segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os Eleitos – À Conquista do Espaço


 
O ano de 1983, viu nascer um dos grandes filmes de década de 80 e um dos grandes clássicos contemporâneos. "The Right Stuff" em português chamou-se "Os Eleitos" e foi uma das pouca vezes em que o título nacional fez justiça ao nome original.
Em 1947, após o final da IIªGuerra Mundial, a América começa a olhar para o espaço, alguns pilotos de ensaio, residentes na Base Aérea de Muroc, na Califórnia, tentam ultrapassar a barreira de som (que se dizia ser um demónio que vivia no céu e impedia os pilotos de passar por si), sabendo que outros já o haviam tentado e nem todos haviam sobrevivido. Alguns anos depois, em 1953, Muroc, agora Base Aérea de Edwards, transforma-se no centro de ensaio e todos os pilotos, dignos desse nome, rumam para lá na expectativa de entrarem no Programa Espacial da corrida ao espaço que estava a começar.
 
Adaptado do romance de Tom Wolfe, com o mesmo nome, o filme esteve, por diversas razões, para não ser feito. Em finais de 1979, Robert Chartoff e Irwin Winkler, produtores independentes venceram a Universal Pictures na corrida para a adaptação cinematográfica do livro que tinha sido publicado no início do ano. William Goldman, argumentista de renome foi encarregado de transformar o livro em filme. O argumento focava-se inteiramente nos astronautas e no Programa Mercúrio, ignorando totalmente os feitos de Chuck Yeager. Os produtores não gostaram da adaptação de Goldman, opinião também partilhada pelo realizador Philip Kaufman. Em meados de 1980, William Goldman afastou-se do projecto. Foi feita uma aproximação a Tom Wolfe, que se mostrou desinteressado em adaptar o seu próprio livro. Foi então que Kaufman pegou na obra e, em oito semanas, escreveu um argumento que trouxe de volta Yeager e estabeleceu os contrastes existentes entre este e os “sete do Projecto Mercúrio” e suas famílias, porque, nas suas próprias palavras “Se se está a traçar a história de como o futuro começou, o futuro das viagens no espaço, ele começou com Yeager e o universo dos pilotos de ensaio. Os astronautas descendem deles…”
 
Em 1981, porém o fracasso de “Heaven’s Gate – Ás Portas do Céu”, um western visionário, ao estilo superprodução, realizado por Michael Cimino, pôs “Os Eleitos” em espera, já que a United Artists , responsável por aquele filme, declarou falência. Foi então que a Ladd Company, pertencente a Alan Ladd, Jr., filho do actor Alan Ladd, associada á Warner Bros., entrou com 17.000.000 de dólares necessários para avançar com a produção, (embora o orçamento total tenha sido de 27.000.000 de dólares), que teve início em março de 1982 e terminaria em outubro do mesmo ano.
 
Realizado por Philip Kaufman, argumentista de “Os Salteadores da Arca Perdida” (Steven Spielberg, 1981) ou de “O Rebelde do Kansas” (Clint Eastwood, 1976); realizador do curioso “Invasion of the Body Snatchers – A Invasão dos Violadores” (1978), com Donald Sutherland e Brooke Adams, remake do clássico de ficção científica com o mesmo título original, mas que por cá se chamou “A Terra em Perigo” (Don Siegel, 1956); do semi-erótico “Henry & June – Henry e June” (1990), sobre os amores da escritora Anais Nin com o também escritor Henry Miller, com os desempenhos de Fred Ward, Uma Thurman e da portuguesa Maria de Medeiros; do interessante “The Unbearable Lightness of Being – A Insustentável Leveza do Ser” (1988), adaptação do romance de Milan Kundera cuja acção se passa na Checoslováquia antes e depois da Invasão Soviética em 1956, com o ainda relativamente desconhecido Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin; ou de “Rising Sun – Sol Nascente” (1993) um excitante policial tecnológico adaptado do romance de Michael Crichton com Sean Connery e Wesley Snipes, entre outros, "The Right Stuff", a obra-prima do realizador, cedo se transforma num filme excitante, embora longo, nunca se torna aborrecido.
 
Rapidamente se percebe que “Os Eleitos” assenta em dois aspectos que são fundamentais para o desenvolvimento desta história dos primeiros passos em direcção á conquista do espaço: o primeiro, são os dois homens que assombram o filme. Um fala pouco e o outro, nada. O primeiro é, claro, Chuck Yeager (interpretado por Sam Shepard, num dos seus melhores papéis), geralmente reconhecido como o melhor piloto de ensaio de todos os tempos, que se julga a si próprio pelos feitos (logo desde o início se percebe que ele é o único que tem “The Right Stuff”, ou seja, utilizando uma definição algo provocadora, é “aquele que tem tudo no lugar”!) e não pelas palavras. O outro é o padre da força aérea que oficializa os frequentes funerais e é uma presença agoirenta no bar onde os pilotos confraternizam (brilhante a cena em que uma esposa recém-chegada pergunta como é que um piloto pode ter a sua foto na parede por detrás do balcão. A resposta, lacónica, dada por Pancho Barnes, a dona do bar, é imediata: Só tem de morrer.).
O segundo aspecto é a meticulosa reconstituição duma época em que se estava a iniciar a guerra fria (com alguma paranóia própria à mistura), torna o filme por vezes algo complexo. Mas não é só no ambiente histórico que se constrói este fabuloso filme: a produção trouxe também uma enorme quantidade de modelos de aviões; entre simuladores de vôo, aviões de exposição e aviões verdadeiros daquele período, são mais de 80 os modelos que vão surgindo ao longo das mais de três horas de filme.

 
Carregado de cenas memoráveis ( como, logo no início, o vôo de Yeager a tentar quebrar a barreira do som; a cena, carregada de simbolismo, do funeral que é sobrevoado por aviões em homenagem ao falecido, dos quais um se ausenta da formação; ou o treino dos futuros astronautas), extremamente realistas, principalmente na recriação dos vôos espaciais (ver a cena do vôo de John Glen que o torna no primeiro homem a orbitar a terra ou, quase no final, o de Gordon Cooper que, de acordo com a voz-off, por momentos foi “aquele que foi mais alto, mais longe e mais depressa do que qualquer outro e que foi o último astronauta a voar sozinho”) e interpretado por um elenco de actores e actrizes que se viriam a tornar, alguns deles, em verdadeiras estrelas: além do já referido Sam Shepard, incluem-se também, Ed Harris, Dennis Quaid, Barbara Hershey, Fred Ward, Scott Glenn, Lance Henrikssen, Veronica Cartwright, Jeff Goldblum, entre outros.
 
Sam Shepard e Chuck Yeager
Para conferir um grau de autenticidade ao filme, o verdadeiro Chuck Yeager foi contratado como consultor técnico e faz uma pequena participação. Ele levou os actores que interpretaram os sete astronautas a voar, analisou minuciosamente os “storyboards” de cada cena e os Efeitos Especiais, apontando e corrigindo erros que encontrasse. Para além disto, Kaufman deu aos seus técnicos de montagem, uma lista de documentários, contendo imagens de arquivo da época, necessários para o filme pedindo-lhes que investigassem todos os locais possíveis (desde a Base Aérea de Edwards até á NASA, passando pelos arquivos da Força Aérea), no decorrer destas investigações, foram encontradas imagens de arquivo russas nunca vistas em mais de 30 anos.

 
Mas como acontece sempre quando um filme conta uma história real, nunca se livra de alguma polémica á mistura. Como tal, “Os Eleitos” não foi exepção: apesar do filme tomar algumas liberdades em relação aos acontecimentos retratados, os detractores do filme focaram-se numa dessas “liberdades dramáticas”: o retrato do pânico que o astronauta Gus Grisson (Fred Ward) sente quando a sua cápsula “Liberty Bell 7" se afunda após a queda no mar. Muitos estudiosos, da época, assim como engenheiros que trabalhavam na NASA, estão convencidos que a detonação da escotilha se deveu a uma falha técnica do foguetão e não a erro humano deliberado (como acontece no filme), mas como Kaufman seguiu á risca o livro de Wolfe, que se foca, não no porquê ou como a escotilha detonou, mas sim como os colegas e familiares depreenderam que tinha sido ele a causar a detonação, não alterou nada, deixando que toda a sequência siga á risca a narrativa.
 
Vencedor de 4 Óscares da Academia, incluindo Melhor Montagem e Melhor Banda Sonora ( a música de Bill Conti é extremamente épica e integra plenamente a acção do filme), entre oito nomeações, perdeu o Melhor Filme e a Melhor Realização para "Laços de Ternura" (vá-se lá saber porquê!), "Os Eleitos" foi um grande sucesso de bilheteira, principalmente na europa, já que nos estados unidos, apesar de bem recebido e louvado pela crítica, o filme rendeu apenas 21.500.000 dólares. Dir-se-á que o público não estava preparado para um filme que fizesse a aproximação ao programa espacial, com cepticismo, comédia e alguma ironia á mistura. Mas rapidamente subiu ao pódio dos grandes filmes, ao lado de outras obras-primas contemporâneas, como "Touro Enraivecido" (Martin Scorsese, 1980), "Os Salteadores da Arca Perdida" (Steven Spielberg, 1981), “E:T. - O Extraterrestre” (Steven Spielberg, 1982) ou mesmo “Gandhi” (Richard Attenborough, 1982) e abrindo caminho para futuras incursões cinematográficas na história espacial americana, como por exemplo “Apollo13 – Apollo 13” (Ron Howard, 1995).
   Grande filme de aventuras, carregado de romance, de heroísmo de todos aqueles homens e suas mulheres, mas, principalmente, foi uma história verídica que aconteceu no nosso tempo e isso diz tudo!

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet












sábado, 8 de fevereiro de 2014

“Big Blue” – Vertigem Azul - Azul Profundo



                     
   O mar sempre foi uma fonte de inspiração para qualquer realizador. Muitos são os filmes cujas primeiras cenas são o mar. Na maioria dos casos é como se de um regresso a casa se tratasse. "Vertigem Azul" também sofre dessa tendência.
   Jacques e Enzo foram criados juntos numa aldeia situada à beira do mar Mediterrâneo. Partilham a mesma paixão pelo mar. Um dia, porém, um acidente vitima o pai de Jacques  fazendo  com que os dois percam o contacto durante anos. Quando se reencontram, Enzo é campeão de mergulho livre, enquanto Jacques se tornou treinador de golfinhos e colaborador ocasional dos homens da ciência. Entre os dois, apesar da amizade que os une há mais de 20 anos, nasce uma grande concorrência não só pelo título de campeão mundial de mergulho livre, como também pelo interesse de uma mulher.
   O filme, apesar de se centrar numa rivalidade fictícia, é baseado na história verídica dos verdadeiros campeões de mergulho livre, Jacques Mayol (que também colabora no argumento) e Enzo Maiorca ( que no filme foi rebaptizado de Enzo Molinari), que, não só tinham alguns anos de idade  de diferença, como nunca competiram juntos.  Besson, para não tornar o filme demasiado monótono, teve o cuidado de dividir a acção em  dois tempos distintos: a sua crescente rivalidade enquanto crianças e, já adultos, na sua competição final durante o Campeonato do Mundo de Mergulho Livre, na cidade de Taormina, na Sicília. O segundo momento (e isso é um achado de Luc Besson) tem também outro aspecto importante, que torna o desenrolar da história mais interessante para além da competição, que é a constante procura de Mayol  pelo amor, família, o todo e o sentido da vida e da morte.
   
Realizado por Luc Besson, autor de, por exemplo "O Último Combate"(1983) sobre os devastadores efeitos que uma guerra nuclear faz aos seres humanos, privando-os da fala, vencedor de vários prémios de cinema fantástico nomeadamente no festival de Avoriaz e no Fantasporto; "Subway - Subterrâneo" (1985) sobre a população que habita o metro de Paris fora de horas; "Nikita –Dura de Matar" (1990) sobre os assassinos treinados por organizações secretas e que depois foi objecto de um remake de qualidade  inferior chamado "Point of No Return - A Assassina" (John Badham,1993)e de uma série de televisão, em 2010; "Leon – O Profissional" (1994) primeiro filme americano de Besson e grande sucesso de bilheteira; ou ainda "O Quinto Elemento"(1997) considerado o filme mais caro do cinema europeu.
    "Vertigem Azul", juntamente com o documentário "Atlantis" (1991) que o realizador fez sobre a vida marinha, são os projectos que Besson considera pessoais pois estão relacionados com a sua infância quando percorria o mundo com os pais que eram instructores de mergulho. O mar era a sua casa e reflexo disso são as primeiras imagens do filme: O Mediterrâneo, filmado num maravilhoso preto e branco com a lindíssima banda sonora de Eric Serra (colaborador habitual do realizador) como pano de fundo, assim como todo o prólogo passado numa ilha grega onde somos apresentados à personagem de Jacques Mayol. Besson filma o seu mergulho intensamente como se dele próprio se tratasse e estabelece assim o mote do filme.
Todas as sequências subaquáticas estão excepcionalmente bem filmadas e de maneira a que o espectador se sinta transportado cada vez que os protagonistas se lançam na sua vertigem pelo azul do mar.
   Inicialmente, Luc Besson não tinha a certeza sobre quem é que deveria fazer a personagem  de Jacques Mayol. O realizador pensou em oferecer o papel a Christopher Lambert e Mickey Rourke e até considerou ser ele próprio a interpretar a personagem.
   Contando com Jean Reno (outro colaborador habitual do realizador ), um dos actores europeus mais requisitados para produções internacionais, no papel de Enzo Molinari. O actor tem aqui um dos seus papéis mais importantes e também um dos seus preferidos, apesar da personagem ser a de um homem obcecado pela ganância de continuar a ser o campeão mundial de mergulho livre sem olhar a meios para o manter. Jean Marc Barr e Rosanna Arquette completam o trio à volta do qual vai girar toda a história de "Vertigem Azul".
   Magnificas cenas como a do porto Italiano em que Enzo salva um homem de morrer afogado; as cenas do trio em Taormina; os testes a que Jacques é submetido no gelo ou ainda a cena final no mar entre Jacques e Enzo, fazem de "Vertigem Azul" um drama muito realista e um dos melhores filmes de Luc Besson, embora não isento de alguma dúvida no que diz respeito ao final do filme.  O final original foi intencionalmente deixado em aberto  para que cada espectador fizesse a sua própria interpretação, apesar de ficar a sugestão de que a profundidade a que Mayol desce tornava impossível o seu regresso, vivo, á superfície em circunstâncias normais. Mas tal pode não ser inteiramente verdade, já que, tal como é sugerido ao longo do filme, o corpo de Jacques Mayol  não é um corpo normal e, logo a seguir á cena em que ele acorda no hospital e tem aquele estranho sonho, poderá (ou não) achar-se que ele está pronto para uma vida aquática, daí a sua (possível) morte ser uma conclusão algo precipitada. O realizador terá pensado que assim seria a melhor solução…quem somos nós para o contradizer?
   Exibido fora de competição, em maio de 1988, durante o Festival de Cannes, “Vertigem Azul”, foi um grande sucesso de bilheteira em frança, onde esteve em exibição mais de um ano; nomeado para vários Césares (Oscares do cinema francês), venceu nas categorias de Melhor Banda Sonora para Filme e Melhor Som. Também  em 1989 o prémio da Academia Nacional de Cinema Francês foi entregue a  Luc Besson.
   Apesar do enorme sucesso um pouco por toda a europa, nos estados unidos, o filme foi um rotundo fracasso de bilheteira, muito devido á remontagem para uma duração de 118 minutos, feita pelo estúdio que distribuiu o filme, que quis incluir um final feliz (uma espécie de final alternativo ao destino de Jacques Mayol) e substituído a banda sonora original de Eric Serra por uma composta pelo consagrado Bill Conti. Mais tarde foi distribuída a versão  considerada  normal e a que foi exibida na europa com a duração de 132 minutos. Só muito mais tarde é que foi distribuída, apenas,  para circuito DVD a versão mais longa, com o final original e a banda sonora integral de Eric Serra.
 
Lançado no cinema em duas versões: uma de 132 minutos que fez carreira nos cinemas um pouco por todo o mundo. Só depois do sucesso do filme, já em meados da década de 90,  é que o realizador decidiu lançar a Versão de Realizador, com a duração de 168 minutos, contendo inúmeras sequências inéditas onde se explica um pouco melhor o relacionamento de Jacques Mayol com os golfinhos ou onde se pode apreciar melhor a competição entre as duas personagens. O filme ganha uma nova dimensão, a vertigem torna-se mais azul e este torna-se muito mais profundo.
Considerado bonito e sereno por alguns, demasiado longo, reflexivo e introspectivo por outros, “Vertigem Azul “ tem pelo menos uma certeza:  quem quiser desfrutar de um filme e de uma experiência diferente,  é só deixar-se envolver pela música e mergulhar nesta imensa vertigem azul chamada mar.


Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet





domingo, 26 de janeiro de 2014

“Deliverance” – Fim-de-semana alucinante – David contra Golias








   Há filmes assim. Filmes cuja simplicidade do argumento os torna em poderosos dramas difíceis de esquecer ou até mesmo de ignorar. Filmes que se tornam em retratos de tal força que se tornam, com o tempo, incontornáveis, obras  fundamentais na obra de um realizador, actor, actriz, produtor, argumentista ou até do mais simples técnico. “Deliverance – Fim-de-semana alucinante”, foi uma dessas obras.
   Quatro homens de negócios decidem fazer um fim-de-semana radical. Pretendem descer, de canoa, o Rio Cahulawassee, antes que este e o vale que o circunda sejam inundados pela construção duma barragem. Tudo corre bem até os aventureiros se aperceberem de que, para além do próprio rio, existem outros perigos á espreita.
   O filme começa com as personagens em “voz off” a discutirem sobre o desaparecimento dos habitats naturais e a corrupção da sociedade moderna, enquanto o genérico decorre sobre imagens da destruição desses mesmo habitats, neste caso, o desaparecimento do Rio Cahulawassee, a sua planície e a pequena cidade de Aintry, onde irá terminar a viagem dos quatro amigos.
   
Logo desde o início, pouco depois da cena antológica do duelo musical entre Drew e um rapaz local (o tema “Duelling Banjos”, ganhou um “Grammy”, em 1974, pela Melhor Performance Instrumental de Música Country), até á última imagem do filme ( a mão (de quem?) que se ergue do fundo do lago), vamo-nos apercebendo que aquele não será um passeio fácil, quer seja pela ameaça dos habitantes locais (a espingarda que se vê ser colocada numa viatura ou a visão ameaçadora, pouco antes de começar a descida do rio, por entre as árvores, dos mesmos habitantes), quer seja pelos próprios aventureiros a quererem demonstrar, totalmente vulneráveis contra um meio ambiente hostil, a sua masculinidade.
   Nunca um rio, aparentemente calmo, foi tão ameaçador como este e uma vez mais apercebemo-nos disso na cena em que, pouco depois de se iniciar a descida, as canoas passam por baixo duma ponte na qual se encontra o rapaz e o seu banjo que os olha com ar de preocupação sem responder aos acenos e sorrisos de Drew.  A partir deste ponto acabam os últimos traços de civilização e começa uma jornada através do desconhecido.
   
O rio, de certa maneira, personifica as forças da natureza que muitas vezes empurram os homens para destinos cada vez mais aventurosos, testando as suas capacidades  e onde se evidenciam mais  os conflitos entre campo e cidade. Os aventureiros sentem a necessidade de se entregar (daí o título original “Deliverance”) e se libertarem do seu próprio mal (fruto da educação citadina) e confrontarem com forças adversas como a natureza, transformando este “medir de  forças” numa quase alegoria biblíca do Antigo Testamento, do combate entre David e Golias, aqui com consequências diferentes do confronto de então.
   
O tom que John Boorman, realizador conceituado de filmes como “Point Blank – À Queima-Roupa” (1967) um thriller policial de traição e vingança com Angie Dickinson e Lee Marvin; ou “Hell in the Pacific – Duelo no Pacífico” (1968), um filme sobre a luta pela sobrevivência entre dois soldados, um americano e um japonês numa ilha do pacifico no final da IIª Guerra Mundial e que se pode considerar quase como um prólogo a “Fim-de-semana Alucinante”, dá ao filme é claustrofóbico e sombrio e está de acordo com o argumento de James Dickey, ( que interpreta o xerife de Aintry no final do filme), baseado no seu romance e para o qual Boorman (não creditado) contribui com algumas ideias. È um exercício cinematográfico estilizado, filmado ao longo de cerca de 40 milhas ( mais ou menos 60 quilômetros) de um rio traiçoeiro,  ajudado por uma fotografia de cortar a respiração.
   
O ritmo é deliberadamente lento para que tenhamos tempo para pensar em tudo aquilo que vemos desfilar perante os nossos olhos, principalmente, após a violação brutal a Bobby por dois montanheses que acontece perante os olhos de um Ed indefeso  que só espera que o mesmo não lhe vá acontecer, percebemos que nunca mais nada será igual para aqueles quatro aventureiros. Boormans queria que o filme fosse um grande sucesso e como tal queria os melhores actores para os papéis dos quatro aventureiros: James Stewart, Marlon Brando, Henry Fonda ou Lee Marvin. Todos recusaram os papéis, Stewart e Fonda não concordaram com a temática aventureira do filme; Brando e Marvin achavam-se velhos demais para interpretar qualquer um daqueles papéis e foi o último que sugeriu ao realizador que usasse actores mais novos.
   
Ronny Cox, Ned Beatty, Burt Reynolds, Jon Voight
Com um elenco de excepção, onde se destaca o ex-duplo de cinema, Burt Reynolds, como Lewis, o mais másculo do grupo e que tudo fará para manter essa imagem, líder, não assumido do grupo, mas que se vê obrigado a sobressair como tal, quando os quatro não se conseguem entender sobre o que fazer ao cadáver do montanhês; Ned Beatty  e Ronny Cox, ambos em papéis de estreia, são respectivamente Bobby e Drew, são os elementos mais fracos do grupo, são homens completamente fora do seu meio ambiente e isso percebe-se logo desde o início; mais impressionante é Jon Voight, como Ed, o homem que tem de passar a linha que divide  racional do irracional, ele tem que se assumir a sua quota-parte de homem másculo quando sente que tal é necessário (grande parte do filme, ele permanece como estando, tal como os seus dois outros companheiros, fora do seu elemento natural). Ed acaba por ser o mais perigoso dos quatro, porque combina os dois  extremos da natureza humana e utiliza-os nefastamente para salvar a sua vida e a dos seus companheiros, o que não muda em nada o facto dele e dos seus amigos personalizarem tudo aquilo que é condenável aos olhos da sociedade.
   “Deliverance”, que tinha custado uns meros 2.000.000 de dólares,foi um enorme sucesso de critica e de bilheteira. Em 1972, tornou-se o quinto filme mais visto nesse ano nos Estados Unidos, atingindo um total de 46.000.000 de dólares. No ano seguinte ainda rendeu mais 18.000.000 de dólares nas salas americanas em que se manteve em exibição.
   Dificil de classificar, “Deliverance”, não se inclui em nenhum dos géneros habituais, até porque não tem nenhum dos “clichés” habituais neste tipo de filmes e dificilmente se conseguirá incluir naquelas visões comportamentalizadas do mundo, está muito para além disso. Mas duma coisa temos a certeza: é um filme que atira com todos os conceitos de sociedade pela janela fora e deixa-nos a pensar.
   O filme foi nomeado para diversos prémios, nomeadamente para cinco Globos de Ouro, incluindo Melhor Filme Drama e Melhor Realizador e três Oscares da Academia, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador, mas ficou-se por ai. Mas ao longo dos anos, o filme foi adquirindo a sua importância e, finalmente, no centenário da Sétima Arte integrou a escolha do “American Film Institute  100 Years – 100 Thrillers” posicionando-se no 15º lugar.
   Em 2008, “Deliverance” foi seleccionado pela Biblioteca do Congresso para Registo e Preservação no Museu do Cinema dos Estados Unidos, por ser Cultural, Histórica e Esteticamente significante.

Nota: as imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet







domingo, 19 de janeiro de 2014

MIKE OLDFIELD II

           - Anos de sucesso (1980 - 1984)

       No início da década de 80, após a conclusão duma mini-tournée, em Inglaterra, de apresentação do álbum “Platinum”, Mike Oldfield foi convidado a compor um tema para o programa “Blue Peter”, que estreara em 1979,  no canal para crianças da BBC. O tema foi mantido no programa durante 10 anos. Ainda durante o ano de 1980, Oldfield dedicou-se á gravação de novos temas que iriam integrar o seu próximo álbum.
      
Em Outubro de 1980, “QE2”, sexto álbum do multi-instrumentista foi editado. Mantendo a  mesma via, iniciada com “Platinum”,  este álbum contém, além de temas originais escritos pelo músico, duas versões “cover”: “Arrival” dos  suecos “ABBA”, que adoraram a versão de Oldfield; e “Wonderful Land” dos “Shadows” que, anos mais tarde, fariam uma versão “cover” de “Moonlight Shadow” o maior sucesso internacional de Mike Oldfield.
   O álbum, cujo nome é uma homenagem ao barco da Rainha Isabel II de Inglaterra,  contém também diversos instrumentais típicos do músico: longos (os fabulosos temas “Taurus I” e “QE2”) ou mais curtos ( o intenso “Mirage” ou as bonitas covers de “Arrival” e “Wonderful Land”) ; no álbum tocam, além de Oldfield, que toca grande parte dos instrumentos, músicos convidados como Phil Collins, baterista e vocalista dos “Genesis”, Morris Pert, Tim Cross ou Mike Frye, que se tornariam presenças regulares nos seus álbuns e apresenta também a primeira participação de Maggie Reilly, como vocalista em grande parte dos temas. Dona duma voz cristalina e poderosa, a cantora escocesa tornou-se num elemento imprescindível nos álbuns de Mike Oldfield e nos alinhamentos dos concertos. É um dado adquirido que os grandes sucessos do músico devem-se, não só á sua grande criatividade musical, como também á voz de Reilly.
Apesar do sucesso relativo ( esteve várias semanas no “top 30” de Inglaterra, apesar de não chegar aos lugares cimeiros), Mike  estava decidido a fazer nova tournée, diferente da que fizera na década de 70 e que fora um fracasso financeiro.
    Nova mini-tournée, intitulada “European Adventure Tour”, de promoção ao álbum, decorreu entre Março e Agosto de 1981 e foi um sucesso. A nova formação, composta de dez músicos e uma vocalista, provou ser a melhor fórmula para Mike Oldfield. Já o fora na tournée de apresentação de “Platinum” e continuaria a sê-lo nos anos seguintes, com algumas alterações pontuais de músicos.
   Ainda em 1981, Mike Oldfield foi convidado para compor um tema para o Casamento Real entre o Princípe Charles e Lady Diana Spencer, intitulado “Royal Wedding Anthem”.
Foi durante 1981, que  Mike Oldfield começou a pensar  num novo disco. A experiência de voar num pequeno avião que o transportava a ele e ao seu grupo entre as cidades escolhidas para actuar, começou a fornecer-lhe ideias para a composição de novos temas. A constante mudança de sonoridades durante a década de 80 teve muita influência no álbum, assim como a sua vontade de se afastar dos grandes temas sinfónicos e ir ao encontro de sonoridades mais diversificadas.
   “Five Miles Out”, o sétimo álbum de Mike Oldfield, foi editado em 1982 e com ele algumas inovações. O álbum começa com “Taurus II”, continuação, mais longa, dum  tema que surgira no álbum anterior, aqui mais trabalhado, com cânticos e muitos instrumentos utilizados em álbuns anteriores, seguem-se  depois temas mais curtos dos quais se salienta “Family Man”, um tema genuinamente rock com Maggie Reilly na voz e lançado como segundo single do álbum; seguindo-se “Orabidoo”, outro instrumental longo. O álbum termina com o tema-título, no qual Mike Oldfield canta pela primeira vez na sua carreira. O tema foi inspirado num quase acidente aéreo que Oldfield foi vitíma numa das suas deslocações entre cidades na tourneé anterior. Maggie Reilly canta com uma voz cristalina enquanto Oldfield providencia a voz através dum vocoder (deformador de voz).
“Five Miles Out” revelou-se mais popular do que as suas obras anteriores. Atingindo o número 7 no top 10 da Inglaterra, permaneceu lá durante 7 semanas. A estrela comercial de Oldfield começava a despontar. Alguma dessa popularidade deve-se também á capa do álbum onde podemos ver um modelo antigo do Lockheed 10 a voar por entre nuvens cinzentas em direcção a um céu mais brilhante onde se podem ver alguns reflexos de luz solar. Esta capa foi escolhida por Oldfield como reflexo do receio que o músico tinha de voar.
   1983 seria o ano da consagração definitiva do músico. Depois de uma tournée mundial intitulada “Five Miles Out World Tour 1982, de promoção ao álbum com o mesmo nome, que decorreu entre abril e dezembro, sem dar mostras de exaustão, Oldfield e o seu grupo acharam que estava na altura de entrar novamente em estúdio. Foi durante o sector europeu da tournée que os primeiros temas novos foram ensaiados e gravados no estúdio móvel que acompanhava o grupo. Entre novembro de 1982 e abril de 1983, decorreram as gravações dos novos temas.
“Crises”, título do álbum, viu a luz do dia em maio de 1983 e graças a “Moonlight Shadow”, primeiro single, editado 15 dias antes, o álbum já era um sucesso. A voz límpida e cristalina de Maggie Reilly, aliado á guitarra virtuosa de Mike Oldfield fizeram deste tema o maior sucesso da carreira dele, atingido o número um em inúmeros países europeus e fora dela onde permaneceu por várias semanas. Mas o álbum trazia mais novidades.
   

Desde logo uma capa apelativa, toda ela em verde, onde se vê uma enorme lua cheia sobre uma torre localizada no meio de água. No canto inferior esquerdo vê-se a imagem de um homem a olhar para a torre, apoiado no que parece ser um muro. O músico explicou que ele era o homem no canto e a torre a sua música.  O tema-título, com a duração de cerca de vinte minutos, é mais uma daquelas composições que a que Oldfield nos habituou ao longo do tempo: com uma pequena parte cantada pelo músico (ele que nunca gostara de se ouvir a cantar mas que a experiência feita no álbum anterior, o convenceu a continuar), no início e final do tema, ouvimos passagens feitas por sintetizador que nos trazem ao ouvido a sonoridade da abertura de “Tubular Bells”; “Taurus III” é o fecho de um ciclo musical iniciado em “QE2” e desta vez é um tema curto executado em guitarra e diferente das duas partes anteriores; outros temas incluem “Shadow on the Wall”, cantado por Roger Chapman, cantor de rock e blues; “Foreign Affair” cantado e co-escrito por Maggie Reilly  e “In High Places” cantado por Jon Anderson, vocalista dos “Yes”, conhecido também pelas aventuras musicais que teve com Vangelis. Questionado, numa entrevista, sobre como conseguira obter os préstimos de Chapman e Anderson, Oldfield respondeu que “como frequentamos o mesmo bar, conversámos”. Entre maio e julho de 1983, Mike Oldfield fez uma tournée pela europa
O álbum, tal como o primeiro single, foi número um em diversos países, onde se manteve várias semanas e é o segundo álbum mais vendido de Mike Oldfield.
   O ano de 1984 seria o mais produtivo da longa carreira de Mike Oldfield.
Após um merecido descanso, depois de duas tounées, Oldfield, que se encontrava na sua casa, situada a 2000 metros de altitude, nos Alpes Suiços, começou a pensar no álbum seguinte que pudesse seguir o sucesso dos anteriores. Encorajado pela “Virgin Records”, a sua editora, para escrever novos temas. Oldfield, com vista para o Lago Geneva “em dias soalheiros”, pôs mãos á obra e, em junho de 1984, era editado o novo álbum.
 
“Discovery” contém uma série de temas pop. Começa com “To France”, que foi o grande hit do álbum, com Maggie Reilly na voz, o tema teve aquele título depois de Oldfield ter tentado dar-lhe o nome de outras cidades europeias mas que não ficavam bem na letra. Seguiram-se-lhe os temas “Poison Arrows”, com Barry Palmer, vocalista de diversas bandas britânicas dos anos 70, até se tornar conhecido quando integrou o grupo alemão de rock progressivo “Triumvirat”, a dar o seu contributo; “Discovery” o tema-título, desta vez é um tema cantado e não uma peça longa; “Tricks of the Light” é cantado a duas vozes entre Reilly e Palmer; “Talk about your life” é outro tema, algo ignorado, em que a voz de Maggie e a instrumentação de Oldfield e o seu grupo, se completam muito bem; o mesmo acontece em “Saved by a Bell”; finalmente a fechar o álbum, “The Lake” um instrumental duma beleza indescritível que Oldfield compôs inspirado na vista que tinha da sua casa suiça e onde o músico britânico toca todos os instrumentos, excepto bateria.
A vista inspiradora da casa de Mike Oldfield, na Suiça
   O sucesso do álbum não foi tão grande como o do anterior, apesar de “To France” tter chegado a número um em alguns países, não demoveu o  músico de fazer a “Discovery Tour 1984”, que seria também a sua última tournée na década, entre agosto e novembro de 1984.
Ainda em 1984,  a experiência de Oldfield seria posta á prova.
   
Contactado pelo produtor David Puttnam para compor a banda sonora do filme “The Killing Fields – Terra Sangrenta”, realizado por Roland Joffé e que contava as experiências de dois jornalistas no Cambodja, durante o regime dos “Kmers  Vermelhos”, no início da década de 70, Oldfield, cuja música já fora usada para filmes como “O Exorcista” e outras produções televisivas, aceitou prontamente. Anes de partir em tournée, Mike Oldfield passou cerca de seis meses a trabalhar na composição da música, mas quando regressou, os produtores pediram-lhe mais música e a possibilidade de usar uma orquestra e coro. Entre concertos e o estúdio, o músico passou mais cerca de três meses a ultimar a produção.
   No final de novembro de 1984 era editada a banda sonora do filme. Inteiramente composta por Mike Oldfield e  orquestrada por David Bedford. Porém nem toda a música foi usada no filme. De toda a banda sonora salientou-se o tema “Étude”, um arranjo que Mike Olfield fez dum tema do compositor espanhol  do século XIX, Francisco Tárrega e que foi um relativo sucesso.
A banda sonora foi nomeada para diversos prémios musicais, incluindo um “Bafta” (prémios da Academia de Cinema Britânico), mas ficou-se apenas pela nomeação. “The Killing Fields” foi a única banda sonora que Oldfield compôs.

   A carreira de Mike Olfield continuou de vento em popa, mas já sem o sucesso que obteve nas décadas de 70 e 80. Na década de 90, alguma produção inovadora e exploração contínua de algumas sonoridade já existentes, nomeadamente nos álbuns “Tubular Bells II” (1992) e “Tubular Bells III” (1998), deram-lhe novo fôlego para prosseguir a carreira e entrar no século XXI como um dos músicos mais geniais e criativos da segunda metade do século XX.

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




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