quarta-feira, 13 de junho de 2012

Hill Street Blues - ...e a Televisão nunca mais foi a mesma coisa...


                                                               


            Em 1981, a cadeia de televisão Norte-Americana NBC fazia história na cerimónia dos “Emmy’s”, prémios de televisão, entregues anualmente, ao conseguir que, pela primeira vez desde 1949, ano em que começou a cerimónia, uma série, na sua temporada de estreia, recebesse oito prémios, num total de 21 nomeações, incluindo o prémio para Melhor Série Dramática. “Hill Street Blues – Balada de Hill Street”, assim se chamava essa série, viria a mudar radicalmente a face da televisão.
     A produtora “MTM Enterprises”, desenvolveu o projecto  em nome da NBC, encarregando os escritores Steven Bochco e Michael Kozoll de criar  uma possível série televisiva. Dando largas à sua imaginação, os escritores, uma vez que tinham liberdade criativa considerável, criaram uma série de novas ideias que se viriam a tornar fundamentais na produção televisiva futura:
- Os episódios apresentavam várias histórias ligadas entre si, algumas eram resolvidas naquele episódio, outras no decorrer de vários episódios.
- A vida, profissional e privada, das personagens, por vezes colide entre si.
- Cada episódio começa com uma sequência pré-genérico de briefing matinal (“Roll Call”), dado por um Sargento, a que toda a gente (Detectives e Polícias uniformizados) assiste, recebe as suas missões e prepara o seu dia de serviço.
- Todos os episódios são filmados de camera ao ombro, permitindo uma acção e corte rápidos entre as histórias, através duma montagem igualmente rápida. A existência de muito ruído e diálogo em fundo dá o efeito de “quase documentário” e de realidade necessários. Esta técnica foi usada desde o episódio-piloto, produzido em 1980 e inspirado no documentário “The Police Tapes”, realizado em 1977 e no qual os realizadores usavam cameras ao ombro para poderem seguir os polícias no Bronx. Já em 1971 o realizador William Friedkin utilizara parcialmente esta técnica na sua obra-prima “The French Connection – Os Incorruptíveis contra a Droga”.
- A maioria dos episódios termina numa situação doméstica em que as personagens do Capitão Frank Furillo e da Advogada Joyce Davenport, discutem o seu dia de trabalho.
      Inspirada em variada matéria sobre o assunto, tais como: casos processuais, outras séries e romances policiais e de detectives, principalmente o livro de Ed McBain “Cop Hater”, escrito em 1956, “Hill Street Blues” relatava o dia-a-dia duma Esquadra de Polícia situada numa qualquer cidade americana, os problemas com que se deparavam os seus funcionários, a dificuldade, muitas vezes também, a impossibilidade de fazer respeitar a lei e a justiça.  A frontalidade real e brutal com que a série descrevia a vida urbana, a violência (houve quem a considerasse gratuita e desnecessária) e as diferenças sociais existentes na década de 80 foi considerada revolucionária para a época. Embora filmada em locais específicos da baixa de Los Angeles, ou utilizando algumas sequências filmadas em Chicago para o genérico inicial  e também nos estúdios da CBS, nunca se sabe realmente qual a cidade em que se situam os bairros problemáticos onde se passa a acção, o que foi uma decisão inteligente dos criadores tornando a série muito mais abrangente porque se pode situar tanto em New York, como em Los Angeles, ou em qualquer outra grande metrópole dos Estados Unidos.
   A cultura de gangs também foi muito bem explorada ao longo das diversas temporadas. As negociações que aconteciam entre os líderes dos gangs decorriam geralmente na esquadra e tinham tanto de cómico ( o visual e a maneira de falar dos diversos líderes) como de dramático (quando os líderes não se entendiam uns com os outros ou com a polícia e acontecia uma cena de pancadaria). As interações entre polícia e gangs centravam-se à volta do gang “Los Diablos” e a relação difícil, a princípio, depois consolidada através de admiração, colaboração e mutúo respeito entre o carismático líder do gang, Jesus Marinez e o capitão Furillo.
   Ao longo de sete temporadas, os espectadores habituaram-se a conviver com personagens quase familiares: desde o chefe da esquadra de Hill Street, o incorruptível e pouco permissivo Capitão Francis Furillo, passando pelos detectives, polícias uniformizados, pelo negociador Henry Goldblume, o vice-chefe da esquadra Ray Calletano, a Defensora Pública Joyce Davenport, Fay Furillo, a complicada ex-mulher do capitão, Jesus Martinez, o chefe de “Los Diablos”, um dos gangs poderosos da zona, terminando no Sargento Phil Esterhaus, uma figura quase paternal e consciência de todos os que trabalham na esquadra.
O Elenco fixo de Hill Street Blues
  O elenco, composto de 13 personagens  fixas, manteve-se sempre o mesmo até meio da quarta temporada, quando morreu  Michael Conrad, o actor que interpretava o Sargento Phil Esterhaus, a 22 de novembro de 1983.  A personagem ainda apareceu esporadicamente, nas “Roll Calls” matinais que já estavam previamente gravadas, em alguns episódios até fevereiro de 1984, onde faz a sua última aparição, no episódio intitulado “Grace Under Pressure”, que lhe foi dedicado. O episódio foi dos mais vistos em termos de “share” televisivo, não só pela carga emocional que se apoderou de toda a equipa quando o gravaram, como também por conter o mais inesquecível e memorável final de episódio de todas as temporadas: é noite, o capitão Furillo, Ray Calletano, Howard Hunter, Mick Belker, Henry Goldblume, Bobby Hill e Andy Renko, caminham por um beco nas traseiras da esquadra. Na mãos do capitão vai um vaso contendo as cinzas do Sargento. À vez, cada um deles, pega numa mão-cheia de cinzas e atiram-nas contra o vento, dizendo algumas palavras de apreço pelo amigo, cumprindo assim uma última vontade testamentária do falecido que queria que os seus restos mortais permanecessem em Hill Street. Perante um final destes, pouco habitual nesta série, é impossível ficar-se indiferente. A partir deste desaparecimento, a série, que quebrou as regras televisivas, não conseguiu sobreviver ás suas próprias regras, ressentiu-se disso e nunca mais foi a mesma. É como se aquela perda não tivesse solução.
"Let's be careful out there", a inesquecível frase do Sargento Phil Esterhaus
   “Hill Street Blues”, durante as suas sete temporadas, foi nomeada para 98 Emmy’s, venceu 52, venceu também 3 Globos de Ouro  e, entre 1981 e 1984, foi 4 vezes consecutivas vencedora do prémio para Melhor Série Dramática e partilha com “L.A.Law – As Teias da Lei” e “West Wing – Os Homens do Presidente”, o recorde de maior número de elementos do elenco a ser nomeado para Emmy numa única temporada: nada menos que nove!
Série inesquecível, um marco em televisão, a sua influência foi decisiva em séries posteriores como “ER - Serviço de Urgência” (1994-2009), criada por Michael Crichton ou “NYPD Blues – A Balada de Nova York” (1993-2005) do mesmo Steven Bochco e que pode ser considerada como a segunda parte do díptico do criador sobre as forças da lei.
     “24”, a Unidade de Contra-Terrorismo (CTU), e os dias difíceis e intermináveis de Jack Bauer ainda estavam para nascer.

Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet


 

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Vietname, segundo Stanley Kubrick


                                                            


   Falar de Stanley Kubrick é falar de cinema. A sua obra, embora curta em termos de filmes, foi de importância capital, destinada a ser estudada e analisada por todos quantos se interessem pela sétima arte.
    Stanley Kubrick sempre quis fazer um filme de guerra. Já em 1957 com "Paths of Glory - Horizontes de Glória", tinha abordado o tema com este filme mais anti-guerra do que guerra. 
    Após "Shining" (1980), contactou Michael Herr, autor de "Dispatches", uma memória sobre a guerra do Vietname, e expôs-lhe a ideia de querer fazer um filme sobre o Holocausto mas que ainda não tinha encontrado a história ideal para adaptar.Eventualmente chegou-lhe ás mãos o livro de Gustav Hasford "The short-Timers". Kubrick leu-o duas vezes antes de decidir que seria a base do seu próximo filme, um filme sobre a guerra do Vietname.
  "Full Metal Jacket - Nascido para Matar", penúltimo filme do realizador, acenta que nem uma luva na sua carreira e insere-se lindamente na lista dos filmes mais importantes sobre a guerra do Vietname.
    Em Parris Island na Carolina do Sul um grupo de jovens Marines começam o seu treino para depois serem enviados para o Vietname para reforçar o contingente Norte Americano que por lá se bate. 


   A comandá-los está um impiedoso Sargento-Instructor decidido a torná-los verdadeiras máquinas de matar.
Realizado com o habitual perfeccionismo milimétrico e obsessivo de Stanley Kubrick, onde qualquer movimento de camâra, qualquer plano ou até a própria banda sonora têm uma razão para ali estar e venha daí quem disser o contrário!
   Dividido em duas partes distintas,narradas sempre do ponto de vista de Joker, que se completam no total, "Full Metal Jacket" começa com os futuros Marines a rapar o cabelo por completo dando inicío ao seu processo de desumanização e consequente transformação em "máquinas de matar", como lhes é dito a dada altura, que decorrerá ao longo de toda a recruta, sob a mão impiedosa do Sargento-Instructor Hartman (R.Lee Ermey), principal executor dessa mesma desumanização (cada grande plano da sua cara expressa essa vontade), castigando e humilhando constantemente o soldado Pyle (Vincent D'Onofrio), culminando na sequência do castigo infligindo a este durante a noite pelos seus próprios companheiros de camarata. O soldado Pyle acabará, finalmente, por fazer uso dessa mesma desumanização, na magnifica sequência nocturna da última noite, na casa de banho  da camarata. Vemos, nessa cena, na expressão facial de Pyle e no seu olhar, brilhantemente captados pelo realizador, o regresso de Alex DeLarge ( interpretado por Malcolm McDowell em "A Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick, 1971). Simplesmente aterrador.
A segunda parte do filme vai encontrar alguns elementos deste pelotão,  quase "máquinas de matar", em plena acção no Vietname. Estamos em plena ofensiva de Tet em 1968 e assistimos a um novo pesadelo neste conflito: a guerra urbana. Aqui reside um dos grandes trunfos do filme; ao transferir a acção dos combates da selva habitual para a selva urbana, Kubrick, que à semelhança de Francis "Ford" Coppola, em "Apocalypse Now", também faz uma aparição aqui como  operador de camâra, consegue uma originalidade única nunca conseguida em nenhuma outra obra que tenha abordado o Vietname. Filmada em estilo documental, patente nas cenas da progressão das tropas americanas sobre a a cidade de Hue, onde algures vislumbramos a ruína de um prédio que nos traz à memória o monólito negro (piscadela de olho a "2001:Odisseia no Espaço"?) - quererá o realizador dizer-nos alguma coisa? - Kubrick não confirma nem desmente e considera apenas que foi uma coincidência extraordinária; ou no combate nas ruínas da cidade entre o pelotão, cujos elementos, finalmente se transformam em "máquinas de matar", mas, nem todos vão conseguir cumprir essa transformação, e um atirador furtivo que os vai abatendo um a um; esta sequência consegue ser muito mais assustadora que qualquer outra filmada na selva, porque lá, já se sabe o que se espera, aqui o perigo pode espreitar em qualquer prédio, em qualquer esquina, Kubrick consegue aqui um efeito de suspense em filmes de guerra, nunca conseguido em qualquer outra produção do género.
   Em termos de interpretações, estas falam por si. Matthew Modine interpreta bem o seu soldado Joker, principalmente quando discute com um oficial o significado e a dualidade da inscrição que tem no seu capacete "Born to Kill" acompanhado do símbolo dos hippies; mas o triunfo do filme vai todo para D'Onofrio e Lee Ermey: as cenas entre ambos estão soberbamente interpretadas   principalment R.Lee Ermey que fora militar antes de ser actor. Inicialmente contratado com consultor técnico do filme, Kubrick viu um vídeo feito durante um ensaio do filme, em que R. Lee Ermey praguejava contra um grupo de Marines. 
    O realizador gostou tanto que o contratou de imediato para o papel. Tinha encontrado o seu Sargento-Instrutor e Lee Ermey correspondeu perfeitamente ao que lhe era pedido; quanto a Vincent D'Onofrio, assustador na sua transformação de jovem imberbe sem inteligência nem ambição até começar a enlouquecer progressivamente e transformar-se no perigoso psicopata que vemos no final da primeira parte, é um verdadeiro "tour de force" do actor e, uma vez mais, magnificamente captado pela lente do realizador. 
    A cena final é um dos aspectos mais interessantes do filme: os soldados marcham para fora do campo de batalha, ao som do tema "Mickey Mouse", um tema infantil, mas, que neste cenário macabro, se torna quase ridículo, no entanto, adquire uma importância capital, já que depois de tudo aquilo a que se assistiu, o tema deveria adquirir um tom quase cómico, mas o efeito que se obtém é precisamente o contrário e o tema já não consegue entreter nem alegrar. É uma espécie de coroação, dando à película o toque final de irracionalidade pretendido por Kubrick, mantendo válida a questão que percorre as mentes de todos (protagonistas e audiências) ao longo da obraquem são afinal os heróis do filme? 
  Último grande filme sobre o Vietname, um conflito que deixou marcas em toda a sociedade americana, "Full Metal Jacket" representou mais um enorme capítulo na grande carreira de um realizador chamado Stanley Kubrick. 





Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram o texto, foram retirados da Internet



domingo, 20 de maio de 2012

Quadrophenia - The Who do Outro Lado do Espelho




       Lançado em 1973, quase dez anos passados sobre os acontecimentos que retrata, “Quadrophenia”, é o sexto álbum de estúdio lançado pelo grupo britânico “The Who”. É a segunda ópera-rock do grupo (depois de “Tommy” em 1969) e desta vez correu ainda melhor que da primeira vez. Enquanto em 1969 se viviam ainda os efeitos do movimento Hippie  e do festival de Woodstock, que decorrera nesse mesmo verão, onde o grupo apresentou “Tommy” pela primeira vez, constituindo essa sua participação um grande êxito e que tornaria o álbum o primeiro grande sucesso do grupo,  já que refletia os ideais do “Flower Power”, reunidos em torno de um rapaz que, devido a um trauma de infância, fica cego surdo e mudo, mas que se torna numa espécie de figura messiânica, idolatrado por milhares de pessoas.
       Nova década, outras preocupações estiveram então na origem desta segunda ópera-rock do grupo. A sua história gira em torno da perspectiva social, musical e psicológica  que uma certa juventude inglesa teve dos acontecimentos ocorridos em Londres e Brighton em 1964-65. 
        O título é uma variação, não científica, do termo médico “Esquizofrenia” (doença mental complexa de personalidade), aqui apresentada com uma personalidade múltipla, Jimmy, o protagonista da história, sofre de uma personalidade quadrúpla, cada uma delas associada a um elemento do grupo: o duro, o provocador, o violento, em  representa Roger Daltrey em “Helpless Dancer”; o romântico “Is It Me?” é associado a John Entwistle; em “Bell Boy”, o lunático é Keith Moon; o pedinte, o hipócrita é decalcado de Peter Townshend em “Love , Reign O’er Me”. Os quatro temas que identificam as quatro personalidades em Jimmy são misturadas em “Quadrophenia”, a faixa-título da Ópera, utilizada com uma espécie de ponte entre os temas “The Real Me” e “Cut my Hair” e voltam a misturar-se em The Rock” que medeia entre “Doctor Jimmy” e “Love, Reign O’er Me”, que, segundo Townshend, a combinação dos temas/personalidades nestes dois  medleys instrumentais, constituiu o trabalho mais complexo que alguma vez fez para o grupo. Ao longo de toda a Ópera os quatro temas vão surgindo aqui e ali, subtilmente introduzidos em outros temas, dando ao trabalho a impressão de um todo coeso.
Peter Townshend, guitarrista do grupo e compositor, disse que o nome da ópera evoluiu, a partir duma ideia, como sendo uma autobiografia do grupo, e que inicialmente era para se chamar “Rock is Dead – Long Live Rock!”, mas na altura do seu lançamento, o papel do grupo era apenas simbólico, através da quatro personalidade de Jimmy, por isso decidiram mudar o nome para “Quadrophenia”.
         A história passa-se em cinco dias, nos quais Jimmy, um "Mod" por escolha,  numa rocha, no meio do oceano, relembra a sua vida até então. “Quadrophenia” é a narrativa de uma história, contada na primeira pessoa.  
         Na primeira parte, nos temas “I Am the Sea” e “The Real Me”, Jimmy apresenta-se e  conta-nos as suas frustrações, as inseguranças que conduzem a sua vida e as tentativas infrutíferas de ter uma vida social normal. Com “Cut my Hair”, ele relembra uma discussão com os pais, por estes descobrirem anfetaminas no seu quarto, que esteve na origem da sua fuga de casa (ouvem-se na rádio noticias dos confrontos, entre “Mods” e “Rockers”, ocorridos em Brighton, dias antes e nos quais Jimmy esteve presente). Depois de ser mal tratado num concerto, quando tenta ir conhecer o grupo que actuou (supostamente os próprios “The Who”), começa a perceber que a única coisa boa que tem na sua vida é ser “Mod”. Sem conseguir fixar-se em nenhum emprego, perde a namorada para um amigo. Em “I’ve Had Enough”, Jimmy, num completo estado de auto-destruição, destroi a sua Vespa (símbolo de independência dos “Mods”) e decide ir para Brighton onde se divertiu com os amigos a perseguir e a lutar com os “Rockers”, único momento da sua vida onde foi realmente feliz.

    Na segunda parte, “5.15”, conta a sua viagem de comboio para Brighton e quando chega, o seu ânimo aumenta. Em “Sea and Sand” e “Drowned”, Jimmy fala sarcasticamente das discussões caseiras e da noite que passou na praia  com a sua ex-namorada. Decide ficar em Brighton para relembrar os dias em que os “Mods” chegaram à cidade. Apesar de apenas terem decorrido duas semanas sobre esses eventos, ele já está a viver no passado. 
   Em “Bell Boy”, Conhece Ace Face, um dos líderes dos “Mods” e um dos seus heróis de eleição, que não passa de um simples paquete no mesmo hotel que o seu grupo quase destruiu. Jimmy percebe então que a cena Mod deixou de ser sinónimo de um certo estilo de vida, sente-se atraiçoado por todos os que o rodeiam e mergulha numa espiral destrutiva  de drogas e álcool. Jimmy vai então até ao mar e vê-o como um  espelho  dum poder maior no qual ele vai submergir e perder-se na sua imensidão. Em “Doctor Jimmy”, ele está perto da loucura,  surge o lunático em si mesmo que o salva duma morte quase certa. No refrão do tema pode ouvir-se “…Doctor Jimmy and Mr. Jim…” referência mais que evidente a “Doctor Jekyll and Mr. Hyde”, que se liga ao tema das múltiplas personalidades que vão emergindo ao longo da história. 
  Os temas finais, dizem-nos que Jimmy, depois de roubar um barco, se encontra numa rocha, no meio do mar. Aqui, depois duma espécie de transe em que as suas quatro personalidades conflituam umas com as outras (o instrumental “The Rock” é  isso mesmo), quando Jimmy cai em si, percebe que o barco se afastou, está abandonado, sozinho e esquecido. No fabuloso e arrasador “Love, Reign O’er Me”(dos melhores temas que  Peter Townshend compôs), uma tempestade abate-se à sua volta e Jimmy descobre  que, após ter sido tanta gente diferente, sabe finalmente quem é : ele próprio!
Recebido com  algumas reservas iniciais, “Quadrophenia”, foi, ao longo da década de 70 do século passado,  sendo objecto de estudos por parte de especialistas e considerado como uma análise quase perfeita duma certa juventude que viveu aqueles anos loucos da década de 60 e o facto de, na discografia oficial do grupo, estar colocado entre os álbuns “Who’s Next” (1971, considerado o melhor álbum do grupo) e “The Who by Numbers” (1975), pode ter uma razão de ser, mas, sobre isso, o grupo nunca disse uma palavra.
Em 1979, “Quadrophenia”, foi adaptado  para o cinema por Franc Roddam,. Usando a Ópera-rock do grupo como ponto de partida, o filme acaba por ser uma reflexão sobre a Grã-Bretanha pré-Thatcher, usando os confrontos da década de 60 entre os “Mods”, filhos da classe média, bem vestidos e que conduziam as suas vespas, e os “Rockers”, sempre vestidos de couro e conduzem motos potentes. Reflectindo um certo narcisismo patente nessa época e uma cultura movida a anfetaminas, “Quadrophenia foi um modesto sucesso de bilheteira tendo vindo a ganhar algum protagonismo no inicio da década de 80.   Com um elenco praticamente desconhecido onde apenas pontuava, embora num registo secundário,  um jovem músico e cantor de nome Sting como Ace Face.
Em 2000, “Quadrophenia” foi considerado um dos 100 melhores álbuns de rock de sempre. Em 2011, o álbum foi remisturado e editado numa caixa de luxo contendo cinco discos: quatro cd’s, que incluíam o álbum original com som remisturado e várias demos de diversos temas, e um DVD com um concerto de 2010 onde “Quadrophenia” foi integralmente tocado com vários convidados.




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domingo, 13 de maio de 2012

O Mundo do Rio - Viagem a um Mundo sem Morte




                  Philip José Farmer (1918-2009) foi um escritor americano de histórias de fantasia e ficção científica. Nasceu em Terre Haute, no Indiana, mas viveu quase toda a sua vida em Peoria, no Illinois. Leitor ávido desde jovem, Farmer  decidiu ser escritor no quarto ano. Depois da  IIª Guerra Mundial, onde foi piloto, continuou os seus estudos enquanto trabalhava na fábrica de aço local. Em 1950 tornou-se Bacharel em Inglês pela Universidade de Bradley. Ganhou o seu primeiro prémio Hugo (Oscar da literatura de ficção científica) com a novela “The Lovers – Os Amantes”  em 1953.
            Autor de novelas e contos,  ficou conhecido por ter escrito várias novelas em sequência, principalmente “The World of Tiers” (1965-93), “Riverworld” (1971-83) ou “Dayworld” (1985-1990). Foi também pioneiro na introdução dos temas da sexualidade e de religião no seu trabalho. Fascinado pelos chamados “Heróis dos Romances  de Cordel” , Farmer  pegava nas temáticas de alguns desses romances,  reescrevia-as  utilizando personagens fictícias. Foi, no entanto, em 1971, com “To Your Scattered Bodies Go”,  que recebeu outro prémio Hugo e que definitivamente o lançou. Era o começo de  “Riverworld – O Mundo do Rio”,  a sua obra mais famosa e uma das melhores séries literárias da ficção científica.
        A Terra, tal como a conhecemos , deixou de existir, foi destruída por uma força alienígena. Os 36 mil milhões de habitantes, que existiram ao longo da sua história, são transferidos para um planeta algures no universo e ressuscitados,  todos com 25 anos de idade, ao longo das margens dum rio. Neste mundo, onde quando se morre, ressuscita-se noutro local qualquer, cuja vida se parece centrar no rio que aparentemente se estende por todo o planeta,  é dada à humanidade uma segunda oportunidade de se redimir dos erros cometidos na terra. Seguimos então as aventuras de personagens tão diversos como Richard Francis Burton, o famoso explorador inglês do século XIX, Peter Jairus Frigate (personagem fictícia que o autor criou utilizando as suas próprias iniciais para assim se introduzir na acção)  Herman Goering, o delfim de Hitler, Samuel Clemens, o escritor norte-americano, autor de Mark Twain ou Cyrano de Bergerac, o famoso espadachim francês do século XVII,  em busca da torre negra,  situada no  Mar do Pólo Norte , local onde aparentemente termina o rio,  assim como encontrar as  respostas ao mistério daquela ressurreição.
                  A  série é constituída por cinco volumes:“To Your Scatered Bodies Go – Mundo sem Morte” (1971), “The Fabulous Riverboat – Viagem para Além da Morte” (1971), “The Dark Design – O Desígnio Negro” (1977), “The Magic Labyrinth – O Labirinto Mágico” (1980), “Gods of Riverworld – Regresso ao Mundo do Rio” (1983), que constituem o fluxo central de toda a série e o livro de contos: “Riverworld and Other Stories “ (1979), que, apesar de não fazer parte da trama inicial, inclui histórias que se relacionam com situações e personagens que aparecem. Toda a série explora as interrelações entre indivíduos de muitas culturas e de diferentes períodos da história
Escrita em 1952, a história original de “O Mundo do Rio” intitulava-se “Owe for the Flesh” ("Deves a Carne", literalmente traduzida, esta frase constitui uma espécie de pesadelo para Richard Francis Burton e surge-lhe em sonhos inúmeras vezes ao longo de toda a série), mas nunca foi publicada.  Anos mais tarde, Farmer, reescreveu o texto, dividiu-o em duas partes , lançou-o nas revistas de ficção científica “Worlds of Tomorrow” e “If”  entre 1965 e 1967. Finalmente em 1971 publica os dois primeiros volumes da série…e o resto foi  história!
A história de “O Mundo do Rio” começa com a ressurreição de toda a população do planeta terra, ou seja desde o primeiro “Homo Sapiens” até ao inicio do século XXI . Inicialmente, a ideia de Farmer era terminar as ressurreições no ano de 1983, já que, na altura em que os primeiros livros foram publicados, ainda era uma data especulativa . Posteriormente o autor estendeu a existência do planeta  até 2008 e aqui encontramos duas fortes possibilidades para esta decisão: a primeira é que nesta data grande parte da humanidade teria sido exterminada depois dum  catastrófico primeiro encontro com uma expedição  duma civilização alienígena  que estava de visita á terra (na ficção claro!); a segunda é meramente especulativa e tem a ver com o facto de o autor achar que não viveria além do ano de 2008 e assim marcar a diferença.  No prefácio de “O Desígnio Negro”, o autor escreveu "...espero terminar a série, do volume I até ao V, antes que chegue o meu tempo de me estender  e repousar enquanto aguardo a vez de entrar no fabuloso Barco do Rio..." (na verdade, Farmer  faleceu em 2009!).
Inicialmente a razão da existência de “O Mundo do Rio”  é um completo mistério e assim se mantém ao longo dos três primeiros volumes. Num mundo em que não existe qualquer tecnologia e onde os únicos materiais disponíveis são bambu, madeira e ossos de peixe, a humanidade vê-se assim reduzida a uma existência numa espécie de paleolítico e tem que aprender a sobreviver assim.  Com montanhas intransponíveis, as únicas possibilidades que existem de exploração são rio acima ou rio abaixo. Mas mesmo viajar ao longo daquele mundo pode ser uma missão arriscada, já que rapidamente começam a florescer milhares de pequenos reinos , impérios , monarquias, repúblicas e todo o tipo de sistemas sociais alguma vez inventados  e quem os comanda tem ideias diferentes entre si.
Nos livros da série, a maneira como Farmer coloca personagens históricas a interagir com as personagens fictícias  na procura das razões que presidiram  à criação daquele mundo e da ressurreição da humanidade, é verdadeiramente espectacular já que permite não só que o leitor faça os seus julgamentos em relação a cada personagem, como faz com que algumas dessas personagens sofram verdadeiras transformações em relação à sua vida anterior na terra, o que acontece, sensivelmente , a partir do terceiro volume, quando o mistério se adensa  e se descobre quais as verdadeiras intenções de quem está por detrás da criação daquele mundo.
Claro que uma série destas , com uma ideia tão original como esta, não poderia passar despercebida no universo da literatura de ficção cientifica e também na televisão: No primeiro caso surgiu, em 1992, o livro de contos  “Tales of Riverworld “ que além de conter alguns contos ainda escritos por Farmer, tem  outras histórias, escritas por diversos autores, igualmente situadas no universo de “O Mundo do Rio”, e em 1993 surgiu "Quest to Riverworld", outra antologia que contém dois contos de Philip José Farmer.
A televisão tentou, em 2001, fazer uma série baseada em “ O Mundo do Rio” mas ficou-se apenas pelo episódio-piloto, baseado em “ Mundo sem Morte” e “Viagem para Além da Morte” , com algumas alterações de fundo em relação aos livros. O herói é um astronauta americano e o vilão, em vez de ser o Príncipe João de Inglaterra, é Nero, o imperador Romano. 

Em 2010 outra tentativa de produzir uma nova adaptação de  “O Mundo do Rio”, mas desta vez apenas  como um filme de televisão dividido em duas partes e aqui novamente alterações de fundo, com um jornalista de televisão a ser o protagonista e Richard Burton transformado no vilão de serviço.  
Em minha opinião, nenhuma das adaptações faz justiça aos textos de Farmer  e entendo que uma série desta envergadura deveria ter um tratamento bem mais dignificante do que aquele que lhe tem sido dado.

Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Excalibur


   Tive oportunidade de há algum tempo  atrás, num outro texto intitulado "Rei Artur: Mito ou Realidade", falar do rei Artur. Nesse texto fiz referência ao filme que vou comentar: "Excalibur".
   Na Bretanha,  Uther Pendragon e Cornwall, dois senhores da guerra lutam pela posse do território e ser o Rei Supremo. Merlin vê em Uther a única possibilidade de unificar o país e acabar com aquela guerra, para isso o mago entrega a Uther a espada Excalibur que é o símbolo da união. Cornwall ao ver a espada, reconhece Uther como rei e aparentemente a paz é estabelecida.
   Esta adaptação da lenda de Merlin e Artur  já era um projecto que Boorman tinha desde 1969, altura em que ele e o argumentista Rospo Pallenberg escreveram um argumento para um filme de três horas, que foi recusado pela United Artists, estúdio a que foi apresentado, que alegou ser um filme demasiado dispendioso. O realizador foi, ao longo da décadade 70, apresentar o argumento a diversos estúdios que não se queriam comprometer com um projecto desta envergadura.

   Realizado por John Boorman, autor de "À Queima-roupa" (1967), um dos melhores filmes policiais da década de 60, combinando elementos do filme negro americano com o melhor do thriller europeu; "Inferno no Pacífico" (1968) um excepcional drama de guerra centrado no relacionamento entre dois soldados, um americano, o outro japonês numa ilha do pacifico; "Fim-de-semana-Alucinante"(1972) um thriller quase ecologista passado na américa interior; "Zardoz" (1974) ficção cientifica pós-apocalíptica. Após o fracasso em todos os aspectos do mal afamado e quase ridículo "Exorcista II - O Herege" (1977), suposta continuação de "O Exorcista" (William Friedkin, 1973). A recepção critíca a este filme foi tão má que o realizador viu fecharem-se-lhe as portas dos estúdios. Nenhum produtor queria ouvir falar do seu nome. Apenas em 1981 é que conseguiu concretizar este projecto, recorrendo ao financiamento de amigos e familliares.
    O filme acaba por ser uma fascinante versão da obra de Thomas Mallory "Le Morte d'Arthur" e uma visão interessante e diferente duma época conhecida na história como a Idade das Trevas. Fortemente inspirado em "Os Cavaleiros da Távola Redonda" (Richard Thorpe, 1953), uma das versões mais conhecidas da lenda do Rei Artur, mas também a mais romanceada, com o clássico triângulo amoroso (Artur/Guinevere/Lancelote) a ganhar pontos em relação á lenda relegando-a para segundo plano, "Excalibur", pelo contrário, dá enfase à lenda na ascensão de Artur desde que este tira a espada da pedra até à traição de Guinevere, à mitologia cristã, onde a busca do Santo Graal e o  seu simbolismo, que ocupa todo o terço central do filme, é o melhor exemplo  e cuja melhor cena é aquela em que Perceval, já tornado cavaleiro, tem a visão do Santo Graal, recupera-o e trá-lo perante Artur. Boorman disse que a sua versão é sobre isso mesmo "a chegada dos cristãos e o desaparecimento das velhas religiões representadas por Merlin, ao mesmo tempo que as forças da superstição e da magia são engolidas pelo inconsciente..." 
    O realizador  filma tudo com a urgência de quem quer mostrar o máximo possível do material que tem em mãos. O resultado poderia ter sido outro não fosse Boorman um realizador experiente e saber o que fazer. Tira partido das belíssimas paisagens da Irlanda onde decorreu a maior parte dos exteriores e constroi com elas cenas de grande fôlego cinematográfico, embora violentas.
   É impossível ficar indiferente á cena em que a espada Excalibur surge das águas calmas do lago que é duma beleza dificil de descrever ou a cena que fecha o filme: um bonito e misteriosos pôr-do-sol em que o barco, transportando o corpo de Artur rodeado por três damas vestidas de branco, em direcção à ilha de Avalon,  navega . Até em cenas mais violentas como o cerco ao castelo de Leondegrance ou a da batalha final, simbolizando esta última a eterna luta entre o bem (Artur e os seus cavaleiros com as suas armaduras de um branco imaculado) e o mal (Mordred e o seu exército com as armaduras escuras); fabulosa é também o "travelling" da camera na cena em que Artur e os seus cavaleiros cavalgam para a batalha final, por entre uma alameda de árvores onde a vegetação renasce, ao som do tema "Fortuna" de Carmina Burana: épica e visualmente bem conseguida.
   Com um elenco onde pontuam nomes sonantes como Helen Mirren, Liam Neeson ou Gabriel Byrne, e ainda Katrine e Charley Boorman, membros da familia do realizador,  "Excalibur", resulta na magnifíca transposição duma lenda para um filme operático, cheio de luz e som.
Uma última palavra para um aspecto que, na maior parte das vezes, é ignorado e que neste filme adquire uma importância maior e justifica as minhas palavras no parágrafo anterior: a banda sonora.
   Em "Excalibur" a banda sonora (maioritariamente composta por excertos das óperas de Wagner) tem muita importância porque em diversas cenas, a música complementa as imagens: por exemplo na já citada cena da cavalgada de Artur; no casamento de Artur e Guinevere; mas é na cena da morte de Artur e quando Perceval, mandado por Artur, vai atirar a espada ao lago que a música adquire a sua expressão máxima e em que até o próprio espectador se sente envolvido naquela que é a cena mais dramática do filme: magnifica utilização da música.
"Excalibur" serviu de referência a uma série de filmes dos quais se destacam "Merlin" (Steve Barron, 1998, TV) ou "Brumas de Avalon" (Uli Edel, 2001, TV), este último baseado num livro de Marion Zimmer Bradley e conta a lenda do ponto de vista das mulheres da corte: original e diferente.
   Filmado originalmente com uma duração de três horas, Boorman optou, antes da estreia, por cortar algumas cenas, entre as quais uma cena, que apareceu em trailers promocionais, onde Lancelot salva Guinevere de ser assaltada por bandidos. O filme tem uma duração de 140 minutos, embora na televisão tenha sido exibida uma versão de 119 minutos, na qual praticamente todas as cenas de violência gráfica foram retiradas de modo a torná-lo uma espécie de "filme para toda a familia".
  "Excalibur", apesar de ser uma versão livre, onde  a preocupação não foram os adereços (que muita gente considerou inadequados), mas sim o tom dado pela narrativa que nos transporta logo desde o início para a Idade das Trevas (como nos é dito na legenda inicial) numa Bretanha quase medieval, não é um filme datado e  permanece ainda hoje como uma das melhores adaptações do romance de cavalaria de Thomas Mallory.
a ver e a redescobrir sempre.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet







sexta-feira, 13 de abril de 2012

Era uma vez na América


 A América segundo Sergio Leone

     A América sempre exerceu um grande fascínio no realizador Italiano Sergio Leone. Foi lá que foi buscar o género que lhe haveria de dar fama dentro e fora da europa. Foi lá  que ele foi buscar os actores Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef para protagonizarem os seus westerns de sucesso. Não admira, pois, que o seu último filme tenha sido precisamente sobre essa América que tanto fascínio exerceu sobre a sua pessoa.
     Última parte duma trilogia dedicada à América, iniciada com “Aconteceu no Oeste (1968) e continuada com “Aguenta-te Canalha!” (1971). No primeiro, Leone mostrava uma América selvagem, feita de homens feios, porcos e maus, mulheres fúteis mas duras, assinalando também o avanço da civilização (simbolizada pelo caminho de ferro). No segundo, o tema é a Revolução, neste caso, é  a Revolução Mexicana que está no centro da acção daquele que é um dos filmes menos conhecidos e também menos amados do realizador. Em “Era uma vez na América”, o realizador fecha o ciclo ao explorar os temas da infância, amizades, amores frustrados, luxúria, inveja, perda e ralcionando-os com o nascimento e ascensão do Crime Organizado na sociedade americana.
    Leone começou a pensar neste filme ainda estava a meio da rodagem de “Aconteceu no Oeste”, quando leu o romance “The Hoods”, escrito por Harry Grey, pseudónimo de Harry Goldberg, antigo gangster que se tornou informador da polícia. A pré-produção do filme foi alvo de tantos avanços e recuos, que foram precisos treze anos, de uma dedicação sem precedentes, até que finalmente começassem as filmagens em 1982.
     "Era uma Vez na América" é contado através das memórias e recordações de Noodles (Robert DeNiro), que, em 1967, regressa a Nova York com o propósito de recuperar os corpos dos seus três amigos de infância.       
     A acção passa-se em três tempos distintos, cada um deles é importante para a consolidação do crime organizado na América. Cada tempo narrativo é reconstituído ao pormenor, principalmente em termos de fotografia (cada década tem um tom próprio) e impressiona só de se ver todo o trabalho de direcção artística, principalmente em 1920, nas sequências com as crianças.
    As interpretações são todas extraordinárias, principalmente Robert DeNiro e James Woods cujas interpretações dos dois amigos que começam o sonho que depois se torna num  império de crime organizado, são tão credíveis e realistas que nem parece que se trata de um filme. Todo o elenco que os acompanha, que inclui Elizabeth McGovern, Joe Pesci, William Forsythe, Tuesday Weld, Burt Young, Treat Williams, entre outros, faz deste épico uma experiência inesquecível.

