quarta-feira, 27 de novembro de 2013

“ The French Connection” - Realista quanto baste!

   

Em 1968, “Bullit” realizado por Peter Yates, elevava o género policial a um novo patamar: Frank Bullit, Detective da Policia de San Francisco, é escolhido para guardar um perigoso mafioso que tem de testemunhar em tribunal; até aqui nada de novo no género, então quais os motivos que levaram a que este filme se destacasse de todos os outros dentro do género? Para além de Jacqueline Bisset  ( nunca esteve tão bonita e sensual como neste filme) e Steve McQueen, mais “cool”que nunca, é uma excepcional perseguição automóvel filmada a grande velocidade nas ruas acidentadas de San Francisco, que marcou a diferença na época e tornou “Bullit” num marco incontornável do cinema. Isto até surgir “French Connection”,  três anos depois.
    
No final da década de 60 do século passado, Nova York vivia uma ressaca de Heroína como nunca tinha acontecido. Nas ruas corria o boato de que um grande carregamento estava para chegar. Popeye Doyle, Detective da brigada de narcóticos da policia de Nova York , homem bruto e de métodos pouco ortodoxos e o seu parceiro Detective Buddy Russo, tomam conhecimento desse boato e resolvem investigar o que é que está por detrás dele…
   O filme é baseado num livro de Robin Moore, que por sua vez se baseou numa história verídica ocorrida no final da década de 60, inícios de 70, quando a maior parte da heroína  ilegalmente importada para a Costa Leste dos Estados Unidos, vinha através da França (a “French  Connection”, a que se refere o título do filme). Tal como a história e os dois protagonistas,  outras personagens do filme também  são baseadas em pessoas reais que estiveram envolvidas no esquema do tráfico de heroína.
    “The French Connection”, que em português recebeu o título pouco apelativo de “Os Incorruptíveis contra a Droga”, é um filme violento, não só pela temática que aborda, como pela maneira que é abordada: de uma maneira frontal e directa (veja-se a cena em que os potenciais compradores de Heroína assistem á demonstração da sua pureza no quarto do hotel)
    
O realizador William Friedkin tira partido da aprendizagem que fez nos anos em que trabalhou na televisão e aplica esses conhecimentos de uma forma realista: quase sempre de camera na mão (atente-se na cena da perseguição de gato e do rato que começa á saída do hotel onde Charnier está instalado e vai terminar de um modo absolutamente fabuloso no metro em Central Station com o acenar de mão do francês num tom de gozo ao frustrado detective que corre ao longo da plataforma do metro em andamento,a tentar, a todo custo, apanhar o seu alvo ; ou logo no inicio quando Doyle e Russo perseguem um suspeito ao longo das ruas), técnica que seria, anos mais tarde utilizada em muitas produções principalmente para televisão como “Hill Street Blues”, NYPD Blues ou até “24”.
   
William Friedkin queria que o seu filme tivesse nas interpretações a sua maior força, mas foi exactamente aí que teve os maiores problemas desde o começo. Queria que o seu filme fosse recheado de grandes interpretações. Antes de se decidir por Hackman ( o realizador sempre se opôs á escolha do actor para liderar o elenco), Friedkin  considerou Paul Newman, Jackie Gleason, Peter Boyle, Charles Bronson e até Steve McQueen, que recusou por não querer fazer outro policial. Por variadas razões,  que vão desde cachets altos, receios de não estarem á altura do que lhes era exigido pelo papel, até recusas por acharem a temática do filme demasiado violenta, as suas escolhas recusaram o papel. A dada altura pensou-se que seria Rod Taylor quem iria ficar com o papel (Hackman disse que o actor lutara imenso pelo papel), já que fora aprovada pelo estúdio, mas, perto do início da rodagem, Taylor abandonou o projecto. O realizador não teve outra hipótese senão aceirar  Hackman para interpretar Doyle.
   Gene Hackman, Roy Scheider e o veterano actor espanhol Fernando Rey são os protagonistas deste excepcional filme policial, as suas interpretações são fabulosas, principalmente Gene Hackman no papel de Popeye Doyle, com o qual ganhou o seu primeiro Óscar de Melhor Actor (o segundo foi como Melhor Actor Secundário em “Imperdoável” a obra-prima de Clint Eastwood), Detective, cuja perseguição dos seus objectivos é tão intensa que não olha a meios para os alcançar: veja-se a cena final quando Doyle entra nas ruínas da fábrica ( de certa maneira essas ruínas simbolizam o mundo de Doyle e também o nosso), aos tiros e completamente obcecado em apanhar o seu inimigo, mata, sem querer, um outro detective á frente de Russo e nem se detém quando o vê morto, reafirma ao seu chocado colega sua intenção (ou será obsessão?) em apanhar o  francês, recarrega a sua arma e continua atrás de Charnier…a última imagem é das mais significativas de todo o filme: uma sala em ruínas, sem ninguém e onde se ouve um tiro antes do écran ficar negro e um epilogo contar o resto da história.

     

Friedkin, filma uma Nova York suja, corrupta e violenta, com grande intensidade, é, no entanto, na sequência da perseguição de Doyle ao metro de superfície que está o grande momento do filme e é aqui que a obra descola de todas as outras. Toda a sequência é filmada em tempo real e numa só vez (ou seja a duração da cena corresponde exactamente ao que foi filmado), utilizando diversas cameras espalhadas ao longo do cenário, no carro e no comboio (não deixa de ser excitante ver as cenas,  filmadas de outra viatura em movimento, em  que se vê o  carro, por baixo da linha férrea, em perseguição ao comboio) . O resultado final é fruto de um hábil trabalho de sala de montagem (também premiado com o respectivo Óscar). 
   
A cena, que dura cerca de cinco minutos e meio é um verdadeiro must cinematográfico, o espectador é envolvido na cena e não são raras as vezes em que nos desviamos dos potenciais obstáculos que vão surgindo no trajecto tal como se fôssemos o próprio Doyle ao volante. Extremamente excitante e absolutamente realista. Muitas vezes imitada mas nunca ultrapassada.  Friedkin voltaria a filmar duas excitantes perseguições automóveis em “To Live and Die in L.A. - Viver e Morrer em Los Angeles” (1985) e “Jade - Jade”(1995); “Ronin - Ronin” (John Frankenheimer, 1999) também teria uma emocionante  perseguição automóvel nas ruas de Paris, mas nenhuma delas se revelou tão importante e excitante como as de “French Connection” e de “Bullit” que permanecem como sendo as melhores perseguições automóveis da história do cinema.
    Vencedor de inúmeros prémios, entre os quais oito nomeações para os prémios da Academia, que se traduziram em cinco Oscares, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador, “French Connection”,  foi o primeiro filme com classificação “R” (“ Restricted” , que em Portugal podemos considerar como sendo “para Maiores de 16 anos”) a ganhar os principais prémios da Academia,  foi um grande sucesso de bilheteira, que levou a uma continuação (o termo sequela só apareceria anos mais tarde) intitulada “French Connection II – Os Incorruptíveis contra a Droga nº2” (John Frankenheimer, 1975) com Gene Hackman e Fernando Rey a retomarem os seus papéis e com a acção a decorrer em Marselha. De certa maneira, a  já citada cena final acaba por ser o fio condutor da continuação.
    Apesar de datado (todo o visual do filme espelha bem a época em que foi feito), “French Connection” é uma obra-prima do cinema, um filme-referência da década de 70 do século passado.
Em 2005, o filme foi seleccionado pela Biblioteca do Congresso para preservação no Museu Nacional do Cinema dos Estados Unidos por ser cultural, histórico e esteticamente significativo.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet





domingo, 17 de novembro de 2013

A Última Tentação de Cristo – Entre o Espírito e a Carne



   Lisboa, 30 de Junho de 1985, na Cinemateca Portuguesa  decorria um ciclo dedicado a Jean-Luc Godard, realizador Francês e um dos nomes responsáveis pela chamada “Nouvelle Vague” (Nova Vaga) do cinema Francês dos anos 60. Ia ser exibido o filme “Je Vous Salue Marie – Eu Vos Saúdo Maria” (1984), inédito no circuito comercial nacional, que já causara alguma polémica no Festival de Cannes quando um espectador, descontrolado, atirou uma tarte com creme de barbear à cara do realizador e fora proibido em vários países católicos e até mesmo o Papa João Paulo II dissera que “o filme fere profundamente os sentimentos dos crentes”. Alguém, respeitosamente, respondeu ao Santo Padre perguntando-lhe se ele não sabia que só entra no cinema quem quer.
   
Nesse dia, um grupo de cidadãos furiosos, defensores da moral e dos bons costumes, montou uma vigília á porta da Cinemateca para tentar impedir que o filme fosse exibido por ofender, no seu entender, a imagem de Maria. O filme transpõe a história de Maria, José e Jesus para a época contemporânea, o que automaticamente causou polémica, ainda mais com direito a alguns nus frontais da jovem Maria, levando a que, aquilo que para uns era poético, para outros fosse uma blasfémia total.
Apesar da grande confusão originada, com policia á mistura e tudo, o filme acabou mesmo por ser exibido, com algum atraso e toda esta polémica e publicidade gratuita levaram a que o filme fosse um dos grandes sucessos do realizador.
Alguns anos mais tarde, Lisboa voltaria a ser palco de uma polémica quase idêntica, mas desta vez o filme estreou no circuito comercial obteve um enorme sucesso comercial e pôs o seu realizador debaixo de fogo durante anos.
   
Em “A Última Tentação de Cristo”, assistimos á passagem de Jesus Cristo na terra, a sua vida enquanto homem e os desafios que enfrentou como qualquer ser humano faz e também á última tentação a que foi sujeito já na cruz.
Em 1956, depois de muitas indecisões, Martin Scorsese entra num seminário decidido a ser padre.  Quando chegou a altura de tomar os votos, o jovem Scorsese foi assaltado por sérias dúvidas que o levaram a abandonar esta ideia. Em bom tempo o fez, canalizando a sua atenção para o cinema, onde se formou em 1964.
   
Desde sempre que Scorsese queria fazer um filme sobre a  vida de Jesus Cristo, mas faltava-lhe a matéria em que se basear, porque ele não queria imitar as grandes obras do cinema mundial sobre o tema. Queria algo que, apelaria, anos mais tarde,  de “o meu filme mais pessoal”.
Em 1972, enquanto filmava “Boxcar Bertha – Uma Mulher da Rua”, Barbara Hershey, a actriz principal desse filme, deu-lhe a conhecer o livro “The Last Temptation of Christ”, escrito em 1951 e publicado em 1953,  por Nikos Kazantzakis, escritor e filósofo grego, no qual o autor dava a conhecer um Cristo diferente, cheio de dúvidas sobre o seu papel no universo, um carpinteiro odiado pelos judeus por colaborar com os romanos ao fazer-lhes cruzes que são depois usadas para crucificar os seus pares. A actriz pediu ao realizador que transformasse o livro em filme e que ela gostaria de interpretar o papel de Maria Madalena. Scorsese adorou o livro. Kazantzakis expunha ali as mesmas dúvidas que Martin Scorsese tivera anos antes.  Tratou logo de adquirir os direitos de adaptação e, em finais da década de 70,  pediu a Paul Schrader, que já escrevera o excelente “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976), que transformasse o livro num argumento. Scorsese tinha encontrado o seu Cristo, mas ainda iria ter de esperar algum tempo até o levar até ao grande écran.
   
Inicialmente, este seria  o projecto de Scorsese a seguir a “The King of Comedy – O rei da Comédia” (1983). Com um orçamento de cerca de 14.000.000 de dólares e filmagens em Israel, para, nas palavras do próprio realizador ”tornar mais realista o filme”, com Aidan Quinn como Jesus, Ray Davies como Judas, Barbara Hershey como Maria Madalena e Sting como Poncio Pilatos, as filmagens eram para ter início em outubro de 1983. Porém, problemas de logística a nível das localizações (Israel não apresentava a segurança necessária a toda a equipa) e também devido a alguns protestos de vários grupos religiosos, a produção começou a atrasar e acabou por ser cancelada em dezembro desse ano. Em 1986, a Universal mostrou-se interessada no projecto. Scorsese ofereceu-se para realizar o filme em 58 dias por 7.000.000 de dólares e a produção recebeu luz verde para avançar. Mas desta vez, os problemas puseram-se ao nível artístico: com a excepção de Barbara Hershey, todos os outros desistiram dos seus papéis. 
   
O realizador não desistiu e escolheu outros actores ( Robert DeNiro, um “habitué” nos filmes do realizador, foi convidado para o papel de Jesus, mas devido a outro compromisso, teve de recusar). A produção teve início em outubro de 1987, com as filmagens a decorrer em Marrocos (cenário idêntico a Israel e também mais barato) e, apesar da dificuldades postas pelo prazo apertado e da necessidade de muito improviso a ter que ser trabalhado no próprio set, a rodagem terminou dentro do prazo estipulado, em dezembro de 1987. Agora era tempo da sala de montagem dar forma e vida á visão do realizador.
   O filme abre com um “travelling” vertiginoso (quase como se o Espírito de Deus descesse á terra) que vai terminar num plano vertical sobre um homem deitado na terra (Jesus, o escolhido por Deus para cumprir a sua missão, as vozes que estão na sua cabeça e que ele  não compreende o que pretendem de si)

   Aquilo que vemos no écran é um Cristo confundido e pouco esclarecido sobre o propósito da sua missão e o que realmente querem dele, para isso, vai magoar  Deus, até lhe ser explicado o que pretendem dele e fá-lo ao fabricar cruzes para os romanos; Judas, ao contrário do que falam os Evangelhos, era o mais devoto dos Apóstolos, cuja traição a Cristo foi para o salvar da própria humanidade e quem, em última instância, salva Cristo de sucumbir à Tentação e morrer condignamente em vez de o fazer como um ser humano comum; Maria Madalena, a prostituta que ama Jesus, quere-lo só para si e não aceita que ele lhe seja roubado, para o atingir, ela prostitui-se com todos os homens que encontra, acabando eventualmente por ser salva por um Jesus pré-messiânico, na dramática cena do apedrejamento onde Jesus tenta, em vão, explicar á multidão o que Deus pretende.

      
Um elenco de luxo, onde se incluem os nomes de Willem Dafoe, naquele que, se exceptuarmos o papel de Sargento Elias em “Platoon – Os Bravos do Pelotão” (Oliver Stone, 1986), será talvez a melhor sua interpretação;  Harvey Keitel é Judas, o Primeiro Apóstolo (novamente ao contrário da história conhecida), encarregado de matar Jesus pela sua traição, acaba convencido pelo próprio a ajudá-lo a perceber a sua missão. O actor, outro “habitué das produções de Scorsese, apesar do seu sotaque nova-irquino, tem uma prestação ao nível de tantas outras que nos habituou em inúmeras produções;   Barbara Hershey no papel de Maria Madalena, ama e é amada por Jesus, que a troca por desígnios mais altos, a bonita actriz tem aqui o seu melhor desempenho;  Harry Dean Stanton, é o Apóstolo Paulo que, na sua vida alternativa, Jesus encontra a pregar sobre o messias que morreu na cruz; o realizador Irvin Kershner  (no papel de Zebedeu, o responsável pelo apedrejamento a Madalena) e o cantor David Bowie, no papel de Pôncio Pilatos, entre outros, que contrbui para tornar este filme um verdadeiro entretenimento.
   
Onde o filme se torna verdadeiramente magistral é na cena do Gólgota onde, graças à realização excepcional de Scorsese, vemos Cristo crucificado a ser tentado por Satanás para escolher uma vida normal e surgem então as tão polémicas imagens que puseram o mundo cristão em polvorosa: Jesus e Maria Madalena, casados, a fazer amor em sua casa. São cerca de cinco minutos em que somos postos perante uma espécie de vida alternativa de Cristo. Muito pouco tempo para criar tão grande polémica, uma vez que logo de seguida, a tentação termina e a história segue o seu curso como a conhecemos.
   Apesar da polémica que acompanhou o filme, este conseguiu um sucesso moderado em países católicos e não católicos, críticas divididas, assim como a opinião pública. Não raro foi assistir-se a grupos de pessoas junto das salas de cinema a tentar convencer potenciais espectadores a não verem o filme. Portugal, como habitualmente, não foi excepção nesta situação. No meio de tanta polémica, o filme acabou por receber uma nomeação para os Oscares da Academia, precisamente para o seu realizador.
   
Desde o inicio do filme  até á crucificação no Gólgota, assistimos a um olhar diferente, brilhante em alguns aspectos, e bonito da vida de Cristo a partir duma abordagem não tradicional e raramente vista, tornando a "A Última Tentação de Cristo" uma pequena obra-prima no universo cinematográfico, mas uma grande obra-prima no universo do realizador Martin Scorsese.

 Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Os Zombies de George A. Romero – Episódios de um Mundo Apocalíptico II


                          - As Trevas do Mundo (2005-2009)

   
George A. Romero  tinha dito numa longa entrevista, em 1997, que não tencionava regressar ao universo dos zombies porque já nada haveria a fazer ou dizer sobre o tema. Porém, no inicio do novo século, numa convenção em que foi convidado e a sua obra foi objecto duma retrospectiva, surpreendeu-se, durante a conferência de imprensa, com a quantidade de perguntas que lhe foram dirigidas sobre a sua trilogia dos zombies. Afinal, e para grande satisfação do realizador, apesar da quantidade de sequelas e remakes, alguns de qualidade muito inferior, a sua trilogia de terror zombie, permanecia no top das preferências de todos aqueles que estiveram na convenção e também do público em geral. De repente, a palavra zombie, que há muito o realizador relegara para um canto obscuro da sua mente, começou a fazer-se ouvir novamente na sua cabeça.
   
Passaram-se cerca de três anos desde que o surto dos zombies tomou conta dos Estados Unidos (e talvez do mundo, uma hipótese que já havia sido abordada em “A Maldição dos Mostos-Vivos”),  os sobreviventes construíram postos de sobrevivência ao longo do país. Um desses postos existe em  Pittsburgh. Rodeado por rios em dois lados por rios e no terceiro por uma vedação electrificada, guardada por militares,  é governado com mão de ferro, ao estilo feudal, por Paul Kaufman (grande interpretação de Dennis Hopper), homem rico e poderoso que vive, como todos os ricos e poderosos, num edifício luxuoso chamado Fiddler’s Green, enquanto que o resto da população vive no meio da imundície. Lá fora, no que  resta das cidades, os Mortos-Vivos começam a ganhar alguma consciência e a organizar-se tornando-se ainda mais perigosos para os humanos.
   O genérico inicial começa com a frase “Há algum tempo atrás” e depois surgem imagens a preto e branco de humanos transformados enquanto diversas vozes falam e tentam explicar o que se está a passar. O mesmo genérico termina já com imagens a cores e a palavra “Hoje” surge, ameaçadora, no écran, enquanto vemos alguns zombies a deambular nas ruas duma qualquer cidade. É a maneira (brilhante) que Romero encontrou, para quem não viu os seus filmes anteriores, para introduzir o estado em que se encontra a humanidade.
   
Romero, inicialmente, escreveu diversos argumentos intitulados “Twilight of the Dead”, “Dead City” e também “Dead Reckoning” ( curiosamente é o nome da superviatura militar artilhada com que Riley e Cholo combatem os zombies), todos recusados pelos estúdios que queriam algo mais sonante. Depois de muita hesitação,  avanços e recuos, o argumento final (novamente da autoria de George A.Romero), assim como o filme, acabou por se chamar “Land of the Dead – Terra dos Mortos”. Pegando em alguns elementos que fora obrigado a deixar de fora em “O Dia dos Mortos”, Romero desenvolve ao longo do filme a ideia que já tocara ligeiramente no filme anterior, para tornar os zombies ainda mais ameaçadores: a lembrança das suas vidas passadas, como fica patente na cena inicial quando “Big Daddy”, um zombie, antigo funcionário duma bomba de gasolina (a sua primeira acção quando aparece é pegar na mangueira de abastecimento e usá-la como fazia antigamente),inteligente, captura uma arma a um humano em fuga, olha-a incrédulo  para se tentar lembrar do seu funcionamento, agita-a para chamar a atenção a
os seus companheiros e depois ruge ameçadoramente olhando com ódio para “Fiddler’s Green”, antes de, com o seu grupo, se pôr em movimento a caminho do posto dos humanos. O mesmo  “Big Daddy”, noutra cena mais á frente, quando ele e o seu grupo estão numa das margens e do outro lado está ”Fiddler’s Green”, olha para as águas  e percebe que estas não são obstáculo para os seus intentos e o grupo lança-se ao rio e caminham debaixo das águas em direcção á cidade dos ricos e poderosos. É Romero, uma vez mais, no seu melhor, a mostrar um mundo completamente descontrolado e invertido.

   Intenso, em conteúdo e forma, com Zombies mais ameaçadores que nunca (graças a uma caracterização extremamente bem conseguida da responsabilidade de Greg Nicotero, discípulo de Tom Savini, que neste filme faz uma participação aparecendo como o zombie, de katana  na mão, durante o ataque a “Fiddler’s Green”) , “Terra dos Mortos” não se livrou de alguma polémica relacionada com algumas cenas demasiado “gore” (sangrentas), o que não  evitou que o filme fosse classificado para maiores de 18 anos (foi a primeira vez que tal aconteceu na série). Romero, alegadamente,  terá dito que o filme teria duas versões: uma inicial, para qual o realizador teria filmado cenas alternativas e menos explícitas em termos de “gore” e que seria a versão a estrear nos cinemas e seria a primeira a chegar ao circuito de DVD; uma segunda versão teria a designação de “A  Versão do Realizador” (hoje em dia é prática comum) e conteria as cenas mais “gore”.  Ambas as versões estrearam nos respectivos circuitos, embora para europa tenha apenas vindo a versão do realizador, quer para cinema quer para DVD.
   
Critíca e público receberam de braços abertos este novo filme de zombies. As metáforas acerca de realidade da vida americana resultaram  muito bem uma vez mais. O  filme rendeu mais de 40.000.000 de dólares e é o segundo filme mais rentável da série, atrás de “A Maldição dos Mortos-Vivos”. Com uma alma renovada por este inesperado sucesso, Romero sentiu-se confiante para continuar a trabalhar á volta desta série.
   Em agosto de 2006, Romero anuncia que vai fazer novo filme sobre os zombies e que a rodagem iria começar em outubro desse ano. Anuncia também que pela primeira vez o seu filme não será uma sequela (algo que o realizador nunca reconheceu fazer parte da sua série) mas sim uma “maneira de fazer reviver o mito”, nas próprias palavras do realizador. Com um orçamento minúsculo de cerca de 2.000.000 de dólares, Romero obteve um lucro de cerca de 5.000.000 de dólares e o filme até não teve criticas muito posistivas. A certeza com que se fica depois de ver este filme é que George A.Romero ainda é um mestre dentro do género.
   A acção situa-se no inicio da primeira epidemia em que os mortos voltam, inexplicavelmente, á vida e se alimentam dos seres humanos. Nessa altura, um grupo de estudantes universitários, acompanhados pelo seu professor, é apanhado no meio do surto. Ainda sem perceber bem o que se está a passar, resolvem regressar a suas casas e decidem gravar  os incidentes que se lhes deparam pelo caminho num estilo documentário, acabando eles próprios a serem perseguidos por zombies.
   O filme começa com imagens gravadas por uma equipa de repórteres de um canal de televisão que estavam a cobrir uma noticia sobre o assassínio de um imigrante ilegal. A narradora, Debra, explica que aquelas imagens nunca foram visionadas. Percebemos então que estamos no dia um da epidemia.
Apesar de ter algumas semelhanças com os filmes anteriores da série (nomeadamente a utilização de imagens do noticiário que se vê em “A Noite dos Mortos-Vivos”, o primeiro filme da série), Romero pretendeu que este filme fosse uma história passada durante o mesmo período de tempo que o primeiro filme.
   
O título “Diário dos Mortos-Vivos”, diz tudo: trata-se de um diário que se pretende fazer e, para isso, Romero abdicou do seu estilo habitual  de realização (a utilização de múltiplos ângulos de camera, depois montados de acordo com a dinâmica do realizador) e filmou, de camera ao ombro, cenas longas e contínuas  que resultam numa montagem rápida e  movimentada a que depois se juntam os efeitos especiais (a caracterização ficou novamente a cargo de Greg Nicotero). Para acrescentar  mais algum realismo á história, Romero chamou Quentin Tarantino, Wes Craven, Guillermo Del Toro,  Simon Pegg  e Stepnen King, entre outros, que emprestaram as suas vozes para fazerem de locutores de rádio que relatam os acontecimentos á medida que eles vão acontecendo. O próprio George A. Romero faz uma breve aparição como chefe da polícia.  O resultado final acaba por ser mais um documentário, extremamente realista duma situação que fugiu ao controle de tudo e todos, onde o á- vontade de todos os intervenientes (um elenco desconhecido) a maneira como se debatem com as situações, a vontade e o querer documentar todas as situações contrastando com o desejo intímo de cada um de regressar aos seus lares e aos seus familiares, onde não falta sequer o professor desiludido com a vida, mas que se assume e representa para todos a figura paternal que lhes falta nos momentos de perigo, acaba por ser a  a personagem mais forte de todo o grupo, que fica muito melhor do que se fosse um filme normal e, nesse aspecto, resulta na perfeição. Uma vez mais, Romero termina o filme com uma nota pessimista.
   
 
Ao contrário do final de “O Dia dos Mortos”, onde o final era algo optimista, “O Diário” termina com   aquela que será talvez a imagem mais forte e terrível alguma vez apresentada pelo realizador: A cena final, segundo Debra, é feita com as últimas imagens que Jason tirou da net, antes de morrer e nelas vê-se  um grupo de caçadores (labregos, na expressão da própria Debra) a praticar tiro ao alvo em pessoas que morreram e reaparecem como mortos-vivos e na última imagem vê-se uma morta-viva, pendurada numa árvore pelo cabelo, os caçadores disparam atingindo a mulher. Por cima da cena ouve-se a voz de Debra que pergunta “Será que merecemos a salvação?” e logo após, já sobre um écran escuro (que se pode interpretar como o futuro da humanidade), a mesma debra lança o repto “Digam-me vocês!” e logo a seguir corre o genérico final e a pergunta de Debra ainda nos ressoa na cabeça depois do filme terminar.
   
O ano de 2009 viu George A.Romero  realizar um novo filme de de zombies, o sexto da sua já famosa série sobre os Mortos-Vivos. Mas desta  vez o filme não conseguiu despertar até os seus mais ferverosos fans e, como diz a sabedoria popular, “a montanha pariu um rato”.
“Survival of the Dead” ou utilizando o seu título completo “George A.Romero’s Survival of the Dead”, ao contrário dos seus antecessores, não conheceu estreia nacional, nem nas salas de cinema nem no circuito DVD dos clubes de vídeo, nem mesmo em 2010, quando o realizador foi homenageado no "Motelx", Festival de Cinema de Terror de Lisboa. Este comentário que faço é baseado numa edição de importação que adquiri há algum tempo.
   
O filme acompanha a rivalidade ancestral entre duas famílias irlandesas, os Muldoon  e os O’Flynn que vivem em Plum Island, ao largo do estado de Delaware. Enquanto a família O’Flynn chefiada pelo seu patriarca, Patrick O’Flynn, reúne uma milícia para matar os mortos-vivos, enquanto a família Muldoon, liderada por Seamus Muldoon mantém os seus familiares, transformados em mortos-vivos, vivos até surgir a cura para aquela epidemia. Um recontro entre as famílias termina com um breve triunfo da família Muldoon e exílio do patriarca O’Flynn e outros membros da família. Algum tempo depois, Patrick regressa a Plum, acompanhado de alguns desertores da Guarda Nacional para se vingar do seu eterno rival.
    Com um argumento assim, impõe-se uma pergunta: o que tem a rivalidade das famílias a ver com a epidemia que assolou o mundo?  Á partida, nada e, se calhar, foi mesmo isso que fez com que o filme falhasse nas bilheteiras. Afinal, estamos perante uma pandemia que assolou o mundo e, apesar de os zombies surgirem ao longo de todo o filme, parece que foram relegados para segundo plano em detrimento da rivalidade entre as famílias. Romero explicou posteriormente que o seu filme foi inspirado em “The Big Country – Da Terra nascem os Homens”, um western clássico realizado em 1958 por William Wyler, no qual um recém-chegado ao velho oeste se vê envolvido numa luta entre duas famílias rivais pelo posse de um pedaço de terra.
   Tal como nos filmes anteriores, “Survival of the Dead” pode ser visto independentemente dos outros filmes (Romero sempre disse que a única ligação entre os filmes da série é a epidemia dos mortos-vivos), mas um olhar atento e conhecedor das obras anteriores, vai conseguir vislumbrar, logo no início, algumas personagens do filme anterior que aparecem em imagens de arquivo enquanto se ouve a voz off de  Crockett, (personagem que também aparece brevemente em “O Diário dos Mortos”) antigo coronel da Guarda Nacional,  despromovido a Sargento, a explicar o que é que o levou a desertar da força e a andar a vaguear por um mundo completamente fora de controle, onde todos os dias os seres humanos morrem e engrossam o exército dos mortos-vivos. É a única vez na série, até agora, em que a ligação entre filmes acontece, não apenas  por via da epidemia de mortos-vivos.
  É possível que o realizador tenha querido homenagear o western com este filme, mas mesmo sendo esse o objectivo, o filme acaba por ter muito pouco daquilo a que Romero nos habituou nas obras anteriores, onde a critica social estava bem patente, aqui não passa de uma mera caricatura, aliás como todo o filme: um argumento (da autoria de Romero) fraco, que mais parece ter sido escrito em cima do joelho enquanto decorriam as filmagens, interpretações fracas, que mais parecem autênticos fretes levados a cabo pelos actores (excepção feita a Kenneth Welsh e a Richard Fitzpatrick, respectivamente Patrick O’Flynn e Seamus Muldoon) tudo isto misturado numa realização pouco inspirada de George A.Romero. A única nota positiva a este filme vai para o departamento de caracterização, novamente comandado por Greg Nicotero,  que torna os Mortos-vivos extremamente realistas e assustadores em alguns momentos. Tudo o resto, infelizmente, é para esquecer.
Apesar do fracasso,  em todos os campos, de “Survival of the Dead”, George A.Romero expressou vontade de acrescentar mais dois filmes á série, que, segundo, ele seriam filmados ao mesmo tempo. A ver vamos.
   
Em 2010,  Frank Darabond, argumentista e realizador, criou, para televisão uma série inspirada nas novelas gráficas da autoria de  Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard intituladas “The Walking Dead” onde um xerife de província, dado como morto num tiroteio, acorda do coma em que se encontrava para descobrir que o mundo está infestado de mortos-vivos e ele, juntamente com outros sobreviventes que encontra, tem de tentar sobreviver aquela ameaça. A série, que também foi buscar alguma inspiração aos  filmes de Romero, dos quais se pode considerar uma extensão e que, segundo se diz, muito tem agradado ao realizador, tem sido um sucesso em todo o mundo onde tem sido exibida.


 Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




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