O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Em 1962, “The Longest Day – O Dia mais Longo”, uma
superprodução de guerra sobre o dia D – o desembarque aliado na Normandia e que
foi o ponto de viragem da II Guerra Mundial na Europa. Filmado a
preto-e-branco, permitiu na altura, juntar imagens documentais ás cenas
filmadas com actores reais e tornar o filme uma referencia no panorama da
superprodução. A grande novidade deste filme foi o facto de ser filmado por
três realizadores por forma a apresentar três perspectivas diferentes da
operação: Ken Annakin filmou os segmentos britãnicos; Andrew Marton
encarregou-se dos episódios com as forças americanas; e Bernhard Wicki tratou
dos segmentos alemães. No conjunto, os três pontos de vista formaram uma visão
conjunta, antes, durante e depois do desembarque e tornaram este filme,
vencedor de dois Oscares da Academia, um clássico incontornável do cinema.
Alguns anos depois, em 1970, “Tora, Tora, Tora” apresentava uma reconstituição
do ataque japonês a Pearl Harbor. Richard Fleischer e Kenji Fukasaku foram os
realizadores encarregados de mostrar os pontos de vista de ambos lados. O
filme, vencedor de um Oscar da Academia, não foi o sucesso esperado mas
tornou-se, com o passar dos anos, um filme cada vez mais e mais revisitado por
cineastas e outros interessados. O formato não convenceu e foi preciso esperar
pelo sucesso mundial de “Saving Private Ryan – O Resgate do Soldado Ryan”
(Steven Spielberg, 1998) para regressar ao formato da dupla perspectiva de determinado
acontecimento. Em 2006, o veterano realizador Clint Eastwood, pegou no formato
e fez dois filmes inesquecíveis.
Parece difícil pensar que haja alguma coisa sobre a
IIªGuerra Mundial que ainda não tenha sido objecto de análise, reconstituição
ou mesmo adaptação para o grande ou pequeno écran. No entanto foi isso mesmo
que Clint Eastwood quis fazer quando leu “Flags of Our Fathers – As Bandeiras
dos Nossos Pais”, o livro de James Bradley e Ron Powers onde se descreve como as
vidas dos três sobreviventes que estiveram envolvidos no Içar da Bandeira
Americana em Iwo Jiwa, em fevereiro de 1945, imortalizados pela fotografia que
Joe Rosenthal da Associated Press lhes tirou, se alteraram após aquele momento
e do aproveitamento que o governo faz, ao transformá-los em celebridades
apresentadas em paradas e outras celebrações, apresentando-os como porta-voz no
esforço de guerra.
O argumento, escrito por William Boyles, jr. e Paul
Haggis, adapta muito do material escrito, oscila entre três períodos temporais:
Iwo Jiwa, a tournée em prol do esforço de guerra e no presente. É nos destinos
de cada um dos heróis que o filme evolui do mediano filme de guerra para um
trabalho interpretativo de grande qualidade, principalmente no que toca a Ira
(uma excelente interpretação de Adam Beach), um índio Pima, que, destroçado pela
batalha em Iwo Jiwa, passa a herói dum momento para outro, não aguenta a
pressão e tenta esquecer bebendo até cair num verdadeiro oblívio.
O Realizador Clint Eastwood
A abordagem
de Eastwood é muito cinematográfica. Ele desconstrói a batalha de modo a
torna-la uma visão muito mais negra do que a história regista. Aproveita para esse
efeito a natureza vulcânica da própria ilha (apesar das sequências de batalha
terem sido filmadas na Islândia, porque o governo japonês não autorizou
filmagens na ilha por a considerarem solo sagrado), o realizador e Tom Stern,
director de fotografia, usando filtros especiais, tiram alguma da cor dando a
sensação de que as cenas na ilhas são filmadas a preto-e-branco e quase parece
impossível que haja alguma coisa viva naquela local de tão assustadoras e
surreais que são as imagens. Eastwood
coreografa as cenas de batalha de um modo tão caótico, a fazer lembrar o início
de “O Resgate do Soldado Ryan”, focando a atenção (sua e dos espectadores) nos
movimentos das tropas em vez de ser na realização, “colando” a câmera aos
soldados e depois quando acontecem
barragens de fogo, a correr ao lado deles como se procurasse abrigo.
A maior parte dos filmes de guerra, mesmo aqueles
que se dizem anti-guerra, aberta ou implicitamente abraçam a violência e
veem-na, politica ou cinematograficamente, como um meio para atingir um fim.
Poucos são os realizadores que conseguem resistir á visão de um míssil a
explodir e ao espectáculo da morte; a violência é simplesmente demasiado
excitante para se evitar. E Eastwood não se esquiva a esta realidade, bem pelo
contrário, como fica bem demonstrado em “ As Bandeiras dos Nossos Pais”. Somos
conduzidos ao coração da violência e ao coração dos homens, vemos até onde é
possível ir, com a mesma facilidade com que vemos grutas onde soldados são torturados até á morte ou sucumbem á loucura
ou assistimos ao fogo-de-artíficio num qualquer dia festivo. O filme
apresenta-nos esta visão cruelmente e Clint Eastwood defende-se dizendo “Que
era importante para o público perceber aquilo porque estes três homens
passaram, aquilo a que se dedicaram e o que herdaram e o que é ter aquela
sensação de falsa celebridade…” e tinha toda a razão do mundo!
Recebido com entusiasmo pela crtíca e público, o
filme não foi, no entanto, o sucesso esperado. Clint Eastwood foi nomeado para um Globo de Ouro
como Melhor Realizador e o filme recebeu duas nomeações para os Oscares da
Academia. Em alguns sectores da sociedade, o filme foi considerado uma obra
séria e patriota já que honra todos aqueles que combateram no pacífico e, ao
questionar a versão oficial da verdade, lembra-nos que super-heróis existem
apenas nos livros de Banda Desenhada e nos filmes de animação. Com “Letters
from Iwo Jiwa – Cartas de Iwo Jiwa”, o caso foi diferente.
(continua)
Nota: As imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet
Foi a partir de meados
da década de 90 do século passado que começaram as tentativas para revitalizar ou continuar a
história de “Battlestar Galactica”. Tom
DeSanto, Bryan Singer ou até mesmo Richard Hatch, o Capitão Apollo da primeia
temporada da série, estiveram envolvidos em projectos para recuperar a série. Hatch fez mesmo várias tentativas para a
revitalizar, incluindo co-escrever algumas histórias novas e uma série em
Banda Desenhada e ainda foi mais longe ao produzir um “concept video”, em 1998,
com alguns actores da série original e efeitos especiais de primeira, entitulado
“Battlestar Galactica: The Second Coming”, baseado na continuação da série
original, cuja acção se passava anos depois do ultimo episódio da primeira
temporada, mas não convenceu e ficou por isso mesmo. Também em 1999, o produtor Todd Moyer e Glen
A. Larson, anunciaram planos para um filme, baseado na série original, cuja
personagem principal seria a “Estrela-de-Batalha “Pegasus”.
A versão de Tom
DeSanto e Bryan Singer era também uma continuação, cuja acção se passava cerca
de 25 anos depois da série original. Contando com elementos da série original, retomando
os seus papéis, assim como com a
introdução de novas personagens, chegou á fase de pré-produção antes de ser
atrasada e, depois dos eventos do 11 de setembro de 2001, ser abandonada. Ambas
as versões ignoravam os acontecimentos ocorridos em “Galactica 1980”.
Em 2002, a Universal
Pictures (detentora dos direitos legais
da série, cedidos por Glen A.Larson), optou por um “remake” em vez duma sequela.
Para isso contratou Ronald D.Moore,
argumentista e produtor que trabalhara extensivamente nas várias series
originadas pelo franchise “Star Trek” ao longo da década de 90. O remake entrou
em produção em finais de 2002.
Foi reunido um elenco
quase desconhecido para recuperar as personagens da série inicial: Jamie Bamber
é o Capitão Lee “Apollo” Adama; James Callis interpreta o Dr. Gaius Baltar;
Katee Sackhoff é a Tenente Kara “Starbuck” Trace; Tricia Helfer é a “Número
Seis”; Grace Park é a Tenente Sharon
“Boomer” Valerii. Mas também foram chamdos alguns nomes conhecidos como Edward
James Olmos que interpreta o Comandante William Adama ou Mary McDonnell, no
papel de Laura Roslin, Presidente das Colónias humanas.
Após um armistício de
40 anos que se seguiu á guerra travada ente as Doze Colónias (os mundos
habitados pelos humanos) e os Cylons (robots criados pelos humanos), estes
últimos lançam um ataque nuclear com o intento de exterminar a raça humana.
Apanhada de surpresa, a população das Doze Colónias, é quase totalmente
exterminada, assim como o pessoal militar é virtualmente destruído por uma sabotagem
no computador da rede de defesa. A
“Galactica”, uma nave que estava destinada a ser um museu, por estar fora do
alcance da rede, é a única
Estrela-de-Batalha que escapa á destruição e Adama, o comandante da
“Galactica”, assume provisoriamente, o comando da frota enquanto tenta levantar
a moral dos restos da população humana anunciando planos para tentar encontrar
a lendária Décima-Terceira Colónia, Terra, cuja existência e localização haviam
sido mantidos secretos pelos militares.
Inicialmente, pretendeu-se fazer uma mini-série de três horas de duração,
apoiada pelo recém-criado Sci-Fi Channel, o argumentista Ronald D.Moore e o
produtor David Eick não se pouparam a esforços para inovar este remake duma
série de culto do final da década de 70 do século passado.
A história é, em
tudo semelhante á da primeira série: a “Galactica” protege uma frota de cerca
de 75 naves civis ( na série inicial, eram cerca de 220!), com uma população
que ronda (Segundo se vê nas estatisticas que estão na “Colonial One”, nave
onde viaja Laura Roslin, a Presidente
Eleita das Colónias) cerca de cinquenta mil pessoas, sempre perseguidos pelos
Cylons, procuram a Terra, apesar de
Adama acreditar que ela nada mais é que uma lenda.
Mas onde esta nova série
difere da original é na profundidade com que aborda toda a jornada: a série não
se limita a mostrar aventuras e batalhas espaciais, ela explora também as
relações humanas numa civilização
ameaçada de extinção, na qual os seres humanos lutam entre si tanto como contra
os Cylons. Mas a grande novidade deste “reboot” (recomeço) de “Battlestar Galactica” vem dos inimigos jurados dos
humanos: os Cylons. Ficamos a saber que eles evoluiram (ja estamos longe das naves com três Cylons
como tripulantes, as que surgem agora
são muito mais modernas e ameaçadoras que as da série original) e
desenvolveram-se ao ponto de, Segundo a “Número Seis”(uma sensual e bonita
Cylon que admira a raça humana) diz a Baltar, adquiriram uma consciência
própria. Já no final da mini-série, ficamos a saber que existem 12 modelos de
Cylons, semelhantes aos humanos, que sentem como humanos e pensam que são
humanos, dos quais existem milhares de
cópias ou “clones”, espalhados pelo universo. Além da “Número Seis”, na
mini-série são revelados mais três. (um dos quais apenas no surpreendente final). Esta nova situação
foi trazer uma grande inovação á mini-série. O mote estava lançado, restava
aguardar qual seria a reacção do publico.
Nos dias 8 e 9 de dezembro de 2003,
a nova versão de “Battlestar Galactica” estreava no Sci-Fi Channel. As
duas partes conseguiram prender a atenção de 3.9 e 4.5 milhões de espectadores
respectivamente, tornando-a no terceiro programa mais visto de sempre e
recebendo critícas muitos positivas da imprensa especializada. Com tal sucesso
em mãos, foi encomendada uma série com
carácter semanal.
A primeira temporada começa pouco tempo depois do final da mini-série e
continua a história dos restos das Doze Colónias humanas, depois da derrota
infligida pelos Cylons, em busca da Décima-Terceira Colónia, Terra. Ao contrário
de outras séries espaciais, “Battlestar Galactica” não tem os tão famosos
aliens que fazem as delicias nessas séries. Muito pelo contrario, a maior parte
das histórias tratam do efeito que a destruição apocalíptica das
Doze Colónias teve sobre os sobreviventes e as escolhas morais que têm de fazer
em relação ao declínio da raça humana e a sua guerra com os Cylons; outras
histórias são sobre os ciclos perpétuos de ódio e violência que conduzem
aos conflictos entre seres humanos e Cylons, e religião com uma
implicação de que “Deus” tem um plano
que contemplará todos os
envolvidos..
Ao longo da série, a guerra entre Cylons e humanos, conhece muitas voltas e
reviravoltas, com facções de Cylons a aliarem-se aos humanos, formando uma
aliança insegura e fraca, contra o “Número Um”, o líder Cylon que se recusa a
revelar o nome dos “Últimos Cinco”, os cinco
Cylons cujas identidades só ele conhece
e que são modelos mais antigos, criados por uma civilização humana mais antiga.
Todo o elenco da mini-série regressou para
as quatro temporadas de “Battlestar Galactica”, Glen A. Larson, criador da série
original tornou-se Produtor Consultivo e
a produção trouxe,como artistas convidados ao longo da série, Lucy Lawless,
Dean Stockwell, Callum Keith Rennie e, como convidado especial, Richard Hatch,
o Capitão Apollo da série original, para interpretar Tom Zarek, um terrorista
que depois se torna politico. Hatch, que recusara entrar em “Galactica 1980”,
apesar de não gostar do novo conceito, aceitou participar na série, já que a
sua personagem lhe permitiu acrescentar ainda mais dramatismo ao enredo quando
se dá a sua transformação de terrorista em politico activo que ascende á
vice-presidência das Colónias.
A 14 de janeiro de 2004, estreava a primeira temporada de “Battlestar
Galactica” com um “share” televisivo de 3.1 milhões de espectadores logo no
primeiro episódio, tornando-o, tal como as duas partes da mini-série, um dos
programas mais vistos de sempre no Sci-F Channel. Ao sucesso dos 13 episódios
desta primeira temporada, seguiram-se mais 20 duma segunda temporada em 2005
(exibida nos Estados Unidos em duas partes intituladas 2.0 e 2.5) que continuou
o sucesso levando o Sci-Fi Channel a encomendar uma terceira temporada em 2006,
seguindo sempre a esteira do sucesso levando a que os interregnos entre as
temporadas fosse cada vez menor. Finalmente em 2007, foram encomendados mais 22
episódios para uma quarta temporada que os produtores Ronald D.Moore e David
Eick anunciaram ser a última. Tal como a
segunda, esta quarta temporada foi dividida em duas partes, por ter sido
apanhada pela greve dos argumentistas
(2007-2008), respectivamente 4.0 (episódios 3 a 10) e 4.5 (episódios 11
a 22). A 20 de março de 2009, foi exibido o último episódio da série. Com cerca
de três horas de duração, foi dividido em duas partes. Chegava, assim, ao fim
um dos mais bem conseguidos “reboot” duma série de televisão.
Entre a terceira e a quarta temporadas, surgiu o telefilme “Battlestar
Galactica: Razor” que serviria para criar expectativa em relação ao que se iria
seguir na série. “Razor” é a junção dos dois primeiros episódios da quarta
temporada. Narrando os acontecimentos da Estrela-de-Batalha “Pegasus” em dois
tempos, ambos “no passado” em relação à continuidade da quarta temporada. O
tempo “presente”situa-se na altura em Lee Adama assume o comando da “Pegasus”,
na última metade da temporada 2, enquanto o tempo “passado” se situa quando
Helena Cain é a Comandante da nave, no período entre o ataque Cylon (que se vê na mini-série) e a reunião com a
“Galactica” na segunda temporada.
Ainda mal tinha terminado “Battlestar Galactica” , já o Sci-Fi Channel
anunciava um telefilme intitulado “Battlestar Galactica: The Plan – Galactica –
O Plano” (Edward James Olmos, 2009). O
filme, constituído por material novo e
cenas da mini-série e temporadas, acompanha a história de duas versões do Cylon Cavil, uma quer
testemunhar a destruição da raça humana, a outra tenta dissuadir a primeira,
admitindo que podem estar a cometer um erro. Contado em “flashback”, o
telefilme reconta a mini-série e as duas primeiras temporadas com maior enfâse na perspectiva dos Cylons e
do seu Plano para destruir a raça humana. Os “Cinco Finais” têm aqui um papel
mais proeminente.
Em abril de 2006, o Sci-Fi Channel anunciava que uma prequela (um termo
criado no século XXI), de “Battlestar Galactica” estava em desenvolvimento.
“Caprica”, assim se chamava a prequela, a acção situa-se mais de 50 anos antes
da série, antes da Guerra Cylon e conta-nos a história da família Adama e da
sociedade Capricana assim como nos fala dos avanços tecnológicos que levarão á Revolta Cylon. Em março de 2008,
Ronald D.Moore, produtor e argumentista, confirmou que “Caprica” iria entrar em
produção, começando com episódio-piloto de duas horas. Em dezembro de 2008, o
canal aprovou e deu luz verde para a série. Devido a fracas audiências,
“Caprica” só teve uma temporada, constituída por 19 episódios e foi exibida
entre janeiro e outubro de 2010.
Anunciada em 2011, “Battlestar Galactica: Blood & Chrome” é a segunda prequela do universo “Battlestar
Galactica”. A acção situa-se no décimo ano da Primeira Guerra Cylon e segue o
percurso do jovem William “Husker” Adama, piloto da “Galactica”, uma das mais
poderosas Estrelas-de-Batalha da frota Colonial. A série, criada por Michael
Taylor e David Eick, descreve os
acontecimentos entre “Caprica” e a mini-série de 2003 e estreou, em novembro de
2012, como uma série “on-line” de 10 episódios de mais ou menos 15 minutos de
duração. Distribuída pela “Machinima
Network” e exibida no “Machinima Youtube
Channel”, um canal pertencente ao
“Youtube”, a série teve uma recepção positiva.
Em 2013, o Sci-Fi Channel anunciou a
sua intenção de exibir a série como um telefilme e estava em cima da mesa a
possibilidade de se criar uma série de televisão.
Facilmente se percebe que o “reboot”
de “Battlestar Galactica” abriu muitas portas
a futuras prequelas, continuações, quer em forma de série ou em filmes e
telefilmes. Enfim todo um manancial de possibilidades ao dispôr de quem queira
dar continuidade ao projecto, “So Say We All!” – os fans, claro!!
Nota: As Imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet
As
imagens finais de “A Mão de Deus”, o
último episódio da primeira temporada de Galactica, mostravam-nos uma
transmissão, em más condições, a ser recebida num monitor e nela conseguia-se
perceber os contornos duma nave a poisar e ouvia-se uma comunicação,
entrecortada por estática, cuja voz pronunciava o seguinte “Base da
Tranquilidade…a Águia aterrou!” a imagem
congelava e começava o genérico final.
Embora
se soubesse antecipadamente que este era o último episódio, algo, naquelas
imagens, deixava antever o contrário. O público, fiel, interrogava-se: que
imagens eram aquelas que a Galactica acabara de capturar? Será que estariam a
receber uma comunicação de longa distância? Que nave era aquela? O que é que
aquela voz quereria dizer? Com quem estaria a falar? O que era a Base da
Tranquilidade? Parecia estar destinado que nenhuma destas perguntas iria ser
respondida.
Mal
se soube do cancelamento da série, a ABC
começou a receber cartas de telespectadores que queriam que a série fosse
reposta. Protestos destes eram pouco comuns nesta época, mas
revelaram-se decisivos já que tal
campanha em favor da série, levou a que os responsáveis da estação repensassem
as razões do cancelamento. Após alguma deliberação, entre avanços e recuos, os
responsáveis da ABC reuniram-se com Glen A.Larson para definirem um possível
regresso da série, mas este teria de ser modificado e num formato menos
dispendioso.
Com
luz verde da ABC, Glen A.Larson e Donald P.Bellisario, co-argumentista e
realizador de vários episódios da primeira temporada, decidem que a nova série
se passará cerca de 5 anos depois dos eventos de “A Mão de Deus”. Este espaço
de tempo, permitiria que se eliminassem
algumas personagens consideradas superfluas, como o Coronel Tigh, braço direito
de Adama, Athena, filha de Adama, Cassiopeia, Boxey, entre muitos outros que se
haviam tornado familiares ao longo da série original. As únicas personagens que
iriam transitar seriam: O Comandante Adama, Boomer, Apollo, Starbuck e o Conde
Baltar. Este último, depois de cumprir uma sentença por ter traído os seus
semelhantes, era expiado e seria agora Presidente do Conselho
dos Doze.
A
ideia principal seria que “A Galactica” chegaria á terra no presente e esta não
estaria preparada para se defender dos
Cylons, Adama decidiria então dirigir-se para outro ponto do universo de modo a
afastar os Cylons do planeta. Baltar, no entanto, sugeria utilizar-se a
tecnologia que permitia viajar no tempo e assim alterar a hustória da terra de
modo a que esta estivesse apta a enfrentar as máquinas mortíferas. O Conselho
recusaria e Baltar roubaria uma nave e viajaria até ao passado para levar o seu plano avante. Semanalmente,
haveria “Uma Missão no Tempo”, levada a
cabo por Apollo e Starbuck a tentar apanhar Baltar, impedir que este
alterasse a história terrestre, com
Apollo sempre num período diferente da história
e Starbuck, viajando para o passado e para o presente, para poder ajudar
o seu amigo. A ABC gostou da ideia e autorizou a realização do episódio-piloto.
Dr. Xavier
Lorne
Greene (com uma barba grande, que, não é preciso ser um especialista para
isso, se percebe logo ser falsa) e Herb Jefferson, Jr. (Boomer, agora promovido
a coronel e braço-direito de Adama), aceitam regressar aos seus papeis,
mas Richard Hatch e Dirk Benedict
mostraram-se indisponíveis para regressar. O primeiro recusou porque não tinha
a certeza de qual seria o seu papel
agora que tudo ia mudar e algumas personagens iriam desaparecer; o segundo
estava indisponível. Foi então que perante
este retrocesso, toda a estrutura,
entretanto planeada, para a nova série foi alterada. A acção passa-se agora
cerca de trinta anos depois dos acontecimentos da primeira temporada. São
criadas novas personagens como Troy (para substituir Apollo), O Tenente Dillon
(para substituir Starbuck); assim como o inquietante Doutor Xavier (Richard Lynch, num registo habitual na sua carreira), como o vilão de
serviço.
Com
a acção situada no ano de 1980 e uma geração depois da série original, “A
Galactica” e a sua frota chegam á Terra, apenas para descobrir que o planeta
não é tão avançado cientificamente como era de esperar nem é capaz de se
defender dos Cylons, nem pode ajudar a nave de combate. É então decidido que
equipas de colonos vão ajudar incognitamente membros da comunidade cientifica
de modo a tornar a terra mais tecnologicamente avançada. Mas existe quem pense que
esta decisão é errada e pretenda acelerar o avanço tecnológico, nem que para
isso seja necessário viajar no tempo, até ao passado e alterar o curso da
História.
Depois
do episódio-piloto ser filmado e visionado, a estação mostrou-se desagradada
com os aspectos das viagens no tempo que seria então a premissa principal de
cada episódio (como inicialmente planeado) com os guerreiros coloniais a
perseguir o Dr.Xavier em diferentes períodos da história. Ainda
antes de estrear, os criadores da série veem-se obrigados a abandonar a
ideia das constantes viagens no tempo,
por imposição da ABC. Ultrapassado este
pequeno contratempo, a série estreou no dia 27 de janeiro de 1980.
Ao
longo da série, são explicados os destinos de algumas personagens da série
original: Apollo teria morrido; Starbuck ter-se-ia perdido no espaço no decurso
duma missão; ficamos a saber que o Capitão Troy
é, na realidade, Boxey; Baltar, tal como
Adama lhe prometera em “A Mão de Deus”,
aparentemente foi abandonado num planeta com condições de sobrevivência,
foi salvo e é-nos apresentado como o Comandante Baltar, chefe
supremo da frota Cylon que persegue os humanos. De outras personagens, como
Athena, Cassiopeia ou até o Coronel Tigh, nunca se chega a saber o que
aconteceu. É como se nunca tivessem existido e, quando assim acontece, é
lamentável, já que algumas destas personagens desempenhavam um papel importante
na série original.
Os
fracos índices de audiência que a série obteve, levaram ao seu cancelamento ao
fim de apenas dez episódios!, muitos dos
quais eram histórias múltiplas, com várias situações a decorrer o que apenas
serviu para baralhar os espectadores, nunca conseguiram despertar o interesse
do público e até os actores começavam a revelar algum cansaço das personagens,
arrastando até ao limite as suas prestações. O último episódio, intitulado “O
Regresso de Starbuck” com a participação especial de Dirk Benedict ( e também o mais interessante de
todos), foi uma tentativa de reanimar a série e arrancar algum “share”
televisivo, mas não foi suficiente. Um décimo-primeiro episódio, que seria uma
continuação do anterior, ainda foi
escrito por Larson, mas a série foi cancelada durante a produção desse episódio
e este nunca foi terminado.
Depois
do cancelamento da série, em maio de
1980, apareceu nos cinemas, na Europa, Nova Zelândia e Austrália, um filme
intitulado “Conquest of the Earth”. Editado a partir de episódios da série
“Galactica 1980” (nome pelo qual ficou conhecida esta série), e cenas não
aproveitadas na série, editadas de modo a tornar compreensível o filme. Apesar
de mais esta tentativa de revitalizar a série, nada havia a fazer.
Pela
segunda vez, em pouco mais de um ano, a
série “Battlestar Galactica” “morria”
pelas mesmas razões que haviam estado na origem do cancelamento da série
original. Desta vez a ressurreição teria de
esperar 23 anos até acontecer.
(continua)
Nota: As imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet