sexta-feira, 23 de agosto de 2013

All That Jazz – Os excessos duma Vida


  
 Bob Fosse (1927-1987), coreógrafo e realizador, foi  um nome incontornável no cinema, particularmente no cinema Musical onde algumas das mais geniais coreografias  sairam da sua cabeça. Quando se tornou realizador, foi com o seu segundo filme, “Cabaret- Adeus Berlin” (1972), um musical já fora de tempo, que recebeu alguns dos maiores  prémios da sua longa carreira,  incluindo o Oscar de Melhor Realizador, um dos oito que o filme ganhou. Até á data, é o único realizador a receber os três maiores prémios da indústria no mesmo ano:  Oscar, Emmy e Tony. “All That Jazz - O Espectáculo vai Começar”,  realizado em 1979,  é um filme semi-autobiográfico,  podendo mesmo ser considerado  como “o retrato do artista em vida”.
    O coreógrafo Joe Gideon é um “workaholic” e um mulherengo incorrigível. É com um cigarro na boca, anfetaminas e outras drogas que tenta, ao mesmo tempo, montar o seu filme  “The Stand Up” a tempo e horas da estreia e encenar e coreografar um espectáculo para a Broadway. Um dia sofre um ataque cardíaco quase fatal e, enquanto conversa com Angelique, um anjo duma beleza fatal, revê episódios da sua vida.
   Apesar de ser uma fantasia musical, “All That Jazz”, como disse atrás, tem qualquer coisa de autobiográfico. Baseando-se num episódio  real que aconteceu a Bob Fosse em 1973. Estava o realizador a trabalhar a conta-relógio na montagem do seu filme “Lenny” , de modo a tê-lo pronto para estrear na data prevista, ao mesmo tempo que coreografava e encenava “Chicago”, uma peça  para a Broadway, quando sofreu um ataque cardíaco que o fez repensar a sua vida dali para a frente.
    
O fabuloso início do filme
Visualmente brilhante, o filme revela muito do que foi  a carreira de Bob Fosse como dançarino, coreógrafo e realizador. Homem de excessos: álcool, cigarros, drogas (leves e duras), mulheres; sempre a trabalhar no limite, mas, acima de tudo, um perfeccionista nato, Fosse (ou seu alter-ego Joe Gideon?) criou, neste filme, alguns dos mais bizarros e extravagantes números musicais  de que há memória: logo desde o início, ao som de “On Broadway”, um sucesso de George Benson, um  fabuloso “plongée” mostra uma figura, ajoelhada, de costas para a câmera, vestida de negro, a observar uma multidão de jovens dançarinas e dançarinos durante uma audição em cima dum palco: é o encenador, coreógrafo e realizador Joe Gideon que, sempre  com o seu cigarro no canto da boca,  a observar tudo e todos, vai seleccionando aqueles que lhe parecem ser os melhores dançarinos.  A partir deste excepcional início, Fosse, com seu único “know how”, coloca a câmera onde quer e como quer  e, como diz o seu alter-ego Joe Gideon “It’s Showtime Folks!”.
 
Os números musicais, entrecortados com a conversa de Gideon com a bela Angelique sobre a vida, profissional e familiar, do artista (uma piscadela de olho a “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman), sucedem-se a um ritmo alucinante, tal como foi a vida de Bob Fosse e do seu alter-ego. Numeros como “Air-otica”, “Jaeger & Gideon”, ou o fantástico final com “Bye  Bye  Life” são o resultado de uma montagem brilhante, perfeita mesmo, cada fotograma está exactamente onde deve estar, iluminado por cores sóbrias que na maior parte das cenas se fundem em negros e brancos.
   
O realizador faz uso brilhante das lentes zoom (quando, na altura, poucos eram os que sabiam fazer uso delas), filmando cenas em que se começa por ver apenas um dançarino ou dançarina em palco e logo começa uma variedade de corpos a passar pelo primeiro a acompanhá-lo no número, deixando o espectador sentir aquela sensação intransponível  do coreógrafo/encenador  de não saber quais serão aqueles que iram dançar no espectáculo,  além de transmitir também  aquela sensação de que estamos perante algo que se passa, não na realidade, mas sim na cabeça de alguém que está ás portas da morte (até aqui, Bob Fosse foi insuperável na previsão da própria morte, de ataque cardíaco em 1987!), tornando todo o filme, do meio para o final, algo depressivo, mas cada vez mais brilhante.  Toda a sequência final, quando Joe Gideon sofre aquele que será o ataque cardíaco fatal que lhe causará a inevitável morte, passa-se inteiramente na sua mente e ele, deitado na cama do hospital, ligado por tubos e a respirar artificialmente, “vê” o seu alter-ego terminar o seu trabalho, encenar e coreografar os números que faltam no seu espectáculo, e prepará-lo para o grande final, permitindo que ele se despeça da vida, dos seus familiares mais próximos (ex-mulher e filha), a namorada, amigos e colaboradores,  em grande com o fabuloso “Bye Bye Life”.
   Fantásticas e não menos fabulosas, aliás, contribuem, e muito, para abrilhantar o filme,  são interpretações de Jessica Lange e, principalmente, de Roy Scheider. Lange, uma antiga modelo que descobriu o cinema em 1976  com “King Kong” (John Guillermin) , tem aqui o seu primeiro papel de destaque ao interpretar Angelique, uma espécie de anjo, dona de uma beleza fatal  acentuada pelo seu vestido branco e o seu chapéu de abas largas, com quem Gideon conversa ao longo do filme e parece ser a única pessoa que o compreende. A sua interpretação está ao nível de outras com que a actriz nos brindaria em anos futuros e que lhe trariam diversos prémios, incluindo dois Oscares da Academia  como Melhor Actriz Secundária em “Tootsie – Quando Ele era Ela” (Sidney Pollack, 1982) e como Melhor Actriz Principal  em “Céu Azul” (Tony Richardson, 1994). Pelo meio não a conseguimos esquecer  em “O  Carteiro Toca Sempre Duas Vezes” (Bob Rafelson, 1981) onde dá vida a uma mulher adúltera que seduz Jack Nicholson.
It's showtime, folks!
   Se Jessica Lange seduz o espectador, Roy Scheider  foi a escolha certa para o papel de Joe Gideon. De estatura  e aspecto semelhante a Fosse, o actor, depois de vários anos em papéis secundários, “The French Connection – Os Incorruptíveis contra a Droga” (William Friedkin, 1971), o multi-premiado policial, deu-lhe uma nomeação para o Oscar de Melhor Actor Secundário,  ganhou destaque em “Jaws – Tubarão”(1975), o mega-sucesso de Steven Spielberg e foi  esta sua ascensão repentina, continuada em “Jaws II – O Tubarão 2” (Jeannot Swzarc, 1978), que o conduziu directamente a Bob Fosse e ao seu alter ego.  Scheider agarrou  e interpretou brilhantemente  o papel (diz-se que a sua sofreguidão pelo papel foi tal que o actor aprendeu a cantar e dançar de propósito para  o papel), cantando e dançando tão bem que, por vezes, é difícil distinguir se estamos perante o actor ou o modelo que serviu de inspiração a tão fabulosa interpretação. Foi, sem dúvida, o melhor papel da longa carreira do actor.
 “All That Jazz – o Espectáculo vai Começar” surgiu numa época em que o musical  já havia desaparecido como género grande. Muitas vezes comparado, pela  sua estrutura, a “8 ½ “ , de Federico Fellini, um filme autobiográfico do mestre Italiano-prima, também ele recheado de elementos fantásticos, comparação essa que Fosse sempre negou.
O filme estreou em dezembro de 1979, ainda a tempo de entrar na corrida para os Oscares, conseguindo nove nomeações, incluindo para Melhor Filme, Melhor Realizador e também para Melhor Actor, venceria apenas em quatro  categorias técnicas. O filme foi um enorme sucesso de bilheteira e venceria ainda inúmeros prémios em festivais um pouco por todo o mundo. Na Europa, em 1980, seria exibido no Festival de Cannes e obteria a consagração máxima ao vencer a Palma de Ouro, “ex-aequo” com “Kagemusha – A Sombra do Guerreiro” do mestre Japonês Akira Kurosawa.
Bobo Fosse e o seu alter-ego Joe "Roy Scheider" Gideon
   Em 2001, “All That Jazz” foi considerado, pelo “American Film Institute”  como sendo culturalmente, historicamente e esteticamente significativo e selecionado para ser preservado no “Nacional Film Registry”. Em 2006 o filme foi considerado o 14º melhor filme musical da história do cinema.
   Seria também o ultimo filme musical a ser nomeado para o Oscar de Melhor Filme do Ano  antes de “A Bela e o Monstro”, em 1991, receber a mesma nomeação e, finalmente em 2002, “Chicago” (o filme que Bob Fosse queria realizar, mas nunca conseguiu por falta de financiamento, baseado na sua peça da Broadway), vencer essa categoria.


Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Tempo de Glória – Quando os EUA se envergonharam a Si Mesmos




   
De tempos a tempos surge um filme que nos traz á memória os bons velhos épicos que assistíamos com os nossos pais e que faziam as delícias de quem ia ao cinema nas décadas de 50 e 60 do século passado. “Tempo de Glória” foi um desses filmes.
   Produzido em 1989, ano de todas as mudanças no panorama internacional, feito na esteira do sucesso obtido na televisão por “Norte e Sul” ( David L.Wolper, 1985), este filme mostrou um outro lado da Guerra de Secessão Americana que ainda não havia sido explorado antes.
   O Coronel Robert Gould Shaw, herói da Guerra de Secessão, oferece-se como voluntário para comandar o 54º Regimento de voluntários do Massachusetts, o primeiro inteiramente constituído  por  soldados negros contra o exército confederado, mesmo conhecendo todos os dissabores que essa decisão lhe possa trazer…
   
O Monumento ao 54º Regimento de Infantaria em Boston
O filme é baseado, em parte. nas cartas particulares que o coronel escrevia á sua mãe (e das quais se ouvem excertos ao longo do filme) e nos livros “Lay This Laurel”, escrito por Lincoln Kirstein e “One Gallant Rush” de Peter Burchard. Kevin Jarre, o argumentista,  disse que a sua principal inspiração veio quando visitou o monumento de homenagem ao Coronel Shaw e ao 54º em Boston (que se vê sob o genérico  no final do filme).  
   
Realizado por Edward Zwick, realizador de “Lembras-te da última noite?” (1986) em que um homem e uma mulher tentam manter uma relação amorosa apesar das suas diferenças de opinião e das opiniões dos outros, filme produzido por John Hughes, rei da comédia na década 80 do século passado; “Coragem debaixo de Fogo” (1996) em que do resultado duma investigação, permitirá que uma oficial do exército seja postumamente condecorada; “O Último Samurai” (2003), um épico-veículo para Tom Cruise, também produtor do filme, cuja acção se passa no século XIX, onde um oficial do exército americano, capturado numa batalha contra os samurais, transforma-se num consultor militar  dos guerreiros orientais enquanto abraça a sua  cultura;  “Diamante de Sangue” (2006) cuja acção se centra na guerra civil da Serra Leoa, onde um mercenário houve uma história sobre um pescador ter encontrado um grande diamante. Zwick, formado na televisão, aplica os conhecimentos aí adquiridos em cenas de acção muito bem encenadas, como seja por exemplo a primeira vez que a companhia entra em acção numa escaramuça com as forças confederadas; ou o ataque ao Fort Wagner, cujo massacre, quase integral da companhia, lhes dá a entrada na História (a “Glory” de que fala o título original do filme). É uma cena extremamente bem filmada, muito bem fotografada e com a banda sonora de James Horner a dar o toque necessário para que a cena final (em que os nossos heróis conseguem subir a muralha do forte) se torne na imagem mais poderosa do filme.
   Com um elenco onde se destacam os nomes de Matthew Broderick, como Coronel Robert Shaw, abandonando com este filme os papéis das comédias que preencheram o seu principio de carreira, o actor tem aqui talvez a sua melhor interpretação; Cary Elwes como adjunto de Shaw e uma boa prestação do actor; Morgan Freeman,como o coveiro Rawlins que ao se alistar vai-se transformar na figura paternal de toda a companhia e uma espécie de mediador de conflitos, embora secundária, dá uma interpretação ao seu melhor nível. O destaque vai, claro, para Denzel Washington, que interpreta o soldado Trip, o racista inconformado com a sua situação, mas que no ataque final, ao ver o comandante morrer ao seu lado, transporta a bandeira dos Estados Unidos até à muralha (honra que lhe fora oferecida pelo coronel na véspera da batalha e que Trip recusara, num dos melhores diálogos de todo o filme,  por não se achar com capacidade para isso), dá um verdadeiro show de interpretação que lhe mereceu o Óscar de Melhor Actor Secundário do ano, vitória conseguida na magnifica cena em que Trip é chicoteado, depois de tentar desertar, perante o olhar de toda a companhia (o seu olhar, misto de ódio e duma dor que está para além de qualquer compreensão, é outro grande momento do filme) e aceita a sua condição sem vacilar. 

O público respondeu positivamente quando o filme estreou, fazendo dele um dos maiores sucessos de bilheteira do ano, elevando o seu orçamento, estimado em cerca de 18.000.000 de dólares para um total de 63.000.000 só nos Estados Unidos. Já a nível dos críticos, estes dividiram-se, embora na generalidade, o filme tenha recebido louváveis críticas no tocante a valores de produção e história condutora, foram mais moderados na avaliação das interpretações, nomeadamente, a de Matthew Broderick como cabeça de elenco.
   Vencedor de 3 Óscares da Academia, e inúmeros outros prémios,  “Tempo de Glória” foi um enorme sucesso de bilheteira e um daqueles  filmes que vale sempre a pena  ver e, por ser baseado em factos verídicos, acaba por ser também uma lição de história sobre uma guerra que envergonhou uma nação.

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




quarta-feira, 31 de julho de 2013

As Confissões “de uma espécie de Escritor”





   
O dia 19 de abril de 2013 marcou a vida do artista. Foi nesse dia que a literatura viu nascer mais um escritor, ou melhor, uma espécie de escritor. Foi precisamente nesse dia, no café “Saudade”, em Sintra, mais ou menos, por volta das 22 horas que essa espécie de escritor nasceu. Mas antes de  chegarmos  a esse dia e ano, precisamos de recuar uns bons tempos para percebermos o trajecto que esse artista fez.
   Os primeiros sinais duma grande vontade de contar histórias surgiram por volta dos 10 anos de idade, depois duma passagem normal pela primária, onde teve que aprender de tudo um pouco: desde aprender os números, a contar, a fazer contas de somar, dividir, multiplicar e subtrair, até saber  os aparelhos do corpo humano e suas funções; desde saber os nomes de todos os reis de Portugal  até saber as províncias todas de Portugal, as serras, os rios, os caminhos-de-ferro de cor e salteado. Aquele artista que chegou ao preparatório era um rapaz bem preparado e pronto para novos desafios que se avizinhavam.
   
O ciclo preparatório foi um primeiro desafio para o artista. Inicialmente, não percebia bem aquilo que queriam dele. Novos colegas, novas disciplinas, novos professores, enfim todo um admirável mundo novo, que não o livraram dum choque inicial com a professora de Educação Visual, que o levaram a faltar algumas vezes ás aulas da dita disciplina. Professora essa, que, por acaso, até era a sua directora de turma. Mas rapidamente se redimiu e começou a dar nas vistas nas redações que fazia nas aulas de Português e na  facilidade com que participava nas aulas de conversação de Inglês. Se o 1ºano do Ciclo Preparatório foi um grande desafio superado com eficácia, principalmente a partir do segundo período, já o 2º ano do mesmo Ciclo foi feito “com uma perna ás costas”, com distinção em algumas disciplinas. O artista estava pronto para o desafio seguinte.
   
Inspirado pelas aventuras dos “Pequenos Vagabundos”, de "Sandokan" ou dos “Famosos Cinco”, escrevia, de um dia para o outro, pequenas histórias que depois recriava, com alguns colegas, no recreio da escola, nos intervalos entre as disciplinas ou quando faltava algum professor. Foram momentos únicos, divertidos  e inesquecíveis que fizeram de algum modo com que a imaginação do artista começasse a sobressair.
   Foi no 8ºano que o artista realmente deu nas vistas e em dois momentos: o primeiro deles, aconteceu na elaboração de um t.p.c. (os mal-afamados trabalhos de casa), para Português, em que foi dado um tema livre para se fazer uma composição e o artista não foi de intrigas: depois de muito pensar até quase matar a cabeça, resolveu escrever sobre o mau tempo que na altura assolava o país  e pôr-se na pele duma vítima desse mesmo mau tempo, descrevendo aquilo que assistia e pelo que passara. 
   
O professor deu-lhe nota máxima na composição e ainda  escreveu  no final da folha um “muito bem!” a demonstrar o seu agrado por aquilo que lera; o segundo momento aconteceu também na disciplina de Português durante um teste escrito em que no final  nos era pedido que imaginássemos uma situação em que estivéssemos perdidos e o que é que nos aconteceria. O artista, uma vez mais, deu a volta por cima e criou uma situação em que a sua personagem ia para uma floresta brincar com os amigos, perdia-se (ou era abandonado) e depois de muito andar e quase desesperar reencontrava-os numa casa onde pareciam estar a aguardar por ele. O texto terminava neste suspense permitindo várias interpretações. O professor, não só gostou, como também o encarregou de fazer a continuação/conclusão da história que fora contada. Claro que o artista fez o que lhe foi pedido e nesse ano (pela única vez no seu tempo de escola) teve 5 a Português!
Mas o bichinho da escrita já o tinha atacado e nunca mais haveria de o largar.
   
O tempo foi passando, o artista acabou o ensino secundário e ingressou no ensino superior e ainda cumpriu o serviço militar. Pelo meio, escreveu três livros (dois de aventura e um western), mas nenhum passou do caderno onde foi escrito e sobreviveu para ver a luz do dia.
Em 1991, já em pleno furor laboral, é convidado por João Amaral,  um seu amigo, apaixonado por ilustração e Banda Desenhada, para adaptar “A Voz dos Deuses”, romance histórico de João Aguiar, para banda desenhada. Como já conhecia a obra e o seu potencial, o artista, considerando ser o maior desafio que já enfrentara, aceitou de imediato. Três anos depois, com muita investigação  para não descurar nenhum pormenor, várias deslocações a locais onde se passa a acção  e também com uma boa dose de loucura própria dos autores á mistura, a adaptação chegou a bom porto ainda tempo de ser apresentada e lançada no “Festival de BD da Amadora” para grande alegria, não só dos autores, como também do próprio João Aguiar.  Foi então que o artista foi abordado para enfrentar outros desafios.
   Foi durante a apresentação do livro, numa entrevista a um órgão social que lhe puseram a questão de qual seria o seu futuro. O artista respondeu que não pensava continuar na Banda Desenhada mas que pretendia, a par com o seu trabalho, dedicar-se á escrita de romances e que até aproveitara aqueles dias do festival para escrever algumas páginas que já submetera á apreciação de alguns amigos, os quais o incentivaram de imediato a continuar. Entre aqueles dias do festival de Banda Desenhada e o final desse ano de 1994 que começou a delinear o seu primeiro romance que, como diz o ditado “ano novo, vida nova”, foi escrito durante o ano de 1995.
O livro, que ainda hoje enquanto o artista escreve estas linhas, permanece sem título, é uma história  policial, banal passada algures numa pequena cidade da Califórnia chamada Gravetown e na qual acontecem vários crimes horríveis, sem qualquer ligação entre si, competindo ao xerife local investigá-los.
   
O artista, leitor de policiais clássicos como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Lawrence Sanders, Robert Ludlum, entre outros, quis homenageá-los  no seu romance. Se o conseguiu ou não, não sabe, talvez nunca saiba se não decidir editar a obra, a que ele chama “obra tosca”. No entanto, quem o leu, mesmo sem nenhuma revisão, diz que tem potencial. A ver vamos futuramente. Para o artista, a experiência foi interessante, o simples facto de voltar a escrever foi cativante e deixou-o com vontade de continuar.
 No seu segundo esforço literário, o artista quis optar por algo diferente e que fosse interessante de ler.
   
Desde meados de 90 que ele mantinha algumas conversas interessantes com Stephen, um americano que era o encarregado da sucursal portuguesa duma empresa comercial americana que se queria estabelecer em portugal,  que morava em Sintra numa quinta junto á serra.  Tinham-se conhecido num café na portela de sintra, que era propriedade dos pais dumas amigas do artista. As conversas andavam á volta dos mistérios da serra e de sintra e eram tão interessantes que o artista começou a tomar notas porque viu ali, naquele amontoado de ideias uma possível base para um possível  livro. Esta possibilidade viu-a numa das visitas que fez á quinta dele. Falou-lhe nisso e Stephen mostrou-se interessado, tão interessado que o levou numa visita guiada pelos locais mais recônditos e inacessíveis ao turista normal do Palácio da Pena. A ideia foi tomando forma e, a dada altura, as ideias já eram mais que muitas e só precisavam de ser trabalhadas. Foi o que o artista começou a fazer.
   Foi então que, inesperadamente, Stephen, segundo informou algumas pessoas, teve de viajar para os Estados Unidos sem deixar um contacto telefónico ou uma morada donde nunca mais deu notícias. O artista deixou passar algum tempo antes de se decidir a avançar com a ideia que tinha que, naquela altura, já tinha tomado a forma que acabou por ter.
Quatro anos foi o tempo que demorou a escrita. Depois de nova passagem por alguns locais onde decorre a acção, alguma investigação mais profunda sobre o tema e estava pronto para começar. “A Última Demanda”, assim se chamou o livro, título que só foi encontrado já na fase final da escrita, começou a ser escrito em 1998 e foi terminado em 2002. Trata-se duma aventura que parte duma premissa possível:  “E se o Cálice Sagrado estivesse em Sintra?” e com isto em mente acompanhamos a investigação que um grupo de arqueólogos leva acabo sobre o assunto. O simples facto de poder brincar com a História, a disciplina preferida e curso superior que o artista seguiu na faculdade, mas que não terminou, depois duma passagem disinteressante pelo curso de direito, permitiu que ele se divertisse imenso enquanto escrevia o livro.
   
Sem grande conhecimento do que poderia acontecer, ou de editoras que quisessem apostar num desconhecido, o  artista resolveu submeter o texto á apreciação do seu amigo escritor João Aguiar, que com a simpatia que se conhecia, disse que com uma boa revisão e algumas correcções ortográficas e gramaticais, o história até tinha pernas para andar e ser editada. O artista, satisfeito, enviou o texto, assim mesmo, para algumas editoras de renome. Umas responderam negativamente por falta de espaço nos seus catálogos, outras nem sequer se dignaram, até hoje, a fazê-lo e assim se passaram alguns anos, até que o artista, depois de pedir a uma colega de trabalho que lhe revisse aquele texto  que permanecera intocável desde que  João Aguiar lhe respondera positivamente, decidiu arriscar novamente a edição  dum texto seu  tendo sempre presente que o não era sempre garantido. Entra em cena “A Pastelaria Estudios Editora” , uma editora com cerca de dois anos de existência que aposta em novos autores que possam constituir possíveis valores futuros, que gostou e aceitou publicar o livro que o artista lhes enviara. Algum tempo e diversos e-mails depois, trocados entre a editora e o artista, a obra estava pronta a ser editada.
   
Sexta-Feira, 19 de abril de 2013, no “Café Saudade” em sintra, por volta das 22 horas, o livro “A Última Demanda” era oficialmente apresentado. Foi com grande emoção e muito nervosismo á mistura, perante uma plateia de familiares, colegas e amigos que o artista apresentou a sua obra . Durante cerca de duas horas e meia, o artista falou da obra, do porquê da escolha daquele local para apresentar o livro, da sua (curta) carreira de escritor, que, apesar de já ter dois livros escritos,  começava naquele momento e do porquê de ter escolhido aquele tema, ter escolhido o seu segundo romance para se estrear e muitas outras coisas. Depois a apresentação, houve a tradicional  sessão de autógrafos e, pronto!, estava apresentado um novo  escritor, uma espécie de escritor, como ele gosta de se chamar.

    Se o artista vai continuar nesta nova carreira, nem ele sabe, vontade e ideias não lhe faltam, mas depende da recepção que a sua obra vai ter junto dos leitores, critícos, blogers, etc. Se vende muito ou pouco, não é preocupação do artista. O que realmente o preocupa é o que vão achar da sua escrita, se é boa ou não, se motiva as pessoas, se tem ritmo, etc.
È destas opiniões que o artista vai decidir se abraça ou não esta nova fase da sua vida.
Comentários, opiniões e sugestões podem ser enviados para: ruicmgc@gmail.com ou rcmgc1@gmail.com , onde o artista ou "espécie de escritor" terá muito prazer em responder a todas as perguntas.

Nota: as imagens que ilustram este texto foram retiradas da internet e também da fototeca do autor

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