terça-feira, 31 de julho de 2012

O Filme de Ficção Científica II - Os Anos da Afirmação


                        O Filme de Ficção Científica II
                    2.    Os Anos da Afirmação (1960-1969)


     A década de 60 não começou da melhor maneira para o filme de ficção científica. De facto,  depois do boom que foi a década de 50, fizeram-se muito poucos filmes do género nesta década, mas  os que se fizeram, viriam a transformar radicalmente a face do género.
Logo em 1960 “The Time Machine – A Máquina do Tempo”, realizado por George Pal, ainda a sofrer alguma influência das temáticas da década anterior, põe no écran um dos mais famosos livros de H.G.Wells e onde a ficção quase que iguala a realidade, na medida em que enquanto acompanhamos George e a sua viagem ao futuro, passamos por duas guerras e vemos um futuro onde a humanidade se encontra dividida em duas espécies. Grande sucesso de bilheteira, graças a um  tema que sempre apaixonou os cinéfilos,  viria a abrir inúmeras portas para outras obras futuras. Mas a década ainda estava no princípio e muito ainda iria acontecer.  
    Enquanto na América,  a concorrência crescente da televisão, forçava o cinema a fazer filmes de grande orçamento (as chamadas superproduções), a Europa acordava para um novo género de cinema completamente diferente daquilo a que se estava habituado: A “Nouvelle Vague” ou nova vaga. Iniciado em França no final dos anos 50, principio dos anos 60, foi um movimento artístico, contestatário, caracterizado pela juventude dos seus autores, dos quais Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais ou Claude Chabrol, entre outros, foram os principais mentores. Os dois primeiros haveriam de fazer a sua contribuição  para o filme de ficção científica, comentando e criticando  satiricamente a sociedade. 
      “Alphaville – Une Etrange Adventure de Lemmy Caution – Alphaville” (Jean-Luc Godard, 1965). Um detective privado  americano de nome Lemmy Caution é enviado para a cidade de Alphaville, que fica num planeta distante, onde tem que encontrar uma pessoa desaparecida e libertar a cidade do tirano que a governa.O filme obteria sucesso graças  à sátira que faz dos filmes policiais negros americanos dos anos 40.  Já “Fahrenheit 451 – Grau de Destruição” (François Truffaut, 1966) é um caso diferente. Baseado num romance homónimo de Ray Bradbury, o filme segue a história de um bombeiro solitário,  que vive num mundo onde todos os livros foram destruídos porque o governo teme uma sociedade de livres-pensadores, que começa a questionar a verdadeira natureza da sua missão. Truffaut, além de fazer uma discreta analogia entre o período da queima dos livros na Alemanha, da década de 30  por altura do Nazismo e o McCarthismo histérico que assolara os Estados Unidos na década de 50, faz também  uma censura política e um comentário social abarcando tanto a Europa como os Estados Unidos.
        Mas seria dos Estados Unidos que viriam os filmes que mais iriam influenciar o género e toda a produção que daí adviria. Em 1964 “Dr. Strangelove, or How I Learned to stop worriyng and love the Bomb – Dr.Estranhoamor”. No filme, um general americano da força aérea,paranóico, acredita que os soviéticos conseguiram envenenar as reservas de água dis Estados Unidos e ordena que os bombardeiros americanos se posicionem na União Soviética para ripostar enquanto na Sala de Guerra, governo e militares tentam impedir que aconteça uma catástrofe. Sátira brilhante, pela mão de Stanley Kubrick, aos efeitos da Guerra Fria iniciada na década anterior.
       Mais ousado foi o filme “Fantastic Voyage – Viagem Fantástica” (Richard Fleischer, 1966). Para salvar a vida dum diplomata ferido, uma tripulação num submarino tem de ser miniaturizada e injectada dentro do fluxo sanguíneo para tentar desfazer o hematoma que o faz correr perigo de vida. Ver o interior do corpo humano cativou o público e fez do filme um sucesso relativo granjeando-lhe dois prémios da Academia para Melhor Direcção Artística e Melhores Efeitos Especiais. Ousado foi também “Barbarella – Barbarela” (Roger Vadim, 1968) a dar um toque de erotismo ao género. Num futuro longínquo, uma mulher extremamente sensual é encarregada de encontrar e destruir  Durand-Durand, um inventor maléfico que consegue criar um pecado a todas as horas.Pelo caminho, Barbarela, vai encontrando osmais diversos tipos de pessoas com quem se envolve emocional e fisicamente. O filme foi um sucesso relativo, graças à bonita e sensual actriz Jane Fonda, mas serviu também para prestar homenagem ao lado mais idiota do início da ficção científica.
        Em 1968 o filme de ficção científica estabelece-se definitivamente como  género maior. Dois filmes serão os responsáveis por esta mudança no género: “2001: A Space Odyssey – 2001: Odisseia no Espaço “ e “Planet of the Apes – O Homem que Veio do Futuro”. Em relação ao primeiro, pouco ou nada há a dizer. Trata-se da obra-prima do género, é o filme mais influente da década, uma história muito dificil de se resumir, que  sempre suscitou discussões apaixonadas. Baseado num conto de Arthur C. Clarke, e realizado com mestria por Stanley Kubrick,” 2001”, desde a sua estreia, sempre foi visto como um filme seminal dentro do género e foi o primeiro filme a conter um fundo filosófico que outros filmes nunca tinham tido nem tentado sequer. Incompreendido por muitos, é hoje visto como um dos melhores filmes de todos os tempos.
 Quanto a “Planet of the Apes – O Homem que veio do Futuro”, foi o maior sucesso de bilheteira do género na década, muito graças à sua história de uma nave que se despenha num planeta distante governado por macacos que falam e pensam como seres humanos enquanto estes estão impedidos de falar e são escravizados pelos governantes. Taylor, um dos astronautas, consegue fugir com a ajuda de dois macacos cientistas, renegados, mas o que vai descobrir é uma realidade mais chocante do que aquele mundo invertido. O filme, realizado por  Franklin J. Schaffner, baseado num livro que fora banido da américa na década de 50 porque o seu autor, Pierre Boulle, estava listado nas comissões do senador McCarthy, tornou-se num grande sucesso, abarcou quatro continuações ( o termo sequela ainda não se usava) e uma série de televisão, em parte porque a temática era original e algo medieval no tratamento da acção e das personagens e quase inédito no género..Aqui se percebe como é que o filme se tornou num filme de culto, porque depende muito do trabalho do realizador, que, utilizando paisagens desérticas e as suas formações rochosas, dá ao filme a necessária componente alienígena afastando-nos ainda mais da verdadeira realidade que nos cai em cheio no agora famoso final que é dos mais inesperados e chocantes finais da história do cinema.
A Ficção Científica afirmava-se como um género que estava para ficar.
                                                                              (Continua)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Filme de Ficção Científica I - As Primeiras Décadas


                       
                  1.    As Primeiras Décadas (1900-1959) 


                  Desde que o cinema começou,  que se encontra a Ficção Científica em filmes. Definir quais os filmes que pertencem ao género nunca foi uma tarefe fácil, já que não existe nenhuma definição universalmente aceite do que é o género. Existe, no entanto, uma definição que funciona como uma espécie de sumário de todas elas “O filme de ficção é um género que especula e enfatiza o método científico, num contexto social com o sempre presente transcendentalismo da religião e da magia numa tentativa de reconciliar o homem com o desconhecido”.  Esta definição assume que existe uma continuidade entre o empirismo do mundo real e o transcendentalismo do sobrenatural, em que a ficção científica está do lado do empirismo, enquanto o filme de terror e o fantástico ficam do lado do transcendentalismo, embora existam casos em que o terror e a ficção científica  “andam de braço dado”            
            Filmes de ficção científica apareceram cedo, ainda na altura do cinema mudo, tipicamente eram curtas-metragens filmadas a preto-e-branco, por  vezes com alguma tintagem colorida, a temática era tecnológica e por vezes cómica. Em 1902 estreou “Le Voyage dans la Lune – Viagem à Lua”, geralmente considerado o primeiro filme de ficção científica. Realizado por Georges Méliès, utilizou truques fotográficos para mostrar, em três minutos, uma nave que viajava até à lua. A literatura de ficção cientifica serviria de base a muitos filmes do género. Em 1916 “As 20000 Léguas Submarinas” de Júlio Verne foi transformado em filme, a primeira das muitas  adaptações que se iriam fazer. Já em 1910  com “Frankenstein”, baseado no livro  de Mary Shelley e em 1913 com “Dr. Jekyll and Mr.Hide” de Robert Louis Stevenson, o cinema introduziu o conceito do “cientista louco” no cinema. Outro conceito viria a ser introduzido nesta altura,  muito devido ao sucesso obtido por “The Lost World”, em 1925, adaptação do livro de Sir Arthur Conan Doyle, que foi dos primeiros exemplos a usar imagens fotográficas animadas, dando origem aos conceitos de ficção científica de monstros, dinossauros e mundos escondidos.
            Na europa, na década de 20, o filme de ficção científica evoluiu de maneira diferente em relação ao cinema americano. Os realizadores europeus utilizaram o género para fazer previsão e comentário social. Na rússia, o filme “Aelita” (1924) discutiu a Revolução no contexto duma viagem a marte. Outras obras importantes desta altura incluíam “The Cabinet of Dr.Caligari - O Gabinete do Dr.Caligari “ (Robert Wiene,1919), “Paris Qui Dort - Paris que Dorme” (René Clair, 1925), “Luch Smerti” (Lev Kuleschov,1925), entre.outras. Porém, em 1927, na Alemanha surgiu uma obra importante, não só no contexto do cinema europeu, como no contexto do cinema mundial.  Fritz Lang, um pioneiro do cinema e do expressionismo europeu, realiza “Metropolis”, um filme, cuja acção se passa em 2026 e que, além de ser o mais caro filme da altura, apresentava todos os elementos-chave de ficção cientifica: um robot autónomo, um cientista louco, uma sociedade distópica do futuro e cenários altamente futuristas (inspirados na cidade de Nova York) e, posteriormente, face aos acontecimentos que se deram na europa e no mundo, durante a década seguinte, foi considerada uma das grandes obras de antecipação da história do cinema.
            O cinema da década de 30 foi grandemente influenciado pelo advento do som e também pelos efeito da Grande Depressão. Logo em 1930, o fracasso o filme “Just Imagine - 1980”, realizado por David Butler que foi o primeiro filme de ficção científica musical cuja história se passa em 1980 num mundo completamente diferente daquele que existia,   quando a personagem principal, depois de ter sido atingido por um raio, em 1930, é ressuscitado 50 anos depois e descobre que tudo aquilo que conhecera no seu tempo fora substituído por outras coisas. Rebaptizado com o nome de "Single O", é escolhido por um cientista para fazer parte duma expedição de quatro meses a Marte e quando lá chegam descobrem que o planeta está cheia de mulheres cobertas  da cabeça aos pés que fazem números de dança e idolatram um homem pequeno e gordo.  Também o filme britânico “Things to Come - A Vida Futura” (William Cameron Menzies,1936), baseado no livro de H.G.Wells, que projetava o mundo 100 anos no futuro e já previa a II Guerra Mundial, não conseguiu render o suficiente nas bilheteiras e os estúdios tornaram-se relutantes em financiar grandes projetos futuristas. 
       Em vez disso, começam a surgir os filmes -série: produções de baixo orçamento, feitos rapidamente sem grande preocupação a nível de argumento, mas com acção e muito armamento sofisticado. Algumas das séries mais populares desta altura foram a série de filmes sobre “Flash Gordon” ou as atribulações de “Buck Rodgers”, entre outras e continuavam a usar elementos de ficção científica como as viagens no tempo, alta tecnologia, assim como ideias de dominação mundial ou cientistas loucos que iriam estar também presentes na produção cinematográfica da década de 40 e na mais importante criação desta década: a série animada de “Superman”, o super-herói patriota. Apesar de alguma propaganda disfarçada e o facto de alguns heróis de banda desenhada, como “O Capitão América” ou “Batman”, terem ido também combater na II Guerra Mundial, o cinema de ficção científica andou algo adormecido durante os anos de guerra.
            Na década de 50, dois acontecimentos que tiveram impacto nos filmes de ficção científica: o desenvolvimento da Bomba Atómica levou a um interesse redobrado pela ciência, assim como  a ansiedade e medo dos efeitos duma guerra nuclear. Nesta altura começou também o período conhecido como A Guerra Fria e a paranoia da expansão do comunismo nos Estados Unidos. Estes  últimos levaram a um maior incremento de filmes de ficção cientifica, ao longo da década, criando assim uma Época de Ouro de filmes de ficção científica semelhante aquela que acontecera na literatura. 
           Filmes com pequenos orçamentos foram sucessos de bilheteira assim como alguns com orçamentos maiores e efeitos especiais impressionantes, não deixaram de maravilhar um público ávido, como por exemplo “The Day the Earth stood Still – O Dia em que a Terra parou” (Robert Wise, 1951), “The Thing from another World – A Ameaça” (Howard Haws e Christian Nyby, 1951), “The War of the Worlds – A Guerra dos Mundos” (Byron Haskin,1953), “20.000 leagues under the sea – 20.000 Léguas Submarinas” (Richard Fleischer, 1954),  “The Forbidden Planet – O Planeta proibido” (Fred M. Wilcox,1956), Invasion of the Body Snatchers – A Terra em Perigo” (Don Siegel, 1956) ou “On the Beach – A Hora Final” (Stanley Kramer, 1959). 
           Ainda durante esta década criou-se uma espécie de ligação entre os filmes de ficção cientifica e aqueles que foram  chamados “Monster Movies - filmes de monstros" (literalmente traduzido), de que Ray Harryhausen, um dos grandes nomes dos Efeitos  Especiais, foi o grande impulsionador. Usando imagens fotográficas animadas para criar efeitos especiais para alguns dos mais notáveis filmes da época e da ficção cientifica tais como “Them - O Mundo em Perigo” (Gordon Douglas,1954), “The Beast from 20.000 Fathoms - O Monstro dos Tempos Perdidos” (Eugene Lorié,1953),  “It Came from Beneath the Sea - O Octopus” (Robert Gordon, 1955) ou “The Blob - A Bolha Assassina” (Irvin S. Yeaworth,1958), Harryhausen tornou-se num dos nomes incontornáveis da magia cinematográfica.
            Estava a chegar uma nova década, com novos desafios, novas temáticas e também alguma revisão da matéria dada. A Face do cinema de ficção cientifica nunca mais iria ser a mesma.
                                                                                      (Continua)




Nota: As Imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

quarta-feira, 18 de julho de 2012

De Olhos bem Fechados - O Voyeur em cada um de Nós


                                              


    É hoje um dado adquirido que os filmes do realizador Stanley Kubrick (1928-1999), foram feitos não para a altura em que ele os realizou, mas sim para serem entendidos muito depois da altura em que apareceram. 
   A sua obra nunca foi de modas e muitos dos seus filmes ou apareciam muito á frente  da sua época ("200:Odisseia no Espaço" ou "A Laranja Mecânica", só para citar duas das suas obras-primas), ou surgiam quando os temas já estavam fora de moda ("Nascido para Matar", sobre a guerra do Vietnam ou "Barry Lyndon", sumptuosa superprodução e ainda hoje um dos filmes mais incompreendidos do realizador) e, não raro, suscitavam discussões acaloradas sobre o que se acabara de ver. 
   Com "Eyes Wide Shut - De Olhos bem Fechados", manteve-se esta tradição naquele que será talvez o filme mais enigmático do realizador, principalmente em relação ao final, que dos mais desconcertantes da obra do realizador. A última frase, que Alice Hartford pronuncia com a palavra F.... bem audível, nunca tinha sido dita daquela maneira tão brusca e ao mesmo tempo tão convincente
   William Harford, médico de Nova York, parte numa odisseia nocturna de busca e consolo sexual, depois da sua esposa admitir que teve um sonho erótico em que o atraiçoava com um desconhecido.
  "De Olhos bem Fechados" passa-se em pouco mais de uma noite e um dia e acompanhamos a odisseia de um homem afectado pela confissão de quem ele menos esperava. É o desejo de esquecer, de fazer pagar na mesma moeda, de quem fica abalado por aquilo que ouviu, que o leva a vaguear por uma Nova York invernal, cheia de tentações, mas também perigosa.
  O filme tem também um pouco de voyeurismo (tão ao gosto de Kubrick!) principalmente a partir do momento em Bill Harford toma conhecimento, através do seu amigo Nick Nightingale, das festas privadas onde todas as pessoas estão mascaradas e prácticam sexo. Ao acompanharmos Bill, tornamo-nos cúmplices dele e, por acréscimo, de Kubrik.
   Não é qualquer actor ou actriz que suspende a sua actividade por mais de um ano para se dedicar única e exclusivamente a um só projecto. Eles fizeram-no e ganharam a aposta.Tom Cruise e Nicole Kidman têm aqui desempenhos acima da média. Kubrik explora as suas potencialidades ao máximo: é nítido o gosto com que o realizador filma Nicole Kidman/Alice, mostrando toda a sua sensualidade, mesmo num registo algo secundário, assim como o Bill de Cruise consegue fazer-nos esquecer outras personagens interpretadas pelo actor  e mostrar que, quando quer,até consegue convencer e mostrar que tem talento,  e o filme ganha com isso.
     O empenho dos actores foi tal que as suas carreiras ganharam novos fôlegos. Salienta-se também a prestação excepcional, embora secundária, de Sydney Pollack, num papel especialmente criado para ele, já que tal personagem não existe no romance original e surge aqui como representando uma certa sociedade, uma certa riqueza e um prestígio a que Bill Hartford anseia pertencer mas que não consegue alcançar como Ziegler lhe explica perto do final e ficamos com a ideia de que Kubrick criou aquela personagem para representar o pior de Bill e, num sentido mais lato, o pior de cada um de nós.   
   Stanley Kubrick baseia o seu filme no livro de Arthur Schnitzer "Traumnovelle", escrito em 1926, cuja acção se situa no início da década de 20 em Viena de Austria, mas que o realizador actualizou para a Nova York da década de 90.  Este era um projecto hà muito tempo acarinhado pelo realizador. O seu perfeccionismo é, como em toda a sua obra, obsessivo, genial mesmo.
  
O uso da cor nas suas formas primárias, cada uma com o seu simbolismo, é simplesmente espectacular: o vermelho representa a tentação e o sexo; o amarelo significa traição; o azul simboliza medo e ao mesmo tempo perigo. A fotografia notável é um constante desafio, é a própria cidade, através da lente do realizador,  do ritmo lento, as figuras cuidadosamente compostas e os movimentos deslizantes da câmara que nos convidam a entrar em cena. O próprio realizador, na sua breve aparição (quando Bill conversa com Nick no café Sonata, um dos elementos do casal que se encontra lá é Stanley Kubrick) estende-nos esse convite. 
   O filme atinge o seu ponto máximo na cena iniciática e na orgia sexual que se lhe segue. De certa maneira, os rostos ocultos por detrás das máscaras podem, ou não simbolizar as máscaras que todos usamos na Sociedade ou pode ser também  uma imagem  simbólica, como se fosse um espelho, mais negra, da  fachada de Victor Ziegler, em oposição à festa de natal que acontece no início do filme. Uma vez mais, Kubrick nada nos diz, deixa ao critério de cada um o que pensar e apenas nos aponta um caminho: seguir em frente.  
  O seu (nosso) voyeurismo é intenso e não se consegue desviar o olhar. A câmara de Kubrik passeia-se pelos corredores da mansão e provoca-nos de tal maneira que, no final, tal como Bill Harford, estamos prontos a sofrer as consequências do seu (nosso) acto. Verdadeiramente genial e sublime o trabalho de realização.
    Estreado em 1999, meses depois da morte do realizador, “De Olhos bem Fechados” não ficou isento de alguma polémica em relação à carga sexual que emana, levando a que, nos Estados Unidos, fossem cortados alguns minutos à cena orgiática e no Canadá a cena foi remontada para, em ambos os países, evitar uma classificação de “X”, aplicada aos filmes  pornográficos. Apenas na Europa, na Austrália e na América do Sul é que o filme estreou sem qualquer corte ou remontagem, mantendo intacta a cena.
   Filme-testamento de um realizador que, com a sua breve obra escreveu inúmeras páginas na história da sétima arte e elevou o cinema a patamares nunca antes alcançados.
Inesquecível!

Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet

sábado, 30 de junho de 2012

O Exorcista - Quando Ciência e Religião se chocam


    Drácula, Frankenstein, Lobisomens ou até mesmo zombies sempre fizeram parte do cinema. Quase desde os primórdios da sétima arte que o género terror sempre fez parte do imaginário dos espectadores. O que ninguém estava era preparado para o choque que, em 1973, "O Exorcista" provocou em todo o mundo.
    Regan McNeil é uma jovem americana como tantas outras que vive com a mãe depois dos pais se terem separado. A jovem começa a ter comportamentos estranhos que a mãe associa ao facto do pai se ter esquecido do seu aniversário. mas os comportamentos dela tornam-se ainda mais estranhos e bizarros e a mãe resolve consultar os médicos que, após uma série de testes e análises, não conseguem encontrar nenhuma explicação lógica para o que se passa com a jovem. Então alguém adianta a Chris McNeil, a hipótese da filha estar possuída por algum espiríto pelo que a única solução possível será um exorcismo.
    
   Realizado por William Friedkin, que acabou por ser uma escolha do próprio William Peter Blatty, depois de vários outros realizadores como Arthur Penn, Peter Bogdanovich, Mark Rydell ou até Stanley Kubrick, terem sido contactados e terem recusado o projecto. Blatty acabou por se fixar em Friedkin, já que queria neste filme a mesma energia que o realizador pusera em "French  Connection - Os Incorruptíveis contra a Droga" (1971), o seu filme anterior, com o qual ganhou o Óscar de Melhor Realizador, um dos cinco que o filme ganhou, incluindo o de Melhor Filme do Ano.          A sua realização, embora algo  dura, já que utilizou durante a rodagem métodos pouco ortodoxos para com os seus actores (desde agressões verbais até agressões físicas onde chegou ao ponto de esbofetear um actor para obter dele a reacção necessária para conferir o realismo  à cena), é normal nas cenas em que mostra a impotência da ciência em explicar o que se passa com Regan e também como as McNeil (mãe e filha) se relacionam com o Padre Damian Karras, pároco recém colocado, com remorsos devido ao recente falecimento da mãe. Karras é a pessoa a quem Chris recorre quando lhe é apresentada a hipótese de Regan estar possessa por um espírito. Relutante, o padre aceita investigar o que se passa, quando se conclui o que realmente a jovem tem, o padre nada pode fazer pois necessita da supervisão de alguém mais experiente. É então chamado o Padre Lancaster Merrin (Max Von Sydow, no papel mais famoso da sua já longa carreira), que já sobrevivera a um exorcismo. A partir daqui, o trabalho de Friedkin torna-se ainda mais intenso e , fruto de uma montagem engenhosa e avançada para a época, competente e inventivo na famosa sequência do exorcismo.
    O argumento de William Peter Blatty é supostamente baseado numa história verídica,ocorrida em 1949 na cidade de Cottage no estado de Maryland, com um jovem de nome Roland Doe ,está cheio de contrastes de ciência versus religião, o que torna a história e posteriormente o filme ainda mais interessante.
     Para um filme desta dimensão quase aterradora, Friedkin necessitava duma banda sonora adequada. Inicialmente rejeitou a música de Lalo Schifrin , que misturava os locais onde a acção se passa com sons estranhos, por a considerar demasiado aterradora para o público. Acabou por usar temas clássicos modernos, alguma música original de Jack Nitzche e incluir um excerto do inicio de "Tubular Bells" de Mike Oldfield, que tinha sido lançado meses antes da estreia do filme. Esta última escolha do realizador provou ser acertada já que as cenas em que o tema se ouve dão ao filme uma aura de algo sobrenatural tal é a subtileza com que o tema foi incluído e tornou a música extremamente conhecida. 
   Quando estreou em 1973, "O Exorcista" provocou uma onda de choque e horror entre os espectadores que assistiam ao filme. O realismo era tal que havia ambulãncias e equipas médicas a postos nos cinemas prontas a dar assistência a quem dela necessitasse.
   
     O filme foi um grande sucesso de bilheteira em todo o mundo, foi nomeado para dez Óscares da Academia,incluindo Melhor Filme do Ano, tendo sido o primeiro filme de terror da história do cinema a ser nomeado nesta categoria, vencendo apenas dois nas categorias de Melhor Som e Melhor Argumento Adaptado. 
   Como não podia deixar de ser, o sucesso do filme daria origem a duas sequelas (numa altura em que o termo ainda não se usava) e outras tantas prequelas: quanto ás primeiras, "Exorcista II - O Herege" (John Boorman,1977) é francamente mau e habitualmente ignorado quando se fala desta série;  já "Exorcist III - Exorcista III" (William Peter Blatty, 1990), é diferente: ignora o segundo filme e continua a história, anos depois, segue outro caminho mas sem nunca perder de vista personagens e situações que nos reportam para o primeiro filme, é muito interessante mas, inexplicavelmente, não conseguiu convencer o público. 
   Quanto às segundas, já a história é outra: foram feitos dois filmes para contar a história de como tudo começou sendo que a produção não gostou de um dos filmes, despediu o realizador e contratou outro para contar a mesma história. O resultado final foram dois filmes: "Exorcista: O Princípio"(Renny Harlin, 2004) que foi o segundo filme a ser feito e é muito mau, para não dizer ridículo!; o outro é "Dominion: a Prequel to the Exorcist" (Paul Schrader, 2004) e é superior ao seu sucessor.
   Lamentavelmente nenhum, se exceptuarmos "Exorcist III", se aproximou da qualidade do primeiro, principalmente no tocante a cenas marcantes como a cena da rotação da cabeça a 360 graus; ou a cena em que Regan se auto-viola com um crucifixo.
   O original é o melhor de todos e ficou como uma referência do género e um filme marcante para tudo aquilo que se fez posteriormente. 
  Em 2000, foi lançada uma edição intitulada "Director's Cut - A versão que você nunca viu", onde constam mais 11 minutos de cenas inéditas que apenas completam o que já se conhecia, mostram mais uma ou duas cenas de Regan já possuída pelo demónio, incluindo uma cena em que ela desce uma escada  como uma aranha e um final diferente  em que, na última cena, já depois da familia McNeil ter partido, o padre Dyer e o Tenente Kinderman conversam enquanto se afastam da casa que é vista no último plano e onde se vê uma espécie de "presença" a deslocar-se no quarto de Reagan a indicar-nos que a casa ainda não estava limpa, abrindo então caminho para uma possível continuação...
     Ao longo dos anos a importância de "O Exorcista" cresceu consideravelmente e influenciou um manancial de imitações, mas também inspirou muitos filmes de qualidade, incluindo "O Silêncio dos Inocentes" (Jonathan Demme, 1991) que levaria para casa cinco Oscares, incluindo o de Melhor Filme do Ano, tornando-se no primeiro filme de terror a levar este prémio para casa e seria um dos três únicos filmes da história do cinema (até ao momento) a levar para casa os cinco prémios principais da academia: Filme, Realizador, Actor, Actriz e Argumento. 
            Em 2008, "O Exorcista" foi considerado um dos 11  mais assustadores filmes de sempre e a revista cinematográfica "Empire" considerou-o um dos 500 melhores filmes de sempre. Seja qual for a versão que se veja, "O Exorcista" continua a ser uma referência obrigatória do cinema e do género em particular.

Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet





  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Um Blogger confessa-se


    Esta entrevista foi-me solicitada em fevereiro de 2012 por José Carlos Francisco, administrador dum blog português sobre Tex Willer, personagem de banda desenhada, a quem agradeço a cedência de autorização para a poder publicar neste blog.


Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.


Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?

Rui Cunha: Chamo-me Rui, sou casado e tenho dois filhos, tenho 46 anos, nasci a 27 de Janeiro de 1966 em Lisboa. Trabalho na Tap Portugal, desde 1991, onde, actualmente,  exerço  funções de Oficial de Operações de Vôo.
Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?

Rui Cunha: Foi mais ou menos na altura em que descobri o meu interesse pela leitura… deveria ter aí uns sete ou oito anos… ofereceram-me o livro “A Espada do Paladino” de Bob Morane… lembro-me que nessa altura a Bertrand editava regularmente livros de Michel Vaillant, Ric Hochet, Luc Orient, Dan Cooper, além dos livros de Tintin, Astérix, Lucky Luke, entre outros…
Quando descobriu Tex?

Rui Cunha: Descobri o Tex em 1978, quando estava de férias no Brasil e adquiri por acaso “AFlecha Negra”, nº10 da edição Brasileira normal.
Porquê esta paixão por Tex?

Rui Cunha: Quando era pequeno, uma das coisas que me lembro era  de querer ser cowboy… queria sercowboy!… além de que sempre gostei de ver westerns… apesar de não terem sido os primeiros filmes que vi (estreei-me no cinema a ver “A Bela Adormecida”, o filme de animação da Disney), lembro-me de filmes que vi nessa altura (tinha para aí uns sete anos!) e alguns eram westerns
O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?

Rui Cunha: A sua longevidade e espírito aventureiro… afinal, qual é o herói que, com a provecta idade que Tex tem (63 anos, se não me engano!), ainda se mete em aventuras como aquelas em que ele se mete?!
Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?

Rui Cunha: Nunca as contei… mas, seguramente, devo ter mais de 200… a mais importante para mim… talvez seja a nº 10 da edição Brasileira, por ter sido a primeira que comprei…
Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?

Rui Cunha: Apenas as revistas…
Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?

Rui Cunha: Já possuo: as revistas e um desenho autografado por Fabio Civitelli quando da sua passagem por Beja em 2010… mas qualquer coisa que apareça ou eu  possa adquirir, fá-lo-ei com agrado… mas aqui em Portugal é muito difícil surgirem outras coisas relacionadas com a personagem…. já as revistas, para se adquirirem, é preciso fazer uma ginástica enorme…
Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?

Rui Cunha: Não tenho uma só história preferida… tenho várias!… mas aquela que mais me entusiasmou na altura e ainda hoje gosto de a reler, é a que foi publicada nos nº 83 e 84 da edição Brasileira “Terror na Selva” e “Black Baron”, talvez por lidarem com as questões de Magia Negra e Voodoo , além de serem com Mefisto, o arqui-inimigo de Tex… a nível quer de desenhador, quer de argumentista, como não sou entendido na matéria, não tenho nenhum em particular… acho-os todos bons!
O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?

Rui Cunha: O que mais me agrada em Tex é o facto das histórias ainda serem publicadas a preto-e-branco, dá-lhes alguma aura de realismo e algum mistério necessário para algumas das histórias, nomeadamente aquelas que lidam com Mefisto e o seu filho Yama, além de que o preto-e-branco fica melhor neste tipo de revistas… aquilo que menos me agrada, é o facto das histórias se estenderem por duas ou mais revistas, o que, tendo em conta o diminuto mercado que existe em Portugal para este tipo de publicações, se torna aborrecido porque a maior parte das histórias, se a revista seguinte não vier por qualquer motivo até ao quiosque onde as costumamos comprar, ficam incompletas o que é sempre chato porque depois não se consegue encontrar a revista porque simplesmente não temos mercado para isso…
Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?

Rui Cunha: Acho que o que torna Tex um ícone é precisamente o ser uma publicação única no género, orientada, não  para um único público, mas sim para todo o público,  cuja acção se centra no velho Oeste, o que nos traz sempre alguma nostalgia dos filmes que todos aprendemos a gostar…
Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?

Rui Cunha: Não, nem por isso… conheço o José Carlos Francisco (embora ainda não tenhamos falado pessoalmente… mas espero que isso venha a acontecer futuramente!), conheço também o seu colega Mário Marques com quem há algum tempo atrás, também a propósito de Tex, troquei alguns mails… conheço-o através da sua esposa, a Maria Aragão, que é minha colega na Tap Portugal… e conheço o ilustrador e autor de banda desenhada João Amaral, de quem sou amigo há muitos anos e com quem, inclusive, já colaborei na adaptação para BD do livro de João Aguiar “A Voz dos Deuses”…
Para concluir, como vê o futuro doRanger?

Rui Cunha: Espero que o futuro de Tex seja radioso, que continue a ser lido e apreciado como tem sido até aqui… gostaria que as novas gerações, em vez de perderem tempo a vegetar em frente aos televisores, em frente aos computadores ou nas consolas de jogos, dedicassem algum tempo a cultivar hábitos de leitura, como eu e muita gente fez… e  o Tex é, sem dúvida, uma boa ajuda nesse sentido, já que não obriga a grandes esforços para se compreender as suas histórias… por último gostaria que houvesse alguma editora que se interessasse pela edição nacional das revistas deste herói que tantas alegrias deu  e continua a dar a tantos fãs por esse mundo fora…

Prezado pard Rui Cunhaagradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Hill Street Blues - ...e a Televisão nunca mais foi a mesma coisa...


                                                               


            Em 1981, a cadeia de televisão Norte-Americana NBC fazia história na cerimónia dos “Emmy’s”, prémios de televisão, entregues anualmente, ao conseguir que, pela primeira vez desde 1949, ano em que começou a cerimónia, uma série, na sua temporada de estreia, recebesse oito prémios, num total de 21 nomeações, incluindo o prémio para Melhor Série Dramática. “Hill Street Blues – Balada de Hill Street”, assim se chamava essa série, viria a mudar radicalmente a face da televisão.
     A produtora “MTM Enterprises”, desenvolveu o projecto  em nome da NBC, encarregando os escritores Steven Bochco e Michael Kozoll de criar  uma possível série televisiva. Dando largas à sua imaginação, os escritores, uma vez que tinham liberdade criativa considerável, criaram uma série de novas ideias que se viriam a tornar fundamentais na produção televisiva futura:
- Os episódios apresentavam várias histórias ligadas entre si, algumas eram resolvidas naquele episódio, outras no decorrer de vários episódios.
- A vida, profissional e privada, das personagens, por vezes colide entre si.
- Cada episódio começa com uma sequência pré-genérico de briefing matinal (“Roll Call”), dado por um Sargento, a que toda a gente (Detectives e Polícias uniformizados) assiste, recebe as suas missões e prepara o seu dia de serviço.
- Todos os episódios são filmados de camera ao ombro, permitindo uma acção e corte rápidos entre as histórias, através duma montagem igualmente rápida. A existência de muito ruído e diálogo em fundo dá o efeito de “quase documentário” e de realidade necessários. Esta técnica foi usada desde o episódio-piloto, produzido em 1980 e inspirado no documentário “The Police Tapes”, realizado em 1977 e no qual os realizadores usavam cameras ao ombro para poderem seguir os polícias no Bronx. Já em 1971 o realizador William Friedkin utilizara parcialmente esta técnica na sua obra-prima “The French Connection – Os Incorruptíveis contra a Droga”.
- A maioria dos episódios termina numa situação doméstica em que as personagens do Capitão Frank Furillo e da Advogada Joyce Davenport, discutem o seu dia de trabalho.
      Inspirada em variada matéria sobre o assunto, tais como: casos processuais, outras séries e romances policiais e de detectives, principalmente o livro de Ed McBain “Cop Hater”, escrito em 1956, “Hill Street Blues” relatava o dia-a-dia duma Esquadra de Polícia situada numa qualquer cidade americana, os problemas com que se deparavam os seus funcionários, a dificuldade, muitas vezes também, a impossibilidade de fazer respeitar a lei e a justiça.  A frontalidade real e brutal com que a série descrevia a vida urbana, a violência (houve quem a considerasse gratuita e desnecessária) e as diferenças sociais existentes na década de 80 foi considerada revolucionária para a época. Embora filmada em locais específicos da baixa de Los Angeles, ou utilizando algumas sequências filmadas em Chicago para o genérico inicial  e também nos estúdios da CBS, nunca se sabe realmente qual a cidade em que se situam os bairros problemáticos onde se passa a acção, o que foi uma decisão inteligente dos criadores tornando a série muito mais abrangente porque se pode situar tanto em New York, como em Los Angeles, ou em qualquer outra grande metrópole dos Estados Unidos.
   A cultura de gangs também foi muito bem explorada ao longo das diversas temporadas. As negociações que aconteciam entre os líderes dos gangs decorriam geralmente na esquadra e tinham tanto de cómico ( o visual e a maneira de falar dos diversos líderes) como de dramático (quando os líderes não se entendiam uns com os outros ou com a polícia e acontecia uma cena de pancadaria). As interações entre polícia e gangs centravam-se à volta do gang “Los Diablos” e a relação difícil, a princípio, depois consolidada através de admiração, colaboração e mutúo respeito entre o carismático líder do gang, Jesus Marinez e o capitão Furillo.
   Ao longo de sete temporadas, os espectadores habituaram-se a conviver com personagens quase familiares: desde o chefe da esquadra de Hill Street, o incorruptível e pouco permissivo Capitão Francis Furillo, passando pelos detectives, polícias uniformizados, pelo negociador Henry Goldblume, o vice-chefe da esquadra Ray Calletano, a Defensora Pública Joyce Davenport, Fay Furillo, a complicada ex-mulher do capitão, Jesus Martinez, o chefe de “Los Diablos”, um dos gangs poderosos da zona, terminando no Sargento Phil Esterhaus, uma figura quase paternal e consciência de todos os que trabalham na esquadra.
O Elenco fixo de Hill Street Blues
  O elenco, composto de 13 personagens  fixas, manteve-se sempre o mesmo até meio da quarta temporada, quando morreu  Michael Conrad, o actor que interpretava o Sargento Phil Esterhaus, a 22 de novembro de 1983.  A personagem ainda apareceu esporadicamente, nas “Roll Calls” matinais que já estavam previamente gravadas, em alguns episódios até fevereiro de 1984, onde faz a sua última aparição, no episódio intitulado “Grace Under Pressure”, que lhe foi dedicado. O episódio foi dos mais vistos em termos de “share” televisivo, não só pela carga emocional que se apoderou de toda a equipa quando o gravaram, como também por conter o mais inesquecível e memorável final de episódio de todas as temporadas: é noite, o capitão Furillo, Ray Calletano, Howard Hunter, Mick Belker, Henry Goldblume, Bobby Hill e Andy Renko, caminham por um beco nas traseiras da esquadra. Na mãos do capitão vai um vaso contendo as cinzas do Sargento. À vez, cada um deles, pega numa mão-cheia de cinzas e atiram-nas contra o vento, dizendo algumas palavras de apreço pelo amigo, cumprindo assim uma última vontade testamentária do falecido que queria que os seus restos mortais permanecessem em Hill Street. Perante um final destes, pouco habitual nesta série, é impossível ficar-se indiferente. A partir deste desaparecimento, a série, que quebrou as regras televisivas, não conseguiu sobreviver ás suas próprias regras, ressentiu-se disso e nunca mais foi a mesma. É como se aquela perda não tivesse solução.
"Let's be careful out there", a inesquecível frase do Sargento Phil Esterhaus
   “Hill Street Blues”, durante as suas sete temporadas, foi nomeada para 98 Emmy’s, venceu 52, venceu também 3 Globos de Ouro  e, entre 1981 e 1984, foi 4 vezes consecutivas vencedora do prémio para Melhor Série Dramática e partilha com “L.A.Law – As Teias da Lei” e “West Wing – Os Homens do Presidente”, o recorde de maior número de elementos do elenco a ser nomeado para Emmy numa única temporada: nada menos que nove!
Série inesquecível, um marco em televisão, a sua influência foi decisiva em séries posteriores como “ER - Serviço de Urgência” (1994-2009), criada por Michael Crichton ou “NYPD Blues – A Balada de Nova York” (1993-2005) do mesmo Steven Bochco e que pode ser considerada como a segunda parte do díptico do criador sobre as forças da lei.
     “24”, a Unidade de Contra-Terrorismo (CTU), e os dias difíceis e intermináveis de Jack Bauer ainda estavam para nascer.

Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet


 

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Vietname, segundo Stanley Kubrick


                                                            


   Falar de Stanley Kubrick é falar de cinema. A sua obra, embora curta em termos de filmes, foi de importância capital, destinada a ser estudada e analisada por todos quantos se interessem pela sétima arte.
    Stanley Kubrick sempre quis fazer um filme de guerra. Já em 1957 com "Paths of Glory - Horizontes de Glória", tinha abordado o tema com este filme mais anti-guerra do que guerra. 
    Após "Shining" (1980), contactou Michael Herr, autor de "Dispatches", uma memória sobre a guerra do Vietname, e expôs-lhe a ideia de querer fazer um filme sobre o Holocausto mas que ainda não tinha encontrado a história ideal para adaptar.Eventualmente chegou-lhe ás mãos o livro de Gustav Hasford "The short-Timers". Kubrick leu-o duas vezes antes de decidir que seria a base do seu próximo filme, um filme sobre a guerra do Vietname.
  "Full Metal Jacket - Nascido para Matar", penúltimo filme do realizador, acenta que nem uma luva na sua carreira e insere-se lindamente na lista dos filmes mais importantes sobre a guerra do Vietname.
    Em Parris Island na Carolina do Sul um grupo de jovens Marines começam o seu treino para depois serem enviados para o Vietname para reforçar o contingente Norte Americano que por lá se bate. 


   A comandá-los está um impiedoso Sargento-Instructor decidido a torná-los verdadeiras máquinas de matar.
Realizado com o habitual perfeccionismo milimétrico e obsessivo de Stanley Kubrick, onde qualquer movimento de camâra, qualquer plano ou até a própria banda sonora têm uma razão para ali estar e venha daí quem disser o contrário!
   Dividido em duas partes distintas,narradas sempre do ponto de vista de Joker, que se completam no total, "Full Metal Jacket" começa com os futuros Marines a rapar o cabelo por completo dando inicío ao seu processo de desumanização e consequente transformação em "máquinas de matar", como lhes é dito a dada altura, que decorrerá ao longo de toda a recruta, sob a mão impiedosa do Sargento-Instructor Hartman (R.Lee Ermey), principal executor dessa mesma desumanização (cada grande plano da sua cara expressa essa vontade), castigando e humilhando constantemente o soldado Pyle (Vincent D'Onofrio), culminando na sequência do castigo infligindo a este durante a noite pelos seus próprios companheiros de camarata. O soldado Pyle acabará, finalmente, por fazer uso dessa mesma desumanização, na magnifica sequência nocturna da última noite, na casa de banho  da camarata. Vemos, nessa cena, na expressão facial de Pyle e no seu olhar, brilhantemente captados pelo realizador, o regresso de Alex DeLarge ( interpretado por Malcolm McDowell em "A Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick, 1971). Simplesmente aterrador.
A segunda parte do filme vai encontrar alguns elementos deste pelotão,  quase "máquinas de matar", em plena acção no Vietname. Estamos em plena ofensiva de Tet em 1968 e assistimos a um novo pesadelo neste conflito: a guerra urbana. Aqui reside um dos grandes trunfos do filme; ao transferir a acção dos combates da selva habitual para a selva urbana, Kubrick, que à semelhança de Francis "Ford" Coppola, em "Apocalypse Now", também faz uma aparição aqui como  operador de camâra, consegue uma originalidade única nunca conseguida em nenhuma outra obra que tenha abordado o Vietname. Filmada em estilo documental, patente nas cenas da progressão das tropas americanas sobre a a cidade de Hue, onde algures vislumbramos a ruína de um prédio que nos traz à memória o monólito negro (piscadela de olho a "2001:Odisseia no Espaço"?) - quererá o realizador dizer-nos alguma coisa? - Kubrick não confirma nem desmente e considera apenas que foi uma coincidência extraordinária; ou no combate nas ruínas da cidade entre o pelotão, cujos elementos, finalmente se transformam em "máquinas de matar", mas, nem todos vão conseguir cumprir essa transformação, e um atirador furtivo que os vai abatendo um a um; esta sequência consegue ser muito mais assustadora que qualquer outra filmada na selva, porque lá, já se sabe o que se espera, aqui o perigo pode espreitar em qualquer prédio, em qualquer esquina, Kubrick consegue aqui um efeito de suspense em filmes de guerra, nunca conseguido em qualquer outra produção do género.
   Em termos de interpretações, estas falam por si. Matthew Modine interpreta bem o seu soldado Joker, principalmente quando discute com um oficial o significado e a dualidade da inscrição que tem no seu capacete "Born to Kill" acompanhado do símbolo dos hippies; mas o triunfo do filme vai todo para D'Onofrio e Lee Ermey: as cenas entre ambos estão soberbamente interpretadas   principalment R.Lee Ermey que fora militar antes de ser actor. Inicialmente contratado com consultor técnico do filme, Kubrick viu um vídeo feito durante um ensaio do filme, em que R. Lee Ermey praguejava contra um grupo de Marines. 
    O realizador gostou tanto que o contratou de imediato para o papel. Tinha encontrado o seu Sargento-Instrutor e Lee Ermey correspondeu perfeitamente ao que lhe era pedido; quanto a Vincent D'Onofrio, assustador na sua transformação de jovem imberbe sem inteligência nem ambição até começar a enlouquecer progressivamente e transformar-se no perigoso psicopata que vemos no final da primeira parte, é um verdadeiro "tour de force" do actor e, uma vez mais, magnificamente captado pela lente do realizador. 
    A cena final é um dos aspectos mais interessantes do filme: os soldados marcham para fora do campo de batalha, ao som do tema "Mickey Mouse", um tema infantil, mas, que neste cenário macabro, se torna quase ridículo, no entanto, adquire uma importância capital, já que depois de tudo aquilo a que se assistiu, o tema deveria adquirir um tom quase cómico, mas o efeito que se obtém é precisamente o contrário e o tema já não consegue entreter nem alegrar. É uma espécie de coroação, dando à película o toque final de irracionalidade pretendido por Kubrick, mantendo válida a questão que percorre as mentes de todos (protagonistas e audiências) ao longo da obraquem são afinal os heróis do filme? 
  Último grande filme sobre o Vietname, um conflito que deixou marcas em toda a sociedade americana, "Full Metal Jacket" representou mais um enorme capítulo na grande carreira de um realizador chamado Stanley Kubrick. 





Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram o texto, foram retirados da Internet



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