O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Uma das grandes
características que define os realizadores que formarama chamada geração dos “Movie Brats”, que
surgiu nas décadas de 60 e 70 é o conhecimento cinematográfico e a afeição com
que o tratam. São uma segunda geração de artistas, os sucessores espirituais
dos realizadores pioneiros, como D.W.Griffith, Cecil B.DeMille, Howard Hawks,
King Vidor, Alfred Hitchcock, Charlie Chaplin, entre muitos outros. Muitos
deles nasceram depois da linguagem e as convenções do cinema terem sido
estabelecidos, o que não impediu que alguns deles se insurgissem e questionassem
essas mesmas fundações. Mas,para o
poderem fazer de um modo efectivo, eles tinham que estar bem preparados , com
bons conhecimentos da história do cinema, trabalhos importantes e
personalidades marcantes. Estes conhecimentos pormenorizados são comuns entre
os que realizadores que pertencem á segunda geração, os primeiros que
beneficiaram de uma completa educação cinematográfica, mas, de todos esses
realizadores, nenhum é mais versado na sétima arte do que Martin Scorsese.
Já se sabe que
Martin Scorsese é um grande realizador, tardiamente reconhecido pelos seus
pares, e é também um grande conhecedor do cinema. Grande parte dos seus anos de
formação foram passados a consumir vorazmente tudo aquilo que estreava nos
cinemas, o que contribuiu para o cinema do realizador seja preenchido com
referências, homenagens e técnicas adquiridas com os seus homenageados. Quando foi
convidado pelo Instituto de Cinema Britânico, para dar forma a este
documentário, o realizador não hesitou em aceitar.
Feito em 1994
aquando da celebração do centenário do cinema, este documentário constitui uma
visão única e, nalguns aspectos, pessoal do realizador. No papel de
apresentador e narrador, com a ajuda de entrevistas e clips de filmes, ele fala
da importância e da influência de alguns dos nomes maiores da cinematografia
americana e dos seus filmes na sua carreira de cineasta. Mostrando o papel do
realizador como um contador de histórias, um ilusionista, um iconoclasta, ou
até como uma espécie de contrabandista envolvido na eterna guerra do “puxa e
empurra” com os estúdios. Através desta forma de trabalho, ele apresenta-nos o
desenvolvimento da sétima arte desde o seu nascimento até ao final dos anos 60:
o início com os filmes mudos, a transição para o sonoro e para a cor e
finalmente o advento do “Cinemascope”, está um pouco de tudo, ao mesmo tempo,
Scorsese foca-se nos géneros que mais o influenciaram: o Western, os filmes de
gangsters e também o musical, gastando algum tempo a falar do desenvolvimento
desses mesmos géneros e é nesse tempo que o realizador faz a ponte entre esses
filmes e alguns dos seus contemporâneos de geração como George Lucas, Francis
“Ford” Coppola, Brian DePalma, Clint Eastwood, com alguns realizadores mais
velhos como Arthur Penn, Billy Wilder, Samuel Fuller ou John Cassavetes.
O seu género
favorito, diz-nos a dado momento do documentário, é o filme de gangsters,
género do qual vemos clips de 1915 do filme “The Regeneration” de Raoul Walsh;
“Scarface – O Homem da Cicatriz” de Howard Hawks; “The Roaring Twenties –
Heróis Esquecidos” de Raoul Walsh com que o realizador americano encerra o
capítulo do filme dos gangsters dizendo
que por esta altura que “os gangsters se haviam tornado numa figura trágica, de
certa maneira, eram uma antítese do próprio sonho Americano”. No final deste
capítulo, é fácil perceber porque é que o realizador afirma que este é o seu
génerp preferido. Ele próprio diz que a arte dos filmes de gangstersestá na génese dos seus filmes “Mean Streets
– Os Cavaleiros do Asfalto” (1973) , “Goodfellas – Tudo Bons Rapazes” (1990) e
“Casino – Casino” (1995).
“A Viagem Pessoal”
oferece ao espectador uma visão diferente, quiçá, algo original e transmite,
através das palavras do seu apresentador, algumas lições para o futuro: através
de diversos clips (alguns raros) , ele chama a atenção para o trabalho de
alguns realizadores considerados obscuros (Como Abraham Polonsky que fez “A
Force of Evil”, que Scorsese considera como um dos filmes que mais o influenciou) ou “Leave her to
Heaven” um filme sobre o ciúme ao ponto de se cometer um crime por causa dele,
e recupera alguns trabalhos menos conhecidos de outros como Jacques
Tourneure o seu filme de terror, série
B, “I Walked with a Zombie” ou ainda“Bigger than Life” que Nicholas Ray realizou e é um dos primeiros filmes
americanos a abordar a temática da dependência
Porque “A Viagem Pessoal”
é maioritariamente constituída por clips (ou excertos) de filmes antigos, pouco
material original é incluído no documentário, a não ser as entrevistas, mas
mesmo assim, Scorsese, não dispensou algumas das presenças habituais nos seus
filmes: Thelma Schoonmaker, na supervisão da montagem; Saul Bass responsável
pelos intertítulos manuais que separam cada capítulo e até Elmer Bernstein numa
banda sonora tranquila e nostálgica baseada no piano.
Mas não é só a
participação de alguns dos seus colaboradores que torna este documentário um
trabalho Scorsesiano. A sua assinatura é evidente e fundamental no conceito da
celebração do cinema americano dentro do próprio cinema. A sua apresentação é
totalmente preenchida pela sua longa paixão pelos filmes e então ele, como
narrador/apresentador, consegue penetrar no mais íntimo dos espectadores e
falar-lhes da importância da herança cinematográfica que os estados unidos
criaram. É um retrato extremamente íntimo o que realizador faz do trabalho
daqueles que o precederam e o simples facto dele não fazer qualquer comentário
ao seu trabalho ou ao dos seus contemporâneos no documentário, mostra o
respeito e a dignidade com que o realizador encara o seu trabalho e posiciona-o
como um potencialmente eminente historiador do cinema e o guardião desta
herança para o mundo.
Talvez por isto e
também pelo sucesso obtido quando o documentário foi exibido, levou o
realizador, anos depois, a repetir a experiência, mas desta vez no cinema
italiano.
Foi em 1999 que o
realizador se sentiu compelido a mergulhar nas suas raízes italianas devido ás
recordações que os seus avós italianos que emigraram da Sicília para virem
viver nos estados unidos, lhe transmitiram e foram também os filmes que via na
sua casa, em “Little Italy” na cidade de nova York onde o realizador foi criado
que lhe permitiram entender os valores e a cultura que sempre lhe tentaram
transmitir.
“My Voyage to
Italy” ou “Il Mio Viaggio in Italia” como se chamou originalmente começa com o
realizador a dizer que se não tivesse visto os clássicos italianos, ele seria
uma pessoa completamente diferente. Com um ar profundamente nostálgico, filmado
num preto-e-branco intenso, o olhar directo na camera, ouvimos o realizador
dizer “eu vi estes filmes…eles tiveram um grande impacto na minha
pessoa…deveriam ver estes filmes” . O objectivo do realizador é inspirar-nos a
ultrapassar um certo preconceito que exista no espectador contra algum cinema
europeu, nomeadamente, o cinema italiano e deixar-se envolver na experiência, o
que, mesmo ao longo das quatro horas que dura o documentário, é plenamente
conseguido.
“A Minha Viagem a
Itália” segue o mesmo formato que “A minha Viagem Pessoal ao Cinema Americano”,
intercalando comentários e memórias pessoais e outras recordações com excertos longos ( alguns duram entre 10 a 15 minutos)
de diversos clássicos italianos, editados com uma precisão tal que o espectador
nãoconsegue descolaro olhar das imagens do écran e os ouvidos das palavras do realizador.
Focando a sua
atenção no cinema italiano nas duas décadas seguintes ao final da2ª guerra mundial, Scorsese explica
convincentemente que o cinema é inseparável dos aspectos da vida,
principalmente no que toca ao neo-realismo italiano que consegue quebrar as
barreiras entre o documentário e a ficção, nos excertos dos filmes “Rome – Open
City – Roma, Cidade Aberta” de Roberto Rossellini e em “Bicycle Thief – O
Ladrão de Bicicletas” e “Umberto D. – Humberto D” ambos de Vittorio De Sica, o
espectador sente-se como se a vida se vivesse no pior dos tempos. Conforme se
vai mergulhando mais no documentário, este vai evoluindo para uma sensibilidade
mais moderna com tendência para secularizar uma cultura crescente. Ao analisar
o neo-realismo italiano, Scorsese faz grandes distinções entre os
trabalhosde Rossellini, que deixava a
brutalidade dos factos falarem por si, e De Sica, que de ex-actor dos anos 30,
se tornou realizador e um mestre no trabalho das emoções.
O documentário
divide-se em duas partes. A primeira consiste, como já foi dito, num estudo
profundo do neo-realismo através das visões, de ruína, pobrezae desesperotransmitidas por algumas das obras mais marcantes de Rossellini e De
Sicae o seu impacto no universo
pós-guerra. A segunda parte, que não é tão intensa como a primeira, analisa os
trabalhos de Luchino Viscontie asensibilidade duma realidade quase operática
que trouxe ao cinema italiano. Frederico Fellini, o mais famoso e internacional
dos realizadores italianos, cuja filmografia emergiu bem do meio do neo-realismo,
o seu “La Dolce Vita – A Bela Vida” é reconhecidamente, o ponto de viragem para
a mudança. Scorsese também não se esquece de referir Michelangelo Antonioni
como um dos grandes arautos do modernismo italiano.
No entender do
realizador norte-americano, a grande viragem para o modernismo, acontece com os
filmes “L’Avventura – A Aventura” e com “L’Eclipse – O Eclipse”, ambos de
Antonioni, cujas personagens estão fechadas dentro do seu próprio isolamento em
paisagens que perderam a capacidade de se alimentar espiritualmente.
Inevitavelmente, Scorsese termina o documentário com Fellini e a sua
obra-prima, “8 1/2 – Oito e Meio”, uma espécie de investigação fantasmagórica do
frenesim em que se tornou o seu processo criativo após o sucesso de “La Dolce
Vita”. O realizador considerou “8 ½ “ o filme que, pessoalmente, mais o
influenciou.
Com“AMinha Viagem Pessoalao Cinema
Americano” e com “A Minha Viagem a Itália”, Martin Scorseseanalisa, ao longo das mais de oito horas que
duram ambos os documentários, ainda que superficialmente, umagrande parte da história do cinema americano
do século XXe também as bases que
estiveram na origem do nascimento do Neo-Realismona Itália e como esse movimento influenciou a
maneira de filmar na europa etambém nos
estados unidos.
Nota: as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet
Practicamente em todas as guerras que
aconteceram no século XX, o cinema soube, umas vezes bem, outras mal,
transpô-las para o grande écran. Já com a primeira década do novo século
decorrida, ainda o cinema continua a reescrever a história do anterior,
formando assim uma espécie de memória colectiva entre os dos séculos. mas este
também já teve o seu quinhão de guerras, algumas delas ainda decorrem e estão
agora a começar a ser transpostas para o grande écran.
No Iraque, um esquadrão de Élite do exército
americano tem a seu cargo a perigosa missão de desarmar bombas nas zonas de
combate. O Sargento William James é um desses homens que chega para liderar
aquele esquadrão depois da morte do seu chefe e o seu quase à-vontade naquele
ambiente choca com todo o cuidado que os seus companheiros utilizam nas missões
que cumprem dia-a-dia.
O filme abre com uma citação “A febre da
batalhaé muitas vezesum víciopoderoso e letal porque A Guerra
é uma Droga” de Chris Hedges, umjornalista e correspondente de guerra do “New
York Times”, queé apresentada como um facto, não como uma
citação contextualizada como nos iremos aperceber ao longo do filme. Como
sabemos, de outros filmes sobre as inúmeras guerras que assolaram a história, a
maior parte dos soldados quer é cumprir o seu tempo e regressar, de
preferência, inteiro a casa. Em “Estado de Guerra” acontece precisamente o
contrário: o Sargento William James, encara o seu trabalho diário, de desarmar
bombas debaixo de fogo inimigo, como se dum prazer diário se tratasse. É neste facto que o filme se afasta dos demais filmes de guerra e adquire a sua originalidade. Aliás o próprio título do filme marca essa diferença, “Hurt Locker”, é uma situação ou período de grande sofrimento físico e emocional, remete-nos para um armário, espaço reduzido onde se pode ficar fechado ou trancado (locker), no filme pode entender-se como sendo o quarto de cada soldado onde se sofre em silêncio (hurt, como adjectivo).
“Estado de Guerra” é baseadonas experiências que Mark Boal, jornalista
freelancer, viveu quando acompanhou, ao longo de duas semanas, uma equipa de
desarmamento de bombas do exército americano durante a guerra do Iraque em 2004.
Boalutilizou essa sua experiência
adquirida na linha da frente da guerra para escrever um drama ficcional baseado
em acontecimentos reais. Ele disse, acerca do objectivo do filme “A ideia é que
tratando-se do primeiro filme sobre a guerra do Iraque, faça sentido ao mostrar
a experiência dos soldados, aquilo porque passamdiariamente e que não é habitualmente
mostradonas notícias e não o descrevo
para censurar comportamentos ou atitudes, mas sim honrar esta facilidade que me
foi dada, sim porque não é todos os dias que se colocam fotógrafos ou
jornalistas comunidades militares desta
élite”.Em 2005, enquanto Boal escrevia
o argumento do filme, que inicialmente, era para se chamar “ The Something
Jacket”,a realizadora começou a
desenhar os primeiros “storyboards” para ficar com uma ideia que tipo de
localizações iria necessitar, já que o desarmamento de bombas necessita duma
área de contenção por causa do rebentamento e ela queria fazerum filme o mais realista possíveldo tipo “colocar a audiência dentro das viaturas
militares utilizadas neste tipo de acção ( a gíria militar utiliza o termo “Humvee”)
e fazê-la passar pela experiência no terreno”.
Kathryn Bigelow (de branco) nas filmagens
Kathryn Bigelow, ficou fascinada com a
possibilidade deexplorar a psicologia
por detrás do tipo de soldado que se voluntaria para este tipo de conflicto e
que, devidoá sua aptidão, é escolhido e
tem a oportunidadede ir para as
unidades de desarmamento de bombas e avança, sem medos, para aquilo de que toda
a gente foge. A realizadora, autora de filmes como "Point Break - Ruptura
Explosiva" (1991), um thriller policial carregado de adrenalina com Keanu
Reeves e Patrick Swayze ; ou de"Strange Days - Estranhos Prazeres" (1995), um thriller de
ficção cientifíca quase profético com Ralph Fiennes, Angela Basset e Tom
Sizemore, fez um filme enérgico. Evitando tomar partido em qualquer dos lados
do conflito, Bigelow centra o seu filme num registo quase documental (embora
não tão realista como "Redacted - Censurado" de Brian DePalma, 2007),
com sentido de acção e momentos de suspense muito bem conseguidos através duma
montagem minuciosa e pormenorizada (a cena da primeira missão de James ou o
único momento de combate no deserto são disso exemplo). Bigelow não utiliza subterfúgios nem situações
onde se percebe que é um mecanismo forçado.O suspense e a acção são reais e merecidos.
As filmagens tiveram início em julho de 2007,
na Jordânia, cuja geografia é muito semelhante á do Iraque, depois de ter
considerado a hipótese de filmar em Marrocos, mas foi descartada porque as
cidades marroquinas não se assemelhavam a Bagdad. Inicialmente Kathryn Bigelow
queria ir filmar no Iraque, mas rapidamente mudou de ideias porque ninguém lhe
conseguia garantir as condições de segurança necessárias para filmar. Para
conferir o grau de autenticidade pretendido, Bigelow, utilizou refugiados
iraquianos como extras e obrigou o elenco do filme a trabalhar sob o calor de
Médio Oriente onde as temperaturas, nesta altura, rondam os 49ºC. Diariamente
eram utilizadas quatro ou mais cameras que filmavam simultaneamente, o que
resultou em cerca de 200 horas de filme, ao longo dos 44 dias que durou a
rodagem.
Há no filme, para além do lado bélico, um lado
humano que Kathryn Bigelow também consegue captar ( a cena em que James,
comovido, trata do corpo do miúdo bombista como se de um filho seu se tratasse;
ou quando o mesmo James telefona para casa só para ouvir a voz dos seus entes
queridos; ou ainda as cenas passadas nas casernas e as conversas e brincadeiras
que eles têm entre si), o que torna a obra mais interessante.
Com um elenco prácticamente desconhecido onde sobressai
o nome de Jeremy Renner (nomeado para o Oscar de Melhor Actor) que interpreta
William James, cuja frieza no campo de batalha (neste caso, no desarmamento de
bombas) só é ultrapassada pelas suas próprias fraquezas (a raiva que sente
quando vê o que fizeram a Beckam, o miúdo por quem sente alguma amizade). Ele
não é o típico herói de acção(aqui, uma
vez mais, “Estado de Guerra” afasta-se do convencional filme de guerra/acção),
ele é um especialista, é como um cirurgião que se foca numa parte do corpo
humano, vezes sem conta, dia após dia de modo a poder operar em qualquer
circunstância. James percebe de bombas, conhece-as de dentro para forae estabelece com elas uma relação quase
psíquica ao nível da mente, tornando o filme ainda mais empolgante porque o
espectador fica com uma quase certeza de que o autor da bomba a ser
desmantelada está presente na cena (graças aos planos com queKathryn Bigelow nos presenteia de curiosos
que estão nas varandas ou atrás de alguma janela a olhar para a cena na rua),
tão curioso acerca dela como James. Dois profissionais a trabalhar um contra o
outro. James tem um comportamento irresponsável por vezes, corre riscos
desnecessários de uma maneira ousada, mas no que toca a desmantelar uma bomba,
ele é tão cuidadoso como um cirurgião deve ser.
A interpretação de Renner é firme e credível (a
já citada cena com o corpo do miúdo bombista ou aquela em que James, num
supermercado não consegue decidir que cereais deve comprar para o filho, servem
de exemplo da maneira como o actor agarrou a personagem). No elenco surgem
ainda nomes de Anthony Mackie e Brian Geraghty, ao lado de outros nomes conhecidos como Ralph Fiennes, David Morse,
Evangeline Lilly ou Guy Pearce em interpretações secundárias.
“Estado de Guerra” teve a sua estreia mundial
no Festival Internacional de Cinema de Veneza em setembro de 2008 e recebeu uma
ovação de pé durante10 minutos no final
da exibição. Recebeu diversos prémiose
honrarias nos vários festivais em que foi sendo apresentado, tanto na europa
como nos Estados Unidos.
Nomeado para nove
Óscares da Academia, "Estado de Guerra" venceu seis, incluindo o de
Melhor Filme do Ano e Melhor Realização e fez história. Após ser apenas a terceira
mulher a ser nomeada para o prémio de Realização, depois Jane Campion por " The Piano -O Piano" em 1993 e Sofia Coppola por
"Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho" em 2003. Kathryn
Bigelow tornou-se na primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Realização.
“Estado de Guerra”
éum grande filme, um filme inteligente,
feito claramente para que se saiba exactamente quem é quem, onde se encontra, o
que faz, porque é que o faz.O trabalho
de camera e a própria realização estão ao serviço da história. Bigelow sabe
contar uma história e também sabe que o suspense não se cria com takes de dois
ou três segundos e que não se consegue contar uma história que trata do
mistério porque é que um homem como James depende tanto de pôr a sua vida em
risco.
Abordando uma temática pouco habitual neste
género e tratando-se de um primeiro filme sobre uma guerra que ainda é muito
recente, "Estado de Guerra", não será o filme definitivo sobre o
conflito do Iraque, longe disso, é uma contribuição para o estudo do conflito e
nesse campo é um filme obrigatório que só o tempo se encarregará de elevar ao
estatuto que merece.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet.
Em 1961 Paul Newman (1925-2008) interpretava
um dos papéis mais marcantes na sua longa carreira de actor. "Fast"
Eddie Felson assim se chamava a personagem e era um ingénuo jogador de snooker
que, irá sentir na pele os altos e baixos da vida até se reencontrar. O filme
chamava-se "The Hustler - a Vida é um Jogo", realizado por
RobertRossen. Vinte e cinco anos e sete
nomeações para os óscares depois, ele retoma o papel e vence a concorrência.
"A
Cor do Dinheiro", assim se chama o filme e vamos encontrar
"Fast" Eddie, mais de vinte anos depois dos acontecimentos do filme
anterior, reformado dos grandes torneios
nas fumarentas salas de snooker à procura de alguém em quem possa investir o
seu dinheiro e esse alguém encontra-o na pele de Vincent (Tom Cruise), um jovem
vigarista que tem uma incrível técnica a jogar snooker e que lhe faz lembrar
ele próprio quando era jovem. Eddie resolve então apostar em Vince, fazê-lo
rodar por vários salões e levá-lo até ao topo onde cada vitória ronda os
milhões de dólares. Mas sabe "Fast" Eddie que esta aposta irá levá-lo
a algo mais que ele não está à espera.
Quando se começou a falar numa possível
continuação de “The Hustler”,Walter
Tevis, autor do romance com o mesmo título do filme, adaptoudirectamente a sua obra, mas realizador e
produtores, resolveram não seguir o livro e delinearam uma história
completamente nova, conservando apenas o título do livro. Ausente desta
continuação está a personagem de Minnesota Fats, o adversário de “Fast” Eddie
em “ The Hustler”, interpretado por Jackie Gleason que, tal como Newman, também
foi nomeado para os Oscares. Paul Newman queria que ele aparecesse e, até certa
altura da pré-produção, a personagem fazia parte do primeiro esboço de
argumento que chegou ás mãos de Scorsese. Mas, a dada altura, pareceu aos
produtores que não havia nenhuma cena em que Minnesota coubesse, pelo que a sua
presença foi abandonada.
Não se deve considerar “A Cor do Dinheiro”
como uma sequela directa de “The Hustler”, até porque nunca foi essa a intenção
do realizador. A sua ideia era apresentar o ex-jogador de snooker mais velho,
mais maduro e com outra ocupação ( neste caso “Fast” Eddie é um vendedor de
bebidas de sucesso), que aindase
passeia pelas salas de jogo daspequenas
e grandes cidades, no seu Cadillac branco, do qual tem muito orgulho, juntamente
com a sua namorada, Janelle ( a bonita actriz Helen Shaver), antiga empregada
de bar. Eddie ainda joga Snooker mas não pelas grandes apostas e nem com os
jogadores que correram com ele do jogo
As
interpretações são magnifícas, a começar por Paul Newman que ganharia o Oscar
de Melhor Actor, ao interpretar um "Fast" Eddie Felson muito mais
maduro e experiente do que em "The Hustler". As sequências em que ele
é énganado por um "Hustler" mais novo e aquela em que ele regressa às
grandes competições, são de antologia e dignas de figurar no panteão das grandes
interpretações. Tom Cruise, ao interpretar Vincent, o protegido de
"Fast" Eddie e depois o seu oponente ( no final, Mestre e Discípulo enfrentam-se no único campo de
batalha que ambos conhecem e o resultado não se sabe qual será, já que “Fast”
Eddie avisa Vincent de que se o não vencer ali, fa-lo-á noutra altura qualquer
porque, como ele diz, “I’m Back”!), tem aqui uma interpretação honesta de quem
ainda estava em princípio de carreira.
Realizado por Martin Scorsese, "A Cor do
Dinheiro", mostra-nos o ambiente vivido nas salas de snooker, os jogos, as
apostas e a constante mudança do dinheiro de mão em mão, tudo isto intercalado
com algumas das melhores sequências de snooker alguma vez filmadas que têm o
seu ponto alto no inicio do grande torneio de Atlantic City onde, num magnifíco
grande plano, se vêm as mesas de snooker reluzentes como se fossem campos
prontos para as batalhas que se vão seguir. O realizador encarou este filme
como uma “obra de encomenda”, que fez, juntamente com “After Hours – Nova York
fora de Horas” (1985), para se recuperar do fracasso comercial que fora “The
King of Comedy – O Rei da Comédia” (1983)., apesar dos nomes grandes e dum tema
banal, mas popular e Scorsese, sendo um realizador que gosta de criar histórias
novas, completamente pessoais a partir da sua própria imaginação e nãoterminar algo que outro começou antes, neste
caso, 25 anos antes, não se sentirá plenamente realizado.
Apesar de não ser um dos melhores filmes de
Martin Scorsese, o seu estilo está bem patente em cada imagem que se vê, é uma
realização em constante movimento, contribuindo para isso a montagem de Thelma
Schoonmaker, colaboradora habitual do realizador, tal como as personagens do
filme.
Em diversas cenas, como quando Eddie vê Vince
pela primeira vez a jogar e apercebe-se de que a namorada do rapaz, Carmen
(Mary Elizabeth Mastrantonio, sensual), apesar de gostar do ambiente das salas,
está obviamente a ficar aborrecida, resolve aproximar-se dela e fazer um acordo
que lhes permita ganhar muito dinheiro; ou quando Eddie usa Carmen num jogo de
sedução entre ambos para fazer ciúmes a Vince e assim perceber qual é o grau de
auto-confiança do jovem, são cenas extremamente bem encenadas e muito próximas
da sensibilidade que Scorsese põe em tua a sua obra no que toca nas relações
entre personagens, principalmente femininas. Também a “voz off” no início do
filme ( é o próprio Martin Scorsese que o faz numa apresentação não creditada),
a explicar as regras do jogo é também um reflexo do tema do filme. A cena,
filmada por entre o fumo dos cigarros e pedaços de giz para o taco, éa melhor apresentação para mergulhar o
espectador nos ambientes reais do filme.
O filme estreou a 8 de outubro de 1986 nos
estados unidos e a 17, do mesmo mês, na europa. A critica geral foi positiva,
apesar de muitos o considerarem inferior ao seu antecessor. Mesmo assim rendeu
cerca de 53.000.000 de dólares, só nos estados unidos. O filme elevou a
popularidade do bilhar e do snooker um pouco por todo o mundo.
Tal
como "Fast" Eddie Felson, em dado momento do filme, vê o seu reflexo
numa bola de snooker, este filme reflecte a carreira de um grande actor,
finalmente recompensada com o Oscar da Academia, prémio máximo a que qualquer
actor pode e deve aspirar, no seu penúltimo grande papel. O último grande
momento seria em "Estrada para Perdição" (Sam Mendes, 2002).
Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet
Há filmes que ficam na história do cinemapelas melhores razões, mas também é verdade que também os há que figuram na
mesma história pelas piores razões. E desses quase nunca reza a história. “Heaven’s
Gate – Ás Portas do Céu”, realizado em
1980 por Michael Cimino, foi um desses filmes que ficou na sétima arte pelas
segundas razões, mas que, ao contrário de muitas outras produções, esta acabou
por ser reconhecida como uma das maiores injustiças do cinema.
Em 1890, a cidade de Casper, no Condado de Johnson, no
Wyoming, está a ferro e fogo, pois a Associação dos Criadores de Gado,
constituida por homens ricos já estabelecidos no território está em Guerra com
os emigrantes europeus recém-chegados ao Wyoming que por vezes lhes roubam o
gado para alimentar as suas numerosas familias. Os nativos têm na sua posse uma
lista com 125 nomes que irão ser
assassinados. Será a Jim Averill, um “Marshall” de passagem pela cidade a quem
os emigrantes irão recorrer para impedir que aquele massacre aconteça.
Em 1971, Michael Cimino era um aspirante a realizador. O
seu nome já aparecera nos créditos de alguns filmes de Hollywood como
argumentista e foi nessa qualidade que apresentou o argumento de “Heaven’s
Gate” (então chamado “The Johnson County War”) aos executivos da United
Artists. O argumento circulou pelos estúdios durante algum tempo, mas, por não
atrair nenhum nome sonante, acabou por ser arrumado durante alguns anos. Foram
precisos dois sucessos do realizador “Thunderbolt and Lightfoot – A Última
Golpada” (1974, produzido e protagonizado por Clint Eastwood) e o
multipremiado “The Deer Hunter – O
Caçador” (1978) para que recebesse luz verde dos executivos da United e voltasse a pegar no argumento.
O filme é dividido em três partes: o início, passa-se em
1870 em Harvard e funciona como uma espécie de prólogo e nele conhecemos Jim
Averill (Kris Kristofferson) e Billy Irvine (John Hurt), que são dois finalistas
daquela universidade que, depois de serem formados, tomam parte, juntamente com
os restantes finalistas, numa serenata ás suas namoradas presentes no evento.
Na segunda parte, a acção passa para Johnson County, no Wyoming, em 1890 onde
decorre praticamente toda a acção do filme. Passaram-se 20 anos desde a sua
formatura, Averill, agora “Marshall” dos Estados Unidos, reencontra Billy
Irvine que está do lado da Associação dos Criadores de Gado e toma conhecimento
do que está para acontecer, mas não se quer meter porque acha que o assunto não
lhe diz respeito por que ele está apenas de passagem pela cidade e a sua
atenção está focada na bela Ella Watson (Isabelle Huppert), dona dum bordel,
dividida entre dois amores, por Averill e por Nate Champion (Christopher
Walken), pistoleiro de renome e amigo de Averill. Mais tarde ou mais cedo, as
posições de cada um terão que se extremar e as consequências que dai resultantes
serão penosas para todos os envolvidos.
Finalmente a terceira parte passa-se em Newport, Rhode
Island, em 1903 e funcionará como um epílogo. Jim Averill já não é o mesmo
homem que era, as feridas do passado são mais que muitas e profundas (apesar de
já se terem passado mais de dez anos e estarmos num novo século), dos
acontecimentos sangrentos que testemunhou e que viveu “in loco” e isso nota-se
na longa cena que encerra o filme, é uma cena feita de silêncios cúmplices e
acusatórios e recordações dolorosas de perdas duma vida que, apesar de toda a sua classe e
riqueza nunca mais foi a mesma.
A rodagem teve início em abril de 1979 e seria terminada
quase um ano depois, em março de 1980. A data inicial para terminar a rodagem
era dezembro de 1979, mas Cimino achava-se um perfeccionista e queria tudo o
mais realista possível, por isso mandou desmontar cenários, repetir “takes”,
alterou a ordem da rodagem, reescreveu o argumento inúmeras vezes para que tudo
ficasse o mais fiel possível á sua ideia. Conforme ia atrasado a produção,
assim também aumentaram os custos.
De um orçamento inicial de cerca de 11.000.000 de
dólares, a produção final ficou em cerca de 44.000.000 de dólares! O triplo
daquilo que estava planeado. Entre muitas histórias que se contaram sobre a
rodagem e contadas num livro intitulado “The Final Cut”, algumas houve que
davam Cimino como despedido por incompatibilidades pessoais (e essa hipótese
esteve várias vezes em cima da mesa dos executivos do estúdio durante a
interminável rodagem), não só com os actores, como também com os técnicos, e
que estaria a ser considerado convidar David Lean para tomar o leme das
rodagens. O realizador britânico negou que tivesse sido convidado para o
terminar o filme pois isso era contra os regulamentos da “Directors Guild of America”,
pois o realizador original ainda não tinha sido despedido. Outra história
famosa, do mesmo livro, conta que durante a pos-produção, o realizador terá
mudado a fechadura da sala de montagem para proibir os executivos do estúdio
(que já estavam fartos do realizador e da sua megalomania), de verem o filme
até a montagem estar concluída. A equipa de editores queixou-se, mais tarde, de
que Cimino os obrigava a montar o filme de acordo com a sua visão, desprezando
a técnica de cada um, porque estava convencido que o seu filme se iria tornar
numa obra-prima. Algum tempo depois, um elemento anónimo de dentro do estúdio
terá dito que “O nível de pretensão dentro daquela sala de montagem só foi
igualado pelo nível do desastre financeiro em que o filme se tornou”.
Em Junho de 1980, o realizador faz um visionamento do
filme aos executivos da United Artists. Com uma duração de cerca de cinco horas
e vinte e cinco minutos, que Cimino disse “ ser quinze minutos mais longa do
que seria a versão final”. Os executivos recusaram-se a estrear um filme com
aquela duração e consideraram novamente despedir o realizador. Mas Cimino
prometeu-lhes que iria remontar o filme para uma duração mais aceitável.
Durante quatro meses, o realizador fechou-se na sala de montagem a trabalhar na
versão do filme que estreou em novembro de 1980, com a duração de 219 minutos.
Lá diz a sabedoria popular que “o que nasce torto tarde ou nunca se endireita” e foi
precisamente isso que aconteceu a “Heavens Gate”. Ao fim duma semana de exibição, de más
receitas de bilheteira e de péssimas críticas, a United Artists e o realizador,
retiraram o filme de circulação e
adiaram a sua estreia mundial. Em april
de 1981, o filme estreou novamente numa versão do realizador de 149 minutos, ou
seja, pela terceira vez consecutiva, o filme foi remontado e desta vez foram
cortados mais de dois quartos de cenas. Esta versão, não só era menor em
duração, mas também se diferenciava radicalmente da anterior na montagem de
cenas e escolha de “takes” dessas mesmas cenas. Mas ainda não seria desta que o
filme iria resultar. Ao fim de duas semanas de exibição e tendo feito uma
bilheteira de apenas 1.300.000 dólares, o filme saiu de exibição e, desta
versão, nunca mais se ouviu falar porque nunca foi editada nos Estados Unidos,
mas chegou á europa onde obteve algum sucesso porque o público europeu ainda se
lembrava do sucesso mundial que fora “O Caçador”. A promissora carreira de
Cimino pareceu ter-se afundado com a United Artists. O seu nome passou a ser
sinónimo de desastre e nem sequer os dois únicos filmes que conseguiu realizar
na década de 80, “The Year of the Dragon - O Ano do Dragão” (1985) e “The
Sicilian - O Siciliano” (1987) conseguiram retirar o seu nome da lista dos mais
indesejáveis de Hollywood
Em 1982, o canal de TV por cabo, “Z Channel” exibiu a versão de 219 minutos
que estreara em 1980 – foi a primeira vez que essa versão foi exibida e foi
também graças a essa exibição que a expressão “Director’s Cut”, largamente
publicitada por esse canal, se tornou tão popular que, hoje em dia, as
“Director’s Cut”, são como que o “Santo Graal” de qualquer filme!
Durante vários anos, esta versão, de 219 minutos,
distribuída posteriormente pela MGM, que adquiriu todo o catálogo da United
Artists quando esta faliu, foi a única a circular em todos os circuitos e era
vulgarmente chamada de “Uncut” ou “Original Version”, ou ainda “Heaven’s
Gate…The Legendary Uncut Version”. Inúmeras vezes, Michael Cimino, quando
questionado sobre a “Original Version”, insistia de que não a considera como
tal porque, por se encontrar sob demasiada pressão para estrear o filme nas
datas previstas, mas, essencialmente como uma espécie de “Filme inacabado”
Em 2005, foram localizados diversos negativos, ainda em
boas condições que incluíam diversas cenas que nunca tinham sido vistas no
cinema. O filme foi remontado, aumentando consideravelmente a metragem. a MGM
estreou o filme em algumas salas nos estados unidos e na europa, sempre com
casas cheias de um público que começava a mudar a sua opinião acerca do filme,
e a presença, além de todo o elenco que incluía, Kris Kristofferso, Christopher
Walken, Isabelle Huppert, John Hurt, Sam Waterston, Jeff Bridges, entre outros,
de Michael Cimino. Por falta de verba dentro da MGM, esta versão nunca foi
comercializada.
Em 2012, 32 anos depois da estreia, a MGM estreia no
Festival de Veneza, uma versão digitalmente restaurada de “Heaven’s Gate” com a
duração de 216 minutos, supervisionada pessoalmente por Michael Cimino e na
qual ele explica que (finalmente) esta é a versão que ele sempre quis fazer e
que é a sua preferida…longe vão os tempos da megalómana (suposta) versão de
mais de cinco horas de duração cuja, existência, de resto, nunca foi confirmada
por ninguém, nem pelo próprio realizador e argumentista, que continua em busca
de um rumo que terá perdido algures durante a produção deste filme.
Com a chegada do novo século, a obra tem sido reavaliada
pela crítica e pelo público e tem sido objecto de uma nova atenção, não sei se,
por obra e graça das novas tecnologias, se pelo facto de já se ter escrito e
falado tanto deste filme. Hoje, grande parte do que se escreve sobre ele, é
para explicar o porquê de se ter injustiçado tanto a visão grandiosa (embora
algo megalómana) e crítica de um realizador sobre um episódio verídico que
ocorreu no seu próprio país, mais do que a explicar o próprio filme.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet