domingo, 23 de setembro de 2012

A Filha de Ryan – Uma Obra-Prima quase Ignorada



       Em 1968, David Lean,  nome  ao qual se associam  frescos históricos,  grandes epopeias,  verdadeiras superproduções cinematográficas, encontrava-se de férias  em Capri, na Itália, quando recebeu de Robert Bolt, argumentista com quem já tinha trabalhado em “Lawrence da Arábia” (1962) e “Doutor Jivago” (1965), seus filmes anteriores, um argumento baseado na “Madame Bovary” de Gustave Flaubert. Lean não se mostrou interessado e escreveu a Bolt a explicar porquê.  Sugeriu então ao argumentista que, se rescrevesse a história, mas que mudasse a localização da acção para outro país, então seria um caso a pensar. Bolt concordou com a ideia e os dois passaram então cerca de um ano a desenvolver a história.

A vila fictícia de Kirrary
         Em 1916, na  vila de Kirrary, situada na costa ocidental da Irlanda,  Rose Ryan é uma jovem com um espírito libertino, aborrecida com a vida que leva na vila onde vive e que anseia casar com um homem que a leve dali para fora.  Apaixona-se por Charles Shaughnessy, professor  da escola local, viúvo e mais velho que ela, casa-se com ele pensando que a sua vida passará a ser mais emocionante, mas  cedo descobre que ficou tudo na mesma.  Mais tarde surge o Major Randolph Doryan, comandante do destacamento Britânico, por quem Rose irá sentir uma irresistível atracção sem medir as consequências que daí advirão, não só para eles, como também para Charles.
A obra que inspirou o filme 
O argumento final de  Robert Bolt mantém  alguns paralelismos com o romance original de Flaubert, nomeadamente no tocante ao trio central, assim temos: uma heroína que paga pelos seus caprichos, no romance, Emma mata-se,   no filme,  Rosy sofre um castigo bem maior;  Charles Bovary, o marido intruído, é  médico no romance, enquanto no filme  a personagem,Charles Shaughnessy, é, tal como Robert Bolt fora, professor; finalmente, o amante viril que preenche todas as fantasias da heroína, no romance é Rodolphe Boulanger , no filme é o major Doryan,  que fica como o terceiro vértice do triângulo amoroso. Em ambos, livro e filme, a consumação do acto ilícito acontece na floresta nebulosa, no meio de flores e fetos. É uma das mais bonitas cenas de amor que alguma vez Lean filmou.
Charles Shaughnessy & Rose Ryan
Para os papéis principais, a escolha não foi fácil. David Lean queria alguns sonantes como Paul Scofield, Peter O’Toole, Richard Harris ou Richard Burton, que, por uma ou outra razão, não estavam disponíveis e acabou por se decidir por Robert Mitchum, que lhe foi sugerido por Anthony Havelock-Allen, produtor do filme, e Lean lembrava-se dele em alguns filmes dos anos 40 e 50. Sarah Miles, na altura era Sra. Bolt, foi escolha óbvia já que a personagem de Rose Ryan fora escrita a  pensar nela. O major Doryan fora pensado com Marlon Brando em mente, que inicialmente aceitou, mas que depois acabou por ter de desistir já que problemas com a produção de “Burn! - Queimada” (Gillo Pontecorvo, 1969), que Brando estava a protagonizar na altura estiveram na origem da desistência. Lean acabou por escolher Christopher Jones que vira numa produção Britânica “ The Looking Glass War” (Frank Pierson, 1969). 
Alec Guiness recusou o papel do Padre Hugh Collins e este acabou por ser interpretado por Trevor Howard, um dos grandes actores britânicos de sempre. A sua personagem é uma das mais importantes do filme, a sua figura, de cabelos brancos e costas curvadas pelo peso dos anos, carrega os pecados de toda uma comunidade de que tem de cuidar, representando a força moral da população num lugar deslumbrante e quase esquecido por deus. 
Michael, o idiota da vila, mudo, expressão patética será um dos fios condutores das diversas histórias que se entrecruzam ao longo do filme. Será testemunha, idiota e muda, de muitos segredos, mas ao mesmo tempo capaz de os comunicar a todos. Interpretado por John Mills, outro nome sonante do cinema britânico, que seria, muito justamente, diga-se, premiado com o Oscar da Academia para Melhor Actor Secundário, um dos dois únicos Oscares que esta produção receberia sendo o outro o de Melhor Fotografia para Freddie Young que tem aqui um trabalho de cortar a respiração.
A paisagem imensa que serve de pano de fundo ao filme

 Desde a primeira cena, logo após a Abertura, ao som da magnífica música de Maurice Jarre, onde vemos a costa Irlandesa e uma minúscula figura a correr em direcção à falésia, percebemos que estamos num filme de proporções enormes e uma paisagem imensa. É um filme feito de planos gerais, com a câmara colocada bem longe do cenário filmado, não só a citada cena inicial, como os rochedos, as praias, a própria vila, imagens belíssimas, enquadramentos cuidadosamente estudados ao pormenor, tudo é preparado com um cuidado e uma dedicação próprias de quem sabe aquilo que quer mostrar, bem ao estilo de David Lean. 
Mas seria na sequência da tempestade que o realizador mostraria todo o seu talento e perfeccionismo.Foram vários meses de espera até que surgisse a tempestade que o argumento descrevia. Por diversas vezes a equipa recebia o aviso  duma tempestade,  deslocava-se para os locais exigidos e apenas conseguiam filmar uma ou duas horas no máximo, já que depois a tempestade desaparecia por si. Quando finalmente estavam reunidas as condições necessárias para filmar, Freddie Young orientava as cameras e os técnicos, Lean dirigia os actores, exigindo deles o máximo, causando mesmo alguns ferimentos  nos intérpretes . Desde manter um disco de vidro a girar em frente ás lentes da camera para que estas estivessem sempre secas, até envolver a camera num saco de plástico, não fosse esta ser atingida por chuva, salitre e ficasse impedida de ser utilizada,  Lean não poupou esforços para que a cena ficasse perfeita e ao nível de algumas cenas dos seus clássicos anteriores, como a cena do êxodo de comboio em “Doutor Jivago”, ou o ataque a Damasco em “Lawrence da Arábia”.
A rodagem teve início em Março de 1969 e terminaria a 24 de Fevereiro de 1970, praticamente um ano demorara a rodagem, entre avanços e recuos, problemas entre o realizador e os actores e também entre os próprios, tornaram “ A Filha de Ryan” um filme quase amaldiçoado. Uma história de amor contada em 220 minutos, duração inicial e pré-exibida aos distribuidores, parecia longa demais e foi criticada pela sua  longa duração e ritmo lento. Lean concordou e  sentiu-se na obrigação de remover cerca de 17 minutos antes da estreia, as cenas removidas nunca mais foram restauradas, nem sequer localizadas. O filme acabaria por estrear numa versão remontada de 196 minutos, que se manteve até à edição em DVD em 2007, que trouxe o filme até à sua duração de 206 minutos e que tem permitido uma nova abordagem ao filme e redescoberta duma pequena obra-prima dum realizador que deu tantas outras obras-primas ao cinema.
O filme teve um sucesso moderado em todo o mundo e foi um dos maiores sucessos de bilheteira na Grâ-Bretanha, que manteve o filme em exibição durante quase dois anos seguidos. Os críticos, pelo contrário, iriam assassinar o filme, apesar das altas expectativas, pelo facto do realizador ter feito três superproduções de sucesso seguidas, depois de o terem visto, foram por água abaixo. Para eles, Lean estava acabado, assim como o seu estilo de cinema.
Iriam passar 14 anos até que David Lean voltasse a filmar. 14 longos  anos em que foram feitas várias  tentativas de fazer uma nova versão de “Mutiny on the Bounty – Revolta na Bounty” (Frank Lloyd, 1935) e que fosse diferente da versão de 1962, realizado por Lewis Milestone,  que falharam. O realizador, vencedor de dois Oscares como Melhor Realizador e cujos filmes, até então, lhe tinham granjeado mais de vinte Oscares da Academia em mais de cinquenta nomeações, iria regressar, aos 76 anos de idade, atrás das cameras com o seu opus final, o maravilhoso “A Passage to India – A Passagem para a Índia”, em 1984.

Nota: as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet



                       
           

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Quarto Kennedy - Uma ficção quase real




Há livros que só pelo simples facto de terem sido escritos em determinada época, acabam, mais tarde ou mais cedo, quer pela narrativa, ou pela altura em que surgem, merecer alguma atenção.
   
Em 1991, Mário Puzo (1920-1999), escritor americano, publicou "The Fourth K - O Quarto Kennedy", um romance sobre política e abuso de poder que, alguns anos após a sua publicação, se viria a revelar quase profético.
   

   A acção passa-se num futuro próximo. Na Casa Branca, Francis Xavier Kennedy, presidente dos Estados Unidos e sobrinho de John, Robert e Edward Kennedy, enfrenta a maior crise da sua carreira. Teresa, a sua única filha, foi raptada por terroristas que estão a fazer exigências inaceitáveis. Em Roma, na Semana Santa, o Papa é assassinado por um grupo de extremistas, ao mesmo tempo que dois cientistas ameaçam a nação com um engenho nuclear conservado em lugar secreto. Rodeado de conselheiros que lhe são extremamente leais e de Helen Du Pray, a primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos, tentam encontrar a melhor solução para esta crise e todos têm consciência do risco de assassínio que paira sobre todas as presidências dos Kennedy. Quando os acontecimentos se precipitam e Teresa é assassinada e uma bomba nuclear explode em Nova York, Francis Kennedy decide agir, sem olhar ás consequências dos seus actos, nem que isso implique entrar em conflito com quem realmente manda no país e serão esses mesmo que tomam a decisão de o destruir.
   
Mario Puzo 
   Mario Puzo, que em "O Padrinho"(1969), "O Siciliano" (1984) e em "O Último dos Padrinhos"(1996) retratou o universo da Mafia, volta-se agora para o mundo da política. Puzo usa o seu profundo conhecimento dos mecanismos ocultos do poder e daquilo que leva os homens a realizar acções desesperadas. Através de cenas de horror inesperado e quase brutal e de momentos de grande intensidade, "O Quarto Kennedy" desenvolve-se ao ritmo alucinante de um projéctil a caminho do seu alvo.
   
    Dez anos depois da sua publicação, a 11 de Setembro de 2001, a cidade de Nova York sofre dois atentados terroristas que resultam na destruição das Torres do World Trade Center e mais de 3000 mortos, num dia negro para o mundo e principalmente para a América. De repente, sem saber porquê, apercebemo-nos quão assustadoramente real pode ser a ficção.

   Tendo em conta que Puzo escreveu o livro muito antes do 11 de Setembro, percebe-se que a sua presciência é enorme, já que a narrativa é assustadora, directa e chocante nos paralelismos que se estabelecem entre aquela ficção e os acontecimentos que se passaram não só nesse dia como nos meses que se seguiram. As decisões que Kennedy toma, em destruir o Sultanato de Sherhaben, após a morte da filha na ficção, são em muito semelhantes aquelas que foram tomadas na realidade e que levaram ao ataque ao Iraque; também a explosão nuclear, quando acontece, muda dramaticamente o curso da acção, já que o presidente vai ao Congresso dirigir-se ás duas alas, Democrática e Republicana, enfrentando a possibilidade de exoneração (a fazer lembrar os escândalos da presidência de Bill Clinton), mas ao impôr a Lei Marcial no país, ele consegue convencer os seus maiores antagonistas a apoiá-lo no que quer que queira fazer. Aqui a obra mostra um pouco do que é o Poder Absoluto com todas as suas consequências e Puzo diz-nos que caminhamos perigosamente para esta situação.
   
   A América que Puzo nos mostra, é uma América que não é muito diferente daquela que existe hoje, onde ainda são as grandes fortunas que tudo controlam desde os meios de comunicação ao próprio poder seja ele jurídico, económico, social e se encarregam de escolher, fazer eleger e controlar quem está na Casa Branca ( no livro estão representados pelos membros do Clube Sócrates, que é o verdadeiro inimigo do presidente Kennedy). A única diferença da obra para realidade é a existência de uma personagem conhecida como "O Oráculo", com cem anos de idade e que todos consultam em busca de opiniões e conselhos, que funciona como uma espécie consciência de cada personagem e, numa perspectiva mais abrangente, da obra.
   
   Mario Puzo inventa um história em que as personagens, as situações, o enredo e os subenredos se misturam numa tapeçaria, que só um autor assim consegue fazer, tantas que são as voltas e reviravoltas na acção que o leitor se sente como se estivesse a andar numa montanha russa.
Se substituirmos os acontecimentos da ficção por acontecimentos reais que a história registou em anos recentes, então ficamos com uma obra de ficção quase proféctica. 
Será mesmo assim?


Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet


sábado, 25 de agosto de 2012

O Filme de Ficção Científica IV


                                   O Filme de Ficção Científica IV
                                   4.    O Futuro  (1980 -….)  
  
    No seguimento do sucesso de filmes como “Star Wars”, Star Trek”, ou “Alien”, a ficção científica tornou-se num género rentável, e, não tardou que todos os grandes estúdios agarrassem todo e qualquer projecto que estivesse disponível e  o produzissem, que foi o que acabou por marcar uma parte da década de 80. A partir de 1980, a distinção que existia entre ficção científica, fantasia e o filme de superheróis, esmoreceu emgrande parte graças á influência  de  “Star Wars”. Desde 1980 que os filmes do género, fossem do agrado  ou não dos critícos, passaram a ser ignorados, em festivais e outros eventos, como a Cerimónia Anual dos Óscares, excepto em categorias técnicas, o que não esmoreceu a vontade do público de ver mais e mais filmes de ficção e cada vez mais interessantes em termos técnicos.
    Em 1982, a Walt Disney, embalada com o sucesso obtido por “Star Trek”, produz “Tron” (Steven Lisberger), com a acção praticamente toda passada dentro dum computador, o seu visual arrojado para a época e tendo sido dos primeiros filmes de estúdio a fazer um uso extensivo de imagens gráficas geradas por computador, foi um sucesso enorme entre público e a critíca e serviu como rampa de lançamento para a Disney se tornar um dos grandes estúdios de cinema.
   Também em 1982, surgiram dois filmes que iriam ser decisivos para esta década e também para as seguintes. O primeiro foi “Blade Runner – Perigo Eminente”, realizado por Ridley Scott e, longe de apresentar um universo radioso, ordenado e simples, apresenta-o como sendo escuro, sujo e caótico e apresenta andróides como sendo hostis e perigosos. Recebido com algum desinteresse por parte da critica, mas com uma correspondência positiva por parte do público que se sentia curioso com esta abordagem estilo policial negro dos anos 40 e 50 e também graças aos néons com que o realizador, vindo da publicidade, enche o écran e também o olho do espectador, o filme foi ganhando um estatuto de culto que perdura ainda hoje.
     O segundo filme é completamente diferente do primeiro. “E.T. the Extra-Terrestrial – E.T. – O Extraterrestre”, realizado por Steven Spielberg e conta a história da amizade entre um pequeno ser extraterrestre que é deixado para trás pelos companheiros quando a sua nave tem de partir precipitadamente e um rapaz chamado Elliott. Aqui, os extraterrestres são amáveis e benignos, em contraste com o filme de Scott. A história era tão cativante, já que era o prolongamento dum sonho de infância do realizador que tornava assim real o seu encontro com extraterrestres que já apresentara em “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” (1977), tornando o filme um verdadeiro filme para toda a  família e o género descia assim ao nível familiar. Foi o maior sucesso de bilheteira, da década, como também, durante alguns anos, o maior sucesso da história do cinema.
     O género superprodução também se tentou impor na  ficção científica, mas  os únicos esforços nessa vertente foram “Flash Gordon – Flash Gordon , o filme” (Mike Hodges, 1980), nova transposição para o grande écran das aventuras da personagem criada por Alex Raymond; “Dune – Duna” (David Lynch, 1984), uma aventura da idade média passada no futuro e baseada no primeiro livro duma série de romances escritos por Frank Herbert. Ambos foram verdadeiros fracassos na bilheteira, assim como “2010 – O Ano do Contacto” (Peter Hyams, 1984), tentativa de fazer uma sequela de “2001: Odisseia no Espaço”, baseada também num livro de Arthur C.Clarke, mas que também não venceu nem convenceu nas bilheteiras, o que levou os produtores a não querem mais investir em adaptações cinematográficas.
    O género viria ainda a ver boas contribuições até ao final da década, em filmes como “Terminator – Exterminador Implacável” (James Cameron, 1984) onde um robot-assassino vem do futuro até ao presente para matar a mãe do futuro líder da resistência humana, que, por seu lado envia um seu soldado para proteger a sua mãe; “Robocop – O Policia do Futuro” (Paul Verhoeven, 1987), em que um protótipo de policia-robô é utilizado pelas forças da ordem na Detroit do futuro; “Back to the Future – Regresso ao Futuro” (Robert Zemeckis, 1985), em que, acidentalmente, um jovem viaja até ao passado, conhece os seus futuros pais e a sua mãe apaixona-se por ele. Alguns destes filmes foram verdadeiros sucessos de bilheteira mundiais e firmaram a constelação do género ficção científica.
    A década de 90 viu surgir um subgénero literário conhecido como CyberPunk, assim como a rede mundial, vulgarmente conhecida por internet e esta criou um novo subgénero dentro da ficção científica que deu origem a vários filmes, uns melhores, outros piores. Assim surgiram títulos como “The Lawnmower Man – Realidade Virtual – A Cobaia” (Brett Leonard, 1992) e “Virtuosity – Assassino Virtual” (Brett Leonard, 1995) cujo tema principal girava à volta das ameaças do interface dum computador humano; “Total Recall – Desafio Total” (Paul Verhoeven, 1990) ou “Johnny Mnemonic – O Fugitivo do Futuro” (Robert Longo, 1995), em que as personagens principais têm as suas memorias alteradas para interfaces semelhantes.
   Com o avançar de década, os computadores começaram a ter uma importância cada vez maior tanto nos efeitos especiais como na produção de filmes. Há medida que o software se tornava mais sofisticado, mais desenvolvidos se iam tornando os Efeitos Especiais e cada vez mais complexos, permitindo fazer melhoramentos em produções mais antigas e produzir efeitos incríveis em novos filmes.
    Mas foi no final da década que surgiu o filme que iria influenciar o género no século XXI: “Matrix” (Lana e Andy Wachowski, 1999) que nos conta a história duma máquina criada ao nível planetário e que mantém a humanidade virtualmente presa nas suas entranhas e dum grupo de humanos que, “acordado” para a realidade, tenta combater e destruir as  máquinas.  Enorme sucesso de bilheteira, graças em grande parte ao argumento inteligente escrito pelos irmãos Wachowski, inspirado em algumas obras de ficção científica, que mexe com uma das linhas mestras da ficção científica: a dominação por outros seres, embora aqui esse medo seja de origem humana, não deixa de ser uma temática diferente para o que contribuiram os efeitos especiais bastante evoluídos para a época. Vencedor de quatro Oscares da Academia e outros prémios internacionais, “Matrix” e as suas sequelas, foram decisivos para ficção científica no século XXI.
   Nos primeiros anos do século XXI, estranhamente, os filmes de ficção cientifica afastaram-se das viagens espaciais e começaram a predominar os filmes de fantasia, de que a trilogia “Lord of the Rings – O Senhor dos Anéis” (Peter Jackson, 2001-2003) foi o melhor exemplo. A fantástica adaptação do universo de J.R.R. Tolkien foi um triunfo absoluto em todos os campos e vencedor dum total de 17 Oscares da Academia em 30 nomeações e inúmeros outros prémios, entrou para a história como sendo o primeiro filme do género fantástico a ganhar o Óscar de Melhor Filme do Ano.
     A ficção científica volta, nestes primeiros anos do novo século, a ser uma ferramenta de comentário politico em filmes como “A.I. – Inteligência Artificial” (Steven Spielberg, 2001) onde se questiona os perigos do materialismo nos dias de hoje; “Minority Report – Relatório Minoritário” (Steven Spielberg, 2002) que subrepticiamente questiona os poderes policiais, a privacidade e as liberdades sociais nos Estados Unidos do futuro. Em fundo, claro, está presente o impacto do 11 de Setembro de 2001.
    Mais recentemente, “Avatar – Avatar” (James Cameron, 2009), veio revolucionar o género ao ser inteiramente rodado em 3D, um estilo que tinha estado então em voga na década de 50 do século passado. A história, de uma corporação multinacional mineira a querer colonizar um planeta, é banal e tem uma semelhança extraordinária com os tempos do colonialismo e alguma proximidade com a guerra do Iraque. O resultado é que foi estrondoso já que filme bateu todos os recordes de bilheteira no mundo inteiro.
    Seja como for, o filme de ficção científica, ao contrario de outros géneros como o Musical ou o Western já desaparecidos, apesar de um ou outro exemplo cinematográfico tendente a ressuscitá-los, veio para ficar e não se antevê que desapareça rapidamente já que está em constante mudança e o que hoje é sucesso, amanhã pode já não ser.

Nota: as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet



terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Filme de Ficção Científica III - Os Anos da Maturidade


                      O Filme de Ficção Científica III
                3.    Os Anos da Maturidade  (1970 - 1979)


     Em 1969 com a chegada do Homem à Lua, o filme de ficção científica viu renascer o interesse do público. Os filmes do inicio da década começaram a explorar o tema da paranoia, na qual a humanidade se vê confrontada com as ameaças, quer ecológicas, quer tecnológicas, por si criadas. 
   Filmes como “Silent Running – O Cosmonauta Perdido” (Douglas Trumbull, 1971) cujo tema gira em volta da ecologia; “The Omega Man – O Último Homem na Terra” (Boris Sagal, 1971), em que um vírus matou quase todos os seres humanos na terra. Um cientista militar tenta encontrar a cura para a epidemia, descobre que outros seres querem matá-lo; “The Andromeda Strain – A Ameaça de Andrómeda” (Robert Wise, 1971), onde um grupo de cientistas deteta um vírus extraterrestre que destrói uma cidade e um grupo de cientistas tenta descobrir a sua origem e impedir que alastre; “Westworld – O Mundo do Oeste” (Michael Crichton, 1973) em que robots representam o maior perigo para com os seus próprios criadores; “THX 1138 – THX1138” (George Lucas, 1971) em que o pior inimigo do homem é o próprio estado por ele criado; “A Clockwork Orange – A  Laranja Mecânica” (Stanley Kubrick, 1971),onde a ameaça da lavagem cerebral paira sobre o ser humano e, num sentido mais lato, sobre a sociedade; “Rollerball – Os Gladiadores do século XXI” (Norman Jewison,1975), onde algures no século XXI um jogo motorizado, disputado numa arena, serve para aplacar os instintos violentos da população enquanto as grandes corporações empresariais tomam decisões a nível mundial, são alguns dos “filmes-paranoia” que surgiram no início da década. 
    Mas a par destes, também surgiram alguns outros que, apesar de se posicionarem no género ficção científica, o tema dominante era a conspiração em volta da sociedade. É o caso de “Soylent Green – Á Beira do Fim” (Richard Fleischer, 1973) onde, numa Nova York do futuro, um assassinato de um alto executivo põe a descoberto uma realidade horrível; ou “FutureWorld – O Mundo do Futuro” (Richard T.Heffron, 1976), espécie de continuação de “Westworld” em que o mundo de sonho de Delos, agora rebaptizado de “Futureworld”, está pronto a ser reaberto, mas os jornalistas encarregues de escrever sobre este evento, não estão convencidos de que, após os acontecimentos que levaram ao seu encerramento anterior, tudo esteja bem, até que alguém aparece morto e a coisa torna-se sinistra.
    Entretanto em 1972, da União Soviética, surge um filme surpreendente. “Solyaris – Solaris”, realizado por Andrei Tarkovski, baseado num romance de Stanislaw Lem, conta a história dum planeta inteligente e da influência psicológica que exerce sobre os astronautas que habitam a Estação espacial que orbita o planeta. É um filme lento que iguala e supera mesmo “2001” em alguns aspectos, na sua apresentação visual e na sua filosofia. Recebido pela crítica internacional como um filme revolucionário e entendido por muita gente como uma espécie de resposta europeia ao “2001: Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick.
    Em 1976 “Logan’s Run – Fuga no Século XXIII”, realizado por Michael Anderson traz de volta a temática do sistema contra o cidadão mas de um modo mais agravado do que em outros filmes: aqui a vida do ser humano termina aos 30 anos! E é contra isso que Logan, um guardião duma cidade que vive encerrada dentro duma redoma de vidro, vai lutar e tentar provar que a vida existe para além da idade limite. Produto típico da década de 70, com visual adequado á altura em que foi feito, mas não envelheceu, como aconteceu com muitos filmes desta época, antes pelo contrário, continua a ser uma agradável experiência ver este filme e apreciar todos os seus momentos. Contrariamente ao que se pensou na altura, o filme foi um sucesso de bilheteira e levou à criação duma série de televisão embora de pouca duração.
 Sentia-se, a meio da década de 70, que algo estava para mudar na indústria cinematográfica e, particularmente, no género da ficção científica.                 
    Foi então que em 1977 a aposta dos estúdios da Fox,  numa força imaginária que protegia uma série de nobres cavaleiros, defensores duma velha república situada num universo longínquo, contra as forças do mal lideradas por um imperador poderoso e um ser maléfico, meio homem meio máquina, resultou em pleno. O fantástico universo imaginado e criado por George Lucas em “Star Wars – A Guerra das Estrelas”, transformou radicalmente a face da ficção científica e elevando-a a patamares nunca antes atingidos e levou a uma subida de interesse e procura por filmes do género. 
     O filme foi um sucesso mundial a todos os níveis, foi, durante anos, o maior sucesso de bilheteira da história do cinema e é, ainda hoje, o filme de ficção cientifica mais premiado da história com sete Oscares da Academia. Seis filmes e mais de 30 anos depois da sua estreia, “a saga Star Wars” mantém ainda um incrível ranking nos melhores filmes da história do cinema com dois títulos posicionados no “top ten”. 
    Já “Close Encounters of the Third Kind – Encontros Imediatos do Terceiro Grau” (Steven Spielberg, 1977), onde nos são relatados os estádios por que poderá passar a humanidade caso venha a encontrar-se com extraterrestres, continha algumas reminiscências de elementos místicos com “2001”. Trata-se de um brilhante exercício cinematográfico de Spielberg, baseado no seu desejo de infância de ter um encontro imediato com um extraterrestre.
    As descobertas espaciais e os avanços tecnológicos criaram uma sensação de maravilha acerca do universo e levaram a que o final da década ainda visse surgirem algumas obras reveladoras da maturidade a que a ficção científica chegara: “Star Trek: Tjhe Motion Picture – Caminho das Estrlas – O Filme” (Robert Wise, 1979) trouxe para o grande écran, pela primeira vez, a muito apreciada série televisiva criada em 1966 por Gene Roddenberry; “Time After Time – Os Passageiros do Tempo” (Nicholas Meyer, 1979), numa viagem no tempo original, H.G.Wells confronta-se com Jack, O Estripador, na San Francisco do século XX; “Alien – O 8º Passageiro” (Ridley Scott, 1979), onde os tripulantes duma nave comercial são confrontados com um monstro que os vai eliminando um a um. Este último filme inaugurou uma nova fase nos filmes de ficção científica, conhecida como terror científico e demonstra bem a maturidade que o género atingiu ao longo da década de 70. 
     O cinema de ficção científica estava agora pronto para abraçar uma nova década.
                               (continua)                                          
                                 
  Nota: As imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet                                     
                                 



terça-feira, 31 de julho de 2012

O Filme de Ficção Científica II - Os Anos da Afirmação


                        O Filme de Ficção Científica II
                    2.    Os Anos da Afirmação (1960-1969)


     A década de 60 não começou da melhor maneira para o filme de ficção científica. De facto,  depois do boom que foi a década de 50, fizeram-se muito poucos filmes do género nesta década, mas  os que se fizeram, viriam a transformar radicalmente a face do género.
Logo em 1960 “The Time Machine – A Máquina do Tempo”, realizado por George Pal, ainda a sofrer alguma influência das temáticas da década anterior, põe no écran um dos mais famosos livros de H.G.Wells e onde a ficção quase que iguala a realidade, na medida em que enquanto acompanhamos George e a sua viagem ao futuro, passamos por duas guerras e vemos um futuro onde a humanidade se encontra dividida em duas espécies. Grande sucesso de bilheteira, graças a um  tema que sempre apaixonou os cinéfilos,  viria a abrir inúmeras portas para outras obras futuras. Mas a década ainda estava no princípio e muito ainda iria acontecer.  
    Enquanto na América,  a concorrência crescente da televisão, forçava o cinema a fazer filmes de grande orçamento (as chamadas superproduções), a Europa acordava para um novo género de cinema completamente diferente daquilo a que se estava habituado: A “Nouvelle Vague” ou nova vaga. Iniciado em França no final dos anos 50, principio dos anos 60, foi um movimento artístico, contestatário, caracterizado pela juventude dos seus autores, dos quais Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais ou Claude Chabrol, entre outros, foram os principais mentores. Os dois primeiros haveriam de fazer a sua contribuição  para o filme de ficção científica, comentando e criticando  satiricamente a sociedade. 
      “Alphaville – Une Etrange Adventure de Lemmy Caution – Alphaville” (Jean-Luc Godard, 1965). Um detective privado  americano de nome Lemmy Caution é enviado para a cidade de Alphaville, que fica num planeta distante, onde tem que encontrar uma pessoa desaparecida e libertar a cidade do tirano que a governa.O filme obteria sucesso graças  à sátira que faz dos filmes policiais negros americanos dos anos 40.  Já “Fahrenheit 451 – Grau de Destruição” (François Truffaut, 1966) é um caso diferente. Baseado num romance homónimo de Ray Bradbury, o filme segue a história de um bombeiro solitário,  que vive num mundo onde todos os livros foram destruídos porque o governo teme uma sociedade de livres-pensadores, que começa a questionar a verdadeira natureza da sua missão. Truffaut, além de fazer uma discreta analogia entre o período da queima dos livros na Alemanha, da década de 30  por altura do Nazismo e o McCarthismo histérico que assolara os Estados Unidos na década de 50, faz também  uma censura política e um comentário social abarcando tanto a Europa como os Estados Unidos.
        Mas seria dos Estados Unidos que viriam os filmes que mais iriam influenciar o género e toda a produção que daí adviria. Em 1964 “Dr. Strangelove, or How I Learned to stop worriyng and love the Bomb – Dr.Estranhoamor”. No filme, um general americano da força aérea,paranóico, acredita que os soviéticos conseguiram envenenar as reservas de água dis Estados Unidos e ordena que os bombardeiros americanos se posicionem na União Soviética para ripostar enquanto na Sala de Guerra, governo e militares tentam impedir que aconteça uma catástrofe. Sátira brilhante, pela mão de Stanley Kubrick, aos efeitos da Guerra Fria iniciada na década anterior.
       Mais ousado foi o filme “Fantastic Voyage – Viagem Fantástica” (Richard Fleischer, 1966). Para salvar a vida dum diplomata ferido, uma tripulação num submarino tem de ser miniaturizada e injectada dentro do fluxo sanguíneo para tentar desfazer o hematoma que o faz correr perigo de vida. Ver o interior do corpo humano cativou o público e fez do filme um sucesso relativo granjeando-lhe dois prémios da Academia para Melhor Direcção Artística e Melhores Efeitos Especiais. Ousado foi também “Barbarella – Barbarela” (Roger Vadim, 1968) a dar um toque de erotismo ao género. Num futuro longínquo, uma mulher extremamente sensual é encarregada de encontrar e destruir  Durand-Durand, um inventor maléfico que consegue criar um pecado a todas as horas.Pelo caminho, Barbarela, vai encontrando osmais diversos tipos de pessoas com quem se envolve emocional e fisicamente. O filme foi um sucesso relativo, graças à bonita e sensual actriz Jane Fonda, mas serviu também para prestar homenagem ao lado mais idiota do início da ficção científica.
        Em 1968 o filme de ficção científica estabelece-se definitivamente como  género maior. Dois filmes serão os responsáveis por esta mudança no género: “2001: A Space Odyssey – 2001: Odisseia no Espaço “ e “Planet of the Apes – O Homem que Veio do Futuro”. Em relação ao primeiro, pouco ou nada há a dizer. Trata-se da obra-prima do género, é o filme mais influente da década, uma história muito dificil de se resumir, que  sempre suscitou discussões apaixonadas. Baseado num conto de Arthur C. Clarke, e realizado com mestria por Stanley Kubrick,” 2001”, desde a sua estreia, sempre foi visto como um filme seminal dentro do género e foi o primeiro filme a conter um fundo filosófico que outros filmes nunca tinham tido nem tentado sequer. Incompreendido por muitos, é hoje visto como um dos melhores filmes de todos os tempos.
 Quanto a “Planet of the Apes – O Homem que veio do Futuro”, foi o maior sucesso de bilheteira do género na década, muito graças à sua história de uma nave que se despenha num planeta distante governado por macacos que falam e pensam como seres humanos enquanto estes estão impedidos de falar e são escravizados pelos governantes. Taylor, um dos astronautas, consegue fugir com a ajuda de dois macacos cientistas, renegados, mas o que vai descobrir é uma realidade mais chocante do que aquele mundo invertido. O filme, realizado por  Franklin J. Schaffner, baseado num livro que fora banido da américa na década de 50 porque o seu autor, Pierre Boulle, estava listado nas comissões do senador McCarthy, tornou-se num grande sucesso, abarcou quatro continuações ( o termo sequela ainda não se usava) e uma série de televisão, em parte porque a temática era original e algo medieval no tratamento da acção e das personagens e quase inédito no género..Aqui se percebe como é que o filme se tornou num filme de culto, porque depende muito do trabalho do realizador, que, utilizando paisagens desérticas e as suas formações rochosas, dá ao filme a necessária componente alienígena afastando-nos ainda mais da verdadeira realidade que nos cai em cheio no agora famoso final que é dos mais inesperados e chocantes finais da história do cinema.
A Ficção Científica afirmava-se como um género que estava para ficar.
                                                                              (Continua)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Filme de Ficção Científica I - As Primeiras Décadas


                       
                  1.    As Primeiras Décadas (1900-1959) 


                  Desde que o cinema começou,  que se encontra a Ficção Científica em filmes. Definir quais os filmes que pertencem ao género nunca foi uma tarefe fácil, já que não existe nenhuma definição universalmente aceite do que é o género. Existe, no entanto, uma definição que funciona como uma espécie de sumário de todas elas “O filme de ficção é um género que especula e enfatiza o método científico, num contexto social com o sempre presente transcendentalismo da religião e da magia numa tentativa de reconciliar o homem com o desconhecido”.  Esta definição assume que existe uma continuidade entre o empirismo do mundo real e o transcendentalismo do sobrenatural, em que a ficção científica está do lado do empirismo, enquanto o filme de terror e o fantástico ficam do lado do transcendentalismo, embora existam casos em que o terror e a ficção científica  “andam de braço dado”            
            Filmes de ficção científica apareceram cedo, ainda na altura do cinema mudo, tipicamente eram curtas-metragens filmadas a preto-e-branco, por  vezes com alguma tintagem colorida, a temática era tecnológica e por vezes cómica. Em 1902 estreou “Le Voyage dans la Lune – Viagem à Lua”, geralmente considerado o primeiro filme de ficção científica. Realizado por Georges Méliès, utilizou truques fotográficos para mostrar, em três minutos, uma nave que viajava até à lua. A literatura de ficção cientifica serviria de base a muitos filmes do género. Em 1916 “As 20000 Léguas Submarinas” de Júlio Verne foi transformado em filme, a primeira das muitas  adaptações que se iriam fazer. Já em 1910  com “Frankenstein”, baseado no livro  de Mary Shelley e em 1913 com “Dr. Jekyll and Mr.Hide” de Robert Louis Stevenson, o cinema introduziu o conceito do “cientista louco” no cinema. Outro conceito viria a ser introduzido nesta altura,  muito devido ao sucesso obtido por “The Lost World”, em 1925, adaptação do livro de Sir Arthur Conan Doyle, que foi dos primeiros exemplos a usar imagens fotográficas animadas, dando origem aos conceitos de ficção científica de monstros, dinossauros e mundos escondidos.
            Na europa, na década de 20, o filme de ficção científica evoluiu de maneira diferente em relação ao cinema americano. Os realizadores europeus utilizaram o género para fazer previsão e comentário social. Na rússia, o filme “Aelita” (1924) discutiu a Revolução no contexto duma viagem a marte. Outras obras importantes desta altura incluíam “The Cabinet of Dr.Caligari - O Gabinete do Dr.Caligari “ (Robert Wiene,1919), “Paris Qui Dort - Paris que Dorme” (René Clair, 1925), “Luch Smerti” (Lev Kuleschov,1925), entre.outras. Porém, em 1927, na Alemanha surgiu uma obra importante, não só no contexto do cinema europeu, como no contexto do cinema mundial.  Fritz Lang, um pioneiro do cinema e do expressionismo europeu, realiza “Metropolis”, um filme, cuja acção se passa em 2026 e que, além de ser o mais caro filme da altura, apresentava todos os elementos-chave de ficção cientifica: um robot autónomo, um cientista louco, uma sociedade distópica do futuro e cenários altamente futuristas (inspirados na cidade de Nova York) e, posteriormente, face aos acontecimentos que se deram na europa e no mundo, durante a década seguinte, foi considerada uma das grandes obras de antecipação da história do cinema.
            O cinema da década de 30 foi grandemente influenciado pelo advento do som e também pelos efeito da Grande Depressão. Logo em 1930, o fracasso o filme “Just Imagine - 1980”, realizado por David Butler que foi o primeiro filme de ficção científica musical cuja história se passa em 1980 num mundo completamente diferente daquele que existia,   quando a personagem principal, depois de ter sido atingido por um raio, em 1930, é ressuscitado 50 anos depois e descobre que tudo aquilo que conhecera no seu tempo fora substituído por outras coisas. Rebaptizado com o nome de "Single O", é escolhido por um cientista para fazer parte duma expedição de quatro meses a Marte e quando lá chegam descobrem que o planeta está cheia de mulheres cobertas  da cabeça aos pés que fazem números de dança e idolatram um homem pequeno e gordo.  Também o filme britânico “Things to Come - A Vida Futura” (William Cameron Menzies,1936), baseado no livro de H.G.Wells, que projetava o mundo 100 anos no futuro e já previa a II Guerra Mundial, não conseguiu render o suficiente nas bilheteiras e os estúdios tornaram-se relutantes em financiar grandes projetos futuristas. 
       Em vez disso, começam a surgir os filmes -série: produções de baixo orçamento, feitos rapidamente sem grande preocupação a nível de argumento, mas com acção e muito armamento sofisticado. Algumas das séries mais populares desta altura foram a série de filmes sobre “Flash Gordon” ou as atribulações de “Buck Rodgers”, entre outras e continuavam a usar elementos de ficção científica como as viagens no tempo, alta tecnologia, assim como ideias de dominação mundial ou cientistas loucos que iriam estar também presentes na produção cinematográfica da década de 40 e na mais importante criação desta década: a série animada de “Superman”, o super-herói patriota. Apesar de alguma propaganda disfarçada e o facto de alguns heróis de banda desenhada, como “O Capitão América” ou “Batman”, terem ido também combater na II Guerra Mundial, o cinema de ficção científica andou algo adormecido durante os anos de guerra.
            Na década de 50, dois acontecimentos que tiveram impacto nos filmes de ficção científica: o desenvolvimento da Bomba Atómica levou a um interesse redobrado pela ciência, assim como  a ansiedade e medo dos efeitos duma guerra nuclear. Nesta altura começou também o período conhecido como A Guerra Fria e a paranoia da expansão do comunismo nos Estados Unidos. Estes  últimos levaram a um maior incremento de filmes de ficção cientifica, ao longo da década, criando assim uma Época de Ouro de filmes de ficção científica semelhante aquela que acontecera na literatura. 
           Filmes com pequenos orçamentos foram sucessos de bilheteira assim como alguns com orçamentos maiores e efeitos especiais impressionantes, não deixaram de maravilhar um público ávido, como por exemplo “The Day the Earth stood Still – O Dia em que a Terra parou” (Robert Wise, 1951), “The Thing from another World – A Ameaça” (Howard Haws e Christian Nyby, 1951), “The War of the Worlds – A Guerra dos Mundos” (Byron Haskin,1953), “20.000 leagues under the sea – 20.000 Léguas Submarinas” (Richard Fleischer, 1954),  “The Forbidden Planet – O Planeta proibido” (Fred M. Wilcox,1956), Invasion of the Body Snatchers – A Terra em Perigo” (Don Siegel, 1956) ou “On the Beach – A Hora Final” (Stanley Kramer, 1959). 
           Ainda durante esta década criou-se uma espécie de ligação entre os filmes de ficção cientifica e aqueles que foram  chamados “Monster Movies - filmes de monstros" (literalmente traduzido), de que Ray Harryhausen, um dos grandes nomes dos Efeitos  Especiais, foi o grande impulsionador. Usando imagens fotográficas animadas para criar efeitos especiais para alguns dos mais notáveis filmes da época e da ficção cientifica tais como “Them - O Mundo em Perigo” (Gordon Douglas,1954), “The Beast from 20.000 Fathoms - O Monstro dos Tempos Perdidos” (Eugene Lorié,1953),  “It Came from Beneath the Sea - O Octopus” (Robert Gordon, 1955) ou “The Blob - A Bolha Assassina” (Irvin S. Yeaworth,1958), Harryhausen tornou-se num dos nomes incontornáveis da magia cinematográfica.
            Estava a chegar uma nova década, com novos desafios, novas temáticas e também alguma revisão da matéria dada. A Face do cinema de ficção cientifica nunca mais iria ser a mesma.
                                                                                      (Continua)




Nota: As Imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

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