sábado, 30 de junho de 2012

O Exorcista - Quando Ciência e Religião se chocam


    Drácula, Frankenstein, Lobisomens ou até mesmo zombies sempre fizeram parte do cinema. Quase desde os primórdios da sétima arte que o género terror sempre fez parte do imaginário dos espectadores. O que ninguém estava era preparado para o choque que, em 1973, "O Exorcista" provocou em todo o mundo.
    Regan McNeil é uma jovem americana como tantas outras que vive com a mãe depois dos pais se terem separado. A jovem começa a ter comportamentos estranhos que a mãe associa ao facto do pai se ter esquecido do seu aniversário. mas os comportamentos dela tornam-se ainda mais estranhos e bizarros e a mãe resolve consultar os médicos que, após uma série de testes e análises, não conseguem encontrar nenhuma explicação lógica para o que se passa com a jovem. Então alguém adianta a Chris McNeil, a hipótese da filha estar possuída por algum espiríto pelo que a única solução possível será um exorcismo.
    
   Realizado por William Friedkin, que acabou por ser uma escolha do próprio William Peter Blatty, depois de vários outros realizadores como Arthur Penn, Peter Bogdanovich, Mark Rydell ou até Stanley Kubrick, terem sido contactados e terem recusado o projecto. Blatty acabou por se fixar em Friedkin, já que queria neste filme a mesma energia que o realizador pusera em "French  Connection - Os Incorruptíveis contra a Droga" (1971), o seu filme anterior, com o qual ganhou o Óscar de Melhor Realizador, um dos cinco que o filme ganhou, incluindo o de Melhor Filme do Ano.          A sua realização, embora algo  dura, já que utilizou durante a rodagem métodos pouco ortodoxos para com os seus actores (desde agressões verbais até agressões físicas onde chegou ao ponto de esbofetear um actor para obter dele a reacção necessária para conferir o realismo  à cena), é normal nas cenas em que mostra a impotência da ciência em explicar o que se passa com Regan e também como as McNeil (mãe e filha) se relacionam com o Padre Damian Karras, pároco recém colocado, com remorsos devido ao recente falecimento da mãe. Karras é a pessoa a quem Chris recorre quando lhe é apresentada a hipótese de Regan estar possessa por um espírito. Relutante, o padre aceita investigar o que se passa, quando se conclui o que realmente a jovem tem, o padre nada pode fazer pois necessita da supervisão de alguém mais experiente. É então chamado o Padre Lancaster Merrin (Max Von Sydow, no papel mais famoso da sua já longa carreira), que já sobrevivera a um exorcismo. A partir daqui, o trabalho de Friedkin torna-se ainda mais intenso e , fruto de uma montagem engenhosa e avançada para a época, competente e inventivo na famosa sequência do exorcismo.
    O argumento de William Peter Blatty é supostamente baseado numa história verídica,ocorrida em 1949 na cidade de Cottage no estado de Maryland, com um jovem de nome Roland Doe ,está cheio de contrastes de ciência versus religião, o que torna a história e posteriormente o filme ainda mais interessante.
     Para um filme desta dimensão quase aterradora, Friedkin necessitava duma banda sonora adequada. Inicialmente rejeitou a música de Lalo Schifrin , que misturava os locais onde a acção se passa com sons estranhos, por a considerar demasiado aterradora para o público. Acabou por usar temas clássicos modernos, alguma música original de Jack Nitzche e incluir um excerto do inicio de "Tubular Bells" de Mike Oldfield, que tinha sido lançado meses antes da estreia do filme. Esta última escolha do realizador provou ser acertada já que as cenas em que o tema se ouve dão ao filme uma aura de algo sobrenatural tal é a subtileza com que o tema foi incluído e tornou a música extremamente conhecida. 
   Quando estreou em 1973, "O Exorcista" provocou uma onda de choque e horror entre os espectadores que assistiam ao filme. O realismo era tal que havia ambulãncias e equipas médicas a postos nos cinemas prontas a dar assistência a quem dela necessitasse.
   
     O filme foi um grande sucesso de bilheteira em todo o mundo, foi nomeado para dez Óscares da Academia,incluindo Melhor Filme do Ano, tendo sido o primeiro filme de terror da história do cinema a ser nomeado nesta categoria, vencendo apenas dois nas categorias de Melhor Som e Melhor Argumento Adaptado. 
   Como não podia deixar de ser, o sucesso do filme daria origem a duas sequelas (numa altura em que o termo ainda não se usava) e outras tantas prequelas: quanto ás primeiras, "Exorcista II - O Herege" (John Boorman,1977) é francamente mau e habitualmente ignorado quando se fala desta série;  já "Exorcist III - Exorcista III" (William Peter Blatty, 1990), é diferente: ignora o segundo filme e continua a história, anos depois, segue outro caminho mas sem nunca perder de vista personagens e situações que nos reportam para o primeiro filme, é muito interessante mas, inexplicavelmente, não conseguiu convencer o público. 
   Quanto às segundas, já a história é outra: foram feitos dois filmes para contar a história de como tudo começou sendo que a produção não gostou de um dos filmes, despediu o realizador e contratou outro para contar a mesma história. O resultado final foram dois filmes: "Exorcista: O Princípio"(Renny Harlin, 2004) que foi o segundo filme a ser feito e é muito mau, para não dizer ridículo!; o outro é "Dominion: a Prequel to the Exorcist" (Paul Schrader, 2004) e é superior ao seu sucessor.
   Lamentavelmente nenhum, se exceptuarmos "Exorcist III", se aproximou da qualidade do primeiro, principalmente no tocante a cenas marcantes como a cena da rotação da cabeça a 360 graus; ou a cena em que Regan se auto-viola com um crucifixo.
   O original é o melhor de todos e ficou como uma referência do género e um filme marcante para tudo aquilo que se fez posteriormente. 
  Em 2000, foi lançada uma edição intitulada "Director's Cut - A versão que você nunca viu", onde constam mais 11 minutos de cenas inéditas que apenas completam o que já se conhecia, mostram mais uma ou duas cenas de Regan já possuída pelo demónio, incluindo uma cena em que ela desce uma escada  como uma aranha e um final diferente  em que, na última cena, já depois da familia McNeil ter partido, o padre Dyer e o Tenente Kinderman conversam enquanto se afastam da casa que é vista no último plano e onde se vê uma espécie de "presença" a deslocar-se no quarto de Reagan a indicar-nos que a casa ainda não estava limpa, abrindo então caminho para uma possível continuação...
     Ao longo dos anos a importância de "O Exorcista" cresceu consideravelmente e influenciou um manancial de imitações, mas também inspirou muitos filmes de qualidade, incluindo "O Silêncio dos Inocentes" (Jonathan Demme, 1991) que levaria para casa cinco Oscares, incluindo o de Melhor Filme do Ano, tornando-se no primeiro filme de terror a levar este prémio para casa e seria um dos três únicos filmes da história do cinema (até ao momento) a levar para casa os cinco prémios principais da academia: Filme, Realizador, Actor, Actriz e Argumento. 
            Em 2008, "O Exorcista" foi considerado um dos 11  mais assustadores filmes de sempre e a revista cinematográfica "Empire" considerou-o um dos 500 melhores filmes de sempre. Seja qual for a versão que se veja, "O Exorcista" continua a ser uma referência obrigatória do cinema e do género em particular.

Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet





  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Um Blogger confessa-se


    Esta entrevista foi-me solicitada em fevereiro de 2012 por José Carlos Francisco, administrador dum blog português sobre Tex Willer, personagem de banda desenhada, a quem agradeço a cedência de autorização para a poder publicar neste blog.


Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.


Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?

Rui Cunha: Chamo-me Rui, sou casado e tenho dois filhos, tenho 46 anos, nasci a 27 de Janeiro de 1966 em Lisboa. Trabalho na Tap Portugal, desde 1991, onde, actualmente,  exerço  funções de Oficial de Operações de Vôo.
Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?

Rui Cunha: Foi mais ou menos na altura em que descobri o meu interesse pela leitura… deveria ter aí uns sete ou oito anos… ofereceram-me o livro “A Espada do Paladino” de Bob Morane… lembro-me que nessa altura a Bertrand editava regularmente livros de Michel Vaillant, Ric Hochet, Luc Orient, Dan Cooper, além dos livros de Tintin, Astérix, Lucky Luke, entre outros…
Quando descobriu Tex?

Rui Cunha: Descobri o Tex em 1978, quando estava de férias no Brasil e adquiri por acaso “AFlecha Negra”, nº10 da edição Brasileira normal.
Porquê esta paixão por Tex?

Rui Cunha: Quando era pequeno, uma das coisas que me lembro era  de querer ser cowboy… queria sercowboy!… além de que sempre gostei de ver westerns… apesar de não terem sido os primeiros filmes que vi (estreei-me no cinema a ver “A Bela Adormecida”, o filme de animação da Disney), lembro-me de filmes que vi nessa altura (tinha para aí uns sete anos!) e alguns eram westerns
O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?

Rui Cunha: A sua longevidade e espírito aventureiro… afinal, qual é o herói que, com a provecta idade que Tex tem (63 anos, se não me engano!), ainda se mete em aventuras como aquelas em que ele se mete?!
Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?

Rui Cunha: Nunca as contei… mas, seguramente, devo ter mais de 200… a mais importante para mim… talvez seja a nº 10 da edição Brasileira, por ter sido a primeira que comprei…
Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?

Rui Cunha: Apenas as revistas…
Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?

Rui Cunha: Já possuo: as revistas e um desenho autografado por Fabio Civitelli quando da sua passagem por Beja em 2010… mas qualquer coisa que apareça ou eu  possa adquirir, fá-lo-ei com agrado… mas aqui em Portugal é muito difícil surgirem outras coisas relacionadas com a personagem…. já as revistas, para se adquirirem, é preciso fazer uma ginástica enorme…
Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?

Rui Cunha: Não tenho uma só história preferida… tenho várias!… mas aquela que mais me entusiasmou na altura e ainda hoje gosto de a reler, é a que foi publicada nos nº 83 e 84 da edição Brasileira “Terror na Selva” e “Black Baron”, talvez por lidarem com as questões de Magia Negra e Voodoo , além de serem com Mefisto, o arqui-inimigo de Tex… a nível quer de desenhador, quer de argumentista, como não sou entendido na matéria, não tenho nenhum em particular… acho-os todos bons!
O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?

Rui Cunha: O que mais me agrada em Tex é o facto das histórias ainda serem publicadas a preto-e-branco, dá-lhes alguma aura de realismo e algum mistério necessário para algumas das histórias, nomeadamente aquelas que lidam com Mefisto e o seu filho Yama, além de que o preto-e-branco fica melhor neste tipo de revistas… aquilo que menos me agrada, é o facto das histórias se estenderem por duas ou mais revistas, o que, tendo em conta o diminuto mercado que existe em Portugal para este tipo de publicações, se torna aborrecido porque a maior parte das histórias, se a revista seguinte não vier por qualquer motivo até ao quiosque onde as costumamos comprar, ficam incompletas o que é sempre chato porque depois não se consegue encontrar a revista porque simplesmente não temos mercado para isso…
Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?

Rui Cunha: Acho que o que torna Tex um ícone é precisamente o ser uma publicação única no género, orientada, não  para um único público, mas sim para todo o público,  cuja acção se centra no velho Oeste, o que nos traz sempre alguma nostalgia dos filmes que todos aprendemos a gostar…
Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?

Rui Cunha: Não, nem por isso… conheço o José Carlos Francisco (embora ainda não tenhamos falado pessoalmente… mas espero que isso venha a acontecer futuramente!), conheço também o seu colega Mário Marques com quem há algum tempo atrás, também a propósito de Tex, troquei alguns mails… conheço-o através da sua esposa, a Maria Aragão, que é minha colega na Tap Portugal… e conheço o ilustrador e autor de banda desenhada João Amaral, de quem sou amigo há muitos anos e com quem, inclusive, já colaborei na adaptação para BD do livro de João Aguiar “A Voz dos Deuses”…
Para concluir, como vê o futuro doRanger?

Rui Cunha: Espero que o futuro de Tex seja radioso, que continue a ser lido e apreciado como tem sido até aqui… gostaria que as novas gerações, em vez de perderem tempo a vegetar em frente aos televisores, em frente aos computadores ou nas consolas de jogos, dedicassem algum tempo a cultivar hábitos de leitura, como eu e muita gente fez… e  o Tex é, sem dúvida, uma boa ajuda nesse sentido, já que não obriga a grandes esforços para se compreender as suas histórias… por último gostaria que houvesse alguma editora que se interessasse pela edição nacional das revistas deste herói que tantas alegrias deu  e continua a dar a tantos fãs por esse mundo fora…

Prezado pard Rui Cunhaagradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Hill Street Blues - ...e a Televisão nunca mais foi a mesma coisa...


                                                               


            Em 1981, a cadeia de televisão Norte-Americana NBC fazia história na cerimónia dos “Emmy’s”, prémios de televisão, entregues anualmente, ao conseguir que, pela primeira vez desde 1949, ano em que começou a cerimónia, uma série, na sua temporada de estreia, recebesse oito prémios, num total de 21 nomeações, incluindo o prémio para Melhor Série Dramática. “Hill Street Blues – Balada de Hill Street”, assim se chamava essa série, viria a mudar radicalmente a face da televisão.
     A produtora “MTM Enterprises”, desenvolveu o projecto  em nome da NBC, encarregando os escritores Steven Bochco e Michael Kozoll de criar  uma possível série televisiva. Dando largas à sua imaginação, os escritores, uma vez que tinham liberdade criativa considerável, criaram uma série de novas ideias que se viriam a tornar fundamentais na produção televisiva futura:
- Os episódios apresentavam várias histórias ligadas entre si, algumas eram resolvidas naquele episódio, outras no decorrer de vários episódios.
- A vida, profissional e privada, das personagens, por vezes colide entre si.
- Cada episódio começa com uma sequência pré-genérico de briefing matinal (“Roll Call”), dado por um Sargento, a que toda a gente (Detectives e Polícias uniformizados) assiste, recebe as suas missões e prepara o seu dia de serviço.
- Todos os episódios são filmados de camera ao ombro, permitindo uma acção e corte rápidos entre as histórias, através duma montagem igualmente rápida. A existência de muito ruído e diálogo em fundo dá o efeito de “quase documentário” e de realidade necessários. Esta técnica foi usada desde o episódio-piloto, produzido em 1980 e inspirado no documentário “The Police Tapes”, realizado em 1977 e no qual os realizadores usavam cameras ao ombro para poderem seguir os polícias no Bronx. Já em 1971 o realizador William Friedkin utilizara parcialmente esta técnica na sua obra-prima “The French Connection – Os Incorruptíveis contra a Droga”.
- A maioria dos episódios termina numa situação doméstica em que as personagens do Capitão Frank Furillo e da Advogada Joyce Davenport, discutem o seu dia de trabalho.
      Inspirada em variada matéria sobre o assunto, tais como: casos processuais, outras séries e romances policiais e de detectives, principalmente o livro de Ed McBain “Cop Hater”, escrito em 1956, “Hill Street Blues” relatava o dia-a-dia duma Esquadra de Polícia situada numa qualquer cidade americana, os problemas com que se deparavam os seus funcionários, a dificuldade, muitas vezes também, a impossibilidade de fazer respeitar a lei e a justiça.  A frontalidade real e brutal com que a série descrevia a vida urbana, a violência (houve quem a considerasse gratuita e desnecessária) e as diferenças sociais existentes na década de 80 foi considerada revolucionária para a época. Embora filmada em locais específicos da baixa de Los Angeles, ou utilizando algumas sequências filmadas em Chicago para o genérico inicial  e também nos estúdios da CBS, nunca se sabe realmente qual a cidade em que se situam os bairros problemáticos onde se passa a acção, o que foi uma decisão inteligente dos criadores tornando a série muito mais abrangente porque se pode situar tanto em New York, como em Los Angeles, ou em qualquer outra grande metrópole dos Estados Unidos.
   A cultura de gangs também foi muito bem explorada ao longo das diversas temporadas. As negociações que aconteciam entre os líderes dos gangs decorriam geralmente na esquadra e tinham tanto de cómico ( o visual e a maneira de falar dos diversos líderes) como de dramático (quando os líderes não se entendiam uns com os outros ou com a polícia e acontecia uma cena de pancadaria). As interações entre polícia e gangs centravam-se à volta do gang “Los Diablos” e a relação difícil, a princípio, depois consolidada através de admiração, colaboração e mutúo respeito entre o carismático líder do gang, Jesus Marinez e o capitão Furillo.
   Ao longo de sete temporadas, os espectadores habituaram-se a conviver com personagens quase familiares: desde o chefe da esquadra de Hill Street, o incorruptível e pouco permissivo Capitão Francis Furillo, passando pelos detectives, polícias uniformizados, pelo negociador Henry Goldblume, o vice-chefe da esquadra Ray Calletano, a Defensora Pública Joyce Davenport, Fay Furillo, a complicada ex-mulher do capitão, Jesus Martinez, o chefe de “Los Diablos”, um dos gangs poderosos da zona, terminando no Sargento Phil Esterhaus, uma figura quase paternal e consciência de todos os que trabalham na esquadra.
O Elenco fixo de Hill Street Blues
  O elenco, composto de 13 personagens  fixas, manteve-se sempre o mesmo até meio da quarta temporada, quando morreu  Michael Conrad, o actor que interpretava o Sargento Phil Esterhaus, a 22 de novembro de 1983.  A personagem ainda apareceu esporadicamente, nas “Roll Calls” matinais que já estavam previamente gravadas, em alguns episódios até fevereiro de 1984, onde faz a sua última aparição, no episódio intitulado “Grace Under Pressure”, que lhe foi dedicado. O episódio foi dos mais vistos em termos de “share” televisivo, não só pela carga emocional que se apoderou de toda a equipa quando o gravaram, como também por conter o mais inesquecível e memorável final de episódio de todas as temporadas: é noite, o capitão Furillo, Ray Calletano, Howard Hunter, Mick Belker, Henry Goldblume, Bobby Hill e Andy Renko, caminham por um beco nas traseiras da esquadra. Na mãos do capitão vai um vaso contendo as cinzas do Sargento. À vez, cada um deles, pega numa mão-cheia de cinzas e atiram-nas contra o vento, dizendo algumas palavras de apreço pelo amigo, cumprindo assim uma última vontade testamentária do falecido que queria que os seus restos mortais permanecessem em Hill Street. Perante um final destes, pouco habitual nesta série, é impossível ficar-se indiferente. A partir deste desaparecimento, a série, que quebrou as regras televisivas, não conseguiu sobreviver ás suas próprias regras, ressentiu-se disso e nunca mais foi a mesma. É como se aquela perda não tivesse solução.
"Let's be careful out there", a inesquecível frase do Sargento Phil Esterhaus
   “Hill Street Blues”, durante as suas sete temporadas, foi nomeada para 98 Emmy’s, venceu 52, venceu também 3 Globos de Ouro  e, entre 1981 e 1984, foi 4 vezes consecutivas vencedora do prémio para Melhor Série Dramática e partilha com “L.A.Law – As Teias da Lei” e “West Wing – Os Homens do Presidente”, o recorde de maior número de elementos do elenco a ser nomeado para Emmy numa única temporada: nada menos que nove!
Série inesquecível, um marco em televisão, a sua influência foi decisiva em séries posteriores como “ER - Serviço de Urgência” (1994-2009), criada por Michael Crichton ou “NYPD Blues – A Balada de Nova York” (1993-2005) do mesmo Steven Bochco e que pode ser considerada como a segunda parte do díptico do criador sobre as forças da lei.
     “24”, a Unidade de Contra-Terrorismo (CTU), e os dias difíceis e intermináveis de Jack Bauer ainda estavam para nascer.

Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet


 

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Vietname, segundo Stanley Kubrick


                                                            


   Falar de Stanley Kubrick é falar de cinema. A sua obra, embora curta em termos de filmes, foi de importância capital, destinada a ser estudada e analisada por todos quantos se interessem pela sétima arte.
    Stanley Kubrick sempre quis fazer um filme de guerra. Já em 1957 com "Paths of Glory - Horizontes de Glória", tinha abordado o tema com este filme mais anti-guerra do que guerra. 
    Após "Shining" (1980), contactou Michael Herr, autor de "Dispatches", uma memória sobre a guerra do Vietname, e expôs-lhe a ideia de querer fazer um filme sobre o Holocausto mas que ainda não tinha encontrado a história ideal para adaptar.Eventualmente chegou-lhe ás mãos o livro de Gustav Hasford "The short-Timers". Kubrick leu-o duas vezes antes de decidir que seria a base do seu próximo filme, um filme sobre a guerra do Vietname.
  "Full Metal Jacket - Nascido para Matar", penúltimo filme do realizador, acenta que nem uma luva na sua carreira e insere-se lindamente na lista dos filmes mais importantes sobre a guerra do Vietname.
    Em Parris Island na Carolina do Sul um grupo de jovens Marines começam o seu treino para depois serem enviados para o Vietname para reforçar o contingente Norte Americano que por lá se bate. 


   A comandá-los está um impiedoso Sargento-Instructor decidido a torná-los verdadeiras máquinas de matar.
Realizado com o habitual perfeccionismo milimétrico e obsessivo de Stanley Kubrick, onde qualquer movimento de camâra, qualquer plano ou até a própria banda sonora têm uma razão para ali estar e venha daí quem disser o contrário!
   Dividido em duas partes distintas,narradas sempre do ponto de vista de Joker, que se completam no total, "Full Metal Jacket" começa com os futuros Marines a rapar o cabelo por completo dando inicío ao seu processo de desumanização e consequente transformação em "máquinas de matar", como lhes é dito a dada altura, que decorrerá ao longo de toda a recruta, sob a mão impiedosa do Sargento-Instructor Hartman (R.Lee Ermey), principal executor dessa mesma desumanização (cada grande plano da sua cara expressa essa vontade), castigando e humilhando constantemente o soldado Pyle (Vincent D'Onofrio), culminando na sequência do castigo infligindo a este durante a noite pelos seus próprios companheiros de camarata. O soldado Pyle acabará, finalmente, por fazer uso dessa mesma desumanização, na magnifica sequência nocturna da última noite, na casa de banho  da camarata. Vemos, nessa cena, na expressão facial de Pyle e no seu olhar, brilhantemente captados pelo realizador, o regresso de Alex DeLarge ( interpretado por Malcolm McDowell em "A Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick, 1971). Simplesmente aterrador.
A segunda parte do filme vai encontrar alguns elementos deste pelotão,  quase "máquinas de matar", em plena acção no Vietname. Estamos em plena ofensiva de Tet em 1968 e assistimos a um novo pesadelo neste conflito: a guerra urbana. Aqui reside um dos grandes trunfos do filme; ao transferir a acção dos combates da selva habitual para a selva urbana, Kubrick, que à semelhança de Francis "Ford" Coppola, em "Apocalypse Now", também faz uma aparição aqui como  operador de camâra, consegue uma originalidade única nunca conseguida em nenhuma outra obra que tenha abordado o Vietname. Filmada em estilo documental, patente nas cenas da progressão das tropas americanas sobre a a cidade de Hue, onde algures vislumbramos a ruína de um prédio que nos traz à memória o monólito negro (piscadela de olho a "2001:Odisseia no Espaço"?) - quererá o realizador dizer-nos alguma coisa? - Kubrick não confirma nem desmente e considera apenas que foi uma coincidência extraordinária; ou no combate nas ruínas da cidade entre o pelotão, cujos elementos, finalmente se transformam em "máquinas de matar", mas, nem todos vão conseguir cumprir essa transformação, e um atirador furtivo que os vai abatendo um a um; esta sequência consegue ser muito mais assustadora que qualquer outra filmada na selva, porque lá, já se sabe o que se espera, aqui o perigo pode espreitar em qualquer prédio, em qualquer esquina, Kubrick consegue aqui um efeito de suspense em filmes de guerra, nunca conseguido em qualquer outra produção do género.
   Em termos de interpretações, estas falam por si. Matthew Modine interpreta bem o seu soldado Joker, principalmente quando discute com um oficial o significado e a dualidade da inscrição que tem no seu capacete "Born to Kill" acompanhado do símbolo dos hippies; mas o triunfo do filme vai todo para D'Onofrio e Lee Ermey: as cenas entre ambos estão soberbamente interpretadas   principalment R.Lee Ermey que fora militar antes de ser actor. Inicialmente contratado com consultor técnico do filme, Kubrick viu um vídeo feito durante um ensaio do filme, em que R. Lee Ermey praguejava contra um grupo de Marines. 
    O realizador gostou tanto que o contratou de imediato para o papel. Tinha encontrado o seu Sargento-Instrutor e Lee Ermey correspondeu perfeitamente ao que lhe era pedido; quanto a Vincent D'Onofrio, assustador na sua transformação de jovem imberbe sem inteligência nem ambição até começar a enlouquecer progressivamente e transformar-se no perigoso psicopata que vemos no final da primeira parte, é um verdadeiro "tour de force" do actor e, uma vez mais, magnificamente captado pela lente do realizador. 
    A cena final é um dos aspectos mais interessantes do filme: os soldados marcham para fora do campo de batalha, ao som do tema "Mickey Mouse", um tema infantil, mas, que neste cenário macabro, se torna quase ridículo, no entanto, adquire uma importância capital, já que depois de tudo aquilo a que se assistiu, o tema deveria adquirir um tom quase cómico, mas o efeito que se obtém é precisamente o contrário e o tema já não consegue entreter nem alegrar. É uma espécie de coroação, dando à película o toque final de irracionalidade pretendido por Kubrick, mantendo válida a questão que percorre as mentes de todos (protagonistas e audiências) ao longo da obraquem são afinal os heróis do filme? 
  Último grande filme sobre o Vietname, um conflito que deixou marcas em toda a sociedade americana, "Full Metal Jacket" representou mais um enorme capítulo na grande carreira de um realizador chamado Stanley Kubrick. 





Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram o texto, foram retirados da Internet



domingo, 20 de maio de 2012

Quadrophenia - The Who do Outro Lado do Espelho




       Lançado em 1973, quase dez anos passados sobre os acontecimentos que retrata, “Quadrophenia”, é o sexto álbum de estúdio lançado pelo grupo britânico “The Who”. É a segunda ópera-rock do grupo (depois de “Tommy” em 1969) e desta vez correu ainda melhor que da primeira vez. Enquanto em 1969 se viviam ainda os efeitos do movimento Hippie  e do festival de Woodstock, que decorrera nesse mesmo verão, onde o grupo apresentou “Tommy” pela primeira vez, constituindo essa sua participação um grande êxito e que tornaria o álbum o primeiro grande sucesso do grupo,  já que refletia os ideais do “Flower Power”, reunidos em torno de um rapaz que, devido a um trauma de infância, fica cego surdo e mudo, mas que se torna numa espécie de figura messiânica, idolatrado por milhares de pessoas.
       Nova década, outras preocupações estiveram então na origem desta segunda ópera-rock do grupo. A sua história gira em torno da perspectiva social, musical e psicológica  que uma certa juventude inglesa teve dos acontecimentos ocorridos em Londres e Brighton em 1964-65. 
        O título é uma variação, não científica, do termo médico “Esquizofrenia” (doença mental complexa de personalidade), aqui apresentada com uma personalidade múltipla, Jimmy, o protagonista da história, sofre de uma personalidade quadrúpla, cada uma delas associada a um elemento do grupo: o duro, o provocador, o violento, em  representa Roger Daltrey em “Helpless Dancer”; o romântico “Is It Me?” é associado a John Entwistle; em “Bell Boy”, o lunático é Keith Moon; o pedinte, o hipócrita é decalcado de Peter Townshend em “Love , Reign O’er Me”. Os quatro temas que identificam as quatro personalidades em Jimmy são misturadas em “Quadrophenia”, a faixa-título da Ópera, utilizada com uma espécie de ponte entre os temas “The Real Me” e “Cut my Hair” e voltam a misturar-se em The Rock” que medeia entre “Doctor Jimmy” e “Love, Reign O’er Me”, que, segundo Townshend, a combinação dos temas/personalidades nestes dois  medleys instrumentais, constituiu o trabalho mais complexo que alguma vez fez para o grupo. Ao longo de toda a Ópera os quatro temas vão surgindo aqui e ali, subtilmente introduzidos em outros temas, dando ao trabalho a impressão de um todo coeso.
Peter Townshend, guitarrista do grupo e compositor, disse que o nome da ópera evoluiu, a partir duma ideia, como sendo uma autobiografia do grupo, e que inicialmente era para se chamar “Rock is Dead – Long Live Rock!”, mas na altura do seu lançamento, o papel do grupo era apenas simbólico, através da quatro personalidade de Jimmy, por isso decidiram mudar o nome para “Quadrophenia”.
         A história passa-se em cinco dias, nos quais Jimmy, um "Mod" por escolha,  numa rocha, no meio do oceano, relembra a sua vida até então. “Quadrophenia” é a narrativa de uma história, contada na primeira pessoa.  
         Na primeira parte, nos temas “I Am the Sea” e “The Real Me”, Jimmy apresenta-se e  conta-nos as suas frustrações, as inseguranças que conduzem a sua vida e as tentativas infrutíferas de ter uma vida social normal. Com “Cut my Hair”, ele relembra uma discussão com os pais, por estes descobrirem anfetaminas no seu quarto, que esteve na origem da sua fuga de casa (ouvem-se na rádio noticias dos confrontos, entre “Mods” e “Rockers”, ocorridos em Brighton, dias antes e nos quais Jimmy esteve presente). Depois de ser mal tratado num concerto, quando tenta ir conhecer o grupo que actuou (supostamente os próprios “The Who”), começa a perceber que a única coisa boa que tem na sua vida é ser “Mod”. Sem conseguir fixar-se em nenhum emprego, perde a namorada para um amigo. Em “I’ve Had Enough”, Jimmy, num completo estado de auto-destruição, destroi a sua Vespa (símbolo de independência dos “Mods”) e decide ir para Brighton onde se divertiu com os amigos a perseguir e a lutar com os “Rockers”, único momento da sua vida onde foi realmente feliz.

    Na segunda parte, “5.15”, conta a sua viagem de comboio para Brighton e quando chega, o seu ânimo aumenta. Em “Sea and Sand” e “Drowned”, Jimmy fala sarcasticamente das discussões caseiras e da noite que passou na praia  com a sua ex-namorada. Decide ficar em Brighton para relembrar os dias em que os “Mods” chegaram à cidade. Apesar de apenas terem decorrido duas semanas sobre esses eventos, ele já está a viver no passado. 
   Em “Bell Boy”, Conhece Ace Face, um dos líderes dos “Mods” e um dos seus heróis de eleição, que não passa de um simples paquete no mesmo hotel que o seu grupo quase destruiu. Jimmy percebe então que a cena Mod deixou de ser sinónimo de um certo estilo de vida, sente-se atraiçoado por todos os que o rodeiam e mergulha numa espiral destrutiva  de drogas e álcool. Jimmy vai então até ao mar e vê-o como um  espelho  dum poder maior no qual ele vai submergir e perder-se na sua imensidão. Em “Doctor Jimmy”, ele está perto da loucura,  surge o lunático em si mesmo que o salva duma morte quase certa. No refrão do tema pode ouvir-se “…Doctor Jimmy and Mr. Jim…” referência mais que evidente a “Doctor Jekyll and Mr. Hyde”, que se liga ao tema das múltiplas personalidades que vão emergindo ao longo da história. 
  Os temas finais, dizem-nos que Jimmy, depois de roubar um barco, se encontra numa rocha, no meio do mar. Aqui, depois duma espécie de transe em que as suas quatro personalidades conflituam umas com as outras (o instrumental “The Rock” é  isso mesmo), quando Jimmy cai em si, percebe que o barco se afastou, está abandonado, sozinho e esquecido. No fabuloso e arrasador “Love, Reign O’er Me”(dos melhores temas que  Peter Townshend compôs), uma tempestade abate-se à sua volta e Jimmy descobre  que, após ter sido tanta gente diferente, sabe finalmente quem é : ele próprio!
Recebido com  algumas reservas iniciais, “Quadrophenia”, foi, ao longo da década de 70 do século passado,  sendo objecto de estudos por parte de especialistas e considerado como uma análise quase perfeita duma certa juventude que viveu aqueles anos loucos da década de 60 e o facto de, na discografia oficial do grupo, estar colocado entre os álbuns “Who’s Next” (1971, considerado o melhor álbum do grupo) e “The Who by Numbers” (1975), pode ter uma razão de ser, mas, sobre isso, o grupo nunca disse uma palavra.
Em 1979, “Quadrophenia”, foi adaptado  para o cinema por Franc Roddam,. Usando a Ópera-rock do grupo como ponto de partida, o filme acaba por ser uma reflexão sobre a Grã-Bretanha pré-Thatcher, usando os confrontos da década de 60 entre os “Mods”, filhos da classe média, bem vestidos e que conduziam as suas vespas, e os “Rockers”, sempre vestidos de couro e conduzem motos potentes. Reflectindo um certo narcisismo patente nessa época e uma cultura movida a anfetaminas, “Quadrophenia foi um modesto sucesso de bilheteira tendo vindo a ganhar algum protagonismo no inicio da década de 80.   Com um elenco praticamente desconhecido onde apenas pontuava, embora num registo secundário,  um jovem músico e cantor de nome Sting como Ace Face.
Em 2000, “Quadrophenia” foi considerado um dos 100 melhores álbuns de rock de sempre. Em 2011, o álbum foi remisturado e editado numa caixa de luxo contendo cinco discos: quatro cd’s, que incluíam o álbum original com som remisturado e várias demos de diversos temas, e um DVD com um concerto de 2010 onde “Quadrophenia” foi integralmente tocado com vários convidados.




Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet



domingo, 13 de maio de 2012

O Mundo do Rio - Viagem a um Mundo sem Morte




                  Philip José Farmer (1918-2009) foi um escritor americano de histórias de fantasia e ficção científica. Nasceu em Terre Haute, no Indiana, mas viveu quase toda a sua vida em Peoria, no Illinois. Leitor ávido desde jovem, Farmer  decidiu ser escritor no quarto ano. Depois da  IIª Guerra Mundial, onde foi piloto, continuou os seus estudos enquanto trabalhava na fábrica de aço local. Em 1950 tornou-se Bacharel em Inglês pela Universidade de Bradley. Ganhou o seu primeiro prémio Hugo (Oscar da literatura de ficção científica) com a novela “The Lovers – Os Amantes”  em 1953.
            Autor de novelas e contos,  ficou conhecido por ter escrito várias novelas em sequência, principalmente “The World of Tiers” (1965-93), “Riverworld” (1971-83) ou “Dayworld” (1985-1990). Foi também pioneiro na introdução dos temas da sexualidade e de religião no seu trabalho. Fascinado pelos chamados “Heróis dos Romances  de Cordel” , Farmer  pegava nas temáticas de alguns desses romances,  reescrevia-as  utilizando personagens fictícias. Foi, no entanto, em 1971, com “To Your Scattered Bodies Go”,  que recebeu outro prémio Hugo e que definitivamente o lançou. Era o começo de  “Riverworld – O Mundo do Rio”,  a sua obra mais famosa e uma das melhores séries literárias da ficção científica.
        A Terra, tal como a conhecemos , deixou de existir, foi destruída por uma força alienígena. Os 36 mil milhões de habitantes, que existiram ao longo da sua história, são transferidos para um planeta algures no universo e ressuscitados,  todos com 25 anos de idade, ao longo das margens dum rio. Neste mundo, onde quando se morre, ressuscita-se noutro local qualquer, cuja vida se parece centrar no rio que aparentemente se estende por todo o planeta,  é dada à humanidade uma segunda oportunidade de se redimir dos erros cometidos na terra. Seguimos então as aventuras de personagens tão diversos como Richard Francis Burton, o famoso explorador inglês do século XIX, Peter Jairus Frigate (personagem fictícia que o autor criou utilizando as suas próprias iniciais para assim se introduzir na acção)  Herman Goering, o delfim de Hitler, Samuel Clemens, o escritor norte-americano, autor de Mark Twain ou Cyrano de Bergerac, o famoso espadachim francês do século XVII,  em busca da torre negra,  situada no  Mar do Pólo Norte , local onde aparentemente termina o rio,  assim como encontrar as  respostas ao mistério daquela ressurreição.
                  A  série é constituída por cinco volumes:“To Your Scatered Bodies Go – Mundo sem Morte” (1971), “The Fabulous Riverboat – Viagem para Além da Morte” (1971), “The Dark Design – O Desígnio Negro” (1977), “The Magic Labyrinth – O Labirinto Mágico” (1980), “Gods of Riverworld – Regresso ao Mundo do Rio” (1983), que constituem o fluxo central de toda a série e o livro de contos: “Riverworld and Other Stories “ (1979), que, apesar de não fazer parte da trama inicial, inclui histórias que se relacionam com situações e personagens que aparecem. Toda a série explora as interrelações entre indivíduos de muitas culturas e de diferentes períodos da história
Escrita em 1952, a história original de “O Mundo do Rio” intitulava-se “Owe for the Flesh” ("Deves a Carne", literalmente traduzida, esta frase constitui uma espécie de pesadelo para Richard Francis Burton e surge-lhe em sonhos inúmeras vezes ao longo de toda a série), mas nunca foi publicada.  Anos mais tarde, Farmer, reescreveu o texto, dividiu-o em duas partes , lançou-o nas revistas de ficção científica “Worlds of Tomorrow” e “If”  entre 1965 e 1967. Finalmente em 1971 publica os dois primeiros volumes da série…e o resto foi  história!
A história de “O Mundo do Rio” começa com a ressurreição de toda a população do planeta terra, ou seja desde o primeiro “Homo Sapiens” até ao inicio do século XXI . Inicialmente, a ideia de Farmer era terminar as ressurreições no ano de 1983, já que, na altura em que os primeiros livros foram publicados, ainda era uma data especulativa . Posteriormente o autor estendeu a existência do planeta  até 2008 e aqui encontramos duas fortes possibilidades para esta decisão: a primeira é que nesta data grande parte da humanidade teria sido exterminada depois dum  catastrófico primeiro encontro com uma expedição  duma civilização alienígena  que estava de visita á terra (na ficção claro!); a segunda é meramente especulativa e tem a ver com o facto de o autor achar que não viveria além do ano de 2008 e assim marcar a diferença.  No prefácio de “O Desígnio Negro”, o autor escreveu "...espero terminar a série, do volume I até ao V, antes que chegue o meu tempo de me estender  e repousar enquanto aguardo a vez de entrar no fabuloso Barco do Rio..." (na verdade, Farmer  faleceu em 2009!).
Inicialmente a razão da existência de “O Mundo do Rio”  é um completo mistério e assim se mantém ao longo dos três primeiros volumes. Num mundo em que não existe qualquer tecnologia e onde os únicos materiais disponíveis são bambu, madeira e ossos de peixe, a humanidade vê-se assim reduzida a uma existência numa espécie de paleolítico e tem que aprender a sobreviver assim.  Com montanhas intransponíveis, as únicas possibilidades que existem de exploração são rio acima ou rio abaixo. Mas mesmo viajar ao longo daquele mundo pode ser uma missão arriscada, já que rapidamente começam a florescer milhares de pequenos reinos , impérios , monarquias, repúblicas e todo o tipo de sistemas sociais alguma vez inventados  e quem os comanda tem ideias diferentes entre si.
Nos livros da série, a maneira como Farmer coloca personagens históricas a interagir com as personagens fictícias  na procura das razões que presidiram  à criação daquele mundo e da ressurreição da humanidade, é verdadeiramente espectacular já que permite não só que o leitor faça os seus julgamentos em relação a cada personagem, como faz com que algumas dessas personagens sofram verdadeiras transformações em relação à sua vida anterior na terra, o que acontece, sensivelmente , a partir do terceiro volume, quando o mistério se adensa  e se descobre quais as verdadeiras intenções de quem está por detrás da criação daquele mundo.
Claro que uma série destas , com uma ideia tão original como esta, não poderia passar despercebida no universo da literatura de ficção cientifica e também na televisão: No primeiro caso surgiu, em 1992, o livro de contos  “Tales of Riverworld “ que além de conter alguns contos ainda escritos por Farmer, tem  outras histórias, escritas por diversos autores, igualmente situadas no universo de “O Mundo do Rio”, e em 1993 surgiu "Quest to Riverworld", outra antologia que contém dois contos de Philip José Farmer.
A televisão tentou, em 2001, fazer uma série baseada em “ O Mundo do Rio” mas ficou-se apenas pelo episódio-piloto, baseado em “ Mundo sem Morte” e “Viagem para Além da Morte” , com algumas alterações de fundo em relação aos livros. O herói é um astronauta americano e o vilão, em vez de ser o Príncipe João de Inglaterra, é Nero, o imperador Romano. 

Em 2010 outra tentativa de produzir uma nova adaptação de  “O Mundo do Rio”, mas desta vez apenas  como um filme de televisão dividido em duas partes e aqui novamente alterações de fundo, com um jornalista de televisão a ser o protagonista e Richard Burton transformado no vilão de serviço.  
Em minha opinião, nenhuma das adaptações faz justiça aos textos de Farmer  e entendo que uma série desta envergadura deveria ter um tratamento bem mais dignificante do que aquele que lhe tem sido dado.

Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Excalibur


   Tive oportunidade de há algum tempo  atrás, num outro texto intitulado "Rei Artur: Mito ou Realidade", falar do rei Artur. Nesse texto fiz referência ao filme que vou comentar: "Excalibur".
   Na Bretanha,  Uther Pendragon e Cornwall, dois senhores da guerra lutam pela posse do território e ser o Rei Supremo. Merlin vê em Uther a única possibilidade de unificar o país e acabar com aquela guerra, para isso o mago entrega a Uther a espada Excalibur que é o símbolo da união. Cornwall ao ver a espada, reconhece Uther como rei e aparentemente a paz é estabelecida.
   Esta adaptação da lenda de Merlin e Artur  já era um projecto que Boorman tinha desde 1969, altura em que ele e o argumentista Rospo Pallenberg escreveram um argumento para um filme de três horas, que foi recusado pela United Artists, estúdio a que foi apresentado, que alegou ser um filme demasiado dispendioso. O realizador foi, ao longo da décadade 70, apresentar o argumento a diversos estúdios que não se queriam comprometer com um projecto desta envergadura.

   Realizado por John Boorman, autor de "À Queima-roupa" (1967), um dos melhores filmes policiais da década de 60, combinando elementos do filme negro americano com o melhor do thriller europeu; "Inferno no Pacífico" (1968) um excepcional drama de guerra centrado no relacionamento entre dois soldados, um americano, o outro japonês numa ilha do pacifico; "Fim-de-semana-Alucinante"(1972) um thriller quase ecologista passado na américa interior; "Zardoz" (1974) ficção cientifica pós-apocalíptica. Após o fracasso em todos os aspectos do mal afamado e quase ridículo "Exorcista II - O Herege" (1977), suposta continuação de "O Exorcista" (William Friedkin, 1973). A recepção critíca a este filme foi tão má que o realizador viu fecharem-se-lhe as portas dos estúdios. Nenhum produtor queria ouvir falar do seu nome. Apenas em 1981 é que conseguiu concretizar este projecto, recorrendo ao financiamento de amigos e familliares.
    O filme acaba por ser uma fascinante versão da obra de Thomas Mallory "Le Morte d'Arthur" e uma visão interessante e diferente duma época conhecida na história como a Idade das Trevas. Fortemente inspirado em "Os Cavaleiros da Távola Redonda" (Richard Thorpe, 1953), uma das versões mais conhecidas da lenda do Rei Artur, mas também a mais romanceada, com o clássico triângulo amoroso (Artur/Guinevere/Lancelote) a ganhar pontos em relação á lenda relegando-a para segundo plano, "Excalibur", pelo contrário, dá enfase à lenda na ascensão de Artur desde que este tira a espada da pedra até à traição de Guinevere, à mitologia cristã, onde a busca do Santo Graal e o  seu simbolismo, que ocupa todo o terço central do filme, é o melhor exemplo  e cuja melhor cena é aquela em que Perceval, já tornado cavaleiro, tem a visão do Santo Graal, recupera-o e trá-lo perante Artur. Boorman disse que a sua versão é sobre isso mesmo "a chegada dos cristãos e o desaparecimento das velhas religiões representadas por Merlin, ao mesmo tempo que as forças da superstição e da magia são engolidas pelo inconsciente..." 
    O realizador  filma tudo com a urgência de quem quer mostrar o máximo possível do material que tem em mãos. O resultado poderia ter sido outro não fosse Boorman um realizador experiente e saber o que fazer. Tira partido das belíssimas paisagens da Irlanda onde decorreu a maior parte dos exteriores e constroi com elas cenas de grande fôlego cinematográfico, embora violentas.
   É impossível ficar indiferente á cena em que a espada Excalibur surge das águas calmas do lago que é duma beleza dificil de descrever ou a cena que fecha o filme: um bonito e misteriosos pôr-do-sol em que o barco, transportando o corpo de Artur rodeado por três damas vestidas de branco, em direcção à ilha de Avalon,  navega . Até em cenas mais violentas como o cerco ao castelo de Leondegrance ou a da batalha final, simbolizando esta última a eterna luta entre o bem (Artur e os seus cavaleiros com as suas armaduras de um branco imaculado) e o mal (Mordred e o seu exército com as armaduras escuras); fabulosa é também o "travelling" da camera na cena em que Artur e os seus cavaleiros cavalgam para a batalha final, por entre uma alameda de árvores onde a vegetação renasce, ao som do tema "Fortuna" de Carmina Burana: épica e visualmente bem conseguida.
   Com um elenco onde pontuam nomes sonantes como Helen Mirren, Liam Neeson ou Gabriel Byrne, e ainda Katrine e Charley Boorman, membros da familia do realizador,  "Excalibur", resulta na magnifíca transposição duma lenda para um filme operático, cheio de luz e som.
Uma última palavra para um aspecto que, na maior parte das vezes, é ignorado e que neste filme adquire uma importância maior e justifica as minhas palavras no parágrafo anterior: a banda sonora.
   Em "Excalibur" a banda sonora (maioritariamente composta por excertos das óperas de Wagner) tem muita importância porque em diversas cenas, a música complementa as imagens: por exemplo na já citada cena da cavalgada de Artur; no casamento de Artur e Guinevere; mas é na cena da morte de Artur e quando Perceval, mandado por Artur, vai atirar a espada ao lago que a música adquire a sua expressão máxima e em que até o próprio espectador se sente envolvido naquela que é a cena mais dramática do filme: magnifica utilização da música.
"Excalibur" serviu de referência a uma série de filmes dos quais se destacam "Merlin" (Steve Barron, 1998, TV) ou "Brumas de Avalon" (Uli Edel, 2001, TV), este último baseado num livro de Marion Zimmer Bradley e conta a lenda do ponto de vista das mulheres da corte: original e diferente.
   Filmado originalmente com uma duração de três horas, Boorman optou, antes da estreia, por cortar algumas cenas, entre as quais uma cena, que apareceu em trailers promocionais, onde Lancelot salva Guinevere de ser assaltada por bandidos. O filme tem uma duração de 140 minutos, embora na televisão tenha sido exibida uma versão de 119 minutos, na qual praticamente todas as cenas de violência gráfica foram retiradas de modo a torná-lo uma espécie de "filme para toda a familia".
  "Excalibur", apesar de ser uma versão livre, onde  a preocupação não foram os adereços (que muita gente considerou inadequados), mas sim o tom dado pela narrativa que nos transporta logo desde o início para a Idade das Trevas (como nos é dito na legenda inicial) numa Bretanha quase medieval, não é um filme datado e  permanece ainda hoje como uma das melhores adaptações do romance de cavalaria de Thomas Mallory.
a ver e a redescobrir sempre.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet







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