sexta-feira, 28 de março de 2014

Kraftwerk - Os Pais do Techno-Pop



   Os “Kraftwerk” que em português significa “Central Eléctrica”,  foram e, ainda são, um dos grupos mais influentes do rock na sua vertente mais electrónica.. Nascidos no boom do então chamado “Rock Progressivo”, a sua sonoridade combina ritmos repetitivos, melodias simples  conduzidos  por um estilo clássico ocidental harmonioso, minimalista e instrumentação electrónica. Durante a década de 70 e início da década de 80 do século passado, as suas sonoridades foram revolucionárias, influenciando diversos estilos de música moderna.
   
O grupo foi formado em Dusseldorf, em 1970, por Florian Shneider e Ralf Hutter, ambos estudantes na escola Robert Schumann,  onde  se conheceram nos finais da década de 60 enquanto participavam num movimento experimental que incluía arte e música e que ficou conhecida como “Krautrock” (Rock Alemão).  O duo, inicialmente, tocava com um quinteto conhecido como “Organisation” e que lançou o álbum “Tone Float” em 1970, mas rapidamente se separaram,  á excepção de Schneider e Hutter que permaneceram juntos e lançaram os fundamentos de “Kraftwerk”.
   As formações iniciais de Kraftwerk variaram entre 1970 e 1974, já que Hutter e Schneider trabalharam com mais de uma dúzia de músicos diferentes durante a gravação dos três primeiros álbuns e esporádicas aparições para concertos ao vivo; presenças constantes foram as do guitarrista Michel Rother e do baterista Klaus Dinger , que saíram para formar o grupo “Neu!”. O único membro constante em todas as formações foi Florian Schneider, já que Ralf Hutter saiu do grupo durante seis meses, em 1971, para terminar o seu curso de arquitectura.
   Os três primeiros álbuns foram experimentais, livres da disciplina musical que haveria de preencher os seus trabalhos futuros. “Kraftwerk”, foi editado em 1970,  e “Kraftwerk 2”, editado em 1972, eram mais á base de improvisações musicais (ao estilo “Jam sessions”) feitas com instrumentos musicais tradicionais como a guitarra,  baixo, bateria, órgão eléctrico, aos quais juntavam por vezes violino e flauta. Ambos os álbuns eram completamente instrumentais. Nos concertos de 1972 e 1973, apresentavam-se como dueto, usando uma caixa de ritmos simples que substituía a bateria, com ritmos pré-gravados retirados dum órgão eléctrico.  No final de 1973, Wolfgang Flur juntou-se ao grupo nos ensaios e, como trio, gravaram um especial para o canal televisivo alemão ZDF.
   Já com o álbum “Ralf und Florian”, editado em 1973, os Kraftwerk aproximaram-se da sonoridade que os caracterizaria futuramente, apoiando-se mais nos sintetizadores e na caixa de ritmos. Apesar de ser todo instrumental na sua totalidade, este álbum marca a primeira utilização do vocoder (deformador de voz), que viria a ser uma das assinaturas do grupo. O som futurista e robótico do grupo foi influenciado pela revolta energética que alguns artistas de Detroit, como “MC5” ou os” Stooges”,  levaram a cabo nos finais da década de 60.
   
Em 1974 “Autobahn” veio internacionalizar. Ainda não sendo totalmente electrónico, já que flautas, violinos e guitarras ainda são utilizados ao lado dos  sintetizadores, mas começa a aperceber-se uma certa disciplina no som do grupo, orientado numa só direção,  afastando-o do dos álbuns anteriores. O tema-título tem a duração de 22 minutos, é intencionalmente longa pois pretende transmitir a sensação de se viajar numa autoestrada: desde que se liga o automóvel, a concentração na condução para não se ser distraído pela paisagem, ligar o rádio, e a monotonia duma longa viagem. Descreve a A555,  foi a primeira autoestrada construída, entre 1929 e 1932, de Koln até Bona, sem qualquer cruzamento.
   “Autobahn”, cuja capa original mostrava a autoestrada vista do habitáculo dum carro onde se pode ver no tablier o desenho dos membros do grupo, foi pintada pelo artista gráfico Emil Schult que veio a tornar-se um colaborador do grupo em álbuns futuros, foi um enorme sucesso comercial em todo o mundo. O tema que dá nome ao álbum foi editado em single, numa versão reduzida de pouco mais de três minutos para  apresentação ao público. O álbum, editado em novembro de 74, serviu de suporte a uma tournée mundial que levou o grupo, agora transformado num quarteto com a entrada dos percussionistas Wolfgang Flur e Karl Bartos,  pela primeira vez aos Estados Unidos e Canadá onde obtiveram um enorme sucesso.
   
Depois da tournée de 1975, o grupo, revigorado pelo sucesso obtido,  começou a trabalhar no álbum seguinte e ficou decidido que teria um tema central. Emil Schult escreveu as letras e o grupo escreveu a música. Em outubro de 1975 “Radio-Activity” viu a luz do dia. Diferente dos álbuns anteriores onde apenas existiam letras em inglês, o novo álbum apresenta-se como um álbum bilíngue com letras em inglês e alemão e é também considerado um “Concept Albun” graças a algum humor mordaz do próprio grupo (contrastando com a rígida imagem robótica que apresentam), sugerindo no próprio título, que o álbum pode-se dividir em duas partes distintas: uma sobre a radioactividade (implícita no próprio tema-título); a outra sobre a atividade na rádio (suportada, á primeira vista, pelo tema “Radio Stars”, mas que depois se percebe que é sobre outro assunto). Uma vez mais se percebeu que a aposta do grupo era avançar para temas mais pop com ritmos electrónicos á mistura e deixar para trás as experimentações “avant-garde”.
   
Durante quase todo o ano de 1976 o grupo esteve em tournée para promover o novo álbum, cujas vendas, na Grâ-bretanha e no mercado americano, não obtiveram o sucesso que alcançou noutros mercados europeus, o que lhes permitiu ganhar um Disco de Ouro em França. David Bowie, cantor pop, entusiasmado com o som do grupo alemão, convidou-os para fazer as primeiras partes dos seus concertos de promoção ao álbum “Station to Station”, mas, devido a outros compromissos, o grupo teve que recusar. Inovando cada vez mais nas suas actuações ao vivo,  os “Kraftwerk”, após terminarem a tour de apresentação de “Radio-Activity”, fizeram um intervalo nos concertos até final do ano.   Logo no início de 1977, o grupo entrou em estúdio para iniciar a gravação de um novo álbum. Traziam no bolso uma série de temas sugeridos por amigos e familiares, temas que, continuando a via iniciada em “Autobahn”, falassem do “Trans Europe Express”, a série de comboios rápidos que percorriam a europa desde os anos 50; outras sugestões iam da direção de música  que reflectisse o seu próprio estilo musical.
   
Em março de 1977, “Trans-Europe Express” surgia no mercado.  Foi com grande satisfação que se percebeu que o grupo continuava a afastar-se cada vez mais do estilo de improviso que caracterizara o seu começo e cada vez associa um formato melódico e electrónico, bem patente nos dois temas extraídos do álbum e editados em single, “Trans-Europe Express” e “Showroom Dummies”, o primeiro fazia uma generosa referência aos cantores pop Iggy Pop (de quem os elementos do grupo eram fans) e David Bowie, porque este os convidara a actuar nos seus concertos; o segundo, como que a agradecer o Disco de Ouro que o grupo ganhou, foi gravada uma versão em francês intitulada “Les Mannequins”. Original foi também a apresentação do álbum: a editora EMI alugou um comboio com carruagens antigas da década de 30, no qual, durante a viagem, entre Paris e Reims, ao som dos temas do álbum, o grupo fez a sua apresentação aos críticos. Entre o espanto e  a admiração dos críticos, e a recepção positiva nos diversos mercados internacionais,
“Trans-Europe Express” deu continuidade á conceptualidade iniciada com “Radio-Activity”, dividindo-o em temas: um, uma meditação sobre as disparidades entre realidade e imagem, patente em “Showroom Dummies” e “Hall of Mirrors”; o outro, a glorificação da europa, que surgem nos temas “Europe Endless” e “Trans-Europe Express”
O álbum viria a influenciar a música, principalmente no período pós-punk  quando surgiram grupos como “Joy Division”, “New Order”, “Human League”, “Orchestral Manouvers in the Dark”, ou “Depeche Mode”, entre muitos outros, que viriam a marcar a música. Muita da sua sonoridade foi inspirada nos ritmos electrónicos do álbum. Seguiu-se nova tournée com um êxito sem precedentes, apenas comparável ao sucesso que o grupo voltaria a obter com a tournée mundial que faria no início do século XXI.
   
O álbum seguinte do grupo seria o ponto mais alto do grupo em termos discográficos e, por muitos, considerado a sua obra-prima e um dos melhores álbuns da história da música. “The Man-Machine”. Editado em maio de 1978, trazia consigo aquela que ainda hoje é considerada a melhor música de pop-rock electrónico de sempre: ”The Model”, é um tema que, na altura, foi considerado como estando muito á frente do seu tempo, com um ritmo contagiante, totalmente electrónico, com uma letra simples, o tema foi um enorme sucesso e cimentou ainda mais a já grande importância que o grupo já adquirira a nível mundial.
Tal como os álbuns anteriores, “Man-Machine” mantém a mesma divisão conceptual, com temas como “Spacelab”,  “Robots” ou “Man-Machine” dedicados á ficção científica e as ligações entre humanos e a tecnologia; outros como “Neon Lights” ou “Metropolis” , ou mesmo “The Model” falam do  deslumbre da urbanização, alienação e da futilidade da fama e, também, como o seu antecessor, viria a ter um enorme impacto no movimento musical neo-romântico que surgiu na Inglaterra no início da década de 80. Era tempo de nova pausa para o grupo.
   
A pausa iria durar três anos até um novo álbum de Kraftwerk  ver a luz do dia. Aconteceria em maio de 1981, “Computer World” foi editado e, felizmente para os fans, o grupo manteve-se fiel ao seu som. A temática, desta vez, era sobre a ascensão dos computadores dentro da sociedade.  Usando novamente algum humor mordaz  em “Pocket Calculator”, o grupo conseguia um equlibrio quase perfeito entre a utilização desta nova tecnologia (acessível a todos) e o admirável mundo que se abria aos olhos (e ouvidos!) “By pressing down a special key, it plays a little melody…”. Já com o tema que dá título ao álbum, o grupo acentua os perigos dessa tecnologia, ao detalhar algumas organizações presumivelmente todas elas ligadas em rede. Ao fazer uma aproximação ás novas tecnologias, através do uso da interactivade sequencial de todo o seu equipamento, o grupo permitia-se espaço para alguma improvisação e assim fizeram-se á estrada novamente com a “Computer World Tour 1981”, a mais ambiciosa tournée que o grupo alguma vez havia feito, que incluía projecção de slides e filmes, em écrans apostos por detrás das quatro figuras robóticas que eram os músicos, perfeitamente sincronizados com a música e vocalizações minimalistas, executadas com perfeição milimétrica, além da utilização de mini-computadores com os quais executavam os seus temas e a utilização de robots, réplicas perfeitas dos quatro músicos, que tocavam em palco o tema “Robots”. Esta é uma imagem difícil de esquecer a que portugal teve oportunidade de assistir, quando da passagem do grupo Lisboa, em 2004, num Coliseu dos Recreios completamente cheio de público que variava entre os 12 e os 70 anos, naquele que terá sido um dos concertos mais inesquecíveis de sempre.
   Em 1982, o grupo, começou a trabalhar num novo álbum inicialmente intitulado “Technicolor”, mas problemas relacionados com direitos de marca registada, foi renomeado para “Techno Pop”.  Após várias sessões de gravação, as ideias pareciam ter-se esgotado e apenas conseguiram produzir o tema “Tour de France” que seria editado em 1983. Este tema surgiu numa altura em que Ralf Hutter desafiara os seus companheiros de grupo a se dedicarem ao ciclismo como forma de recuperarem do desgaste físico que a tournée de 1981 lhes provocara.
Durante as gravações em estúdio, Ralf Hutter teve um acidente sério de bicicleta durante um passeio com a namorada. Esteve vários dias em coma profundo e pensou-se que nunca mais recuperaria e as gravações  tiveram que ser interrompidas por tempo indeterminado. Ao mesmo tempo as fricções entre os restantes membros da banda  começaram a vir ao de cima e culminaram com a saída de Wolfgang Flur  em 1987.
   
Entre avanços e recuos,  Flur, cujo papel de percussionista  se começara a apagar quando o grupo começou a utilizar sequenciadores, queria sair mas aceitou ainda participar no novo álbum logo que Hutter foi dado como curado, o grupo regravou e misturou os temas que tinham e finalmente fizeram um novo álbum que viu a luz do dia em dezembro de 1986. “Electric Café” assim se intitulou o trabalho. Considerado um trabalho infame pelo tempo que demorou a produzir, percebe-se a falta de inspiração que o grupo sofreu e, excluindos os temas “Technopop” e “Musique Non-Stop” que mostram alguma garra e ritmos adequados, o resto do álbum é um completo vazio de ideias e sem qualquer orientação musical. Ao ouvi-lo, Fica-se com a ideia de que o grupo se deixou apanhar pela música pop e deixou de inovar. O resultado foi que o álbum foi completamente ignorado pela crítica e pelo público que praticamente lhes virou as costas. Como um azar não vem só, o grupo, além de Wolfgang Flur,  viu partir também Karl Bartos em 1991. Apesar de pontualmente substituídos por outros músicos, o grupo iria desaparecer da cena musical durante quase 20 anos, apesar de, em dezembro de 1999,  editarem um tema intitulado “Expo 2000”.
   
Durante os anos em que se retiraram voluntariamente de cena, os Kraftwerk , apesar de algumas aparições esporádicas em festivais, concertos ou eventos especiais, lançaram o álbum “The Mix” (1991) onde apresentaram os seus  (e dos fans) temas favoritos, misturados e com alguns ritmos dançáveis. Foi uma espécie de cartão de apresentação a uma nova geração que estava a nascer, uma geração que só só conheceu o grupo e a sua música nas discotecas e no mercado da música de dança, o que levou a que a sua música fosse considerada e catalogada como “Música de Dança e Novas Tendências!” , que falta de gosto e completa ignorância.
   Em agosto de 2003, após 17 anos de ausência dos estúdios, o grupo,  reformulado, edita “Tour de France – Soundtracks” cuja ideia principal era louvar o ciclismo e para isso, nada melhor do que aproveitar o centésimo aniversário da primeira Volta á França em Bicicleta que aconteceu em 1903. Apesar de terem perdido o “timing” do tour, o lançamento do álbum, causou grandes expectativas entre no mundo da música e estas não foram goradas. 
   
O tema-título era uma nova versão  do tema de 1983, com algumas diferenças a nível sonoro e  de letra, já que a nova versão incluía referências a momentos-chave da prova e, através das novas tecnologias, conseguia reproduzir o poderoso som de ciclistas a pedalar.  Excluindo a repetição do tema no final do álbum, O resto do álbum pouco tem a ver com ciclismo. Hutter and Schneider compuseram algumas peças com temáticas próximas do ciclismo como “Aero Dynamik”, “Titanium”, “Chrono” ou “Vitamin”, Com as duas últimas peças conceptuais a tocaram os dois extremos do grupo: “Chrono” a  mais próxima do som marcante do grupo; enquanto “Vitamin” é aquela que mais se afasta desse mesmo som.
   Mesmo não atingindo a perfeição sonora dos  momentos mais altos da carreira do grupo, “Tour de France – Soundtracks” foi um sucesso enorme e que os encorajou a fazer uma extensa tournée mundial,  que originou o  primeiro e único (até ao momento) álbum ao vivo do grupo que se chamou “Minimum-Maximun” e que seria editado em junho de 2005. Ao longo de 22 temas (ou 23, no caso da edição alemã), o público é confrontado com versões perfeitamente executadas, vibrantes, pelas quatro figuras praticamente imóveis em palco, servidas por uma sucessão de imagens exibidas em écrans tri-dimensionais, perfeitamente sequenciadas, dando a sensação de se estar realmente lá!
Pioneiros do chamado electro-pop, o grupo, ao longo da sua carreira tem sabido brindar o público, novo e antigo, com o que de melhor se utiliza em termos tecnológicos e,  como tal, merecem um lugar á parte no grande universo da música.
  Em Janeiro de 2014, a Academia dos prémios da música, premiou o grupo com um “Grammy”  pela sua carreira.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




sábado, 8 de março de 2014

2010 – O Ano do Contacto - A Montanha pariu um Rato

     

   
    Aproveitando o facto de já ter passado o ano mítico descrito por Arthur C.Clarke no seu fabuloso livro "2010: Segunda Odisseia", publicado em 1982, nada melhor do que comentar o filme do mesmo título, realizado em 1984 (outra data mítica...será coincidência?) por Peter Hyams.
Passaram-se nove anos desde que a  missão da "Discovery One"  a Júpiter falhou, resultando na morte de quatro astronautas e o quinto, Dave Bowman, desapareceu após estacionar a nave na órbita do planeta.  Heywood Floyd, na altura chefe do Programa Espacial, foi considerado culpado pelo falhanço da missão  e demitiu-se do cargo  e foi dar aulas para a Universidade de Hawaii.
 Num mundo á beira dum novo confronto mundial, a nave espacial russa "Leonov", levando a bordo uma expedição conjunta americano-soviética, parte para tentar descobrir o que aconteceu realmente em 2001...o que é o Monólito Negro? e que significado terão as ùltimas palavras de Bowman antes de desaparecer: "Meu Deus, está cheio de estrelas!"?

   Baseado no romance do mesmo título, que Arthur C.Clarke nunca quis escrever por achar que nada mais havia a escrever sobre o assunto e que só o fez após grande insistência dos seus leitores, parecia que as questões levantadas no filme anterior iriam ser finalmente respondidas...engano! porque Arthur C.Clarke apenas respondeu a uma parte das questões, reservando o resto das respostas para os volumes subsequentes. Quanto ao filme de Hyams...receio bem que a montanha tenha parido um rato!
   Quando  se começou a falar na possível adaptação do romance ao cinema, o primeiro nome que veio à baila foi o de Stanley Kubrick ou não tivesse sido ele o realizador dessa obra-prima seminal chamada "2001:Odisseia no Espaço" (1968). Arthur C. Clarke, já em 1982, quando o livro foi publicado, tinha falado com Kubrick e tinha brincado com o realizador dizendo-lhe “a tua obrigação é impedir que qualquer um faça um possível filme, para que eu não seja incomodado”. Quando  Kubrick não se mostrou interessado em realizar o filme, alegando, tal como Clarke, que nada mais havia a dizer e o projecto parecia destinado a ir parar à gaveta. Surge então o nome de Peter Hyams que, sendo fan da obra de Kubrick, disponibilizou-se de imediato a realizar a adaptação caso fosse para a frente. Diz o realizador:
 “ eu tive uma longa conversa com Stanley Kubrick e disse-lhe o que se estava a passar, se tivesse a sua aprovação, eu faria o filme, se tal não acontecesse, eu não o faria, nem sequer me passaria pela cabeça fazê-lo. Kubrick respondeu-me simplesmente assim “Claro, vai fazê-lo , eu não me interessa voltar ao tema…” e, posteriormente, ainda me disse “não tenhas receio.  Vai e faz o teu próprio filme…””
   
Enquanto escrevia o argumento em 1983, Peter Hyams, a partir de Los Angeles, começou a comunicar com Arthur C.Clarke que residia no Sri Lanka, através do então pioneiro media E-Mail. Os dois discutiam o planeamento e produção do filme diariamente através deste método que veio revolucionar os meios de comunicação nas décadas subsequentes.
   Peter Hyams tinha já realizado o curioso "Capricorn One – Capricórnio Um" (1978) onde se contava a história de uma missão a marte que afinal acabava por não acontecer, apesar de toda a gente pensar que sim e que apenas a investigação dum jornalista ameaça provar o contrário; "Outland – Atmosfera  Zero"(1981), uma interessante  variação de ficção científica ao clássico western  "O Comboio apitou Três Vezes" (Fred Zinnemann, 1953) onde Sean Connery fazia o papel que fora de Gary Cooper; ou ainda "Star Chamber – A Câmara Secreta" (1983) um original thriller de tribunal com Michael Douglas no papel dum juiz, fiel á letra da Lei mas que se vê obrigado a, juntamente com outros juízes, fazer  justiça á margem daquilo que defende nos tribunais. Ele parecia ser o realizador indicado para tornar os cenários imaginados por Clarke numa realidade. 
   Mas Hyams elevou demasiado a fasquia e algures durante a produção perdeu o norte e perdeu-se nos meandros da obra. Ao esquecer, por exemplo, todo o capítulo do livro dedicado á nave chinesa "Tsien" que despoleta toda a situação que levará a desenvolvimentos importantes, trocando-o por uma situação potencialmente explosiva na terra ( as duas potências, Estados Unidos e Rússia prestes a entrar em guerra...quantas vezes é que já vimos este filme?) banalizou um filme que nunca o deveria ser.  
   
Ao retirar toda a poesia e mistério do filme original assim como aquela sensação de antecipação e maravilha que sentimos no final de “2001”, bem  como todo o final é inadequado,  soa a forçado, de tão simples que se torna, Peter Hyams pretendeu simplificar uma coisa que não o é (quem tenha lido o livro perceberá aquilo que quero dizer) e com essa opção perdeu a aposta. Mas se o próprio autor, que colaborou na adaptação do livro e faz uma aparição no filme  (quando Heywood Floyd se encontra com o seu amigo em Washington, Arthur C.Clarke e o velho que está a dar de comer aos pombos sentado no banco ao lado), ficou satisfeito com a abordagem de Hyams, quem somos nós para dizer o contrário? O realizador permitiu-se ainda uma piscadela de olho aos dois mentores de “2001: Odisseia no Espaço”: na cena em que Dave Bowman  (ou o seu espírito?) visita a sua mãe no lar, vemos na capa da revista “Time”, que fala das tensões americano-soviéticas , o rosto dos dois presidentes, em que Arthur C. Clarke representa o presidente dos estados unidos e Stanley Kubrick  o presidente soviético.
O piscar de olhos aos mentores do filme original
   "2010-Ano do Contacto" acaba por ser um filme honesto, sem pretensões a obra-prima, que se vê com agrado e do qual não se pretenda tirar ilações, consegue, inclusivamente, continuar “2001” sem o  estragar, o que, nos dias que correm, é um risco enorme que cada realizador corre ao conseguir que com a sua sequela de qualquer filme, não transforme numa amarga experiência vermos o filme anterior.
    
Feito com todos os meios disponíveis na altura (toda a "Discovery", por exemplo,  teve de ser reconstruída a partir das imagens do filme de Kubrick, pois os planos e as maquetes tinham-se perdido), o que acaba por  resultar  num filme mediano, que custa a encontrar um rumo. A realização só arranca a partir do meio para o final quando se começa a ver algum resultado e dedicação, graças, principalmente,  aos efeitos especiais, considerados revolucionários na época, feitos por Richard Edlund com a supervisão de Douglas Trumbull que fizera os efeitos especiais do filme de Kubrick.
 No  elenco os nomes de Roy Scheider, Helen Mirren, John Lithgow, Bob Balaban, cumprem os seus papéis, assim como  Keir Dullea e Douglas Rain que retomam os seus papéis, respectivamente  de Dave Bowman e da voz de HAL.
   Estreado com pompa e circunstância a 7 de dezembro de 1984 (mais uma data inesquecível para os americanos!), “2010” foi o segundo filme mais visto durante a sua semana de estreia, rendendo cerca de 8.000.000 de dólares e foi apenas batido por “Beverly Hills Cop – O Caça-Polícias” (Martin Brest, 1984) que acabou por ser o filme mais visto do ano.  Na segunda semana, teve de competir com “Starman – O Homem das Estrelas” (John Carpenter, 1984) e “Dune – Duna” (David  Lynch, 1984) mas nenhum deles assombrou a bilheteira e “2010” acabou por ser o 17º filme mais visto nos estados unidos em 1984.
   "2010" fica muito aquém das expectativa, quando comparado com “2001” o que é uma pena pois o autor e o livro mereciam  algo melhor.  Mas se  retirarmos todas as comparações com a obra-prima de Stanley Kubrick, ficamos  com um bom entretenimento, que é, afinal de contas, aquilo que conta.

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet






segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os Eleitos – À Conquista do Espaço


 
O ano de 1983, viu nascer um dos grandes filmes de década de 80 e um dos grandes clássicos contemporâneos. "The Right Stuff" em português chamou-se "Os Eleitos" e foi uma das pouca vezes em que o título nacional fez justiça ao nome original.
Em 1947, após o final da IIªGuerra Mundial, a América começa a olhar para o espaço, alguns pilotos de ensaio, residentes na Base Aérea de Muroc, na Califórnia, tentam ultrapassar a barreira de som (que se dizia ser um demónio que vivia no céu e impedia os pilotos de passar por si), sabendo que outros já o haviam tentado e nem todos haviam sobrevivido. Alguns anos depois, em 1953, Muroc, agora Base Aérea de Edwards, transforma-se no centro de ensaio e todos os pilotos, dignos desse nome, rumam para lá na expectativa de entrarem no Programa Espacial da corrida ao espaço que estava a começar.
 
Adaptado do romance de Tom Wolfe, com o mesmo nome, o filme esteve, por diversas razões, para não ser feito. Em finais de 1979, Robert Chartoff e Irwin Winkler, produtores independentes venceram a Universal Pictures na corrida para a adaptação cinematográfica do livro que tinha sido publicado no início do ano. William Goldman, argumentista de renome foi encarregado de transformar o livro em filme. O argumento focava-se inteiramente nos astronautas e no Programa Mercúrio, ignorando totalmente os feitos de Chuck Yeager. Os produtores não gostaram da adaptação de Goldman, opinião também partilhada pelo realizador Philip Kaufman. Em meados de 1980, William Goldman afastou-se do projecto. Foi feita uma aproximação a Tom Wolfe, que se mostrou desinteressado em adaptar o seu próprio livro. Foi então que Kaufman pegou na obra e, em oito semanas, escreveu um argumento que trouxe de volta Yeager e estabeleceu os contrastes existentes entre este e os “sete do Projecto Mercúrio” e suas famílias, porque, nas suas próprias palavras “Se se está a traçar a história de como o futuro começou, o futuro das viagens no espaço, ele começou com Yeager e o universo dos pilotos de ensaio. Os astronautas descendem deles…”
 
Em 1981, porém o fracasso de “Heaven’s Gate – Ás Portas do Céu”, um western visionário, ao estilo superprodução, realizado por Michael Cimino, pôs “Os Eleitos” em espera, já que a United Artists , responsável por aquele filme, declarou falência. Foi então que a Ladd Company, pertencente a Alan Ladd, Jr., filho do actor Alan Ladd, associada á Warner Bros., entrou com 17.000.000 de dólares necessários para avançar com a produção, (embora o orçamento total tenha sido de 27.000.000 de dólares), que teve início em março de 1982 e terminaria em outubro do mesmo ano.
 
Realizado por Philip Kaufman, argumentista de “Os Salteadores da Arca Perdida” (Steven Spielberg, 1981) ou de “O Rebelde do Kansas” (Clint Eastwood, 1976); realizador do curioso “Invasion of the Body Snatchers – A Invasão dos Violadores” (1978), com Donald Sutherland e Brooke Adams, remake do clássico de ficção científica com o mesmo título original, mas que por cá se chamou “A Terra em Perigo” (Don Siegel, 1956); do semi-erótico “Henry & June – Henry e June” (1990), sobre os amores da escritora Anais Nin com o também escritor Henry Miller, com os desempenhos de Fred Ward, Uma Thurman e da portuguesa Maria de Medeiros; do interessante “The Unbearable Lightness of Being – A Insustentável Leveza do Ser” (1988), adaptação do romance de Milan Kundera cuja acção se passa na Checoslováquia antes e depois da Invasão Soviética em 1956, com o ainda relativamente desconhecido Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin; ou de “Rising Sun – Sol Nascente” (1993) um excitante policial tecnológico adaptado do romance de Michael Crichton com Sean Connery e Wesley Snipes, entre outros, "The Right Stuff", a obra-prima do realizador, cedo se transforma num filme excitante, embora longo, nunca se torna aborrecido.
 
Rapidamente se percebe que “Os Eleitos” assenta em dois aspectos que são fundamentais para o desenvolvimento desta história dos primeiros passos em direcção á conquista do espaço: o primeiro, são os dois homens que assombram o filme. Um fala pouco e o outro, nada. O primeiro é, claro, Chuck Yeager (interpretado por Sam Shepard, num dos seus melhores papéis), geralmente reconhecido como o melhor piloto de ensaio de todos os tempos, que se julga a si próprio pelos feitos (logo desde o início se percebe que ele é o único que tem “The Right Stuff”, ou seja, utilizando uma definição algo provocadora, é “aquele que tem tudo no lugar”!) e não pelas palavras. O outro é o padre da força aérea que oficializa os frequentes funerais e é uma presença agoirenta no bar onde os pilotos confraternizam (brilhante a cena em que uma esposa recém-chegada pergunta como é que um piloto pode ter a sua foto na parede por detrás do balcão. A resposta, lacónica, dada por Pancho Barnes, a dona do bar, é imediata: Só tem de morrer.).
O segundo aspecto é a meticulosa reconstituição duma época em que se estava a iniciar a guerra fria (com alguma paranóia própria à mistura), torna o filme por vezes algo complexo. Mas não é só no ambiente histórico que se constrói este fabuloso filme: a produção trouxe também uma enorme quantidade de modelos de aviões; entre simuladores de vôo, aviões de exposição e aviões verdadeiros daquele período, são mais de 80 os modelos que vão surgindo ao longo das mais de três horas de filme.

 
Carregado de cenas memoráveis ( como, logo no início, o vôo de Yeager a tentar quebrar a barreira do som; a cena, carregada de simbolismo, do funeral que é sobrevoado por aviões em homenagem ao falecido, dos quais um se ausenta da formação; ou o treino dos futuros astronautas), extremamente realistas, principalmente na recriação dos vôos espaciais (ver a cena do vôo de John Glen que o torna no primeiro homem a orbitar a terra ou, quase no final, o de Gordon Cooper que, de acordo com a voz-off, por momentos foi “aquele que foi mais alto, mais longe e mais depressa do que qualquer outro e que foi o último astronauta a voar sozinho”) e interpretado por um elenco de actores e actrizes que se viriam a tornar, alguns deles, em verdadeiras estrelas: além do já referido Sam Shepard, incluem-se também, Ed Harris, Dennis Quaid, Barbara Hershey, Fred Ward, Scott Glenn, Lance Henrikssen, Veronica Cartwright, Jeff Goldblum, entre outros.
 
Sam Shepard e Chuck Yeager
Para conferir um grau de autenticidade ao filme, o verdadeiro Chuck Yeager foi contratado como consultor técnico e faz uma pequena participação. Ele levou os actores que interpretaram os sete astronautas a voar, analisou minuciosamente os “storyboards” de cada cena e os Efeitos Especiais, apontando e corrigindo erros que encontrasse. Para além disto, Kaufman deu aos seus técnicos de montagem, uma lista de documentários, contendo imagens de arquivo da época, necessários para o filme pedindo-lhes que investigassem todos os locais possíveis (desde a Base Aérea de Edwards até á NASA, passando pelos arquivos da Força Aérea), no decorrer destas investigações, foram encontradas imagens de arquivo russas nunca vistas em mais de 30 anos.

 
Mas como acontece sempre quando um filme conta uma história real, nunca se livra de alguma polémica á mistura. Como tal, “Os Eleitos” não foi exepção: apesar do filme tomar algumas liberdades em relação aos acontecimentos retratados, os detractores do filme focaram-se numa dessas “liberdades dramáticas”: o retrato do pânico que o astronauta Gus Grisson (Fred Ward) sente quando a sua cápsula “Liberty Bell 7" se afunda após a queda no mar. Muitos estudiosos, da época, assim como engenheiros que trabalhavam na NASA, estão convencidos que a detonação da escotilha se deveu a uma falha técnica do foguetão e não a erro humano deliberado (como acontece no filme), mas como Kaufman seguiu á risca o livro de Wolfe, que se foca, não no porquê ou como a escotilha detonou, mas sim como os colegas e familiares depreenderam que tinha sido ele a causar a detonação, não alterou nada, deixando que toda a sequência siga á risca a narrativa.
 
Vencedor de 4 Óscares da Academia, incluindo Melhor Montagem e Melhor Banda Sonora ( a música de Bill Conti é extremamente épica e integra plenamente a acção do filme), entre oito nomeações, perdeu o Melhor Filme e a Melhor Realização para "Laços de Ternura" (vá-se lá saber porquê!), "Os Eleitos" foi um grande sucesso de bilheteira, principalmente na europa, já que nos estados unidos, apesar de bem recebido e louvado pela crítica, o filme rendeu apenas 21.500.000 dólares. Dir-se-á que o público não estava preparado para um filme que fizesse a aproximação ao programa espacial, com cepticismo, comédia e alguma ironia á mistura. Mas rapidamente subiu ao pódio dos grandes filmes, ao lado de outras obras-primas contemporâneas, como "Touro Enraivecido" (Martin Scorsese, 1980), "Os Salteadores da Arca Perdida" (Steven Spielberg, 1981), “E:T. - O Extraterrestre” (Steven Spielberg, 1982) ou mesmo “Gandhi” (Richard Attenborough, 1982) e abrindo caminho para futuras incursões cinematográficas na história espacial americana, como por exemplo “Apollo13 – Apollo 13” (Ron Howard, 1995).
   Grande filme de aventuras, carregado de romance, de heroísmo de todos aqueles homens e suas mulheres, mas, principalmente, foi uma história verídica que aconteceu no nosso tempo e isso diz tudo!

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet












sábado, 8 de fevereiro de 2014

“Big Blue” – Vertigem Azul - Azul Profundo



                     
   O mar sempre foi uma fonte de inspiração para qualquer realizador. Muitos são os filmes cujas primeiras cenas são o mar. Na maioria dos casos é como se de um regresso a casa se tratasse. "Vertigem Azul" também sofre dessa tendência.
   Jacques e Enzo foram criados juntos numa aldeia situada à beira do mar Mediterrâneo. Partilham a mesma paixão pelo mar. Um dia, porém, um acidente vitima o pai de Jacques  fazendo  com que os dois percam o contacto durante anos. Quando se reencontram, Enzo é campeão de mergulho livre, enquanto Jacques se tornou treinador de golfinhos e colaborador ocasional dos homens da ciência. Entre os dois, apesar da amizade que os une há mais de 20 anos, nasce uma grande concorrência não só pelo título de campeão mundial de mergulho livre, como também pelo interesse de uma mulher.
   O filme, apesar de se centrar numa rivalidade fictícia, é baseado na história verídica dos verdadeiros campeões de mergulho livre, Jacques Mayol (que também colabora no argumento) e Enzo Maiorca ( que no filme foi rebaptizado de Enzo Molinari), que, não só tinham alguns anos de idade  de diferença, como nunca competiram juntos.  Besson, para não tornar o filme demasiado monótono, teve o cuidado de dividir a acção em  dois tempos distintos: a sua crescente rivalidade enquanto crianças e, já adultos, na sua competição final durante o Campeonato do Mundo de Mergulho Livre, na cidade de Taormina, na Sicília. O segundo momento (e isso é um achado de Luc Besson) tem também outro aspecto importante, que torna o desenrolar da história mais interessante para além da competição, que é a constante procura de Mayol  pelo amor, família, o todo e o sentido da vida e da morte.
   
Realizado por Luc Besson, autor de, por exemplo "O Último Combate"(1983) sobre os devastadores efeitos que uma guerra nuclear faz aos seres humanos, privando-os da fala, vencedor de vários prémios de cinema fantástico nomeadamente no festival de Avoriaz e no Fantasporto; "Subway - Subterrâneo" (1985) sobre a população que habita o metro de Paris fora de horas; "Nikita –Dura de Matar" (1990) sobre os assassinos treinados por organizações secretas e que depois foi objecto de um remake de qualidade  inferior chamado "Point of No Return - A Assassina" (John Badham,1993)e de uma série de televisão, em 2010; "Leon – O Profissional" (1994) primeiro filme americano de Besson e grande sucesso de bilheteira; ou ainda "O Quinto Elemento"(1997) considerado o filme mais caro do cinema europeu.
    "Vertigem Azul", juntamente com o documentário "Atlantis" (1991) que o realizador fez sobre a vida marinha, são os projectos que Besson considera pessoais pois estão relacionados com a sua infância quando percorria o mundo com os pais que eram instructores de mergulho. O mar era a sua casa e reflexo disso são as primeiras imagens do filme: O Mediterrâneo, filmado num maravilhoso preto e branco com a lindíssima banda sonora de Eric Serra (colaborador habitual do realizador) como pano de fundo, assim como todo o prólogo passado numa ilha grega onde somos apresentados à personagem de Jacques Mayol. Besson filma o seu mergulho intensamente como se dele próprio se tratasse e estabelece assim o mote do filme.
Todas as sequências subaquáticas estão excepcionalmente bem filmadas e de maneira a que o espectador se sinta transportado cada vez que os protagonistas se lançam na sua vertigem pelo azul do mar.
   Inicialmente, Luc Besson não tinha a certeza sobre quem é que deveria fazer a personagem  de Jacques Mayol. O realizador pensou em oferecer o papel a Christopher Lambert e Mickey Rourke e até considerou ser ele próprio a interpretar a personagem.
   Contando com Jean Reno (outro colaborador habitual do realizador ), um dos actores europeus mais requisitados para produções internacionais, no papel de Enzo Molinari. O actor tem aqui um dos seus papéis mais importantes e também um dos seus preferidos, apesar da personagem ser a de um homem obcecado pela ganância de continuar a ser o campeão mundial de mergulho livre sem olhar a meios para o manter. Jean Marc Barr e Rosanna Arquette completam o trio à volta do qual vai girar toda a história de "Vertigem Azul".
   Magnificas cenas como a do porto Italiano em que Enzo salva um homem de morrer afogado; as cenas do trio em Taormina; os testes a que Jacques é submetido no gelo ou ainda a cena final no mar entre Jacques e Enzo, fazem de "Vertigem Azul" um drama muito realista e um dos melhores filmes de Luc Besson, embora não isento de alguma dúvida no que diz respeito ao final do filme.  O final original foi intencionalmente deixado em aberto  para que cada espectador fizesse a sua própria interpretação, apesar de ficar a sugestão de que a profundidade a que Mayol desce tornava impossível o seu regresso, vivo, á superfície em circunstâncias normais. Mas tal pode não ser inteiramente verdade, já que, tal como é sugerido ao longo do filme, o corpo de Jacques Mayol  não é um corpo normal e, logo a seguir á cena em que ele acorda no hospital e tem aquele estranho sonho, poderá (ou não) achar-se que ele está pronto para uma vida aquática, daí a sua (possível) morte ser uma conclusão algo precipitada. O realizador terá pensado que assim seria a melhor solução…quem somos nós para o contradizer?
   Exibido fora de competição, em maio de 1988, durante o Festival de Cannes, “Vertigem Azul”, foi um grande sucesso de bilheteira em frança, onde esteve em exibição mais de um ano; nomeado para vários Césares (Oscares do cinema francês), venceu nas categorias de Melhor Banda Sonora para Filme e Melhor Som. Também  em 1989 o prémio da Academia Nacional de Cinema Francês foi entregue a  Luc Besson.
   Apesar do enorme sucesso um pouco por toda a europa, nos estados unidos, o filme foi um rotundo fracasso de bilheteira, muito devido á remontagem para uma duração de 118 minutos, feita pelo estúdio que distribuiu o filme, que quis incluir um final feliz (uma espécie de final alternativo ao destino de Jacques Mayol) e substituído a banda sonora original de Eric Serra por uma composta pelo consagrado Bill Conti. Mais tarde foi distribuída a versão  considerada  normal e a que foi exibida na europa com a duração de 132 minutos. Só muito mais tarde é que foi distribuída, apenas,  para circuito DVD a versão mais longa, com o final original e a banda sonora integral de Eric Serra.
 
Lançado no cinema em duas versões: uma de 132 minutos que fez carreira nos cinemas um pouco por todo o mundo. Só depois do sucesso do filme, já em meados da década de 90,  é que o realizador decidiu lançar a Versão de Realizador, com a duração de 168 minutos, contendo inúmeras sequências inéditas onde se explica um pouco melhor o relacionamento de Jacques Mayol com os golfinhos ou onde se pode apreciar melhor a competição entre as duas personagens. O filme ganha uma nova dimensão, a vertigem torna-se mais azul e este torna-se muito mais profundo.
Considerado bonito e sereno por alguns, demasiado longo, reflexivo e introspectivo por outros, “Vertigem Azul “ tem pelo menos uma certeza:  quem quiser desfrutar de um filme e de uma experiência diferente,  é só deixar-se envolver pela música e mergulhar nesta imensa vertigem azul chamada mar.


Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet





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