O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Em 1963 “The
Great Escape – A Grande Evasão”, realizado por John Sturges, baseado num livro
escrito por Paul Brickhill,inspirado em
acontecimentos verídicos ocorridos durante a IIªGuerra Mundial onde prisioneiros
de guerra aliados planeiam fuga de um
grande número dos seus pares dum campo de concentração nazi. O filme
apresentava uma constelação de vedetas que incluíam Steve McQueen, Richard
Attenborough, James Garner, Charles Bronson, James Coburn, Donald Pleasence,
entre outros e mostravatodo o
planeamento e logística que envolviam a fuga. Tornou-se um clássico
rapidamente, várias vezes imitado mas nunca superado e deu origem, ao longo das
décadas seguintes, a uma série de filmes cuja temática girava em torno de
prisões ou de fugas das mesmas, com maior ou menor qualidade.
O Argumentista e Realizador Frank Darabond
Realizado em
1994 por Frank Darabont, "Os Condenados de Shawshank" foi logo
considerado um clássico contemporâneo pela sua abordagem original, fugindo ao
convencional filme de prisão. A História, da amizade e esperança entre dois
condenados numa prisão estadual, cativou a crítica e o público. Baseado num
conto de Stephen King, é um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos.
Frank
Darabond, argumentista de cinema e televisão, garantiu os direitos de adaptação
desta história em 1983 depois de ter impressionado o escritor Stephen King com
a adaptação de “The Woman in the Room”, um pequeno conto do escritor que
transformou numa curta-metragem. Os dois tornaram-se amigos e Darabond, depois
de ter obtido sucesso com o argumento partilhado em “A Nightmare on Elm Street III: The Dream
Warriors – O Pesadelo em Elm Street III” (Chuck Russell, 1987), comprou os
direitos de adaptação do conto “Rita Hayworth and Shawshank Redemption” e optou
por ser ele mesmo o realizador do filme. King, apesar dos problemas que costuma
ter com aadaptação das suas obras para
o cinema, deu um voto de confiança ao aspirante a realizador.
Rob Reiner,
que já tinha adaptado anteriormente o conto do escritor “The Body” e
transformara no fabuloso “Stand By Me – Conta Comigo” (1986), tentou comprar os
direitos a Darabond, que escreveria o argumento. O então realizadorplaneava ter como protagonistas Tom Cruise no
papel de Andy e Harrison Ford no papel de Red. Darabond considerou a proposta,
entusiasmado com a visão de Reiner, mas declinou a oferta pois achou que era a
altura certa para “fazer algo mesmo grande” ao estrear-se na realização.
“Os
Condenados de Shawshank” cria uma espécie de calma nos sentimentos dos
espectadores. Parece algo estranho para se dizer acerca dum filme que se passa
dentro duma prisão. Enquanto na maior parte das produções do género, o
espectador é confrontado logo com sentimentos e experiências indirectas e
emoções violentas e superficiais, em “Os Condenados de Shawshank”, tudo isso abranda,
fazendo com que o espectador faça parte daquela família. Utiliza a voz calma,
porém observadora, do narrador para nos incluir na história de homens que
formam uma comunidade atrás das grades: a esperança, a amizade e a sua continuidade
pela vida fora, é mais profunda do que na maioria dos filmes e, neste caso, a
sua maior diferença.
O que é
interessante no filme e que também marca a diferença em relação a outros do
género, é o facto de, apesar da personagem principal ser o condenado e
ex-banqueiro, Andrew Dufresne, a acção nunca se vê do seu ponto de vista, mas
sim do ponto dos companheiros de prisão. Tal ideia está perfeitamente espelhada
na cena inicial quando Andy é condenado a duas sentenças perpétuas pelo
assassinato da mulher e do amante dela, depois a cena muda (permanentemente)
para o ponto de vista da população prisional, muito particularmente, de Ellis
“Red” Redding (Morgan Freeman, extraordinário), é a sua voz que nos apresenta
Andy (Tim Robbins numa das suas melhores interpretações) a lembrar-se de quando
ele chegou a Shawshank e que prevê, erradamente, que Andy nunca sobreviveria na
prisão.
Desde a
chegada de Andy á prisão (naquele magnifico plano-sequência vertical) até ao
final do filme, vemo-lo apenas como os outros o vêem: Red, que se torna o seu
melhor amigo, Brooks, o velho bibliotecário, Norton, o director da prisão, os
guardas e até mesmo os outros prisioneiros. Red acaba por ser aquele com quem
nos identificamos e a redenção, de que fala o título original do filme, acaba
por ser a dele; Red é o nosso infiltrado e Andy é o exemplo de que se deve
manter a integridade total, ocupar e dividir o tempo, nunca perder a esperança
e aguardar a nossa chance , todas estas ideias estão resumidas numa frase que,
a dado momento, Andy diz a Red, “tudo se resume a uma simples escolha: ou te
ocupas para te manter vivo ou arranjas maneira de morrer”.
Outro
aspecto que faz com que “os Condenados de Shawshank” seja diferente do resto
dos filmes do género é a construção da estrutura
narrativa do argumento que nos empurra para a personagem de Andy e para o seu estranho
comportamento dentro da prisão. Sem querer, interrogamo-nos: Quem é aquela
personagem tão calada que se passeia no pátio da prisão como se fosse um homem
livre enquanto os outros conspiram e se lamentam acerca da sua sorte? será que
ele matou a mulher e o amante?Se
Darabond tivesse decidido que a personagem de Andy seria o centro heroico do
filme, este teria sido certamente muito mais convencional e banal e muito menos
misterioso.
Tim Robbins e Morgan Freeman
Antes de Tim
Robbins e Morgan Freeman serem escolhidos para interpretar os papéis de Andy Dufresne e Ellis Boyd “Red” Redding, foram considerados para os respectivos
papéis: Kevin Costner, Tom Hanks e Brad Pitt, que recusaram devido a conflitos
de horários com outras produções em que se achavam envolvidos (respectivamente
“Waterworld”, “Forrest Gump” e “Entrevista com o Vampiro”); para o papel de
Red, apontaram-se os nomes de Clint Eastwood, Harrison Ford, Paul Newman e
Robert Redford. A escolha acabou por recair em Morgan Freeman, porque Frank
Darabond achou que a sua presença e comportamento eram suficientemente
autoritários para ser ele o escolhido. Segundo Darabond, decisivo terá sido o
curto diálogo, durante a leitura do argumento, entre Andy e Red quando aquele
pergunta a este qual a origem da sua alcunha (“Red”) e Red responde “talvez por
eu ser irlandês!”.
Bob Gunton como o Director Norton
Todo o elenco é magnifico nos seus papéis, masas escolhas de Clancy Brown como o Capitão
Byron Hadley, chefe dos guardas que acha que o melhor para manter os
prisioneiros nos seus lugares é moê-los com pancada e de Bob Gunton, como o
director Samuel Norton, versado na Bíblia, apresentando-se como um homem pio, cristão
devoto e aberto a inovações, revela-se na realidade como sendo corrupto,impiedoso e sem escrúpulos, foram magníficas
no que toca ao elenco secundário porque o espectador, mesmo tendo alguma
compaixão por elas sensivelmente a meio do filme,nunca deixa de as odiar completamente.
Todo o filme
é suportado pela personagem de Red, ele é uma espécie de curvatura espiritual.
Vemo-lo em três audições para obter a liberdade condicional: a primeira, e a
mais bem conseguida de todas, graças a um truque de argumento, acontece logo
após sabermos a sentença de Andy e quando vemos a auditoria, pensamos que já se
passaram vários anos e que Andy vai tentar obter a liberdade condicional. Mas,
não, afinal é quando vemos Red pela primeira vez a tentar convencer os
auditores que está reabilitado; a segunda, ela já conhece os procedimentos e
sabe o que o espera; na terceira, ele rejeita toda e qualquer possibilidade de
ser reabilitado, já está muito para além dela e di-lo aos seus auditores,
sentindo-se livre de qualquer constrangimento. Os auditores concedem-lhe a
liberdade. Sobresiste um problema: na prisão: na prisão, Red é o rei, éaquele que consegue arranjar tudo sem nunca
se comprometer. Cá fora, ele não tem identidade ou qualquer “status” e, tendo
visto, o que aconteceu a Brooks, só e abandonado em liberdade, o espectador é
levado a recear pela sua vida. Mas, no último terço do filme, Andy ajuda Red a
aceitar a sua liberdade, através de cartas e postais, e é visto através da
mente de Red.
Quando
estreou, “Shawshank Redemption”, obteve boas críticas entre a imprensa
especializada, mas feztão pouca
bilheteira, que não conseguiu pagar-se: de 25.000.000 de dólares de orçamento,
o filme apenas conseguiu 18.000.000 de dólares de receitas. Desde o facto de
ter um título horrível, a ser demasiado longo e quase sem acção, mesmo tendo
actores respeitados mas que não eram grandes vedetas, tudo foi usado para
justificar o fracasso nas bilheteiras. Claramente se percebeu que este filme
era daqueles que precisava de andar de boca em boca para encontrar o seu
público. Rapidamente foi retirado das salas e só quando obteve as sete
nomeações para os Oscares da Academia, incluindo uma para Melhor Filme do Ano,
voltou ás salas e o público voltou as suas atenções para o filme, rendendo-lhe
mais cerca de 10.000.000 de dólares.
Apesar de
não ter ganho nenhum Oscar, o filme, ganhou outros prémios, desde então, ganhou
uma nova vida e passou a fazer parte do “Top Five” das listas de críticos,
imprensa especializada e é o filmemais
bem classificado (para quem segue estas classificações, 9.3/10) no IMDB, a base
de dados cinematográfica da internet,ultrapassado “O Padrinho”(1972), que foi, durante muitos anos o filme
que tinha a mais alta classificação (9.2/10).
Frank
Darabond construiu o filme para observar a história e não para a elevar ou
encenar. A encenação não existe na obra, o filme avança ordeiramente e reflecte
a passagem lenta das décadas. “Quando te colocam naquela cela”, diz Red a dado
momento “Quando as barras se fecham, é quando sabes que é verdade” . Alguém
disse que a vida é uma prisão, nós somos o Red, Andy é o nosso redentor.
Em 2004, no
seu 10º aniversário “The Shawshank Redemption” foi incluído na lista do AFI
(American Film Institute) como o 23º melhor filme de todos os tempos.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet
"Kagemusha”, é uma palavra japonesa que, literalmente, significa
guerreiro-sombra, mas também pode ser usado (e, no caso deste filme, é) como um
engano político, no sentido de enganar quaisquer potenciais adversários.
A acção
decorre no japão do século XVI e conta a história de um criminoso de classe
baixa que, devido á sua semelhança com um Senhor da Guerra moribundo, se vê obrigado a aprender os
seusmodos e os maneirismos de modo a
poder personificá-lo, sob pena de ser condenado á morte, para evitar que outros
Senhores da Guerra ataquem o clan agora vulnerável.
Akira Kurosawa e os seus samurais
Drama de
Samurai, realizado por Akira Kurosawa, conhecido no seu país natal como “O Imperador”. Foi ele quem deu a
conhecer ao Ocidente este género cinematográfico único, através de clássicos
como “Os Sete Samurais” (1954), “Yojimbo” (1961) ou “Sanjuro” (1962). Aos 70
anos de idade fez um épico sobre o efeito que o código dos Samurai, ou qualquer
outro tipo de código moral e humano, tem na vida de um qualquer indíviduo.
A
genialidade desta obra resume-se na breve cena com que o filme começa: vêem-se
três homens quase indistinguíveis uns dos outros: Shingen, o seu irmão,
Nobukado, e um ladrão, que Nobukado encontrou por acaso e salvou da morte por
crucificação acreditando que, a ver pela semelhança que ele tem com Shingen,
ainda pode vir a ser útil, o que vem a acontecer quando Shingen é mortalmente
ferido em combate. O clan Takeda decide então usá-lo como “Kagemusha” ou duplo
e fazer acreditar aos seus inimigos que ele ainda está vivo.
Começa então
um período de três anos (prazo estipulado pelo falecido Shingen até que a
suamorte possa ser anunciada), durante
o qual o duplo é tratado por todos, até pelo filho e pelas suas amantes, como
se do verdadeiro Shingen se tratasse. Só apenas os seus conselheiros é que
sabem da verdade, o que permite que cada cena seja construída com alguma
ironia: é importante que tanto os amigos como os inimigos acreditem que Shingen
continua vivo; a sua aparência e, por acréscimo a sua sombra, cria, não só,
respeito como também cautela entre os
seus amigos e os inimigos. Se for desmascarado, torna-se inútil; mas como duplo
de Shingen, pode mandar centenas de homens morrer em batalha, e a sua guarda
pessoal de bom grado que dará a própria vida por ele. Mas, no seu íntimo,
sente-se um inútil e quando é desmascarado, é banido por todos.
Qual é a
ideia de Kurosawanesta sua obra? A
ideia é mostrar um contraste que existe ao longo do filme entre dois tipos de
cenas: as cenas de batalha e as cenas mais intímas. Nas primeiras, grandiosas e
épicas, carregadas de imagens de beleza indiscritível ( como a marcha das
tropas contra o sol vermelho incandescente; o ataque noturno ao castelo e a
tomada deste; assim como a batalha final, que não é vista mas apenas ouvida e
no final aquilo que vemos são imagens duma carnificina que tanto tem de belo
como de horrível).
Por outro
lado, as cenas íntimas que se passam entre as quatro paredes da sala do trono,
dos quartos, dos castelos, são de cortar a respiração, já que o duplo de
Shingen é testado em reuniões com o seu filho (grande momento cinematográfico
quando lorde Katsuyori, numa reunião do clan, iludindo os seus conselheiros,
lhe pergunta directamente o que deve fazer, a resposta do “Kagemusha” é a que
se esperava de Shingen, tornando ainda mais real e total a perda da identidade),
com o neto e também as suas amantes.
Eles conhecem-no bem e se não se deixam enganar (grande cena quando o neto diz
que o duplo não é o seu avô, mas que depois acaba por o reconhecer), percebe-se
que toda aquelaencenação será
completamente desnecessária pois o clan Takeda perdeu o seu “frontman”, a sua
figura principal, o seu líder; o que dá força ao clan é a ilusão criada de que
Shingen ainda existe, está vivo e essa é a sua realidade, e ninguém, como
Kurosawa, mestre na encenação, consegue mostrar tão bem estes contrastes.
Mas em “Kagemusha”
existe ainda uma outra luta que se sobrepõe ao domínio de um homem que se deixa
dominar pela sua própria imagem: a do filho, lord Katsuyori, que, no desejo de
superar a imagem do seu pai, vai conduzir os exércitos do clan Takeda á
perdição total ( numa cena genial, no castelo junto ao lago Suwa, onde repousam
os restos de Shingen, um conselheiro felicita Katsuyori pela vitória obtida e
este queixa-se que a vitória não se deveu a si mas sim á presença do pai,
personificado pelo “Kagemusha”). O próprio duplo, perante a inevitável queda do
clan Takeda, sabe que a sua existência não tem sentido pois os mortos não têm
sombra e, após ser dispensado dos seus serviços, só lhe resta morrer como os
outros, não sem antes, depois da batalha final, procurar, no lago, o corpo
daquele de quem foi sombra durante três anos. Numa das cenas mais assombrosas
desta obra-prima da sétima arte, o realizador, tal como no início, encerra este
épico com uma cena que resume tudo: a cena onde o corpo do “Kagemusha”,
arrastado pela corrente, flutua ao lado do estandarte do clan Takeda, diz-nos
que as ideias e os homens são fruto de um certo tempo e o seu significado
histórico só existe quando ambos acontecem ao mesmo tempo e da mesma maneira.
A ideia
inicial do realizador japonês remontava ao final da década de 60, era fazer um filme intitulado “Ran”, mas
vários constrangimentos, nomeadamente o financeiro (sómente em 1985 é que o
grande projecto do mestre japonês teria luz verde para ver a luz do dia),
forçaram o realizador a optar por algo parecido. Nascia assim a ideia de
“Kagemusha” que, na ideia de Kurosawa, era algo semelhante a “Ran”. Sem grandes apoios, principalmente no seu país
natal, ele fez, em 1970, “Dodeskaden – Pouca Terra…Pouca Terra” um filme
pessoal e intimista que não foi um grande sucesso. Cinco anos depois, com o
apoio de um produtor independente soviético, filmou o fabuloso “Derzu Uzala – A
Àguia das Estepes” (1975) a história da amizade entre um militar soviético e um
velho caçador. Filmado na estepe russa, o filme foi um enorme sucesso internacional
e ganhou o Oscar da Academia para Melhor Filme Estrangeiro e fez com que o mestre japonês se pudesse
abalançar a vôos mais altos. Entre recuos e avanços na pré-produção, mais cinco anos se passaram. Finalmente, em
1980, “Kagemusha” tomou forma. Sensivelmente, a meio da rodagem, Kurosawa
apercebeu-se que não iria conseguir terminar a rodagem do filme por falta de
orçamento. Com os apoios nacionais fechados, viu-se na eminência de ter que
obter financiamento internacional. É então que entram em cena os produtores/realizadores
George Lucas e Francis “Ford” Coppola.
O Mestre japonês, Francis F. Coppola e George Lucas
Admiradores confessos do realizador,
Lucas e Coppola aceitaram financiar o resto da produção e ficaram também
responsáveis pela distribuição internacional da obra. Creditados no final da
obra como Produtores Executivos, permitiram que a versão do filmeexibida na europa e nos estados unidos fosse
de 179 minutos, que correspondiam exactamente á ideia que o realizador tinha,
cerca de vinte minutos mais longa do que a versão estreada no japão, país que
nunca permitiu que a versão internacional lá fosse exibida, provavelmente por
ter sido completada com créditos internacionais.
Estreado em
abril de 1980, o filme foi um enorme sucesso, tanto da crítica como do público
que se rendeu á grandiosidade do filme, no japão onde foi nº 1 na bilheteira,
fazendo cerca de 26.000.000 de dólares. Um mês depois da sua estreia nacional,
o filme foi exibido, com pompa e circunstãncia, na presença do realizador e dos
produtores executivos responsáveis pela versão internacional, no prestigiado
festival de Cannes. O filme foi um triunfo absoluto no festival, já que recebeu
a Palma de Ouro “ex-aequo” com “All That Jazz – O Espectáculo vai Começar”, o
filme semi-autobiográfico de Bob Fosse. O filme receberia ainda uma nomeação
para os Globos de Ouro, duas nomeações para os Oscares. Em itália o filme foi
nomeado para dois prémios “David di Donatello” para melhor Realizador
Estrangeiro e Melhor Produção Estrangeira e venceu os dois. Em 1981 receberia o César (oscar
francês) para Melhor Filme Estrangeiro.
“Kagemusha - A Sombra do Guerreiro” acaba
por ser um filme complexo mas ponderado, que Akira Kurosawa conseguiu
transformar numa obra simples, ousada e intensa onde o realizador parece
sugerir que não importa que as crenças sejam ou não baseadas na realidade, o
que importa é que os homens acreditem nelas. Genial.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet.
É sabido que
remakes estão na ordem do dia, , mas nem todos são bons ou estão sequer ao
nível do original. " The Departed - Entre Inimigos" é uma excepção.
Baseado num
filme de Hong Kong de 2002 chamado "Internal Affairs - Infiltrados"
rrealizado por Andrew Lau e Alan Mak, que no seu país foi um grande sucesso e
deu origem a uma trilogia. Martin Scorcese viu o original, gostou e quis fazer
uma versão adequada ao ocidente e, mais em particular, à América.
Em janeiro
de 2003,Brad Grey, produtor da Warner
Bros. E o actor/produtor Brad Pitt, seguinfdo a recomendação de Martin
Scorsese, compraram os direitos de adaptação/remake de “Internal Affairs”
áMedia Asia, a companhia que detinha os
direitos do filme original, pela quantia de 1.75 milhões de dólares. Pitt e
Scorsese assegurariam a produção e William Monahan, a quem fora encomendado a
adaptação do argumento, seria o realizador. Mais tarde, em janeiro de 2004, sem
qualquer explicação avançada, Scorsesefoi anunciado como o realizador do filme, mantendo-se Monahan como
argumentista. A acção centrava-se em
Boston; Brad Pitt, além de produtor, seria também actor e no elenco constava
também Leonard DiCaprio. Pitt, no entanto, acabaria por desistir do papel e manteve-se apenas como produtor. No
início de 2005, o filme recebeu luz verde da Warner Bros. E começou a ser
rodado na primavera desse mesmo ano com as filmagens a decorrerem em Boston.
O que faz
“The Departed – Entre Inimigos” um filme de Martin Scorsese e não apenas um mero
remake, igual a tantos outros que por aí andam? é, não só, a utilização dos
actores, dos locais onde se passa a acção,a energia que desta utilização emana e, principalmente, o tema que
subrepticiamente o percorre, uma espécie de tema enterrado dentro do filme:
trata-se de um filme não acerca daquilo que é, mas acerca de como é que é. Esta
é a verdadeira essência dum filme de Scorsese.
A maior
parte dos filmes do realizador são sobre homensque se tentam aperceber daquilo que são, tentam alcançar uma imagem do
seu próprio intímo. É assim com Travis Bickle de “Taxi Driver”, ou com Jake
LaMotta em “Touro Enraivecido” e, porque não,com Jesus Cristo em “ A Última Tentação de Cristo”. Em “Entre Inimigos”
passa-se basicamente o mesmo, ou seja, é a história de dois homens que tentam
viver as sua vidas públicas radicalmente opostas ao seu próprio intímo. As suas
tentativas ameaçam destrui-los a ambos, por implosão ou por traição fatal. A
narração das suas vidas envolve uma espécie de labirinto moral no qual o bem e
o mal usam a máscara um do outro.
Este filme é
um filme de polícias e gangsters, muitas vezes comparado a essa obra-prima do
realizador intitulada “GoodFellas – Tudo Bons Rapazes” (1990), só que saltam á
vista diferenças fundamentais que os tornam diferentes: enquanto em
“GoodFellas” a acção se passa em Nova York, “The Departed” passa-se em Boston;
Henry Hill (Ray Liotta) sonha em tornar-se um gangster e tudo faz para agradar
e ser aceite no meio, em “Departed”, porém, essa vontade de ser alguémnão existe e, no seu lugar, temos dois jovens
que crescem como impostores: um torna-se polícia e infiltra-se como gangster, o
outro torna-se gangster e vai viver infiltrado como polícia. Esta diferença é
fundamental entre os dois filmes e é sobre esta diferença que o genial
argumento de William Monahan triunfa dentro do filme.
Filme de
enganos, onde ninguém é aquilo que diz ser, o que torna a tensão, ao longo do
filme, grande, por vezes insuportável e depende da natureza humana de cada um:
Após alguns anos, ambos os homens identificam-se plenamente com o papel que
estão a desempenhar e não conseguem dar um passo sem terem a aprovação daqueles
que estão a enganar. A relação pai-filho percorre o filme todo. Frank Costello
actua como um pai para Sullivan e Costigan, enquanto o capitão Queenan funciona
como uma espécie de contraponto a Costello na figura paternal. Sullivan
refere-se a Costello como pai sempre que o informa das actividades da polícia. A cena final, onde se vê um rato a passear na janela é o melhor resumo de todo o filme, já que simboliza a temática central de toda a obra (a procura do infiltrado) e a sensação de desconfiança que reina entre todas as personagens.
O filme mostra-nos um lado da máfia Irlandesa, cujo
inicio, na américa, Scorsese já havia mostrado no magnifico "Gangs de Nova
York" (2002), funcionando este filme, apesar da acção se centrar em “Five
Points”, um bairrode emigrantesna Nova York do século XIX, como uma espécie
de prólogo a “Entre Inimigos”.
Trabalhando
com um elenco magnifico onde pontuam as interpretações de Jack Nicholson, no
papel de Frank Costello, o gangster á volta do qual gravitam todas as
personagens, principalmente Collin Sullivan e Billy Costigan. O actor faz mais
uma das suas personagens (inspirada num famoso gangster irlando-americano,
Whitey Bulger, o que transmite ao filme uma sensação de realismo) “bigger than
life” a que já nos habituou na sua longa carreira; Leonardo DiCaprio é Billy
Costigan, o polícia infiltrado como gangster que Costello toma debaixo de sua
protecção. Cada vez mais um actor de Martin Scorcese, aqui na sua terceira
colaboração com o realizador, mostra mais uma vez ter sido uma aposta certa;
Matt Damon interpreta Colin Sullivan, o miúdo “adoptado” por Frank Costello,
que, a pedido deste, se infiltra como polícia para poder informar o seu
“padrinho” de quaisquer movimentações que haja contra ele. Damon tem aqui,
depois de Jason Bourne, o seu melhor papel num filme de acção. De salientar que
também os secundários Vera Farmiga, Mark
Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone e Alec Baldwin, entre outros, brilham.
A realização
de Martin Scorsese é, como sempre, sem mácula. Conta a história, mostra-nos
sentimentos e violência tudo filmado a um ritmo alucinante servido por um bom
argumento onde não falta uma engenhosa adição de aparelhos modernos como
telemóveis ou computadores, o que leva Scorsese a levantar diversas questões
que não deixam de ser pertinentes e também preocupantes; como “quando os
caminhos dos dois homens infiltrados, se cruzarem, como deve acontecer, será
que eles se irão encontrar em cada extremidade da mesma chamada telefónica?” ou
“quando os polícias souberem que existe um informador no seu seio, será que vão
o informador para se encontrar a si próprio?” Scorsese responde, a esta
dramatização das armadilhas e traições da vida dos infiltrados,com uma das mais bem conseguidas falas de
todo o filme, quando a um deles é dito “eu dei-te a morada errada, mas tu foste
ter á correcta!”.
Estreado em
outubro de 2006, o filme , que custou cerca de 90.000.000 de dólares, rendeu
nas bilheteiras nacionais e internacionais qualquer coisa como cerca de
289.847.354 de dólares, tornando-se no terceiro filme do realizador a
posicionar-se no primeiro lugar nas bilheteiras logo no dia de estreia.
Universalmente aclamado como uma das melhores obras do realizador da década,
viria a ganhar, em janeiro de ano seguinte, o Globo de Ouro para Melhor
Realizador, uma das seis nomeações que o filme tinha.
Vencedor de
quatro Óscares da Academia, para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor
Argumento e Melhor Montagem, "Entre Inimigos", não sendo o melhor
Scorcese e, talvez aquele que menos merecesse levar os prémios da academia, quando
comparado com “Taxi Driver”, O Toiro Enraivecido”, “Tudo Bons Rapazes” ou até
mesmo “Gangs de Nova York”, estas sim, verdadeiras obras-primas do realizador, fica
como uma obra acima da média e que lhe deu o tão almejado Oscar da Academia que
há tantos anos lhe fugia e que já era por demais merecido.
Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet