O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Em
1963 Martin Luther King Jr., num discurso para mais de 200.000 pessoas, nos
degraus do Lincoln Memorial, em Washington, apelava para direitos iguais e para
o fim da descriminação racial, disse a dado momento “Eu tenho um Sonho”…não
chegou a ver esse sonho realizado, pois foi assassinado em 1968. Quase 30 anos
depois, um outro homem, noutro continente, fez o mesmo apelo e conseguiu
realizar o sonho.
África
do Sul, 1990, depois de mais de 26 anos de prisão, o activista negro Nelson
Mandela é libertado. Quatro anos depois, em 1994, por entre muita polémica, com
o país dividido pelo espectro do apartheid e quase à beira da guerra civil,
Mandela é eleito presidente da república, tornando-se o primeiro presidente
negro eleito na Àfrica do Sul e tem que
resolver a profunda divisão que abala o país antes deste ser anfitrião do
campeonato do mundo de râguebi. Ele tem então uma ideia que quer pôr em
práctica custe o custar: promover a cooperação na áfrica do sul através do desporto.
Em
“Invictus” existem dois momentos que são os mais marcantes do filme: o
primeiro, acontece logo no inicio, após a libertação de Nelson Mandela, este é
aplaudido pela população negra em geral, quando a caravana passa numa estrada
que divide dois campos onde num jogam futebol jovens negros que aplaudem a
passagem dos veículos enquanto gritam por Mandela; no outro campo, uma equipa
de brancos treina râguebi e mostram o seu descontentamento pelo acontecimento
que ocorrera nas palavras do treinador da equipa. O segundo momento acontece na
cena em que numa sala estão os seguranças
negros do recém-eleito presidente e a
eles junta-se uma equipa de guarda-costas brancos que, no
espiríto da nova politica, têm ordens para trabalhar com o novo presidente. Mas
a cooperação é difícil, a desconfiança é
enorme e ambas as equipas estão de
costas viradas uma para a outra a lerem o calendário das actividades do
presidente. É sobre estas duas cenas, ambas representando o que era a Àfrica do
Sul , que “Invictus” se ergue e caminha solenemente. Existe também uma outra
cena que suporta plenamente a ideia que Mandela teve: É a cena em que a equipa dos “Springboks” visita o
Soweto e na altura em que encerra a actividade desportiva com as crianças,
deixa uma faixa onde se pode ler: “One Team, One Country” e Mandela, ao vê-la
na televisão diz “Vejam isso! Essa imagem vale mais que qualquer discurso”.
Assim, ao acreditar que poderia unir o seu povo através do desporto, ele decide
apoiar a equipa nacional de râguebi, ao mesmo tempo que nela procura o apoio
necessário para levar a sua ideia até ao fim.
O
filme é baseado no livro “Playing the
Enemy: Mandela and the Game that Made a Nation”, escrito por John Carlin, publicado em 2008. Pouco tempo
depois da publicação da obra, Clint Eastwood, com os seus produtores e Morgan Freeman,
reuniram-se com o jornalista para
discutirem a melhor maneira de a transformarem num argumento para adaptar ao
grande écran. Anthony Peckham escreveu o
argumento e como o elenco já havia sido escolhido, as filmagens tiveram início
em março de 2009 em Cape Town e durariam até maio e foi, nas palavras de
Laurence Mitchell, o presidente da Cape
Film, a produtora associada ao filme “a maior produção que alguma vez se fez na
África do Sul, em termos de estatura e de estrelas”.
Realizado
pelo veterano Clint Eastwood, autor de “As Bandeiras dos nossos Pais” e “Cartas
de Iwo Jiwa” (2006), diptíco sobre a sangrenta batalha de Iwo Jiwa; “Gran
Torino” (2009) obra-prima sobre o comportamento do ser humano, “A Troca” (2009)
baseado numa história verídica do desaparecimento duma criança, ocorrida em Los
Angeles na década de 20 do século passado, cuja investigação leva a uma
descoberta macabra; “Mystic River” (2003) sobre amizade num bairro dos
subúrbios de Bóston, ou “Imperdoável” (1992), obra-prima contemporânea em forma
de epilogo do western, género incontornável do cinema.
O
realizador filma com sobriedade e não usa subterfúgios (apesar da cena do
Boeing 747 que sobrevoa o estádio, indiciando outra coisa…). Não força a acção
e até as cenas de râguebi estão bem filmadas e doseadas ao longo do filme.
Percebe-se que há uma cumplicidade entre o desporto e a câmara, como se esta
fosse um jogador captando as atitudes do colectivo e de cada elemento de ambas
as equipas e, por acréscimo, também do público. É como aquilo que eu disse em
outro comentário: Eastwood não sabe fazer filmes maus, e “Invictus” é mais um
exemplo dessa realidade, realidade essa feita da admiração por um sonho que um
homem um dia teve e, contra ventos e marés, tornou o seu sonho realidade.
Admiração que também está presente no próprio
cartaz publicitário do filme. Nele,
Francois Pienaar está á frente da
imagem de Mandela que aparece de costas, mas proporcionalmente maior que o
jogador. O ambiente do cartaz mostra um grande líder político, protagonista
duma grande missão que conta com a colaboração e intervenção de um grande
líder desportivo para levar essa missão a bom porto. Em termos de
concepção, é dos cartazes com maior força simbólica que alguma vez me lembro de
ver.
Brilhantemente
interpretado por Morgan Freeman sobre quem recai a responsabilidade toda do
filme e, uma vez mais, o actor mostra estar á altura do desafio. Ligado ao
projecto (como produtor e actor), desde
que Clint Eastwood havia anunciado o seu interesse em fazer um filme sobre o
activista, Freeman foi sempre a primeira
escolha do realizador e fica provada uma vez mais a clarividência de Eastwood
nas escolhas que faz. Morgan Freeman ficará para sempre ligado a este papel que
é, sem dúvida nenhuma, o papel da sua vida (mesmo não tendo ganho o Óscar de
melhor Actor para o qual foi nomeado). Ele é tão convincente na sua
interpretação (para a qual levou mais de um ano a preparar-se e que incluíram
várias reuniões com o próprio Mandela, que, diz-se, ter adorado a
interpretação) que se fecharmos os olhos, ouvirmos um discurso de Mandela e
depois ouvirmos Freeman a dizer o mesmo discurso, não conseguimos distinguir um
do outro!
Matt
Damon faz o papel de François Pienaar, capitão da selecção de râguebi da Àfrica
do Sul e sobre quem recai a responsabilidade de vencer o campeonato do mundo e
ajudar ao esforço de união do país. Damon interpreta o seu papel com grande
carisma, onde nem sequer lhe falta o sotaque e se nota bem o corpo musculado
que precisava ter para fazer o seu papel (diz-se também que foi o próprio
Pienaar que o ajudou a preparar-se para a interpretação) e vence mais esta
aposta.
O
filme foi recebido positivamente, quer pela critica quer pelo público em geral.
No primeiro fim-de-semana subiu a número três
onde rendeu cerca de 8 milhões de dólares e acabou por render um total
de 37 milões, só nos estados unido, enquanto que no mundo inteiro as suas
receitas foram de 122 milhões de dólares, principalmente na África do Sul.
Mesmo
não sendo uma obra-prima, nem sequer o melhor filme de Clint Eastwood,
“Invictus”, o filme venceu vários prémios e foi nomeado para outros tantos. Será
sempre visto como um esforço para tentar contar a história de um período
conturbado de um país que esteve demasiado tempo dividido e da pessoa que
ajudou a acabar com essa divisão e, visto deste prisma, o filme é nitidamente
uma aposta ganha.
Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet
A segunda parte do diptíco dedicado à batalha de
Iwo Jima, uma das mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial do século passado.
A primeira parte focava o ponto de vista americano. “Cartas de Iwo Jima” foca o
ponto de vista japonês, quase totalmente
falado em japonês (Ken Watanabe era o único actor que falava inglês e servia de
ligação entre a equipa de produção e o elenco, todo ele desconhecido), mas
fazendo uma abordagem muito mais pessoal e intíma. Tudo filmado sob a mestria e
o olhar atento de Clint Eastwood. Embora usando a mesma técnica empregue em "As Bandeiras", Eastwood
evita a repetição. Troca o ponto de vista da batalha ( o momento grande da obra
anterior, o içar da bandeira no monte Suribachi, é visto á distância dum abrigo
japonês) e utiliza as cartas e os pensamentos que os Oficiais e Soldados Japoneses
escreveram para os seus familiares enquanto aguardavam a invasão.
O filme abre com uma sequência, no presente, em Iwo
Jima. Numa gruta são encontradas centenas de cartas que não chegaram a ser
enviadas. São elas o ponto de partida para este filme, já considerado uma
obra-prima do cinema e, muito particularmente do seu realizador. Nessa cartas,
algumas são do General Kuribayashi e nelas o militar revela as suas
preocupações, ansiedades e alguns acontecimentos ocorridos durante o tempo em
que comandou as tropas na ilha
Iris Yamashita, Clint Eastwood e Ken Watanabe
As personagens estão construídas de forma humana
(ao contrário das personagens de “As Bandeiras” onde nos era mostrado alguma
desumanidade), é esse o lado do conflito que Clint Eastwood pretende mostrar.
Mais do que homens, tornados soldados pela força das circunstâncias, de
capacete e arma em punho cuja missão principal é eliminar outros homens. São
jovens, cada um com o seu desejo, o seu trauma, enfim, histórias que fazem com
que este filme fuja do convencional filme de guerra. Em certas alturas, o
espectador é envolvido pela força da história e deixa-se conduzir pelas
personagens, principalmente pela hierarquização entre o general e o soldado,
dois extremos que a guerra une em conceitos tão universais como o medo, a honra
ou o amor pela familía.
Inicialmente, o filme era para se chamar “Red Sun,
Black Sand”, mas só muito dentro das filmagens é que o título foi mudado para
“Letters from Iwo Jima” por ser, em grande parte, baseado no livro “Gyokusai
sõshikikan no etegami – Picture letters from the Commander in Chief, escrito
pelo General Tadamichi Kuribayashi, o comandante das forças japonesas na ilha
(interpretado com grande intensidade por Ken Watanabe), compiladas e publicadas
pelo editor Tsuyuko Yoshid. Baseado
nele, a argumentista Iris Yamashita escreveu a história, posteriormente
desenvolvida pela própria com a ajuda de
Paul Haggis no argumento deste
extraordinário filme.
Utilizando alguns colaboradores habituais de Steven Spielberg (que produziu os
dois filmes), Clint Eastwood consegue um relato verdadeiramente dramático de
uma batalha que, à partida, já estava perdida, consegue-o através da fotografia
esplendorosa de Tom Stern, filmado, á semelhança de “As Bandeiras dos Nossos
Pais”, num quase preto-e-branco intenso, dando um realismo atroz ás sequências
de batalha. Esta técnica fotográfica faz com que o interior das grutas e dos
túneis pareçam irreais, os rostos ansiosos parecem conter algum brilho na
sombra, iluminando o seu próprio sofrimento. Quando sujeita á luz do dia, a
fotografia de Stern, torna-se mais realista e solene.
Com este
filme, o realizador evita a habitual repetição nos filmes, invertendo os
factores. Poucos são os filmes que tomam o ponto de vista dos vilões
transformando-os em heróis, como aconteceu com “Cross of Iron – A Grande
batalha”, realizado por Sam Peckinpah em 1977, cuja acção se passa em 1943, na frente russa e onde os nazis são os heróis
e os russos os vilões feios, porcos e maus.
É costume descrever-se como épico um filme que gira
em volta de grandes batalhas, acontecimentos históricos e grande quantidade de
mortos. Mas Eastwood não entra por este caminho. Apesar de alguns cenários
mostrarem armamento em larga escala, o ambiente geral de “Cartas de Iwo Jima”,
é altamente intímo, apesar de percorrido por uma enfática força emocional, o
realizador consegue mostrar uma particular atenção a gestos e discursos que se
podem considerar delicados. Clint Eastwood não é um desconhecido para a linguagem da violência, mas é um mestre no
que toca a dramatizar as consequências éticas e morais da própria violência.
Não existe nada gratuito neste filme, tudo tem o seu preço, nem nada
vistoso ou falso. Existem humor e crueldade próprias de homens em
perigo; existe a frieza lógica do planeamento militar e a irracionalidade do
comportamento em combate; existe vida e morte.
Ambos os filmes “viajam” para a frente e para trás
no tempo e no espaço entre Iwo Jima e os locais onde habitam os combatentes. Em
“As Bandeiras dos Nossos Pais” a batalha acontece maioritariamente através de
“flashbacks”, já que o filme é, em larga
medida, acerca da culpa e confusão que
os sobreviventes encontram aquando do seu regresso a casa. Em “Cartas de Iwo Jima”, a batalha acontece no presente, e é a casa
que surge ocasionalmente na memória dos homens que têm quase a certeza de que
não a voltam a ver.
A recepção de critica e público foi extremamente
positiva. Aclamado, pelo retrato do bem e do mal em ambos os lados da batalha,
“Cartas” foi rapidamente considerado uma obra-prima do cinema de guerra.
Premiado em diversos festivais mundo fora, vencedor do Globo de Ouro para
Melhor Filme em Língua Estrangeira e recipiente de quatro nomeações para os
Oscares da Academia, incluindo duas para Melhor Filme do Ano e Melhor
Realizador.
No Japão, o filme obteve um sucesso ainda maior do
que nos Estados Unidos quer por parte de críticos, quer pelo próprio público,
sempre muito reservado em relação aos filmes que abordam temas tão delicados
como este.
Em 2010, o American Film Institute considerou “Cartas
de Iwo Jima” um dos 10 melhores filmes de guerra de todos os tempos.
Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet
Em 1962, “The Longest Day – O Dia mais Longo”, uma
superprodução de guerra sobre o dia D – o desembarque aliado na Normandia e que
foi o ponto de viragem da II Guerra Mundial na Europa. Filmado a
preto-e-branco, permitiu na altura, juntar imagens documentais ás cenas
filmadas com actores reais e tornar o filme uma referencia no panorama da
superprodução. A grande novidade deste filme foi o facto de ser filmado por
três realizadores por forma a apresentar três perspectivas diferentes da
operação: Ken Annakin filmou os segmentos britãnicos; Andrew Marton
encarregou-se dos episódios com as forças americanas; e Bernhard Wicki tratou
dos segmentos alemães. No conjunto, os três pontos de vista formaram uma visão
conjunta, antes, durante e depois do desembarque e tornaram este filme,
vencedor de dois Oscares da Academia, um clássico incontornável do cinema.
Alguns anos depois, em 1970, “Tora, Tora, Tora” apresentava uma reconstituição
do ataque japonês a Pearl Harbor. Richard Fleischer e Kenji Fukasaku foram os
realizadores encarregados de mostrar os pontos de vista de ambos lados. O
filme, vencedor de um Oscar da Academia, não foi o sucesso esperado mas
tornou-se, com o passar dos anos, um filme cada vez mais e mais revisitado por
cineastas e outros interessados. O formato não convenceu e foi preciso esperar
pelo sucesso mundial de “Saving Private Ryan – O Resgate do Soldado Ryan”
(Steven Spielberg, 1998) para regressar ao formato da dupla perspectiva de determinado
acontecimento. Em 2006, o veterano realizador Clint Eastwood, pegou no formato
e fez dois filmes inesquecíveis.
Parece difícil pensar que haja alguma coisa sobre a
IIªGuerra Mundial que ainda não tenha sido objecto de análise, reconstituição
ou mesmo adaptação para o grande ou pequeno écran. No entanto foi isso mesmo
que Clint Eastwood quis fazer quando leu “Flags of Our Fathers – As Bandeiras
dos Nossos Pais”, o livro de James Bradley e Ron Powers onde se descreve como as
vidas dos três sobreviventes que estiveram envolvidos no Içar da Bandeira
Americana em Iwo Jiwa, em fevereiro de 1945, imortalizados pela fotografia que
Joe Rosenthal da Associated Press lhes tirou, se alteraram após aquele momento
e do aproveitamento que o governo faz, ao transformá-los em celebridades
apresentadas em paradas e outras celebrações, apresentando-os como porta-voz no
esforço de guerra.
O argumento, escrito por William Boyles, jr. e Paul
Haggis, adapta muito do material escrito, oscila entre três períodos temporais:
Iwo Jiwa, a tournée em prol do esforço de guerra e no presente. É nos destinos
de cada um dos heróis que o filme evolui do mediano filme de guerra para um
trabalho interpretativo de grande qualidade, principalmente no que toca a Ira
(uma excelente interpretação de Adam Beach), um índio Pima, que, destroçado pela
batalha em Iwo Jiwa, passa a herói dum momento para outro, não aguenta a
pressão e tenta esquecer bebendo até cair num verdadeiro oblívio.
O Realizador Clint Eastwood
A abordagem
de Eastwood é muito cinematográfica. Ele desconstrói a batalha de modo a
torna-la uma visão muito mais negra do que a história regista. Aproveita para esse
efeito a natureza vulcânica da própria ilha (apesar das sequências de batalha
terem sido filmadas na Islândia, porque o governo japonês não autorizou
filmagens na ilha por a considerarem solo sagrado), o realizador e Tom Stern,
director de fotografia, usando filtros especiais, tiram alguma da cor dando a
sensação de que as cenas na ilhas são filmadas a preto-e-branco e quase parece
impossível que haja alguma coisa viva naquela local de tão assustadoras e
surreais que são as imagens. Eastwood
coreografa as cenas de batalha de um modo tão caótico, a fazer lembrar o início
de “O Resgate do Soldado Ryan”, focando a atenção (sua e dos espectadores) nos
movimentos das tropas em vez de ser na realização, “colando” a câmera aos
soldados e depois quando acontecem
barragens de fogo, a correr ao lado deles como se procurasse abrigo.
A maior parte dos filmes de guerra, mesmo aqueles
que se dizem anti-guerra, aberta ou implicitamente abraçam a violência e
veem-na, politica ou cinematograficamente, como um meio para atingir um fim.
Poucos são os realizadores que conseguem resistir á visão de um míssil a
explodir e ao espectáculo da morte; a violência é simplesmente demasiado
excitante para se evitar. E Eastwood não se esquiva a esta realidade, bem pelo
contrário, como fica bem demonstrado em “ As Bandeiras dos Nossos Pais”. Somos
conduzidos ao coração da violência e ao coração dos homens, vemos até onde é
possível ir, com a mesma facilidade com que vemos grutas onde soldados são torturados até á morte ou sucumbem á loucura
ou assistimos ao fogo-de-artíficio num qualquer dia festivo. O filme
apresenta-nos esta visão cruelmente e Clint Eastwood defende-se dizendo “Que
era importante para o público perceber aquilo porque estes três homens
passaram, aquilo a que se dedicaram e o que herdaram e o que é ter aquela
sensação de falsa celebridade…” e tinha toda a razão do mundo!
Recebido com entusiasmo pela crtíca e público, o
filme não foi, no entanto, o sucesso esperado. Clint Eastwood foi nomeado para um Globo de Ouro
como Melhor Realizador e o filme recebeu duas nomeações para os Oscares da
Academia. Em alguns sectores da sociedade, o filme foi considerado uma obra
séria e patriota já que honra todos aqueles que combateram no pacífico e, ao
questionar a versão oficial da verdade, lembra-nos que super-heróis existem
apenas nos livros de Banda Desenhada e nos filmes de animação. Com “Letters
from Iwo Jiwa – Cartas de Iwo Jiwa”, o caso foi diferente.
(continua)
Nota: As imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet
Foi a partir de meados
da década de 90 do século passado que começaram as tentativas para revitalizar ou continuar a
história de “Battlestar Galactica”. Tom
DeSanto, Bryan Singer ou até mesmo Richard Hatch, o Capitão Apollo da primeia
temporada da série, estiveram envolvidos em projectos para recuperar a série. Hatch fez mesmo várias tentativas para a
revitalizar, incluindo co-escrever algumas histórias novas e uma série em
Banda Desenhada e ainda foi mais longe ao produzir um “concept video”, em 1998,
com alguns actores da série original e efeitos especiais de primeira, entitulado
“Battlestar Galactica: The Second Coming”, baseado na continuação da série
original, cuja acção se passava anos depois do ultimo episódio da primeira
temporada, mas não convenceu e ficou por isso mesmo. Também em 1999, o produtor Todd Moyer e Glen
A. Larson, anunciaram planos para um filme, baseado na série original, cuja
personagem principal seria a “Estrela-de-Batalha “Pegasus”.
A versão de Tom
DeSanto e Bryan Singer era também uma continuação, cuja acção se passava cerca
de 25 anos depois da série original. Contando com elementos da série original, retomando
os seus papéis, assim como com a
introdução de novas personagens, chegou á fase de pré-produção antes de ser
atrasada e, depois dos eventos do 11 de setembro de 2001, ser abandonada. Ambas
as versões ignoravam os acontecimentos ocorridos em “Galactica 1980”.
Em 2002, a Universal
Pictures (detentora dos direitos legais
da série, cedidos por Glen A.Larson), optou por um “remake” em vez duma sequela.
Para isso contratou Ronald D.Moore,
argumentista e produtor que trabalhara extensivamente nas várias series
originadas pelo franchise “Star Trek” ao longo da década de 90. O remake entrou
em produção em finais de 2002.
Foi reunido um elenco
quase desconhecido para recuperar as personagens da série inicial: Jamie Bamber
é o Capitão Lee “Apollo” Adama; James Callis interpreta o Dr. Gaius Baltar;
Katee Sackhoff é a Tenente Kara “Starbuck” Trace; Tricia Helfer é a “Número
Seis”; Grace Park é a Tenente Sharon
“Boomer” Valerii. Mas também foram chamdos alguns nomes conhecidos como Edward
James Olmos que interpreta o Comandante William Adama ou Mary McDonnell, no
papel de Laura Roslin, Presidente das Colónias humanas.
Após um armistício de
40 anos que se seguiu á guerra travada ente as Doze Colónias (os mundos
habitados pelos humanos) e os Cylons (robots criados pelos humanos), estes
últimos lançam um ataque nuclear com o intento de exterminar a raça humana.
Apanhada de surpresa, a população das Doze Colónias, é quase totalmente
exterminada, assim como o pessoal militar é virtualmente destruído por uma sabotagem
no computador da rede de defesa. A
“Galactica”, uma nave que estava destinada a ser um museu, por estar fora do
alcance da rede, é a única
Estrela-de-Batalha que escapa á destruição e Adama, o comandante da
“Galactica”, assume provisoriamente, o comando da frota enquanto tenta levantar
a moral dos restos da população humana anunciando planos para tentar encontrar
a lendária Décima-Terceira Colónia, Terra, cuja existência e localização haviam
sido mantidos secretos pelos militares.
Inicialmente, pretendeu-se fazer uma mini-série de três horas de duração,
apoiada pelo recém-criado Sci-Fi Channel, o argumentista Ronald D.Moore e o
produtor David Eick não se pouparam a esforços para inovar este remake duma
série de culto do final da década de 70 do século passado.
A história é, em
tudo semelhante á da primeira série: a “Galactica” protege uma frota de cerca
de 75 naves civis ( na série inicial, eram cerca de 220!), com uma população
que ronda (Segundo se vê nas estatisticas que estão na “Colonial One”, nave
onde viaja Laura Roslin, a Presidente
Eleita das Colónias) cerca de cinquenta mil pessoas, sempre perseguidos pelos
Cylons, procuram a Terra, apesar de
Adama acreditar que ela nada mais é que uma lenda.
Mas onde esta nova série
difere da original é na profundidade com que aborda toda a jornada: a série não
se limita a mostrar aventuras e batalhas espaciais, ela explora também as
relações humanas numa civilização
ameaçada de extinção, na qual os seres humanos lutam entre si tanto como contra
os Cylons. Mas a grande novidade deste “reboot” (recomeço) de “Battlestar Galactica” vem dos inimigos jurados dos
humanos: os Cylons. Ficamos a saber que eles evoluiram (ja estamos longe das naves com três Cylons
como tripulantes, as que surgem agora
são muito mais modernas e ameaçadoras que as da série original) e
desenvolveram-se ao ponto de, Segundo a “Número Seis”(uma sensual e bonita
Cylon que admira a raça humana) diz a Baltar, adquiriram uma consciência
própria. Já no final da mini-série, ficamos a saber que existem 12 modelos de
Cylons, semelhantes aos humanos, que sentem como humanos e pensam que são
humanos, dos quais existem milhares de
cópias ou “clones”, espalhados pelo universo. Além da “Número Seis”, na
mini-série são revelados mais três. (um dos quais apenas no surpreendente final). Esta nova situação
foi trazer uma grande inovação á mini-série. O mote estava lançado, restava
aguardar qual seria a reacção do publico.
Nos dias 8 e 9 de dezembro de 2003,
a nova versão de “Battlestar Galactica” estreava no Sci-Fi Channel. As
duas partes conseguiram prender a atenção de 3.9 e 4.5 milhões de espectadores
respectivamente, tornando-a no terceiro programa mais visto de sempre e
recebendo critícas muitos positivas da imprensa especializada. Com tal sucesso
em mãos, foi encomendada uma série com
carácter semanal.
A primeira temporada começa pouco tempo depois do final da mini-série e
continua a história dos restos das Doze Colónias humanas, depois da derrota
infligida pelos Cylons, em busca da Décima-Terceira Colónia, Terra. Ao contrário
de outras séries espaciais, “Battlestar Galactica” não tem os tão famosos
aliens que fazem as delicias nessas séries. Muito pelo contrario, a maior parte
das histórias tratam do efeito que a destruição apocalíptica das
Doze Colónias teve sobre os sobreviventes e as escolhas morais que têm de fazer
em relação ao declínio da raça humana e a sua guerra com os Cylons; outras
histórias são sobre os ciclos perpétuos de ódio e violência que conduzem
aos conflictos entre seres humanos e Cylons, e religião com uma
implicação de que “Deus” tem um plano
que contemplará todos os
envolvidos..
Ao longo da série, a guerra entre Cylons e humanos, conhece muitas voltas e
reviravoltas, com facções de Cylons a aliarem-se aos humanos, formando uma
aliança insegura e fraca, contra o “Número Um”, o líder Cylon que se recusa a
revelar o nome dos “Últimos Cinco”, os cinco
Cylons cujas identidades só ele conhece
e que são modelos mais antigos, criados por uma civilização humana mais antiga.
Todo o elenco da mini-série regressou para
as quatro temporadas de “Battlestar Galactica”, Glen A. Larson, criador da série
original tornou-se Produtor Consultivo e
a produção trouxe,como artistas convidados ao longo da série, Lucy Lawless,
Dean Stockwell, Callum Keith Rennie e, como convidado especial, Richard Hatch,
o Capitão Apollo da série original, para interpretar Tom Zarek, um terrorista
que depois se torna politico. Hatch, que recusara entrar em “Galactica 1980”,
apesar de não gostar do novo conceito, aceitou participar na série, já que a
sua personagem lhe permitiu acrescentar ainda mais dramatismo ao enredo quando
se dá a sua transformação de terrorista em politico activo que ascende á
vice-presidência das Colónias.
A 14 de janeiro de 2004, estreava a primeira temporada de “Battlestar
Galactica” com um “share” televisivo de 3.1 milhões de espectadores logo no
primeiro episódio, tornando-o, tal como as duas partes da mini-série, um dos
programas mais vistos de sempre no Sci-F Channel. Ao sucesso dos 13 episódios
desta primeira temporada, seguiram-se mais 20 duma segunda temporada em 2005
(exibida nos Estados Unidos em duas partes intituladas 2.0 e 2.5) que continuou
o sucesso levando o Sci-Fi Channel a encomendar uma terceira temporada em 2006,
seguindo sempre a esteira do sucesso levando a que os interregnos entre as
temporadas fosse cada vez menor. Finalmente em 2007, foram encomendados mais 22
episódios para uma quarta temporada que os produtores Ronald D.Moore e David
Eick anunciaram ser a última. Tal como a
segunda, esta quarta temporada foi dividida em duas partes, por ter sido
apanhada pela greve dos argumentistas
(2007-2008), respectivamente 4.0 (episódios 3 a 10) e 4.5 (episódios 11
a 22). A 20 de março de 2009, foi exibido o último episódio da série. Com cerca
de três horas de duração, foi dividido em duas partes. Chegava, assim, ao fim
um dos mais bem conseguidos “reboot” duma série de televisão.
Entre a terceira e a quarta temporadas, surgiu o telefilme “Battlestar
Galactica: Razor” que serviria para criar expectativa em relação ao que se iria
seguir na série. “Razor” é a junção dos dois primeiros episódios da quarta
temporada. Narrando os acontecimentos da Estrela-de-Batalha “Pegasus” em dois
tempos, ambos “no passado” em relação à continuidade da quarta temporada. O
tempo “presente”situa-se na altura em Lee Adama assume o comando da “Pegasus”,
na última metade da temporada 2, enquanto o tempo “passado” se situa quando
Helena Cain é a Comandante da nave, no período entre o ataque Cylon (que se vê na mini-série) e a reunião com a
“Galactica” na segunda temporada.
Ainda mal tinha terminado “Battlestar Galactica” , já o Sci-Fi Channel
anunciava um telefilme intitulado “Battlestar Galactica: The Plan – Galactica –
O Plano” (Edward James Olmos, 2009). O
filme, constituído por material novo e
cenas da mini-série e temporadas, acompanha a história de duas versões do Cylon Cavil, uma quer
testemunhar a destruição da raça humana, a outra tenta dissuadir a primeira,
admitindo que podem estar a cometer um erro. Contado em “flashback”, o
telefilme reconta a mini-série e as duas primeiras temporadas com maior enfâse na perspectiva dos Cylons e
do seu Plano para destruir a raça humana. Os “Cinco Finais” têm aqui um papel
mais proeminente.
Em abril de 2006, o Sci-Fi Channel anunciava que uma prequela (um termo
criado no século XXI), de “Battlestar Galactica” estava em desenvolvimento.
“Caprica”, assim se chamava a prequela, a acção situa-se mais de 50 anos antes
da série, antes da Guerra Cylon e conta-nos a história da família Adama e da
sociedade Capricana assim como nos fala dos avanços tecnológicos que levarão á Revolta Cylon. Em março de 2008,
Ronald D.Moore, produtor e argumentista, confirmou que “Caprica” iria entrar em
produção, começando com episódio-piloto de duas horas. Em dezembro de 2008, o
canal aprovou e deu luz verde para a série. Devido a fracas audiências,
“Caprica” só teve uma temporada, constituída por 19 episódios e foi exibida
entre janeiro e outubro de 2010.
Anunciada em 2011, “Battlestar Galactica: Blood & Chrome” é a segunda prequela do universo “Battlestar
Galactica”. A acção situa-se no décimo ano da Primeira Guerra Cylon e segue o
percurso do jovem William “Husker” Adama, piloto da “Galactica”, uma das mais
poderosas Estrelas-de-Batalha da frota Colonial. A série, criada por Michael
Taylor e David Eick, descreve os
acontecimentos entre “Caprica” e a mini-série de 2003 e estreou, em novembro de
2012, como uma série “on-line” de 10 episódios de mais ou menos 15 minutos de
duração. Distribuída pela “Machinima
Network” e exibida no “Machinima Youtube
Channel”, um canal pertencente ao
“Youtube”, a série teve uma recepção positiva.
Em 2013, o Sci-Fi Channel anunciou a
sua intenção de exibir a série como um telefilme e estava em cima da mesa a
possibilidade de se criar uma série de televisão.
Facilmente se percebe que o “reboot”
de “Battlestar Galactica” abriu muitas portas
a futuras prequelas, continuações, quer em forma de série ou em filmes e
telefilmes. Enfim todo um manancial de possibilidades ao dispôr de quem queira
dar continuidade ao projecto, “So Say We All!” – os fans, claro!!
Nota: As Imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet