domingo, 19 de janeiro de 2014

MIKE OLDFIELD II

           - Anos de sucesso (1980 - 1984)

       No início da década de 80, após a conclusão duma mini-tournée, em Inglaterra, de apresentação do álbum “Platinum”, Mike Oldfield foi convidado a compor um tema para o programa “Blue Peter”, que estreara em 1979,  no canal para crianças da BBC. O tema foi mantido no programa durante 10 anos. Ainda durante o ano de 1980, Oldfield dedicou-se á gravação de novos temas que iriam integrar o seu próximo álbum.
      
Em Outubro de 1980, “QE2”, sexto álbum do multi-instrumentista foi editado. Mantendo a  mesma via, iniciada com “Platinum”,  este álbum contém, além de temas originais escritos pelo músico, duas versões “cover”: “Arrival” dos  suecos “ABBA”, que adoraram a versão de Oldfield; e “Wonderful Land” dos “Shadows” que, anos mais tarde, fariam uma versão “cover” de “Moonlight Shadow” o maior sucesso internacional de Mike Oldfield.
   O álbum, cujo nome é uma homenagem ao barco da Rainha Isabel II de Inglaterra,  contém também diversos instrumentais típicos do músico: longos (os fabulosos temas “Taurus I” e “QE2”) ou mais curtos ( o intenso “Mirage” ou as bonitas covers de “Arrival” e “Wonderful Land”) ; no álbum tocam, além de Oldfield, que toca grande parte dos instrumentos, músicos convidados como Phil Collins, baterista e vocalista dos “Genesis”, Morris Pert, Tim Cross ou Mike Frye, que se tornariam presenças regulares nos seus álbuns e apresenta também a primeira participação de Maggie Reilly, como vocalista em grande parte dos temas. Dona duma voz cristalina e poderosa, a cantora escocesa tornou-se num elemento imprescindível nos álbuns de Mike Oldfield e nos alinhamentos dos concertos. É um dado adquirido que os grandes sucessos do músico devem-se, não só á sua grande criatividade musical, como também á voz de Reilly.
Apesar do sucesso relativo ( esteve várias semanas no “top 30” de Inglaterra, apesar de não chegar aos lugares cimeiros), Mike  estava decidido a fazer nova tournée, diferente da que fizera na década de 70 e que fora um fracasso financeiro.
    Nova mini-tournée, intitulada “European Adventure Tour”, de promoção ao álbum, decorreu entre Março e Agosto de 1981 e foi um sucesso. A nova formação, composta de dez músicos e uma vocalista, provou ser a melhor fórmula para Mike Oldfield. Já o fora na tournée de apresentação de “Platinum” e continuaria a sê-lo nos anos seguintes, com algumas alterações pontuais de músicos.
   Ainda em 1981, Mike Oldfield foi convidado para compor um tema para o Casamento Real entre o Princípe Charles e Lady Diana Spencer, intitulado “Royal Wedding Anthem”.
Foi durante 1981, que  Mike Oldfield começou a pensar  num novo disco. A experiência de voar num pequeno avião que o transportava a ele e ao seu grupo entre as cidades escolhidas para actuar, começou a fornecer-lhe ideias para a composição de novos temas. A constante mudança de sonoridades durante a década de 80 teve muita influência no álbum, assim como a sua vontade de se afastar dos grandes temas sinfónicos e ir ao encontro de sonoridades mais diversificadas.
   “Five Miles Out”, o sétimo álbum de Mike Oldfield, foi editado em 1982 e com ele algumas inovações. O álbum começa com “Taurus II”, continuação, mais longa, dum  tema que surgira no álbum anterior, aqui mais trabalhado, com cânticos e muitos instrumentos utilizados em álbuns anteriores, seguem-se  depois temas mais curtos dos quais se salienta “Family Man”, um tema genuinamente rock com Maggie Reilly na voz e lançado como segundo single do álbum; seguindo-se “Orabidoo”, outro instrumental longo. O álbum termina com o tema-título, no qual Mike Oldfield canta pela primeira vez na sua carreira. O tema foi inspirado num quase acidente aéreo que Oldfield foi vitíma numa das suas deslocações entre cidades na tourneé anterior. Maggie Reilly canta com uma voz cristalina enquanto Oldfield providencia a voz através dum vocoder (deformador de voz).
“Five Miles Out” revelou-se mais popular do que as suas obras anteriores. Atingindo o número 7 no top 10 da Inglaterra, permaneceu lá durante 7 semanas. A estrela comercial de Oldfield começava a despontar. Alguma dessa popularidade deve-se também á capa do álbum onde podemos ver um modelo antigo do Lockheed 10 a voar por entre nuvens cinzentas em direcção a um céu mais brilhante onde se podem ver alguns reflexos de luz solar. Esta capa foi escolhida por Oldfield como reflexo do receio que o músico tinha de voar.
   1983 seria o ano da consagração definitiva do músico. Depois de uma tournée mundial intitulada “Five Miles Out World Tour 1982, de promoção ao álbum com o mesmo nome, que decorreu entre abril e dezembro, sem dar mostras de exaustão, Oldfield e o seu grupo acharam que estava na altura de entrar novamente em estúdio. Foi durante o sector europeu da tournée que os primeiros temas novos foram ensaiados e gravados no estúdio móvel que acompanhava o grupo. Entre novembro de 1982 e abril de 1983, decorreram as gravações dos novos temas.
“Crises”, título do álbum, viu a luz do dia em maio de 1983 e graças a “Moonlight Shadow”, primeiro single, editado 15 dias antes, o álbum já era um sucesso. A voz límpida e cristalina de Maggie Reilly, aliado á guitarra virtuosa de Mike Oldfield fizeram deste tema o maior sucesso da carreira dele, atingido o número um em inúmeros países europeus e fora dela onde permaneceu por várias semanas. Mas o álbum trazia mais novidades.
   

Desde logo uma capa apelativa, toda ela em verde, onde se vê uma enorme lua cheia sobre uma torre localizada no meio de água. No canto inferior esquerdo vê-se a imagem de um homem a olhar para a torre, apoiado no que parece ser um muro. O músico explicou que ele era o homem no canto e a torre a sua música.  O tema-título, com a duração de cerca de vinte minutos, é mais uma daquelas composições que a que Oldfield nos habituou ao longo do tempo: com uma pequena parte cantada pelo músico (ele que nunca gostara de se ouvir a cantar mas que a experiência feita no álbum anterior, o convenceu a continuar), no início e final do tema, ouvimos passagens feitas por sintetizador que nos trazem ao ouvido a sonoridade da abertura de “Tubular Bells”; “Taurus III” é o fecho de um ciclo musical iniciado em “QE2” e desta vez é um tema curto executado em guitarra e diferente das duas partes anteriores; outros temas incluem “Shadow on the Wall”, cantado por Roger Chapman, cantor de rock e blues; “Foreign Affair” cantado e co-escrito por Maggie Reilly  e “In High Places” cantado por Jon Anderson, vocalista dos “Yes”, conhecido também pelas aventuras musicais que teve com Vangelis. Questionado, numa entrevista, sobre como conseguira obter os préstimos de Chapman e Anderson, Oldfield respondeu que “como frequentamos o mesmo bar, conversámos”. Entre maio e julho de 1983, Mike Oldfield fez uma tournée pela europa
O álbum, tal como o primeiro single, foi número um em diversos países, onde se manteve várias semanas e é o segundo álbum mais vendido de Mike Oldfield.
   O ano de 1984 seria o mais produtivo da longa carreira de Mike Oldfield.
Após um merecido descanso, depois de duas tounées, Oldfield, que se encontrava na sua casa, situada a 2000 metros de altitude, nos Alpes Suiços, começou a pensar no álbum seguinte que pudesse seguir o sucesso dos anteriores. Encorajado pela “Virgin Records”, a sua editora, para escrever novos temas. Oldfield, com vista para o Lago Geneva “em dias soalheiros”, pôs mãos á obra e, em junho de 1984, era editado o novo álbum.
 
“Discovery” contém uma série de temas pop. Começa com “To France”, que foi o grande hit do álbum, com Maggie Reilly na voz, o tema teve aquele título depois de Oldfield ter tentado dar-lhe o nome de outras cidades europeias mas que não ficavam bem na letra. Seguiram-se-lhe os temas “Poison Arrows”, com Barry Palmer, vocalista de diversas bandas britânicas dos anos 70, até se tornar conhecido quando integrou o grupo alemão de rock progressivo “Triumvirat”, a dar o seu contributo; “Discovery” o tema-título, desta vez é um tema cantado e não uma peça longa; “Tricks of the Light” é cantado a duas vozes entre Reilly e Palmer; “Talk about your life” é outro tema, algo ignorado, em que a voz de Maggie e a instrumentação de Oldfield e o seu grupo, se completam muito bem; o mesmo acontece em “Saved by a Bell”; finalmente a fechar o álbum, “The Lake” um instrumental duma beleza indescritível que Oldfield compôs inspirado na vista que tinha da sua casa suiça e onde o músico britânico toca todos os instrumentos, excepto bateria.
A vista inspiradora da casa de Mike Oldfield, na Suiça
   O sucesso do álbum não foi tão grande como o do anterior, apesar de “To France” tter chegado a número um em alguns países, não demoveu o  músico de fazer a “Discovery Tour 1984”, que seria também a sua última tournée na década, entre agosto e novembro de 1984.
Ainda em 1984,  a experiência de Oldfield seria posta á prova.
   
Contactado pelo produtor David Puttnam para compor a banda sonora do filme “The Killing Fields – Terra Sangrenta”, realizado por Roland Joffé e que contava as experiências de dois jornalistas no Cambodja, durante o regime dos “Kmers  Vermelhos”, no início da década de 70, Oldfield, cuja música já fora usada para filmes como “O Exorcista” e outras produções televisivas, aceitou prontamente. Anes de partir em tournée, Mike Oldfield passou cerca de seis meses a trabalhar na composição da música, mas quando regressou, os produtores pediram-lhe mais música e a possibilidade de usar uma orquestra e coro. Entre concertos e o estúdio, o músico passou mais cerca de três meses a ultimar a produção.
   No final de novembro de 1984 era editada a banda sonora do filme. Inteiramente composta por Mike Oldfield e  orquestrada por David Bedford. Porém nem toda a música foi usada no filme. De toda a banda sonora salientou-se o tema “Étude”, um arranjo que Mike Olfield fez dum tema do compositor espanhol  do século XIX, Francisco Tárrega e que foi um relativo sucesso.
A banda sonora foi nomeada para diversos prémios musicais, incluindo um “Bafta” (prémios da Academia de Cinema Britânico), mas ficou-se apenas pela nomeação. “The Killing Fields” foi a única banda sonora que Oldfield compôs.

   A carreira de Mike Olfield continuou de vento em popa, mas já sem o sucesso que obteve nas décadas de 70 e 80. Na década de 90, alguma produção inovadora e exploração contínua de algumas sonoridade já existentes, nomeadamente nos álbuns “Tubular Bells II” (1992) e “Tubular Bells III” (1998), deram-lhe novo fôlego para prosseguir a carreira e entrar no século XXI como um dos músicos mais geniais e criativos da segunda metade do século XX.

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

MIKE OLDFIELD I

                         - Começos (1967-1979)

   “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” , terá sido com estas palavras de Fernando Pessoa que os  executivos da Virgin Records reagiram aos primeiros acordes do tema “Tubular Bells – Part I”, do álbum com o mesmo nome do músico Mike Oldfield, com que foi inaugurado o catálogo  daquela editora no ano de 1973.
    
Michael Gordon Oldfield  nasceu a 15 de maio de 1953 e desde cedo mostrou grande apetência para a música. Aos 14 anos tocava guitarra acústica em pubs e clubes locais em Reading, no Essex, ganhando algumas libras e experiência musical.  Por esta altura, Mike Oldfield já tinha composto 2 temas instrumentais de 15 minutos cada que, segundo ele, lhe serviam “para passar por todos os estados de alma” e que seriam a base para a maior parte dos seus temas-marca durante a década de 70.
Pouco tempo depois, Oldfield começou a tocar num grupo que imitava os Shadows de Cliff Richard e Hank Marvin, este último influenciou muito o jovem Mike que, anos mais tarde,  faria uma “cover” do tema “Wonderful Land” do grupo. 
   Em 1967, Oldfield e a sua irmã, Sally, formaram o duo “Sallyangie”.  Apresentando-se ao vivo num festival folk local, ganharam alguma projecção e, em 1968, gravam um álbum “Children of the Sun” para a editora Transatlantic Records. Mas o duo foi sol de pouca dura e quando acabou, Mike Oldfield formou outro duo, desta vez com o seu irmão, Terry, chamado “Barefoot” e regressou á música rock. Mas também esta experiência não iria durar muito tempo. Os dois irmãos de Mike, viriam a participar em muitos dos seus álbuns.
   
Em 1970,  Mike juntou-se ao grupo “The Whole World”, um grupo que acompanhava Kevin Ayers, vocalista e antigo membro do grupo “Soft Machine”,  a tocar guitarra baixo e ocasionalmente guitarra elétrica.  O jovem participa em dois álbuns de Ayers, “Whatevershebringswesing” e “Shootingat the Moon”. O grupo incluía também o compositor e teclista David Bedford, a quem ele mostrou as suas primeiras experiências musicais, que viu no jovem Mike um músico promissor.  Rapidamente, Bedford, encorajou o jovem musico a compôr uma primeira versão de “Tubular Bells”.
   
Depois de ter gravado uma série de demos que iriam resultar em “Tubular Bells”, Oldfield tentou, sem sucesso, convencer inúmeras editoras a apostar naquele projecto. Em Setembro de 1971, quase a desistir, levou a demo até ao Manor Studio, onde iria participar como baixista convidado no álbum de Arthur Louis. No intervalo, entre sessões, pôs a demo a tocar e ela foi ouvida por Tom Newman e Simon Hey worth, engenheiros de som, que ficaram encantados com aquela sonoridade.
Apresentaram-na ao jovem milionário, Richard Branson, dono da Manor Studio e que naquela altura se estava a preparar para lançar a  sua própria editora, a Virgin Records. Encantados com a sonoridade  daquele tema, Branson e o seu braço-direito, Simon Draper,  deram ao jovem Mike uma semana para gravar na Manor, durante a qual ele completou a parte 1 de “Tubular Bells”. A parte 2 foi completada e gravada nos meses seguintes.
 
 “Tubular Bells” tornou-se o trabalho mais famoso de Mike Oldfield e uma peça musical incontornável de Rock Sinfónico na sua vertente “New Age”( movimento, nascido no final do século XX, cuja principal característica é a de criar um espaço ambiental de inspiração artística, relaxamento, estudo e leitura através da música). O álbum instrumental foi gravado durante o ano  de 1972  e editado a 25 de maio de 1973 inaugurando o catálogo da Virgin Records de Richard Branson.  A recepção ao álbum foi estrondosa, já que,  passando por vários estilos musicais, nas duas faixas que o compõem,  Mike Oldfield toca mais de vinte instrumentos diferentes e só na Grâ-Bretanha vendeu mais de 2.630.000 cópias, situando-se, ainda hoje, na  posição 34 dos álbuns mais vendidos no país.  Nos Estados Unidos, o álbum ganhou alguma projecção quando um excerto da parte 1 foi incluído na banda sonora do filme “The Exorcist – O Exorcista” (William Friedkin, 1973) por escolha directa do realizador. Essa inclusão do  excerto na banda sonora do filme acabou por ser decisiva e o tema foi  número 10 no top de vendas  americano.
   Em 1974, Mike Oldfield participou como guitarrista  no álbum “Rock Bottom” de Robert Wyatt e no Outono desse ano editou “Hergest Ridge”, uma espécie de continuação de “Tubular Bells”. Tal como o seu antecessor, este também era uma peça musical dividida em duas partes, desta vez a música evoca cenas do retiro de campo da família Oldfield situado no condado de Herefordshire. Apesar de editado pouco mais de um ano depois de “Tubular Bells”, “Hergest Ridge” chegou primeiro a número 1 do que o anterior, apesar daquele ter sido número 2 dez semanas consecutivas, antes de chegar a número 1 na semana em que estreou o filme do qual fez parte da banda sonora.
    Ainda em 1974, Mike Oldfield participa como guitarrista convidado em “The Orchestral Tubular Bells”, um arranjo que o amigo David Bedford fez para a Royal Philharmonic Orchestra. A grande diferença para o álbum original é que Mike Oldfield não toca a maioria dos instrumentos, a melodia e a sonoridade são as mesmas só que transferidas para outros instrumentos,  os coros não existem, assim como “O Mestre de Cerimónia” a dizer o nome dos instrumentos, no final da parte 1, também não existiu. Apesar de ter sido uma experiência interessante,  não trouxe nada de novo para a obra do multi-instrumentista britânico.
   
1975 viu nascer um álbum importante na carreira do músico. “Ommadawn” é um álbum pioneiro na música mundial. Mantém-se a tendência de uma peça dividida em duas partes, mas a   introdução de novos instrumentos, como a gaita de foles ( a maior parte dos instrumentos são tocados por Oldfield) e dum coro liderado pelo Coro do Colégio da Rainha  e das vozes de Sally Oldfield, Maddy Prior, remete-nos para um quase principio do mundo, influenciado pelas raízes celtas na música inglesa. Também em 1975, Mike Oldfield recebe um “Grammy” (Oscar da música) para Melhor Composição Instrumental com “Tubular Bells”.
   Em 1976, a virgin records, com autorização do músico, lança "Boxed", uma caixa com quatro discos que continha os álbuns "Tubular Bells", "Hergest Ridge" e "Ommadawn", remisturados com som quadrifónico, onde, nas palavras de Oldfield, era possivel descobrir pequenas texturas musicais não identificadas nas versões normais dos álbuns e um quarto disco intitulado "Collaborations", constituído por temas diversos, tocados com os músicos que colaboraram nos seus outros projectos.
    A tendência para explorar novas sonoridades seria continuada no álbum seguinte, editado em 1978. O duplo álbum “Incantations”, apesar de ser o mais longo trabalho de Oldfield, é o mais perfeito e mais completo da primeira fase da sua carreira. Desta vez a longa peça é dividida em quatro partes e enriquecida novamente pelo coro, mais diversificado ao longo de toda a peça. O álbum, como um todo,  utiliza composições  minimalistas e linhas melódicas onde se ouvem apenas alguns instrumentos. O sucesso, apesar de relativo em relação aos álbuns anteriores, permitiu-lhe começar a pensar em fazer uma tounée extensiva de apresentação.
   
Entre março e abril de 1979 Mike Oldfield percorreu a europa, com cerca de 50 músicos e vocalistas,  no que ele chamou “Tour da Europa” dando concertos na Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Espanha, Portugal e terminando em Inglaterra. Inicialmente os concertos eram gravados sem o conhecimento dos músicos para que lhes fosse pago menos dinheiro apenas pela actuação e não pela gravação. Os músicos acabaram por saber o que lhes estava a acontecer, mas não impediram as gravações e eventualmente um álbum acabou por ser gravado. Suportado pela apresentação ao vivo dos álbuns “Tubular Bells” e “Incantations”, “Exposed”, um duplo álbum, foi o resultado desta dispendiosa tournée que nunca se chegou a pagar inteiramente, apesar das magnificas actuações e de casas sempre cheias.
   

Mike Oldfield iria fechar a década de 70 com um álbum, o primeiro da sua carreira, a conter canções e versões (as chamadas “cover” versions).  “Platinum”, assim se chamou o álbum que contém o tema-título com a duração de cerca de 20 minutos e divido em 4 partes, sendo as duas primeiras peças de rock progressivo no seu melhor; a seguinte, intitulado “Charleston”  é tocada em ritmo swing e contém uma secção de metais que lhe dá um toque humorístico; a última parte é quase um regresso ao toque progressivo das duas primeiras e contém um arranjo dum excerto musical da peça “North Star” do compositor minimalista Philip Glass. Apesar do toque “disco” que  é mantido ao longo desta parte do tema, são o baixo e a guitarra- funky que se ouvem ao longo de toda a secção e depois do coro, é a guitarra-solo que passa a marcar a textura do tema, enquanto se ouve  até final, que faz toda a diferença.  Os outros temas são canções diversas onde se incluem temas como “Punkadidle”, onde Oldfield brinca com o movimento Punk que marcava a Inglaterra do final dos anos 70 e “I Got Rhytm”, um tema clássico composto por Ira e George Gershwin, re-imaginado por Mike que o transforma numa balada ao estilo de Broadway com a voz harmoniosa de Wendy Roberts e uma orquestração maioritariamente executada por teclados.
   Considerado pelos críticos como uma das obras-primas do músico, “Platinum”, não conseguiu atingir os lugares cimeiros das tabelas mundiais, apesar das seis semanas que permaneceu no top britânico. Mas as vendas que fez, permitiram a Mike Oldfield, prosseguir a sua via experimental e, principalmente, entrar na nova década mais confiante que nunca.
                                                                                                      (continua)

Nota: As Imagens e vídeo que ilustram o texto, foram retiradas da Internet






domingo, 15 de dezembro de 2013

“Toute une Vie” – Toda uma Vida – A nossa Alma Gémea


    Quantas vezes é que já nos interrogámos sobre o facto de termos ou não, algures, uma alma gémea, alguém que partilha os nossos gostos, a nossa maneira de ser, de pensar, de estar? Provavelmente fazemo-lo vezes sem conta, sem sequer nos apercebermos disso.  E se um dia, por acaso,  encontrássemos essa alma gémea? Como é que iriamos reagir?, o que é que faríamos? Qual seria a sua (dela, alma gémea) reacção?  Foi o que, em 1974,  Claude Lelouch, realizador francês de renome tentou responder com o seu filme “Toute une Vie – Toda uma Vida”.
    Em “Toda uma Vida”, assistimos à  história  de várias gerações de duas familias, cujos descendentes estão destinados a encontrar-se, nunca o fazem, apesar de se cruzarem algumas vezes em diversas ocasiões, mas só o farão no final.
    Claude Lelouch é um observador do mundo,  gosta de contar a história desse mundo através de melodramas. O realizador costuma dizer “que só existem duas ou três histórias que vale a pena contar”, e resumem-se todas a uma ideia só: Homem encontra Mulher, as variações que esta ideia permite é que são quase infinitas.. O melhor exemplo desta ideia é contado no filme “Une Homme et Une Femme – Um Homem e Uma Mulher”, de 1966, o mais famoso e mais premiado filme do realizador. Nele, um homem e uma mulher encontram-se, apaixonam-se e acabam por se separar. Com esta pequena e simples ideia, o realizador contou uma das  mais belas histórias de amor de que há memoria na história do cinema. Ganhou  diversos prémios incluindo a Palma de Ouro no festival de Cannes e dois Óscares da Academia e foi um sucesso enorme nas bilheteiras de todo o mundo.                  
   
Tudo o que Lelouch filmou depois deste filme, mais não foram do que as tais variações sobre a mesma ideia, das quais saliento “Une Homme et Une Feme: Vingt ans Dejá – Um Homem e Uma Mulher: 20 anos depois” (1986), uma espécie de continuação de “Um Homem e Uma Mulher”, onde  Anne e Jean-Louis (as personagens desse filme), se reencontram passados vinte anos; o fabuloso“Les Uns et Les Autres – Uns e…Os Outros” (1981) onde Lelouch conta a história de quatro familias de franceses, alemães, russos e Americanos, seus amores e frustações através da música, uma paixão comum que os une; neste “Toute Une Vie – Toda uma Vida”, o realizador vai ao extremo de contar a história de um encontro que demora um século para acontecer! A ideia, desenvolvida pelo realizador e pelo argumentista Pierre Uytterhoeven, é simples e absolutamente genial pelo facto de a vermos desenrolar-se  num contexto que envolve o século XX praticamente todo.
   Os primeiros 20 minutos de filme são a preto-e-branco, mudos, acompanhados por uma partitura musical tocada em piano e com os diálogos reproduzidos em cartões entre as cenas (homenagem aos irmãos Lumière e aos primordios do cinema) e perante os olhos do espectador surge a história dos avós  e dos pais de Sarah e Simon, as duas personagens cujas vidas serão  moldadas e vividas ao sabor dos grandes acontecimentos do século XX: Da Primeira  Grande Guerra   á Segunda Guerra Mundial, do Holocausto ao nascimento do Estado de Israel, da Crise dos Mísseis de Cuba á geração Beat dos anos 60.
   
O passado, como cedo se percebe, afecta o presente. Por conseguinte, a visita inicial ás gerações passadas, acrescenta  alguma substância ás suas personalidades: Sarah, a  filha de sobreviventes dum campo de concentração, é tão perturbada quanto o seu sofrido e amoroso pai, que nunca consegue ultrapassar totalmente a perda da mulher, apesar de ser um homem de negócios bem sucedido. Quando, em adolescente, ela se apaixona pelo cantor pop Gilbert Bécaud (o próprio a interpretar-se a si mesmo), o seu oposto, Simon, é preso por roubar alguns discos de Bécaud; mas talvez o melhor resumo destas vidas paralelas seja a cena em que Simon foge da prisão, rouba um automóvel, tem um acidente e é transportado para o hospital, no qual está também Sarah internada depois duma tentativa de suícidio porque Gilbert Bécaud já  não quer saber dela

     Da mesma maneira, as suas carreiras vão surgindo enquanto fazem a caminhada para a maturidade: ela evolui de menina mimada e aborrecida que experimenta de tudo até se tornar numa meticulosa consciência social; ele, por seu lado, vai de condenado a fotógrafo de comerciais e realizador de filmes porno a realizador respeitado (aqui, excluindo a parte dos filme porno, a história adquire algum carácter autobiográfico já que Lelouch começou a filmar publicidade antes de fazer longas-metragens), que procura a sua alma gémea, seguindo as indicações de um antigo companheiro de prisão que, a dado momento, lhe diz que se ele encontrar outra pessoa que, como ele, goste de três cubos de açúcar no café, terá encontrado uma alma gémea.
   
   
“Toda uma Vida” está constantemente em transição entre o sonho e a realidade. As histórias que vemos, não se limitam a interligar-se, elas transformam-se umas nas outras, tal como acontece muitas vezes nos sonhos. Começamos com a história de  um cameraman, a brincar no parque com a sua nova camera (e através dela vê o mundo) , vê uma jovem que admira o seu brinquedo novo, apaixona-se por ela (simbolizando a eterna ligação romântica entre filmes e a vida. Um ciclo inteiro de vida é registado através da camera, incluindo o nascimento da filha do casal). Chamado para ir combater na I Guerra Mundial, ele morre na frente de batalha. O general que entrega a medalha á viúva, vê as atenções centradas em si quando casa com uma dançarina, é pai, e depois descobre que a sua mulher tem um caso. Depois, ele entra num quarto em que tudo se transforma para dar lugar ao assassinato da família Romanov  durante a Revolução Russa (parece que estamos num  filme de David Lynch e não de Claude Lelouch!), mas regressamos rapidamente ao mundo do realizador francês no momento em que acontece o tradicional encontro “rapaz conhece rapariga” numa estação de comboio durante a ocupação da França na II Guerra Mundial . É nesta altura que o filme deixa as imagens  a preto-e-branco e surge a cor. O sonho passa á realidade.
   
   
   
O filme  não se pode considerar do tipo experimental porque tudo aquilo que vemos no écran, saiu directamente da cabeça dos argumentistas (principalmente de Lelouch). Até a  curiosa intercepção das épocas e dos acontecimentos parece natural e até lógica. Não houve nenhuma invenção para o filme é apenas e só um objecto-maravilha, um caleidoscópio de estilo, histórias e notícias relatadas através de material filmado. Tudo isto, dificilmente, seria tão bem trabalhado se não fosse a  genial direcção de actores, aliada a fabulosos planos-sequência e “travellings”  mágicos da autoria de Claude Lelouch que brilha na sequência de perseguição a pé da polícia  a Simon nas ruas próximas dos "Champs Elysées", toda ela filmada de camera na mão ao estilo reportagem televisiva; ou na sequência em que Simon foge da prisão num carro a alta velocidade e bate noutro carro na estrada, o realizador repete a batida várias vezes mostrando ângulos ligeiramente alterados. Até no próprio genérico inicial, passado na viragem do século XIX para o século XX, filmado a preto-e-branco, Lelouch permite-se uma brincadeira: agradece a toda a gente que participa no filme e depois vão surgindo os nomes, por ordem alfabética, mas não diz quem faz o quê, subvertendo a ordem do genérico.

 Com “Toute une Vie – Toda uma Vida”, Claude Lelouch  demonstrou, tal como faria anos mais tarde com “Les Uns et Les Autres – Uns e os Outros”, que as ideias mais simples são as mais geniais.

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet


                                                               Grease - Um fenómeno musical fora de tempo!          Alguém disse, um ...