domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Guerra dos Mundos – O Apocalipse de Spielberg



   Em 1898, H.G.Wells, escritor de ficção científica, britânico de renome, publicou o livro “A Guerra dos Mundos”, a sua obra mais famosa. Nele, a Inglaterra Vitoriana é atacada e invadida por extraterrestres vindos do planeta Marte. Este enredo aparentemente simples e banal, transformou-se num enorme sucesso literário para o escritor, ganhou o estatuto de clássico da literatura de ficção científica  e cativou a imaginação da sociedade não só da sociedade do séc.XIX, como também a do século que se seguiu.
   Em 1938,  “A Mercury Theatre on the Air”, uma série dramática que ia para o ar emitida pelo sistema de rede radiofónica de Columbia, adaptou a  “A Guerra do Mundos”. Realizada e narrada pelo então actor e futuro realizador Orson Wells.
Orson Wells adaptou a obra na emissão radiofónica de 1938
   Os primeiros dois terços do programa são preenchidos com boletins noticiosos criados com tal realismo  que fazem  crer aos seus ouvintes que uma invasão marciana estava mesmo a acontecer, transformando aquela noite, de 30 de outubro e, nalguns casos, os dias seguintes, numa situação de verdadeiro pânico. O episódio acabou por ser fundamental na carreira de Wells.
A Guerra dos Mundos, de Byron Haskin, 1953
   1953 viu nascer a versão cinematográfica do clássico de H.G.Wells. Byron Haskin foi o realizador responsável por esta adaptação. O filme situa a acção numa pequena vila na califórnia, onde cai um meteorito que traz dentro de si passageiros nada amistosos. Elevado á categoria de clássico,  o filme apenas toma por base a obra de Wells e segue noutra direcção diferente, conseguindo obter junto do público o sucesso esperado. Mas, á parte do trabalho de Haskin, algumas boas interpretações, foram as naves marcianas que espantaram e convenceram o público. Isto deveu-se ao produtor do filme, George Pal, que  sabia como fazer filmes deste género e era uma força condutora no campo dos efeitos especiais que neste filme foram inovadores e únicos e que acabaram por ganhar o Oscar na respectiva categoria.
O Musica de Jeff Wayne, 1978
A Série de televisão 
   A obra ainda teve mais duas adaptações durante o século XX: a primeira, em 1978, foi uma adaptação musical feita pelo músico Jeff Wayne e que foi um grande sucesso e obrigou o músico e a sua troupe a fazer uma tournée nos Estados Unidos; a segunda, foi para televisão sob a forma de série, entre 1988 e 1990, durante duas temporadas e funcionou como uma espécie de continuação do filme de 1953, quando os marcianos, que aparentemente tinham sido mortos no final do filme, afinal não o tinham sido e estavam apenas numa espécie de vida suspensa, são acordados por um raio laser que destrói a bactéria que os infectara. Não convenceu e a série foi suspensa. Teriam que passar 15 anos até aparecer uma nova adaptação da obra de H.G.Wells.
   Esta adaptação era um projecto há muito tempo acarinhado pelo realizador Steven Spielberg. Desde a década de 80 que o realizador queria fazer a sua adaptação do livro, mas sempre adiado. Já com o filme em pré-produção, Spielberg pediu várias alterações ao argumento da autoria de Josh Friedman,  pois queria que a sua versão, embora respeitando o livro, fosse diferente do filme de 53. O realizador era contra a chegada dos aliens em naves espaciais, já que, na sua opinião, todos os filmes de aliens usam esse tipo de veículo e também não quis incluir a chegada deles em naves marcianas porque assim ficava quase igual ao filme de Byron Haskin. Decidiu então que os “Tripods” já se encontravam na terra e estavam enterrados no solo desde há muito tempo. David Koepp reescreveu o argumento original e, depois de reler a obra, decidiu incluir uma narração em voz-off “Queria alguém que estivesse na periferia dos acontecimentos em vez de envolvido nos próprios”.  Apresentou a ideia ao realizador  que a adorou. Spielberg convidou Morgan Freeman para o efeito e o resultado não podia ser melhor: a voz forte e metálica  do actor deu o mote ao que se vê no écran: um grandioso espectáculo de acção, feito com a mestria de quem sabe marcar a diferença.
   A  “Guerra dos Mundos” encerra uma trilogia que Spielberg dedicou ao tema das visitas de aliens á terra. Enquanto que com os dois primeiros filmes, “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” (1977) e “E.T. – O Extraterrestre” (1982), os aliens eram amigáveis e tentavam estabelecer uma comunicação com os terrestres, no terceiro filme, Spielberg tem a oportunidade de explorar a antítese das personagens dos dois filmes anteriores . “Pela primeira vez na minha vida, vou fazer um filme de aliens onde não há amor nem tentativa de comunicação”, disse o realizador.
A Imagem mais forte da obra de Spielberg
   É fácil perceber porque é que Spielberg disse que depois de "A Guerra dos Mundos" não voltaria a realizar mais nenhum filme de ficção científica, é porque depois desta experiência cinematográfica, nada mais a fazer...com este filme, adaptado de um dos livros mais conhecidos da literatura de ficção científica, chegamos, tal como a humanidade no livro, ao fim dos tempos. Recheado de momentos tensos  (a aparição do primeiro Tripod é um desses momentos) e cenas fortes, nomeadamente naquela que será a imagem mais marcante e chocante do filme: a cena em que  Rachel (a jovem promessa cinematográfica Dakota Fanning), está junto a um rio a preparar-se para fazer uma necessidade fisiológica, vê passar um corpo a boiar logo seguido de mais uma série deles e solta um grito aterrorizante.
   O próprio timing de Spielberg,  ao situá-lo numa América pós 11 de Setembro de 2001, apesar de Koepp dizer que tentou escrever o argumento sem se inspirar no trágico acontecimento que abalou o mundo, é difícil não pensar nele quando Ray e os seus filhos fogem da cidade enquanto esta é destruída pelos “Tripods”,  confere ao filme o tom profético anunciado na obra de Wells.
    Impecável no que respeita a aspectos técnicos, onde Spielberg e a sua equipa, são mestres, é no aspecto artístico que vem a grande surpresa: Tom Cruise é Ray Ferrier, um pai separado, com dois filhos adolescentes que mal conhece e que de repente se vê apanhado em acontecimentos apocalípticos. O actor  ligou-se ao projecto desde que trabalhou com o realizador em "O Relatório Minoritário" (2002) e dá-nos uma interpretação arrancada de dentro, convincente (a cena na colina onde Ray tenta impedir Robbie de partir com os soldados para ir combater os aliens, é das cenas mais dramáticas que o actor já nos deu), próximo daquilo que o actor já mostrou que consegue fazer e que faz esquecer outras menos conseguidas; Tim Robbins, é Harlan Ogilvy, um homem á beira a loucura, que se quer vingar das máquinas que lhe destruíram a família. A sua prestação, numa personagem, saída directamente do seu filme anterior "Mystic River" (Clint Eastwood, 2003), no qual ganhou o Oscar de Melhor Actor Secundário, faz arrepiar qualquer um.
   Estreado a 29 de junho de 2005 nos Estados Unidos e a 1 de julho no Reino Unido, o filme foi um sucesso enorme , terminando como o quarto maior êxito de bilheteira de 2005. Nomeado para três Oscares da Academia, apenas em categorias técnicas,  perdeu todas em favor de “King Kong”,  o mamarracho de mais de três horas de Peter Jackson sobre o gorila gigante que, por amor a uma actriz, quase destrói metade de Nova York.
    H.G.Wells  ficaria certamente agradado pela emissão radiofónica que Orson Wells fez na década de 30 do século passado, teria gostado da versão de Byron Haskin na década de 50 do século passado e ficaria orgulhoso da versão de Spielberg que alguém já chamou o último grande filme de ficção científica.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Sombra do Vento - O Prazer de Ler




   Se um dia agarrassem em nós e nos levassem a um sítio que desconhecíamos existir, pois nunca tínhamos ouvido dele, do qual podíamos escolher qualquer coisa para nós, mas cuja única condição era não falar dele a ninguém, qual seria a nossa reacção? É desta simples premissa que parte o romance “A Sombra do Vento” da autoria de Carlos Ruiz Zafón.
   Barcelona, 1945, Daniel Sampere, de 11 anos, é levado pelo seu pai até ao Cemitério dos Livros Escondidos, um local misterioso, uma espécie de biblioteca secreta onde, nas palavras do Senhor Sampere, só alguns podem entrar,  para escolher, dentre milhares de livros que ali se encontram, um que irá adoptar e proteger até ao final da sua vida. Daniel escolhe “A Sombra do Vento”, da autoria de Júlian Carax, um autor obscuro, mas cuja história, narrada naquelas páginas, desperta a curiosidade do jovem, que resolve descobrir mais sobre aquele autor. Sem se aperceber disso, com aquela escolha, numa espécie de cerimónia iniciática, Daniel acaba por marcar toda a sua adolescência e juventude.
Existem livros que, pela forma como a história nos é apresentada, conseguem agarrar o leitor logo desde o início. 
   Quando se lê um livro, é como se partíssemos numa viagem rumo ao desconhecido, mas com o intuito de conhecer novos mundos, novas personagens ou novas formas de narrativa e com isso partilhamos a experiência de algo completamente novo e diferente daquilo que estamos habituados. 
   Em “A Sombra do Vento”, Carlos Ruiz Zafón dá-nos essa sensação e mais.  A acção passa-se em dois tempos, duas histórias que, ao longo do livro, se vão interligando uma na outra, de um modo que quase podemos considerar brilhante, até ao “volte de face” final, inesperado mas bastante esclarecedor.
   Logo desde as primeiras páginas, quando Daniel percorre os corredores do Cemitério dos Livros Escondidos e encontra o livro de Carax (ou é o livro que o encontra?), sentimos que estamos perante algo diferente, algo que nos agarra e nunca mais nos larga até ao final da obra.  É como se o leitor se transformasse no próprio Daniel  e passasse a fazer parte daquele universo.
O Cemitério dos Livros Escondidos
   O estilo narrativo é electrizante mas também, tal como o  próprio universo da história, envolvente e misterioso. As personagens cohabitam numa Barcelona pós Guerra Civil e IIª Guerra Mundial, cenário de instabilidade e insegurança. O leitor (transfigurado ou não), acompanha Daniel na sua odisseia em busca de Julian Carax e de algum significado para a sua vida. Seguimo-lo em correrias constantes e imprevisíveis, paixões corajosas, lúcidas ou delirantes, destruidoras ou aperfeiçoadoras, que acabam por ser os motores que nos movem  e que nos motivam a acompanhar os heróis e vilões ao longo desta história.
   Inspirado no melhor e mais negro de Edgar Allan Poe, mas também  em Agatha Christie e Conan Doyle e com um toque de Arturo-Perez Reverte, compatriota de Ruiz Zafón,  a “A Sombra do Vento” absorve-nos graças aos seus motivos detectivescos, enigmáticos  que se vão tornando cada vez mais negros, mas também onde não faltam algumas doses de humor refinadas, proporcionadas por Fermín Romero de Torres, amigo e conselheiro de Daniel. Letrado, talentoso e habilidoso, Pertencem-lhe alguns dos momentos mais desanuviadores do romance, graças ás pérolas proverbiais que, de tempos em tempos, atira em momentos vulgares, que aliviam o tom intenso da história.
O autor, Carlos Ruiz Zafón
   Publicado em 2001, “A Sombra do Vento”, foi traduzido em mais de 30 idiomas e publicado em mais de 45 países, e já vendeu mais de 6,5 milhões de exemplares. Juntamente com “O Jogo do Anjo”, publicado em 2008, onde novamente nos cruzamos com cenários e personagens de “A Sombra do Vento”, apesar de não ser  uma continuação do anterior, mas sim uma nova história centrada no universo dos livros,  e “O Prisioneiro do Céu”, de 2011, que, de acordo com o próprio autor, é, sim, a continuação do romance de 2001,  constituem uma trilogia que pode ser lida em qualquer ordem, sem se perder o entendimento da obra como um todo.
    Um livro escrito por quem gosta de ler, para todos aqueles que gostam de ler e que nunca esqueceram o prazer que se pode tirar da leitura dum bom livro.
 Foi para estes que Carlos Ruiz Zafón escreveu “A Sombra do Vento”...todos aqueles  que não se reveêm no parágrafo anterior,  nem vale a pena abrirem o livro porque este de nada lhes servirá...

   

sábado, 26 de janeiro de 2013

Shutter Island - Entre a Realidade e a Demência






   Dentro do género policial, surgiu, hà uns anos, o sub-género thriller e dentro deste, recentemente, surgiu uma via chamada narrativa fragmentada, em que ao espectador são-lhe mostradas, ao longo do filme, cenas de um quotidiano que à partida pouco ou nada terão a ver com a narrativa principal, mas que de certa maneira, vão influenciar essa mesma narrativa. 
Shutter Island
   Em 1987 "Angel Heart - Nas Portas do Inferno" (Alan Parker) foi um bom exemplo desta via.  Harry Angel, um detective privado (Mickey Rourke numa das suas últimas boas interpretações), é  encarregado de encontrar um antigo músico que desaparecera sem deixar rasto e que tinha uma dívida de honra para pagar a alguém que o ajudara no inicio da sua carreira (Robert DeNiro, demoníaco). A investigação vem  a tornar-se muito reveladora para o detective. Mais recentemente, esta tendência foi explorada de forma quase brilhante em “Memento – Memento”, realizado por Christopher Nolan em 2000. Nele, Leonard  Shelby (Guy Pearce),  um homem com lapsos de memória, utiliza pequenas notas e tatuagens para tentar encontrar o homem que ele pensa ter morto a sua esposa. Finalmente a trilogia Bourne (Doug Liman & Paul Greengrass, 2002-2007), em que Jason Bourne (Matt Damon), tenta, a todo o custo, recuperar a memória, descobrir quem é  e porque é que é uma autêntica máquina mortífera. Todos os filmes são permanentemente atravessados por fragmentos de um passado em que Jason Bourne influenciou ou foi influenciado pelo mesmo. Já “Shutter Island”, apesar de se situar dentro deste mesmo sub-género,  é uma obra que se coloca a si mesma num patamar mais elevado.
   Boston, 1954, Teddy Daniels e Chuck Aule, dois Agentes Federais são destacados para investigar o desaparecimento de um paciente no hospital psiquiátrico de Ashecliffe situado em Shutter Island. Recebidos de modo hostil, quer pelos guardas, quer pelo pessoal médico e auxiliar, os dois vão-se apercebendo que existe algo mais naquela instituição do que o simples desaparecimento dum doente.
Baseado no romance homónimo de Dennis Lehane, autor de “Gone Baby Gone”, que foi adaptado ao cinema com o título de “Vista pela última vez…” realizado por Ben Affleck (foi a sua estreia como realizador…auspiciosa por sinal…), em 2007 e de “Mystic River”, realizada por Clint Eastwood em 2003 e sobre a qual nada há a dizer a não ser que é uma obra-prima.
A obra que deu origem ao filme 
   Publicada em 2003, a obra foi desde logo considerada como opção para uma possível adaptação cinematográfica no mesmo ano, mas diversos atrasos levaram a que o projecto ficasse a marinar durante algum tempo dentro da gaveta dos estúdios  da Columbia Pictures. Finalmente em 2007 uma co-produção entre a Columbia e a Paramount, juntamente com o interesse demonstrado pelo realizador Martin Scorsese em avançar com a adaptação, esta viu a luz do dia em Março de 2008.
   Em “Shutter Island”, o espectador é levado a questionar-se sobre o quanto daquela história rocambolesca, de doentes que fogem e depois reaparecem sem marca alguma de terem fugido, de traumas de guerra (Daniels, assaltado pelas memórias do massacre que ele próprio ajudou a fazer nos guardas alemães desarmados, o seu passeio nocturno pelo meio dos cadáveres dos judeus), de traumas familiares ( o espírito da sua falecida esposa que Daniels não consegue esquecer e que lhe pede constantemente para a deixar partir), será verdade. Tudo isto surge em imagens fragmentadas ao longo de toda a investigação que decorre durante o filme e que o fazem oscilar entre o policial negro ( o visual e os maneirismos dos Agentes Federais são decalcados dos policiais negros das décadas de 40 e 50 do século passado…não é por acaso que o filme se passa em 1954) e o filme de suspense, ao mais puro estilo de Hitchcock (toda a sequência passada nas escarpas rochosas e na gruta e uma homenagem directa ao mestre do suspense).
Leonardo DiCaprio, cada vez mais um actor 
   Com um elenco de primeira, encabeçado por Leonardo DiCaprio, no papel de Teddy Daniels, o cada vez mais Scorsesiano actor (aqui na sua quarta colaboração com o realizador), volta a surpreender na forma como interpreta o violento e instável agente federal. O actor agarra o papel e interpreta-o quase na perfeição.
Martin Scorsese, o saber como dirigir actores
   Sabendo como o realizador lida com os actores e actrizes conseguindo arrancar deles verdadeiras lições de como actuar (basta lembrar Ellen Burstyn em “Alice já não mora aqui”, Oscar de Melhor Actriz; “Toiro Enraivecido” que deu o Oscar de Melhor Actor a Robert  DeNiro; Paul Newman, Oscar de Melhor Actor em "A Cor do Dinheiro"; Joe Pesci , Melhor Actor Secundário em “Tudo bons Rapazes”; ou aquele que, certamente, será o papel da vida de Daniel-Day Lewis em “Gangs de Nova York”), não será de estranhar que DiCaprio se esteja a revelar cada vez mais um bom actor e que filme, após filme, (quer seja dirigido por Scorsese  ou não), vai revelando um talento que teimava em estar escondido nos seus primeiros filmes, afastando-o cada vez mais da imagem  de “teenager”que marcou os seus primeiros filmes. Mais secundários, mas igualmente impecáveis temos ainda Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Emily Mortimer e esse verdadeiro senhor da interpretação que é Max von Sydow, o que torna grande parte de “Shutter Island” um filme feito de interpretações.
   Quando vemos, no inicio do filme um navio surgir do meio do nevoeiro numa imagem quase sobrenatural, pensamos que se trata de um filme de terror,  mas graças à habilidosa realização de Scorsese, cedo se percebe de que o filme vai muito para além desse género, apesar haver momentos em que a banda sonora é inexistente, tornando-os insuportáveis ao nível do suspense criado e cenas em que a banda sonora as torna perfeitamente perturbantes e nalguns casos memoráveis. É aqui que entra a verdadeira genialidade técnica do realizador, auxiliado pela montagem milimetricamente certeira de Thelma Schoonmaker, editora dos seus filmes, que nunca o filme perder o seu foco, nem a nossa atenção se dispersa  . Ao longo de três quartos do filme a fotografia é baça, irreal, quase atmosférica, no último terço ela já é brilhante, real. É como se o realizador nos estivesse a dar um filme em dois tempos. 
Nem tudo é o que parece...
    O que ele faz nada mais é do que manipular as personagens e os seus sentimentos ao colocar todos estes ingredientes exactamente onde o espectador quer que elas sejam colocadas, excepto nesse fabuloso e genial plano final do farol onde, tudo aquilo que dávamos como certo  ao longo do filme, pode não ser exactamente assim e adquire uma nova realidade.
    Não sendo um filme de fácil interpretação, “Shutter island” é, na realidade, um filme complexo, que exige alguma atenção ao pormenor, mas uma vez que Martin Scorsese é um realizador que gosta de contar histórias e que sempre as soube contar, tais dificuldades não se põem. Uma coisa temos a certeza depois de se ver “Shutter island”: Uma visita a um farol, por mais banal que pareça,  nunca mais será a mesma coisa!

Nota: As Imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cotton Club - O Jazz, segundo Francis Ford Coppola


   O nome de Francis Ford Coppola está intimamente ligado á história da Sétima Arte pelos melhores e piores motivos. No primeiro caso, são de sua autoria alguns dos filmes mais importantes das últimas décadas do século XX, como “O Padrinho” (1972); “O Padrinho – Parte II” (1974), crónicas incontornáveis sobre a história da Mafia, ou “Apocalypse Now” (1979), o filme definitivo sobre o inferno do Vietname,  que se tornaram obras-primas do cinema e que dificilmente serão alguma vez ultrapassados na sua concepção. Já no segundo caso, a história é um pouco diferente já que Coppola, como grande visionário do cinema, foi directamente responsável pela falência da Zoetrope Studios quando, em 1981, levou a sua visão longe demais. “One From the Heart- Do Fundo do Coração”, uma extravagância bonita, mas banal no seu conteúdo, inteiramente rodado em estúdio e para o qual, nem o público, nem a própria indústria cinematográfica estavam preparados. 
   O realizador sofreu vários revezes para poder reabilitar o seu nome e do estúdio. Sem vacilar, Coppola aceitou fazer “filmes encomenda”, ou seja aceitar trabalhar segundo determinadas condições que lhe eram impostas. O resultado dessa nova condição apareceu sob a forma de “The Outsiders – Os Marginais” (1983) e “Rumble Fish – Juventude Inquieta” (1983), um díptico brilhante sobre a juventude nas décadas de 50 e 60 quando o conflito de gerações estava no auge. O realizador e os filmes foram também responsáveis pelo lançamento de vários jovens actores que viriam a marcar as décadas seguintes. Este duplo sucesso abriu novamente as portas dos grandes estúdios  ao realizador e permitiu-lhe relançar a sua carreira.
     Em 1984 Coppola  foi convidado para pelo produtor Robert Evans para re-escrever  o argumento de Mario Puzo para um filme que Evans também queria realizar, intitulado “Cotton Club, inspirado pelo livro de fotografias da história de Cotton Club, um famoso clube nocturno do Harlem, editado por James Haskins. Entre avanços e recuos, com Mario Puzo  substituído por Coppola na elaboração do argumento, este trouxe consigo William Kennedy, colaborador habitual da Zoetrope, a produção começou a atrasar. Entre 15 de Julho de 1983 ( data em que se deveria ter iniciado a rodagem) e  22 de Agosto, escreveram-se 12 argumentos para o filme, sem que nenhum tenha reunido o consenso do produtor-realizador.  William Kennedy disse, numa entrevista, após a estreia do filme, que terão sido escritos 30 a 40 argumentos até se encontrar um que reunisse o consenso geral e que acabou por ser escrito por Mario Puzo (que entretanto fora novamente chamado  quando Coppola já era o realizador), Francis Ford Coppola e William Kennedy.  
    Já com a produção a decorrer ( segundo o que Gregory Hines terá dito numa entrevista, a duração do filme ascendia a três horas),  Robert Evans decide que não quer realizar o filme. Coppola  foi o senhor que se seguiu,  porque precisava de dinheiro para endireitar a sua Zoetrope, já estava a bordo como argumentista, tinha agora a hipótese de se redimir e recuperar aquilo que perdera. Os Estúdios, porém, tinham sérias reservas quando ao novo realizador,   Evans, agora só como produtor,  convence os executivos  da PSO ( Production  Sales Organization) que, á semelhança do que acontecera anos antes com “O Padrinho”, de que ele fora produtor executivo não creditado, tinham  em mãos material suficiente para ter igual sucesso.  Se foi muito ou pouco convincente, não se sabe, mas  a produção continuou e agora com Francis Ford Coppola ao leme. A rodagem  total decorreu entre  22 de agosto de 1983  e  31 de março de 1984.
      O Cotton Club, é o mais famoso clube nocturno e também a melhor rampa de lançamento  para qualquer pessoa que queira ser alguém no mundo do espectáculo.  Conta-se então  a história das pessoas que o visitavam,  das pessoas que o geriam e do Jazz,  a música que tornou tão famoso. Mas  este  é também um tempo de lutas entre Judeus, irlandeses e negros  pelo controle das ruas do Harlem em 1928.
O "lettering" do genérico do filme
      Logo desde o início, ao mostrar o genérico inicial em estilo antigo, tipo anos 20, as letras prateadas e cortadas com um raio de luz, sob um fundo negro,  intercortado com um número musical, filmado com estilo, que decorre  no Cotton Club, Coppola diz-nos que estamos num filme de época e sugere que será  um filme enérgico.
     A abordagem que o realizador faz ao filme e ás suas personagens, é muito semelhante aquela que fizera em “ O Padrinho” e “O Padrinho – Parte II”: Dixie Dwyer, ao salvar a vida a  Dutch Schultz, um mafioso, vê-se envolvido e arrastado para o mundo da corrupção contra o  qual vai ter que lutar para se libertar. O seu dilema remete-nos para a mesma situação que Michael Corleone  (Al Pacino ) enfrenta em “O Padrinho”; da mesma maneira, a figura da mãe de Dixie é uma figura subtil, mas  presente na história. Na última cena de Cotton Club, é a última personagem a entrar em cena para dizer adeus ao filho. Em “O Padrinho” e “O Padrinho – Parte II”, a mãe é uma figura capital  no enredo; a relação entre Sandman e Clay Williams (Gregory e Maurice Hines) é um pouco o reflexo da relação entre Michael e Fredo em “O Padrinho”, em que um irmão traí o outro e essa traição traz consequências graves. Em “Cotton Club”, um irmão é visto a trair o outro, mas, o sentido de família acaba por vir ao de cima e, num momento tocante do filme (os dois irmãos, finalmente reunidos,  a sapatear um com o outro),  a traição é perdoada; a  Dutch Schultz,  falta-lhe a subtileza e a astúcia dos vilões, tanto de “O Padrinho” como de “O Padrinho – Parte II”, mas exibe o mesmo racismo que o senador Pat Geary em  “O Padrinho – Parte II”; O lar, nos filmes do realizador, funciona como um objecto vital, uma espécie  de refúgio do caos que se vive na rua. Tanto a casa de Dixie como a dos irmãos Williams são disso exemplo.
Dixie Dwyer
       Nos filmes de Coppola, o elenco é sempre importante e em “Cotton Club”, tal importância não foi descurada. Richard Gere  é  Dixie Dwyer,  simpático,  charmoso, brincalhão, mulherengo,  um dos poucos brancos autorizados a tocar no Bamville Club, um clube para negros. Vêmo-lo logo no início do filme a tocar a sua corneta (é mesmo o próprio Gere que faz os seus solos!). Gere, utilizando o estatuto de “sex simbol” dos anos 80, que “American Gigolo” (Paul Schrader, 1980) lhe atribuiu e o sucesso obtido com “Oficial e Cavalheiro” (Taylor Hackford, 1981), interpreta o papel com relativo á-vontade e revela-se bastante convincente no mesmo; Diane Lane, a bonita e sensual actriz, é Vera Cícero, amante de Dutch Schultz, sonha em ter o seu próprio clube nocturno,  apaixona-se por Dixie.
Vera e Dixie: a relação difícil
 A relação entre ambos é difícil, parecem duas crianças a tentar sobreviver num mundo corrupto tanto se ofendem como logo a seguir  estão num momento de ternura.  É com esta relação difícil, feita de altos e baixos, que o realizador homenageia, de forma brilhante, a Idade de Ouro de Hollywood. Lane foi a musa de Francis Ford Coppola, entrou em quatro filmes do realizador durante a década. Em “Cotton Club”, a sua beleza e juventude estão bem patentes  e Coppola, com o seu saber próprio, transforma-a na “Femme Fatale” do filme e também da sua obra.  Do elenco fazem ainda parte  Bob Hoskins,  James Remar,  Gregory Hines, Lonette McKee, Nicholas Cage, Laurence Fishburne, os relativamente desconhecidos Mario Van Peebles e Sofia Coppola, entre outros.
   Tecnicamente,  “Cotton Club”,  se exceptuarmos os “Opus Magnânimos” que são  “O Padrinho”, “O Padrinho – Parte II” e “Apocalypse Now”, não fica atrás de nenhuma obra do realizador, pelo contrário, nota-se um cuidado e o cunho pessoal do realizador em algumas cenas:  Na  cena de amor entre Dixie e Vera, enquanto uma espécie de caleidoscópio colorido percorre o rosto de Dixie, os seus corpos são ligeiramente envolvidos pela sombra duma cortina, num outro “take” da mesma cena,
os seus corpos, no acto de amor, são mostrados apenas como silhuetas; Os números musicais do filme estão coreografados ao minímo pormenor (a câmera não descura nenhum pormenor!) e são filmados no estilo dos musicais dos anos 30 e 40,  mas, quando Dixie e a família estão no clube, Coppola utiliza a câmera manual para transportar o público até ao centro da dança, utilizando-a também para mostrar as movimentações nos bastidores de espectáculo como se de um documentário se tratasse.
     Tal como em “O Padrinho”, o climax de “Cotton Club” está nas cenas que, aparentemente sem qualquer ligação, adquirem uma nova força: Quando Sandman Williams executa um número de sapateado no Cotton Club, o som dos seus passos, ampliado numa camara de eco, corresponde ás rajadas de metralhadora com que Dutch Schultz é assassinado. A habilidosa montagem em paralelo da dança e do assassínio, fazem o resto.
      O filme, estreado a 14 de dezembro de 1984, não obteve muitos favores da crítica, nem  grande sucesso nas bilheteiras americanas. Não conseguiu nem sequer chegar próximo do investimento feito pela produção, estimado em cerca de 58.000.000 de dólares, ficou-se por uns modestos 25.000.000 de dólares. Foi preciso chegar á europa, no inicio de 1985, para o filme obter o tão desejado sucesso. Coppola sempre foi mais admirado na europa do que nos EUA.  Foi, no entanto,  uma lufada de ar na carreira do realizador, mas não o suficiente para que o impedisse de voltar aos “filmes-encomenda” nos projectos seguintes. Isso só aconteceria no inicio da década seguinte.
       Nomeado para diversos prémios entre os Globos de Ouro e os Oscares da Academia,  “Cotton Club” acabou por  se ficar apenas  pelas nomeações. No entender de quem nomeia e vota,  o filme não tinha a coerência técnica de outras obras do realizador. Coppola defendeu-se e respondeu “…Este nem sequer  é um filme que eu quisesse muito realizar…”. Para bom entendedor...meia palavra basta!


Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet


                 

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