segunda-feira, 27 de julho de 2015

OS Cinco – O Regresso à Juventude


   
Com a excepção de Agatha Christie, a grande escritora de livros policiais e Enid Blyton, autora de inúmeras obras para crianças e jovens, não conheço nenhuma outra escritora cuja obra literária fosse tão importante na cultura do século XX.
Se Agatha Christie foi e ainda é considerada a grande “Dama do Crime”, com  as suas personagens famosas como o Detective  Hercule Poirot, ou Miss Marple, a servirem de mote a um sem número de escritores,  já Enid Blyton, com as suas mais de 700 obras (!) publicadas, entre livros,  poesia e artigos, divididas  entre obras em nome próprio e obras publicadas sob o pseudónimo de Mary Pollock, deve ser considerada a mais profícua contadora de histórias para crianças que alguma vez existiu.
   
Enid Mary Blyton (1897-1968) foi uma escritora britânica de literatura infantil, cujos livros têm estado entre os mais vendidos de sempre desde os anos 30, vendendo um total de 600.000.000 de cópias, continuam a ser enormemente populares e encontram-se traduzidos em mais de 90 línguas.
O seu primeiro livro “Child Whispers”, uma colecção de poemas apresentados em 24 páginas, foi publicado em 1922 e desde então nunca mais parou de escrever. No pico da fama, entre as décadas de 40 e 50, chegava a publicar entre 10 a 20 (!) livros por ano. Faleceu em 1968, deixando algumas obras incompletas que seriam terminadas pelos seus herdeiros, nomeadamente pela sua neta, Sophie Smalwood e postumamente editadas ao longo dos anos subsequentes á sua morte.
Entre as muitas séries que escreveu, as mais famosas e também as mais lidas em todo o mundo, encontram-se “Noddy”, “Mistério”, “As Gémeas em Sta. Clara”, “O Colégio das Quatro Torres”, “Os Sete”, entre muitas outras. Mas a sua criação mais famosa de todas, à excepção da série infantil “Noddy”, foi a série dos Famosos Cinco, que ainda hoje se lê com o mesmo agrado que se teve quando nos chegou ás mãos o primeiro livro das suas aventuras.   
 
A série “Os Famosos Cinco”, ou apenas “Os Cinco” como ficou conhecida em Portugal, nasceu em 1942  e relatava as diversas aventuras de um um grupo de quatro crianças  e o seu cão. Na verdade, três das crianças eram irmãos e a quarta era prima deles. As crianças eram: Julian (Júlio), o mais velho, alto e inteligente, forte, simpático e responsável, naturalmente, o líder do grupo. No início da série, Julian tem 12 anos;  Dick (David), dono de um humor tipicamente britânico (adaptado em Portugal á nossa realidade), não tão inteligente como Julian, mas igualmente responsável. É um ano mais novo que o seu irmão, Julian e no início da série tem 11 anos; Georgina ( Maria José), prima de Julian, Dick e Anne, é uma maria-rapaz, usa o cabelo curto como os rapazes e veste-se como eles. Quer que a tratem por George ( Zé) ou então não responde.
    Dona de uma personalidade muito forte, tem um espírito de aventureira, corajosa e de difícil relacionamento com outras pessoas (Enid Blyton admitiria que a personagem de Georgina era muito baseada em si própria), Georgina tem a mesma idade que o seu primo Dick;  Anne (Ana), é a mais nova do grupo. Pouco dada a aventuras, não as aprecia tanto como os outros, assusta-se facilmente. Por ser a mais nova, gosta de se ocupar das tarefas domésticas nas aventuras, planeando e organizando as coisas e gosta de ter tudo arrumado, seja em casa, seja nos acampamentos  e é muito protegida pelos seus dois irmãos mais velhos, apesar de Dick gostar sempre de a provocar um pouco  e ser sempre o primeiro a tentar animá-la quando ela se sente aborrecida ou triste. No início da série, Anne tem 10 anos; Timmy (Tim) é um cão brincalhão, afável e muito dedicado aos seus quatro companheiros, mas principalmente é-o em relação a Georgina que o considera, nas suas próprias palavras, o melhor cão do mundo. Inteligente e protector, Timmy torna-se decisivo em muitas aventuras ao providenciar protecção física ás crianças em momentos de grande aflição.     
    O primeiro livro “Five on a Treasure Island – Os Cinco na Ilha do Tesouro”, foi publicado em 1942 e começa quando os três irmãos vão passar férias ao “Casal Quirrin”, uma propriedade situada junto ao mar, no Condado de Dorset em Inglaterra, que pertence aos tios, Quentin ( irmão do pai de Julian, Dick e Anne), um cientista famoso e brilhante, conhecido pelo seu temperamento delicado, distraído e grande falta de humor, é no entanto, um pai extremoso, marido e tio dedicado e muito orgulhoso da sua filha  e Fanny, que, ao longo dos livros, vai assumindo uma figura maternal nas vidas das crianças, e onde conhecem a sua irascível prima, Georgina e o seu cão, Timmy. Em frente á praia onde fazem as suas férias, está a Baía Kirrin e nela existe uma ilha com uma fortaleza em ruínas, que Georgina diz ser da sua família e será lá que acontecerá a sua primeira aventura e algumas outras posteriores.
   
As histórias passam-se sempre durante as férias escolares deles (Julian e Dick estão num colégio, Georgina e Anne estão noutro), seja no natal, seja no verão ou seja na páscoa. Sempre que eles se juntam, acontece uma aventura, umas vezes envolve criminosos, outras vezes a procura de um tesouro perdido.   O cenário das aventuras também varia. Algumas vezes passam-se no Casal Kirrin, na Ilha Kirrin, outras vezes a acção passa-se em casas e quintas típicas inglesas, algumas  com centenas de anos de existência, com passagens secretas ou túneis utilizados por ladrões, raptores ou antigos contrabandistas. Outras aventuras acontecem em que “Os Cinco” vão acampar para o campo, ou em passeio de bicicleta ou até mesmo em “Charretes” alugadas para ir passear país fora. Os cenários são, quase sempre, rurais e permitem ao grupo descobrir a vida ao ar livre, a vida comunitária, ilhas, as terras inglesa e irlandesa, a beira-mar, assim como os pequenos prazeres de um piquenique, comidas caseiras, limonadas, passeios de bicicleta, de charrete e natação.   
   Enid Blyton tencionava escrever entre seis a oito livros na série, mas o sucesso comercial  foi tal, principalmente entre as camadas mais jovens, que ela acabou por se ver forçada a escrever vinte e um livros na série, um por ano, desde 1942 até 1963, quando escreveu “Five are Together Again – Os Cinco e a Torre do Sábio”, vigésimo-primeiro e último livro da série. Hoje em dia vendem-se cerca de 2000.000 de cópias por ano das obras de Enyd Blyton, principalmente dos livros infantis. No total, a sua obra já vendeu mais de 100.000.000 de cópias, tornando-a numa das mais bem sucedidas escritoras de sempre.
   Em 1971, o legado de Enid Blyton autorizou Claude Voilier (pseudónimo de Andrée Labedan), professora, jornalista e tradutora, a dar continuidade ás aventuras de “Os Cinco”, já que desde sempre as suas aventuras tinham sido extremamente populares em França, algumas delas tinha sido a própria a traduzir para francês. Nascia assim a série “As Novas Aventuras dos Cinco, constituída por 24 novas histórias, publicadas entre 1971 e 1985.
   Em 1997, foram encontrados diversos textos inéditos que continha várias pequenas histórias, escritas em 1963, alguns haviam feito parte duma revista publicada ainda em vida da escritora, outros não, deveriam ser esboços para outras futuras aventuras, mas que a autora não quisera publicar na altura. Como estavam completas, os seus familiares acharam que seria interessante publicá-las como sendo parte integrante das aventuras originais de “Os Cinco” e assim apareceu  “Five Have a Puzzling Time and Other Stories – Os Cinco e a Luz Misteriosa”, constituído por oito contos, tornando-se o vigésimo-segundo livro das aventuras de “Os Cinco”, editado em 1998, 30 anos depois da morte da escritora.
Foi com Julio Verne, para mim, o melhor escritor de todos os tempos, que aprendi a ler, mas foi com Enid Blyton, que  comecei a cultivar o gosto pela leitura, que,  de resto, ainda hoje se mantém.
                                                        



Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet

terça-feira, 2 de junho de 2015

Doutor Jivago – O amor nos tempos da Revolução Russa


   
Em 1963, o realizador David Lean sentia-se como Leonardo DiCaprio, 35 anos mais tarde, de pé, na amurada da proa do “Titanic”, a gritar “Sou o Rei do Mundo!”:  o seu  épico aventuroso, “Lawrence da Arábia”, triunfara nos Oscares, ao vencer em sete das dez categorias para que fora nomeado, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador.   Pouco tempo depois, o realizador anunciava o seu próximo projecto: uma adaptação do livro “Dr. Zhivago” de Boris Pasternak. Foram várias as razões que trouxeram Lean até este filme. Carlo Ponti, o poderoso produtor italiano, mal soubera do sucesso internacional do livro, adquiriu os direitos da sua adaptação para o grande écran e usá-lo como veículo para promover a sua mulher, Sophia Loren. Lean, por seu lado, depois de “Lawrence” e do seu enorme sucesso em todos os campos, queria fazer algo mais íntimo, mais romântico e o livro de Pasternak, parecia ser o melhor remédio.
   
Carlo Ponti não indicara nenhum realizador na altura em que adquiriu os direitos de adaptação da obra. Ele queria filmar na União Soviética para conferir algum realismo á monumental obra de Pasternak, mas, algum tempo depois, percebeu que se quisesse filmar lá, o Kremlin iria quase de certeza querer exercer algum controle, discreto, mas ainda assim, um controle. A ideia foi abandonada ao fim de algum tempo. O facto de David Lean ter ganho Oscares as duas últimas vezes em que obras suas estiveram a concorrer, foi decisivo para Ponti indicar o seu nome como realizador da adaptação de “Doctor  Zhivago” e o realizador aceitou de bom grado assim que leu o resumo de 30 páginas que lhe fizeram chegar.
   
G.Chaplin, J.Christie, T.Courtenay, A.Guiness, R.Richardson, O. Sharif, R.Steiger
Peter O’Toole, que brilhara em “Lawrence da Arábia”, ao interpretar a complexa personagem de T.E. Lawrence, foi uma das primeiras escolhas de Lean para o papel de Jivago. Mas o actor, que já estava comprometido com Richard Brooks para o filme “Lord Jim” (1965), recusou. Antes de se decidir por Omar Sharif, que também participara em “Lawrence”, Lean convidou Paul Newman, Max Von Sydow , Michael Caine, entre outros que, por uma ou outra razão, declinaram o convite. Rod Steiger foi convidado depois de  Marlon Brando e James Mason recusarem. Audrey Hepburn foi escolha para o papel de Tonya, antes deste ser entregue a Geraldine Chaplin. Para interpretar Lara, Ponti queria a sua mulher, Sophia Loren, mas Lean conseguiu convencer o produtor de que ela era alta demais para as exigências do papel. Yvette Mimieux, Sarah Miles e Jane Fonda foram os nomes que se seguiram, antes de, baseado numa recomendação de John Ford , o realizador, deslumbrado  pela beleza da actriz britânica, Julie Christie, a escolher para o papel.
   O livro, publicado em 1957, (o tempo era o da guerra fria), só havia sido completado um ano antes e chegou ao mundo ocidental, onde foi publicado, entre um grande coro de celebração e de alguma controvérsia, que fez do seu autor um dos símbolos da Guerra Fria e da resistência ao comunismo soviético. Pasternak, um grande poeta lírico, seria agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1958 e o livro, ajudado pela campanha soviética contra ele, tornou-se um dos maiores sucessos literários no mundo não comunista e esteve 26 semanas no top dos “Best-Sellers” em Nova York. O livro só foi publicado pela primeira vez na União Soviética em janeiro de 1988, já no tempo da “Perestroika” e do “Glasnost” de Mikhail Gorbachev. Por esta altura, a versão de Lean, que, na altura da sua estreia, tinha sido largamente denunciada pelas autoridades soviéticas como politicamente incorrecta, acabou por ser visualizada no Kremlin, já que o realizador fora convidado para o Festival de Cinema de Moscovo em 1987 e que a organização teria muito gosto em exibir “todos” os seus filmes.
   
A acção do filme passa-se na Rússia, maioritariamente no período que antecede a Iª GuerraMundial, a revolução russa de 1917, a guerra civil que se lhe seguiu e estes períodos são antecedidos de uma espécie de prólogo situado algures na década de 40 ou 50 no qual o General Yevgraf Andreyevich Zhivago (Alec Guiness, irrepreensível como sempre!) interroga a jovem Tanya Komarova, que ele pensa ser a sua sobrinha, filha do seu meio-irmão,  Doutor Yuri Andreyevich Zhivago (Omar Sharif, no papel mais famoso da sua carreira) e de Larissa “Lara” Antipova ( a bonita actriz Julie Christie). Perante a incredulidade da jovem, Yevgraf conta-lhe então a história da vida do seu (suposto) pai.
   
O filme, apesar de ser fiel ao foco central do romance, difere do mesmo em  algumas personagens e acontecimentos. No entender de muita crítica especializada, o facto do filme se centrar muito no romance entre Jivago e Lara, tirando alguma importância á revolução russa e á guerra civil que se lhe seguiu, banalizando o a própria história e penalizando a película, que mais não era do que uma série de postais ilustrados da revolução, uma  história de amor  situada no topo do que foi a dolorosa reconstrução da Rússia destruída por uma guerra civil. Apesar do filme ser visto, na maior parte, pelo lado de Jivago, o poeta e não de Jivago, o médico, a sua poesia manifesta-se logo desde o início do filme, mas só o vemos a escrevê-la perto do final do filme e nunca ouvimos nenhum dos seus poemas ser dito (nem mesmo no prólogo quando o encarregado da barragem diz que antes os poemas não podiam ser lidos mas que agora já lhes era permitido lê-los) e este facto foi uma das razões que levaram a crítica a achar o filme mais um romance amanteigado e belicodoce do que a adaptação do livro de Pasternak.

   Lean conseguiu manter-se acima de todas estas coisas. Mas também, se calhar, a experiência foi-lhe dolorosa porque quando a mesma crítica que o louvou em “ A Ponte do Rio Kwai”
(1957), em “Lawrence da Arábia” (1962), que tentou deitá-lo abaixo com este “Dr.Jivago”, conseguiu-o com  “A Filha de Ryan” (1970), o  seu filme seguinte, afastando o realizador do cinema durante 14 anos, afastamento esse que muitos julgaram definitivo.
A ideia com que se fica depois da experiência que é ver um filme com esta grandiosidade técnica e duração (mais de três horas!) é que David Lean é um verdadeiro artesão da velha escola e isso fica patente em algumas cenas, que embora não sejam marcantes no todo da obra, são significativas do ponto de vista técnico do filme: a cena, logo no início, em que se vê uma estrela vermelha a brilhar por sobre a abertura do túnel onde os trabalhadores entram e saem;  o plano da cara do jovem Jivago a olhar assustado para uma janela congelada e os ramos duma árvore a baterem contra ela; ou, talvez o mais belo plano de todo o filme quando cristais de gelo se transformam em flores e uma delas se dissolve, transformando-se na cara de Lara.  Mas Lean, vai ainda mais longe, demonstrando todo o seu perfeccionismo (patente em toda a sua obra) ao aceitar um dos desafios mais difíceis da sua carreira como realizador: reconstruir Moscovo, os seus arredores e grande parte da estepe russa no tempo da revolução russa em locais como espanha e canadá ( toda a cena do comboio foi filmada lá) e aceitou filmar a maior parte das cenas-chave do filme durante o inverno, com todas as dificuldades que fotografar na neve ( artificial e verdadeira) acarreta. O momento que melhor ilustra esta dificuldade é, quando Jivago e Lara entram numa casa abandonada em Yuriatin, a neve e o gelo que os precedia transforma-se quase numa fantasia de inverno fazendo-nos pensar simultaneamente na beleza daquela cena e na cuidadosa direcção artística com que somos presenteados.
   
Mas há também toda uma vertente épica que percorre toda a obra, ou não fosse este um filme de David Lean e é nesse sentido que a obra ganha proporções de superprodução: a carga da cavalaria sobre os manifestantes bolcheviques na rua principal de Moscovo; as tropas a retirarem da frente de guerra quando tentam persuadir os reforços que com eles se cruzam a voltarem para trás antes de chacinarem os oficiais de exército; a carga dos “partisans” comunistas durante a guerra civil sobre um lago gelado; ou a cena do êxodo de comboio de  Moscovo. São cenas que demonstram o enorme perfeccionismo que Lean punha ao serviço das suas obras. Como curiosidade, as cenas inicial e  final, foram filmadas na barragem de Adeadávila, entre portugal e espanha e, apesar de não aparecer nos créditos finais, a maior parte destas cenas foram filmadas do lado de Portugal  com vista para a margem espanhola.
Para ilustrar o filme em toda a sua beleza, grandeza, bons,e maus momentos, épicos, românticos, dramáticos, tensos, Lean chamou aquele que, depois do triunfo em “Lawrence da Arábia”, passou a ser o seu compositor de confiança até ao final da sua carreira cinematográfica: Maurice Jarre, cuja banda sonora para este filme, premiada com um Oscar da Academia, deixou uma marca indelével na cultura popular, “Lara’s Theme”, foi um enorme sucesso quando apareceu em disco, permanece ainda hoje como um dos mais famosos e belos temas na história do cinema e ajudou de certa maneira o filme a ganhar o estatuto de clássico que hoje detém.
 
As primeiras duas horas do filme serão talvez as melhores e também as mais pessoais. As personagens definem-se  aí. Entre todas as personagens que desfilam perante os nossos olhos, é a personagem de Victor Komarovski, interpretada por Rod Steiger, que mais nos fica presente. Victor Komarovski é um oportunista da pior espécie, um homem que quer estar bem com deus e com o diabo. Um verdadeiro canalha, que usa e abusa da sua posição. Primeiro vitimiza Amélia, a mãe de Lara, ao ponto de quase a levar á morte e depois a própria Lara. Jivago conhece-a nesta altura quando vai a casa dela para ajudar na recuperação de Amélia após a sua tentativa de morrer e vê-a, primeiro na sombra e depois á luz quando Komarovski lhe comunica que a mãe está bem. Mais tarde apaixonar-se-á por ela quando a vê entrar numa festa de natal e disparar sobre o seu antigo amante. Essa imagem será marcante no desenvolvimento da paixão que se tornará numa obsessão do poeta-médico, que a levará para o casamento com a sua doce e leal Tonya (Geraldine Chaplin). A melhor definição do carácter de Komarovski está no diálogo que este tem com Jivago logo após ser ferido por Lara. Jivago pergunta-lhe “O que é que acontece a uma rapariga quando um homem como você, termina tudo com ela?” a resposta é fria como a noite de inverno em que acontece o atentado “Interessado?  Eu ofereço-lha, Yuri Andreyevich, como prenda de casamento!”. Com esta interpretação, e nesta cena particular, Steiger tem um dos melhores desempenhos da sua carreira e que serviria para moldar a personagem do xerife racista de “No Calor da Noite” (Norman Jewison, 1967)  que lhe viria a dar o Oscar da Academia.
   
O filme termina, aparentemente, com a mesma nota de mistério com que começa: afinal a jovem Tonya é ou não filha de Jivago? O filme, talvez propositadamente, não o esclarece, mas a cena final, quando Tonya desce do gabinete, de mão dada com o noivo, traz ás costas uma balalaika. Yevgraf pergunta-lhe se ela sabe tocar o instrumento. O noivo responde que ela é uma artista. O militar sorri e responde “Ah, então é um dom!”, ponha o espectador na pista certa. O que nos é dito nesta cena é que o mistério em volta de Tonya pode estar resolvido, já que a mãe de Jivago era uma verdadeira artista com o instrumento ( e isso é-nos dito também logo no início do filme) e ela pode ser a tão procurada sobrinha do general. Mas eu prefiro pensar que a frase de Yevgraf é, na verdade, a definição de toda a obra do realizador David Lean.
   
Quando terminou a rodagem, 10 meses depois de a ter começado, Lean tinha cerca de 31 horas de filme que teriam que ser reduzidas, por imposição de Carlo Ponti  para uma duração de cerca de três horas e vinte minutos e que teria de estar pronto, para estreia e posterior entrada na corrida aos Oscares, até ao final de 1965.  Por entre avanços e recuos na sala de montagem, o filme acabou por chegar ás salas em 22 de dezembro de 1965.
Apesar do enorme êxito de bilheteira que obteve (cerca de 111.700.000 dólares), o filme foi recebido com incredulidade pela crítica especializada que acharam difícil que aquele realizador fosse o mesmo que fizera “Lawrence da Arábia” que nesta altura já era um clássico e considerado um dos melhores filmes de aventuras que alguma vez o cinema produzira.
   Vencedor de vários prémios, incluindo cinco Globos de Ouro ( é um dos poucos filmes a ter ganho em todas as categorias em que fora nomeado) e dez nomeações para os Oscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, acabou por ganhar apenas cinco, incluindo Melhor Fotografia e o já citado para a Melhor Banda Sonora.
“Doutor Jivago” é, ainda hoje, o oitavo maior êxito de bilheteira da história do cinema.

Em 2002, o livro de Boris Pasternak foi adaptado para televisão numa mini-série britânica com Keira Knightley e Sam Neil no elenco.





Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto fora retirados da internet

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Viagem Pessoal com Martin Scorsese - Uma Dupla Lição de Cinema!


   
Uma das grandes características que define os realizadores que formaram  a chamada geração dos “Movie Brats”, que surgiu nas décadas de 60 e 70 é o conhecimento cinematográfico e a afeição com que o tratam. São uma segunda geração de artistas, os sucessores espirituais dos realizadores pioneiros, como D.W.Griffith, Cecil B.DeMille, Howard Hawks, King Vidor, Alfred Hitchcock, Charlie Chaplin, entre muitos outros. Muitos deles nasceram depois da linguagem e as convenções do cinema terem sido estabelecidos, o que não impediu que alguns deles se insurgissem e questionassem essas mesmas fundações. Mas,  para o poderem fazer de um modo efectivo, eles tinham que estar bem preparados , com bons conhecimentos da história do cinema, trabalhos importantes e personalidades marcantes. Estes conhecimentos pormenorizados são comuns entre os que realizadores que pertencem á segunda geração, os primeiros que beneficiaram de uma completa educação cinematográfica, mas, de todos esses realizadores, nenhum é mais versado na sétima arte do que Martin Scorsese.
   
Já se sabe que Martin Scorsese é um grande realizador, tardiamente reconhecido pelos seus pares, e é também um grande conhecedor do cinema. Grande parte dos seus anos de formação foram passados a consumir vorazmente tudo aquilo que estreava nos cinemas, o que contribuiu para o cinema do realizador seja preenchido com referências, homenagens e técnicas adquiridas com os seus homenageados. Quando foi convidado pelo Instituto de Cinema Britânico, para dar forma a este documentário, o realizador não hesitou em aceitar.
   Feito em 1994 aquando da celebração do centenário do cinema, este documentário constitui uma visão única e, nalguns aspectos, pessoal do realizador. No papel de apresentador e narrador, com a ajuda de entrevistas e clips de filmes, ele fala da importância e da influência de alguns dos nomes maiores da cinematografia americana e dos seus filmes na sua carreira de cineasta. Mostrando o papel do realizador como um contador de histórias, um ilusionista, um iconoclasta, ou até como uma espécie de contrabandista envolvido na eterna guerra do “puxa e empurra” com os estúdios. Através desta forma de trabalho, ele apresenta-nos o desenvolvimento da sétima arte desde o seu nascimento até ao final dos anos 60: o início com os filmes mudos, a transição para o sonoro e para a cor e finalmente o advento do “Cinemascope”, está um pouco de tudo, ao mesmo tempo, Scorsese foca-se nos géneros que mais o influenciaram: o Western, os filmes de gangsters e também o musical, gastando algum tempo a falar do desenvolvimento desses mesmos géneros e é nesse tempo que o realizador faz a ponte entre esses filmes e alguns dos seus contemporâneos de geração como George Lucas, Francis “Ford” Coppola, Brian DePalma, Clint Eastwood, com alguns realizadores mais velhos como Arthur Penn, Billy Wilder, Samuel Fuller ou John Cassavetes.
   
O seu género favorito, diz-nos a dado momento do documentário, é o filme de gangsters, género do qual vemos clips de 1915 do filme “The Regeneration” de Raoul Walsh; “Scarface – O Homem da Cicatriz” de Howard Hawks; “The Roaring Twenties – Heróis Esquecidos” de Raoul Walsh com que o realizador americano encerra o capítulo do filme dos gangsters  dizendo que por esta altura que “os gangsters se haviam tornado numa figura trágica, de certa maneira, eram uma antítese do próprio sonho Americano”. No final deste capítulo, é fácil perceber porque é que o realizador afirma que este é o seu génerp preferido. Ele próprio diz que a arte dos filmes de gangsters  está na génese dos seus filmes “Mean Streets – Os Cavaleiros do Asfalto” (1973) , “Goodfellas – Tudo Bons Rapazes” (1990) e “Casino – Casino” (1995).
   “A Viagem Pessoal” oferece ao espectador uma visão diferente, quiçá, algo original e transmite, através das palavras do seu apresentador, algumas lições para o futuro: através de diversos clips (alguns raros) , ele chama a atenção para o trabalho de alguns realizadores considerados obscuros (Como Abraham Polonsky que fez “A Force of Evil”, que Scorsese considera como um dos filmes  que mais o influenciou) ou “Leave her to Heaven” um filme sobre o ciúme ao ponto de se cometer um crime por causa dele, e recupera alguns trabalhos menos conhecidos de outros como Jacques Tourneur  e o seu filme de terror, série B, “I Walked with a Zombie” ou ainda  “Bigger than Life” que Nicholas Ray realizou e é um dos primeiros filmes americanos a abordar a temática da dependência
Porque “A Viagem Pessoal” é maioritariamente constituída por clips (ou excertos) de filmes antigos, pouco material original é incluído no documentário, a não ser as entrevistas, mas mesmo assim, Scorsese, não dispensou algumas das presenças habituais nos seus filmes: Thelma Schoonmaker, na supervisão da montagem; Saul Bass responsável pelos intertítulos manuais que separam cada capítulo e até Elmer Bernstein numa banda sonora tranquila e nostálgica baseada no piano.
   
Mas não é só a participação de alguns dos seus colaboradores que torna este documentário um trabalho Scorsesiano. A sua assinatura é evidente e fundamental no conceito da celebração do cinema americano dentro do próprio cinema. A sua apresentação é totalmente preenchida pela sua longa paixão pelos filmes e então ele, como narrador/apresentador, consegue penetrar no mais íntimo dos espectadores e falar-lhes da importância da herança cinematográfica que os estados unidos criaram. É um retrato extremamente íntimo o que realizador faz do trabalho daqueles que o precederam e o simples facto dele não fazer qualquer comentário ao seu trabalho ou ao dos seus contemporâneos no documentário, mostra o respeito e a dignidade com que o realizador encara o seu trabalho e posiciona-o como um potencialmente eminente historiador do cinema e o guardião desta herança para o mundo.
  Talvez por isto e também pelo sucesso obtido quando o documentário foi exibido, levou o realizador, anos depois, a repetir a experiência, mas desta vez no cinema italiano.
Foi em 1999 que o realizador se sentiu compelido a mergulhar nas suas raízes italianas devido ás recordações que os seus avós italianos que emigraram da Sicília para virem viver nos estados unidos, lhe transmitiram e foram também os filmes que via na sua casa, em “Little Italy” na cidade de nova York onde o realizador foi criado que lhe permitiram entender os valores e a cultura que sempre lhe tentaram transmitir.
   
“My Voyage to Italy” ou “Il Mio Viaggio in Italia” como se chamou originalmente começa com o realizador a dizer que se não tivesse visto os clássicos italianos, ele seria uma pessoa completamente diferente. Com um ar profundamente nostálgico, filmado num preto-e-branco intenso, o olhar directo na camera, ouvimos o realizador dizer “eu vi estes filmes…eles tiveram um grande impacto na minha pessoa…deveriam ver estes filmes” . O objectivo do realizador é inspirar-nos a ultrapassar um certo preconceito que exista no espectador contra algum cinema europeu, nomeadamente, o cinema italiano e deixar-se envolver na experiência, o que, mesmo ao longo das quatro horas que dura o documentário, é plenamente conseguido.
  “A Minha Viagem a Itália” segue o mesmo formato que “A minha Viagem Pessoal ao Cinema Americano”, intercalando comentários e memórias pessoais e outras recordações com excertos  longos ( alguns duram entre 10 a 15 minutos) de diversos clássicos italianos, editados com uma precisão tal que o espectador não  consegue descolar  o olhar das imagens do écran  e os ouvidos das palavras do realizador.
   
Focando a sua atenção no cinema italiano nas duas décadas seguintes ao final da  2ª guerra mundial, Scorsese explica convincentemente que o cinema é inseparável dos aspectos da vida, principalmente no que toca ao neo-realismo italiano que consegue quebrar as barreiras entre o documentário e a ficção, nos excertos dos filmes “Rome – Open City – Roma, Cidade Aberta” de Roberto Rossellini e em “Bicycle Thief – O Ladrão de Bicicletas” e “Umberto D. – Humberto D” ambos de Vittorio De Sica, o espectador sente-se como se a vida se vivesse no pior dos tempos. Conforme se vai mergulhando mais no documentário, este vai evoluindo para uma sensibilidade mais moderna com tendência para secularizar uma cultura crescente. Ao analisar o neo-realismo italiano, Scorsese faz grandes distinções entre os trabalhos  de Rossellini, que deixava a brutalidade dos factos falarem por si, e De Sica, que de ex-actor dos anos 30, se tornou realizador e um mestre no trabalho das emoções.
  O documentário divide-se em duas partes. A primeira consiste, como já foi dito, num estudo profundo do neo-realismo através das visões, de ruína, pobreza  e desespero  transmitidas por algumas das obras mais marcantes de Rossellini e De Sica  e o seu impacto no universo pós-guerra. A segunda parte, que não é tão intensa como a primeira, analisa os trabalhos de Luchino Visconti  e a  sensibilidade duma realidade quase operática que trouxe ao cinema italiano. Frederico Fellini, o mais famoso e internacional dos realizadores italianos, cuja filmografia emergiu bem do meio do neo-realismo, o seu “La Dolce Vita – A Bela Vida” é reconhecidamente, o ponto de viragem para a mudança. Scorsese também não se esquece de referir Michelangelo Antonioni como um dos grandes arautos do modernismo italiano.
   
No entender do realizador norte-americano, a grande viragem para o modernismo, acontece com os filmes “L’Avventura – A Aventura” e com “L’Eclipse – O Eclipse”, ambos de Antonioni, cujas personagens estão fechadas dentro do seu próprio isolamento em paisagens que perderam a capacidade de se alimentar espiritualmente. Inevitavelmente, Scorsese termina o documentário com Fellini e a sua obra-prima, “8 1/2 – Oito e Meio”, uma espécie de investigação fantasmagórica do frenesim em que se tornou o seu processo criativo após o sucesso de “La Dolce Vita”. O realizador considerou “8 ½ “ o filme que, pessoalmente, mais o influenciou.

   
Com  “A  Minha Viagem Pessoal  ao Cinema Americano” e com “A Minha Viagem a Itália”, Martin Scorsese  analisa, ao longo das mais de oito horas que duram ambos os documentários, ainda que superficialmente, uma  grande parte da história do cinema americano do século XX  e também as bases que estiveram na origem do nascimento do Neo-Realismo  na Itália e como esse movimento influenciou a maneira de filmar na europa e  também nos estados unidos.


Nota: as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

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