quarta-feira, 31 de julho de 2013

As Confissões “de uma espécie de Escritor”





   
O dia 19 de abril de 2013 marcou a vida do artista. Foi nesse dia que a literatura viu nascer mais um escritor, ou melhor, uma espécie de escritor. Foi precisamente nesse dia, no café “Saudade”, em Sintra, mais ou menos, por volta das 22 horas que essa espécie de escritor nasceu. Mas antes de  chegarmos  a esse dia e ano, precisamos de recuar uns bons tempos para percebermos o trajecto que esse artista fez.
   Os primeiros sinais duma grande vontade de contar histórias surgiram por volta dos 10 anos de idade, depois duma passagem normal pela primária, onde teve que aprender de tudo um pouco: desde aprender os números, a contar, a fazer contas de somar, dividir, multiplicar e subtrair, até saber  os aparelhos do corpo humano e suas funções; desde saber os nomes de todos os reis de Portugal  até saber as províncias todas de Portugal, as serras, os rios, os caminhos-de-ferro de cor e salteado. Aquele artista que chegou ao preparatório era um rapaz bem preparado e pronto para novos desafios que se avizinhavam.
   
O ciclo preparatório foi um primeiro desafio para o artista. Inicialmente, não percebia bem aquilo que queriam dele. Novos colegas, novas disciplinas, novos professores, enfim todo um admirável mundo novo, que não o livraram dum choque inicial com a professora de Educação Visual, que o levaram a faltar algumas vezes ás aulas da dita disciplina. Professora essa, que, por acaso, até era a sua directora de turma. Mas rapidamente se redimiu e começou a dar nas vistas nas redações que fazia nas aulas de Português e na  facilidade com que participava nas aulas de conversação de Inglês. Se o 1ºano do Ciclo Preparatório foi um grande desafio superado com eficácia, principalmente a partir do segundo período, já o 2º ano do mesmo Ciclo foi feito “com uma perna ás costas”, com distinção em algumas disciplinas. O artista estava pronto para o desafio seguinte.
   
Inspirado pelas aventuras dos “Pequenos Vagabundos”, de "Sandokan" ou dos “Famosos Cinco”, escrevia, de um dia para o outro, pequenas histórias que depois recriava, com alguns colegas, no recreio da escola, nos intervalos entre as disciplinas ou quando faltava algum professor. Foram momentos únicos, divertidos  e inesquecíveis que fizeram de algum modo com que a imaginação do artista começasse a sobressair.
   Foi no 8ºano que o artista realmente deu nas vistas e em dois momentos: o primeiro deles, aconteceu na elaboração de um t.p.c. (os mal-afamados trabalhos de casa), para Português, em que foi dado um tema livre para se fazer uma composição e o artista não foi de intrigas: depois de muito pensar até quase matar a cabeça, resolveu escrever sobre o mau tempo que na altura assolava o país  e pôr-se na pele duma vítima desse mesmo mau tempo, descrevendo aquilo que assistia e pelo que passara. 
   
O professor deu-lhe nota máxima na composição e ainda  escreveu  no final da folha um “muito bem!” a demonstrar o seu agrado por aquilo que lera; o segundo momento aconteceu também na disciplina de Português durante um teste escrito em que no final  nos era pedido que imaginássemos uma situação em que estivéssemos perdidos e o que é que nos aconteceria. O artista, uma vez mais, deu a volta por cima e criou uma situação em que a sua personagem ia para uma floresta brincar com os amigos, perdia-se (ou era abandonado) e depois de muito andar e quase desesperar reencontrava-os numa casa onde pareciam estar a aguardar por ele. O texto terminava neste suspense permitindo várias interpretações. O professor, não só gostou, como também o encarregou de fazer a continuação/conclusão da história que fora contada. Claro que o artista fez o que lhe foi pedido e nesse ano (pela única vez no seu tempo de escola) teve 5 a Português!
Mas o bichinho da escrita já o tinha atacado e nunca mais haveria de o largar.
   
O tempo foi passando, o artista acabou o ensino secundário e ingressou no ensino superior e ainda cumpriu o serviço militar. Pelo meio, escreveu três livros (dois de aventura e um western), mas nenhum passou do caderno onde foi escrito e sobreviveu para ver a luz do dia.
Em 1991, já em pleno furor laboral, é convidado por João Amaral,  um seu amigo, apaixonado por ilustração e Banda Desenhada, para adaptar “A Voz dos Deuses”, romance histórico de João Aguiar, para banda desenhada. Como já conhecia a obra e o seu potencial, o artista, considerando ser o maior desafio que já enfrentara, aceitou de imediato. Três anos depois, com muita investigação  para não descurar nenhum pormenor, várias deslocações a locais onde se passa a acção  e também com uma boa dose de loucura própria dos autores á mistura, a adaptação chegou a bom porto ainda tempo de ser apresentada e lançada no “Festival de BD da Amadora” para grande alegria, não só dos autores, como também do próprio João Aguiar.  Foi então que o artista foi abordado para enfrentar outros desafios.
   Foi durante a apresentação do livro, numa entrevista a um órgão social que lhe puseram a questão de qual seria o seu futuro. O artista respondeu que não pensava continuar na Banda Desenhada mas que pretendia, a par com o seu trabalho, dedicar-se á escrita de romances e que até aproveitara aqueles dias do festival para escrever algumas páginas que já submetera á apreciação de alguns amigos, os quais o incentivaram de imediato a continuar. Entre aqueles dias do festival de Banda Desenhada e o final desse ano de 1994 que começou a delinear o seu primeiro romance que, como diz o ditado “ano novo, vida nova”, foi escrito durante o ano de 1995.
O livro, que ainda hoje enquanto o artista escreve estas linhas, permanece sem título, é uma história  policial, banal passada algures numa pequena cidade da Califórnia chamada Gravetown e na qual acontecem vários crimes horríveis, sem qualquer ligação entre si, competindo ao xerife local investigá-los.
   
O artista, leitor de policiais clássicos como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Lawrence Sanders, Robert Ludlum, entre outros, quis homenageá-los  no seu romance. Se o conseguiu ou não, não sabe, talvez nunca saiba se não decidir editar a obra, a que ele chama “obra tosca”. No entanto, quem o leu, mesmo sem nenhuma revisão, diz que tem potencial. A ver vamos futuramente. Para o artista, a experiência foi interessante, o simples facto de voltar a escrever foi cativante e deixou-o com vontade de continuar.
 No seu segundo esforço literário, o artista quis optar por algo diferente e que fosse interessante de ler.
   
Desde meados de 90 que ele mantinha algumas conversas interessantes com Stephen, um americano que era o encarregado da sucursal portuguesa duma empresa comercial americana que se queria estabelecer em portugal,  que morava em Sintra numa quinta junto á serra.  Tinham-se conhecido num café na portela de sintra, que era propriedade dos pais dumas amigas do artista. As conversas andavam á volta dos mistérios da serra e de sintra e eram tão interessantes que o artista começou a tomar notas porque viu ali, naquele amontoado de ideias uma possível base para um possível  livro. Esta possibilidade viu-a numa das visitas que fez á quinta dele. Falou-lhe nisso e Stephen mostrou-se interessado, tão interessado que o levou numa visita guiada pelos locais mais recônditos e inacessíveis ao turista normal do Palácio da Pena. A ideia foi tomando forma e, a dada altura, as ideias já eram mais que muitas e só precisavam de ser trabalhadas. Foi o que o artista começou a fazer.
   Foi então que, inesperadamente, Stephen, segundo informou algumas pessoas, teve de viajar para os Estados Unidos sem deixar um contacto telefónico ou uma morada donde nunca mais deu notícias. O artista deixou passar algum tempo antes de se decidir a avançar com a ideia que tinha que, naquela altura, já tinha tomado a forma que acabou por ter.
Quatro anos foi o tempo que demorou a escrita. Depois de nova passagem por alguns locais onde decorre a acção, alguma investigação mais profunda sobre o tema e estava pronto para começar. “A Última Demanda”, assim se chamou o livro, título que só foi encontrado já na fase final da escrita, começou a ser escrito em 1998 e foi terminado em 2002. Trata-se duma aventura que parte duma premissa possível:  “E se o Cálice Sagrado estivesse em Sintra?” e com isto em mente acompanhamos a investigação que um grupo de arqueólogos leva acabo sobre o assunto. O simples facto de poder brincar com a História, a disciplina preferida e curso superior que o artista seguiu na faculdade, mas que não terminou, depois duma passagem disinteressante pelo curso de direito, permitiu que ele se divertisse imenso enquanto escrevia o livro.
   
Sem grande conhecimento do que poderia acontecer, ou de editoras que quisessem apostar num desconhecido, o  artista resolveu submeter o texto á apreciação do seu amigo escritor João Aguiar, que com a simpatia que se conhecia, disse que com uma boa revisão e algumas correcções ortográficas e gramaticais, o história até tinha pernas para andar e ser editada. O artista, satisfeito, enviou o texto, assim mesmo, para algumas editoras de renome. Umas responderam negativamente por falta de espaço nos seus catálogos, outras nem sequer se dignaram, até hoje, a fazê-lo e assim se passaram alguns anos, até que o artista, depois de pedir a uma colega de trabalho que lhe revisse aquele texto  que permanecera intocável desde que  João Aguiar lhe respondera positivamente, decidiu arriscar novamente a edição  dum texto seu  tendo sempre presente que o não era sempre garantido. Entra em cena “A Pastelaria Estudios Editora” , uma editora com cerca de dois anos de existência que aposta em novos autores que possam constituir possíveis valores futuros, que gostou e aceitou publicar o livro que o artista lhes enviara. Algum tempo e diversos e-mails depois, trocados entre a editora e o artista, a obra estava pronta a ser editada.
   
Sexta-Feira, 19 de abril de 2013, no “Café Saudade” em sintra, por volta das 22 horas, o livro “A Última Demanda” era oficialmente apresentado. Foi com grande emoção e muito nervosismo á mistura, perante uma plateia de familiares, colegas e amigos que o artista apresentou a sua obra . Durante cerca de duas horas e meia, o artista falou da obra, do porquê da escolha daquele local para apresentar o livro, da sua (curta) carreira de escritor, que, apesar de já ter dois livros escritos,  começava naquele momento e do porquê de ter escolhido aquele tema, ter escolhido o seu segundo romance para se estrear e muitas outras coisas. Depois a apresentação, houve a tradicional  sessão de autógrafos e, pronto!, estava apresentado um novo  escritor, uma espécie de escritor, como ele gosta de se chamar.

    Se o artista vai continuar nesta nova carreira, nem ele sabe, vontade e ideias não lhe faltam, mas depende da recepção que a sua obra vai ter junto dos leitores, critícos, blogers, etc. Se vende muito ou pouco, não é preocupação do artista. O que realmente o preocupa é o que vão achar da sua escrita, se é boa ou não, se motiva as pessoas, se tem ritmo, etc.
È destas opiniões que o artista vai decidir se abraça ou não esta nova fase da sua vida.
Comentários, opiniões e sugestões podem ser enviados para: ruicmgc@gmail.com ou rcmgc1@gmail.com , onde o artista ou "espécie de escritor" terá muito prazer em responder a todas as perguntas.

Nota: as imagens que ilustram este texto foram retiradas da internet e também da fototeca do autor

sábado, 20 de julho de 2013

Invictus - Mais uma Aposta Ganha!



   
Em 1963 Martin Luther King Jr., num discurso para mais de 200.000 pessoas, nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, apelava para direitos iguais e para o fim da descriminação racial, disse a dado momento “Eu tenho um Sonho”…não chegou a ver esse sonho realizado, pois foi assassinado em 1968. Quase 30 anos depois, um outro homem, noutro continente, fez o mesmo apelo e conseguiu realizar o sonho.
   África do Sul, 1990, depois de mais de 26 anos de prisão, o activista negro Nelson Mandela é libertado. Quatro anos depois, em 1994, por entre muita polémica, com o país dividido pelo espectro do apartheid e quase à beira da guerra civil, Mandela é eleito presidente da república, tornando-se o primeiro presidente negro eleito na Àfrica do Sul  e tem que resolver a profunda divisão que abala o país antes deste ser anfitrião do campeonato do mundo de râguebi. Ele tem então uma ideia que quer pôr em práctica custe o custar: promover a cooperação na áfrica do sul através do desporto.
   
Em “Invictus” existem dois momentos que são os mais marcantes do filme: o primeiro, acontece logo no inicio, após a libertação de Nelson Mandela, este é aplaudido pela população negra em geral, quando a caravana passa numa estrada que divide dois campos onde num jogam futebol jovens negros que aplaudem a passagem dos veículos enquanto gritam por Mandela; no outro campo, uma equipa de brancos treina râguebi e mostram o seu descontentamento pelo acontecimento que ocorrera nas palavras do treinador da equipa. O segundo momento acontece na cena em que numa  sala estão os seguranças  negros do recém-eleito presidente e a eles junta-se  uma  equipa de guarda-costas brancos que, no espiríto da nova politica, têm ordens para trabalhar com o novo presidente. Mas a cooperação é difícil, a  desconfiança é enorme  e ambas as equipas estão de costas viradas uma para a outra a lerem o calendário das actividades do presidente. É sobre estas duas cenas, ambas representando o que era a Àfrica do Sul , que “Invictus” se ergue e caminha solenemente. Existe também uma outra cena que suporta plenamente a ideia que Mandela teve: É a cena  em que a equipa dos “Springboks” visita o Soweto e na altura em que encerra a actividade desportiva com as crianças, deixa uma faixa onde se pode ler: “One Team, One Country” e Mandela, ao vê-la na televisão diz “Vejam isso! Essa imagem vale mais que qualquer discurso”. Assim, ao acreditar que poderia unir o seu povo através do desporto, ele decide apoiar a equipa nacional de râguebi, ao mesmo tempo que nela procura o apoio necessário para levar a sua ideia até ao fim.  
   O filme é baseado no livro “Playing  the Enemy: Mandela and the Game that Made a Nation”, escrito por  John Carlin, publicado em 2008. Pouco tempo depois da publicação da obra, Clint Eastwood, com  os seus produtores e Morgan Freeman, reuniram-se com o jornalista  para discutirem a melhor maneira de a transformarem num argumento para adaptar ao grande écran.  Anthony Peckham escreveu o argumento e como o elenco já havia sido escolhido, as filmagens tiveram início em março de 2009 em Cape Town e durariam até maio e foi, nas palavras de Laurence  Mitchell, o presidente da Cape Film, a produtora associada ao filme “a maior produção que alguma vez se fez na África do Sul, em termos de estatura e de estrelas”.
   Realizado pelo veterano Clint Eastwood, autor de “As Bandeiras dos nossos Pais” e “Cartas de Iwo Jiwa” (2006), diptíco sobre a sangrenta batalha de Iwo Jiwa; “Gran Torino” (2009) obra-prima sobre o comportamento do ser humano, “A Troca” (2009) baseado numa história verídica do desaparecimento duma criança, ocorrida em Los Angeles na década de 20 do século passado, cuja investigação leva a uma descoberta macabra; “Mystic River” (2003) sobre amizade num bairro dos subúrbios de Bóston, ou “Imperdoável” (1992), obra-prima contemporânea em forma de epilogo do western, género incontornável do cinema.
   
O realizador filma com sobriedade e não usa subterfúgios (apesar da cena do Boeing 747 que sobrevoa o estádio, indiciando outra coisa…). Não força a acção e até as cenas de râguebi estão bem filmadas e doseadas ao longo do filme. Percebe-se que há uma cumplicidade entre o desporto e a câmara, como se esta fosse um jogador captando as atitudes do colectivo e de cada elemento de ambas as equipas e, por acréscimo, também do público. É como aquilo que eu disse em outro comentário: Eastwood não sabe fazer filmes maus, e “Invictus” é mais um exemplo dessa realidade, realidade essa feita da admiração por um sonho que um homem um dia teve e, contra ventos e marés, tornou o seu sonho realidade.
   Admiração que também está presente no próprio cartaz publicitário do filme. Nele,  Francois  Pienaar está á frente da imagem de Mandela que aparece de costas, mas proporcionalmente maior que o jogador. O ambiente do cartaz mostra um grande líder político, protagonista duma grande missão que conta com a colaboração e intervenção de  um grande  líder desportivo para levar essa missão a bom porto. Em termos de concepção, é dos cartazes com maior força simbólica que alguma vez me lembro de ver.     

Brilhantemente interpretado por Morgan Freeman sobre quem recai a responsabilidade toda do filme e, uma vez mais, o actor mostra estar á altura do desafio. Ligado ao projecto (como produtor e actor),  desde que Clint Eastwood havia anunciado o seu interesse em fazer um filme sobre o activista,  Freeman foi sempre a primeira escolha do realizador e fica provada uma vez mais a clarividência de Eastwood nas escolhas que faz. Morgan Freeman ficará para sempre ligado a este papel que é, sem dúvida nenhuma, o papel da sua vida (mesmo não tendo ganho o Óscar de melhor Actor para o qual foi nomeado). Ele é tão convincente na sua interpretação (para a qual levou mais de um ano a preparar-se e que incluíram várias reuniões com o próprio Mandela, que, diz-se, ter adorado a interpretação) que se fecharmos os olhos, ouvirmos um discurso de Mandela e depois ouvirmos Freeman a dizer o mesmo discurso, não conseguimos distinguir um do outro!

 
Matt Damon faz o papel de François Pienaar, capitão da selecção de râguebi da Àfrica do Sul e sobre quem recai a responsabilidade de vencer o campeonato do mundo e ajudar ao esforço de união do país. Damon interpreta o seu papel com grande carisma, onde nem sequer lhe falta o sotaque e se nota bem o corpo musculado que precisava ter para fazer o seu papel (diz-se também que foi o próprio Pienaar que o ajudou a preparar-se para a interpretação) e vence mais esta aposta.
   O filme foi recebido positivamente, quer pela critica quer pelo público em geral. No primeiro fim-de-semana subiu a número três  onde rendeu cerca de 8 milhões de dólares e acabou por render um total de 37 milões, só nos estados unido, enquanto que no mundo inteiro as suas receitas foram de 122 milhões de dólares, principalmente na África do Sul.
   Mesmo não sendo uma obra-prima, nem sequer o melhor filme de Clint Eastwood, “Invictus”, o filme venceu vários prémios e foi nomeado para outros tantos. Será sempre visto como um esforço para tentar contar a história de um período conturbado de um país que esteve demasiado tempo dividido e da pessoa que ajudou a acabar com essa divisão e, visto deste prisma, o filme é nitidamente uma aposta ganha.


Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet



quinta-feira, 20 de junho de 2013

Duas Perspectivas Diferentes, O Mesmo Cenário II


                                     - Cartas de Iwo Jima

   
A segunda parte do diptíco dedicado à batalha de Iwo Jima, uma das mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial do século passado. A primeira parte focava o ponto de vista americano. “Cartas de Iwo Jima” foca o ponto de vista japonês, quase  totalmente falado em japonês (Ken Watanabe era o único actor que falava inglês e servia de ligação entre a equipa de produção e o elenco, todo ele desconhecido), mas fazendo uma abordagem muito mais pessoal e intíma. Tudo filmado sob a mestria e o olhar atento de Clint Eastwood.
   Embora usando a mesma técnica empregue em "As Bandeiras", Eastwood evita a repetição. Troca o ponto de vista da batalha ( o momento grande da obra anterior, o içar da bandeira no monte Suribachi, é visto á distância dum abrigo japonês) e utiliza as cartas e os pensamentos que os Oficiais e Soldados Japoneses escreveram para os seus familiares enquanto aguardavam a invasão.
   O filme abre com uma sequência, no presente, em Iwo Jima. Numa gruta são encontradas centenas de cartas que não chegaram a ser enviadas. São elas o ponto de partida para este filme, já considerado uma obra-prima do cinema e, muito particularmente do seu realizador. Nessa cartas, algumas são do General Kuribayashi e nelas o militar revela as suas preocupações, ansiedades e alguns acontecimentos ocorridos durante o tempo em que comandou as tropas na ilha
     
Iris Yamashita, Clint Eastwood e Ken Watanabe
As personagens estão construídas de forma humana (ao contrário das personagens de “As Bandeiras” onde nos era mostrado alguma desumanidade), é esse o lado do conflito que Clint Eastwood pretende mostrar. Mais do que homens, tornados soldados pela força das circunstâncias, de capacete e arma em punho cuja missão principal é eliminar outros homens. São jovens, cada um com o seu desejo, o seu trauma, enfim, histórias que fazem com que este filme fuja do convencional filme de guerra. Em certas alturas, o espectador é envolvido pela força da história e deixa-se conduzir pelas personagens, principalmente pela hierarquização entre o general e o soldado, dois extremos que a guerra une em conceitos tão universais como o medo, a honra ou o amor pela familía.
   Inicialmente, o filme era para se chamar “Red Sun, Black Sand”, mas só muito dentro das filmagens é que o título foi mudado para “Letters from Iwo Jima” por ser, em grande parte, baseado no livro “Gyokusai sõshikikan no etegami – Picture letters from the Commander in Chief, escrito pelo General Tadamichi Kuribayashi, o comandante das forças japonesas na ilha (interpretado com grande intensidade por Ken Watanabe), compiladas e publicadas pelo editor  Tsuyuko Yoshid. Baseado nele, a argumentista Iris Yamashita escreveu a história, posteriormente desenvolvida pela própria com a ajuda  de  Paul Haggis no argumento deste extraordinário filme.
   
Utilizando alguns colaboradores  habituais de Steven Spielberg (que produziu os dois filmes), Clint Eastwood consegue um relato verdadeiramente dramático de uma batalha que, à partida, já estava perdida, consegue-o através da fotografia esplendorosa de Tom Stern, filmado, á semelhança de “As Bandeiras dos Nossos Pais”, num quase preto-e-branco intenso, dando um realismo atroz ás sequências de batalha. Esta técnica fotográfica faz com que o interior das grutas e dos túneis pareçam irreais, os rostos ansiosos parecem conter algum brilho na sombra, iluminando o seu próprio sofrimento. Quando sujeita á luz do dia, a fotografia de Stern, torna-se mais realista e solene.

    Com este filme, o realizador evita a habitual repetição nos filmes, invertendo os factores. Poucos são os filmes que tomam o ponto de vista dos vilões transformando-os em heróis, como aconteceu com “Cross of Iron – A Grande batalha”, realizado por Sam Peckinpah em 1977, cuja acção se passa em 1943,  na frente russa e onde os nazis são os heróis e os russos os vilões feios, porcos e maus.
É costume descrever-se como épico um filme que gira em volta de grandes batalhas, acontecimentos históricos e grande quantidade de mortos. Mas Eastwood não entra por este caminho. Apesar de alguns cenários mostrarem armamento em larga escala, o ambiente geral de “Cartas de Iwo Jima”, é altamente intímo, apesar de percorrido por uma enfática força emocional, o realizador consegue mostrar uma particular atenção a gestos e discursos que se podem considerar delicados. Clint Eastwood não é um desconhecido para  a linguagem da violência, mas é um mestre no que toca a dramatizar as consequências éticas e morais da própria violência. 
   
Não existe nada gratuito neste filme, tudo tem o seu preço, nem nada  vistoso ou falso. Existem humor e crueldade próprias de homens em perigo; existe a frieza lógica do planeamento militar e a irracionalidade do comportamento em combate; existe vida e morte.
   Ambos os filmes “viajam” para a frente e para trás no tempo e no espaço entre Iwo Jima e os locais onde habitam os combatentes. Em “As Bandeiras dos Nossos Pais” a batalha acontece maioritariamente através de “flashbacks”, já que o filme é,  em larga medida, acerca da culpa e  confusão que os sobreviventes encontram aquando do seu regresso a  casa. Em “Cartas de Iwo Jima”,  a batalha acontece no presente, e é a casa que surge ocasionalmente na memória dos homens que têm quase a certeza de que não a voltam a ver.
   A recepção de critica e público foi extremamente positiva. Aclamado, pelo retrato do bem e do mal em ambos os lados da batalha, “Cartas” foi rapidamente considerado uma obra-prima do cinema de guerra. Premiado em diversos festivais mundo fora, vencedor do Globo de Ouro para Melhor Filme em Língua Estrangeira e recipiente de quatro nomeações para os Oscares da Academia, incluindo duas para Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador.
   No Japão, o filme obteve um sucesso ainda maior do que nos Estados Unidos quer por parte de críticos, quer pelo próprio público, sempre muito reservado em relação aos filmes que abordam temas tão delicados como este.
   Em 2010, o American Film Institute considerou “Cartas de Iwo Jima” um dos 10 melhores filmes de guerra de todos os tempos.


 Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet
                                             
                                            

terça-feira, 18 de junho de 2013

Duas Perspectivas Diferentes, O Mesmo Cenário I



                                - As Bandeiras dos Nossos Pais

   
Em 1962, “The Longest Day – O Dia mais Longo”, uma superprodução de guerra sobre o dia D – o desembarque aliado na Normandia e que foi o ponto de viragem da II Guerra Mundial na Europa. Filmado a preto-e-branco, permitiu na altura, juntar imagens documentais ás cenas filmadas com actores reais e tornar o filme uma referencia no panorama da superprodução. A grande novidade deste filme foi o facto de ser filmado por três realizadores por forma a apresentar três perspectivas diferentes da operação: Ken Annakin filmou os segmentos britãnicos; Andrew Marton encarregou-se dos episódios com as forças americanas; e Bernhard Wicki tratou dos segmentos alemães. No conjunto, os três pontos de vista formaram uma visão conjunta, antes, durante e depois do desembarque e tornaram este filme, vencedor de dois Oscares da Academia, um clássico incontornável do cinema.
   
Alguns anos depois, em 1970, “Tora, Tora, Tora” apresentava uma reconstituição do ataque japonês a Pearl Harbor. Richard Fleischer e Kenji Fukasaku foram os realizadores encarregados de mostrar os pontos de vista de ambos lados. O filme, vencedor de um Oscar da Academia, não foi o sucesso esperado mas tornou-se, com o passar dos anos, um filme cada vez mais e mais revisitado por cineastas e outros interessados. O formato não convenceu e foi preciso esperar pelo sucesso mundial de “Saving Private Ryan – O Resgate do Soldado Ryan” (Steven Spielberg, 1998) para regressar ao formato da dupla perspectiva de determinado acontecimento. Em 2006, o veterano realizador Clint Eastwood, pegou no formato e fez dois filmes inesquecíveis.
   
   
Parece difícil pensar que haja alguma coisa sobre a IIªGuerra Mundial que ainda não tenha sido objecto de análise, reconstituição ou mesmo adaptação para o grande ou pequeno écran. No entanto foi isso mesmo que Clint Eastwood quis fazer quando leu “Flags of Our Fathers – As Bandeiras dos Nossos Pais”, o livro de James Bradley e Ron Powers onde se descreve como as vidas dos três sobreviventes que estiveram envolvidos no Içar da Bandeira Americana em Iwo Jiwa, em fevereiro de 1945, imortalizados pela fotografia que Joe Rosenthal da Associated Press lhes tirou, se alteraram após aquele momento e do aproveitamento que o governo faz, ao transformá-los em celebridades apresentadas em paradas e outras celebrações, apresentando-os como porta-voz no esforço de guerra.
   
O argumento, escrito por William Boyles, jr. e Paul Haggis, adapta muito do material escrito, oscila entre três períodos temporais: Iwo Jiwa, a tournée em prol do esforço de guerra e no presente. É nos destinos de cada um dos heróis que o filme evolui do mediano filme de guerra para um trabalho interpretativo de grande qualidade, principalmente no que toca a Ira (uma excelente interpretação de Adam Beach), um índio Pima, que, destroçado pela batalha em Iwo Jiwa, passa a herói dum momento para outro, não aguenta a pressão e tenta esquecer bebendo até cair num verdadeiro oblívio.
    
O Realizador Clint Eastwood
A abordagem de Eastwood é muito cinematográfica. Ele desconstrói a batalha de modo a torna-la uma visão muito mais negra do que a história regista. Aproveita para esse efeito a natureza vulcânica da própria ilha (apesar das sequências de batalha terem sido filmadas na Islândia, porque o governo japonês não autorizou filmagens na ilha por a considerarem solo sagrado), o realizador e Tom Stern, director de fotografia, usando filtros especiais, tiram alguma da cor dando a sensação de que as cenas na ilhas são filmadas a preto-e-branco e quase parece impossível que haja alguma coisa viva naquela local de tão assustadoras e surreais que  são as imagens. Eastwood coreografa as cenas de batalha de um modo tão caótico, a fazer lembrar o início de “O Resgate do Soldado Ryan”, focando a atenção (sua e dos espectadores) nos movimentos das tropas em vez de ser na realização, “colando” a câmera aos soldados  e depois quando acontecem barragens de fogo, a correr ao lado deles como se procurasse abrigo. 
   
A maior parte dos filmes de guerra, mesmo aqueles que se dizem anti-guerra, aberta ou implicitamente abraçam a violência e veem-na, politica ou cinematograficamente, como um meio para atingir um fim. Poucos são os realizadores que conseguem resistir á visão de um míssil a explodir e ao espectáculo da morte; a violência é simplesmente demasiado excitante para se evitar. E Eastwood não se esquiva a esta realidade, bem pelo contrário, como fica bem demonstrado em “ As Bandeiras dos Nossos Pais”. Somos conduzidos ao coração da violência e ao coração dos homens, vemos até onde é possível ir, com a mesma facilidade com que vemos grutas onde  soldados são  torturados até á morte ou sucumbem á loucura ou assistimos ao fogo-de-artíficio num qualquer dia festivo. O filme apresenta-nos esta visão cruelmente e Clint Eastwood defende-se dizendo “Que era importante para o público perceber aquilo porque estes três homens passaram, aquilo a que se dedicaram e o que herdaram e o que é ter aquela sensação de falsa celebridade…” e tinha toda a razão do mundo!
   Recebido com entusiasmo pela crtíca e público, o filme não foi, no entanto, o sucesso esperado. Clint  Eastwood foi nomeado para um Globo de Ouro como Melhor Realizador e o filme recebeu duas nomeações para os Oscares da Academia. Em alguns sectores da sociedade, o filme foi considerado uma obra séria e patriota já que honra todos aqueles que combateram no pacífico e, ao questionar a versão oficial da verdade, lembra-nos que super-heróis existem apenas nos livros de Banda Desenhada e nos filmes de animação. Com “Letters from Iwo Jiwa – Cartas de Iwo Jiwa”, o caso foi diferente.
                                                                                                                   (continua)



Nota: As imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet
                                       

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