O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Que Francis
“Ford” Coppola era um nome incontornável na história da Sétima Arte, já se
sabia, que era um visionário que andava sempre alguns anos há frente da
indústria, também já se sabia e que por causa dessa sua visão futurista,
afundou a sua produtora, viu fecharem-se-lhe portas de outros estúdios, teve de
trabalhar quase de graça a fazer “filmes-encomenda” para poder recuperar do
grande fiasco financeiro que foi “One From the Heart – Do Fundo do Coração”
(1981), o filme mais pessoal e visionário da sua longa carreira e que foi um
dos responsáveis por uma nova geração de actores e actrizes que viriam a marcar
o cinema nas últimas décadas do século XX. Decisivos, não só na responsabilidade
que tiveram em mostrar os novos talentos emergentes, como também na carreira do
realizador, foram os “filmes encomenda” “TheOutsiders – Os Marginais” (1983) e “Rumble Fish – Juventude Inquieta”
(1983) que realizou.
O filme
passa-se algures na década de 50, na cidade de Tulsa, no Oklahoma e centra-se
na relação entre dois irmãos. Um, “Motorcycle Boy”, chefe de gang, referenciado
pelas autoridades e pelos jovens, que, depois de regressar duma viagem,
pretende viver uma vida mais calma e pacifica. O outro, mais novo, é “Rusty
James”, exaltado e delinquente, idolatra o irmão e aspira ser tão temido como ele.
S.E.Hinton, Matt Dillon e Mickey Rourke
Coppola
sentiu-se atraído para o romance de S:E. Hinton (de quem já adaptara para o
cinema “Os Marginais”) por causa da identificação pessoal - um irmão mais novo
que idolatra um irmão mais velho e mais inteligente - que encontrou em “Rumble
Fish” – que espelhava bem o seu relacionamento com August, irmão mais velho do
realizador (a quem dedica o filmee cuja
dedicatória aparece como último crédito no genérico final). Coppola e Hinton
escreviam o argumento nos dias de folga da rodagem de “Os Marginais”.
Sensivelmente a meio da rodagem foi quando o realizador decidiu que queria usar
a maior parte da equipa de rodagem, alguns actores e actrizes, permanecer em
Tulsa e rodar “Rumble Fish” logo a seguir.
A Warner
Bros. Não ficou satisfeita com a versão final de “Os Marginais” e retirou-lhe
cenas, (que seriam depois incluídas na versão do realizador de 2005), remontou
o filme e estreou-o no circuito comercial e recusou financiar e distribuir
“Rumble Fish”.Apesar de não ter
financiamento, Coppola não recuou e, durante duas semanas de ensaios, gravou a
maior parte do filme em vídeo e mostrou essa versão ás equipas técnica e
artística. Em julho de 1982, com a rodagem a decorrer há seis semanas, Coppola
assinou um contrato com a Universal Studios que lhe assegurou o financiamento e
a distribuição comercial do filme. A rodagem continuou até meio de setembro
desse ano e, pela primeira vez em muitos anos, dentro do orçamento e do prazo.
Para o
elenco, Coppola trouxe Matt Dillon e Diane Lane, que já vinham de “Os
Marginais”. O primeiro é Russell James, conhecido como “Rusty James”, sonha com
o tempo em que existiam gangs que dominavam as ruas. Dillontem uma interpretação ao nível da que tivera
no filme anterior onde interpretava Dallas Winston, um jovem marginal que
queria manter os amigos fora daquele mundo. A segunda é Patty, namorada de
Rusty, que tenta trazê-lo para a realidade existente e não aquela com que ele
sonha. A bonita actriz, que em “Os Marginais” interpretara Cherry Valance, uma
“Soc” (menina rica), que se apaixonava pelo “Greaser”Pony Boy Curtis. Em “Rumble Fish”, mostra que
tem talento e a sua interpretação justifica porque é que viera a tornar-se uma
das actrizes preferidas de Francis“Ford”Coppola.
Aos dois
junta-se Mickey Rourke, como “Motorcycle Boy”, uma personagem carismática,
idolatrado pelo irmão e odiado pelo chefe da polícia. O actor, ainda no
princípio daquela que se julgava vir a ser uma promissora carreira, está á
altura da responsabilidade que carrega ao longo do filme. Os seus maneirismos, tanto a falar como a
agir, transmitem uma sensação de calma aparente ao longo de todo o filme, mas
que sabemos não existir. Pertence-lhe a ele a melhor fala de todo o filme na
cena em que conta ao irmão como foi a sua viagem á califórnia, a dado momento,
Rusty, pergunta-lhe se ele viu o mar. Ele responde que não. O irmão pergunta
porquê e ele responde que a califórnia se meteu pelo meio. É um diálogo
absolutamente fascinante, este, assim como aquele em que “Motorcycle Boy”
resolve ir libertar os peixes siameses-lutadores alegando que eles se
comportariam de maneira diferente se estivessem no rio, livres, o que acabará
por causar a sua desgraça. Ainda no elenco salientam-se as interpretações de
Dennis Hooper, Nicholas Cage, Christopher Penn, Laurence Fishburne, Tom Waits,
William Smith e Sofia Coppola e S.E.Hinton, a autora do livro, numa breve
aparição, tal como já fizera em “Os Marginais, no papel da prostituta que
interpela Steve (Vincent Spano) na rua, quando os três se vão divertir para a
cidade.
Durante a
pré-produção, Coppola perguntou a Stephen H. Burum, o director de fotografia, que
também já trabalhara em “Os Marginais”, como é que ele queria fazer o filme e
ambos concordaram que se queriam fazer um filme a preto-e-branco, aquela era,
talvez, a única possibilidade de o fazer.
O filme
torna-se notável pelo seu estilo “Avant-garde”, admiravelmente filmado a
preto-e-branco, usando uma composição cinematográfica que alude á “Nouvelle
Vague” francesa dos anos 60, ao preto-e-branco usado por Orson Wells nos seus
filmes como realizador e ao cinema alemão expressionista dos anos 20, como se
pode perceber pelo uso extensivo de ângulos oblíquos, composições exageradas e
uma abundância de fumo e nevoeiro. O realizador quis aproveitar a cidade de
Tulsa, e as zonas suburbiais desertas da cidade, filmou muitas vezes de câmara
na mão para transmitir ás audiências uma sensação de desconforto. Também mandou
pintar sombras nas paredes dos sets de modo a dar-lhes um toque ameaçador.
No filme, as
personagens encontram-se, lutam, falam, namoram, bebem e, por vezes, morrem.
Tudo isto é tratado de um modo estilizado como só Coppola poderia fazer e isso
fica demonstrado em duas cenas: A cena do sonho da morte de Rusty James em que
este sai do seu corpo e flutua sobre a cidade enquanto escuta o que dizem sobre si; a outra cena é aquela em que os dois
irmãos estão na loja dos animais de estimação a conversar enquanto olham para um
aquário onde vêem dois peixes siameses-lutadores coloridos a lutar (o “Rumble
Fish” que dá título ao filme). Para misturar a fotografia a preto-e-branco com
as imagens coloridas, Stephen H.Burum filmou os actores a preto-e-branco,
depois projectou as suas imagens num écran, puseram o aquário com os peixes em
frente do projector e filmaram tudo a cores. Ahábil montagemde BarryMalkin, colaborador habitual do realizador,
encarregou-se do resto. Se se ver bem esta cena, percebe-se o simbolismo que
Coppola quis demonstrar com ela: as cores da bandeira americana (um peixe é
azul, o outro é vermelho), o ambiente da adolescência e segurança (representado
pelo aquário), depois, ao longo da cena, vem a vontade de lutar e de afirmação
e o perigo que acontece se somos retirados do nosso meio ambiente. Peixes siameses-lutadores
que substituem os jovens. Original e resulta.
A passagem
do tempo, que acontece mais rápido do que as personagens se apercebem, é-nos
dada através da fotografia em movimento de nuvens no céu e de inúmeros relógios. foi inspirada no
documentário “Koyaanisqatsi” (Godfrey Reggio, 1982) que Coppola produziu. A
fotografia a preto-e-branco também serve para mostrar como o daltónico “Motorcycle
Boy” vêo mundo que o rodeia.
Quando
estreou, “Rumble Fish – Juventude Inquieta”, foi um fracasso de bilheteira. Dos
10.000.000 de dólares investidos, o filme fez pouco mais do que 2.500.000 de
dólares nos estados unidos. Na europa, principalmente em frança, onde o
realizador é admirado, o filme foi um grande sucesso. Apesar de ter dividido a
crítica, com uma parte dela a elogiar a obra e o realizador e outra parte a
arrasar o filme e a criticar o estilo utilizado por Coppola em material tão banal. Nada disto abalou o
realizador que tem o filme como um dos seus favoritos e foi premiado no
Festival de Cinema de San Sebastian onde ganhou os dois prémios mais
importantes. Ao longo do tempo “Rumble Fish”,tem sidoapesentado como um filme
revolucionário em termos de estilo e técnica, que só em anos recentes tem sido
compreendidoeganhou, desde então, um novo estatuto e é
hoje tido como um filme de culto.
Francis
“Ford” Coppola considerou “Rumble Fish – Juventude Inquieta” um filme de arte
para adolescentes, passível de ter ou não impacto entre os jovens. Fácil de se
detestar por não mostrar a temática como habitualmente a vemos; ou fácil de se
adorar se formos atrás do charme que emana do trabalho experimental eestilizado que exibe, montado sobre uma
história de delinquência e bandos de rua, “Rumble-Fish” acaba por ser um filme
excêntrico, ousado e original. Quem, senão Coppola, poderia fazer este filme?
Ou melhor, quem, senão Coppola, quereria fazer um filme assim?
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet.
Há algum tempo atrás, num artigo que
escrevi dedicado ao chamado Rock Progressivo, cujo boom aconteceu em meados da
década de 70 do século passado, mencionei o nome de Stomu Yamashta, músico e
compositor de origem japonesa que, em meados dessa década gloriosa em termos
musicais, veio gravar ao ocidente com músicos europeus uma série de álbuns, a
que chamou “projecto Go”, que ainda hoje são considerados como sendo dos
expoentes máximos do rock progressivo e a sua mistura com Jazz, Jazz-fusão e Funky.
Stomu Yamashta nasceu em Kyoto, no japão.
Estudou música na universidade de Kyoto e também nas escolas de música em
Juilliard, Nova York e Berklee, em Boston e também deu aulas de música.
Percussionista, teclista e compositor, Yamashta foi, desde muito novo,
reconhecido internacionalmente pelo seu estilo de percussão inovador e acrobata
que lhe mereceram inúmeros prémios e
citações dentro da música. Em 1969 ganhou reconhecimento internacional ao tocar
com o maestro Seiji Ozawa (hoje é o diretor da Ópera Estatal de Viena) e com a
Orquestra Sinfónica de Chicago. A sua interpretação dos temas foi tão virtuosa
e intensa que, no final do concerto, foi aplaudido de pé durante mais de cinco
minutos.
Ao longo da década de 70, continuou a ser
muito solicitado, quer no seu país natal, quer fora dele. Trabalhou com Peter
Maxwell Davies, compositor e maestro britânico em algumas das sua bandas
sonoras para filmes e séries de televisão. Foi nomeado diretor musical dacompanhia de teatroRed Buddha e conseguiu trazê-la até á europa
para trabalhar em vários espectáculos de multimedia intitulados “The Man From
the East”, com música composta e interpretada por ele e ainda conseguiu
colaborar com Morris Pert, percussionista britânico no espectáculo “Come to the
Edge”. Compôs temas musicais para a Real Companhia de Ballet Britânica,
participou em diversas bandas sonoras de filmes como “The Man who Fell to Earth
– O Homem que veio do Espaço” (Nicholas Roeg, 1976) com David Bowie; ou “The
Devils” (Ken Russell, 1971) ou ainda “Images” (Robert Altman, 1972). A meio da
década, Yamashta começou a aspirar a vôos ainda mais altos. Desde novo que
tinha um gosto especial pelo jazz e foi precisamente nesse género que ele se
iria popularizar daí para a frente ao conseguir, na perfeição, fundi-lo
com“funky” e “rock sinfónico” criando um
estilo que dali para a frente seria conhecido como “funky-jazz” ou “jazz-fusão”.
Em 1976, Stomu Yamashta anunciou a sua
vontade de criar música a partir duma enorme variedade de influências, desde
música moderna (clássica, entenda-se) a rock, passando pelo jazz e até pela
música electrónica,para isso queria ter
consigo um supergrupo musical que lhe permitisse fazer uma espécie de “clássico
pop gigante”.
A ideia pegou e tomou forma, pois vieram
músicos de todo o mundo: japão, Alemanha, Inglaterra,américa. A Yamashta, juntaram-se, logo desde
o princípio, Steve Winwood (ex-Traffic, ex-Spencer Davis Group e ex-Blind Faith)
e Michael Shrieve (The Santana Band) e os três desenvolveram ideias que iriam
formar a base daquele projecto musical ainda sem nome mas que seria certamente
um álbum conceptual. Queriam fazer a diferença em relação a alguns nomes
musicais sonantes: Pink Floyd, Yes, Genesis, Tangerine Dream, Weather Report ou
Mike Oldfield, mas na certeza, porém, de que todos eles iriam influenciar de
alguma maneira o conteúdo musical do álbum.
O jogo que inspirou Stomu Yamashta
Existe no oriente um jogo muitofamoso, oriundo da china antiga há cerca de
2500 anos, chamado “Go” que se joga num tabuleiro, entre dois jogadores.
Basicamente a ideia érodear com o maior
número de peças possívelas zonas do
adversário e impedi-lo de fazer o mesmo, antes do final do jogo. É uma espécie
de xadrez, com menos regras, mas muito mais antigo e que envolve questões
filosóficas e estratégicas entre os dois jogadores e permite um vastíssimo
número de possibilidades e jogos.Stomu
Yamashta viu a possibilidade de, através de números musicais abstractos,
desenvolver uma história de fantasia e realidade,morte e re-nascimento, coisas que trocam para
os seus opostos.“Existem mudanças a
acontecer, estamos sempre em constante evolução” terá dito o músico aos seus
dois companheiros quando lhes apresentou o projecto agora intitulado “Go” .
Os "mentores" de "Go"
Com o projecto na mão, os três dedicaram-se
a recrutaroutros talentos igualmente
interessados em fazer a diferença e não tardaram a encontrá-los: Klaus Schulze
(ex-Tangerine Dream e ex-Ash Ra Tempel);Al DiMeola (ex-Return to Forever); Rosko Gee (ex-Traffic); Pat Thrall
(ex-Pat Travers Band); John McLaughlin (Mahavishnu Orchestra, não creditado no
álbum apesar de ter tocado em alguns temas e ter ajudado na produção) e outros
talentos musicais oriundos de outros géneros mas com igual vontade de fazer
parte daquele projecto aliciante. A junção de tantos talentos musicais,
requereu alguma perícia na apresentação da ideia e nada melhor do que, em vez
de apresentar o material já composto, explicar o que se pretendia fazer.
Antes de começar a trabalhar no estúdio,
Stomu Yamashta organizou uma festa durante a qual projectou alguns filmes espaciais
da NASA e entre eles apresentou e discutiu as ideias que estavam em cima da
mesa, deixando espaço para outras variantes, tendo em conta a qualidade criativa
de cada membro envolvido. O entusiasmo foi unânime e a vontade de tocar e
gravar aquele material era mais que muita, por isso , sem grandes discussões, o
músico japonês e o seu supergrupo entrarem em estúdio em fevereiro de 1976.
O álbum, intitulado simplesmente “Go”, foi
editado em abril de 1976 e é, no verdadeiro sentido da palavra, um álbum
conceptual, cuja fusão de pop-rock com
toques de jazz e elementos clássicos, tudo ligado pelo tema central da viagem
espacial. O conjunto de talentos
reunidos contribuem, cada um á sua maneira, sob a batuta conceptual de
Yamashta, para o impressionante conteúdo musical do álbum. O assombroso
“Crossing the Line” com as suas reminiscências sinfónico-progressivas, dá o
mote para a série de temas interligados e contínuos, que passam por “Ghost
Machine”, um tema rápido acentuado pela guitarra agressiva de Al DiMeola, o
solo ritmado de Pat Thrall e os sintetizadores influentes de Klaus Schulze,
também por “Time is Here” um funky cantado alegremente por Steve Winwood e que têm a sua conclusão no tema
“Winner/Loser” a única batida mais pop do álbum, com a letra escrita por
Winwood a lembrar os velhos tempos dos Traffic. “Go” é uma espécie de ballet”,
disse Stomu Yamashta acerca do álbum.
Klaus Schulze a ensaiar
O único problema em explicar a história de
“Go” é que, apesar dos temas serem contínuos e interligados, a história só
começa no início do lado 2 (nos antigos álbuns de vinil) com o tema “Space
Requiem” e prossegue em “Space Song” coma parafernália de sintetizadores e material electrónico tocada por Stomu
Yamashata e Klaus Schulze e são de uma grandeza cósmica tão grande que, se
fecharmos os olhos por momentos, parece que estamos a viajar no espaço. A
partir daqui a imaginação é o único limite. Todas as leituras são possíveis. Na
segunda parte (o lado 1 do vinilque por
esta altura já ouvimos, se seguirmos o normal funcionamento destas coisas!) a
história prossegue comtemas mais
abstractos que tratam de morte, re-nascimento e, se quisermos, alguma redenção,
Percebe-se que ameio(lembramos que se trata de temas contínuos),
o tom pastoral de “Solitude”mudapara um ritmo tipo balada para, logo a
seguirmudar para “Air Over” , um tema
tipo espacial flutuante tocado em sintetizador, continuando num tom de
celebração com “Man of Leo” com ecos de jazz e bossa nova onde se percebe a
combinação notável de todos os músicos, com especial destaque para a voz de
Steve Winwood e a guitarra de Al DiMeola. O tom celebrativo termina a dar lugar
aos sintetizadores de Klaus Schulze e ritmos electónicos, éo regresso aos temas cósmicos com “Stellar e
Space Theme“. E é o fim de um ciclo de “Go”.
Apresentada e concretizada que estava a
ideia de Stomu Yamashta, o resultado fora muito além das expectativas de todos
aqueles que estavam envolvidos ou não no projecto, faltava agora mostrá-lo ao
público
A apresentação do álbum ao vivo tinha que
acontecer por vontade, não só dos músicos, como também do público, sedento de
ouvir e ver aquele colectivo de músicos de primeira água e a grande questão
era: como é que se comportariam todos juntos em palco?
Uma tournée estava fora de questão pois
todos eles tinham agendas preenchidascom concertos e outras atividades, pelo que quando dois ou três estavam
disponíveis, os outros quatro ou cinco não podiam e vice-versa o que tornava
toda a logística difícil de coordenar. Finalmente lá se conseguiu reunir, mas
apenas para um concerto, a maior parte dos que participaram no álbum,
substituindo os que não puderam ou não quiseram, por outros músicos
recomendados aos mentores do projecto. Faltava saber onde iria ser feito o
concerto. Depois de muitas hipóteses levantadas, a escolha recaiu sobre Paris,
em frança, por ser uma cidade culturalmente abrangente.
O concerto aconteceu no “PalaisDes Sports” no dia 12 de junho de 1976. Quem
lá esteve, garante que foi um acontecimento único. Deste memorável e
irrepetível concerto nasceu o álbum “Go Live from Paris”, que seria editado no
final do ano.
Rezam as crónicas da altura que Yamashta
usou lasers e imagens projectadas enquanto o grupoem palco(oito músicos e uma vocalista) se permitia a grandes explorações dos
temas e uma maior interactividade entreStomu Yamashta, Steve Winwood, Michael Shrieve, Klaus Schulze,Al Di Meola e Pat Thrall, apoiados pelo baixo
de Jerome Rimson, a percussão de Brother James e a voz intensa e profunda de
Karen Friedman. Além de que os temas foram, ao contrário do álbum de estúdio,
apresentados por ordem por forma a apresentar o tema como uma suíte em dois
movimentos. “Windspin” é o primeiro grande momento do concerto. Com cerca de
nove minutos e meio de duração, o tema, tocado ao estilo de “Weather Report”,
uma odisseia instrumental de jazz-fusão pontuado por surpreendentes riffs de
guitarra que davam uma sensação de dramatismo mostrou quão empenhados estavam
os músicos no seu trabalho.
Em termos de intensidade musical, é muito
difícil bater os solos de guitarra de Al Di Meola, que acompanham a voz, quase
soul, de Steve Winwood em “Ghost Machine”;
“SurfSpin” introduz através deuma batida funkyo tema
“Time is Here” em que Winwood é acompanhado pela voz expressiva de Karen
Friedman e pelo baixo intenso de Jerome Rimson. A espontaneidade do concerto
fica provada em “Winner/Looser”com todos os músicos a contribuírem
definitivamente num tema que contrasta largamente com aqueles que o precederam.
O segundo movimento começa com a rendição
de “Air Over”, integrando os temas “Air Voice”, “Nature” e “Solitude” (no álbum
“Go”); prosseguindo com “Crossing the Line”, com nove minutos onde a voz
emotiva de Winwood serve de mote para um fabuloso e intenso solo de guitarra
partilhado entre Al DiMeola e Pat Thrall naquele que terá sido um dos grandes
momentos do concerto. Mas ainda haveria mais e logo a seguir com “Man of Leo”,
com quinze minutos de duração permitiu aos músicos descontrair tendo como fundo
o virtuoso solo de guitarra de DiMeola e improvisações seminais de Michael
Shrieve e Jerome Rimson acompanhados pela vozassombrosa e cristalina de Karen Friedman. O concerto terminaria com uma
combinação orquestrada de sintetizadores entre Stomu Yamashta e Klaus Schulze
nos temas “Stellar” e “Space Requiem”.
As críticas ao concerto foram
diversificadas na forma e conteúdo, mas unânimes num ponto: apesar de ser um
espectáculo da visão musical de Stomu Yamashta, a estrela da noite foi, sem
dúvida nenhuma, Steve Winwood com as suas contribuições instrumentais e vocais fizeram
do seu regresso aos palcos um verdadeiro triunfo.
Satisfeito com o resultado de “Go” e de “Go
Live from Paris”, Stomu Yamashta começou a pensar noutro álbum que expandisse
ainda mais os horizontes musicais. Steve Winwood, graças ao êxito obtido com o
concerto, quis aventurar-se sozinho na música e abandonou o grupo.Yamashta chamou Jess Roden para
substituirWinwood e fez ainda outros
ajustes: Paul Jackson entrou para o lugar de Jerome Rinsom, substituiu Karen
Friedman por Linda Lewis; trocou Pat Thrall por Doni Harvey; trouxe um novo
teclista, J.Peter Robinson e chamou Paul Buckmaster paa fazer os arranjos
finais. Os restantes músicos que vinham do primeiro álbum, regressaram todos.
“Go Too”, assim se chamou o álbum, apareceu
em 1977 e foi uma mudança radical no estilo e forma do projecto. É o grande
final de magníficas proporções. Um set maravilhoso onde paisagens sonoras, que
vão desde o soul ao funky de fusão, constituem um enorme painel cinematográfico
sonoro.
O álbum começa e acaba com duas peças
instrumentais, “Prelude”, tocado por Klaus Schulze é uma espécie de tema
espacial onde se percebe que o músico, apesar da mudança de direção musical,
não perdeu o seu virtuosismo, “Ecliptic”, que fecha o álbum é novamente Schulze
no seu melhor, uma sonoridade profundacom algumas reminiscências que
nos transportam para o início do álbum. Pelo meio, Seen you Before”, um tema
que funde jazz com funkye com um
grandioso solo de guitarra de Al Di Meola, segue-se “Madness” um tema
totalmente funky que, no final, apresenta o som de ondas do mar e liga
diretamente a“Mysteries of Love”, um
tema romântico onde dominam os solos de guitarra sentidos de DiMeolae as vozes de Linda Lewis e Jess Roden;
“Wheels of Fortune” é Jazz puro; “Beauty” é romântico mas muito introspetivo,
enquanto “You and Me” mostra um funky alegree descomprometido.
Com o seu projecto “Go” terminado depois de
encontrar a sua conclusão lógica neste “Go Too”, Stomu Yamashta regressou ao
japão onde continuou a combinar as suas predilecções electrónicas “avant-garde”
com o seu estilo “New Age” melódico (há quem o considere um dos percursores
deste estilo de música meditativo e relaxante) e esporadicamente grava álbuns.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet.
Em 1963 “The
Great Escape – A Grande Evasão”, realizado por John Sturges, baseado num livro
escrito por Paul Brickhill,inspirado em
acontecimentos verídicos ocorridos durante a IIªGuerra Mundial onde prisioneiros
de guerra aliados planeiam fuga de um
grande número dos seus pares dum campo de concentração nazi. O filme
apresentava uma constelação de vedetas que incluíam Steve McQueen, Richard
Attenborough, James Garner, Charles Bronson, James Coburn, Donald Pleasence,
entre outros e mostravatodo o
planeamento e logística que envolviam a fuga. Tornou-se um clássico
rapidamente, várias vezes imitado mas nunca superado e deu origem, ao longo das
décadas seguintes, a uma série de filmes cuja temática girava em torno de
prisões ou de fugas das mesmas, com maior ou menor qualidade.
O Argumentista e Realizador Frank Darabond
Realizado em
1994 por Frank Darabont, "Os Condenados de Shawshank" foi logo
considerado um clássico contemporâneo pela sua abordagem original, fugindo ao
convencional filme de prisão. A História, da amizade e esperança entre dois
condenados numa prisão estadual, cativou a crítica e o público. Baseado num
conto de Stephen King, é um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos.
Frank
Darabond, argumentista de cinema e televisão, garantiu os direitos de adaptação
desta história em 1983 depois de ter impressionado o escritor Stephen King com
a adaptação de “The Woman in the Room”, um pequeno conto do escritor que
transformou numa curta-metragem. Os dois tornaram-se amigos e Darabond, depois
de ter obtido sucesso com o argumento partilhado em “A Nightmare on Elm Street III: The Dream
Warriors – O Pesadelo em Elm Street III” (Chuck Russell, 1987), comprou os
direitos de adaptação do conto “Rita Hayworth and Shawshank Redemption” e optou
por ser ele mesmo o realizador do filme. King, apesar dos problemas que costuma
ter com aadaptação das suas obras para
o cinema, deu um voto de confiança ao aspirante a realizador.
Rob Reiner,
que já tinha adaptado anteriormente o conto do escritor “The Body” e
transformara no fabuloso “Stand By Me – Conta Comigo” (1986), tentou comprar os
direitos a Darabond, que escreveria o argumento. O então realizadorplaneava ter como protagonistas Tom Cruise no
papel de Andy e Harrison Ford no papel de Red. Darabond considerou a proposta,
entusiasmado com a visão de Reiner, mas declinou a oferta pois achou que era a
altura certa para “fazer algo mesmo grande” ao estrear-se na realização.
“Os
Condenados de Shawshank” cria uma espécie de calma nos sentimentos dos
espectadores. Parece algo estranho para se dizer acerca dum filme que se passa
dentro duma prisão. Enquanto na maior parte das produções do género, o
espectador é confrontado logo com sentimentos e experiências indirectas e
emoções violentas e superficiais, em “Os Condenados de Shawshank”, tudo isso abranda,
fazendo com que o espectador faça parte daquela família. Utiliza a voz calma,
porém observadora, do narrador para nos incluir na história de homens que
formam uma comunidade atrás das grades: a esperança, a amizade e a sua continuidade
pela vida fora, é mais profunda do que na maioria dos filmes e, neste caso, a
sua maior diferença.
O que é
interessante no filme e que também marca a diferença em relação a outros do
género, é o facto de, apesar da personagem principal ser o condenado e
ex-banqueiro, Andrew Dufresne, a acção nunca se vê do seu ponto de vista, mas
sim do ponto dos companheiros de prisão. Tal ideia está perfeitamente espelhada
na cena inicial quando Andy é condenado a duas sentenças perpétuas pelo
assassinato da mulher e do amante dela, depois a cena muda (permanentemente)
para o ponto de vista da população prisional, muito particularmente, de Ellis
“Red” Redding (Morgan Freeman, extraordinário), é a sua voz que nos apresenta
Andy (Tim Robbins numa das suas melhores interpretações) a lembrar-se de quando
ele chegou a Shawshank e que prevê, erradamente, que Andy nunca sobreviveria na
prisão.
Desde a
chegada de Andy á prisão (naquele magnifico plano-sequência vertical) até ao
final do filme, vemo-lo apenas como os outros o vêem: Red, que se torna o seu
melhor amigo, Brooks, o velho bibliotecário, Norton, o director da prisão, os
guardas e até mesmo os outros prisioneiros. Red acaba por ser aquele com quem
nos identificamos e a redenção, de que fala o título original do filme, acaba
por ser a dele; Red é o nosso infiltrado e Andy é o exemplo de que se deve
manter a integridade total, ocupar e dividir o tempo, nunca perder a esperança
e aguardar a nossa chance , todas estas ideias estão resumidas numa frase que,
a dado momento, Andy diz a Red, “tudo se resume a uma simples escolha: ou te
ocupas para te manter vivo ou arranjas maneira de morrer”.
Outro
aspecto que faz com que “os Condenados de Shawshank” seja diferente do resto
dos filmes do género é a construção da estrutura
narrativa do argumento que nos empurra para a personagem de Andy e para o seu estranho
comportamento dentro da prisão. Sem querer, interrogamo-nos: Quem é aquela
personagem tão calada que se passeia no pátio da prisão como se fosse um homem
livre enquanto os outros conspiram e se lamentam acerca da sua sorte? será que
ele matou a mulher e o amante?Se
Darabond tivesse decidido que a personagem de Andy seria o centro heroico do
filme, este teria sido certamente muito mais convencional e banal e muito menos
misterioso.
Tim Robbins e Morgan Freeman
Antes de Tim
Robbins e Morgan Freeman serem escolhidos para interpretar os papéis de Andy Dufresne e Ellis Boyd “Red” Redding, foram considerados para os respectivos
papéis: Kevin Costner, Tom Hanks e Brad Pitt, que recusaram devido a conflitos
de horários com outras produções em que se achavam envolvidos (respectivamente
“Waterworld”, “Forrest Gump” e “Entrevista com o Vampiro”); para o papel de
Red, apontaram-se os nomes de Clint Eastwood, Harrison Ford, Paul Newman e
Robert Redford. A escolha acabou por recair em Morgan Freeman, porque Frank
Darabond achou que a sua presença e comportamento eram suficientemente
autoritários para ser ele o escolhido. Segundo Darabond, decisivo terá sido o
curto diálogo, durante a leitura do argumento, entre Andy e Red quando aquele
pergunta a este qual a origem da sua alcunha (“Red”) e Red responde “talvez por
eu ser irlandês!”.
Bob Gunton como o Director Norton
Todo o elenco é magnifico nos seus papéis, masas escolhas de Clancy Brown como o Capitão
Byron Hadley, chefe dos guardas que acha que o melhor para manter os
prisioneiros nos seus lugares é moê-los com pancada e de Bob Gunton, como o
director Samuel Norton, versado na Bíblia, apresentando-se como um homem pio, cristão
devoto e aberto a inovações, revela-se na realidade como sendo corrupto,impiedoso e sem escrúpulos, foram magníficas
no que toca ao elenco secundário porque o espectador, mesmo tendo alguma
compaixão por elas sensivelmente a meio do filme,nunca deixa de as odiar completamente.
Todo o filme
é suportado pela personagem de Red, ele é uma espécie de curvatura espiritual.
Vemo-lo em três audições para obter a liberdade condicional: a primeira, e a
mais bem conseguida de todas, graças a um truque de argumento, acontece logo
após sabermos a sentença de Andy e quando vemos a auditoria, pensamos que já se
passaram vários anos e que Andy vai tentar obter a liberdade condicional. Mas,
não, afinal é quando vemos Red pela primeira vez a tentar convencer os
auditores que está reabilitado; a segunda, ela já conhece os procedimentos e
sabe o que o espera; na terceira, ele rejeita toda e qualquer possibilidade de
ser reabilitado, já está muito para além dela e di-lo aos seus auditores,
sentindo-se livre de qualquer constrangimento. Os auditores concedem-lhe a
liberdade. Sobresiste um problema: na prisão: na prisão, Red é o rei, éaquele que consegue arranjar tudo sem nunca
se comprometer. Cá fora, ele não tem identidade ou qualquer “status” e, tendo
visto, o que aconteceu a Brooks, só e abandonado em liberdade, o espectador é
levado a recear pela sua vida. Mas, no último terço do filme, Andy ajuda Red a
aceitar a sua liberdade, através de cartas e postais, e é visto através da
mente de Red.
Quando
estreou, “Shawshank Redemption”, obteve boas críticas entre a imprensa
especializada, mas feztão pouca
bilheteira, que não conseguiu pagar-se: de 25.000.000 de dólares de orçamento,
o filme apenas conseguiu 18.000.000 de dólares de receitas. Desde o facto de
ter um título horrível, a ser demasiado longo e quase sem acção, mesmo tendo
actores respeitados mas que não eram grandes vedetas, tudo foi usado para
justificar o fracasso nas bilheteiras. Claramente se percebeu que este filme
era daqueles que precisava de andar de boca em boca para encontrar o seu
público. Rapidamente foi retirado das salas e só quando obteve as sete
nomeações para os Oscares da Academia, incluindo uma para Melhor Filme do Ano,
voltou ás salas e o público voltou as suas atenções para o filme, rendendo-lhe
mais cerca de 10.000.000 de dólares.
Apesar de
não ter ganho nenhum Oscar, o filme, ganhou outros prémios, desde então, ganhou
uma nova vida e passou a fazer parte do “Top Five” das listas de críticos,
imprensa especializada e é o filmemais
bem classificado (para quem segue estas classificações, 9.3/10) no IMDB, a base
de dados cinematográfica da internet,ultrapassado “O Padrinho”(1972), que foi, durante muitos anos o filme
que tinha a mais alta classificação (9.2/10).
Frank
Darabond construiu o filme para observar a história e não para a elevar ou
encenar. A encenação não existe na obra, o filme avança ordeiramente e reflecte
a passagem lenta das décadas. “Quando te colocam naquela cela”, diz Red a dado
momento “Quando as barras se fecham, é quando sabes que é verdade” . Alguém
disse que a vida é uma prisão, nós somos o Red, Andy é o nosso redentor.
Em 2004, no
seu 10º aniversário “The Shawshank Redemption” foi incluído na lista do AFI
(American Film Institute) como o 23º melhor filme de todos os tempos.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet