quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O Grande Mestre do Crime – O Jogo do Gato e do Rato



   
Em 1956, o filme “ The Killing – Um Roubo no Hipódromo”, reaiizado por Stanley Kubrick, deu nas vistas entre a crítica, apesar do relativo fracasso nas bilheteiras, muito por culpa da distribuidora que não soube (ou não quis) promover o filme. A história, simples, do planeamento e assalto a um hipódromo durante um dia de corridas de cavalos, do qual iriam resultar cerca de 2.000.000 de dólares para os cinco executantes, começou a correr bem até acabar mal para todos. Apesar da banalidade da história, já diversas vezes vista no grande écran, nomeadamente no filme “Asphalt Jungle – Quando a Cidade Dorme” (John Huston, 1950), o que chamou a atenção foi a técnica que o jovem realizador, então com 29 anos, usou para contar a história: a divisão do écran para mostrar o que cada personagem faz antes, durante e depois do assalto, a câmara subjectiva mostrando o ponto de vista de cada um dos envolvidos e a narrativa em “voz off”. O filme trouxe também um novo  sub-género para o policial, o chamado “Caper Movie”.
   
O “Caper Movie”  também chamado  filme de esquema,  golpe e /ou assalto, é um tipo de filme cuja premissa principal é baseada em algo que alguém faz, motivado por um qualquer motivo, seja ele de vingança ou puro prazer, como por exemplo, montar um esquema para extorquir dinheiro a alguém ou alguma organização, ou assaltos a bancos, supermercados, instituições variadas, depois de ser meticulosamente planeado e feito ilegalmente. O “Caper Movie” nunca foi um género muito explorado pela sétima arte, embora tenham existido alguns filmes que deram expressão ao género, tais como os supra-citados, aos quais podemos ainda juntar “Ocean’s Eleven –Os Onze de Oceano” (Lewis Milestone, 1960), com Frank Sinatra, Sammy Davis, Jr. E Dean Martin, entre outros; ou o famosíssimo  “The Sting – A Golpada” (George Roy Hill, 1973). Com Paul Newman, Robert Redford. Entre estes dois, surge também “The Thomas Crown Affair – O Grande Mestre do Crime”, realizado em 1968 por Norman Jewison. Com Steve McQueen e Faye Dunaway.
   
Thomas Crown é um milionário e empresário de sucesso. Jovem, inteligente,  gosta de jogar Pólo e de fazer desportos radicais como voar de planador. Tem tudo para ser o mais feliz dos homens, mas quer sempre mais e, como tal, gosta de correr riscos. Quando não está na pele do empresário milionário, entretem-se a planear  assaltos a bancos cada vez mais audaciosos. Vickie Anderson, agente de seguros, é chamada para investigar o roubo de cerca de 2.000.000 de dólares num banco em plena luz do dia e  colaborar na investigação da polícia na tentativa de deslindar o assalto e assim receber uma percentagem do que for recuperado. Vickie vê em Thomas um possível envolvido no roubo e pretende prova-lo. Entre os dois começa então um jogo de gato e rato, do qual, independentemente, do resultado, só um é que pode sair vencedor.
   
O filme começa com uma série de múltiplas imagens no écran: uma cabine telefónica no écran superior direito, um dedo a marcar um número de telefone no écran abaixo e alguém a aguardar uma chamada telefónica algures. Ao longo de todo o início do filme estas imagens, mostrando uma mesma acção  a decorrer em diversos locais, darão o mote para o que se segue: quando Crown pousa o telefone, acontece o assalto e os dados estão lançados.
Esta técnica, de imagens múltiplas em vários écrans, tinha sido introduzida no ano anterior, nomeadamente no filme-documentário “A Place to Stand”,  escrito, realizado e montado por Christopher Chapman, que serviu para apresentar o estado do Ontário, na “Expo ‘67” que decorreu em Montreal , no Canadá e antes já tinha sido usada, num modo muito mais simplista, no filme “Grand Prix – Grande Prémio” (John Frankenheimer, 1966).
   
Norman Jewison e os dois protagonistas
Norman Jewison, depois do triunfo com  “In the Heat of the Night – No Calor da Noite”, que, no ano anterior, levara para casa o Oscar de Melhor Filme do Ano, entre outros prémios, queria fazer um filme diferente daquele. O realizador  foi um dos convidados para ver a ante-estreia do documentário de Chapman  e ficou entusiasmado  com aquela técnica inovadora. Algum tempo depois chegou-lhe ás mãos um argumento escrito por  Alan R. Trustman, Jewison achou-o adequado para utilizar aquela nova  técnica e chamou o director de fotografia Haskell Wexler e o editor Hal Ashby, que haviam trabalhado com o realizador no filme anterior, tendo este último sido vencedor dum  Oscar com “No Calor da Noite” e falou-lhes na sua ideia. Ambos aceitaram e a técnica foi incorporada depois do produto ter sido finalizado. Apesar da fotografia  inovadora  e a montagem primorosa, o filme não obteve o devido reconhecimento.
   
“It’s about me,  me and the System”, é assim que Thomas Crown justifica o puro prazer que lhe dava conceber assaltos cada vez mais arrojados. À luz dos dias de hoje é difícil conceber estas palavras ditas por qualquer outro actor que não fosse Steve McQueen, eterno galã da sétima arte e rei do “cool” que o imortalizara em produções anteriores como “Os  Sete Magnifícos” (John Sturges, 1960),; “ A Grande Evasão” (John Stuges, 1963); “O Aventureiro de Cincinnatti” (Norman Jewison, 1965) , entre outros, nem o haveria de perder em “Bullitt” (Peter Yates, 1968), que na altura ainda não estreara nos cinemas. Faye Dunaway interpreta Vickie Anderson , a agente de seguros que , mal  conhece Crown, inicia um jogo de gato e rato com o seu alvo que tem o seu momento mais alto na cena da famosa partida de xadrez que se transforma num autêntico jogo de sedução, brilhantemente montado (com o écran dividido em duas partes para mostrar ambas as personagens e suas reacções) e fotografada em tons quentes para apimentar  sedução. Dunaway foi uma segunda escolha já que inicialmente o papel seria para Eva Marie Saint, mas  como a primeira estava no topo da fama , pois no ano anterior participara em “Bonnie & Clyde” (Arthur Penn) e pareceu ser a escolha certa pois a actriz não teve qualquer problema em adaptar-se aquela personagem  duma beleza avassaladora, carregada de sensualidade, inteligência e pouco escrupulosa nos seus meios para alcançar os fins.
O xadrez como jogo de sedução
 
Tirando a quimíca quase perfeita entre os dois protagonistas que resulta dos brilhantes diálogos de um argumento bem escrito, ficamos com uma história bem contada, um constante jogo de perspicácias levadas a cabo por cada uma das partes   (bem patente na cena em que Vickie, por entre os inúmeros suspeitos possíveis, agarra na foto de Crown , olha-a profundamente e diz sem rodeios “That’s  the one!”),graças a uma realização estilizada de Norman Jewison que nunca deixa o o filme cair na monotonia ou na vulgaridade e cujo desfecho permanece um mistério até á última cena. Além da já citada cena do xadrez, um outro aspecto, muitas vezes ignorado pelo público, contribuiu para que este filme se viesse a tornar numa obra de culto ao longo das décadas: a excelência da banda sonora, da autoria de Michel Legrand adequadamente composta para criar todo o ambiente em que o filme decorre, além do famosíssimo tema “The Windmills of Your Mind”,  cantado por Noel Harrison, com o tom certo, ponderado e até algo frio para estar de acordo com o personagem de Steve McQueen. A canção, um dos mais belos temas que alguma vez se ouviu num filme, seria muito justamente premiado com o Oscar da Academia para Melhor Canção, um dos dois prémios para que o filme foi nomeado.
   Em 1999, foi feito um remake do filme, “O Caso Thomas Crown”, realizado por John McTiernan e com Pierce Brosnan e Rene Russo como protagonistas. Faye Dunaway faz um breve papel como psicanalista de Brosnan. Talvez devido ao mediatismo de Brosnan, que na altura interpretativa o papel de James Bond 007 no cinema, o filme foi um inesperado sucesso, apesar de não ter a frescura do original, acaba por ser um interessante filme de polícias e ladrões.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet







sábado, 27 de dezembro de 2014

Jack Ryan – Um “Techno-herói” para o Séc. XXI

 

    Não é tão charmoso como James Bond ou Dirk Pitt, nem desenrascado como McGyver, também não é azarado como John McLane, nem tão mortífero como Jack Bauer ou Jason Bourne. Ele é um pouco de todos eles e chama-se John Patrick Ryan, mais conhecido como Jack Ryan.
 
Os rostos de Jack Ryan no cinema (1990-2014)
Jack Ryan é uma personagem fictícia criada por Tom Clancy (1947-2013), antigo agente de seguros, apaixonado por história, particularmente história naval. Após obter  o seu grau universitário em Literatura Inglesa, em 1973, inscreveu-se no Centro de Treinos de Oficiais do Exército, mas foi excluído devido a um problema de visão que o obrigava a usar uns óculos semi-escuros.  Foi então trabalhar para a agência de seguros que fora fundada pelo avô da sua esposa.
No início de 1980 comprou a agência, continuando a trabalhar lá. Nas horas vagas aproveitava para escrever. Escreveu inúmeros livros de acção, sempre bem recheados de detalhes  militares (diz-se que tinha grande facilidade em aceder a informação secreta e classificada como tal) e tecnológicos, além de alguns livros-guia em que analisa profundamente alguma vida militar, como os Marines, os blindados, os submarinos, os Porta-Aviões, entre outros. Escreveu várias séries  como “NetForce”  e “Op-Center”, além de diversos livros em que entra a sua criação mais famosa de todas: o analista de dados da CIA, Jack Ryan.
  
   
A sua primeira aparição acontece no livro “The Hunt for Red October – Caça ao Outubro Vermelho”, primeiro livro escrito por Tom Clancy e publicado em 1984, mas, como se verá mais á frente, não será a primeira aventura de Ryan.
Nele, o então Analista de Dados da CIA, Jack Ryan,  descobre que Marko Ramius, o mais famoso comandante de submarino Soviético, pretende desertar, com os seus oficiais, para os Estados Unidos, a bordo do “Outubro Vermelho”, o submarino mais avançado do mundo. Ryan tem que convencer os seus superiores  que as intenções de Ramius são verdadeiras.
    O enorme sucesso literário que foi “Caça ao Outubro Vermelho”, permitiu que Tom Clancy se tornasse numa referência literária da américa dos anos 80, sendo-lhe frequentemente atribuida a paternidade de um novo género literário intitulado “TechnoThriller”. O livro foi a primeira obra de ficção publicada pelo Instituto Naval Americano e também a sua obra mais popular.
Ao longo do livro, extremamente bem escrito,  com pormenores técnicos interessantes e momentos cheios de tensão e suspense, percebemos que Jack Ryan teve um passado aventuroso antes de ser recrutado pela CIA e pelo Almirante James Greer.  Passado esse que iremos conhecer, assim como o seu presente e futuro, nas obras subsequentes de  Clancy.
   Os antecedentes de Ryan são apresentados em “Patriot Games” e  continuam em “Red Rabbit”:  Nascido em 1950, estudou na escola preparatória de Loyola,  em Towson do estado de Maryland. Inscreveu-se na universidade de Boston onde foi Bacharel em Economia e Artes (com uma nota fraca em História).  Enquanto aguardava a incorporação nos Marines, passou no Exame de Certificação de Contabilidade Pública.
Depois de fazer o curso básico de Oficial na Base Militar de Quantico, graduando-se como Segundo-Tenente, foi comandar um pelotão, mas foi-o por pouco tempo, já que, durante um exercicio militar das forças da NATO, o helicóptero onde seguia com os seus homens, despenhou-se ao largo da ilha de Creta, ferindo-o gravemente nas costas, apesar dos inúmeros esforços cirúrgicos dos médicos militares, ficou com uma lesão permanente que o levou a abandoner a carreira militar e, graças ao seu grau em Contabilidade, propôs-se a exame para Bolsista,  passou  e tornou-se especulador na firma Merrill Lynch, sediada em Baltimore.
Após quatro anos a trabalhar e fazer uma fortuna avaliada em cerca de 8.000.000 de dólares, Ryan abandonou a firma e inscreveu-se na Universidade de Georgetown para se doutorar em História. Depois de fazer o seu estágio, aceitou o lugar de professor de história na Academia Naval Americana. A partir deste momento na sua vida, começam as aventuras de Jack Ryan. Cronologicamente, decorrem como se segue e é assim que deverão ser lidas:
    Em “Patriot Games” (1987), Durante uma viagem  de férias e também de alguma pesquisa para as suas aulas, Ryan testemunha uma tentativa de assassinato ao Princípe de Gales levada a cabo por membros do Exército de Libertação do Ulster. Intervindo rapidamente, ele salva a vida ao menbro da familia Real, ao matar um dos terroristas e fazendo  prisioneiro um outro. Por ter salvo a vida ao princípe, Ryan é feito Cavaleiro pela Rainha Isabel II e quando regressa aos Estados Unidos, é convidado a integrar os quadros da CIA como Analista de Dados na procura de terroristas internacionais. Ele inicialmente recusa, mas depois de um ataque fracassado, levado a cabo pelo ULA (Ulster Liberation Army), á sua família, na qual a sua mulher Caroline e a sua filha, Sally, ficam seriamente feridas e em perigo de vida. Resolvido esse incidente  que termina com a prisão de membros do grupo, Ryan aceita o cargo e é colocado em Londres como membro de ligação entre a CIA e os Serviços Secretos Britânicos.
   
Em “Red Rabbit” (2002),  Ryan, ainda colocado em londres, tem como missão ajudar um Oficial de Comunicações e sua familia a desertar para o ocidente . O Oficial de Comunicações descobriu que o director do KGB ordenou o assassinato do Papa João Paulo II. Ryan e um pequeno grupo de agentes secretos conseguem salvar “O Coelho”  e a sua família, mas falham o “timing” para impedir a tentativa de assassinar o Papa, apesar deste ficar só ferido,  o seu assassino é capturado. A deserção do “Coelho” para o ocidente acaba por ser extremamente útil aos americanos e ingleses, pelas  informações que trazia consigo e, á luz dessas informações, Ryan acabará por sugerir uma solução não-militar para apressar o colapso da União Soviética.
   Em “The Hunt for Red October – A Caça ao Outubro Vermelho” (1984), Ryan, que ainda está em Londres, já é analista de dados, viaja até langley, na virgínia para entregar umas fotografias ao Almirante Greer, de um novo protótipo de submarino soviético que lhe chegaram ás mãos e, após falar com alguns amigos, desconfia que as intenções do comandante do submarino é desertar para o ocidente com o novo protótipo, o “Outubro Vermelho”, e vai tentar ajudar o militar a desertar, mas, para isso, terá que convencer os seus superiores de que são essas as suas intenções. Por ter sido o primeiro livro da série, algumas personagens, além de Jack Ryan, aparecerão em muitas obras seguintes, nesta série e noutras, ligadas entre si. 
   
   “The Cardinal of the Kremlin – O Cardeal do Kremlin” (1988), Jack Ryan é colocado em Langley, na Virgínia e torna-se assistente do almirante Greer com o título oficial de Assistente Especial do Director-Adjunto de Espionagem. Percebe-se que o almirante o está a preparar para altos cargos dentro da CIA. Ryan é então enviado a Moscovo integrado num grupo estratégico que vai tentar negociar a redução das armas nucleares. Fica então a saber que um agente da CIA infiltrado na união soviética e cujo nome de código é “Cardeal” é o coronel Mikhail Semyonovich Filitov,  o adjunto do Ministro da Defesa Soviético e herói nacional, que, para se vingar da morte da mulher e dois filhos ao serviço do exército vermelho,  à muitos anos passa segredos políticos e militares para o ocidente. No decorrer das conversações, Ryan conhece Sergey Golovko, um agente em ascensão dentro da hierarquia do KGB e entre os dois estabelece-se uma relação de amizade (que se fortalecerá em livros subsequentes) e mútuo respeito. Será este agente quem irá ajudar Ryan a planear a deserção de Filitov para os Estados Unidos quando a sua identidade é descoberta pelo KGB e a sua vida posta em risco.
O livro é uma sequela de “Caça ao Outubro Vermelho” já que explica qual foi o destino do submarino russo: este foi despido de toda a tecnologia revolucionária que trazia consigo e foi afundado numa fossa ao largo de Puerto Rico para evitar ser encontrado e recuperado. Jack Ryan e Marko Ramius são as únicas testemunhas que presenciaram o facto.
   Já “Clear and Present Danger” (1989) , apresenta-nos Jack Ryan promovido a Director-Adjunto interino da CIA porque o Almirante Greer foi internado com um cancro numa fase quase terminal. Apesar da posição que tem dentro da organização, Ryan desconhece que a CIA e o governo americano financiam uma guerra contra os cartéis da droga na Colômbia. Após a descoberta, pela guarda costeira americana, de um iate de recreio cujo dono e sua família, foram mortos por assassinos envolvidos em esquema de lavagem de dinheiro de droga, o presidente dos estados unidos, em ano eleitoral e a concorrer para a re-eleição, manda tomar medidas drásticas contra os cartéis da droga. Ryan, ao tomar conhecimento destes acontecimentos e ao deparar-se com uma barreira de silêncio com os seus superiores, junta-se ao FBI e viaja até á Colômbia para tentar saber o que se passa.
   Em “The Sum of All Fears” (1991),  Jack Ryan atinge a posição  mais alta dentro da CIA: é confirmado como Director –Adjunto do Director. A sua nova carreira corre perigo quando Rober J.Fowler, ex-governador do Ohio e antigo candidato a Presidente dos Estados Unidos, se torna Presidente e Elizabeth Elliott, antiga conselheira dos Negócios Estrangeiros, é promovida a Conselheira para a Segurança Nacional. Ambos tiveram confrontos com Jack no passado e estão apostados em dificultar-lhe a vida e isso fica provado quando não lhe é dado crédito nenhum pelo seu plano inovador de paz no Médio Oriente.
Quando uma bomba nuclear é detonada em Denver durante a “Super Bowl” atirando o mundo para uma quase guerra nuclear,  é Ryan que, arriscando tudo aquilo que tem, tenta resolver a crise provando que tudo aquilo não passa de um esquema montado para o desacreditar.  Ao recusar confirmar uma ordem presidencial  para lançar mísseis nucleares contra Qom, uma cidade do médio oriente, Jack retira-se da CIA, não sem antes destruir o Presidente Fowler.
   
Com “Debt of Honor” (1994),  a série atinge o seu climax, do qual nunca mais se libertará e obriga Tom Clancy a aperfeiçoar cada vez  a sua personagem e a dar mais espaço de manobra a outras personagens que até então eram secundárias.
Passaram-se dois anos desde que Jack Ryan se retirou da CIA e que Robert J.Fowler se demitiu da presidência e o seu então Vice-Presidente, Roger Durling, cumpre o mandato para que foi legitimamente eleito. Ryan regressa ao serviço do governo, agora como Conselheiro para a Segurança Nacional.
A Administração e Jack Ryan vão ter que se confrontar com uma segunda guerra contra o Japão, cujo governo é controlado por uma série de magnatas conhecidos como “Zaibatsu” assim como com um ataque ás infraestruturas económicas dos Estados Unidos. Depois duma limpeza ás forças japonesas no pacífico sul, o vice-presidente dos estados unidos,  Ed Kealty, é obrigado a demitar-se das suas funções devido a um escândalo sexual em que está envolvido. O presidente convida Ryan para o lugar, este aceita na condição de que apenas o fará enquanto durar o mandato presidencial de Durling. É uma maneira de Ryan encerrar a sua vida pública ao serviço dos Estados Unidos e ir finalmente dedicar-se á família e às suas aulas de história na Academia Naval Americana.
Mas, inesperadamente, minutos após Jack Ryan ser confirmado no cargo, um piloto japonês, deliberadamente, atira um 747 contra o Capitólio, durante a sessão do Congresso, matando quase toda a gente lá dentro, incluindo o presidente, quase todo o Congresso, membros do Supremo Tribunal, e quase todo o governo federal. Sobrevive um Jack Ryan que, atónito, se vê elevado á presidência dos Estados Unidos da América.
    “Executive Orders” (1996) é a sequela directa de “Debt of Honor” já que, a seguir á dramática conclusão dos acontecimentos, um relutante, mas determinado Jack Ryan, ajuramentado Presidente dos Estados Unidos,  tenta reconstruir o governo americano. Com praticamente todos os elementos executivos, legislativos e judiciais mortos, Ryan é o único poder que representa os Estados Unidos e vai ter defrontar-se com diversas dificuldade e crises enquanto tenta reconstruir o governo e o senado; além de ter de enfrentar os truques políticos com que o ex-vice-presidente Ed Kealty desafia a legitimidade de Ryan no cargo, ainda tem de se confrontar com uma ameaça militar levada a cabo pela china contra  Taiwan e  uma devastadora praga iniciada no Médio Oriente, cujas consequências atingirão os Estados Unidos e o Presidente Ryan tem  de declarar a Lei Marcial em todo o país.
   Em “The Bear and the Dragon” (2000),  Jack Ryan completou, como Presidente, o mandato que pertencera a Roger Durling, faz campanha para – e ganha – a eleição seguinte. Mantém a maior parte dos membros que haviam pertencido ao seu gabinete de emergência,  nomeia Robby Jackson, o primeiro afro-americano, como Vice-Presidente, enquanto tenta arrumar a casa.
Em Moscovo, Sergey Golovko, presidente do Gabinete dos Serviços Estrangeiros (antigo KGB) e amigo do presidente Ryan, é vítima dum atentado do qual, graças ao seu instinto de sobrevivência e da rápida actuação do seu motorista. Ele escapa miraculosamente. 
Algumas semanas depois, em Pequim, uma equipa de reportagem da CNN filma o assassinato do representante do Papa e de um dos seus Bispos, perpretado pelas autoridades chinesas. A comunidade internacional reprova o crime e são impostas sanções económicas á china. Com a economia de restos, devido ás recentes expansões militares contra Taiwan, a china planeia invadir e anexar a Sibéria para tomar posse de lençóis de petróleo e minas de ouro recém-descobertas. Com a escalada de violência  subir cada vez mais de tom, o presidente Ryan convence a NATO a aceitar a Rússia como membro e promete ajuda á Rússia na luta contra o imperialismo chinês, cujos líderes, em desespero, activam os misseis ICBM para os lançar sobre Moscovo, Washington D.C. e toda a comunidade ocidental. Será uma operação especial conjunta entre a Nato e a Rússia que irá pôr termo ás pretensões chinesas e, com a ajuda de estudantes chineses, derrubará o governo, pondo termo ao comunismo no país que irá iniciar a sua transição para a democracia.
   
Tom Clancy
Paralelamente á série principal, Tom Clancy escreveu outros livros, ligados por pequenos acontecimentos e/ou personagens que, apesar de alguma secundarização na série principal onde contribuíam de alguma forma para o desenvolvimento da acção, viriam a ter um desempenho próprio noutros livros e noutras séries.  Assim nasceu a série de John Clark, um operacional da CIA a quem Ryan recorre diversas vezes para resolver algumas situações pontuais, composta pelos livros “Without Remorse” (1993) e “Rainbow Six” (1998); e a série Jack Ryan, Jr, em que o filho do antigo analista de dados da CIA e actual presidente dos estados unidos vai fazer a sua aprendizagem no “Campus”, um campo militar privado secreto  situado num meio termo entre a CIA e a Agência Nacional de Segurança cujos fundos são geridos pela “Hendley & Associates” sob a forma de acções de mercado.
È constituída pelos livros “The Teeth of the Tiger” (2003); “Dead or Alive” (2010); “Locked On” (2011); “Threat Vector” (2012); “Command Authority” (2013); “Support and Defend” (Mark Greaney, 2014); “Full Force and Effect” (Mark Greaney, 2014).
    Tom Clancy faleceu em outubro de 2013  e o último livro que escreveu, em parceria com Mark Greaney, foi “Command Authority”, postumamente, publicado em dezembro desse ano.

                                                         

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Rumble Fish – Juventude Inquieta


   
Que Francis “Ford” Coppola era um nome incontornável na história da Sétima Arte, já se sabia, que era um visionário que andava sempre alguns anos há frente da indústria, também já se sabia e que por causa dessa sua visão futurista, afundou a sua produtora, viu fecharem-se-lhe portas de outros estúdios, teve de trabalhar quase de graça a fazer “filmes-encomenda” para poder recuperar do grande fiasco financeiro que foi “One From the Heart – Do Fundo do Coração” (1981), o filme mais pessoal e visionário da sua longa carreira e que foi um dos responsáveis por uma nova geração de actores e actrizes que viriam a marcar o cinema nas últimas décadas do século XX. Decisivos, não só na responsabilidade que tiveram em mostrar os novos talentos emergentes, como também na carreira do realizador, foram os “filmes encomenda” “The  Outsiders – Os Marginais” (1983) e “Rumble Fish – Juventude Inquieta” (1983) que realizou.
   
O filme passa-se algures na década de 50, na cidade de Tulsa, no Oklahoma e centra-se na relação entre dois irmãos. Um, “Motorcycle Boy”, chefe de gang, referenciado pelas autoridades e pelos jovens, que, depois de regressar duma viagem, pretende viver uma vida mais calma e pacifica. O outro, mais novo, é “Rusty James”, exaltado e delinquente, idolatra o irmão e aspira ser tão temido como ele.
S.E.Hinton, Matt Dillon e Mickey Rourke
    Coppola sentiu-se atraído para o romance de S:E. Hinton (de quem já adaptara para o cinema “Os Marginais”) por causa da identificação pessoal - um irmão mais novo que idolatra um irmão mais velho e mais inteligente - que encontrou em “Rumble Fish” – que espelhava bem o seu relacionamento com August, irmão mais velho do realizador (a quem dedica o filme  e cuja dedicatória aparece como último crédito no genérico final). Coppola e Hinton escreviam o argumento nos dias de folga da rodagem de “Os Marginais”. Sensivelmente a meio da rodagem foi quando o realizador decidiu que queria usar a maior parte da equipa de rodagem, alguns actores e actrizes, permanecer em Tulsa e rodar “Rumble Fish” logo a seguir.
A Warner Bros. Não ficou satisfeita com a versão final de “Os Marginais” e retirou-lhe cenas, (que seriam depois incluídas na versão do realizador de 2005), remontou o filme e estreou-o no circuito comercial e recusou financiar e distribuir “Rumble Fish”.  Apesar de não ter financiamento, Coppola não recuou e, durante duas semanas de ensaios, gravou a maior parte do filme em vídeo e mostrou essa versão ás equipas técnica e artística. Em julho de 1982, com a rodagem a decorrer há seis semanas, Coppola assinou um contrato com a Universal Studios que lhe assegurou o financiamento e a distribuição comercial do filme. A rodagem continuou até meio de setembro desse ano e, pela primeira vez em muitos anos, dentro do orçamento e do prazo.
   
Para o elenco, Coppola trouxe Matt Dillon e Diane Lane, que já vinham de “Os Marginais”. O primeiro é Russell James, conhecido como “Rusty James”, sonha com o tempo em que existiam gangs que dominavam as ruas. Dillon  tem uma interpretação ao nível da que tivera no filme anterior onde interpretava Dallas Winston, um jovem marginal que queria manter os amigos fora daquele mundo. A segunda é Patty, namorada de Rusty, que tenta trazê-lo para a realidade existente e não aquela com que ele sonha. A bonita actriz, que em “Os Marginais” interpretara Cherry Valance, uma “Soc” (menina rica), que se apaixonava pelo “Greaser”  Pony Boy Curtis. Em “Rumble Fish”, mostra que tem talento e a sua interpretação justifica porque é que viera a tornar-se uma das actrizes preferidas de Francis“Ford”Coppola.
   
Aos dois junta-se Mickey Rourke, como “Motorcycle Boy”, uma personagem carismática, idolatrado pelo irmão e odiado pelo chefe da polícia. O actor, ainda no princípio daquela que se julgava vir a ser uma promissora carreira, está á altura da responsabilidade que carrega ao longo do filme.  Os seus maneirismos, tanto a falar como a agir, transmitem uma sensação de calma aparente ao longo de todo o filme, mas que sabemos não existir. Pertence-lhe a ele a melhor fala de todo o filme na cena em que conta ao irmão como foi a sua viagem á califórnia, a dado momento, Rusty, pergunta-lhe se ele viu o mar. Ele responde que não. O irmão pergunta porquê e ele responde que a califórnia se meteu pelo meio. É um diálogo absolutamente fascinante, este, assim como aquele em que “Motorcycle Boy” resolve ir libertar os peixes siameses-lutadores alegando que eles se comportariam de maneira diferente se estivessem no rio, livres, o que acabará por causar a sua desgraça. Ainda no elenco salientam-se as interpretações de Dennis Hooper, Nicholas Cage, Christopher Penn, Laurence Fishburne, Tom Waits, William Smith e Sofia Coppola e S.E.Hinton, a autora do livro, numa breve aparição, tal como já fizera em “Os Marginais, no papel da prostituta que interpela Steve (Vincent Spano) na rua, quando os três se vão divertir para a cidade.
   
Durante a pré-produção, Coppola perguntou a Stephen H. Burum, o director de fotografia, que também já trabalhara em “Os Marginais”, como é que ele queria fazer o filme e ambos concordaram que se queriam fazer um filme a preto-e-branco, aquela era, talvez, a única possibilidade de o fazer.
O filme torna-se notável pelo seu estilo “Avant-garde”, admiravelmente filmado a preto-e-branco, usando uma composição cinematográfica que alude á “Nouvelle Vague” francesa dos anos 60, ao preto-e-branco usado por Orson Wells nos seus filmes como realizador e ao cinema alemão expressionista dos anos 20, como se pode perceber pelo uso extensivo de ângulos oblíquos, composições exageradas e uma abundância de fumo e nevoeiro. O realizador quis aproveitar a cidade de Tulsa, e as zonas suburbiais desertas da cidade, filmou muitas vezes de câmara na mão para transmitir ás audiências uma sensação de desconforto. Também mandou pintar sombras nas paredes dos sets de modo a dar-lhes um toque ameaçador.
   
   
No filme, as personagens encontram-se, lutam, falam, namoram, bebem e, por vezes, morrem. Tudo isto é tratado de um modo estilizado como só Coppola poderia fazer e isso fica demonstrado em duas cenas: A cena do sonho da morte de Rusty James em que este sai do seu corpo e flutua sobre a cidade enquanto escuta o que dizem  sobre si; a outra cena é aquela em que os dois irmãos estão na loja dos animais de estimação a conversar enquanto olham para um aquário onde vêem dois peixes siameses-lutadores coloridos a lutar (o “Rumble Fish” que dá título ao filme). Para misturar a fotografia a preto-e-branco com as imagens coloridas, Stephen H.Burum filmou os actores a preto-e-branco, depois projectou as suas imagens num écran, puseram o aquário com os peixes em frente do projector e filmaram tudo a cores. A  hábil montagem  de Barry  Malkin, colaborador habitual do realizador, encarregou-se do resto. Se se ver bem esta cena, percebe-se o simbolismo que Coppola quis demonstrar com ela: as cores da bandeira americana (um peixe é azul, o outro é vermelho), o ambiente da adolescência e segurança (representado pelo aquário), depois, ao longo da cena, vem a vontade de lutar e de afirmação e o perigo que acontece se somos retirados do nosso meio ambiente. Peixes siameses-lutadores que substituem os jovens. Original e resulta.
    A passagem do tempo, que acontece mais rápido do que as personagens se apercebem, é-nos dada através da fotografia em movimento de nuvens no céu  e de inúmeros relógios. foi inspirada no documentário “Koyaanisqatsi” (Godfrey Reggio, 1982) que Coppola produziu. A fotografia a preto-e-branco também serve para mostrar como o daltónico “Motorcycle Boy” vê  o mundo que o rodeia.
Quando estreou, “Rumble Fish – Juventude Inquieta”, foi um fracasso de bilheteira. Dos 10.000.000 de dólares investidos, o filme fez pouco mais do que 2.500.000 de dólares nos estados unidos. Na europa, principalmente em frança, onde o realizador é admirado, o filme foi um grande sucesso. Apesar de ter dividido a crítica, com uma parte dela a elogiar a obra e o realizador e outra parte a arrasar o filme e a criticar o estilo utilizado por Coppola  em material tão banal. Nada disto abalou o realizador que tem o filme como um dos seus favoritos e foi premiado no Festival de Cinema de San Sebastian onde ganhou os dois prémios mais importantes. Ao longo do tempo “Rumble Fish”,  tem sido  apesentado como um filme revolucionário em termos de estilo e técnica, que só em anos recentes tem sido compreendido  e  ganhou, desde então, um novo estatuto e é hoje tido como um filme de culto.
   
Francis “Ford” Coppola considerou “Rumble Fish – Juventude Inquieta” um filme de arte para adolescentes, passível de ter ou não impacto entre os jovens. Fácil de se detestar por não mostrar a temática como habitualmente a vemos; ou fácil de se adorar se formos atrás do charme que emana do trabalho experimental e  estilizado que exibe, montado sobre uma história de delinquência e bandos de rua, “Rumble-Fish” acaba por ser um filme excêntrico, ousado e original. Quem, senão Coppola, poderia fazer este filme? Ou melhor, quem, senão Coppola, quereria fazer um filme assim?

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet.











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