sexta-feira, 24 de maio de 2013

Battlestar Galactica – Odisseia Espacial em Televisão II


         - Regresso ao Universo (1980)
   
As imagens finais  de “A Mão de Deus”, o último episódio da primeira temporada de Galactica, mostravam-nos uma transmissão, em más condições, a ser recebida num monitor e nela conseguia-se perceber os contornos duma nave a poisar e ouvia-se uma comunicação, entrecortada por estática, cuja voz pronunciava o seguinte “Base da Tranquilidade…a  Águia aterrou!” a imagem congelava e começava o genérico final. 
   Embora se soubesse antecipadamente que este era o último episódio, algo, naquelas imagens, deixava antever o contrário. O público, fiel, interrogava-se: que imagens eram aquelas que a Galactica acabara de capturar? Será que estariam a receber uma comunicação de longa distância? Que nave era aquela? O que é que aquela voz quereria dizer? Com quem estaria a falar? O que era a Base da Tranquilidade? Parecia estar destinado que nenhuma destas perguntas iria ser respondida.
   
Mal se soube do cancelamento da série,  a ABC começou a receber cartas de telespectadores que queriam que a série fosse reposta. Protestos  destes  eram pouco comuns nesta época, mas revelaram-se decisivos  já que tal campanha em favor da série, levou a que os responsáveis da estação repensassem as razões do cancelamento. Após alguma deliberação, entre avanços e recuos, os responsáveis da ABC reuniram-se com Glen A.Larson para definirem um possível regresso da série, mas este teria de ser modificado e num formato menos dispendioso.
   Com luz verde da ABC, Glen A.Larson e Donald P.Bellisario, co-argumentista e realizador de vários episódios da primeira temporada, decidem que a nova série se passará cerca de 5 anos depois dos eventos de “A Mão de Deus”. Este espaço de tempo, permitiria  que se eliminassem algumas personagens consideradas superfluas, como o Coronel Tigh, braço direito de Adama, Athena, filha de Adama, Cassiopeia, Boxey, entre muitos outros que se haviam tornado familiares ao longo da série original. As únicas personagens que iriam transitar seriam: O Comandante Adama, Boomer, Apollo, Starbuck e o Conde Baltar. Este último, depois de cumprir uma sentença por ter traído os seus semelhantes,  era  expiado e seria agora Presidente do Conselho dos Doze.
   
A ideia principal seria que “A Galactica” chegaria á terra no presente e esta não estaria  preparada para se defender dos Cylons, Adama decidiria então dirigir-se para outro ponto do universo de modo a afastar os Cylons do planeta. Baltar, no entanto, sugeria utilizar-se a tecnologia que permitia viajar no tempo e assim alterar a hustória da terra de modo a que esta estivesse apta a enfrentar as máquinas mortíferas. O Conselho recusaria e Baltar roubaria uma nave e viajaria até ao passado para  levar o seu plano avante. Semanalmente, haveria  “Uma Missão no Tempo”, levada a cabo por Apollo e Starbuck a tentar apanhar Baltar, impedir que este alterasse  a história terrestre, com Apollo sempre num período diferente da história  e Starbuck, viajando para o passado e para o presente, para poder ajudar o seu amigo. A ABC gostou da ideia e autorizou a realização do episódio-piloto.
   
 
Dr. Xavier

Lorne Greene (com uma barba grande, que, não é preciso ser um especialista para isso,  se percebe logo ser falsa) e  Herb Jefferson, Jr. (Boomer, agora promovido a coronel e braço-direito de Adama), aceitam regressar aos seus papeis, mas  Richard Hatch e Dirk Benedict mostraram-se indisponíveis para regressar. O primeiro recusou porque não tinha a certeza  de qual seria o seu papel agora que tudo ia mudar e algumas personagens iriam desaparecer; o segundo estava indisponível.  Foi então que perante este retrocesso,  toda a estrutura, entretanto planeada, para a nova série foi alterada. A acção passa-se agora cerca de trinta anos depois dos acontecimentos da primeira temporada. São criadas novas personagens como Troy (para substituir Apollo), O Tenente Dillon (para substituir Starbuck);  assim como  o inquietante Doutor Xavier (Richard Lynch, num registo habitual na sua carreira), como o vilão de serviço.  
   
Com a acção situada no ano de 1980 e uma geração depois da série original, “A Galactica” e a sua frota chegam á Terra, apenas para descobrir que o planeta não é tão avançado cientificamente como era de esperar nem é capaz de se defender dos Cylons, nem pode ajudar a nave de combate. É então decidido que equipas de colonos vão ajudar incognitamente membros da comunidade cientifica de modo a tornar a terra mais tecnologicamente avançada. Mas existe quem pense que esta decisão é errada e pretenda acelerar o avanço tecnológico, nem que para isso seja necessário viajar no tempo, até ao passado e alterar o curso da História.
   
Depois do episódio-piloto ser filmado e visionado, a estação mostrou-se desagradada com os aspectos das viagens no tempo que seria então a premissa principal de cada episódio (como inicialmente planeado) com os guerreiros coloniais a perseguir  o Dr.Xavier em diferentes períodos da história. Ainda antes de estrear, os criadores da série veem-se obrigados a abandonar a ideia  das constantes viagens no tempo, por imposição  da ABC. Ultrapassado este pequeno contratempo, a série estreou no dia 27 de janeiro de 1980.
   Ao longo da série, são explicados os destinos de algumas personagens da série original: Apollo teria morrido; Starbuck ter-se-ia perdido no espaço no decurso duma missão; ficamos a saber que o Capitão Troy  é, na realidade, Boxey; Baltar, tal como  Adama lhe prometera em “A Mão de Deus”,  aparentemente foi abandonado num planeta com condições de sobrevivência, foi salvo  e é-nos  apresentado como o Comandante Baltar, chefe supremo da frota Cylon que persegue os humanos. De outras personagens, como Athena, Cassiopeia ou até o Coronel Tigh, nunca se chega a saber o que aconteceu. É como se nunca tivessem existido e, quando assim acontece, é lamentável, já que algumas destas personagens desempenhavam um papel importante na série original.
   
Os fracos índices de audiência que a série obteve, levaram ao seu cancelamento ao fim de apenas dez  episódios!, muitos dos quais eram histórias múltiplas, com várias situações a decorrer o que apenas serviu para baralhar os espectadores, nunca conseguiram despertar o interesse do público e até os actores começavam a revelar algum cansaço das personagens, arrastando até ao limite as suas prestações. O último episódio, intitulado “O Regresso de Starbuck” com a participação especial de Dirk  Benedict ( e também o mais interessante de todos), foi uma tentativa de reanimar a série e arrancar algum “share” televisivo, mas não foi suficiente. Um décimo-primeiro episódio, que seria uma continuação do anterior,  ainda foi escrito por Larson, mas a série foi cancelada durante a produção desse episódio e este nunca foi terminado.
   
Depois do cancelamento da série, em  maio de 1980, apareceu nos cinemas, na Europa, Nova Zelândia e Austrália, um filme intitulado “Conquest of the Earth”. Editado a partir de episódios da série “Galactica 1980” (nome pelo qual ficou conhecida esta série), e cenas não aproveitadas na série, editadas de modo a tornar compreensível o filme. Apesar de mais esta tentativa de revitalizar a série, nada havia a fazer.
   Pela segunda vez, em pouco mais de um ano,  a série “Battlestar Galactica”  “morria” pelas mesmas razões que haviam estado na origem do cancelamento da série original. Desta vez a ressurreição teria de  esperar 23 anos até acontecer.
                                                                                                            (continua)

 Nota: As  imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet

sábado, 18 de maio de 2013

Battlestar Galactica – Odisseia Espacial em Televisão I


          
                      I - Um Novo Universo (1978 – 1979)

   
 Em 1978, “Star Wars – Guerra das Estrelas”, o fantástico universo criado por George Lucas, um dos maiores visionários do cinema no final do século XX, tinha redefinido o cinema e, em particular, a ficção científica. Desde que estreara, em maio de 1977, tornara-se o maior êxito de bilheteira da história do cinema, batendo recordes em todo o mundo. Nada, nem ninguém, conseguiu ficar indiferente ao impacto que o filme teve no mundo inteiro. Também a televisão, principal rival do cinema, foi tocada por este fenómeno mundial  e quis logo de imediato responder com outro sucesso idêntico para não perder o seu público.
   
Na altura deste sucesso mundial, discutia-se a influência que o livro “Eram os Deuses Astronautas?” de Erich Von Daniken, publicado em 1968 e que fala da possibilidade das antigas Civilizações  terrestres terem a sua origem no espaço, com a vinda de alienígenas (ou astronautas) á terra nos períodos relatados dessas Civilizações, tinha no filme de George Lucas. Surge então em cena Glen A.Larson, criador e produtor de alguns dos maiores sucessos de televisão das décadas de 70 e 80 do século passado, como “Buck Rogers no Século XXV” (1979-1981); “Magnum, P.I.” (1980-1988); “The Fall Guy” (1981-1986); ou “Knight Rider – O Justiceiro”(1982-1986), o seu maior sucesso. Decidido a mudar a face da televisão, Larson, que tinha lido o livro de Daniken, resolve criar uma série de televisão, que fizesse frente ao sucesso de “Star Wars”, partindo da premissa apresentada pelo livro.
   
Num universo muito distante, as Doze Tribos da Humanidade ou Colónias, como muitas vezes são referidas na série (uma possível referência, nunca confirmada, ás treze colónias que deram origem aos Estados Unidos ou ainda ás tribos de Israel), assinam um pacto de tréguas com os Cylons, robots-guerreiros criados por uma raça de seres superiores há muito extinta, provavelmente répteis (esta ideia é transmitida sempre que se vê o Líder Imperioso,  a sua forma, de costas e com um olhar de réptil) pondo fim a uma guerra que durava há mais de mil anos. Atraiçoados pelo Conde Baltar, um humano ambicioso que deseja subjugar toda a humanidade, aliado ás forças Cylon, as Doze Tribos são destruídas e a raça humana practicamente extinta. A Estrela Batalha “Galactica”, a única nave de combate que sobrevive a este holocausto, reúne, sob sua protecção, uma frota de naves onde viajam os restos da humanidade e, enquanto fogem dos Cylons, procuram vestígios da 13ª Tribo Humana (ou Colónia) que partira de Kobol, planeta onde nascera a humanidade, muitos séculos antes, para colonizar um planeta chamado Terra.
   
A Era em que acontece este êxodo nunca é explicada. No início da série é  referida como sendo “o Sétimo Milénio do Tempo”, mas é desconhecida em relação á história da terra e aos vestígios que vão recolhendo ao longo da sua longa viagem. A série faz referencia, na sua introdução, ás antigas civilizações Egipcía, Maya, Inca, Tolteca e fala também das Civilizações míticas como Lemúria e Atlântida, sugerindo que estas poderiam ser descendentes de seres alienígenas e que estes seres humanos que lutam algures no universo, poderiam ser os antepassados dessas antigas civilizações.

   
   
Partindo desta premissa, em 1978, estavam lançados os dados para uma das mais originais e inovadoras séries de televisão. A grandiosidade dos cenários, as cenas de batalhas espaciais e a própria temática humana em guerra com outra civilização, nada disto alguma vez se vira em televisão, apenas em cinema. Hoje, décadas depois da sua estreia, dá-nos alguma nostalgia e até  vontade de rir em algumas cenas. Vemo-la como uma utopia, mas, não esqueçamos que, revolucionou os efeitos especiais em televisão e, os seus enredos, altamente rebuscados, fizeram  história, não só nos filmes para televisão, como também na própria ficção científica.
   
   
Glen A. Larson, depois de ter luz verde da ABC, o estúdio que apostou na série, não se poupou a esforços para inovar. Foi buscar  actores e actrizes, alguns de renome, como Lorne Greene, que “Bonanza”(1959-1973), a série de cowboys de mais longa duração em televisão, tornara famoso e deu-lhe o papel de Adama, o comandante da “Galactica” e também o responsável por levar os restos da humanidade em busca da terra; John Colicos, como o Conde Baltar, o homem que vende a humanidade a troco do poder; Jane Seymour, a bonita actriz que depois viria a encontar a fama com a série “Dr. Quinn”(1993-1998), é Serena, jornalista que, pelos destinos da guerra , se torna guerreira-piloto; Richard Hatch é Apollo, o piloto mais corajoso da frota; Dirk Benedict, que, na década seguinte, se tornaria famoso na série “A-Team – Soldados da Fortuna”(1983-1987), é Starbuck, também piloto, homem de grande coragem, melhor amigo de Apollo e um incorrigível D.Juan; entre muitos outros que se viriam a tornar famosos depois da participarem na série. Larson foi buscar também realizadores  de televisão e cinema como Rod Holcomb ou Christian I. Nyby II, para garantir que o trabalho fosse  de qualidade e não um simples amontoado de imagens sem nexo. 
   O próprio criador supervisionou a sequência de abertura do episódio-piloto: no universo, entre imagens de nebulosas e planetas, uma voz “off”, introduz  e situa a acção. Larson fez questão que fosse Patrick McNee, o conceituado actor da série britânica “The Avengers – Os Vingadores” a fazer a introdução da série, introdução essa que se manterá inalterável até sensivelmente ao meio da série, onde será ligeiramente modificada, mas mantendo sempre presente aquilo que Erich Van Daniken escrevera no seu livro . Larson quis ainda que fosse o actor a fornecer a voz ao Líder Imperioso e também participasse na série em dois episódios,  interpretando a figura demoníaca do Conde Iblis.
   
Numa tentativa de roubar público a “Star Wars” (missão praticamente impossível em 1978!), o episódio-piloto, que custara cerca de sete milhões de dólares (foi o mais caro na altura), estreou, em julho de 1978, em vários países, incluindo Canadá, Europa Ocidental e Japão, numa versão de 125 minutos, editada a partir dos três primeiros episódios da série. Em Portugal estreou em cinemas que estavam equipados com “Sensurround”, um equipamento sonoro que permitia aos espectadores partilhar algumas das sensações vividas no écran, ampliando  os sons mais baixos, de explosões,  tiros, descolagem e aterragem de aviões ou naves, etc., de modo a que eles fossem mais sentidos que ouvidos. A recepção do público foi positiva  e permitiu a Glen A.Larson  ganhar alguma confiança e prosseguir com a série.
   A 17 de setembro de 1978, estreava na ABC, a versão integral do episódio-piloto da série, perfazendo um total de 150 minutos de duração. A recepção foi boa, recebendo uma boa classificação e obtendo um grande “share” televisivo. Tudo parecia bem encaminhado para a série ser um mega-sucesso.
   
Subitamente a meio da temporada, em abril de 1979, foi anunciado que a série iria ser cancelada devido aos fracos resultados de audiência que estava a obter. Ninguém estranhou este facto. O horário da série era mudado semana após semana e este facto acabou por criar alguma desmotivação entre o público, levando a alguns protestos junto dos estúdios da ABC, mas a decisão estava tomada e nada, nem ninguém a iria contrariar. Durante oito meses, 17 episódios foram filmados (o episódio piloto dividido em três partes e cinco outros divididos em duas partes), perfazendo um total de 24 episódios.  O episódio final “A Mão de Deus” ( e um dos melhores de toda  série) foi exibido a 29 de abril de 1979. Com apenas  uma temporada, uma das mais inovadoras séries de televisão era cancelada.
                                                                                             (continua)


Nota: As imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet




domingo, 28 de abril de 2013

O Conde Monte Cristo II - A Mão do Finado - A Continuaçao quase desconhecida



   Ao contrário de muitos escritores  franceses, contemporâneos de Alexandre Dumas, Pai,  ele tornou-se rico ainda em vida. Tinha leitores espalhados um pouco por todo o mundo e qualquer obra com a sua assinatura era êxito garantido. Portanto nada havia de estranho quando em 1853, surgiu no mercado uma obra, assinada por Alexandre Dumas, Pai, intitulada “ A Mão do Finado” e que fora apresentada como uma continuação de “O Conde Monte Cristo”.  O sucesso foi imediato, mas a história por detrás desta continuação  é bem diferente.
   Antes de entrarmos propriamente na obra em si, vale a pena ter em atenção o seguinte diálogo, ocorrido em lisboa entre Luis Correia da Cunha, editor das obras de Alexandre Dumas, Pai, em Portugal e um tal Alfredo Possolo Hogan, funcionário dos correios de lisboa. Possolo Hogan era um apaixonado pela literatura, particularmente pelo romance de aventuras, escrevia nas suas horas vagas e, encontrando-se sem dinheiro, resolveu apelar ao conhecido editor:
- Já viu isto!? “O Conde Monte Cristo” é aquilo que os meus fregueses preferem! Vende-se tudo, nem tenho mãos a medir!! – dizia o atarefado editor
- Vai reeditá-lo? – perguntou Hogan
- Vou, está claro…mas estive a pensar numa continuação do “Conde Monte Cristo”, produção particular aqui da casa…e quem poderá arcar com tal responsabilidade? – o editor pareceu ponderar um pouco e depois olhou para o seu interlocutor – você!
- Eu? – fez Hogan, sem poder acreditar no que ouvia
- Sim, você. Não é, por acaso, autor de romances do mesmo género, como “Os Dois Angelos”, ou “Um casamento forçado”?...se leu os meus fascículos, não tem mais do que tomar os personagens  e, com eles, compor o fim que falta ao romance de Alexandre Dumas…publica-lo-ei nesta colecção e com a assinatura do autor de “Os Três  Mosqueteiros”…
- Mas poderá ser preso! Incorrer numa contrafacção por uso indevido de nome!
- Não creia nisso…Alexandre Dumas está muito ocupado a provar que é ele próprio quem escreve os seus romances…estou em crer que ele até vai apreciar devidamente este golpe publicitário…
Alfredo Possolo Hogan, depois de muito pensar, disse:
- Está bem! Aceito a incumbência…mas acontece que estou muito necessitado de três meias coroas…
    Passaram-se dois anos depois dos acontecimentos narrados em “O Conde Monte Cristo”. O Conde vive agora feliz ao lado de Haydée, o seu amor, mas é do seu passado que surge ameaça. Benedetto, antigo colaborador na vingança que o Conde levou a cabo, encontra-se preso por homicídio e, enquanto aguarda o julgamento, recebe  uma carta que lhe revela a sua verdadeira identidade e onde também lhe é pedido que  se vingue do homem que o salvou, protegeu e depois o abandonou á sua sorte: Edmond Dantés, conhecido como  O Conde Monte Cristo.
   
Utilizando a mesma estrutura folhetinesca, da qual era bastante conhecedor, Possolo Hogan foi muito criativo na produção do final para “O Conde Monte Cristo”,  em vez de encarar a história como um mero desenvolvimento do tema da vingança, constante no romance de Dumas, demarca-se dele,  vai mais além e obriga a uma reflexão sobre o trajecto de Dantés em ambas as obras. Tal como a obra de Dumas, o enredo de “A Mão do Finado”, também é cheio de peripécias, encontros inesperados e algumas reviravoltas que a diferenciam da primeira obra, mas que, ao mesmo tempo, as tornam indissociáveis: as histórias de Dantés e Benedetto são explicadas como sendo uma “vontade de Deus”, ou seja, tanto na construção desta continuação, como do próprio “Conde de Monte Cristo”, o motor da acção, não seria um desejo pessoal, mas “uma força superior” que a todos conduz. Aqueles que ultrapassam os limites, chegando mesmo a atingir inocentes, serão punidos, assim como aqueles que se arrependem, também não ficam impunes se tiverem cometido excessos. É esta a perspectiva ideológica presente no romance, uma espécie de “mão Divina” que, não existindo,  nos daria a sensação de estarmos perante uma sucessão de episódios inconsistentes.
   Possolo Hogan exagera no final, tal como qualquer folhetim,  ele reserva a morte como destino final das principais personagens do romance e, influenciado pelo romance negro, comum na época, ele finaliza com um toque macabro com o vingador, Benedetto, também ele vitimado destino, terminada a sua vingança, volta a França para depositar “A Mão do Finado”, símbolo da sua missão,  no túmulo do pai, antes de ser preso e condenado á morte pelo assassinato do carcereiro da prisão de onde se evadiu no passado.  
   Publicado em Portugal em 1853, foi um enorme sucesso, sendo reeditado pelo menos três vezes até 1857. Ao longo dos séculos XIX até ao XXI, o romance acabou por ser incorporado na obra de Alexandre Dumas, Pai, que tomou conhecimento da sua existência. Terá escrito uma carta a negar a autoria do romance e pedido ao editor português para o ajudar a desmentir tal facto, já que nunca fora sua intenção fazer, embora lho tivessem solicitado inúmeras vezes, uma continuação do romance. Nada foi feito, já que o sucesso estava garantido.  Mas a verdadeira autoria do romance permaneceu durante muito tempo ignorada e hoje em dia continua a ser atribuída a Alexandre Dumas, Pai.
   Quando se escreve um romance cujo objectivo principal é concluir um outro, como “A Mão do Finado” em relação a “O Conde Monte Cristo”,  fica demonstrada a vitalidade de um grande texto, cuja continuidade pode ser encarada como um dos possíveis desdobramentos desse mesmo texto. Polémicas á parte, Alfredo Possolo Hogan desdobrou uma história, sob o pretexto de concluir aquilo que Alexandre Dumas, Pai, deixou em aberto.  

Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet






segunda-feira, 22 de abril de 2013

O Conde Monte Cristo I - Dumas Genial



   Diz a sabedoria popular que “A Vingança é um prato que se serve frio”. Deve ter sido isso que Alexandre Dumas, Pai, pensou quando começou a escrever “O Conde Monte Cristo”, o seu livro mais conhecido a seguir aos “Três Mosqueteiros”. São mais de 1000 páginas a conceber e executar o mais intrincado e genial plano de vingança da história da literatura.
   
Edmond Dantés é um jovem marselhês que, aos dezanove anos, parece ter uma vida quase perfeita. Está prestes a tornar-se Capitão de um navio mercante, é  noivo da jovem e bela Mercédès e é bem visto por quase todos aqueles que o conhecem. No entanto esta vida quase perfeita está prestes a terminar, pois três amigos de Dantès, movidos pela inveja do seu sucesso quase precoce, preparam um esquema no qual o jovem é apanhado, perde tudo de um dia para outro e é condenado á prisão no Castelo de If, um local para onde são enviados os mais perigosos presos políticos. Na prisão, onde passa catorze anos, Dantés conhece o Abade Faria, outro prisioneiro que ali se encontra preso por causa das sua opiniões políticas. Faria fala-lhe de um tesouro imenso que se encontra escondido na ilha de Monte Cristo, ao largo de Itália e ensina-lhe como o encontrar caso o jovem consiga escapar. Quando o consegue, Dantés encontra o tesouro, assume a identidade do misterioso Conde Monte Cristo e regressa a Marselha para preparar a sua vingança contra os seus inimigos.
   
A acção passa-se em França, Itália , ilhas do Mediterrãneo e no Levante e, inteligentemente, Dumas  situou-a sob um pano de fundo histórico que se torna um elemento fundamental ao longo do livro. Uma história constantemente percorrida pelos temas da esperança, justiça, vingança, piedade e perdão, mas cujas consequências são devastadoras tanto para os culpados como para os inocentes.
   Dumas escreveu que a ideia de vingança de “O Conde Monte Cristo” foi inspirada numa história escrita por Jacques Peuchet, um arquivista da polícia francesa, publicada em 1838 e que lhe chegou ás mãos depois da morte do autor e que foi incluída numa das edições em 1846. Peuchet conta que um sapateiro, Pierre Picaud que vivia em Nimes em 1807, estava noivo duma senhora rica quando três amigos invejosos o acusaram de ser um espião ao serviço de Inglaterra. Colocado numa espécie de prisão domiciliária em casa dum clérigo, Picaud passou anos a preparar a sua vingança contra os invejosos. Quando o clérigo morreu, toda a sua fortuna ficou para Picaud que era como se fosse um filho seu e o sapateiro pode então pôr em prática a sua vingança.
 
O autor e Auguste Macquet, o seu colaborador habitual criaram em “O Conde Monte Cristo”, á semelhança de “Os Três Mosqueteiros”, uma galeria de personagens inesquecíveis e as quais dotaram com características fundamentais para o desenrolar da história: assim temos Edmond Dantès, o rapaz inteligente, apaixonado e bondoso que, com a sua prisão, se torna amargurado e vingativo e, quando o Abade Faria morre, ele perde a única ligação com outro ser humano. Sem qualquer emoção, o seu único objectivo torna-se a vingança pura e simples e só muito mais tarde, no livro, é que recomeça a viver como um ser humano; Danglars, o imediato do navio de Dantès, é um homem ganancioso e cruel e só pensa em si mesmo, sem escrúpulos nenhuns não olhando a meios para alcançar os fins; Mercédès, é uma mulher boa e amável, acaba por trair o seu amado e casar com outro homem, permanecendo infeliz pelo resto da sua vida, ela é a personagem cujo sofrimento é maior e mais completo; Mondego é o rival de Edmond na afeiçaõ a Mercédès, ajuda a incriminar o amigo e, traindo tudo e todos, torna-se rico e poderoso; finalmente Caderousse, ambicioso, mas sem força nenhuma, preguiçoso e desonesto,  representa uma certa insatisfação humana, não importa aquilo que tem, sente que merce mais, para conseguir o que deseja, rouba e mata. Existem outras personagens que gravitam em torno destas, acabando, duma maneira ou de outra, por se relacionarem umas com as outras e também com o   misterioso Conde Monte Cristo.
    Dumas escreveu a história entre agosto de 1844 e janeiro de 1846 e publicou-a no formato de folhetim no  “Journal des Débats” em dezoito partes. As versões completas seriam publicadas posteriormente ao longo do século XIX. Numa época em que a televisão ainda não fora inventada, o folhetim era aquilo que mais se aproximava do que hoje se chama novela. Semanalmente, os leitores esperavam cada capítulo novo com ansiedade, muitas vezes, esse espaço de tempo servia para o autor dar diferentes rumos á história, alterar personagens e, por vezes, criar sub-enredos, consoante a vontade e opinião dos leitores. Tudo isto sem nunca perder o fio condutor da narrativa. O autor, para manter o enredo vivo e activo”, terminava cada capítulo com uma situação em suspenso preparando os leitores para a sequência daquela situação. Actualmente, o recurso a uma narrativa em estilo folhetinesco continua a resultar já que o leito da obra, ao ser confrontado com uma situação dramática, não resiste á tentação e continua a ler até a situação estar resolvida.
   
A história é tão actual que não admira que as mais de 1000 páginas se leiam quase de um só fôlego. É quase impensável dizer que a vingança planeada e levada a cabo por Edmond Dantès está ultrapassada. Muito pelo contrário: a identificação com o protagonista é grande e, no decorrer do livro, apesar do plano ser uma coisa absolutamente mirabolante e envolver não só o fim dos seus inimigos como também a sua destruição moral, social e económica, o leitor quer que ele seja bem sucedido. Dumas consegue, através das muitas voltas e reviravoltas que o plano sofre, chegando mesmo a estar na eminência de ser descoberto e Dantès desmascarado, fazer com que a personagem escape a outro destino que não aquele que é pretendido.  Na óptica do autor, a personagem segue o esquema narrativo clássico: o herói sofre a adversidade, mas, utilizando a sua inteligência, consegue, pouco a pouco, impor-se aos problemas que lhe vão surgindo.
 
Duas notas finais: a primeira relaciona.-se com o final desta história de vingança. Nele, depois do processo, tão longo, tão difícil, que consome tantas vidas e tanto tempo, constata-se que se calhar ela não valha a pena. Dantès empenha-se tanto na vingança perfeita contra os seus inimigos, que não compreende que quem se prejudica é ele próprio ao deixar de viver por causa dos inimigos que quer destruir a toda a força. É a maneira genial que Alexandre Dumas encontrou para terminar o romance.
A segunda nota refere-se ao facto de que, ao contrário do que muita gente pensa, a história do Conde Monte Cristo não termina neste livro. Ela continua noutro romance publicado anos mais tarde.
                                                                                                                          (continua)

 Nota: As imagens que ilustram o texto foram retiradas  da Internet                                                                                                                                        

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