segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Filme de Terror II

       - O Terror em constante evolução (1960 – 1979)
   
A década de 60, viu o estúdio britânico da Hammer consolidar o seu poderio em termos de filmes de terror.  As intermináveis continuações de Drácula, a maior parte das vezes, com Christopher Lee no papel do vampiro, obtinham um sucesso relativo, mas foi “Peeping Tom – A Vítima do Medo” (Michael Powell, 1960), que conta a história de um “Serial Killer” que concilia a sua profissão de fotógrafo com a de assassino ao fotografar as expressões das suas vítimas momentos antes da sua morte. O filme retratou o primeiro  “Serial Killer” no cinema e foi maior sucesso de bilheteira  da Hammer.
    Também em 1960, o realizador britânico Alfred Hitchcock choca o público com “Psycho - Psico” ao assassinar a personagem principal  na primeira metade do filme, na antológica sequência do chuveiro no Motel Bates, uma das mais famosas e aterrorizantes cenas da história do cinema. 

Nunca tal havia acontecido e, apesar de alguma perplexidade inicial quanto aos propósitos do realizador, o filme ganhou estatuto de obra-prima tornando-se numa obra incontornável na carreira do realizador que, três anos mais tarde, haveria de chocar novamente as audiências com “The Birds – Os Pássaros” ao mostrar uma natureza enlouquecida, em que bandos de pássaros  atacam os seres humanos sem qualquer razão aparente, nem qualquer explicação no final. Tal como a maior parte das suas obras americanas, “Os Pássaros” obteve grande sucesso de bilheteira, consolidando a carreira do realizador e também o cinema de terror. 

     Na europa, o género ganhava cada vez mais seguidores. Em frança “Les Yeux sans visage – Olhos sem Rosto” de George Franjú (1960), continuava a apostar, com sucesso, na temática do cientista louco, neste caso , um que rapta mulheres jovens para lhes remover as caras que tenta aplicar na  sua filha, que ficou desfigurada depois de um acidente de automóvel, enquanto em itália, Mario Bava, depois de co-realizar algumas produções “série B”, iniciava uma carreira de sucesso dentro do terror com o filme “Black Sunday - A Máscara do Demónio”(1960), a história de uma bruxa e do seu servo que regressam da morte para tentar apossar-se do corpo de uma sua descendente. A sua utilização de sombras, luz e cores tornaram-no num filme incontornável dentro do género.
     Entretanto nos estúdios da American International Pictures são feitos diversos filmes adaptados da obra de Edgar Allan Poe, um dos mais famosos escritores americanos de sempre, realizados por Roger Corman e interpretados na sua quase totalidade por Vincent Price, outro nome sonante no cinema de terror, que, com maior ou menor sucesso, terminam com “The Masque of the Red Death – A Máscara da Morte Vermelha”(1964) e “The Tomb of Ligeia – O Túmulo de Ligeia” (1964) e é hoje quase certo que foram estas adaptações que abriram caminho para a violência explícita que viria a ocupar o lugar, não só  no terror como também em outros filmes correntes.
   
Monstros e fantasmas mantiveram-se sempre presentes no género, mas ao longo da década outra premissa começou a aparecer, timidamente primeiro, mas depois de algumas provas dadas, filmes baseados em coisas sobrenaturais, fantasmas e possessões demoníacas integraram-se plenamente no terror. “The Innocents – Os Inocentes” (Jack Clayton, 1961), foi o primeiro filme a abordar o tema; depois seguiu-se-lhe “The Haunting – A Casa  Maldita” (Robert Wise, 1963), ambos filmados em Inglaterra mas produzidos por estúdios americanos. Mas seria com “Rosemary’s Baby – A Semente do Diabo” (Roman Polanski, 1968), que o filme de expressão demoníaca ganhou o seu estatuto dentro do género. A história de um casal recém-casado que se muda para Nova York, para um prédio com má reputação e trava amizade com um casal de idosos que vive no apartamento ao lado. Apesar da simpatia dos vizinhos , estranhas coisas começa a acontecer, desde mortes inexplicáveis  a sonhos misteriosos. Quando Rosemary fica grávida, o casal idoso tenta protegê-la e mantê-la  segura, ao mesmo tempo que  ela vai ficando  cada vez mais paranoica com tanta obsessão á volta do seu bébé por nascer. Baseado num aclamado romance de Ira Levin, este filme ficou amaldiçoado e saiu caro ao seu realizador já que, menos de um ano depois da sua estreia, Sharon Tate, a companheira de Polanski e alguns amigos foram assassinados por uma seita liderada por Charles Manson. A actriz, na altura, estava grávida do primeiro filme do casal.
   
Também em 1968 um outro filme impôs-se dentro do género influenciando a indústria  americana de filmes de terror. “Night of the Living Dead – A Noite dos Mortos-Vivos” realizado por George A. Romero. A história de um grupo de pessoas que se têm de esconder dentro duma casa porque os mortos misteriosamente voltaram á vida e procuram alimento nos seres vivos, cativou o público em todo o mundo fazendo desta produção de baixo orçamento, um enorme sucesso de bilheteira. Esta espécie de Armagedão (não confundir com o filme homónimo!)  em forma de filme com mortos-vivos ou zombies mistura, habilmente, efeitos psicológicos com cenas sangrentas (gore) e fez o género subir mais um degrau, afastando-o das tendências  góticas iniciais, trazendo-o para a vida do dia-a-dia, tornando-o um filme clássico, de culto respeitado por público e cineastas.
   
Os filmes baseados em temas do oculto seriam o prato forte das produções da década de 70. Desde logo em 1973, “Don’t Look Now – Aquele Inverno em Veneza” realizado por Nicolas Roeg, assume o espiritismo como motivo para se fazer um bom filme de terror Baseado numa história de Daphne Du Maurier, que conta a história de um casal, enlutado pela morte por afogamento da sua única filha, que se encontra em Veneza a tentar recuperar da dor, o marido começa a ter visões de uma criança vestida com uma capa idêntica á que a sua filha usava quando morreu, enquanto que a mulher é abordada  nas ruas da cidade por duas irmãs, uma das quais é psíquica e traz um aviso do além. Não sendo uma obra-prima, e muitas vezes ignorado no panorama dos filmes da década, o filme torna-se curioso e interessante pela abordagem ao tema que faz, indo do puro drama até ao suspense  (o género haveria, anos mais tarde, de abordar esta temática), sem nunca se perder  e contém duas cenas marcantes: a cena de amor entre os dois protagonistas (Julies Christie e Donald Sutherland) com uma enorme carga erótica; e a cena final que é completamente imprevista.
   
Seria também neste ano que apareceria um filme que se tornaria no mais marcante filme  do género, inúmeras vezes imitado,  mas nunca superado, nem sequer igualado: “The Exorcist – O Exorcista”, realizado por William Friedkin. A história da possessão de Regan McNeill que a ciência não consegue explicar nem resolver e que só apenas um velho ritual religioso aparentemente consegue, tornou-se num enorme êxito de bilheteira por todo o mundo. A rotação de 360 graus de cabeça de Regan, a auto-penetração com o crucifixo, os gritos e as vozes do demónio, o vómito verde na cara do padre ou o longo exorcismo são cenas clássicas e quase banais, quando comparadas com o panorama cinematográfico de hoje, mas, em 1973, chocaram audiências ao ponto de muitas pessoas terem de ser assistidas no local por equipas médicas.  O “Exorcista” tornou-se no filme-choque da década de 70 e foi também o primeiro filme de terror puro a ser indicado para Melhor Filme do Ano, uma das dez categorias para que foi nomeado nos Oscares desse ano.
Seguiram-se várias sequelas que não obtiveram tanto sucesso como o primeiro filme e muitos outros filmes em que o Diabo representava o supremo ser sobrenatural, algumas vezes engravidava jovens, outras apossava-se de crianças.
   
Em 1975, o jovem realizador Steven Spielberg começava a sua ascensão em direcção ao estrelato com “Jaws – O Tubarão”. A história de um enorme tubarão branco que aterrorizara as praias de Amity, uma pequena ilha na  costa americana que vive basicamente do turismo de verão, bateu todos os recordes de bilheteira no mundo inteiro, iniciou uma série de filmes de terror de animais assassinos, que, se excluirmos “Orca – A Fúria dos Mares” (Michael Anderson, 1977), apesar de pouco interessante, suscitou alguma curiosidade no público, não faz grande memória e é muitas vezes ignorada dentro do género. “Jaws” foi considerado um dos primeiros filmes a conjugar  elementos tradicionais das produções “série B”, tais como terror e ser meio “gore” (sangrento), numa produção de grande orçamento e o resulta foi o que foi.
   O “Exorcista” abriu caminho a duas temáticas que se tornaram populares ao longo da década: a Reencarnação e Satanismo. Se “Audrey Rose – As Duas Vidas de Audrey Rose” (1977), realizado por Robert Wise, cuja história é a de um homem que afirma que a sua filha é a reencarnação de uma outra pessoa já morta, popularizou o tema da reencarnação  sem ter sido um grande sucesso; já “The Omen – O Génio do Mal” (Richard Donner, 1976), onde Richard Thornton, embaixador americano em Inglaterra, descobre que o seu filho, adoptado, de cinco anos de idade, é o Anticristo, foi um grande êxito de bilheteira e tornou o filho do Diabo, além de invencível á acção humana,  o vilão favorito em muitos filmes modernos.
   
Também na década de 70, estreava-se na literatura o mestre contemporâneo do terror. Stephen King ganhou este estatuto, que de resto ainda mantém, com “Carrie” (1972) que seria adaptado ao cinema por Brian DePalma em 1976. A história de Carrie White, uma rapariga com poderes telecinéticos (capacidade de mover objectos á distância só com o olhar), invejada e gozada pelos seus colegas que a consideram uma estranha que depois se vinga de todos eles. Tecnicamente brilhante, graças a um realização inventiva, foi um sucesso de bilheteira e foi nomeada para os Oscares , tornando-se um filme de culto de todos os apreciadores do género , principalmente por conter o maior susto que alguma vez aconteceu num filme.
   
Em 1978, John Carpenter realizava o seu melhor filme de sempre, “Halloween – O Regresso do Mal” e dava origem a uma das mais longas séries de filmes no cinema. Michael Myers é uma criança de cinco anos, aparentemente normal, que mata á facada a sua irmã e o namorado numa noite de Halloween. Internado durante 15 anos num instituto psiquiátrico, foge e regressa a Haddonfield, a sua cidade natal,  para repetir as acções de 1963. Utilizando a câmara como se fossem os olhos do assassino, Carpenter, genialmente, põe-nos na pele do assassino e garante algumas das melhores cenas de terror e suspense de que há memória na década. O Final, em suspenso foi uma novidade na época e viria a tornar-se moda nas décadas seguintes.
    As ideias dos anos 60 também influenciaram o cinema de terror, já que a juventude que se envolvera nos movimentos de contracultura (oposição á guerra do Vietnam, movimento “Hippie”,  experimentação de drogas, sede consumista, etc), reflecte nos filmes esses mesmos ideais: “The Hills have Eyes – Os Olhos da Montanha” (Wes Craven, 1977); “The Texas Chainsaw Massacre – O Massacre no Texas” (Tobe Hooper, 1974), espelhavam algum efeito do Vietnam;  David Cronenberg  estreou-se na temática do cientista louco  ao explorar os medos contemporâneos da tecnologia e sociedade e os medos corporais com “Shivers – Os parasitas da Morte” (1975); enquanto George A. Romero em “Zombie – Dawn of the Dead – A Maldição dos Mortos-Vivos” (1978) satirizava a sede consumista que se apossara da sociedade na década anterior.
   
A década iria terminar com um dos melhores filmes de sempre e que introduzia uma nova temática dentro do género: O terror científico. “Alien – O 8ºPassageiro” (Ridley Scott, 1979). A “Nostromo” é um cargueiro espacial que regressa á terra depois de cumprir a sua missão. O computador central recebe  um sinal de ajuda. Os tripulantes decidem ir investigar a origem do sinal. Combinando os elementos naturais de violência gráfica  e o filme de monstros, característicos de décadas anteriores, mas desta vez usando a ficção científica, “Alien” só poderia resultar num enorme sucesso de bilheteira  e de crítica também.
O terror instalara-se definitivamente dentro do cinema e nas décadas subsequentes, iria ter um papel preponderante.

                                                                                                                            (continua)

Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da internet

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Filme de Terror I


           - Origens e Primeiras Décadas (1896 – 1959)

       O  Género ficcional de terror ou horror sempre fez parte do cinema, apesar de existir em qualquer meio de comunicação no qual se pretenda provocar uma sensação de medo que é a principal fonte dos filmes de terror. Muito ligado á ficção científica e ao fantástico, é, desde a década de 60, considerado um género á parte, orientado para um público específico que se rende também aos subgéneros por ele criados.
        
Lobisomens, vampiros, fantasmas, aliens, demónios, monstros, canibais, zombies, “serial killers”, diversos tipos de medos, pesadelos e terror do desconhecido, são uma constante nos filmes de terror. Existe sempre a intromissão de uma força maligna, alguém ou alguma coisa de origem sobrenatural que vem interferir no quotidiano das personagens.
   Os primeiros filmes, curtas-metragens na realidade, apareceram com o pioneiro do cinema, Georges Méliès, sendo os mais conhecidos, “Le Manoir du Diable”,em 1896,  que é considerado o primeiro filme de terror da história do cinema e “La Caverne Maudite” em 1898, em ambos o tema é o sobrenatural.
     
No início do século XX, apareceu uma primeira versão de “Frankenstein”, em 1910, que foi considerada perdida durante muitos anos, tendo sido o primeiro monstro a aparecer no cinema, logo seguido das primeiras versões de “Quasimodo, O Corcunda de Notre-Dame”, baseado no romance de Vitor Hugo, que incluem “Esmeralda” (Alice Guy, 1906); “The Hunchback”(Van Dyke Brooke, 1909); “The Love of a Hunchback” (1910) e “Notre-Dame de Paris” (Albert Capellani, 1911) .  
   
Max Schreck, em "Nosferatu" 
Na Alemanha, o expressionismo  alemão ganha forma no cinema através de alguns filmes que irão influenciar, não só o género de terror, como também o cinema em geral. “Der Golem – O Golem“ (Paul Wegener e Carl Boese, 1920) ou “The Cabinet of Dr.Caligari – O Gabinete do Dr.Caligari “ (Robert Wiene, 1920), são dois desses filmes, assim como “Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens – Nosferatu, o Vampiro” (F.W. Murnau, 1922), uma adaptação não autorizada do livro de Bram Stoker, foi o primeiro filme sobre vampiros que se fez no cinema.
        
Lon Chaney
Em Hollywood, Lon Chaney tornava-se o primeiro actor  em filmes de terror, ao entrar em “The Hutchback of Notre Dame – Nossa Senhora de Paris” (Wallace Worsley,1923) e “The Monster” (Roland West, 1925). Ainda na década de 20,  filmes como “Dr. Jekyll and Mr.Hyde – O Médico e o Monstro” (John S. Robertson, 1920),  “The Lost World – O Mundo Perdido” (Harry O. Hoyt, 1925), “The Phanton of the Opera – O Fantasma da Ópera” ( Rupert Julian, 1925), entre muitos outros, firmaram o terror como género de futuro.
   No início do cinema falado, a Universal Pictures estreou uma série de filmes de terror que obtiveram sucesso. Foi o caso de “Dracula” (Tod Browning, 1931) com Bela Lugosi, que tornaria a personagem de Bram Stoker uma das mais famosas e interpretadas do cinema; “The Mummy – A Múmia”(1932) introduziria a egiptologia como tema para o género; “Frankenstein – O Homem que criou o Monstro” (James Whale, 1931), que tornaria o actor Boris Karloff numa das referências do género, apesar dele apenas ter interpretado o monstro em três ocasiões, sendo as outras duas: “Bride of Frankenstein – A Noiva de Frankenstein” (James Whale, 1935) e “Son of Frankenstein – O Filho de Frankenstein” (Rowland V. Lee, 1939).
   Outros estúdios, no entanto, viram as potencialidades do género e começaram a sua produção de filmes de terror, que incluíam entre outros “Freaks – A Parada dos Monstros” (Tod Browning, 1932),depois de completado, o filme foi recusado pelo estúdio e manteve-se por estrear durante mais de trinta anos; nova versão de “Dr.Jekyll and Mr.Hide – O Médico e o Monstro” (Rouben Mamoulian, 1931), mais lembrado pela utilização de filtros de cor para criar a transformação  do Dr.Jekyll; “Mystery of the Wax Museum – Máscaras de Cera” (Michael Curtiz, 1933); ou ainda “Island of the Lost Souls – A Ilha das Almas Selvagens” (Erle C. Kenton, 1932)
   
Já na década de 40, a Universal continuou a liderar com os filmes de terror, principalmente com o seu  “The Wolf Man – O Homem Lobo” (George Waggner,1941), que apesar de não ser o primeiro filme sobre lobisomens, foi certamente um dos que mais influenciou o género da licantropia. Em 1940, o realizador Britânico Alfred Hitchcock chega a Hollywood trazido pelo todo-poderoso produtor David O.Zelznick para filmar “Rebecca – Rebecca”, uma adaptação do thriller psicológico escrito por Daphne Du Murier, com Laurence Olivier e Joan Fontaine. O filme conta a história de um casal cuja noiva é assombrada pela memória da falecida primeira mulher do seu noivo. O filme introduziu no género uma temática que apenas anos mais tarde seria explorada: o suspense. Apesar das difíceis relações entre o produtor e o realizador por causa da abordagem ao tema, o filme foi um grande sucesso de bilheteira e ganhou dois Oscares da Academia, incluindo o de Melhor Filme do Ano. Hitchcock teve aqui a sua primeira nomeação para os Oscares e apesar de não ter ganho o prémio, entrava pela porta grande na fábrica dos sonhos.
Bela Lugosi, o eterno "Drácula"
   Com o terror seguro dentro da sétima arte, muitos actores construíram as suas carreiras em torno do género, principalmente Bela Lugosi , que, na sua longa carreira, fez mais de cem filmes a interpretar Dracula,. Reza a história que a personagem o marcou tanto que já no final da sua vida, na sua mansão, o actor dormia num caixão e que morreu a pensar que era a encarnação perfeita da personagem criada por Bram Stoker e Boris Karloff. Qualquer filme que os tivesse como protagonistas, era um sucesso garantido. Karloff, ao longo da década aparece em filmes importantes dos quais se destaca “The Body Snatcher – O Túmulo Vazio” (1945), no qual também entrava Bela Lugosi; outros filmes da década marcaram a diferença, como  “Cat People – A Pantera” (Jacques Tourneur, 1942) e “I Walked with a Zombie - Zombie”( Jacques Tourneur,1943) e que ficaram bem acima das limitações auto-impostas pelo género.
  Com o avanço da tecnologia que se deu ao longo da década de 50, também o tom dos filmes de terror passou das temáticas góticas para preocupações mais contemporâneas. Surgiram dois sub-géneros: a preocupação com o “Armagedão” (vulgarmente conhecido como “O Dia do Juízo Final” ou quando os exércitos do Bem enfrentam as forças do Mal) e o filme demoníaco. Uma série de produções (a maior parte delas de baixo orçamento) mostravam a humanidade a enfrentar ameaças vindas de fora: invasões extraterrestres, mutações mortíferas de pessoas, animais e plantas. Em alguns casos, como com “Godzilla – O Monstro do Oceano Pacífico” (Ishirô Honda, 1954) e suas sequelas, a mutação acontece com os efeitos da radiação nuclear.
   Foi também durante esta década que os realizadores e produtores começaram a fundir a ficção científica com terror, aproveitando assim algum do ambiente que a Guerra Fria proporcionava: “The Thing from Another World – A Ameaça” (Christian Nyby e Howard Hawks, 1951) ou “The Invasion of the Body Snatchers – A Terra em Perigo” (Don Siegel, 1956), são obras de referência; já “The Incredible Shrinking Man – Os Sentenciados” (Jack Arnold, 1957), baseado numa novela de Richard Matheson, foi, na altura, considerado uma obra-prima do género, pois conseguia conciliar uma história de ficção científica com os medos de se viver numa Era Atómica e ao terror duma alienação social.
   
Ainda nesta década, a Grã-Bretanha emergiu como produtora de filmes de terror. A Hammer, estúdio Britânico de produção, inicia-se neste tipo de produções a partir do meio da década e obtém enorme sucesso que envolve personagens clássicas do cinema de terror a serem mostradas pela primeira vez a cores, seguindo o exemplo da Universal no género, umas vezes com Peter Cushing, outras com Christopher Lee, alguns destes filmes incluindo “The Curse of Frankenstein – A Máscara de Frankenstein” (Terence Fisher, 1957) ou “Dracula – O Horror de Dracula” (Terence Fisher, 1958) e as suas numerosas continuações e quase sempre com Terence Fisher como realizador de algumas dessas obras, foram responsáveis pelo boom do cinema de terror na Grã-Bretanha durante as décadas subsequentes.
                                                                                                          (continua)

Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet


     
           
           

            

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Imperdoável – O Ocaso do Western

  
   
Em 1992, depois do triunfo de “Dances with Wolves  - Danças com Lobos” (Kevin Costner, 1990) que reanimara o Western, o género mais querido, juntamente com o musical, do cinema, da melhor maneira possível, pareceu que este género popular estava de volta para trazer o público, que agora estava mais virado para a ficção científica, de volta. Mas a sensação que ficou foi que o género, apesar de ainda não estar morto e enterrado, parecia estar moribundo. Era tempo de fazer um elogio que, ao mesmo tempo o homenageasse condignamente. "Unforgiven -  Imperdoável”  é a mais bela página que se pode escrever sobre um género que, afinal, esteve na génese do cinema, "The Great Train Robbery"  de Edwin S.Porter  é o primeiro Western da história e foi realizado em 1903.
   Ao tomarem conhecimento duma recompensa lançada por um grupo de prostitutas a quem matar o homem que deformou uma delas, dois ex-foras-da-lei juntam-se a um jovem para tentar ganhar a recompensa e assim garantir o seu futuro e dos seus familiares. Ao chegaram á cidade de  Big Whiskey, no Wyoming,  são confrontados com uma oposição que não contavam.
   
O argumento foi escrito, em 1976, por David Webb Peoples que, entre outros  filmes, participou na escrita do argumento de “Blade Runner – Perigo Eminente”, a obra-prima futurista de Sir Ridley Scott de 1982. Inicialmente intitulava-se “The Cut-Whore Killings”, depois, com receio de alguma polémica, o título foi mudado  para “The William Munny Killings”. O argumento andou anos e anos de estúdio em estúdio  para ver quem lhe pegava. Clint Eastwood adquiriu os direitos da sua adaptação, mas atrasou o projecto, em parte, porque queria estar mais velho para  melhor se identificar com a personagem e poder moldá-la a seu bel-prazer, uma vez que decidira que iria ser a sua última personagem num Western.
   
“Imperdoável” começa por ser um filme que olha para o velho Oeste como se este fosse uma novidade. Os pistoleiros profissionais tornaram-se de tal maneira uma espécie em vias de extinção que os jornalistas os seguem em busca das suas histórias ( a personagem de English Bob, um caçador de prémios, fabulosamente interpretado por Richard Harris, cuja fama o precede, mas que na realidade não passa de um engano,  graças ao jornalista/biógrafo que com ele vem,  é disso exemplo); homens que dormiram noites ao relento, estão agora a construir as sua próprias casas; William Munny , outrora um ladrão e assassino, sobrevive graças á sua criação de porcos. Em 1880 (ano em que se passa o filme), o Oeste vive das memórias de homens que agora vivem numa espécie de classe média e é á volta destas memórias que esta obra-prima gravita sem hesitar.
   
O filme é sobre a passagem do tempo e isso vê-se no seu próprio visual, reflectida na fotografia quase genial de Jack N.Green. Logo no início vemos uma casa, uma árvore, um homem e uma campa e o sol está a pôr-se, não só no homem, como também sobre a era que ele representa, é de uma genialidade quase absoluta de tão simples que é. Mas, mais á frente, ainda no campo visual, encontramos cenas exteriores que mostram a vastidão da terra onde o Western reinou  durante décadas. Já os interiores diurnos são fotografados em forte contra-luz  de modo a tornar as figuras interiores escuras e, por vezes, difíceis de ver.
   
Em "Imperdoável" todos os símbolos do western estão invertidos: o xerife que sempre representou o bem e a moral, é, na realidade, o vilão (excelente interpretação de Gene Hackman)e o homem sem qualquer tipo de escrúpulos que impõe a lei na cidade com punho de ferro, não autoriza armas de fogo na sua jurisdição e faz cumprir essa proibição com espancamentos sádicos e públicos, a roçar a humilhação e depois regressa á beira-rio onde constrói a sua casa; os supostos vilões, apresentados como sendo maus como as cobras (interpretados sobriamente por Clint Eastwood e Morgan Freeman), que não passam  de velhos que já esqueceram uma parte do seu violento passado, mas que, de tempos a tempos, ainda os assombra, são os verdadeiros heróis do filme. Entre todas estas personagens, gravitam algumas outras que, apesar de secundárias,  têm a sua importância na acção: desde logo  ”Schofield Kid” (Jaimz Woolvett), um incompetente pretenso herói,  desafia Munny  a ir com ele em busca da recompensa,  míope que não consegue acertar em nada, mesmo tendo um revólver modelo Schofield (daí ter-se baptizado a si próprio com esse nome) da “Smith & Wesson;  Madame “Strawberry Alice” (Frances Fisher),  prostituta que teve a ideia de lançar a recompensa porque quer vingança sobre aqueles que mutilaram “Delilah” (Anne Thompson), uma das suas meninas; e ainda “Skinny Dubois” (Anthony James), dono do bar e bordel, tem outras preocupações acerca dos acontecimentos: como pagou muito dinheiro por Delilah, que após ser mutilada pelos cowboys, já não lhe vai compensar o investimento, portanto ele quer ser recompensado.
   
Eventualmente a história volta aos termos clássicos do Western quando o xerife corrupto se confronta com o fora-da-lei, transformado em homem justo. A história torna-se, menos sobre  a caça ao prémio e mais sobre a necessidade, mútua e pessoal , de resolver a questão entre ambos, já que se encontraram algures no passado e veremos, posteriormente,  o jovem William Munny emergir da concha da idade onde se escondeu e voltar a ser o homem temeroso que fora, como também acontece no longo acto final em que o mesmo Munny eficiente e omniscientemente se transforma numa espécie de vingador das humilhações a que o seu amigo Ned foi sujeito: um trabalho de montagem eficiente, em que os elementos  da cena são montados de modo estrategicamente deliberado para serem suficientemente credíveis e que nos trazem á memória as personagens que Eastwood interpretou nos seus westerns anteriores: o espírito á procura de justiça em “O Pistoleiro do Diabo”; o justiceiro Josey Wales de “O Rebelde do Kansas” e o Pregador sem nome de “O Justiceiro Solitário” e percebemos que o velho profissional ainda não se esqueceu de como se faz.
     
Clint Eastwood, o realizador, ao baralhar e dar de novo, dá uma dimensão diferente e original ao género e aproxima-se duma quase genialidade magnifica, que mantém no próprio título do filme. Será que Munny procura obter o perdão da sua falecida esposa e também de todos os outros que enganou, violentou ou matou? A sensação com que se fica é que ele ainda se sente assombrado pela culpa: está reformado, mas, ao aceitar ir em busca do dinheiro da recompensa, pois precisa dele para sustentar os seus filhos, apesar de achar que eles ficariam melhor servidos se o seu pai não andasse a correr risco de vida contra pistoleiros mais novos e certamente mais experientes, mostra que não se emendou. Eastwood não se alargou em explicações sobre o porquê daquele título, mas, existe no filme um momento em que talvez essa explicação seja aflorada: logo após ter sido baleado, Little Bill diz “eu não mereço isto…morrer assim, desta maneira…eu estava a construir uma casa.” Ao que Munny responde  “Merecer, não tem nada a ver com isto”. Mas, na realidade, até tem porque, apesar de Ned e  Delilah não receberem aquilo que lhes é devido, William Munny certifica-se  que os outros o recebem. É esta moral, por vezes implacável, em que o bem eventualmente silencia o mal, que está  no centro do Western, e Clint Eastwood, tal como John Ford já o fizera na sua obra-prima “The Searchers- A Desaparecida” (1956), não tem receio de o dizer.
   
Quando estreou, “Imperdoável”, foi um inesperado sucesso de bilheteira em todo o mundo. Com um orçamento estimado em cerca de 14.400.000 dólares, a receita em todo o mundo foi de cerca de 159.200.000 dólares, nada mau para um filme dum género já considerado extinto. Mas o triunfo maior do filme seria em prémios. A primeira surpresa viria dos Globos de Ouro onde arrecadaria dois dos quatro Globos para que estava nomeado, incluindo um para Clint Eastwood como Realizador. Conforme avançava a temporada dos prémios, continuava a caminhada de “Imperdoável” em direcção ao Olimpo do Cinema. Seria nos Oscares que o triunfo do filme iria ser determinante. Com nove nomeações para os Oscares, "Imperdoável" venceu quatro, incluindo Melhor Realizador e Melhor Filme do Ano para Clint Eastwood. Finalmente o cinema olhava com respeito e deferência  para um dos seus maiores icons.  Foi o consagrar  duma carreira imaculada de mais de  quarenta anos.
   Caberia a Clint Eastwood, actor, produtor e realizador, a missão de escrever o epílogo  do Western, na forma daquele belíssimo plano final (igual ao início, mas mais completo)  de um pôr-do-sol, uma campa e junto dela a imagem de William Munny que se dissolve na cena enquanto correm os créditos finais, em que o actor/realizador, agradece a Don (Siegel) e a Sergio (Leone), os seus mentores, subentenda-se, o que fizeram por ele, mas, principalmente, o que fizeram pelo western enquanto género cinematográfico.
   Em 2004, “Imperdoável” foi  introduzido no Museu Nacional do Cinema por ser cultural, histórica e esteticamente significativo para o género Western. Em 2008 o “American Film Institute” considerou-o o quarto melhor Western de sempre, atrás de “A Desaparecida”, “O Comboio Apitou Três Vezes” e “Shane” e incluiu-o na sua lista “100 Anos…100 Filmes”.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet




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