segunda-feira, 22 de abril de 2013

O Conde Monte Cristo I - Dumas Genial



   Diz a sabedoria popular que “A Vingança é um prato que se serve frio”. Deve ter sido isso que Alexandre Dumas, Pai, pensou quando começou a escrever “O Conde Monte Cristo”, o seu livro mais conhecido a seguir aos “Três Mosqueteiros”. São mais de 1000 páginas a conceber e executar o mais intrincado e genial plano de vingança da história da literatura.
   
Edmond Dantés é um jovem marselhês que, aos dezanove anos, parece ter uma vida quase perfeita. Está prestes a tornar-se Capitão de um navio mercante, é  noivo da jovem e bela Mercédès e é bem visto por quase todos aqueles que o conhecem. No entanto esta vida quase perfeita está prestes a terminar, pois três amigos de Dantès, movidos pela inveja do seu sucesso quase precoce, preparam um esquema no qual o jovem é apanhado, perde tudo de um dia para outro e é condenado á prisão no Castelo de If, um local para onde são enviados os mais perigosos presos políticos. Na prisão, onde passa catorze anos, Dantés conhece o Abade Faria, outro prisioneiro que ali se encontra preso por causa das sua opiniões políticas. Faria fala-lhe de um tesouro imenso que se encontra escondido na ilha de Monte Cristo, ao largo de Itália e ensina-lhe como o encontrar caso o jovem consiga escapar. Quando o consegue, Dantés encontra o tesouro, assume a identidade do misterioso Conde Monte Cristo e regressa a Marselha para preparar a sua vingança contra os seus inimigos.
   
A acção passa-se em França, Itália , ilhas do Mediterrãneo e no Levante e, inteligentemente, Dumas  situou-a sob um pano de fundo histórico que se torna um elemento fundamental ao longo do livro. Uma história constantemente percorrida pelos temas da esperança, justiça, vingança, piedade e perdão, mas cujas consequências são devastadoras tanto para os culpados como para os inocentes.
   Dumas escreveu que a ideia de vingança de “O Conde Monte Cristo” foi inspirada numa história escrita por Jacques Peuchet, um arquivista da polícia francesa, publicada em 1838 e que lhe chegou ás mãos depois da morte do autor e que foi incluída numa das edições em 1846. Peuchet conta que um sapateiro, Pierre Picaud que vivia em Nimes em 1807, estava noivo duma senhora rica quando três amigos invejosos o acusaram de ser um espião ao serviço de Inglaterra. Colocado numa espécie de prisão domiciliária em casa dum clérigo, Picaud passou anos a preparar a sua vingança contra os invejosos. Quando o clérigo morreu, toda a sua fortuna ficou para Picaud que era como se fosse um filho seu e o sapateiro pode então pôr em prática a sua vingança.
 
O autor e Auguste Macquet, o seu colaborador habitual criaram em “O Conde Monte Cristo”, á semelhança de “Os Três Mosqueteiros”, uma galeria de personagens inesquecíveis e as quais dotaram com características fundamentais para o desenrolar da história: assim temos Edmond Dantès, o rapaz inteligente, apaixonado e bondoso que, com a sua prisão, se torna amargurado e vingativo e, quando o Abade Faria morre, ele perde a única ligação com outro ser humano. Sem qualquer emoção, o seu único objectivo torna-se a vingança pura e simples e só muito mais tarde, no livro, é que recomeça a viver como um ser humano; Danglars, o imediato do navio de Dantès, é um homem ganancioso e cruel e só pensa em si mesmo, sem escrúpulos nenhuns não olhando a meios para alcançar os fins; Mercédès, é uma mulher boa e amável, acaba por trair o seu amado e casar com outro homem, permanecendo infeliz pelo resto da sua vida, ela é a personagem cujo sofrimento é maior e mais completo; Mondego é o rival de Edmond na afeiçaõ a Mercédès, ajuda a incriminar o amigo e, traindo tudo e todos, torna-se rico e poderoso; finalmente Caderousse, ambicioso, mas sem força nenhuma, preguiçoso e desonesto,  representa uma certa insatisfação humana, não importa aquilo que tem, sente que merce mais, para conseguir o que deseja, rouba e mata. Existem outras personagens que gravitam em torno destas, acabando, duma maneira ou de outra, por se relacionarem umas com as outras e também com o   misterioso Conde Monte Cristo.
    Dumas escreveu a história entre agosto de 1844 e janeiro de 1846 e publicou-a no formato de folhetim no  “Journal des Débats” em dezoito partes. As versões completas seriam publicadas posteriormente ao longo do século XIX. Numa época em que a televisão ainda não fora inventada, o folhetim era aquilo que mais se aproximava do que hoje se chama novela. Semanalmente, os leitores esperavam cada capítulo novo com ansiedade, muitas vezes, esse espaço de tempo servia para o autor dar diferentes rumos á história, alterar personagens e, por vezes, criar sub-enredos, consoante a vontade e opinião dos leitores. Tudo isto sem nunca perder o fio condutor da narrativa. O autor, para manter o enredo vivo e activo”, terminava cada capítulo com uma situação em suspenso preparando os leitores para a sequência daquela situação. Actualmente, o recurso a uma narrativa em estilo folhetinesco continua a resultar já que o leito da obra, ao ser confrontado com uma situação dramática, não resiste á tentação e continua a ler até a situação estar resolvida.
   
A história é tão actual que não admira que as mais de 1000 páginas se leiam quase de um só fôlego. É quase impensável dizer que a vingança planeada e levada a cabo por Edmond Dantès está ultrapassada. Muito pelo contrário: a identificação com o protagonista é grande e, no decorrer do livro, apesar do plano ser uma coisa absolutamente mirabolante e envolver não só o fim dos seus inimigos como também a sua destruição moral, social e económica, o leitor quer que ele seja bem sucedido. Dumas consegue, através das muitas voltas e reviravoltas que o plano sofre, chegando mesmo a estar na eminência de ser descoberto e Dantès desmascarado, fazer com que a personagem escape a outro destino que não aquele que é pretendido.  Na óptica do autor, a personagem segue o esquema narrativo clássico: o herói sofre a adversidade, mas, utilizando a sua inteligência, consegue, pouco a pouco, impor-se aos problemas que lhe vão surgindo.
 
Duas notas finais: a primeira relaciona.-se com o final desta história de vingança. Nele, depois do processo, tão longo, tão difícil, que consome tantas vidas e tanto tempo, constata-se que se calhar ela não valha a pena. Dantès empenha-se tanto na vingança perfeita contra os seus inimigos, que não compreende que quem se prejudica é ele próprio ao deixar de viver por causa dos inimigos que quer destruir a toda a força. É a maneira genial que Alexandre Dumas encontrou para terminar o romance.
A segunda nota refere-se ao facto de que, ao contrário do que muita gente pensa, a história do Conde Monte Cristo não termina neste livro. Ela continua noutro romance publicado anos mais tarde.
                                                                                                                          (continua)

 Nota: As imagens que ilustram o texto foram retiradas  da Internet                                                                                                                                        

domingo, 7 de abril de 2013

The Shining – O Terror Kubrickiano





   
O género terror, desde cedo no cinema, sempre  teve grande aceitação entre o público. Lembremos por exemplo "Psycho" (Alfred Hitchcock, 1960), "Os Pássaros" (Alfred Hitchcock,1963) "O Exorcista"(William Friedkin,1973) ou "Saw" (James Wan,2004), só para citar alguns que foram grandes sucessos quer de bilheteira, quer em circuito DVD.  “ The Shining” de Stanley Kubrick foi um daqueles casos em que um filme estreia  e passa quase despercebido e que ao longo dos anos vai ganhando um estatuto próprio ao ponto de se tornar um filme de culto e uma referência no género.
   Jack Torrance, desempregado e com alguns problemas no passado, é convidado para ir tomar conta de um hotel durante o inverno. Mesmo conhecendo o historial de violência daquele hotel no passado, Jack aceita e leva consigo a mulher e o filho, este tem poderes paranormais e tem visões relacionadas com o hotel, com o passado e com o futuro.
   
Em 1975 Kubrick tinha feito “Barry Lyndon” , o seu belíssimo épico,  mas que,  apesar do seu avanço tecnológico para a época, tinha sido um fracasso nas bilheteiras americanas e obtido apenas um relativo sucesso na europa. O realizador, desapontado com este fracasso, apercebeu-se que necessitava de fazer um filme que fosse comercial e artisticamente viável. Foi-lhe oferecida a realização da sequela de “O Exorcista”, que tinha sido um grande sucesso de bilheteira e a Warmer queria que o seu maior artista se encarregasse daquele projecto. Mas foi  o terceiro livro escrito por Stephen King, que lhe veio parar ás mãos quando John Calley , director da Warner, lhe enviou as provas do livro, Kubrick  viu o seu interesse despertar pelo cenário da obra: um hotel remoto nas Montanhas Rochosas, com o seu labirinto de corredores . A intensidade da ideia: uma família, separada do mundo,  a enlouquecer aos poucos, foi definitiva “Stanley quis liberdade total para alterar a história e Stephen King  concordou”, disse Christiane Kubrick, esposa do realizador.
   
 “The Shining” teve uma prolongada e árdua produção, a  fotografia principal demorou cerca de um ano a completar, grande parte dele devido ao perfeccionismo natural de Kubrik. A actriz Shelley Duvall nunca se deu bem com o realizador que frequentemente  alterava a maior  parte das suas falas e criticava o seu método de interpretação tentando adequá-lo aquilo que pretendia, ao ponto de a deixar doente durante meses. O argumento foi outro aspecto moroso desta produção. Era alterado constantemente,  por vezes várias vezes ao dia e os actores só tomavam conhecimento dele minutos antes do início da rodagem do dia.
   
Jack Nicholson tem aqui um dos seus grandes papéis. Foi a primeira escolha do realizador para o papel; outros nomes houve que também foram considerados para o papel, tal como Robert De Niro, Robin Williams ou até Harrison Ford, mas foram todos reprovados por Stephen King. Aliás, é difícil ver outro actor que não ele, a interpretar esta personagem.  
Na continuação da sua interpretação em "Voando sobre um Ninho de Cucos" (Milos Forman, 1975), pela qual venceu o seu primeiro Oscar de Melhor Actor, e fazendo uma espécie de prólogo para o delírio interpretativo que seria Joker em "Batman" (Tim Burton, 1989), Nicholson provou ser a escolha certa para o papel. Oscilando entre a loucura e a demência total (a sua frase “Here’s Johnny!”, enquanto destrói uma porta á machadada, ainda hoje consegue arrepiar muita gente!) , a sua interpretação de Jack Torrance é magnifíca.

Apesar de ser terror tradicional , “ The Shining” é modernizado pelo magnetismo do seu protagonista e pelo trabalho  inevitavelmente perfeccionista do realizador: veja-se por exemplo a cena, repetida várias vezes ao longo do filme, em que Danny percorre de triciclo os corredores, aparentemente intermináveis, do hotel, sempre seguido por uma  “Steadycam” obsessiva ; ou a cena em que Jack olha a maquete,  nela, Kubrick utiliza um vertiginoso plano onde vemos as diminutas figuras de Wendy e Danny a passear no enorme jardim labiríntico; ou ainda toda a cena final de perseguição: são exemplos brilhantes do trabalho de camera muitas vezes feito pelo próprio realizador. O filme resulta numa experiência única de suspense e terror  e, tratando-se de  um filme de Stanley Kubrick, ambíguo como o são os seus filmes e o melhor exemplo dessa ambiguidade é a cena final em que a camera percorre  lentamente uma sala em direcção a uma parede e fixa-se num retrato nela pendurado, deixando o  espectador com uma grande interrogação na cabeça.  
   Stephen King, apesar de dizer que a adaptação de Kubrick é cheia de imagens memoráveis,  nunca ficou completamente satisfeito com a versão do realizador por entender que Kubrick retirou muito do impacto literário da obra ao suprimir capítulos e partes importantes que continham temas importantes como a desintegração familiar ou os perigos do alcoolismo.  Daí que o escritor  tenha adaptado o seu próprio livro para televisão anos mais tarde ("Stephen King's the Shining", Mick Garris, 1997),  fazendo uma versão muito mais fiel ao romance, com muito menos terror, suspense e impacto visual  que a versão de Kubrik. A verdade é que foi o filme de Stanley Kubrick que chamou a atenção para a força emergente em matéria filmíca que são os livros deste autor e continua a ser uma obra-prima do género.
   Uma semana após estrear, Kubrick retirou o filme de circulação para lhe  retirar uma cena no final do filme na qual Wendy, hospitalizada, fala com Mr.Ullman, o director do hotel, e este lhe diz que o corpo de Jack nunca foi encontrado. A remoção da cena foi feita por ordem da Warner Bros. , a distribuidora do filme, sem qualquer explicação e nunca  mais foi incorporada em nenhuma versão do filme que ficou então reduzido a 144 minuto,  dos  146 iniciais. Até mesmo a versão americana do filme , autorizada pela família do realizador após a morte deste, ocorrida  em 1999,  mantém os 144 minutos como duração  total.
   Para a sua distribuição europeia e no resto do mundo,  um filme de terror com quase três horas de duração era muito longo, a Warner impôs a  redução  de cerca de 25 minutos do filme. Kubrick remontou o filme, retirando-lhe as cenas que eram referentes ao  mundo fora do universo da ideia do realizador  (são pouquíssimass as cenas do filme que se passam fora do hotel) e as cenas referentes a Tony, o amigo imaginário de Danny.
   
“The Shining” acaba por ser um enorme puzzle visual que  nos deixa mais interrogações obscuras e poucas respostas claras. Tal como em obras anteriores, foi sempre assim a genialidade de Stanley Kubrick. 


Nota: As Imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet





segunda-feira, 25 de março de 2013

A Quadrilha Selvagem – O Crepúsculo do Velho Oeste




   O Western foi, tal como o Musical, o género mais emblemático da história do cinema e tanto um como o outro são incontornáveis na sua história, ambos dignificaram e elevaram a sétima arte a patamares nunca antes alcançados e também foi destes géneros que nasceram algumas grandes obras-primas do cinema. "A Quadrilha Selvagem" é um desses exemplos.
   Em 1913 um bando de foras-da-lei apercebe-se que os seus tempos do velho oeste estão com os dias contados e que é chegada a altura de arrumar as botas. Decidem então fazer um último e arriscado assalto e sair em estilo...mas as coisas não vão correr tão bem como eles pensavam e se calhar a reforma não está nos seus horizontes.
William Holden
   Antes de escolher William Holden para interpretar Pike, Peckinpah teve em mente outros actores que considerava mais próximos do género: Lee Marvin, James Stewart, Burt Lancaster, James Coburn, Richard Boone, Gregory Peck ou Robert Mitchum. De todos, o único que ainda chegou a aceitar for Lee Marvin, mas acabou por se decidir por outro papel, e também mais bem remunerado, em “Paint your Wagon – Os Maridos de Elizabeth” (Joshua Logan, 1969). Richard Harris, que já havia trabalhado com o realizador em “Major Dundee”, foi considerado para o papel de Deke Thornton, mas  Peckinpah acabou por escolher o veterano actor Robert Ryan depois de o ver no filme “The Dirty Dozen – Os Doze Indomáveis Patifes” (Robert Aldrich, 1967). Ernest Borgnine, Edmond O'Brien, Warren Oates e Ben Johnson, completam o elenco.
Robert Ryan
   Em finais de 1967, depois de ter sido despedido da realização de “Cincinnati Kid – O Aventureiro de Cincinnati” em 1965 e de, no mesmo ano, ter tido problemas com o produtor de “Major Dundee – Major Dundee”, Peckinpah encontrava-se novamente a trabalhar em televisão, onde, de resto, tinha começado a sua vida profissional. O produtor Phil Feldman, da Warner Bros., tinha comprado os direitos de adaptação dum argumento, ao seu escritor Walon Green, intitulado “The Wild Bunch”. Como esta história tinha algumas semelhanças com outra escrita por William Goldman intitulada “Butch Cassidy and the Sundance Kid”, que tinha sido adquirada pela 20th Century Fox, foi decidido que “The Wild Bunch” seria produzido para tentar bater nos cinemas o filme da 20th. Feldman, que conhecia o trabalho de Sam Peckinpah, mostrou interesse em tê-lo atrás das camaras para realizar aquilo que ele chamou “o seu filme épico” e que fosse capaz de superar a violência latente em “Bonnie and Clyde” de Arthur Pen, que tinha estreado nos cinemas em meados do ano. Não podia ter feito melhor escolha.
Sam Peckinpah, o homem que gostava da violência
  O realizador Sam Peckinpah, autor de obras como o já citado "Major Dundee" (1965), "Cães de Palha" (1971), "Tiro de Escape" (1972) "Cross of Iron" (1977) ou "Convoy - Comboio dos Duros" (1978) para citar apenas as mais conhecidas, tinha duas imagens marcantes na sua obra: uma predilecção pelos perdedores ou o simples zé-ninguém. Daí que alguns dos filmes atrás referidos tenham como personagens principais bandidos, ladrões ou mesmo o simples vencido da vida que apenas anda por aí ao sabor do vento; a outra característica de Peckinpah era a violência estilizada, sendo esta, mesmo a imagem de marca do realizador. 
Deke Thornton, a expressão duma inveja sentida
  Em dois dos seus filmes mais conhecidos, o realizador filma a violência em modos distintos; Neste "Quadrilha Selvagem", a violência é poética e a cena do confronto final entre a quadrilha e o bando do general Mapache é carregada de simbolismo onde a morte é o supremo acto de libertação dum estilo de vida que, para a quadrilha, estava acabado; atente-se aos momentos finais do filme onde Deke Thornton caminha por entre os cadáveres dos combatentes e detem-se junto dos dos seus ex-companheiros: a sua expressão diz tudo: a inveja que sente por não ter tido o mesmo destino deles e libertar-se assim da vida que escolheu. Já em "Cães de Palha", outra das suas obras polémicas, no último terço do filme um simples professor de matemática (Dustin Hoffman) tem de defender a sua casa, a sua honra e de sua mulher contra os ataques dos habitantes duma vila na Inglaterra rural.
  A violência, sempre presente, que Peckinpah disse ser uma alegoria á participação dos americanos na  guerra do Vietname, exibida todas as noites nas televisões americanas no horário nobre, é extrema e nada tem de poético, pelo contrário, é o único meio disponível para defender a honra, outro valor muitas vezes presente na obra de Peckinpah.Para se defender dos que o criticaram pela violência das imagens, o realizador tentou mostrá-la como um lugar-comum no período histórico dos tempos da fronteira. 
   Já o tema da traição é secundário mas de capital importância, tal como os valores da honra. As personagens sofrem com o facto de terem, em dado momento, atraiçoado alguém e deixá-lo por sua conta, entregue ao seu destino, violando assim o seu próprio código de honra quando se lhes convinha. Tais ideais, complexos e opostos, levam á violenta conclusão do filme quando os restantes membros da quadrilha consideram intolerável o abandono a que vetaram Angel e decidem ir resgatá-lo. Pike vive atormentado com as traições que foi obrigado a fazer: na cena, em flashback, quando abandonou Deke, numa altura em que os homens da lei os perseguiam; e quando abandona Clarence “Crazy” Lee (Bo Hopkins), na cena do início, quando assaltam o banco, supostamente para ele ficar a guardar os reféns. 
   Polémico e sempre em conflito, Peckinpah veria a maior parte dos seus filmes serem censurados e cortados pelas distribuidoras sob pena de não serem distribuídos no circuito comercial. "Major Dundee" foi dos primeiros filmes de Peckinpah a ser amputado de um considerável número de cenas, tornando o filme confuso e incompleto. Felizmente foram recuperadas em 2005 e re-inseridas no filme. Outro exemplo desta tendência em relação à obra do realizador é "Duelo na Poeira" (1973) onde o simples acrescento das cenas amputadas antes da estreia, o tornam numa obra completamente diferente e a descobrir.
  Com a "Quadrilha Selvagem" passou-se o mesmo, mas ainda hoje a discussão permanece: com uma duração inicial de 225 minutos (um dos grandes problemas era a cena do tiroteio inicial que durava, na primeira versão, cerca de 21 minutos), achou-se que era enorme, o filme seria remontado pelo estúdio para uma duração de 190 minutos (aqui, graças a uma montagem eficaz, cortando imagens especificas, apondo outras, a cena inicial ficou reduzida a cinco minutos), mas continuava longo demais, então, Peckinpah resolveu ele mesmo montar o filme para 134 minutos, versão que foi estreada e exibida durante anos e tida como a versão real do filme, inclusive pelo próprio realizador. Só em 1995, a familia autorizou o lançamento daquela que ainda hoje é a versão em circulação. Incorporando cerca de 11 minutos de cenas, encontradas num arquivo particular, importantes para a história. Chamou-se a versão original do realizador e contém algumas das mais violentas sequências de acção da história do cinema.

  Aquilo que Sergei Eisentein inventou, que lhe granjeou o título de "Pai da Montagem" e está patente em "Couraçado Potemkin" (1925), "Alexander Nevski"(1938) ou "Ivan - O Terrível" (1944), para citar os melhores e mais conhecidos exemplos da arte de montagem, foi um dos grandes trunfos do realizador americano em toda a sua obra.
 Em "A Quadrilha Selvagem", Peckinpah mostrou como é que se conta uma história mostrando, desde a cena inicial com as crianças a incendiarem escorpiões vivos antes do assalto ao banco, passando pelo assalto ao comboio até chegar à já citada cena final do tiroteio entre a quadrilha e os homens do general, violência poética, visualmente estimulante graças á fotografia de Lucien Ballard, colaborador habitual do realizador, à utilização de montagem multi-ângulo e paralela, o corte abrupto de cenas entre o "slow motion" e a velocidade normal, por vezes cruzando as duas, uma técnica de cinema que, em 1969, foi revolucionária (apesar de já ser utilizada desde meados da década de 60), Peckinpah filmou aquele que seria o último grande clássico do oeste... onde se percebe que a morte dos membros da quadrilha significava não só morte do velho oeste como nos fora dado a conhecer durante décadas, mas também a morte e o fim de um género cinematográfico de que "Imperdoável" (Clint Eastwood, 1992), seria o mais significativo e dignificante epílogo que alguma vez se poderia escrever.
   Verdadeiramente um clássico, de um género, obra-prima de um realizador e um filme que  continua a ser absolutamente incontornável na história do cinema.
   Em 1999 “A Quadrilha Selvagem” foi seleccionado para ser preservado na Biblioteca do Congresso por ser um filme cultural, histórica e esteticamente significativo. O “American Film Institute” classificou-o como o 80º  melhor filme de sempre no seu top 100 e o 69º mais emocionante.
   Em 2008, o mesmo  organismo, revelou o seu “10 top 10”, os dez melhores em dez géneros: “A Quadrilha Selvagem” foi considerado o sexto melhor Western de todos os tempos.

Nota: As Imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet

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