O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
As
imagens finais de “A Mão de Deus”, o
último episódio da primeira temporada de Galactica, mostravam-nos uma
transmissão, em más condições, a ser recebida num monitor e nela conseguia-se
perceber os contornos duma nave a poisar e ouvia-se uma comunicação,
entrecortada por estática, cuja voz pronunciava o seguinte “Base da
Tranquilidade…a Águia aterrou!” a imagem
congelava e começava o genérico final.
Embora
se soubesse antecipadamente que este era o último episódio, algo, naquelas
imagens, deixava antever o contrário. O público, fiel, interrogava-se: que
imagens eram aquelas que a Galactica acabara de capturar? Será que estariam a
receber uma comunicação de longa distância? Que nave era aquela? O que é que
aquela voz quereria dizer? Com quem estaria a falar? O que era a Base da
Tranquilidade? Parecia estar destinado que nenhuma destas perguntas iria ser
respondida.
Mal
se soube do cancelamento da série, a ABC
começou a receber cartas de telespectadores que queriam que a série fosse
reposta. Protestos destes eram pouco comuns nesta época, mas
revelaram-se decisivos já que tal
campanha em favor da série, levou a que os responsáveis da estação repensassem
as razões do cancelamento. Após alguma deliberação, entre avanços e recuos, os
responsáveis da ABC reuniram-se com Glen A.Larson para definirem um possível
regresso da série, mas este teria de ser modificado e num formato menos
dispendioso.
Com
luz verde da ABC, Glen A.Larson e Donald P.Bellisario, co-argumentista e
realizador de vários episódios da primeira temporada, decidem que a nova série
se passará cerca de 5 anos depois dos eventos de “A Mão de Deus”. Este espaço
de tempo, permitiria que se eliminassem
algumas personagens consideradas superfluas, como o Coronel Tigh, braço direito
de Adama, Athena, filha de Adama, Cassiopeia, Boxey, entre muitos outros que se
haviam tornado familiares ao longo da série original. As únicas personagens que
iriam transitar seriam: O Comandante Adama, Boomer, Apollo, Starbuck e o Conde
Baltar. Este último, depois de cumprir uma sentença por ter traído os seus
semelhantes, era expiado e seria agora Presidente do Conselho
dos Doze.
A
ideia principal seria que “A Galactica” chegaria á terra no presente e esta não
estaria preparada para se defender dos
Cylons, Adama decidiria então dirigir-se para outro ponto do universo de modo a
afastar os Cylons do planeta. Baltar, no entanto, sugeria utilizar-se a
tecnologia que permitia viajar no tempo e assim alterar a hustória da terra de
modo a que esta estivesse apta a enfrentar as máquinas mortíferas. O Conselho
recusaria e Baltar roubaria uma nave e viajaria até ao passado para levar o seu plano avante. Semanalmente,
haveria “Uma Missão no Tempo”, levada a
cabo por Apollo e Starbuck a tentar apanhar Baltar, impedir que este
alterasse a história terrestre, com
Apollo sempre num período diferente da história
e Starbuck, viajando para o passado e para o presente, para poder ajudar
o seu amigo. A ABC gostou da ideia e autorizou a realização do episódio-piloto.
Dr. Xavier
Lorne
Greene (com uma barba grande, que, não é preciso ser um especialista para
isso, se percebe logo ser falsa) e Herb Jefferson, Jr. (Boomer, agora promovido
a coronel e braço-direito de Adama), aceitam regressar aos seus papeis,
mas Richard Hatch e Dirk Benedict
mostraram-se indisponíveis para regressar. O primeiro recusou porque não tinha
a certeza de qual seria o seu papel
agora que tudo ia mudar e algumas personagens iriam desaparecer; o segundo
estava indisponível. Foi então que perante
este retrocesso, toda a estrutura,
entretanto planeada, para a nova série foi alterada. A acção passa-se agora
cerca de trinta anos depois dos acontecimentos da primeira temporada. São
criadas novas personagens como Troy (para substituir Apollo), O Tenente Dillon
(para substituir Starbuck); assim como o inquietante Doutor Xavier (Richard Lynch, num registo habitual na sua carreira), como o vilão de
serviço.
Com
a acção situada no ano de 1980 e uma geração depois da série original, “A
Galactica” e a sua frota chegam á Terra, apenas para descobrir que o planeta
não é tão avançado cientificamente como era de esperar nem é capaz de se
defender dos Cylons, nem pode ajudar a nave de combate. É então decidido que
equipas de colonos vão ajudar incognitamente membros da comunidade cientifica
de modo a tornar a terra mais tecnologicamente avançada. Mas existe quem pense que
esta decisão é errada e pretenda acelerar o avanço tecnológico, nem que para
isso seja necessário viajar no tempo, até ao passado e alterar o curso da
História.
Depois
do episódio-piloto ser filmado e visionado, a estação mostrou-se desagradada
com os aspectos das viagens no tempo que seria então a premissa principal de
cada episódio (como inicialmente planeado) com os guerreiros coloniais a
perseguir o Dr.Xavier em diferentes períodos da história. Ainda
antes de estrear, os criadores da série veem-se obrigados a abandonar a
ideia das constantes viagens no tempo,
por imposição da ABC. Ultrapassado este
pequeno contratempo, a série estreou no dia 27 de janeiro de 1980.
Ao
longo da série, são explicados os destinos de algumas personagens da série
original: Apollo teria morrido; Starbuck ter-se-ia perdido no espaço no decurso
duma missão; ficamos a saber que o Capitão Troy
é, na realidade, Boxey; Baltar, tal como
Adama lhe prometera em “A Mão de Deus”,
aparentemente foi abandonado num planeta com condições de sobrevivência,
foi salvo e é-nos apresentado como o Comandante Baltar, chefe
supremo da frota Cylon que persegue os humanos. De outras personagens, como
Athena, Cassiopeia ou até o Coronel Tigh, nunca se chega a saber o que
aconteceu. É como se nunca tivessem existido e, quando assim acontece, é
lamentável, já que algumas destas personagens desempenhavam um papel importante
na série original.
Os
fracos índices de audiência que a série obteve, levaram ao seu cancelamento ao
fim de apenas dez episódios!, muitos dos
quais eram histórias múltiplas, com várias situações a decorrer o que apenas
serviu para baralhar os espectadores, nunca conseguiram despertar o interesse
do público e até os actores começavam a revelar algum cansaço das personagens,
arrastando até ao limite as suas prestações. O último episódio, intitulado “O
Regresso de Starbuck” com a participação especial de Dirk Benedict ( e também o mais interessante de
todos), foi uma tentativa de reanimar a série e arrancar algum “share”
televisivo, mas não foi suficiente. Um décimo-primeiro episódio, que seria uma
continuação do anterior, ainda foi
escrito por Larson, mas a série foi cancelada durante a produção desse episódio
e este nunca foi terminado.
Depois
do cancelamento da série, em maio de
1980, apareceu nos cinemas, na Europa, Nova Zelândia e Austrália, um filme
intitulado “Conquest of the Earth”. Editado a partir de episódios da série
“Galactica 1980” (nome pelo qual ficou conhecida esta série), e cenas não
aproveitadas na série, editadas de modo a tornar compreensível o filme. Apesar
de mais esta tentativa de revitalizar a série, nada havia a fazer.
Pela
segunda vez, em pouco mais de um ano, a
série “Battlestar Galactica” “morria”
pelas mesmas razões que haviam estado na origem do cancelamento da série
original. Desta vez a ressurreição teria de
esperar 23 anos até acontecer.
(continua)
Nota: As imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet
Em 1978, “Star Wars – Guerra das
Estrelas”, o fantástico universo criado por George Lucas, um dos maiores
visionários do cinema no final do século XX, tinha redefinido o cinema e, em
particular, a ficção científica. Desde que estreara, em maio de 1977,
tornara-se o maior êxito de bilheteira da história do cinema, batendo recordes
em todo o mundo. Nada, nem ninguém, conseguiu ficar indiferente ao impacto que
o filme teve no mundo inteiro. Também a televisão, principal rival do cinema,
foi tocada por este fenómeno mundial e
quis logo de imediato responder com outro sucesso idêntico para não perder o
seu público.
Na
altura deste sucesso mundial, discutia-se a influência que o livro “Eram os
Deuses Astronautas?” de Erich Von Daniken, publicado em 1968 e que fala da
possibilidade das antigas Civilizações
terrestres terem a sua origem no espaço, com a vinda de alienígenas (ou
astronautas) á terra nos períodos relatados dessas Civilizações, tinha no filme
de George Lucas. Surge então em cena Glen A.Larson, criador e produtor de
alguns dos maiores sucessos de televisão das décadas de 70 e 80 do século
passado, como “Buck Rogers no Século XXV” (1979-1981); “Magnum, P.I.” (1980-1988);
“The Fall Guy” (1981-1986); ou “Knight Rider – O Justiceiro”(1982-1986), o seu
maior sucesso. Decidido a mudar a face da televisão, Larson, que tinha lido o
livro de Daniken, resolve criar uma série de televisão, que fizesse frente ao
sucesso de “Star Wars”, partindo da premissa apresentada pelo livro.
Num
universo muito distante, as Doze Tribos da Humanidade ou Colónias, como muitas
vezes são referidas na série (uma possível referência, nunca confirmada, ás
treze colónias que deram origem aos Estados Unidos ou ainda ás tribos de
Israel), assinam um pacto de tréguas com os Cylons, robots-guerreiros criados
por uma raça de seres superiores há muito extinta, provavelmente répteis (esta
ideia é transmitida sempre que se vê o Líder Imperioso, a sua forma, de costas e com um olhar de
réptil) pondo fim a uma guerra que durava há mais de mil anos. Atraiçoados pelo
Conde Baltar, um humano ambicioso que deseja subjugar toda a humanidade, aliado
ás forças Cylon, as Doze Tribos são destruídas e a raça humana practicamente
extinta. A Estrela Batalha “Galactica”, a única nave de combate que sobrevive a
este holocausto, reúne, sob sua protecção, uma frota de naves onde viajam os
restos da humanidade e, enquanto fogem dos Cylons, procuram vestígios da 13ª
Tribo Humana (ou Colónia) que partira de Kobol, planeta onde nascera a
humanidade, muitos séculos antes, para colonizar um planeta chamado Terra.
A Era
em que acontece este êxodo nunca é explicada. No início da série é referida como sendo “o Sétimo Milénio do
Tempo”, mas é desconhecida em relação á história da terra e aos vestígios que
vão recolhendo ao longo da sua longa viagem. A série faz referencia, na sua
introdução, ás antigas civilizações Egipcía, Maya, Inca, Tolteca e fala também
das Civilizações míticas como Lemúria e Atlântida, sugerindo que estas poderiam
ser descendentes de seres alienígenas e que estes seres humanos que lutam
algures no universo, poderiam ser os antepassados dessas antigas civilizações.
Partindo
desta premissa, em 1978, estavam lançados os dados para uma das mais originais
e inovadoras séries de televisão. A grandiosidade dos cenários, as cenas de
batalhas espaciais e a própria temática humana em guerra com outra civilização,
nada disto alguma vez se vira em televisão, apenas em cinema. Hoje, décadas
depois da sua estreia, dá-nos alguma nostalgia e até vontade de rir em algumas cenas. Vemo-la como
uma utopia, mas, não esqueçamos que, revolucionou os efeitos especiais em
televisão e, os seus enredos, altamente rebuscados, fizeram história, não só nos filmes para televisão,
como também na própria ficção científica.
Glen
A. Larson, depois de ter luz verde da ABC, o estúdio que apostou na série, não
se poupou a esforços para inovar. Foi buscar actores e actrizes, alguns de renome, como
Lorne Greene, que “Bonanza”(1959-1973), a série de cowboys de mais longa
duração em televisão, tornara famoso e deu-lhe o papel de Adama, o comandante
da “Galactica” e também o responsável por levar os restos da humanidade em
busca da terra; John Colicos, como o Conde Baltar, o homem que vende a
humanidade a troco do poder; Jane Seymour, a bonita actriz que depois viria a
encontar a fama com a série “Dr. Quinn”(1993-1998), é Serena, jornalista que,
pelos destinos da guerra , se torna guerreira-piloto; Richard Hatch é Apollo, o
piloto mais corajoso da frota; Dirk Benedict, que, na década seguinte, se
tornaria famoso na série “A-Team – Soldados da Fortuna”(1983-1987), é Starbuck,
também piloto, homem de grande coragem, melhor amigo de Apollo e um
incorrigível D.Juan; entre muitos outros que se viriam a tornar famosos depois
da participarem na série. Larson foi buscar também realizadores de televisão e cinema como Rod Holcomb ou
Christian I. Nyby II, para garantir que o trabalho fosse de qualidade e não um simples amontoado de
imagens sem nexo. O próprio criador supervisionou a sequência de abertura do
episódio-piloto: no universo, entre imagens de nebulosas e planetas, uma voz
“off”, introduz e situa a acção. Larson
fez questão que fosse Patrick McNee, o conceituado actor da série britânica
“The Avengers – Os Vingadores” a fazer a introdução da série, introdução essa
que se manterá inalterável até sensivelmente ao meio da série, onde será
ligeiramente modificada, mas mantendo sempre presente aquilo que Erich Van
Daniken escrevera no seu livro . Larson quis ainda que fosse o actor a fornecer
a voz ao Líder Imperioso e também participasse na série em dois episódios, interpretando a figura demoníaca do Conde
Iblis.
Numa
tentativa de roubar público a “Star Wars” (missão praticamente impossível em
1978!), o episódio-piloto, que custara cerca de sete milhões de dólares (foi o
mais caro na altura), estreou, em julho de 1978, em vários países, incluindo
Canadá, Europa Ocidental e Japão, numa versão de 125 minutos, editada a partir
dos três primeiros episódios da série. Em Portugal estreou em cinemas que
estavam equipados com “Sensurround”, um equipamento sonoro que permitia aos
espectadores partilhar algumas das sensações vividas no écran, ampliando os sons mais baixos, de explosões, tiros, descolagem e aterragem de aviões ou
naves, etc., de modo a que eles fossem mais sentidos que ouvidos. A recepção do
público foi positiva e permitiu a Glen
A.Larson ganhar alguma confiança e
prosseguir com a série.
A 17
de setembro de 1978, estreava na ABC, a versão integral do episódio-piloto da
série, perfazendo um total de 150 minutos de duração. A recepção foi boa,
recebendo uma boa classificação e obtendo um grande “share” televisivo. Tudo
parecia bem encaminhado para a série ser um mega-sucesso.
Subitamente
a meio da temporada, em abril de 1979, foi anunciado que a série iria ser
cancelada devido aos fracos resultados de audiência que estava a obter. Ninguém
estranhou este facto. O horário da série era mudado semana após semana e este
facto acabou por criar alguma desmotivação entre o público, levando a alguns
protestos junto dos estúdios da ABC, mas a decisão estava tomada e nada, nem
ninguém a iria contrariar. Durante oito meses, 17 episódios foram filmados (o
episódio piloto dividido em três partes e cinco outros divididos em duas
partes), perfazendo um total de 24 episódios.
O episódio final “A Mão de Deus” ( e um dos melhores de toda série) foi exibido a 29 de abril de 1979. Com
apenas uma temporada, uma das mais
inovadoras séries de televisão era cancelada.
(continua) Nota: As imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet
Ao
contrário de muitos escritores
franceses, contemporâneos de Alexandre Dumas, Pai, ele tornou-se rico ainda em vida. Tinha
leitores espalhados um pouco por todo o mundo e qualquer obra com a sua
assinatura era êxito garantido. Portanto nada havia de estranho quando em 1853,
surgiu no mercado uma obra, assinada por Alexandre Dumas, Pai, intitulada “ A
Mão do Finado” e que fora apresentada como uma continuação de “O Conde Monte
Cristo”. O sucesso foi imediato, mas a
história por detrás desta continuação é
bem diferente.
Antes
de entrarmos propriamente na obra em si, vale a pena ter em atenção o seguinte
diálogo, ocorrido em lisboa entre Luis Correia da Cunha, editor das obras de
Alexandre Dumas, Pai, em Portugal e um tal Alfredo Possolo Hogan, funcionário
dos correios de lisboa. Possolo Hogan era um apaixonado pela literatura,
particularmente pelo romance de aventuras, escrevia nas suas horas vagas e,
encontrando-se sem dinheiro, resolveu apelar ao conhecido editor:
- Já
viu isto!? “O Conde Monte Cristo” é aquilo que os meus fregueses preferem!
Vende-se tudo, nem tenho mãos a medir!! – dizia o atarefado editor
-
Vai reeditá-lo? – perguntou Hogan
-
Vou, está claro…mas estive a pensar numa continuação do “Conde Monte Cristo”,
produção particular aqui da casa…e quem poderá arcar com tal responsabilidade?
– o editor pareceu ponderar um pouco e depois olhou para o seu interlocutor –
você!
-
Eu? – fez Hogan, sem poder acreditar no que ouvia
-
Sim, você. Não é, por acaso, autor de romances do mesmo género, como “Os Dois
Angelos”, ou “Um casamento forçado”?...se leu os meus fascículos, não tem mais
do que tomar os personagens e, com eles,
compor o fim que falta ao romance de Alexandre Dumas…publica-lo-ei nesta
colecção e com a assinatura do autor de “Os Três Mosqueteiros”…
-
Mas poderá ser preso! Incorrer numa contrafacção por uso indevido de nome!
-
Não creia nisso…Alexandre Dumas está muito ocupado a provar que é ele próprio
quem escreve os seus romances…estou em crer que ele até vai apreciar
devidamente este golpe publicitário…
Alfredo
Possolo Hogan, depois de muito pensar, disse:
-
Está bem! Aceito a incumbência…mas acontece que estou muito necessitado de três
meias coroas…
Passaram-se
dois anos depois dos acontecimentos narrados em “O Conde Monte Cristo”. O Conde
vive agora feliz ao lado de Haydée, o seu amor, mas é do seu passado que surge
ameaça. Benedetto, antigo colaborador na vingança que o Conde levou a cabo, encontra-se
preso por homicídio e, enquanto aguarda o julgamento, recebe uma carta que lhe revela a sua verdadeira
identidade e onde também lhe é pedido que
se vingue do homem que o salvou, protegeu e depois o abandonou á sua
sorte: Edmond Dantés, conhecido como O
Conde Monte Cristo.
Utilizando
a mesma estrutura folhetinesca, da qual era bastante conhecedor, Possolo Hogan
foi muito criativo na produção do final para “O Conde Monte Cristo”, em vez de encarar a história como um mero desenvolvimento
do tema da vingança, constante no romance de Dumas, demarca-se dele, vai mais além e obriga a uma reflexão sobre o
trajecto de Dantés em ambas as obras. Tal como a obra de Dumas, o enredo de “A
Mão do Finado”, também é cheio de peripécias, encontros inesperados e algumas
reviravoltas que a diferenciam da primeira obra, mas que, ao mesmo tempo, as
tornam indissociáveis: as histórias de Dantés e Benedetto são explicadas como
sendo uma “vontade de Deus”, ou seja, tanto na construção desta continuação,
como do próprio “Conde de Monte Cristo”, o motor da acção, não seria um desejo
pessoal, mas “uma força superior” que a todos conduz. Aqueles que ultrapassam
os limites, chegando mesmo a atingir inocentes, serão punidos, assim como
aqueles que se arrependem, também não ficam impunes se tiverem cometido
excessos. É esta a perspectiva ideológica presente no romance, uma espécie de
“mão Divina” que, não existindo, nos
daria a sensação de estarmos perante uma sucessão de episódios inconsistentes.
Possolo
Hogan exagera no final, tal como qualquer folhetim, ele reserva a morte como destino final das
principais personagens do romance e, influenciado pelo romance negro, comum na
época, ele finaliza com um toque macabro com o vingador, Benedetto, também ele
vitimado destino, terminada a sua vingança, volta a França para depositar “A
Mão do Finado”, símbolo da sua missão,
no túmulo do pai, antes de ser preso e condenado á morte pelo
assassinato do carcereiro da prisão de onde se evadiu no passado.
Publicado
em Portugal em 1853, foi um enorme sucesso, sendo reeditado pelo menos três
vezes até 1857. Ao longo dos séculos XIX até ao XXI, o romance acabou por ser
incorporado na obra de Alexandre Dumas, Pai, que tomou conhecimento da sua
existência. Terá escrito uma carta a negar a autoria do romance e pedido ao
editor português para o ajudar a desmentir tal facto, já que nunca fora sua
intenção fazer, embora lho tivessem solicitado inúmeras vezes, uma continuação
do romance. Nada foi feito, já que o sucesso estava garantido. Mas a verdadeira autoria do romance permaneceu
durante muito tempo ignorada e hoje em dia continua a ser atribuída a Alexandre
Dumas, Pai.
Quando
se escreve um romance cujo objectivo principal é concluir um outro, como “A Mão
do Finado” em relação a “O Conde Monte Cristo”,
fica demonstrada a vitalidade de um grande texto, cuja continuidade pode
ser encarada como um dos possíveis desdobramentos desse mesmo texto. Polémicas
á parte, Alfredo Possolo Hogan desdobrou uma história, sob o pretexto de concluir
aquilo que Alexandre Dumas, Pai, deixou em aberto.
Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet
Diz a sabedoria
popular que “A Vingança é um prato que se serve frio”. Deve ter sido isso que
Alexandre Dumas, Pai, pensou quando começou a escrever “O Conde Monte Cristo”,
o seu livro mais conhecido a seguir aos “Três Mosqueteiros”. São mais de 1000
páginas a conceber e executar o mais intrincado e genial plano de vingança da
história da literatura.
Edmond Dantés é
um jovem marselhês que, aos dezanove anos, parece ter uma vida quase perfeita.
Está prestes a tornar-se Capitão de um navio mercante, é noivo da jovem e bela Mercédès e é bem visto
por quase todos aqueles que o conhecem. No entanto esta vida quase perfeita
está prestes a terminar, pois três amigos de Dantès, movidos pela inveja do seu
sucesso quase precoce, preparam um esquema no qual o jovem é apanhado, perde
tudo de um dia para outro e é condenado á prisão no Castelo de If, um local
para onde são enviados os mais perigosos presos políticos. Na prisão, onde
passa catorze anos, Dantés conhece o Abade Faria, outro prisioneiro que ali se
encontra preso por causa das sua opiniões políticas. Faria fala-lhe de um
tesouro imenso que se encontra escondido na ilha de Monte Cristo, ao largo de
Itália e ensina-lhe como o encontrar caso o jovem consiga escapar. Quando o consegue,
Dantés encontra o tesouro, assume a identidade do misterioso Conde Monte Cristo
e regressa a Marselha para preparar a sua vingança contra os seus inimigos.
A acção
passa-se em França, Itália , ilhas do Mediterrãneo e no Levante e,
inteligentemente, Dumas situou-a sob um
pano de fundo histórico que se torna um elemento fundamental ao longo do livro.
Uma história constantemente percorrida pelos temas da esperança, justiça,
vingança, piedade e perdão, mas cujas consequências são devastadoras tanto para
os culpados como para os inocentes.
Dumas escreveu
que a ideia de vingança de “O Conde Monte Cristo” foi inspirada numa história
escrita por Jacques Peuchet, um arquivista da polícia francesa, publicada em
1838 e que lhe chegou ás mãos depois da morte do autor e que foi incluída numa
das edições em 1846. Peuchet conta que um sapateiro, Pierre Picaud que vivia em
Nimes em 1807, estava noivo duma senhora rica quando três amigos invejosos o acusaram
de ser um espião ao serviço de Inglaterra. Colocado numa espécie de prisão
domiciliária em casa dum clérigo, Picaud passou anos a preparar a sua vingança
contra os invejosos. Quando o clérigo morreu, toda a sua fortuna ficou para
Picaud que era como se fosse um filho seu e o sapateiro pode então pôr em
prática a sua vingança.
O autor e
Auguste Macquet, o seu colaborador habitual criaram em “O Conde Monte Cristo”,
á semelhança de “Os Três Mosqueteiros”, uma galeria de personagens
inesquecíveis e as quais dotaram com características fundamentais para o
desenrolar da história: assim temos Edmond Dantès, o rapaz inteligente,
apaixonado e bondoso que, com a sua prisão, se torna amargurado e vingativo e,
quando o Abade Faria morre, ele perde a única ligação com outro ser humano. Sem
qualquer emoção, o seu único objectivo torna-se a vingança pura e simples e só
muito mais tarde, no livro, é que recomeça a viver como um ser humano;
Danglars, o imediato do navio de Dantès, é um homem ganancioso e cruel e só
pensa em si mesmo, sem escrúpulos nenhuns não olhando a meios para alcançar os
fins; Mercédès, é uma mulher boa e amável, acaba por trair o seu amado e casar
com outro homem, permanecendo infeliz pelo resto da sua vida, ela é a
personagem cujo sofrimento é maior e mais completo; Mondego é o rival de Edmond
na afeiçaõ a Mercédès, ajuda a incriminar o amigo e, traindo tudo e todos,
torna-se rico e poderoso; finalmente Caderousse, ambicioso, mas sem força
nenhuma, preguiçoso e desonesto,
representa uma certa insatisfação humana, não importa aquilo que tem,
sente que merce mais, para conseguir o que deseja, rouba e mata. Existem outras
personagens que gravitam em torno destas, acabando, duma maneira ou de outra, por se relacionarem umas com as outras e também com o misterioso Conde Monte Cristo.
Dumas escreveu
a história entre agosto de 1844 e janeiro de 1846 e publicou-a no formato de
folhetim no “Journal des Débats” em
dezoito partes. As versões completas seriam publicadas posteriormente ao longo
do século XIX. Numa época em que a televisão ainda não fora inventada, o
folhetim era aquilo que mais se aproximava do que hoje se chama novela.
Semanalmente, os leitores esperavam cada capítulo novo com ansiedade, muitas
vezes, esse espaço de tempo servia para o autor dar diferentes rumos á
história, alterar personagens e, por vezes, criar sub-enredos, consoante a
vontade e opinião dos leitores. Tudo isto sem nunca perder o fio condutor da
narrativa. O autor, para manter o enredo vivo e activo”, terminava cada
capítulo com uma situação em suspenso preparando os leitores para a sequência
daquela situação. Actualmente, o recurso a uma narrativa em estilo folhetinesco
continua a resultar já que o leito da obra, ao ser confrontado com uma situação
dramática, não resiste á tentação e continua a ler até a situação estar
resolvida.
A história é
tão actual que não admira que as mais de 1000 páginas se leiam quase de um só
fôlego. É quase impensável dizer que a vingança planeada e levada a cabo por
Edmond Dantès está ultrapassada. Muito pelo contrário: a identificação com o
protagonista é grande e, no decorrer do livro, apesar do plano ser uma coisa
absolutamente mirabolante e envolver não só o fim dos seus inimigos como também
a sua destruição moral, social e económica, o leitor quer que ele seja bem
sucedido. Dumas consegue, através das muitas voltas e reviravoltas que o plano
sofre, chegando mesmo a estar na eminência de ser descoberto e Dantès
desmascarado, fazer com que a personagem escape a outro destino que não aquele
que é pretendido. Na óptica do autor, a
personagem segue o esquema narrativo clássico: o herói sofre a adversidade,
mas, utilizando a sua inteligência, consegue, pouco a pouco, impor-se aos
problemas que lhe vão surgindo.
Duas notas
finais: a primeira relaciona.-se com o final desta história de vingança. Nele,
depois do processo, tão longo, tão difícil, que consome tantas vidas e tanto
tempo, constata-se que se calhar ela não valha a pena. Dantès empenha-se tanto
na vingança perfeita contra os seus inimigos, que não compreende que quem se
prejudica é ele próprio ao deixar de viver por causa dos inimigos que quer
destruir a toda a força. É a maneira genial que Alexandre Dumas encontrou para
terminar o romance.
A segunda nota
refere-se ao facto de que, ao contrário do que muita gente pensa, a história do
Conde Monte Cristo não termina neste livro. Ela continua noutro romance
publicado anos mais tarde.
(continua)
Nota: As imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet