O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Com a excepção de Agatha Christie, a grande
escritora de livros policiais e Enid Blyton, autora de inúmeras obras para
crianças e jovens, não conheço nenhuma outra escritora cuja obra literária
fosse tão importante na cultura do século XX.
Se Agatha Christie foi e ainda é considerada a
grande “Dama do Crime”, com as suas
personagens famosas como o Detective Hercule
Poirot, ou Miss Marple, a servirem de mote a um sem número de escritores, já Enid Blyton, com as suas mais de 700 obras
(!) publicadas, entre livros,poesia e
artigos, divididasentre obras em nome
próprio e obras publicadas sob o pseudónimo de Mary Pollock, deve ser
considerada a mais profícua contadora de histórias para crianças que alguma vez
existiu.
Enid Mary Blyton (1897-1968) foi uma escritora
britânica de literatura infantil, cujos livros têm estado entre os mais
vendidos de sempre desde os anos 30, vendendo um total de 600.000.000 de
cópias, continuam a ser enormemente populares e encontram-se traduzidos em mais
de 90 línguas.
O seu primeiro livro “Child Whispers”, uma
colecção de poemas apresentados em 24 páginas, foi publicado em 1922 e desde
então nunca mais parou de escrever. No pico da fama, entre as décadas de 40 e
50, chegava a publicar entre 10 a 20 (!) livros por ano. Faleceu em 1968,
deixando algumas obras incompletas que seriam terminadas pelos seus herdeiros,
nomeadamente pela sua neta, Sophie Smalwood e postumamente editadas ao longo
dos anos subsequentes á sua morte.
Entre as muitas séries que escreveu, as mais
famosas e também as mais lidas em todo o mundo, encontram-se “Noddy”,
“Mistério”, “As Gémeas em Sta. Clara”, “O Colégio das Quatro Torres”, “Os
Sete”, entre muitas outras. Mas a sua criação mais famosa de todas, à excepção
da série infantil “Noddy”, foi a série dos Famosos Cinco, que ainda hoje se lê
com o mesmo agrado que se teve quando nos chegou ás mãos o primeiro livro das
suas aventuras.
A série “Os Famosos Cinco”, ou apenas “Os
Cinco” como ficou conhecida em Portugal, nasceu em 1942e relatava as diversas aventuras de um um
grupo de quatro criançase o seu cão. Na
verdade, três das crianças eram irmãos e a quarta era prima deles. As crianças
eram: Julian (Júlio), o mais velho, alto e inteligente, forte, simpático e
responsável, naturalmente, o líder do grupo. No início da série, Julian tem 12
anos;Dick (David), dono de um humor
tipicamente britânico (adaptado em Portugal á nossa realidade), não tão
inteligente como Julian, mas igualmente responsável. É um ano mais novo que o
seu irmão, Julian e no início da série tem 11 anos; Georgina ( Maria José), prima de Julian, Dick e Anne, é uma maria-rapaz, usa o cabelo curto
como os rapazes e veste-se como eles. Quer que a tratem por George ( Zé) ou
então não responde.
Dona de uma personalidade muito forte, tem um espírito de
aventureira, corajosa e de difícil relacionamento com outras pessoas (Enid
Blyton admitiria que a personagem de Georgina era muito baseada em si própria),
Georgina tem a mesma idade que o seu primo Dick;Anne (Ana), é a mais nova do grupo. Pouco
dada a aventuras, não as aprecia tanto como os outros, assusta-se facilmente.
Por ser a mais nova, gosta de se ocupar das tarefas domésticas nas aventuras,
planeando e organizando as coisas e gosta de ter tudo arrumado, seja em casa,
seja nos acampamentos e é muito
protegida pelos seus dois irmãos mais velhos, apesar de Dick gostar sempre de a
provocar um poucoe ser sempre o
primeiro a tentar animá-la quando ela se sente aborrecida ou triste. No início da série, Anne tem 10 anos; Timmy (Tim) é um cão brincalhão, afável e muito dedicado aos seus quatro companheiros, mas principalmente é-o em relação a Georgina que o considera, nas suas próprias palavras, o melhor cão do mundo. Inteligente e protector, Timmy torna-se decisivo em muitas aventuras ao providenciar protecção física ás crianças em momentos de grande aflição.
O primeiro livro “Five on a Treasure Island – Os Cinco na Ilha do Tesouro”, foi publicado em 1942 e começa quando os três irmãos vão passar férias ao “Casal Quirrin”, uma propriedade situada junto ao mar, no Condado de Dorset em Inglaterra, que pertence aos tios, Quentin ( irmão do pai de Julian, Dick e Anne), um cientista famoso e brilhante, conhecido pelo seu temperamento delicado, distraído e grande falta de humor, é no entanto, um pai extremoso, marido e tio dedicado e muito orgulhoso da sua filha e Fanny, que, ao longo dos livros, vai assumindo uma figura maternal nas vidas das crianças, e onde conhecem a sua irascível prima, Georgina e o seu cão, Timmy. Em frente á praia onde fazem as suas férias, está a Baía Kirrin e nela existe uma ilha com uma fortaleza em ruínas, que Georgina diz ser da sua família e será lá que acontecerá a sua primeira aventura e algumas outras posteriores.
As histórias passam-se sempre durante as
férias escolares deles (Julian e Dick estão num colégio, Georgina e Anne estão
noutro), seja no natal, seja no verão ou seja na páscoa. Sempre que eles se
juntam, acontece uma aventura, umas vezes envolve criminosos, outras vezes a
procura de um tesouro perdido. O
cenário das aventuras também varia. Algumas vezes passam-se no Casal Kirrin, na
Ilha Kirrin, outras vezes a acção passa-se em casas e quintas típicas inglesas,
algumas com centenas de anos de
existência, com passagens secretas ou túneis utilizados por ladrões, raptores
ou antigos contrabandistas. Outras aventuras acontecem em que “Os Cinco” vão
acampar para o campo, ou em passeio de bicicleta ou até mesmo em “Charretes”
alugadas para ir passear país fora. Os cenários são, quase sempre, rurais e
permitem ao grupo descobrir a vida ao ar livre, a vida comunitária, ilhas, as
terras inglesa e irlandesa, a beira-mar, assim como os pequenos prazeres de um
piquenique, comidas caseiras, limonadas, passeios de bicicleta, de charrete e
natação.
Enid Blyton tencionava escrever entre seis a
oito livros na série, mas o sucesso comercialfoi tal, principalmente entre as camadas mais jovens, que ela acabou por
se ver forçada a escrever vinte e um livros na série, um por ano, desde 1942
até 1963, quando escreveu “Five are Together Again – Os Cinco e a Torre do
Sábio”, vigésimo-primeiro e último livro da série. Hoje em dia vendem-se cerca
de 2000.000 de cópias por ano das obras de Enyd Blyton, principalmente dos
livros infantis. No total, a sua obra já vendeu mais de 100.000.000 de cópias,
tornando-a numa das mais bem sucedidas escritoras de sempre.
Em 1971, o legado de Enid Blyton autorizou Claude Voilier (pseudónimo de Andrée Labedan), professora, jornalista e tradutora, a dar continuidade ás aventuras de “Os Cinco”, já que desde sempre as suas aventuras tinham sido extremamente populares em França, algumas delas tinha sido a própria a traduzir para francês. Nascia assim a série “As Novas Aventuras dos Cinco, constituída por 24 novas histórias, publicadas entre 1971 e 1985.
Em 1997, foram encontrados diversos textos
inéditos que continha várias pequenas histórias, escritas em 1963, alguns haviam
feito parte duma revista publicada ainda em vida da escritora, outros não,
deveriam ser esboços para outras futuras aventuras, mas que a autora não
quisera publicar na altura. Como estavam completas, os seus familiares acharam
que seria interessante publicá-las como sendo parte integrante das aventuras
originais de “Os Cinco” e assim apareceu“Five Have a Puzzling Time and Other Stories – Os Cinco e a Luz
Misteriosa”, constituído por oito contos, tornando-se o vigésimo-segundo livro das aventuras de “Os Cinco”, editado
em 1998, 30 anos depois da morte da escritora.
Foi com Julio Verne, para mim, o melhor
escritor de todos os tempos, que aprendi a ler, mas foi com Enid Blyton,
quecomecei a cultivar o gosto pela
leitura, que, de resto, ainda hoje se mantém.
Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet
Em 1963, o
realizador David Lean sentia-se como Leonardo DiCaprio, 35 anos mais tarde, de
pé, na amurada da proa do “Titanic”, a gritar “Sou o Rei do Mundo!”:o seuépico aventuroso, “Lawrence da Arábia”, triunfara nos Oscares, ao vencer
em sete das dez categorias para que fora nomeado, incluindo Melhor Filme do Ano
e Melhor Realizador. Pouco tempo
depois, o realizador anunciava o seu próximo projecto: uma adaptação do livro
“Dr. Zhivago” de Boris Pasternak. Foram várias as razões que trouxeram Lean até
este filme. Carlo Ponti, o poderoso produtor italiano, mal soubera do sucesso
internacional do livro, adquiriu os direitos da sua adaptação para o grande
écran e usá-lo como veículo para promover a sua mulher, Sophia Loren. Lean, por
seu lado, depois de “Lawrence” e do seu enorme sucesso em todos os campos,
queria fazer algo mais íntimo, mais romântico e o livro de Pasternak, parecia
ser o melhor remédio.
Carlo Ponti não
indicara nenhum realizador na altura em que adquiriu os direitos de adaptação
da obra. Ele queria filmar na União Soviética para conferir algum realismo á
monumental obra de Pasternak, mas, algum tempo depois, percebeu que se quisesse
filmar lá, o Kremlin iria quase de certeza querer exercer algum controle,
discreto, mas ainda assim, um controle. A ideia foi abandonada ao fim de algum
tempo. O facto de David Lean ter ganho Oscares as duas últimas vezes em que
obras suas estiveram a concorrer, foi decisivo para Ponti indicar o seu nome
como realizador da adaptação de “DoctorZhivago” e o realizador aceitou de bom grado assim que leu o resumo de
30 páginas que lhe fizeram chegar.
G.Chaplin, J.Christie, T.Courtenay, A.Guiness, R.Richardson, O. Sharif, R.Steiger
Peter O’Toole, que
brilhara em “Lawrence da Arábia”, ao interpretar a complexa personagem de T.E.
Lawrence, foi uma das primeiras escolhas de Lean para o papel de Jivago. Mas o
actor, que já estava comprometido com Richard Brooks para o filme “Lord Jim”
(1965), recusou. Antes de se decidir por Omar Sharif, que também participara em
“Lawrence”, Lean convidou Paul Newman, Max Von Sydow , Michael Caine, entre
outros que, por uma ou outra razão, declinaram o convite. Rod Steiger foi
convidado depois deMarlon Brando e
James Mason recusarem. Audrey Hepburn foi escolha para o papel de Tonya, antes
deste ser entregue a Geraldine Chaplin. Para interpretar Lara, Ponti queria a
sua mulher, Sophia Loren, mas Lean conseguiu convencer o produtor de que ela
era alta demais para as exigências do papel. Yvette Mimieux, Sarah Miles e Jane
Fonda foram os nomes que se seguiram, antes de, baseado numa recomendação de
John Ford , o realizador, deslumbradopela beleza da actriz britânica, Julie Christie, a escolher para o
papel.
O livro, publicado
em 1957, (o tempo era o da guerra fria), só havia sido completado um ano antes
e chegou ao mundo ocidental, onde foi publicado, entre um grande coro de
celebração e de alguma controvérsia, que fez do seu autor um dos símbolos da
Guerra Fria e da resistência ao comunismo soviético. Pasternak, um grande poeta
lírico, seria agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1958 e o livro,
ajudado pela campanha soviética contra ele, tornou-se um dos maiores sucessos
literários no mundo não comunista e esteve 26 semanas no top dos “Best-Sellers”
em Nova York. O livro só foi publicado pela primeira vez na União Soviética em
janeiro de 1988, já no tempo da “Perestroika” e do “Glasnost” de Mikhail
Gorbachev. Por esta altura, a versão de Lean, que, na altura da sua estreia,
tinha sido largamente denunciada pelas autoridades soviéticas como politicamente
incorrecta, acabou por ser visualizada no Kremlin, já que o realizador fora
convidado para o Festival de Cinema de Moscovo em 1987 e que a organização
teria muito gosto em exibir “todos” os seus filmes.
A acção do filme
passa-se na Rússia, maioritariamente no período que antecede a Iª
GuerraMundial, a revolução russa de 1917, a guerra civil que se lhe seguiu e
estes períodos são antecedidos de uma espécie de prólogo situado algures na
década de 40 ou 50 no qual o General Yevgraf Andreyevich Zhivago (Alec Guiness,
irrepreensível como sempre!) interroga a jovem Tanya Komarova, que ele pensa
ser a sua sobrinha, filha do seu meio-irmão,Doutor Yuri Andreyevich Zhivago (Omar Sharif, no papel mais famoso da
sua carreira) e de Larissa “Lara” Antipova ( a bonita actriz Julie Christie).
Perante a incredulidade da jovem, Yevgraf conta-lhe então a história da vida do
seu (suposto) pai.
O filme, apesar de
ser fiel ao foco central do romance, difere do mesmo emalgumas personagens e acontecimentos. No
entender de muita crítica especializada, o facto do filme se centrar muito no
romance entre Jivago e Lara, tirando alguma importância á revolução russa e á
guerra civil que se lhe seguiu, banalizando o a própria história e penalizando
a película, que mais não era do que uma série de postais ilustrados da
revolução, umahistória de amorsituada no topo do que foi a dolorosa
reconstrução da Rússia destruída por uma guerra civil. Apesar do filme ser
visto, na maior parte, pelo lado de Jivago, o poeta e não de Jivago, o médico,
a sua poesia manifesta-se logo desde o início do filme, mas só o vemos a
escrevê-la perto do final do filme e nunca ouvimos nenhum dos seus poemas ser
dito (nem mesmo no prólogo quando o encarregado da barragem diz que antes os
poemas não podiam ser lidos mas que agora já lhes era permitido lê-los) e este
facto foi uma das razões que levaram a crítica a achar o filme mais um romance
amanteigado e belicodoce do que a adaptação do livro de Pasternak.
Lean conseguiu
manter-se acima de todas estas coisas. Mas também, se calhar, a experiência
foi-lhe dolorosa porque quando a mesma crítica que o louvou em “ A Ponte do Rio
Kwai”
(1957), em
“Lawrence da Arábia” (1962), que tentou deitá-lo abaixo com este “Dr.Jivago”,
conseguiu-o com“A Filha de Ryan”
(1970), oseu filme seguinte, afastando
o realizador do cinema durante 14 anos, afastamento esse que muitos julgaram
definitivo.
A ideia com que se
fica depois da experiência que é ver um filme com esta grandiosidade técnica e
duração (mais de três horas!) é que David Lean é um verdadeiro artesão da velha
escola e isso fica patente em algumas cenas, que embora não sejam marcantes no
todo da obra, são significativas do ponto de vista técnico do filme: a cena,
logo no início, em que se vê uma estrela vermelha a brilhar por sobre a
abertura do túnel onde os trabalhadores entram e saem;o plano da cara do jovem Jivago a olhar
assustado para uma janela congelada e os ramos duma árvore a baterem contra
ela; ou, talvez o mais belo plano de todo o filme quando cristais de gelo se
transformam em flores e uma delas se dissolve, transformando-se na cara de
Lara.Mas Lean, vai ainda mais longe,
demonstrando todo o seu perfeccionismo (patente em toda a sua obra) ao aceitar
um dos desafios mais difíceis da sua carreira como realizador: reconstruir
Moscovo, os seus arredores e grande parte da estepe russa no tempo da revolução
russa em locais como espanha e canadá ( toda a cena do comboio foi filmada lá)
e aceitou filmar a maior parte das cenas-chave do filme durante o inverno, com
todas as dificuldades que fotografar na neve ( artificial e verdadeira)
acarreta. O momento que melhor ilustra esta dificuldade é, quando Jivago e Lara
entram numa casa abandonada em Yuriatin, a neve e o gelo que os precedia
transforma-se quase numa fantasia de inverno fazendo-nos pensar simultaneamente
na beleza daquela cena e na cuidadosa direcção artística com que somos
presenteados.
Mas há também toda
uma vertente épica que percorre toda a obra, ou não fosse este um filme de
David Lean e é nesse sentido que a obra ganha proporções de superprodução: a
carga da cavalaria sobre os manifestantes bolcheviques na rua principal de
Moscovo; as tropas a retirarem da frente de guerra quando tentam persuadir os
reforços que com eles se cruzam a voltarem para trás antes de chacinarem os
oficiais de exército; a carga dos “partisans” comunistas durante a guerra civil
sobre um lago gelado; ou a cena do êxodo de comboio deMoscovo. São cenas que demonstram o enorme
perfeccionismo que Lean punha ao serviço das suas obras. Como curiosidade, as
cenas inicial efinal, foram filmadas na
barragem de Adeadávila, entre portugal e espanha e, apesar de não aparecer nos
créditos finais, a maior parte destas cenas foram filmadas do lado de Portugalcom vista para a margem espanhola.
Para ilustrar o
filme em toda a sua beleza, grandeza, bons,e maus momentos, épicos, românticos,
dramáticos, tensos, Lean chamou aquele que, depois do triunfo em “Lawrence da
Arábia”, passou a ser o seu compositor de confiança até ao final da sua
carreira cinematográfica: Maurice Jarre, cuja banda sonora para este filme,
premiada com um Oscar da Academia, deixou uma marca indelével na cultura
popular, “Lara’s Theme”, foi um enorme sucesso quando apareceu em disco, permanece
ainda hoje como um dos mais famosos e belos temas na história do cinema e
ajudou de certa maneira o filme a ganhar o estatuto de clássico que hoje detém.
As primeiras duas
horas do filme serão talvez as melhores e também as mais pessoais. As
personagens definem-seaí. Entre todas
as personagens que desfilam perante os nossos olhos, é a personagem de Victor
Komarovski, interpretada por Rod Steiger, que mais nos fica presente. Victor
Komarovski é um oportunista da pior espécie, um homem que quer estar bem com
deus e com o diabo. Um verdadeiro canalha, que usa e abusa da sua posição.
Primeiro vitimiza Amélia, a mãe de Lara, ao ponto de quase a levar á morte e
depois a própria Lara. Jivago conhece-a nesta altura quando vai a casa dela
para ajudar na recuperação de Amélia após a sua tentativa de morrer e vê-a,
primeiro na sombra e depois á luz quando Komarovski lhe comunica que a mãe está
bem. Mais tarde apaixonar-se-á por ela quando a vê entrar numa festa de natal e
disparar sobre o seu antigo amante. Essa imagem será marcante no
desenvolvimento da paixão que se tornará numa obsessão do poeta-médico, que a
levará para o casamento com a sua doce e leal Tonya (Geraldine Chaplin). A
melhor definição do carácter de Komarovski está no diálogo que este tem com
Jivago logo após ser ferido por Lara. Jivago pergunta-lhe “O que é que acontece
a uma rapariga quando um homem como você, termina tudo com ela?” a resposta é
fria como a noite de inverno em que acontece o atentado “Interessado?Eu ofereço-lha, Yuri Andreyevich, como prenda
de casamento!”. Com esta interpretação, e nesta cena particular, Steiger tem um
dos melhores desempenhos da sua carreira e que serviria para moldar a
personagem do xerife racista de “No Calor da Noite” (Norman Jewison, 1967)que lhe viria a dar o Oscar da Academia.
O filme termina,
aparentemente, com a mesma nota de mistério com que começa: afinal a jovem
Tonya é ou não filha de Jivago? O filme, talvez propositadamente, não o
esclarece, mas a cena final, quando Tonya desce do gabinete, de mão dada com o
noivo, traz ás costas uma balalaika. Yevgraf pergunta-lhe se ela sabe tocar o
instrumento. O noivo responde que ela é uma artista. O militar sorri e responde
“Ah, então é um dom!”, ponha o espectador na pista certa. O que nos é dito
nesta cena é que o mistério em volta de Tonya pode estar resolvido, já que a
mãe de Jivago era uma verdadeira artista com o instrumento ( e isso é-nos dito
também logo no início do filme) e ela pode ser a tão procurada sobrinha do
general. Mas eu prefiro pensar que a frase de Yevgraf é, na verdade, a
definição de toda a obra do realizador David Lean.
Quando terminou a
rodagem, 10 meses depois de a ter começado, Lean tinha cerca de 31 horas de
filme que teriam que ser reduzidas, por imposição de Carlo Pontipara uma duração de cerca de três horas e
vinte minutos e que teria de estar pronto, para estreia e posterior entrada na
corrida aos Oscares, até ao final de 1965.Por entre avanços e recuos na sala de montagem, o filme acabou por
chegar ás salas em 22 de dezembro de 1965.
Apesar do enorme
êxito de bilheteira que obteve (cerca de 111.700.000 dólares), o filme foi
recebido com incredulidade pela crítica especializada que acharam difícil que
aquele realizador fosse o mesmo que fizera “Lawrence da Arábia” que nesta altura
já era um clássico e considerado um dos melhores filmes de aventuras que alguma
vez o cinema produzira.
Vencedor de vários
prémios, incluindo cinco Globos de Ouro ( é um dos poucos filmes a ter ganho em
todas as categorias em que fora nomeado) e dez nomeações para os Oscares,
incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, acabou por ganhar apenas cinco,
incluindo Melhor Fotografia e o já citado para a Melhor Banda Sonora.
“Doutor Jivago” é,
ainda hoje, o oitavo maior êxito de bilheteira da história do cinema.
Em 2002, o livro de
Boris Pasternak foi adaptado para televisão numa mini-série britânica com Keira
Knightley e Sam Neil no elenco.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto fora retirados da internet
Uma das grandes
características que define os realizadores que formarama chamada geração dos “Movie Brats”, que
surgiu nas décadas de 60 e 70 é o conhecimento cinematográfico e a afeição com
que o tratam. São uma segunda geração de artistas, os sucessores espirituais
dos realizadores pioneiros, como D.W.Griffith, Cecil B.DeMille, Howard Hawks,
King Vidor, Alfred Hitchcock, Charlie Chaplin, entre muitos outros. Muitos
deles nasceram depois da linguagem e as convenções do cinema terem sido
estabelecidos, o que não impediu que alguns deles se insurgissem e questionassem
essas mesmas fundações. Mas,para o
poderem fazer de um modo efectivo, eles tinham que estar bem preparados , com
bons conhecimentos da história do cinema, trabalhos importantes e
personalidades marcantes. Estes conhecimentos pormenorizados são comuns entre
os que realizadores que pertencem á segunda geração, os primeiros que
beneficiaram de uma completa educação cinematográfica, mas, de todos esses
realizadores, nenhum é mais versado na sétima arte do que Martin Scorsese.
Já se sabe que
Martin Scorsese é um grande realizador, tardiamente reconhecido pelos seus
pares, e é também um grande conhecedor do cinema. Grande parte dos seus anos de
formação foram passados a consumir vorazmente tudo aquilo que estreava nos
cinemas, o que contribuiu para o cinema do realizador seja preenchido com
referências, homenagens e técnicas adquiridas com os seus homenageados. Quando foi
convidado pelo Instituto de Cinema Britânico, para dar forma a este
documentário, o realizador não hesitou em aceitar.
Feito em 1994
aquando da celebração do centenário do cinema, este documentário constitui uma
visão única e, nalguns aspectos, pessoal do realizador. No papel de
apresentador e narrador, com a ajuda de entrevistas e clips de filmes, ele fala
da importância e da influência de alguns dos nomes maiores da cinematografia
americana e dos seus filmes na sua carreira de cineasta. Mostrando o papel do
realizador como um contador de histórias, um ilusionista, um iconoclasta, ou
até como uma espécie de contrabandista envolvido na eterna guerra do “puxa e
empurra” com os estúdios. Através desta forma de trabalho, ele apresenta-nos o
desenvolvimento da sétima arte desde o seu nascimento até ao final dos anos 60:
o início com os filmes mudos, a transição para o sonoro e para a cor e
finalmente o advento do “Cinemascope”, está um pouco de tudo, ao mesmo tempo,
Scorsese foca-se nos géneros que mais o influenciaram: o Western, os filmes de
gangsters e também o musical, gastando algum tempo a falar do desenvolvimento
desses mesmos géneros e é nesse tempo que o realizador faz a ponte entre esses
filmes e alguns dos seus contemporâneos de geração como George Lucas, Francis
“Ford” Coppola, Brian DePalma, Clint Eastwood, com alguns realizadores mais
velhos como Arthur Penn, Billy Wilder, Samuel Fuller ou John Cassavetes.
O seu género
favorito, diz-nos a dado momento do documentário, é o filme de gangsters,
género do qual vemos clips de 1915 do filme “The Regeneration” de Raoul Walsh;
“Scarface – O Homem da Cicatriz” de Howard Hawks; “The Roaring Twenties –
Heróis Esquecidos” de Raoul Walsh com que o realizador americano encerra o
capítulo do filme dos gangsters dizendo
que por esta altura que “os gangsters se haviam tornado numa figura trágica, de
certa maneira, eram uma antítese do próprio sonho Americano”. No final deste
capítulo, é fácil perceber porque é que o realizador afirma que este é o seu
génerp preferido. Ele próprio diz que a arte dos filmes de gangstersestá na génese dos seus filmes “Mean Streets
– Os Cavaleiros do Asfalto” (1973) , “Goodfellas – Tudo Bons Rapazes” (1990) e
“Casino – Casino” (1995).
“A Viagem Pessoal”
oferece ao espectador uma visão diferente, quiçá, algo original e transmite,
através das palavras do seu apresentador, algumas lições para o futuro: através
de diversos clips (alguns raros) , ele chama a atenção para o trabalho de
alguns realizadores considerados obscuros (Como Abraham Polonsky que fez “A
Force of Evil”, que Scorsese considera como um dos filmes que mais o influenciou) ou “Leave her to
Heaven” um filme sobre o ciúme ao ponto de se cometer um crime por causa dele,
e recupera alguns trabalhos menos conhecidos de outros como Jacques
Tourneure o seu filme de terror, série
B, “I Walked with a Zombie” ou ainda“Bigger than Life” que Nicholas Ray realizou e é um dos primeiros filmes
americanos a abordar a temática da dependência
Porque “A Viagem Pessoal”
é maioritariamente constituída por clips (ou excertos) de filmes antigos, pouco
material original é incluído no documentário, a não ser as entrevistas, mas
mesmo assim, Scorsese, não dispensou algumas das presenças habituais nos seus
filmes: Thelma Schoonmaker, na supervisão da montagem; Saul Bass responsável
pelos intertítulos manuais que separam cada capítulo e até Elmer Bernstein numa
banda sonora tranquila e nostálgica baseada no piano.
Mas não é só a
participação de alguns dos seus colaboradores que torna este documentário um
trabalho Scorsesiano. A sua assinatura é evidente e fundamental no conceito da
celebração do cinema americano dentro do próprio cinema. A sua apresentação é
totalmente preenchida pela sua longa paixão pelos filmes e então ele, como
narrador/apresentador, consegue penetrar no mais íntimo dos espectadores e
falar-lhes da importância da herança cinematográfica que os estados unidos
criaram. É um retrato extremamente íntimo o que realizador faz do trabalho
daqueles que o precederam e o simples facto dele não fazer qualquer comentário
ao seu trabalho ou ao dos seus contemporâneos no documentário, mostra o
respeito e a dignidade com que o realizador encara o seu trabalho e posiciona-o
como um potencialmente eminente historiador do cinema e o guardião desta
herança para o mundo.
Talvez por isto e
também pelo sucesso obtido quando o documentário foi exibido, levou o
realizador, anos depois, a repetir a experiência, mas desta vez no cinema
italiano.
Foi em 1999 que o
realizador se sentiu compelido a mergulhar nas suas raízes italianas devido ás
recordações que os seus avós italianos que emigraram da Sicília para virem
viver nos estados unidos, lhe transmitiram e foram também os filmes que via na
sua casa, em “Little Italy” na cidade de nova York onde o realizador foi criado
que lhe permitiram entender os valores e a cultura que sempre lhe tentaram
transmitir.
“My Voyage to
Italy” ou “Il Mio Viaggio in Italia” como se chamou originalmente começa com o
realizador a dizer que se não tivesse visto os clássicos italianos, ele seria
uma pessoa completamente diferente. Com um ar profundamente nostálgico, filmado
num preto-e-branco intenso, o olhar directo na camera, ouvimos o realizador
dizer “eu vi estes filmes…eles tiveram um grande impacto na minha
pessoa…deveriam ver estes filmes” . O objectivo do realizador é inspirar-nos a
ultrapassar um certo preconceito que exista no espectador contra algum cinema
europeu, nomeadamente, o cinema italiano e deixar-se envolver na experiência, o
que, mesmo ao longo das quatro horas que dura o documentário, é plenamente
conseguido.
“A Minha Viagem a
Itália” segue o mesmo formato que “A minha Viagem Pessoal ao Cinema Americano”,
intercalando comentários e memórias pessoais e outras recordações com excertos longos ( alguns duram entre 10 a 15 minutos)
de diversos clássicos italianos, editados com uma precisão tal que o espectador
nãoconsegue descolaro olhar das imagens do écran e os ouvidos das palavras do realizador.
Focando a sua
atenção no cinema italiano nas duas décadas seguintes ao final da2ª guerra mundial, Scorsese explica
convincentemente que o cinema é inseparável dos aspectos da vida,
principalmente no que toca ao neo-realismo italiano que consegue quebrar as
barreiras entre o documentário e a ficção, nos excertos dos filmes “Rome – Open
City – Roma, Cidade Aberta” de Roberto Rossellini e em “Bicycle Thief – O
Ladrão de Bicicletas” e “Umberto D. – Humberto D” ambos de Vittorio De Sica, o
espectador sente-se como se a vida se vivesse no pior dos tempos. Conforme se
vai mergulhando mais no documentário, este vai evoluindo para uma sensibilidade
mais moderna com tendência para secularizar uma cultura crescente. Ao analisar
o neo-realismo italiano, Scorsese faz grandes distinções entre os
trabalhosde Rossellini, que deixava a
brutalidade dos factos falarem por si, e De Sica, que de ex-actor dos anos 30,
se tornou realizador e um mestre no trabalho das emoções.
O documentário
divide-se em duas partes. A primeira consiste, como já foi dito, num estudo
profundo do neo-realismo através das visões, de ruína, pobrezae desesperotransmitidas por algumas das obras mais marcantes de Rossellini e De
Sicae o seu impacto no universo
pós-guerra. A segunda parte, que não é tão intensa como a primeira, analisa os
trabalhos de Luchino Viscontie asensibilidade duma realidade quase operática
que trouxe ao cinema italiano. Frederico Fellini, o mais famoso e internacional
dos realizadores italianos, cuja filmografia emergiu bem do meio do neo-realismo,
o seu “La Dolce Vita – A Bela Vida” é reconhecidamente, o ponto de viragem para
a mudança. Scorsese também não se esquece de referir Michelangelo Antonioni
como um dos grandes arautos do modernismo italiano.
No entender do
realizador norte-americano, a grande viragem para o modernismo, acontece com os
filmes “L’Avventura – A Aventura” e com “L’Eclipse – O Eclipse”, ambos de
Antonioni, cujas personagens estão fechadas dentro do seu próprio isolamento em
paisagens que perderam a capacidade de se alimentar espiritualmente.
Inevitavelmente, Scorsese termina o documentário com Fellini e a sua
obra-prima, “8 1/2 – Oito e Meio”, uma espécie de investigação fantasmagórica do
frenesim em que se tornou o seu processo criativo após o sucesso de “La Dolce
Vita”. O realizador considerou “8 ½ “ o filme que, pessoalmente, mais o
influenciou.
Com“AMinha Viagem Pessoalao Cinema
Americano” e com “A Minha Viagem a Itália”, Martin Scorseseanalisa, ao longo das mais de oito horas que
duram ambos os documentários, ainda que superficialmente, umagrande parte da história do cinema americano
do século XXe também as bases que
estiveram na origem do nascimento do Neo-Realismona Itália e como esse movimento influenciou a
maneira de filmar na europa etambém nos
estados unidos.
Nota: as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet