quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Stomu Yamashta – O Projecto Musical “Go”



    Há algum tempo atrás, num artigo que escrevi dedicado ao chamado Rock Progressivo, cujo boom aconteceu em meados da década de 70 do século passado, mencionei o nome de Stomu Yamashta, músico e compositor de origem japonesa que, em meados dessa década gloriosa em termos musicais, veio gravar ao ocidente com músicos europeus uma série de álbuns, a que chamou “projecto Go”, que ainda hoje são considerados como sendo dos expoentes máximos do rock progressivo e a sua mistura com Jazz, Jazz-fusão e Funky.
   
Stomu Yamashta nasceu em Kyoto, no japão. Estudou música na universidade de Kyoto e também nas escolas de música em Juilliard, Nova York e Berklee, em Boston e também deu aulas de música. Percussionista, teclista e compositor, Yamashta foi, desde muito novo, reconhecido internacionalmente pelo seu estilo de percussão inovador e acrobata  que lhe mereceram inúmeros prémios e citações dentro da música. Em 1969 ganhou reconhecimento internacional ao tocar com o maestro Seiji Ozawa (hoje é o diretor da Ópera Estatal de Viena) e com a Orquestra Sinfónica de Chicago. A sua interpretação dos temas foi tão virtuosa e intensa que, no final do concerto, foi aplaudido de pé durante mais de cinco minutos.

    Ao longo da década de 70, continuou a ser muito solicitado, quer no seu país natal, quer fora dele. Trabalhou com Peter Maxwell Davies, compositor e maestro britânico em algumas das sua bandas sonoras para filmes e séries de televisão. Foi nomeado diretor musical da  companhia de teatro  Red Buddha e conseguiu trazê-la até á europa para trabalhar em vários espectáculos de multimedia intitulados “The Man From the East”, com música composta e interpretada por ele e ainda conseguiu colaborar com Morris Pert, percussionista britânico no espectáculo “Come to the Edge”. Compôs temas musicais para a Real Companhia de Ballet Britânica, participou em diversas bandas sonoras de filmes como “The Man who Fell to Earth – O Homem que veio do Espaço” (Nicholas Roeg, 1976) com David Bowie; ou “The Devils” (Ken Russell, 1971) ou ainda “Images” (Robert Altman, 1972).         A meio da década, Yamashta começou a aspirar a vôos ainda mais altos. Desde novo que tinha um gosto especial pelo jazz e foi precisamente nesse género que ele se iria popularizar daí para a frente ao conseguir, na perfeição, fundi-lo com  “funky” e “rock sinfónico” criando um estilo que dali para a frente seria conhecido como  “funky-jazz” ou “jazz-fusão”.
   Em 1976, Stomu Yamashta anunciou a sua vontade de criar música a partir duma enorme variedade de influências, desde música moderna (clássica, entenda-se) a rock, passando pelo jazz e até pela música electrónica,  para isso queria ter consigo um supergrupo musical que lhe permitisse fazer uma espécie de “clássico pop gigante”.

A ideia pegou e tomou forma, pois vieram músicos de todo o mundo: japão, Alemanha, Inglaterra,  américa. A Yamashta, juntaram-se, logo desde o princípio, Steve Winwood (ex-Traffic, ex-Spencer Davis Group e ex-Blind Faith) e Michael Shrieve (The Santana Band) e os três desenvolveram ideias que iriam formar a base daquele projecto musical ainda sem nome mas que seria certamente um álbum conceptual. Queriam fazer a diferença em relação a alguns nomes musicais sonantes: Pink Floyd, Yes, Genesis, Tangerine Dream, Weather Report ou Mike Oldfield, mas na certeza, porém, de que todos eles iriam influenciar de alguma maneira o conteúdo musical do álbum.
   
O jogo que inspirou Stomu Yamashta
Existe no oriente um jogo muito  famoso, oriundo da china antiga há cerca de 2500 anos, chamado “Go” que se joga num tabuleiro, entre dois jogadores. Basicamente a ideia é  rodear com o maior número de peças possível  as zonas do adversário e impedi-lo de fazer o mesmo, antes do final do jogo. É uma espécie de xadrez, com menos regras, mas muito mais antigo e que envolve questões filosóficas e estratégicas entre os dois jogadores e permite um vastíssimo número de possibilidades e jogos.  Stomu Yamashta viu a possibilidade de, através de números musicais abstractos, desenvolver uma história de fantasia e realidade,  morte e re-nascimento, coisas que trocam para os seus opostos.  “Existem mudanças a acontecer, estamos sempre em constante evolução” terá dito o músico aos seus dois companheiros quando lhes apresentou o projecto agora intitulado “Go” .
   
Os "mentores" de "Go"
Com o projecto na mão, os três dedicaram-se a recrutar  outros talentos igualmente interessados em fazer a diferença e não tardaram a encontrá-los: Klaus Schulze (ex-Tangerine Dream e ex-Ash Ra Tempel);  Al DiMeola (ex-Return to Forever); Rosko Gee (ex-Traffic); Pat Thrall (ex-Pat Travers Band); John McLaughlin (Mahavishnu Orchestra, não creditado no álbum apesar de ter tocado em alguns temas e ter ajudado na produção) e outros talentos musicais oriundos de outros géneros mas com igual vontade de fazer parte daquele projecto aliciante. A junção de tantos talentos musicais, requereu alguma perícia na apresentação da ideia e nada melhor do que, em vez de apresentar o material já composto, explicar o que se pretendia fazer.
Antes de começar a trabalhar no estúdio, Stomu Yamashta organizou uma festa durante a qual projectou alguns filmes espaciais da NASA e entre eles apresentou e discutiu as ideias que estavam em cima da mesa, deixando espaço para outras variantes, tendo em conta a qualidade criativa de cada membro envolvido. O entusiasmo foi unânime e a vontade de tocar e gravar aquele material era mais que muita, por isso , sem grandes discussões, o músico japonês e o seu supergrupo entrarem em estúdio em fevereiro de 1976.
   
O álbum, intitulado simplesmente “Go”, foi editado em abril de 1976 e é, no verdadeiro sentido da palavra, um álbum conceptual, cuja fusão de pop-rock  com toques de jazz e elementos clássicos, tudo ligado pelo tema central da viagem espacial.  O conjunto de talentos reunidos contribuem, cada um á sua maneira, sob a batuta conceptual de Yamashta, para o impressionante conteúdo musical do álbum. O assombroso “Crossing the Line” com as suas reminiscências sinfónico-progressivas, dá o mote para a série de temas interligados e contínuos, que passam por “Ghost Machine”, um tema rápido acentuado pela guitarra agressiva de Al DiMeola, o solo ritmado de Pat Thrall e os sintetizadores influentes de Klaus Schulze, também por “Time is Here” um funky cantado alegremente por Steve Winwood  e que têm a sua conclusão no tema “Winner/Loser” a única batida mais pop do álbum, com a letra escrita por Winwood a lembrar os velhos tempos dos Traffic. “Go” é uma espécie de ballet”, disse Stomu Yamashta acerca do álbum.
   
Klaus Schulze a ensaiar
O único problema em explicar a história de “Go” é que, apesar dos temas serem contínuos e interligados, a história só começa no início do lado 2 (nos antigos álbuns de vinil) com o tema “Space Requiem” e prossegue em “Space Song” com  a parafernália de sintetizadores e material electrónico tocada por Stomu Yamashata e Klaus Schulze e são de uma grandeza cósmica tão grande que, se fecharmos os olhos por momentos, parece que estamos a viajar no espaço. A partir daqui a imaginação é o único limite. Todas as leituras são possíveis. Na segunda parte (o lado 1 do vinil  que por esta altura já ouvimos, se seguirmos o normal funcionamento destas coisas!) a história prossegue com  temas mais abstractos que tratam de morte, re-nascimento e, se quisermos, alguma redenção, Percebe-se que a  meio  (lembramos que se trata de temas contínuos), o tom pastoral de “Solitude”  muda  para um ritmo tipo balada para, logo a seguir  mudar para “Air Over” , um tema tipo espacial flutuante tocado em sintetizador, continuando num tom de celebração com “Man of Leo” com ecos de jazz e bossa nova onde se percebe a combinação notável de todos os músicos, com especial destaque para a voz de Steve Winwood e a guitarra de Al DiMeola. O tom celebrativo termina a dar lugar aos sintetizadores de Klaus Schulze e ritmos electónicos, é  o regresso aos temas cósmicos com “Stellar e Space Theme“. E é o fim de um ciclo de “Go”.
Apresentada e concretizada que estava a ideia de Stomu Yamashta, o resultado fora muito além das expectativas de todos aqueles que estavam envolvidos ou não no projecto, faltava agora mostrá-lo ao público
    A apresentação do álbum ao vivo tinha que acontecer por vontade, não só dos músicos, como também do público, sedento de ouvir e ver aquele colectivo de músicos de primeira água e a grande questão era: como é que se comportariam todos juntos em palco?
Uma tournée estava fora de questão pois todos eles tinham agendas preenchidas  com concertos e outras atividades, pelo que quando dois ou três estavam disponíveis, os outros quatro ou cinco não podiam e vice-versa o que tornava toda a logística difícil de coordenar. Finalmente lá se conseguiu reunir, mas apenas para um concerto, a maior parte dos que participaram no álbum, substituindo os que não puderam ou não quiseram, por outros músicos recomendados aos mentores do projecto. Faltava saber onde iria ser feito o concerto. Depois de muitas hipóteses levantadas, a escolha recaiu sobre Paris, em frança, por ser uma cidade culturalmente abrangente.
   
O concerto aconteceu no “Palais  Des Sports” no dia 12 de junho de 1976. Quem lá esteve, garante que foi um acontecimento único. Deste memorável e irrepetível concerto nasceu o álbum “Go Live from Paris”, que seria editado no final do ano.
Rezam as crónicas da altura que Yamashta usou lasers e imagens projectadas enquanto o grupo  em palco  (oito músicos e uma vocalista) se permitia a grandes explorações dos temas e uma maior interactividade entre  Stomu Yamashta, Steve Winwood, Michael Shrieve, Klaus Schulze,  Al Di Meola e Pat Thrall, apoiados pelo baixo de Jerome Rimson, a percussão de Brother James e a voz intensa e profunda de Karen Friedman. Além de que os temas foram, ao contrário do álbum de estúdio, apresentados por ordem por forma a apresentar o tema como uma suíte em dois movimentos. “Windspin” é o primeiro grande momento do concerto. Com cerca de nove minutos e meio de duração, o tema, tocado ao estilo de “Weather Report”, uma odisseia instrumental de jazz-fusão pontuado por surpreendentes riffs de guitarra que davam uma sensação de dramatismo mostrou quão empenhados estavam os músicos no seu trabalho.
   Em termos de intensidade musical, é muito difícil bater os solos de guitarra de Al Di Meola, que acompanham a voz, quase soul, de Steve Winwood em “Ghost Machine”;
“SurfSpin” introduz através de  uma batida funky  o  tema “Time is Here” em que Winwood é acompanhado pela voz expressiva de Karen Friedman e pelo baixo intenso de Jerome Rimson. A espontaneidade do concerto fica provada em  “Winner/Looser”  com todos os músicos a contribuírem definitivamente num tema que contrasta largamente com aqueles que o precederam.
O segundo movimento começa com a rendição de “Air Over”, integrando os temas “Air Voice”, “Nature” e “Solitude” (no álbum “Go”); prosseguindo com “Crossing the Line”, com nove minutos onde a voz emotiva de Winwood serve de mote para um fabuloso e intenso solo de guitarra partilhado entre Al DiMeola e Pat Thrall naquele que terá sido um dos grandes momentos do concerto. Mas ainda haveria mais e logo a seguir com “Man of Leo”, com quinze minutos de duração permitiu aos músicos descontrair tendo como fundo o virtuoso solo de guitarra de DiMeola e improvisações seminais de Michael Shrieve e Jerome Rimson acompanhados pela voz  assombrosa e cristalina de Karen Friedman. O concerto terminaria com uma combinação orquestrada de sintetizadores entre Stomu Yamashta e Klaus Schulze nos temas  “Stellar” e “Space Requiem”.
As críticas ao concerto foram diversificadas na forma e conteúdo, mas unânimes num ponto: apesar de ser um espectáculo da visão musical de Stomu Yamashta, a estrela da noite foi, sem dúvida nenhuma, Steve Winwood com as suas contribuições instrumentais e vocais fizeram do seu regresso aos palcos um verdadeiro triunfo.
   
Satisfeito com o resultado de “Go” e de “Go Live from Paris”, Stomu Yamashta começou a pensar noutro álbum que expandisse ainda mais os horizontes musicais. Steve Winwood, graças ao êxito obtido com o concerto, quis aventurar-se sozinho na música e abandonou o grupo.  Yamashta chamou Jess Roden para substituir  Winwood e fez ainda outros ajustes: Paul Jackson entrou para o lugar de Jerome Rinsom, substituiu Karen Friedman por Linda Lewis; trocou Pat Thrall por Doni Harvey; trouxe um novo teclista, J.Peter Robinson e chamou Paul Buckmaster paa fazer os arranjos finais. Os restantes músicos que vinham do primeiro álbum, regressaram todos.
“Go Too”, assim se chamou o álbum, apareceu em 1977 e foi uma mudança radical no estilo e forma do projecto. É o grande final de magníficas proporções. Um set maravilhoso onde paisagens sonoras, que vão desde o soul ao funky de fusão, constituem um enorme painel cinematográfico sonoro.
    O álbum começa e acaba com duas peças instrumentais, “Prelude”, tocado por Klaus Schulze é uma espécie de tema espacial onde se percebe que o músico, apesar da mudança de direção musical, não perdeu o seu virtuosismo, “Ecliptic”, que fecha o álbum é novamente Schulze no seu melhor, uma sonoridade profunda  com algumas reminiscências  que nos transportam para o início do álbum. Pelo meio, Seen you Before”, um tema que funde jazz com funky  e com um grandioso solo de guitarra de Al Di Meola, segue-se “Madness” um tema totalmente funky que, no final, apresenta o som de ondas do mar e liga diretamente a  “Mysteries of Love”, um tema romântico onde dominam os solos de guitarra sentidos de DiMeola  e as vozes de Linda Lewis e Jess Roden; “Wheels of Fortune” é Jazz puro; “Beauty” é romântico mas muito introspetivo, enquanto “You and Me” mostra um funky alegre  e descomprometido.
    Com o seu projecto “Go” terminado depois de encontrar a sua conclusão lógica neste “Go Too”, Stomu Yamashta regressou ao japão onde continuou a combinar as suas predilecções electrónicas “avant-garde” com o seu estilo “New Age” melódico (há quem o considere um dos percursores deste estilo de música meditativo e relaxante) e esporadicamente grava álbuns.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet.











sábado, 11 de outubro de 2014

Os Condenados de Shawshank


    Em 1963 “The Great Escape – A Grande Evasão”, realizado por John Sturges, baseado num livro escrito por Paul Brickhill,  inspirado em acontecimentos verídicos ocorridos durante a IIªGuerra Mundial onde prisioneiros de guerra aliados  planeiam fuga de um grande número dos seus pares dum campo de concentração nazi. O filme apresentava uma constelação de vedetas que incluíam Steve McQueen, Richard Attenborough, James Garner, Charles Bronson, James Coburn, Donald Pleasence, entre outros e mostrava  todo o planeamento e logística que envolviam a fuga. Tornou-se um clássico rapidamente, várias vezes imitado mas nunca superado e deu origem, ao longo das décadas seguintes, a uma série de filmes cuja temática girava em torno de prisões ou de fugas das mesmas, com maior ou menor qualidade.
   
O Argumentista e Realizador Frank Darabond
Realizado em 1994 por Frank Darabont, "Os Condenados de Shawshank" foi logo considerado um clássico contemporâneo pela sua abordagem original, fugindo ao convencional filme de prisão. A História, da amizade e esperança entre dois condenados numa prisão estadual, cativou a crítica e o público. Baseado num conto de Stephen King, é um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos.
Frank Darabond, argumentista de cinema e televisão, garantiu os direitos de adaptação desta história em 1983 depois de ter impressionado o escritor Stephen King com a adaptação de “The Woman in the Room”, um pequeno conto do escritor que transformou numa curta-metragem. Os dois tornaram-se amigos e Darabond, depois de ter obtido sucesso com o argumento partilhado  em “A Nightmare on Elm Street III: The Dream Warriors – O Pesadelo em Elm Street III” (Chuck Russell, 1987), comprou os direitos de adaptação do conto “Rita Hayworth and Shawshank Redemption” e optou por ser ele mesmo o realizador do filme. King, apesar dos problemas que costuma ter com a  adaptação das suas obras para o cinema, deu um voto de confiança ao aspirante a realizador.
Rob Reiner, que já tinha adaptado anteriormente o conto do escritor “The Body” e transformara no fabuloso “Stand By Me – Conta Comigo” (1986), tentou comprar os direitos a Darabond, que escreveria o argumento. O então realizador  planeava ter como protagonistas Tom Cruise no papel de Andy e Harrison Ford no papel de Red. Darabond considerou a proposta, entusiasmado com a visão de Reiner, mas declinou a oferta pois achou que era a altura certa para “fazer algo mesmo grande” ao estrear-se na realização.
   
“Os Condenados de Shawshank” cria uma espécie de calma nos sentimentos dos espectadores. Parece algo estranho para se dizer acerca dum filme que se passa dentro duma prisão. Enquanto na maior parte das produções do género, o espectador é confrontado logo com sentimentos e experiências indirectas e emoções violentas e superficiais, em “Os Condenados de Shawshank”, tudo isso abranda, fazendo com que o espectador faça parte daquela família. Utiliza a voz calma, porém observadora, do narrador para nos incluir na história de homens que formam uma comunidade atrás das grades: a esperança, a amizade e a sua continuidade pela vida fora, é mais profunda do que na maioria dos filmes e, neste caso, a sua maior diferença.
     
O que é interessante no filme e que também marca a diferença em relação a outros do género, é o facto de, apesar da personagem principal ser o condenado e ex-banqueiro, Andrew Dufresne, a acção nunca se vê do seu ponto de vista, mas sim do ponto dos companheiros de prisão. Tal ideia está perfeitamente espelhada na cena inicial quando Andy é condenado a duas sentenças perpétuas pelo assassinato da mulher e do amante dela, depois a cena muda (permanentemente) para o ponto de vista da população prisional, muito particularmente, de Ellis “Red” Redding (Morgan Freeman, extraordinário), é a sua voz que nos apresenta Andy (Tim Robbins numa das suas melhores interpretações) a lembrar-se de quando ele chegou a Shawshank e que prevê, erradamente, que Andy nunca sobreviveria na prisão.
   
Desde a chegada de Andy á prisão (naquele magnifico plano-sequência vertical) até ao final do filme, vemo-lo apenas como os outros o vêem: Red, que se torna o seu melhor amigo, Brooks, o velho bibliotecário, Norton, o director da prisão, os guardas e até mesmo os outros prisioneiros. Red acaba por ser aquele com quem nos identificamos e a redenção, de que fala o título original do filme, acaba por ser a dele; Red é o nosso infiltrado e Andy é o exemplo de que se deve manter a integridade total, ocupar e dividir o tempo, nunca perder a esperança e aguardar a nossa chance , todas estas ideias estão resumidas numa frase que, a dado momento, Andy diz a Red, “tudo se resume a uma simples escolha: ou te ocupas para te manter vivo ou arranjas maneira de morrer”. 
   
Outro aspecto que faz com que “os Condenados de Shawshank” seja diferente do resto dos filmes do género é a construção  da estrutura narrativa do argumento que nos empurra para a personagem de Andy e para o seu estranho comportamento dentro da prisão. Sem querer, interrogamo-nos: Quem é aquela personagem tão calada que se passeia no pátio da prisão como se fosse um homem livre enquanto os outros conspiram e se lamentam acerca da sua sorte? será que ele matou a mulher e o amante?  Se Darabond tivesse decidido que a personagem de Andy seria o centro heroico do filme, este teria sido certamente muito mais convencional e banal e muito menos misterioso.
     
   
Tim Robbins e Morgan Freeman
Antes de Tim Robbins e Morgan Freeman serem escolhidos para interpretar os papéis de Andy Dufresne e Ellis Boyd “Red” Redding, foram considerados para os respectivos papéis: Kevin Costner, Tom Hanks e Brad Pitt, que recusaram devido a conflitos de horários com outras produções em que se achavam envolvidos (respectivamente “Waterworld”, “Forrest Gump” e “Entrevista com o Vampiro”); para o papel de Red, apontaram-se os nomes de Clint Eastwood, Harrison Ford, Paul Newman e Robert Redford. A escolha acabou por recair em Morgan Freeman, porque Frank Darabond achou que a sua presença e comportamento eram suficientemente autoritários para ser ele o escolhido. Segundo Darabond, decisivo terá sido o curto diálogo, durante a leitura do argumento, entre Andy e Red quando aquele pergunta a este qual a origem da sua alcunha (“Red”) e Red responde “talvez por eu ser irlandês!”.
 
   
Bob Gunton como o Director Norton
Todo o elenco é magnifico nos seus papéis, mas  as escolhas de Clancy Brown como o Capitão Byron Hadley, chefe dos guardas que acha que o melhor para manter os prisioneiros nos seus lugares é moê-los com pancada e de Bob Gunton, como o director Samuel Norton, versado na Bíblia, apresentando-se como um homem pio, cristão devoto e aberto a inovações, revela-se na realidade como sendo corrupto,  impiedoso e sem escrúpulos, foram magníficas no que toca ao elenco secundário porque o espectador, mesmo tendo alguma compaixão por elas sensivelmente a meio do filme,  nunca deixa de as odiar completamente.
   
Todo o filme é suportado pela personagem de Red, ele é uma espécie de curvatura espiritual. Vemo-lo em três audições para obter a liberdade condicional: a primeira, e a mais bem conseguida de todas, graças a um truque de argumento, acontece logo após sabermos a sentença de Andy e quando vemos a auditoria, pensamos que já se passaram vários anos e que Andy vai tentar obter a liberdade condicional. Mas, não, afinal é quando vemos Red pela primeira vez a tentar convencer os auditores que está reabilitado; a segunda, ela já conhece os procedimentos e sabe o que o espera; na terceira, ele rejeita toda e qualquer possibilidade de ser reabilitado, já está muito para além dela e di-lo aos seus auditores, sentindo-se livre de qualquer constrangimento. Os auditores concedem-lhe a liberdade. Sobresiste um problema: na prisão: na prisão, Red é o rei, é  aquele que consegue arranjar tudo sem nunca se comprometer. Cá fora, ele não tem identidade ou qualquer “status” e, tendo visto, o que aconteceu a Brooks, só e abandonado em liberdade, o espectador é levado a recear pela sua vida. Mas, no último terço do filme, Andy ajuda Red a aceitar a sua liberdade, através de cartas e postais, e é visto através da mente de Red.
    Quando estreou, “Shawshank Redemption”, obteve boas críticas entre a imprensa especializada, mas fez  tão pouca bilheteira, que não conseguiu pagar-se: de 25.000.000 de dólares de orçamento, o filme apenas conseguiu 18.000.000 de dólares de receitas. Desde o facto de ter um título horrível, a ser demasiado longo e quase sem acção, mesmo tendo actores respeitados mas que não eram grandes vedetas, tudo foi usado para justificar o fracasso nas bilheteiras. Claramente se percebeu que este filme era daqueles que precisava de andar de boca em boca para encontrar o seu público. Rapidamente foi retirado das salas e só quando obteve as sete nomeações para os Oscares da Academia, incluindo uma para Melhor Filme do Ano, voltou ás salas e o público voltou as suas atenções para o filme, rendendo-lhe mais cerca de 10.000.000 de dólares.
   
Apesar de não ter ganho nenhum Oscar, o filme, ganhou outros prémios, desde então, ganhou uma nova vida e passou a fazer parte do “Top Five” das listas de críticos, imprensa especializada e é o filme  mais bem classificado (para quem segue estas classificações, 9.3/10) no IMDB, a base de dados cinematográfica da internet,  ultrapassado “O Padrinho”(1972), que foi, durante muitos anos o filme que tinha a mais alta classificação (9.2/10).
Frank Darabond construiu o filme para observar a história e não para a elevar ou encenar. A encenação não existe na obra, o filme avança ordeiramente e reflecte a passagem lenta das décadas. “Quando te colocam naquela cela”, diz Red a dado momento “Quando as barras se fecham, é quando sabes que é verdade” . Alguém disse que a vida é uma prisão, nós somos o Red, Andy é o nosso redentor.
Em 2004, no seu 10º aniversário “The Shawshank Redemption” foi incluído na lista do AFI (American Film Institute) como o 23º melhor filme de todos os tempos.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet







sábado, 27 de setembro de 2014

Kagemusha – A Sombra do Guerreiro


   
"Kagemusha”, é uma palavra japonesa que, literalmente, significa guerreiro-sombra, mas também pode ser usado (e, no caso deste filme, é) como um engano político, no sentido de enganar quaisquer potenciais adversários.
A acção decorre no japão do século XVI e conta a história de um criminoso de classe baixa que, devido á sua semelhança com um Senhor da Guerra  moribundo, se vê obrigado a aprender os seus  modos e os maneirismos de modo a poder personificá-lo, sob pena de ser condenado á morte, para evitar que outros Senhores da Guerra ataquem o clan agora vulnerável.
   
   
Akira Kurosawa e os seus samurais
Drama de Samurai, realizado por Akira Kurosawa, conhecido no seu país natal  como “O Imperador”. Foi ele quem deu a conhecer ao Ocidente este género cinematográfico único, através de clássicos como “Os Sete Samurais” (1954), “Yojimbo” (1961) ou “Sanjuro” (1962). Aos 70 anos de idade fez um épico sobre o efeito que o código dos Samurai, ou qualquer outro tipo de código moral e humano, tem na vida de um qualquer indíviduo.

   A genialidade desta obra resume-se na breve cena com que o filme começa: vêem-se três homens quase indistinguíveis uns dos outros: Shingen, o seu irmão, Nobukado, e um ladrão, que Nobukado encontrou por acaso e salvou da morte por crucificação acreditando que, a ver pela semelhança que ele tem com Shingen, ainda pode vir a ser útil, o que vem a acontecer quando Shingen é mortalmente ferido em combate. O clan Takeda decide então usá-lo como “Kagemusha” ou duplo e fazer acreditar aos seus inimigos que ele ainda está vivo.
   
Começa então um período de três anos (prazo estipulado pelo falecido Shingen até que a sua  morte possa ser anunciada), durante o qual o duplo é tratado por todos, até pelo filho e pelas suas amantes, como se do verdadeiro Shingen se tratasse. Só apenas os seus conselheiros é que sabem da verdade, o que permite que cada cena seja construída com alguma ironia: é importante que tanto os amigos como os inimigos acreditem que Shingen continua vivo; a sua aparência e, por acréscimo a sua sombra, cria, não só, respeito  como também cautela entre os seus amigos e os inimigos. Se for desmascarado, torna-se inútil; mas como duplo de Shingen, pode mandar centenas de homens morrer em batalha, e a sua guarda pessoal de bom grado que dará a própria vida por ele. Mas, no seu íntimo, sente-se um inútil e quando é desmascarado, é banido por todos.
   Qual é a ideia de Kurosawa  nesta sua obra? A ideia é mostrar um contraste que existe ao longo do filme entre dois tipos de cenas: as cenas de batalha e as cenas mais intímas. Nas primeiras, grandiosas e épicas, carregadas de imagens de beleza indiscritível ( como a marcha das tropas contra o sol vermelho incandescente; o ataque noturno ao castelo e a tomada deste; assim como a batalha final, que não é vista mas apenas ouvida e no final aquilo que vemos são imagens duma carnificina que tanto tem de belo como de horrível).
   Por outro lado, as cenas íntimas que se passam entre as quatro paredes da sala do trono, dos quartos, dos castelos, são de cortar a respiração, já que o duplo de Shingen é testado em reuniões com o seu filho (grande momento cinematográfico quando lorde Katsuyori, numa reunião do clan, iludindo os seus conselheiros, lhe pergunta directamente o que deve fazer, a resposta do “Kagemusha” é a que se esperava de Shingen, tornando ainda mais real e total a perda da identidade), com o neto  e também as suas amantes. Eles conhecem-no bem e se não se deixam enganar (grande cena quando o neto diz que o duplo não é o seu avô, mas que depois acaba por o reconhecer), percebe-se que toda aquela  encenação será completamente desnecessária pois o clan Takeda perdeu o seu “frontman”, a sua figura principal, o seu líder; o que dá força ao clan é a ilusão criada de que Shingen ainda existe, está vivo e essa é a sua realidade, e ninguém, como Kurosawa, mestre na encenação, consegue mostrar tão bem estes contrastes.  
    Mas em “Kagemusha” existe ainda uma outra luta que se sobrepõe ao domínio de um homem que se deixa dominar pela sua própria imagem: a do filho, lord Katsuyori, que, no desejo de superar a imagem do seu pai, vai conduzir os exércitos do clan Takeda á perdição total ( numa cena genial, no castelo junto ao lago Suwa, onde repousam os restos de Shingen, um conselheiro felicita Katsuyori pela vitória obtida e este queixa-se que a vitória não se deveu a si mas sim á presença do pai, personificado pelo “Kagemusha”). O próprio duplo, perante a inevitável queda do clan Takeda, sabe que a sua existência não tem sentido pois os mortos não têm sombra e, após ser dispensado dos seus serviços, só lhe resta morrer como os outros, não sem antes, depois da batalha final, procurar, no lago, o corpo daquele de quem foi sombra durante três anos. Numa das cenas mais assombrosas desta obra-prima da sétima arte, o realizador, tal como no início, encerra este épico com uma cena que resume tudo: a cena onde o corpo do “Kagemusha”, arrastado pela corrente, flutua ao lado do estandarte do clan Takeda, diz-nos que as ideias e os homens são fruto de um certo tempo e o seu significado histórico só existe quando ambos acontecem ao mesmo tempo e da mesma maneira.
   
A ideia inicial do realizador japonês remontava ao final da década de 60,  era fazer um filme intitulado “Ran”, mas vários constrangimentos, nomeadamente o financeiro (sómente em 1985 é que o grande projecto do mestre japonês teria luz verde para ver a luz do dia), forçaram o realizador a optar por algo parecido. Nascia assim a ideia de “Kagemusha” que, na ideia de Kurosawa, era algo semelhante a “Ran”.  Sem grandes apoios, principalmente no seu país natal, ele fez, em 1970, “Dodeskaden – Pouca Terra…Pouca Terra” um filme pessoal e intimista que não foi um grande sucesso. Cinco anos depois, com o apoio de um produtor independente soviético, filmou o fabuloso “Derzu Uzala – A Àguia das Estepes” (1975) a história da amizade entre um militar soviético e um velho caçador. Filmado na estepe russa, o filme foi um enorme sucesso internacional e ganhou o Oscar da Academia para Melhor Filme Estrangeiro  e fez com que o mestre japonês se pudesse abalançar a vôos mais altos. Entre recuos e avanços na pré-produção,  mais cinco anos se passaram. Finalmente, em 1980, “Kagemusha” tomou forma. Sensivelmente, a meio da rodagem, Kurosawa apercebeu-se que não iria conseguir terminar a rodagem do filme por falta de orçamento. Com os apoios nacionais fechados, viu-se na eminência de ter que obter financiamento internacional. É então que entram em cena os produtores/realizadores George Lucas e Francis “Ford” Coppola.
O Mestre japonês, Francis F. Coppola e George Lucas
   
Admiradores confessos do realizador, Lucas e Coppola aceitaram financiar o resto da produção e ficaram também responsáveis pela distribuição internacional da obra. Creditados no final da obra como Produtores Executivos, permitiram que a versão do filme  exibida na europa e nos estados unidos fosse de 179 minutos, que correspondiam exactamente á ideia que o realizador tinha, cerca de vinte minutos mais longa do que a versão estreada no japão, país que nunca permitiu que a versão internacional lá fosse exibida, provavelmente por ter sido completada com créditos internacionais.
   

Estreado em abril de 1980, o filme foi um enorme sucesso, tanto da crítica como do público que se rendeu á grandiosidade do filme, no japão onde foi nº 1 na bilheteira, fazendo cerca de 26.000.000 de dólares. Um mês depois da sua estreia nacional, o filme foi exibido, com pompa e circunstãncia, na presença do realizador e dos produtores executivos responsáveis pela versão internacional, no prestigiado festival de Cannes. O filme foi um triunfo absoluto no festival, já que recebeu a Palma de Ouro “ex-aequo” com “All That Jazz – O Espectáculo vai Começar”, o filme semi-autobiográfico de Bob Fosse. O filme receberia ainda uma nomeação para os Globos de Ouro, duas nomeações para os Oscares. Em itália o filme foi nomeado para dois prémios “David di Donatello” para melhor Realizador Estrangeiro e Melhor Produção Estrangeira e venceu os  dois. Em 1981 receberia o César (oscar francês) para Melhor Filme Estrangeiro.
 
   
“Kagemusha - A Sombra do Guerreiro” acaba por ser um filme complexo mas ponderado, que Akira Kurosawa conseguiu transformar numa obra simples, ousada e intensa onde o realizador parece sugerir que não importa que as crenças sejam ou não baseadas na realidade, o que importa é que os homens acreditem nelas. Genial.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet.








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