sábado, 11 de outubro de 2014

Os Condenados de Shawshank


    Em 1963 “The Great Escape – A Grande Evasão”, realizado por John Sturges, baseado num livro escrito por Paul Brickhill,  inspirado em acontecimentos verídicos ocorridos durante a IIªGuerra Mundial onde prisioneiros de guerra aliados  planeiam fuga de um grande número dos seus pares dum campo de concentração nazi. O filme apresentava uma constelação de vedetas que incluíam Steve McQueen, Richard Attenborough, James Garner, Charles Bronson, James Coburn, Donald Pleasence, entre outros e mostrava  todo o planeamento e logística que envolviam a fuga. Tornou-se um clássico rapidamente, várias vezes imitado mas nunca superado e deu origem, ao longo das décadas seguintes, a uma série de filmes cuja temática girava em torno de prisões ou de fugas das mesmas, com maior ou menor qualidade.
   
O Argumentista e Realizador Frank Darabond
Realizado em 1994 por Frank Darabont, "Os Condenados de Shawshank" foi logo considerado um clássico contemporâneo pela sua abordagem original, fugindo ao convencional filme de prisão. A História, da amizade e esperança entre dois condenados numa prisão estadual, cativou a crítica e o público. Baseado num conto de Stephen King, é um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos.
Frank Darabond, argumentista de cinema e televisão, garantiu os direitos de adaptação desta história em 1983 depois de ter impressionado o escritor Stephen King com a adaptação de “The Woman in the Room”, um pequeno conto do escritor que transformou numa curta-metragem. Os dois tornaram-se amigos e Darabond, depois de ter obtido sucesso com o argumento partilhado  em “A Nightmare on Elm Street III: The Dream Warriors – O Pesadelo em Elm Street III” (Chuck Russell, 1987), comprou os direitos de adaptação do conto “Rita Hayworth and Shawshank Redemption” e optou por ser ele mesmo o realizador do filme. King, apesar dos problemas que costuma ter com a  adaptação das suas obras para o cinema, deu um voto de confiança ao aspirante a realizador.
Rob Reiner, que já tinha adaptado anteriormente o conto do escritor “The Body” e transformara no fabuloso “Stand By Me – Conta Comigo” (1986), tentou comprar os direitos a Darabond, que escreveria o argumento. O então realizador  planeava ter como protagonistas Tom Cruise no papel de Andy e Harrison Ford no papel de Red. Darabond considerou a proposta, entusiasmado com a visão de Reiner, mas declinou a oferta pois achou que era a altura certa para “fazer algo mesmo grande” ao estrear-se na realização.
   
“Os Condenados de Shawshank” cria uma espécie de calma nos sentimentos dos espectadores. Parece algo estranho para se dizer acerca dum filme que se passa dentro duma prisão. Enquanto na maior parte das produções do género, o espectador é confrontado logo com sentimentos e experiências indirectas e emoções violentas e superficiais, em “Os Condenados de Shawshank”, tudo isso abranda, fazendo com que o espectador faça parte daquela família. Utiliza a voz calma, porém observadora, do narrador para nos incluir na história de homens que formam uma comunidade atrás das grades: a esperança, a amizade e a sua continuidade pela vida fora, é mais profunda do que na maioria dos filmes e, neste caso, a sua maior diferença.
     
O que é interessante no filme e que também marca a diferença em relação a outros do género, é o facto de, apesar da personagem principal ser o condenado e ex-banqueiro, Andrew Dufresne, a acção nunca se vê do seu ponto de vista, mas sim do ponto dos companheiros de prisão. Tal ideia está perfeitamente espelhada na cena inicial quando Andy é condenado a duas sentenças perpétuas pelo assassinato da mulher e do amante dela, depois a cena muda (permanentemente) para o ponto de vista da população prisional, muito particularmente, de Ellis “Red” Redding (Morgan Freeman, extraordinário), é a sua voz que nos apresenta Andy (Tim Robbins numa das suas melhores interpretações) a lembrar-se de quando ele chegou a Shawshank e que prevê, erradamente, que Andy nunca sobreviveria na prisão.
   
Desde a chegada de Andy á prisão (naquele magnifico plano-sequência vertical) até ao final do filme, vemo-lo apenas como os outros o vêem: Red, que se torna o seu melhor amigo, Brooks, o velho bibliotecário, Norton, o director da prisão, os guardas e até mesmo os outros prisioneiros. Red acaba por ser aquele com quem nos identificamos e a redenção, de que fala o título original do filme, acaba por ser a dele; Red é o nosso infiltrado e Andy é o exemplo de que se deve manter a integridade total, ocupar e dividir o tempo, nunca perder a esperança e aguardar a nossa chance , todas estas ideias estão resumidas numa frase que, a dado momento, Andy diz a Red, “tudo se resume a uma simples escolha: ou te ocupas para te manter vivo ou arranjas maneira de morrer”. 
   
Outro aspecto que faz com que “os Condenados de Shawshank” seja diferente do resto dos filmes do género é a construção  da estrutura narrativa do argumento que nos empurra para a personagem de Andy e para o seu estranho comportamento dentro da prisão. Sem querer, interrogamo-nos: Quem é aquela personagem tão calada que se passeia no pátio da prisão como se fosse um homem livre enquanto os outros conspiram e se lamentam acerca da sua sorte? será que ele matou a mulher e o amante?  Se Darabond tivesse decidido que a personagem de Andy seria o centro heroico do filme, este teria sido certamente muito mais convencional e banal e muito menos misterioso.
     
   
Tim Robbins e Morgan Freeman
Antes de Tim Robbins e Morgan Freeman serem escolhidos para interpretar os papéis de Andy Dufresne e Ellis Boyd “Red” Redding, foram considerados para os respectivos papéis: Kevin Costner, Tom Hanks e Brad Pitt, que recusaram devido a conflitos de horários com outras produções em que se achavam envolvidos (respectivamente “Waterworld”, “Forrest Gump” e “Entrevista com o Vampiro”); para o papel de Red, apontaram-se os nomes de Clint Eastwood, Harrison Ford, Paul Newman e Robert Redford. A escolha acabou por recair em Morgan Freeman, porque Frank Darabond achou que a sua presença e comportamento eram suficientemente autoritários para ser ele o escolhido. Segundo Darabond, decisivo terá sido o curto diálogo, durante a leitura do argumento, entre Andy e Red quando aquele pergunta a este qual a origem da sua alcunha (“Red”) e Red responde “talvez por eu ser irlandês!”.
 
   
Bob Gunton como o Director Norton
Todo o elenco é magnifico nos seus papéis, mas  as escolhas de Clancy Brown como o Capitão Byron Hadley, chefe dos guardas que acha que o melhor para manter os prisioneiros nos seus lugares é moê-los com pancada e de Bob Gunton, como o director Samuel Norton, versado na Bíblia, apresentando-se como um homem pio, cristão devoto e aberto a inovações, revela-se na realidade como sendo corrupto,  impiedoso e sem escrúpulos, foram magníficas no que toca ao elenco secundário porque o espectador, mesmo tendo alguma compaixão por elas sensivelmente a meio do filme,  nunca deixa de as odiar completamente.
   
Todo o filme é suportado pela personagem de Red, ele é uma espécie de curvatura espiritual. Vemo-lo em três audições para obter a liberdade condicional: a primeira, e a mais bem conseguida de todas, graças a um truque de argumento, acontece logo após sabermos a sentença de Andy e quando vemos a auditoria, pensamos que já se passaram vários anos e que Andy vai tentar obter a liberdade condicional. Mas, não, afinal é quando vemos Red pela primeira vez a tentar convencer os auditores que está reabilitado; a segunda, ela já conhece os procedimentos e sabe o que o espera; na terceira, ele rejeita toda e qualquer possibilidade de ser reabilitado, já está muito para além dela e di-lo aos seus auditores, sentindo-se livre de qualquer constrangimento. Os auditores concedem-lhe a liberdade. Sobresiste um problema: na prisão: na prisão, Red é o rei, é  aquele que consegue arranjar tudo sem nunca se comprometer. Cá fora, ele não tem identidade ou qualquer “status” e, tendo visto, o que aconteceu a Brooks, só e abandonado em liberdade, o espectador é levado a recear pela sua vida. Mas, no último terço do filme, Andy ajuda Red a aceitar a sua liberdade, através de cartas e postais, e é visto através da mente de Red.
    Quando estreou, “Shawshank Redemption”, obteve boas críticas entre a imprensa especializada, mas fez  tão pouca bilheteira, que não conseguiu pagar-se: de 25.000.000 de dólares de orçamento, o filme apenas conseguiu 18.000.000 de dólares de receitas. Desde o facto de ter um título horrível, a ser demasiado longo e quase sem acção, mesmo tendo actores respeitados mas que não eram grandes vedetas, tudo foi usado para justificar o fracasso nas bilheteiras. Claramente se percebeu que este filme era daqueles que precisava de andar de boca em boca para encontrar o seu público. Rapidamente foi retirado das salas e só quando obteve as sete nomeações para os Oscares da Academia, incluindo uma para Melhor Filme do Ano, voltou ás salas e o público voltou as suas atenções para o filme, rendendo-lhe mais cerca de 10.000.000 de dólares.
   
Apesar de não ter ganho nenhum Oscar, o filme, ganhou outros prémios, desde então, ganhou uma nova vida e passou a fazer parte do “Top Five” das listas de críticos, imprensa especializada e é o filme  mais bem classificado (para quem segue estas classificações, 9.3/10) no IMDB, a base de dados cinematográfica da internet,  ultrapassado “O Padrinho”(1972), que foi, durante muitos anos o filme que tinha a mais alta classificação (9.2/10).
Frank Darabond construiu o filme para observar a história e não para a elevar ou encenar. A encenação não existe na obra, o filme avança ordeiramente e reflecte a passagem lenta das décadas. “Quando te colocam naquela cela”, diz Red a dado momento “Quando as barras se fecham, é quando sabes que é verdade” . Alguém disse que a vida é uma prisão, nós somos o Red, Andy é o nosso redentor.
Em 2004, no seu 10º aniversário “The Shawshank Redemption” foi incluído na lista do AFI (American Film Institute) como o 23º melhor filme de todos os tempos.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet







sábado, 27 de setembro de 2014

Kagemusha – A Sombra do Guerreiro


   
"Kagemusha”, é uma palavra japonesa que, literalmente, significa guerreiro-sombra, mas também pode ser usado (e, no caso deste filme, é) como um engano político, no sentido de enganar quaisquer potenciais adversários.
A acção decorre no japão do século XVI e conta a história de um criminoso de classe baixa que, devido á sua semelhança com um Senhor da Guerra  moribundo, se vê obrigado a aprender os seus  modos e os maneirismos de modo a poder personificá-lo, sob pena de ser condenado á morte, para evitar que outros Senhores da Guerra ataquem o clan agora vulnerável.
   
   
Akira Kurosawa e os seus samurais
Drama de Samurai, realizado por Akira Kurosawa, conhecido no seu país natal  como “O Imperador”. Foi ele quem deu a conhecer ao Ocidente este género cinematográfico único, através de clássicos como “Os Sete Samurais” (1954), “Yojimbo” (1961) ou “Sanjuro” (1962). Aos 70 anos de idade fez um épico sobre o efeito que o código dos Samurai, ou qualquer outro tipo de código moral e humano, tem na vida de um qualquer indíviduo.

   A genialidade desta obra resume-se na breve cena com que o filme começa: vêem-se três homens quase indistinguíveis uns dos outros: Shingen, o seu irmão, Nobukado, e um ladrão, que Nobukado encontrou por acaso e salvou da morte por crucificação acreditando que, a ver pela semelhança que ele tem com Shingen, ainda pode vir a ser útil, o que vem a acontecer quando Shingen é mortalmente ferido em combate. O clan Takeda decide então usá-lo como “Kagemusha” ou duplo e fazer acreditar aos seus inimigos que ele ainda está vivo.
   
Começa então um período de três anos (prazo estipulado pelo falecido Shingen até que a sua  morte possa ser anunciada), durante o qual o duplo é tratado por todos, até pelo filho e pelas suas amantes, como se do verdadeiro Shingen se tratasse. Só apenas os seus conselheiros é que sabem da verdade, o que permite que cada cena seja construída com alguma ironia: é importante que tanto os amigos como os inimigos acreditem que Shingen continua vivo; a sua aparência e, por acréscimo a sua sombra, cria, não só, respeito  como também cautela entre os seus amigos e os inimigos. Se for desmascarado, torna-se inútil; mas como duplo de Shingen, pode mandar centenas de homens morrer em batalha, e a sua guarda pessoal de bom grado que dará a própria vida por ele. Mas, no seu íntimo, sente-se um inútil e quando é desmascarado, é banido por todos.
   Qual é a ideia de Kurosawa  nesta sua obra? A ideia é mostrar um contraste que existe ao longo do filme entre dois tipos de cenas: as cenas de batalha e as cenas mais intímas. Nas primeiras, grandiosas e épicas, carregadas de imagens de beleza indiscritível ( como a marcha das tropas contra o sol vermelho incandescente; o ataque noturno ao castelo e a tomada deste; assim como a batalha final, que não é vista mas apenas ouvida e no final aquilo que vemos são imagens duma carnificina que tanto tem de belo como de horrível).
   Por outro lado, as cenas íntimas que se passam entre as quatro paredes da sala do trono, dos quartos, dos castelos, são de cortar a respiração, já que o duplo de Shingen é testado em reuniões com o seu filho (grande momento cinematográfico quando lorde Katsuyori, numa reunião do clan, iludindo os seus conselheiros, lhe pergunta directamente o que deve fazer, a resposta do “Kagemusha” é a que se esperava de Shingen, tornando ainda mais real e total a perda da identidade), com o neto  e também as suas amantes. Eles conhecem-no bem e se não se deixam enganar (grande cena quando o neto diz que o duplo não é o seu avô, mas que depois acaba por o reconhecer), percebe-se que toda aquela  encenação será completamente desnecessária pois o clan Takeda perdeu o seu “frontman”, a sua figura principal, o seu líder; o que dá força ao clan é a ilusão criada de que Shingen ainda existe, está vivo e essa é a sua realidade, e ninguém, como Kurosawa, mestre na encenação, consegue mostrar tão bem estes contrastes.  
    Mas em “Kagemusha” existe ainda uma outra luta que se sobrepõe ao domínio de um homem que se deixa dominar pela sua própria imagem: a do filho, lord Katsuyori, que, no desejo de superar a imagem do seu pai, vai conduzir os exércitos do clan Takeda á perdição total ( numa cena genial, no castelo junto ao lago Suwa, onde repousam os restos de Shingen, um conselheiro felicita Katsuyori pela vitória obtida e este queixa-se que a vitória não se deveu a si mas sim á presença do pai, personificado pelo “Kagemusha”). O próprio duplo, perante a inevitável queda do clan Takeda, sabe que a sua existência não tem sentido pois os mortos não têm sombra e, após ser dispensado dos seus serviços, só lhe resta morrer como os outros, não sem antes, depois da batalha final, procurar, no lago, o corpo daquele de quem foi sombra durante três anos. Numa das cenas mais assombrosas desta obra-prima da sétima arte, o realizador, tal como no início, encerra este épico com uma cena que resume tudo: a cena onde o corpo do “Kagemusha”, arrastado pela corrente, flutua ao lado do estandarte do clan Takeda, diz-nos que as ideias e os homens são fruto de um certo tempo e o seu significado histórico só existe quando ambos acontecem ao mesmo tempo e da mesma maneira.
   
A ideia inicial do realizador japonês remontava ao final da década de 60,  era fazer um filme intitulado “Ran”, mas vários constrangimentos, nomeadamente o financeiro (sómente em 1985 é que o grande projecto do mestre japonês teria luz verde para ver a luz do dia), forçaram o realizador a optar por algo parecido. Nascia assim a ideia de “Kagemusha” que, na ideia de Kurosawa, era algo semelhante a “Ran”.  Sem grandes apoios, principalmente no seu país natal, ele fez, em 1970, “Dodeskaden – Pouca Terra…Pouca Terra” um filme pessoal e intimista que não foi um grande sucesso. Cinco anos depois, com o apoio de um produtor independente soviético, filmou o fabuloso “Derzu Uzala – A Àguia das Estepes” (1975) a história da amizade entre um militar soviético e um velho caçador. Filmado na estepe russa, o filme foi um enorme sucesso internacional e ganhou o Oscar da Academia para Melhor Filme Estrangeiro  e fez com que o mestre japonês se pudesse abalançar a vôos mais altos. Entre recuos e avanços na pré-produção,  mais cinco anos se passaram. Finalmente, em 1980, “Kagemusha” tomou forma. Sensivelmente, a meio da rodagem, Kurosawa apercebeu-se que não iria conseguir terminar a rodagem do filme por falta de orçamento. Com os apoios nacionais fechados, viu-se na eminência de ter que obter financiamento internacional. É então que entram em cena os produtores/realizadores George Lucas e Francis “Ford” Coppola.
O Mestre japonês, Francis F. Coppola e George Lucas
   
Admiradores confessos do realizador, Lucas e Coppola aceitaram financiar o resto da produção e ficaram também responsáveis pela distribuição internacional da obra. Creditados no final da obra como Produtores Executivos, permitiram que a versão do filme  exibida na europa e nos estados unidos fosse de 179 minutos, que correspondiam exactamente á ideia que o realizador tinha, cerca de vinte minutos mais longa do que a versão estreada no japão, país que nunca permitiu que a versão internacional lá fosse exibida, provavelmente por ter sido completada com créditos internacionais.
   

Estreado em abril de 1980, o filme foi um enorme sucesso, tanto da crítica como do público que se rendeu á grandiosidade do filme, no japão onde foi nº 1 na bilheteira, fazendo cerca de 26.000.000 de dólares. Um mês depois da sua estreia nacional, o filme foi exibido, com pompa e circunstãncia, na presença do realizador e dos produtores executivos responsáveis pela versão internacional, no prestigiado festival de Cannes. O filme foi um triunfo absoluto no festival, já que recebeu a Palma de Ouro “ex-aequo” com “All That Jazz – O Espectáculo vai Começar”, o filme semi-autobiográfico de Bob Fosse. O filme receberia ainda uma nomeação para os Globos de Ouro, duas nomeações para os Oscares. Em itália o filme foi nomeado para dois prémios “David di Donatello” para melhor Realizador Estrangeiro e Melhor Produção Estrangeira e venceu os  dois. Em 1981 receberia o César (oscar francês) para Melhor Filme Estrangeiro.
 
   
“Kagemusha - A Sombra do Guerreiro” acaba por ser um filme complexo mas ponderado, que Akira Kurosawa conseguiu transformar numa obra simples, ousada e intensa onde o realizador parece sugerir que não importa que as crenças sejam ou não baseadas na realidade, o que importa é que os homens acreditem nelas. Genial.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet.








domingo, 14 de setembro de 2014

The Departed – Entre Inimigos



   
É sabido que remakes estão na ordem do dia, , mas nem todos são bons ou estão sequer ao nível do original. " The Departed - Entre Inimigos" é uma excepção.
Baseado num filme de Hong Kong de 2002 chamado "Internal Affairs - Infiltrados" rrealizado por Andrew Lau e Alan Mak, que no seu país foi um grande sucesso e deu origem a uma trilogia. Martin Scorcese viu o original, gostou e quis fazer uma versão adequada ao ocidente e, mais em particular, à América.
     Em janeiro de 2003,  Brad Grey, produtor da Warner Bros. E o actor/produtor Brad Pitt, seguinfdo a recomendação de Martin Scorsese, compraram os direitos de adaptação/remake de “Internal Affairs” á  Media Asia, a companhia que detinha os direitos do filme original, pela quantia de 1.75 milhões de dólares. Pitt e Scorsese assegurariam a produção e William Monahan, a quem fora encomendado a adaptação do argumento, seria o realizador. Mais tarde, em janeiro de 2004, sem qualquer explicação avançada, Scorsese  foi anunciado como o realizador do filme, mantendo-se Monahan como argumentista.  A acção centrava-se em Boston; Brad Pitt, além de produtor, seria também actor e no elenco constava também Leonard DiCaprio. Pitt, no entanto, acabaria por desistir do  papel e manteve-se apenas como produtor. No início de 2005, o filme recebeu luz verde da Warner Bros. E começou a ser rodado na primavera desse mesmo ano com as filmagens a decorrerem em Boston.
   
O que faz “The Departed – Entre Inimigos” um filme de Martin Scorsese e não apenas um mero remake, igual a tantos outros que por aí andam? é, não só, a utilização dos actores, dos locais onde se passa a acção,  a energia que desta utilização emana e, principalmente, o tema que subrepticiamente o percorre, uma espécie de tema enterrado dentro do filme: trata-se de um filme não acerca daquilo que é, mas acerca de como é que é. Esta é a verdadeira essência dum filme de Scorsese.
   
A maior parte dos filmes do realizador são sobre homens  que se tentam aperceber daquilo que são, tentam alcançar uma imagem do seu próprio intímo. É assim com Travis Bickle de “Taxi Driver”, ou com Jake LaMotta em “Touro Enraivecido” e, porque não,  com Jesus Cristo em “ A Última Tentação de Cristo”. Em “Entre Inimigos” passa-se basicamente o mesmo, ou seja, é a história de dois homens que tentam viver as sua vidas públicas radicalmente opostas ao seu próprio intímo. As suas tentativas ameaçam destrui-los a ambos, por implosão ou por traição fatal. A narração das suas vidas envolve uma espécie de labirinto moral no qual o bem e o mal usam a máscara um do outro.
    Este filme é um filme de polícias e gangsters, muitas vezes comparado a essa obra-prima do realizador intitulada “GoodFellas – Tudo Bons Rapazes” (1990), só que saltam á vista diferenças fundamentais que os tornam diferentes: enquanto em “GoodFellas” a acção se passa em Nova York, “The Departed” passa-se em Boston; Henry Hill (Ray Liotta) sonha em tornar-se um gangster e tudo faz para agradar e ser aceite no meio, em “Departed”, porém,  essa vontade de ser alguém  não existe e, no seu lugar, temos dois jovens que crescem como impostores: um torna-se polícia e infiltra-se como gangster, o outro torna-se gangster e vai viver infiltrado como polícia. Esta diferença é fundamental entre os dois filmes e é sobre esta diferença que o genial argumento de William Monahan triunfa dentro do filme.
     
Filme de enganos, onde ninguém é aquilo que diz ser, o que torna a tensão, ao longo do filme, grande, por vezes insuportável e depende da natureza humana de cada um: Após alguns anos, ambos os homens identificam-se plenamente com o papel que estão a desempenhar e não conseguem dar um passo sem terem a aprovação daqueles que estão a enganar. A relação pai-filho percorre o filme todo. Frank Costello actua como um pai para Sullivan e Costigan, enquanto o capitão Queenan funciona como uma espécie de contraponto a Costello na figura paternal. Sullivan refere-se a Costello como pai sempre que o informa das actividades da polícia. A cena final, onde se vê um rato a passear na janela é o melhor resumo de todo o filme, já que simboliza a temática central de toda a obra (a procura do infiltrado) e a sensação de desconfiança que reina entre todas as personagens.
O filme  mostra-nos um lado da máfia Irlandesa, cujo inicio, na américa, Scorsese já havia mostrado no magnifico "Gangs de Nova York" (2002), funcionando este filme, apesar da acção se centrar em “Five Points”, um bairro  de emigrantes  na Nova York do século XIX, como uma espécie de prólogo a “Entre Inimigos”.
   
Trabalhando com um elenco magnifico onde pontuam as interpretações de Jack Nicholson, no papel de Frank Costello, o gangster á volta do qual gravitam todas as personagens, principalmente Collin Sullivan e Billy Costigan. O actor faz mais uma das suas personagens (inspirada num famoso gangster irlando-americano, Whitey Bulger, o que transmite ao filme uma sensação de realismo) “bigger than life” a que já nos habituou na sua longa carreira; Leonardo DiCaprio é Billy Costigan, o polícia infiltrado como gangster que Costello toma debaixo de sua protecção. Cada vez mais um actor de Martin Scorcese, aqui na sua terceira colaboração com o realizador, mostra mais uma vez ter sido uma aposta certa; Matt Damon interpreta Colin Sullivan, o miúdo “adoptado” por Frank Costello, que, a pedido deste, se infiltra como polícia para poder informar o seu “padrinho” de quaisquer movimentações que haja contra ele. Damon tem aqui, depois de Jason Bourne, o seu melhor papel num filme de acção. De salientar que também  os secundários Vera Farmiga, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone e Alec Baldwin, entre outros, brilham.
   
A realização de Martin Scorsese é, como sempre, sem mácula. Conta a história, mostra-nos sentimentos e violência tudo filmado a um ritmo alucinante servido por um bom argumento onde não falta uma engenhosa adição de aparelhos modernos como telemóveis ou computadores, o que leva Scorsese a levantar diversas questões que não deixam de ser pertinentes e também preocupantes; como “quando os caminhos dos dois homens infiltrados, se cruzarem, como deve acontecer, será que eles se irão encontrar em cada extremidade da mesma chamada telefónica?” ou “quando os polícias souberem que existe um informador no seu seio, será que vão o informador para se encontrar a si próprio?” Scorsese responde, a esta dramatização das armadilhas e traições da vida dos infiltrados,  com uma das mais bem conseguidas falas de todo o filme, quando a um deles é dito “eu dei-te a morada errada, mas tu foste ter á correcta!”.
   
Estreado em outubro de 2006, o filme , que custou cerca de 90.000.000 de dólares, rendeu nas bilheteiras nacionais e internacionais qualquer coisa como cerca de 289.847.354 de dólares, tornando-se no terceiro filme do realizador a posicionar-se no primeiro lugar nas bilheteiras logo no dia de estreia. Universalmente aclamado como uma das melhores obras do realizador da década, viria a ganhar, em janeiro de ano seguinte, o Globo de Ouro para Melhor Realizador, uma das seis nomeações que o filme tinha.

   
Vencedor de quatro Óscares da Academia, para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento e Melhor Montagem, "Entre Inimigos", não sendo o melhor Scorcese e, talvez aquele que menos  merecesse levar os prémios da academia, quando comparado com “Taxi Driver”, O Toiro Enraivecido”, “Tudo Bons Rapazes” ou até mesmo “Gangs de Nova York”, estas sim, verdadeiras obras-primas do realizador, fica como uma obra acima da média e que lhe deu o tão almejado Oscar da Academia que há tantos anos lhe fugia e que já era por demais merecido.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet



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