sábado, 13 de outubro de 2012

James Bond 007 - Ao Serviço do Cinema I


                  1-    Ao Serviço de Sua Majestade (1962-1971)

       A personagem literária do agente secreto James Bond, foi criada em 1953 por Ian Fleming. Baseado no próprio autor, enquanto Oficial dos Serviços Secretos da Marinha Britânica, e em diversas outras pessoas com quem o autor conviveu durante a IIªGuerra Mundial e que, nas palavras do autor, “fosse uma personagem desinteressante, aborrecido a quem tudo acontecia,  que fosse brusco mas charmoso…queria, acima de tudo que tivesse um nome idiota, mas ao mesmo tempo, que fosse sonante e inconfundível…”. 
        O nome James Bond foi inspirado num ornitólogo famoso que viveu toda a sua vida nas Caraíbas e autor daquele que é, ainda hoje, o melhor guia de estudo sobre as aves intitulado “Birds of the West Indies”, do qual Fleming possuía uma cópia. Dotando a personagem de alguns toques pessoais como o gosto pelo Golf, pela bebida (“Dry Martini, shaken but not Stirred”,que viria a ser uma das marcas inconfundíveis da personagem), ou por carros de marca e usando a sua experiência dos Serviços Secretos, colocando-a  como Comandante Naval na reserva e no Serviço Secreto Britânico conhecido como MI6, Ian Fleming tinha achado o seu James Bond, nome de código 007, com licença para matar,  que, ao longo de doze romances e dois livros de histórias curtas, iria encantar e defender o mundo. Da literatura para o cinema foi um salto.
         Estreado em Outubro de 1962, “Dr.No –  007 - Agente Secreto”, realizado por Terence Young, revelou-se uma surpresa positiva, mesmo havendo vários aspectos do filme que não reuniam o consenso de todos os envolvidos, sendo a escolha de Sean Connery para o papel, o principal. Depois de várias recusas de outros nomes sonantes como Cary Grant, James Mason, Patrick McGoohan, Rex Harrison, entre outros, não foi fácil, já que tanto Albert Broccoli, produtor e Ian Fleming não queriam Connery para o papel e o autor, pouco antes de morrer, em 1964, mesmo depois dos filmes terem feito bons resultados na bilheteira, continuava a não concordar com a escolha do actor. 
Bond,... James Bond
     A história leva-nos, na companhia do agente secreto James Bond, até á Jamaica onde ele tem de investigar a morte de um colega dos Serviços Secretos Britânicos. Rapidamente Bond tropeça num esquema, que envolve o misterioso Dr.No e a sua ilha particular,  para acabar com o programa espacial americano. Teria sido um filme banal, como muitos outros de espionagem, não fossem alguns elementos-chave que ficaram na memória de todos: o tema musical de abertura, composto por Monty Norman em 1954, que fica no ouvido; a apresentação do agente secreto, numa mesa de jogo, a acender um cigarro, com a famosa linha “Bond, James Bond…”; e Honey Rider, a primeira “Bond Girl”, interpretada por uma Ursula Andress, absolutamente sensual a surgir das águas, qual ninfa, a cantarolar e a brincar com um búzio, imagem que retemos muito depois do filme ter acabado. Outros elementos do elenco, que se manterá fixo durante os primeiros filmes, são aqui apresentados: Bernard Lee como “M”, o chefe de Bond, Lois Maxwell como Moneypenny, a eficiente secretária e eterna apaixonada de Bond e também Desmond Llewelyn no papel de “Q”, o chefe da secção de armamento do MI6. 
Ursula Andress, a primeira "Bond Girl"
          O resultado final não poderia ser mais promissor: o filme tinha custado cerca de 1.000.000 de dólares e rendeu mais de cerca de 59.000.000 de dólares de receitas no mundo inteiro.
            Para o filme seguinte, os produtores duplicaram o orçamento e, ao contrário de “Dr.No”, filmaram na europa, principalmente na Turquia, onde se passa a maior parte da acção. “From Russia with Love – 007- Ordem para Matar” foi realizado novamente por Terence Young em 1963 e James Bond vê-se a braços com tentativas de assassinato que envolvem uma funcionária da embaixada russa em Istanbul e uma máquina capaz de descodificar os códigos mais difíceis e que foi roubada pela organização terrorista SPECTRE. Apesar de ser outro filme, muito ambientado na guerra fria, funciona quase como uma continuação do anterior, já que no início, na reunião da SPECTRE, há uma referência ao dr.No ter sido eliminado na Jamaica. 
      Em “007 – Ordem para Matar” , mantém-se a “Bond Girl”  e desta vez o papel coube a Daniela Bianchi, no papel de Tatiana Romanova, a funcionária russa que vai auxiliar James Bond na recuperação do descodificador, mas também viu serem introduzidas algumas alterações que iriam continuar em todos os filmes seguintes: aparece uma sequência pré-genérico que, mais tarde ou mãos cedo, será relacionada com o filme; surge um tema –título cantado durante o genérico, cuja única condição era que fosse baseado no tema principal de Monty Norman. Coube a  Matt Munro, cantor britãnico de Swing,  a honra de estrear esta nova modalidade; o genérico, tal como a canção, passam a estar relacionados com o filme; após o genérico final, passa a constar a seguinte frase “James Bond will return in…” e surgia o título do filme seguinte (quando se acabaram as histórias originais de Ian Fleming, passou apenas a aparecer a frase “James Bond will return”). Sean Connery regressa ao papel que, de resto, interpretará mais quatro vezes antes de abandonar a série. O sucesso, motivado ou não pela introdução destas alterações, não foi alheio e o filme foi outro sucesso de bilheteira.
         1964 viu chegar  aquele que muitos críticos e especialistas de cinema consideram o melhor filme da série. “Goldfinger – 007 contra Goldfinger” realizado  por Guy Hamilton onde o agente secreto de sua Majestade ao investigar os negócios de magnata do ouro, descobre uma conspiração para contaminar todo o ouro de Fort Knox (uma espécie de caixa geral dos depósitos nos Estados Unidos) durante cinquenta anos e assim lançar o caos na economia mundial. O tema- título, que nos associa imediatamente ao filme, cantado pela voz poderosa de Shirley Bassey, é considerado o melhor tema da série.
Além de dotar a personagem de Connery de algum humor que faltara nos filmes anteriores, o filme introduz aquele que será o carro do agente secreto: o Aston Martin DB5 (como Bond fica na posse dele, apenas será revelado em “Casino Royale” de 2006). O filme tem todos os ingredientes para ser, ainda hoje, considerado o melhor Bond de sempre, além de muita acção e a “Bond girl” de serviço  ter um papel preponderante: Honor Blackman, vinda directamente das série televisiva “The Avengers – Os Vingadores” (1962-1964), é Pussy Galore, que desempenha um importante papel na acção, mas é  Gert Froeber, um conhecido actor europeu,  que interpreta Auric Goldfinger, o vilão que faz outros vilões da saga parecerem quase meninos do coro da igreja, que proporciona o mais memorável  diálogo de toda a série: James Bond, preso numa mesa feita de ouro, vê um raio laser cortar o ouro e aproximar-se perigosamente do seu corpo “Goldfinger –diz ele – espera que eu fale?” e Goldfinger, voltando-se para ele,  sorrindo sarcasticamente responde “Não, Sr.Bond, eu espero que morra!” . Mas a cereja no topo do bolo seria o facto de “Goldfinger” ser o primeiro filme da série a ganhar um Oscar da Academia pelos Efeitos Especiais/Efeitos Acústicos. O sucesso do filme, seria porém, ensombrado, pela morte de Ian Fleming, pouco antes da sua estreia.
            Em 1961, “Thunderball”, o oitavo livro da personagem criada por Ian Fleming estava no “top ten” dos livros mais vendidos na Grâ-Bretanha. Albert Broccoli tinha adquirido os direitos e já o quisera adaptar nesse ano, mas preferiu esperar. Em 1965, James Bond já fazia parte da história do cinema e, ao ritmo de um filme por ano, este projecto podia avançar. “Thunderball – 007 Operação Relâmpago” novamente realizado por Terence Young e leva Bond até ás Bahamas para tentar recuperar duas ogivas nucleares roubadas pela SPECTRE para fazer chantagem internacional. Parte do elenco dos filmes anteriores regressa nesta aventura e, como os produtores queriam manter as audiências, principalmente na europa, onde os filmes asseguravam bilheteiras atrás de bilheteiras, escolheram para o papel da Bond girl, Domino, depois de considerarem váras actrizes como Raquel Welch, Julie Christie, Faye Dunaway, entre outras, fixaram-se na bonita e sensual Claudine Auger, ex-miss França no ano anterior. O papel do vilão, Emilio Largo, um exportador frio e calculista, foi para Adolfo Celi, um actor muito prestável a este tipo de papéis e muito famoso em Itália. Com paisagens, subaquáticas e outras, de cortar a respiração e muita acção à mistura, principalmente na luta submarina entre agentes federais e os homens de Largo, “007- Operação Relâmpago” foi o maior êxito de bilheteira da série na altura e voltaria a trazer um Oscar para a série, novamente de Efeitos Especiais.
            O quinto filme da série só veria a luz do dia em 1967. Sean Connery começava a estar farto da personagem, e isso percebe-se facilmente pela sua interpretação. Então Harry Saltzman e Albert Broccoli decidiram que os filmes de James Bond seriam espaçados dois anos, o que permitiria uma produção mais cuidada e evitava a saturação dos actores e também do mercado que, por esta altura, estava inundado de filmes de espiões. Em “You Only live Twice – 007 – Só se Vive duas Vezes”, realizado por Lewis Gilbert, James Bond viaja até ao Japão para, em colaboraçãoo com os Serviços Secretos Japoneses, descobrir quem é que está a roubar foguetes espaciais e tentar impedir uma guerra nuclear. Neste filme James Bond encontra-se frente-a-frente com  Blofeld, o Número 1 da SPECTRE e arqui-inimigo de Bond, aqui interpretado por Donald Pleasence que trabalha a personagem com a frieza necessária tornando-a sinistra.
          Filmado no Japão, onde os filmes anteriores tinham sido muito populares, toda a equipa foi recebida e tratada de um modo exuberante. Foi o primeiro filme da série a sofrer alterações significativas em relação ao livro de Fleming, do qual praticamente, só reteve o título, a “Bond girl” japonesa Kissy Suzuki, a acção localizada no Japão e a aparição de Blofeld, o resto do argumento foi todo inteiramente criado pelo argumentista Roald Dahl, que já tinha visitado o país, pouco antes de começar a produção, anotando locais e localizações possíveis para o filme. Doseando a acção com pequenos aspectos da cultura japonesa (para tentar não perder as audiências asiáticas, outra jogada de mestre dos produtores),“007 – Só se Vive duas Vezes” foi outro sucesso na série. Pouco depois da estreia, Sean Connery anunciava que queria sair da série, alegando querer ir fazer outro género de filmes.
George Lazenby, o segundo actor a interpretar James Bond
            Para substituir Connery, os produtores, que nesta altura não queriam abdicar do franchise que tinham em mãos, começaram a procurar um substituto que estivesse á altura do actor. Entre os vários nomes considerados estava Timothy Dalton, que no entanto recusou por achar que era muito novo para o papel. John Richardson, Hans DeVries, Robert Campbell, Anthony Rogers, foram outros nomes considerados. Eventualmente acabou por ser escolhido George Lazenby, actor Australiano que Broccoli tinha visto num anúncio e achara-o adequado para o papel. 
        “On Her Majesty’s Secret Service – 007- Ao Serviço de Sua Majestade”, apareceu em 1969 e prometia várias alterações: desde logo um novo actor a encarnar a personagem; um novo realizador, Peter Hunt, uma “Bond Girl”, Tracy, que arrebata o coração do agente secreto ao ponto deste se casar com ela (o único momento de alegria que se conhece do agente secreto em toda a série, só para terminar pouco depois em tragédia), interpretada por Diana Rigg, a bonita actriz britânica, também ela vinda da série “The Avengers – Os Vingadores” (1965-1968) e um vilão interpretado por Telly Savallas que, com a sua cabeça completamente careca, o seu ar de psicopata sádico, tornavam-no na melhor escolha para interpretar o vilão de serviço, o que o actor fez com grande pujança, além de trazer para a ribalta  uma aventura totalmente nova, fiel ao livro e ao espírito de Ian Fleming. Desta vez Bond quer apanhar Ernst Stavro Blofeld, que conseguiu escapar do Japão, e para isso tem de viajar até á Suiça  e tentar descobrir o que é que o cabecilha da SPECTRE tem em mente. Filmado maioritariamente europa fora, incluindo algumas sequências relevantes para a acção em Portugal (sequência pré-genérico filmada no Guincho ou sequência final filmada na Ponte Salazar, sobre o Tejo), “007-Ao Serviço de Sua Majestade”, provou ser um bom filme de acção, mas a escolha de Lazenby é que se revelou uma má escolha, apesar de ser o mais parecido com a personagem que o autor apresentara nos romances, a sua interpretação não convenceu ninguém, faltava-lhe o carisma  que Connery pusera na personagem, daí que o público tenha penalizado o filme, deixando-o aquém nas bilheteiras, apesar da tentativa de se manter uma continuidade com os filmes anteriores, quer através de imagens desses filmes apostas durante o genérico, quer através dos acordes de alguns dos temas musicais, como na cena em que Bond está a recolher algumas coisas no seu escritório, ouvem-se alguns acordes dos temas dos filmes anteriores . Terminava assim, com algum desalento, a fugaz passagem de George Lazenby como James Bond.
          Sem protagonista para o próximo filme da série, os produtores resolvem voltar atrás e recuperar a fórmula de “Goldfinger”. O realizador Guy Hamilton foi novamente chamado, assim como o elenco habitual. Depois de várias tentativas de encontrar um actor para o papel, Broccoli e Saltzman conseguem, graças a uma gentil oferta que incluía uma percentagem no lucro total, que Sean Connery regresse ao papel. Com Connery a bordo, “Diamonds are Forever – 007- Os Diamantes são Eternos” viu a luz do dia em 1971. Ajudado por uma traficante de diamantes,  que vive na Holanda, James Bond vai até Las Vegas na pista do tráfico de diamantes onde vai desvendar um esquema de extorsão levado a cabo pelo seu nemesis, Ernst Stavro Blofeld, com quem, de resto, Bond tem umas contas a ajustar.
            Tal como o seu protagonista, o qual não esconde alguma saturação da personagem, “007 – Os Diamantes são Eternos”, demonstra igualmente alguma falta de energia e entusiasmo, o filme não passa duma colagem de cenas filmadas e interpretadas quase como se duma comédia se tratasse, apenas o argumento, escrito por Richard Maibaum e Tom Mankiewicz, consegue ter alguma vontade de levar o filme até ao final, porque no conjunto, não fosse os níveis elevados de produção, ninguém diria que este é um filme de James Bond. Mas nem tudo é fraco neste filme: o tema, interpretado por Shirley Bassey, que aqui fazia a sua segunda participação na série, é extremamente atmosférico e misterioso e a “Bond Girl”,  Jill St.John, é uma traficante bastante sexy. Foi outro sucesso de bilheteira e foi também o bilhete de despedida de Sean Connery da pele da personagem que, apesar do que o actor ainda iria fazer na Sétima Arte, lhe deu o sucesso. Connery regressaria, 12 anos mais tarde, ao personagem de James Bond em “Never say never Again – Nunca mais digas Nunca", remake despreocupado de “Thunderball”, realizado por  Irvin Kershner em 1983.

                                                                                                   (continua)
                                                                                                   
    
Nota: As imagens que ilustram este texto foram retirados da Internet



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cinema - Comentário a Scarface - Força do Poder - O Sonho Americano


  A exemplo de um certo cinema de autor, muito em voga na europa, Hollywood tentou, na década de 80 do século passado, utilizar os mesmos métodos na produção dos seus filmes. "Scarface - A Força do Poder" é um remake contemporâneo de  "Scarface - O Homem da Cicatriz", realizado em 1932 por Howard Hawks, escrito por Ben Hecht, aos quais a nova versão é dedicada. Baseado num romance com o mesmo nome e escrito por Armitage Trail. Interpretado por Paul Muni, o filme conta a história de um gangster ambicioso e violento, que ascende ao poder dentro da estrutura do Crime Organizado na Chicago dos anos 20, cujas próprias fraquezas (mulheres e bebida), acabam por ser a razão da sua queda.

   Do original,  este "Scarface" apenas mantém o nome porque tudo o resto é completamente diferente. O argumento, escrito por Oliver Stone, actualiza a história para a década de 80, mudando também a localização do original, de Chicago para Miami.

   Tony Montana  é um refugiado politico (como ele próprio diz, no início do filme,  numa sucessão de “travellings”- imagem de marca do realizador- no interrogatório a que é submetido pelas autoridades e que funciona como uma espécie de apresentação da personagem) de Cuba e que chega à Flórida, disposto a conquistar o mundo. Ele tem as suas próprias ideias sobre como triunfar no novo país.
    Al pacino tem, neste filme, uma interpretação "bigger than life"(alguém que tente contar as vezes que a palavra f**** sai da sua boca ao longo das quase três horas de de filme!). o seu Tony Montana vai sofrendo várias transformações ao longo do filme desde o criminoso que mata a troco duma autorização de permanência no país até ao poderoso narcotraficante que, por amor a uma mulher (a lindíssima Michelle Pfeiffer), se vai perder nos meandros da droga e provocar a sua própria queda.

     Pacino está rodeado de um elenco secundário, todo ele muito bom no seu trabalho. Salientam-se Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Robert Loggia, Mary Elizabeth Mastrantonio e um quase desconhecido F. Murray Abraham que, um ano mais tarde, venceria o Óscar de Melhor Actor em "Amadeus" (Milos Forman ).

     Realizado por Brian De Palma, autor de filmes como "Carrie" (1976), "Dressed to Kill - Vestida para Matar"(1980), "Blow Out - a Explosão"(1981) ou ainda o magnifico "The Untouchables - Os Intocáveis"(1987), tem aqui um dos seus trabalhos mais comercialmente bem conseguidos, em parte devido ao elenco, outra parte devido ao seu trabalho de realização. De Palma é, na verdade, um virtuoso realizador e todos os seus trabalhos são, na realidade verdadeiros achados em termos de realização porque ele consegue, utilizando planos e perspectivas pouco comuns em filmes, contar uma história sem esta perder o interesse. 
   Violento e sangrento, "Scarface" é um filme sobre o sonho americano visto por imigrantes e suas consequências. Oliver Stone, um pouco á semelhança do que viria a fazer em alguns dos seus filmes, nomeadamente “Platoon – Os Bravos do Pelotão” (1986) ou “Born on the Fourth of July – Nascido a 4 de Julho”(1989), comentando e criticando a sociedade americana e os seus comportamentos, mostra-nos, em duas cenas, a ascensão e queda do sonho americano: uma acontece  quando Tony, depois de se livrar de Frank, vai a casa deste e acorda Elvira, enquanto a espera, abre-se um grande plano de Tony que vai recuando até surgir no céu um dirigível em volta do qual brilham as letras “The World is Yours” ( O Mundo é Teu); do mesmo modo, no final, assistimos ao declínio e queda desse mesmo sonho americano, simbolizado na cena da morte  de Tony, quando este cai num lago interior, perfurado por dezenas de tiros, e, num plano final, são mostradas essas mesmas palavras escritas numa estátua.

    O filme gerou  controvérsia, desde a sua estreia, devido á violência e linguagem , tendo recebido diversas críticas negativas, o que não impediu que fosse um dos grandes sucessos do ano de 1983, apenas foi superado por “Flashdance” (Adrian Lyne),e, desde então, tem ganho uma enorme legião de fans e até alguns críticos, inicialmente negativistas, têm mudado as suas impressões sobre o filme para algo mais favorável. Também a classificação dada ao filme foi motivo de discussão entre várias partes envolvidas. Inicialmente foi-lhe atribuída uma classificação “X”(apenas para filmes Hardcore – 1ºEscalão, vulgarmente conhecidos como  filmes pornográficos) pela sua violência extrema, linguagem e abuso de drogas. 
    A primeira versão do filme foi amputada de várias cenas, tornando-o confuso e, em algumas partes, incompleto. Brian DePalma teve de intervir e convidou diversos peritos, incluindo agentes reais da DEA (Agência Anti-Droga), que confirmaram a veracidade do submundo da droga, tal como mostrado no filme, o que permitiu que a classificação do filme fosse mudada para “R”, mas ainda na versão amputada.      
    O realizador, mais tarde, quis saber se poderia estrear a versão do realizador. Foi-lhe dito que não, mas como os executivos do estúdio não conseguiam diferenciar as versões, o realizador estreou na europa e noutras partes do mundo a versão original que foi um enorme sucesso. Para exibição na  televisão, foi a versão amputada, em cerca de 32 minutos, a escolhida e novas alterações foram feitas: a palavra f**** foi omitida em todas as utilizações e substituída por outras formas verbais menos ofensivas, além de terem acrescentado algumas cenas que nunca apareceram na versão de cinema e que apenas estão disponíveis como extras nas edições de DVD/Blu-Ray.
    Em 2008, o “American Film Institute”, lançou o seu “Top Ten” de filmes em dez grandes categorias e “Scarface – A Força do Poder” foi considerado o décimo melhor filme no género gangsters.

Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet 





domingo, 23 de setembro de 2012

A Filha de Ryan – Uma Obra-Prima quase Ignorada



       Em 1968, David Lean,  nome  ao qual se associam  frescos históricos,  grandes epopeias,  verdadeiras superproduções cinematográficas, encontrava-se de férias  em Capri, na Itália, quando recebeu de Robert Bolt, argumentista com quem já tinha trabalhado em “Lawrence da Arábia” (1962) e “Doutor Jivago” (1965), seus filmes anteriores, um argumento baseado na “Madame Bovary” de Gustave Flaubert. Lean não se mostrou interessado e escreveu a Bolt a explicar porquê.  Sugeriu então ao argumentista que, se rescrevesse a história, mas que mudasse a localização da acção para outro país, então seria um caso a pensar. Bolt concordou com a ideia e os dois passaram então cerca de um ano a desenvolver a história.

A vila fictícia de Kirrary
         Em 1916, na  vila de Kirrary, situada na costa ocidental da Irlanda,  Rose Ryan é uma jovem com um espírito libertino, aborrecida com a vida que leva na vila onde vive e que anseia casar com um homem que a leve dali para fora.  Apaixona-se por Charles Shaughnessy, professor  da escola local, viúvo e mais velho que ela, casa-se com ele pensando que a sua vida passará a ser mais emocionante, mas  cedo descobre que ficou tudo na mesma.  Mais tarde surge o Major Randolph Doryan, comandante do destacamento Britânico, por quem Rose irá sentir uma irresistível atracção sem medir as consequências que daí advirão, não só para eles, como também para Charles.
A obra que inspirou o filme 
O argumento final de  Robert Bolt mantém  alguns paralelismos com o romance original de Flaubert, nomeadamente no tocante ao trio central, assim temos: uma heroína que paga pelos seus caprichos, no romance, Emma mata-se,   no filme,  Rosy sofre um castigo bem maior;  Charles Bovary, o marido intruído, é  médico no romance, enquanto no filme  a personagem,Charles Shaughnessy, é, tal como Robert Bolt fora, professor; finalmente, o amante viril que preenche todas as fantasias da heroína, no romance é Rodolphe Boulanger , no filme é o major Doryan,  que fica como o terceiro vértice do triângulo amoroso. Em ambos, livro e filme, a consumação do acto ilícito acontece na floresta nebulosa, no meio de flores e fetos. É uma das mais bonitas cenas de amor que alguma vez Lean filmou.
Charles Shaughnessy & Rose Ryan
Para os papéis principais, a escolha não foi fácil. David Lean queria alguns sonantes como Paul Scofield, Peter O’Toole, Richard Harris ou Richard Burton, que, por uma ou outra razão, não estavam disponíveis e acabou por se decidir por Robert Mitchum, que lhe foi sugerido por Anthony Havelock-Allen, produtor do filme, e Lean lembrava-se dele em alguns filmes dos anos 40 e 50. Sarah Miles, na altura era Sra. Bolt, foi escolha óbvia já que a personagem de Rose Ryan fora escrita a  pensar nela. O major Doryan fora pensado com Marlon Brando em mente, que inicialmente aceitou, mas que depois acabou por ter de desistir já que problemas com a produção de “Burn! - Queimada” (Gillo Pontecorvo, 1969), que Brando estava a protagonizar na altura estiveram na origem da desistência. Lean acabou por escolher Christopher Jones que vira numa produção Britânica “ The Looking Glass War” (Frank Pierson, 1969). 
Alec Guiness recusou o papel do Padre Hugh Collins e este acabou por ser interpretado por Trevor Howard, um dos grandes actores britânicos de sempre. A sua personagem é uma das mais importantes do filme, a sua figura, de cabelos brancos e costas curvadas pelo peso dos anos, carrega os pecados de toda uma comunidade de que tem de cuidar, representando a força moral da população num lugar deslumbrante e quase esquecido por deus. 
Michael, o idiota da vila, mudo, expressão patética será um dos fios condutores das diversas histórias que se entrecruzam ao longo do filme. Será testemunha, idiota e muda, de muitos segredos, mas ao mesmo tempo capaz de os comunicar a todos. Interpretado por John Mills, outro nome sonante do cinema britânico, que seria, muito justamente, diga-se, premiado com o Oscar da Academia para Melhor Actor Secundário, um dos dois únicos Oscares que esta produção receberia sendo o outro o de Melhor Fotografia para Freddie Young que tem aqui um trabalho de cortar a respiração.
A paisagem imensa que serve de pano de fundo ao filme

 Desde a primeira cena, logo após a Abertura, ao som da magnífica música de Maurice Jarre, onde vemos a costa Irlandesa e uma minúscula figura a correr em direcção à falésia, percebemos que estamos num filme de proporções enormes e uma paisagem imensa. É um filme feito de planos gerais, com a câmara colocada bem longe do cenário filmado, não só a citada cena inicial, como os rochedos, as praias, a própria vila, imagens belíssimas, enquadramentos cuidadosamente estudados ao pormenor, tudo é preparado com um cuidado e uma dedicação próprias de quem sabe aquilo que quer mostrar, bem ao estilo de David Lean. 
Mas seria na sequência da tempestade que o realizador mostraria todo o seu talento e perfeccionismo.Foram vários meses de espera até que surgisse a tempestade que o argumento descrevia. Por diversas vezes a equipa recebia o aviso  duma tempestade,  deslocava-se para os locais exigidos e apenas conseguiam filmar uma ou duas horas no máximo, já que depois a tempestade desaparecia por si. Quando finalmente estavam reunidas as condições necessárias para filmar, Freddie Young orientava as cameras e os técnicos, Lean dirigia os actores, exigindo deles o máximo, causando mesmo alguns ferimentos  nos intérpretes . Desde manter um disco de vidro a girar em frente ás lentes da camera para que estas estivessem sempre secas, até envolver a camera num saco de plástico, não fosse esta ser atingida por chuva, salitre e ficasse impedida de ser utilizada,  Lean não poupou esforços para que a cena ficasse perfeita e ao nível de algumas cenas dos seus clássicos anteriores, como a cena do êxodo de comboio em “Doutor Jivago”, ou o ataque a Damasco em “Lawrence da Arábia”.
A rodagem teve início em Março de 1969 e terminaria a 24 de Fevereiro de 1970, praticamente um ano demorara a rodagem, entre avanços e recuos, problemas entre o realizador e os actores e também entre os próprios, tornaram “ A Filha de Ryan” um filme quase amaldiçoado. Uma história de amor contada em 220 minutos, duração inicial e pré-exibida aos distribuidores, parecia longa demais e foi criticada pela sua  longa duração e ritmo lento. Lean concordou e  sentiu-se na obrigação de remover cerca de 17 minutos antes da estreia, as cenas removidas nunca mais foram restauradas, nem sequer localizadas. O filme acabaria por estrear numa versão remontada de 196 minutos, que se manteve até à edição em DVD em 2007, que trouxe o filme até à sua duração de 206 minutos e que tem permitido uma nova abordagem ao filme e redescoberta duma pequena obra-prima dum realizador que deu tantas outras obras-primas ao cinema.
O filme teve um sucesso moderado em todo o mundo e foi um dos maiores sucessos de bilheteira na Grâ-Bretanha, que manteve o filme em exibição durante quase dois anos seguidos. Os críticos, pelo contrário, iriam assassinar o filme, apesar das altas expectativas, pelo facto do realizador ter feito três superproduções de sucesso seguidas, depois de o terem visto, foram por água abaixo. Para eles, Lean estava acabado, assim como o seu estilo de cinema.
Iriam passar 14 anos até que David Lean voltasse a filmar. 14 longos  anos em que foram feitas várias  tentativas de fazer uma nova versão de “Mutiny on the Bounty – Revolta na Bounty” (Frank Lloyd, 1935) e que fosse diferente da versão de 1962, realizado por Lewis Milestone,  que falharam. O realizador, vencedor de dois Oscares como Melhor Realizador e cujos filmes, até então, lhe tinham granjeado mais de vinte Oscares da Academia em mais de cinquenta nomeações, iria regressar, aos 76 anos de idade, atrás das cameras com o seu opus final, o maravilhoso “A Passage to India – A Passagem para a Índia”, em 1984.

Nota: as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet



                       
           

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Quarto Kennedy - Uma ficção quase real




Há livros que só pelo simples facto de terem sido escritos em determinada época, acabam, mais tarde ou mais cedo, quer pela narrativa, ou pela altura em que surgem, merecer alguma atenção.
   
Em 1991, Mário Puzo (1920-1999), escritor americano, publicou "The Fourth K - O Quarto Kennedy", um romance sobre política e abuso de poder que, alguns anos após a sua publicação, se viria a revelar quase profético.
   

   A acção passa-se num futuro próximo. Na Casa Branca, Francis Xavier Kennedy, presidente dos Estados Unidos e sobrinho de John, Robert e Edward Kennedy, enfrenta a maior crise da sua carreira. Teresa, a sua única filha, foi raptada por terroristas que estão a fazer exigências inaceitáveis. Em Roma, na Semana Santa, o Papa é assassinado por um grupo de extremistas, ao mesmo tempo que dois cientistas ameaçam a nação com um engenho nuclear conservado em lugar secreto. Rodeado de conselheiros que lhe são extremamente leais e de Helen Du Pray, a primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos, tentam encontrar a melhor solução para esta crise e todos têm consciência do risco de assassínio que paira sobre todas as presidências dos Kennedy. Quando os acontecimentos se precipitam e Teresa é assassinada e uma bomba nuclear explode em Nova York, Francis Kennedy decide agir, sem olhar ás consequências dos seus actos, nem que isso implique entrar em conflito com quem realmente manda no país e serão esses mesmo que tomam a decisão de o destruir.
   
Mario Puzo 
   Mario Puzo, que em "O Padrinho"(1969), "O Siciliano" (1984) e em "O Último dos Padrinhos"(1996) retratou o universo da Mafia, volta-se agora para o mundo da política. Puzo usa o seu profundo conhecimento dos mecanismos ocultos do poder e daquilo que leva os homens a realizar acções desesperadas. Através de cenas de horror inesperado e quase brutal e de momentos de grande intensidade, "O Quarto Kennedy" desenvolve-se ao ritmo alucinante de um projéctil a caminho do seu alvo.
   
    Dez anos depois da sua publicação, a 11 de Setembro de 2001, a cidade de Nova York sofre dois atentados terroristas que resultam na destruição das Torres do World Trade Center e mais de 3000 mortos, num dia negro para o mundo e principalmente para a América. De repente, sem saber porquê, apercebemo-nos quão assustadoramente real pode ser a ficção.

   Tendo em conta que Puzo escreveu o livro muito antes do 11 de Setembro, percebe-se que a sua presciência é enorme, já que a narrativa é assustadora, directa e chocante nos paralelismos que se estabelecem entre aquela ficção e os acontecimentos que se passaram não só nesse dia como nos meses que se seguiram. As decisões que Kennedy toma, em destruir o Sultanato de Sherhaben, após a morte da filha na ficção, são em muito semelhantes aquelas que foram tomadas na realidade e que levaram ao ataque ao Iraque; também a explosão nuclear, quando acontece, muda dramaticamente o curso da acção, já que o presidente vai ao Congresso dirigir-se ás duas alas, Democrática e Republicana, enfrentando a possibilidade de exoneração (a fazer lembrar os escândalos da presidência de Bill Clinton), mas ao impôr a Lei Marcial no país, ele consegue convencer os seus maiores antagonistas a apoiá-lo no que quer que queira fazer. Aqui a obra mostra um pouco do que é o Poder Absoluto com todas as suas consequências e Puzo diz-nos que caminhamos perigosamente para esta situação.
   
   A América que Puzo nos mostra, é uma América que não é muito diferente daquela que existe hoje, onde ainda são as grandes fortunas que tudo controlam desde os meios de comunicação ao próprio poder seja ele jurídico, económico, social e se encarregam de escolher, fazer eleger e controlar quem está na Casa Branca ( no livro estão representados pelos membros do Clube Sócrates, que é o verdadeiro inimigo do presidente Kennedy). A única diferença da obra para realidade é a existência de uma personagem conhecida como "O Oráculo", com cem anos de idade e que todos consultam em busca de opiniões e conselhos, que funciona como uma espécie consciência de cada personagem e, numa perspectiva mais abrangente, da obra.
   
   Mario Puzo inventa um história em que as personagens, as situações, o enredo e os subenredos se misturam numa tapeçaria, que só um autor assim consegue fazer, tantas que são as voltas e reviravoltas na acção que o leitor se sente como se estivesse a andar numa montanha russa.
Se substituirmos os acontecimentos da ficção por acontecimentos reais que a história registou em anos recentes, então ficamos com uma obra de ficção quase proféctica. 
Será mesmo assim?


Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet


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