro realizador que não ele próprio, situação que seria alterada em 2012 quando o actor e realizador anunciou o seu regresso á interpretação depois de “Gran Torino – Gran Torino” (Clint Eastwood, 2008)  com “Trouble with the Curve – As Voltas da Vida”, realizado pelo seu produtor habitual e amigo,  Robert Lorenz.
   Frank Horrigan é uma lenda viva dos Serviços Secretos Americanos, com uma folha de serviços excepcional, cuja única mágoa em toda a sua carreira é não ter conseguido impedir que  John F. Kennedy fosse assassinado em Dallas em 1963. Agora, em nova campanha presidencial, um psicopata avisa que vai assassinar o Presidente dos Estados Unidos que concorre para ser reeleito, ao mesmo tempo que desafia Horrigan a tentar emendar o seu erro no passado.
   
Um “thriller”, deve ter, no mínimo, um vilão que faça justiça ao género cinematográfico em que se inclui e “Na Linha de Fogo” tem um excepcional. Mitch Leary (brilhantemente interpretado por John Malkovich), é inteligente, perverso, bem falante,  consegue penetrar na mente do seu oponente, através duma série de telefonemas, de um modo verdadeiramente insidioso, gosta de fazer jogos mentais e diz a Horrigan, mais ou menos, aquilo que pretende fazer e quando é que o irá fazer. Horrigan, aceita o jogo e encara-o como uma espécie de redenção do seu passado. No entanto, depois de ter cometido um erro e ter feito o presidente parecer um cobarde, o Chefe do Gabinete presidencial faz com que Frank seja posto fora da escolta presidencial e ele vê-se na obrigação de quebrar alguma regras de modo a não perder o rasto de Leary que, por essa altura, já se conseguiu imiscuir no círculo próximo do presidente.
   
Clint Eastwood provou mais uma vez ser uma escolha perfeita para o papel de Frank Horrigan, um homem com uma longa experiência, apesar de se culpabilizar pelo assassínio de J.F. Kennedy, sente que poderia ter feito a diferença em Dallas. De certa maneira, é Leary que, usando as palavras como setas certeiras,  quem proporciona ao agente dos Serviços Secretos, a possibilidade de, de uma vez por todas, exorcizar os fantasmas do seu passado. Mas ele é também um homem de sentimentos profundos como demonstra o seu relacionamento com a agente Lilly Raines ( a bonita actriz Rene Russo, numa variação mais “sexy” do seu papel em “Lethal Weapon 3 – Arma Mortífera 3”, realizado no mesmo ano, por Richard Donner), formando uma variação interessante nos papéis de associado (a) e /ou colega e namorada (o).  
   
  
Inicialmente a relação entre ambos é difícil, já que ele, macho, faz comentários sexistas acerca do facto das mulheres poderem ser também Agentes dos Serviços Secretos. Ela ignora-o. Eventualmente, quando Mitch Leary desafia Horrigan para o seu pequeno jogo, ela ajuda-o e um respeito começa a surgir entre ambos evoluindo para uma atracção  mútua na maravilhosa cena, carregada de um quase realismo e emoção, no salão do hotel  quando Horrigan toca piano e conversa com uma LiIly, absolutamente divinal no seu vestido de noite, sobre trabalho, Jazz, estratégia e romance e conseguem ser tão extremamente convincentes que parece que aquela conversa está a acontecer entre duas pessoas com vidas normais. Dylan McDermott, John Mahoney, Fred Dalton Thompson completam o elenco deste thriller de acção e suspense.
   O Produtor do filme , Jeff Apple, começou a desenvolver a ideia deste filme em meados da década de 80. A sua ideia era fazer um filme sobre um Agente do Serviço Secreto desde a sua infância até á altura em que o Presidente Kennedy é assassinado estando ele destacado para sua protecção. Apple foi inspirado por uma memória da sua juventude em que ele sonhava ter um encontro com o então Vice-Presidente dos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson, em que este se encontrava rodeado por agentes dos Serviços Secretos com auriculares, vestidos com roupa escura e a usar óculos de sol. A ideia tomou forma durante a sua adolescência enquanto via as inúmeras repetições televisivas das imagens do assassínio do Presidente J.F. Kennedy. Em 1991, o argumentista Jeff Maguire foi convidado para completar o argumento que viria a tornar-se no filme.
   
No geral, “Na Linha de Fogo”, é muito semelhante aos filmes da série “Dirty Harry” que Clint Eastwood tão bem protagonizou ao longo das décadas de 70 e 80 do século passado nos quais, quase sempre, um psicopata fazia jogos com o polícia que depois era posto fora do caso mas continuava a sua investigação por conta própria, muitas vezes ajudado por alguém que poderia ter sido alvo do criminoso mas teria sido ajudado pelo agente em questão, ou pelo seu parceiro que o mantinha informado. Mas o filme não é uma repetição desses elementos, mas sim um thriller inteligente e bem feito, muito na linha de “Tightrope – Um Agente na Corda Bamba” (Richard Tuggle, 1984), um dos melhores filmes que Eastwood protagonizou dentro do género. O argumento avança sem medos e percebe-se que Jeff Maguire se terá divertido imenso em escrever as voltas e reviravoltas que o compõem. Nunca se perde tempo. Horrigan segue as pistas que Leary lhe vai deixando, usa a sua perspicácia, intuição e experiência, quebra regras e regulamentos quando necessário e eventualmente chega aquele ponto em que se testa o dever e o poder de decisão  de qualquer agente do Serviço Secreto: deve ou não deixar-se atingir para proteger a vida do Presidente?
   
Realizado pelo alemão Wolfgang Petersen,  que depois de diversa obra na televisão alemã, conseguiu ganhar notariedade em 1981, com “Das Boot – A Odisseia do Submarino 96”, drama claustrofóbico passado dentro dum submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial, vencedor de vários prémios em festivais internacionais e nomeado para 6 Oscares. Foi depois, em 1985, transformado numa mini-série televisiva em seis episódios; realizou depois “The Neverending Story - A História Interminável”, em 1984, outro sucesso entre as camadas mais jovens. Depois, já e terras do tio Sam, filmou “Enemy Mine – Os Inimigos” em 1985,  sobre o relacionamento improvável entre um soldado espacial e um sobrevivente da espécie inimiga, que foi apenas um relativo sucesso; em 1991 filmou “Shattered – Pulsações Explosivas”, um drama de crime e mistério que obteve as graças da crítica. Em “Na Linha de Fogo”, Petersen consegue desenrolar a história duma maneira tão certa como um relógio e definir as personagens de modo a torná-las surpreendentemente simpáticas (incluindo o próprio Mitch Leary de quem não conseguimos deixar de gostar apesar do que ele se propõe fazer). O sentido de acção está sempre presente, principalmente no clímax do filme onde a realização tem tanto de espectacular como de hábil, não só por causa da sua acção como também pela sua perfeita lógica final que permite que a situação anteriormente vivida entre ambos volte a acontecer como uma espécie de desforra do seu jogo.
   O filme obteve maioritariamente impressões positivas dos críticos e ganhou os favores do público. Custou cerca de 40.000.000 de dólares, foi um considerável sucesso de bilheteira nos Estados Unidos onde fez cerca de 102.000.000 de dólares, enquanto na europa e resto do mundo ultrapassou os 85.000.000 de dólares.
   O que existe na maioria dos thrillers hoje em dia são grandes peripécias,  muita acção e pouca história. Com “Na Linha de Fogo” existe um pouco de tudo, mas principalmente existe inteligência e só isso é suficiente para estarmos perante um grande filme.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet




MAHAVISHNU ORCHESTRA – MÚSICA DE FUSÃO          Entre o final da década de 60 do século passado e meados da década de 70, a música sofreu...