    A realização de Sergio Leone é de uma dedicação quase extraordinária à história que conta. Com um ritmo deliberadamente lento e uma montagem propositadamente desorganizada, mas que faz milagres no que toca ás passagens no tempo (sendo a mais brilhante de todas aquela em que um envelhecido Noodles se passeia pelo café de Moe, vai até à casa de banho, abre o nicho na parede e, num belíssimo grande plano dos seus olhos, fruto dum excelente trabalho de montagem, recuamos no tempo), como se o filme fosse um gigantesco puzzle, cujas peças se vão encaixando e formando um magnífico  fresco da América de quase quatro horas de duração.
    Apesar da sua longa duração, estamos perante um filme que se vê de uma só vez  para isso terá contribuído grandemente a excelência da banda sonora da responsabilidade de Ennio Morricone, colaborador habitual de Leone. Juntamente com a grandeza das imagens, a música fala por si mesma. De tempos a tempos não existe uma única linha de diálogo, a música, conjugada com as imagens, contam a história. Morricone entendeu perfeitamente o que se pretendia contar e compôs cerca de três quartos da música sem o filme estar terminado.  
   A duração original do filme era de seis horas, que Leone queria dividir em duas partes, o que foi recusado pelos produtores devido ao fracasso critico e comercial de “1900” (Bernardo Bertolucci, 1976), que fora distribuído em duas partes. O realizador e o seu editor foram obrigados a reduzi-lo para uma versão de 269 minutos, que mesmo assim ainda foi considerada demasiado longa. Remontado por Leone para ser exibido em Cannes, o filme acabou por ficar com os 229 minutos  da duração corrente. Em junho de 1984, quando estreou nos Estados Unidos, o filme foi cortado para uma versão de 139 minutos pelo estúdio e contra a vontade do realizador que nunca autorizou a exibição da versão integral nos Estados Unidos até à sua morte em 1989. Nesta versão curta, as cenas de flashback foram alteradas e o filme foi montado por ordem cronológica tornando o filme impercebível contribuindo para o seu fracasso em terras americanas.
   A última imagem é simplesmente perfeita, ao mesmo tempo que é também enigmática. O filme termina onde começa. Noodles, em 1933,  refugia-se na casa de ópio chinesa para esquecer tudo o que se passou naquela noite, após uma baforada de droga, sente-se um homem livre, como quem se encontra noutro lugar, quiçá, noutra realidade ( se calhar  tudo o que vimos não passará duma fantasia da sua mente?) e simplesmente sorri espontaneamente, tornando  este último “close up” numa das mais belas imagens de toda a filmografia de Sergio Leone e traz-nos á memória o assombroso inicio de “O Padrinho” (Francis Ford Coppola, 1972) quando por sobre um écran totalmente negro se ouve a frase “Eu acredito na América…”


Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet
  


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Os Marginais - Uma Geração em Conflito



    Para recuperar do enorme investimento que fora "Apocalypse Now" (1979) e do desaire financeiro que foi "Do Fundo do Coração" (1981), que lhe custaram a hipoteca dos Estúdios Zoetrope que fundara anos antes, Francis Ford Coppola teve que aceitar fazer filmes-encomenda, ou seja realizar projectos que não eram seus desde o principio. "Os Marginais" foi um desses filmes. 

O livro, originalmente editado em 1967, quando a autora, Susan E. Hinton (consultora no filme e faz de enfermeira na cena do hospital), tinha dezassete anos de idade, começou a ser escrito quando ela tinha quinze e escreveu-o porque quis criar um mundo onde não existissem pais ou figuras que representassem a autoridade adulta, um mundo onde os jovens viviam segundo as suas próprias regras. Acerca de algumas das suas personagens, S. E. Hinton diz, segundo as suas próprias palavras, "são baseadas em pessoas que conheço...além de todas elas terem um pouco de mim própria..." 

    
    A acção passa-se na cidade de Tulsa em 1965 onde as diferenças sociais levavam a que os adolescentes se dividissem em duas classes: "Os greasers", os meninos pobre da zona norte da cidade, considerados marginais e sem futuro; "Os Socs", meninos ricos da zona sul da cidade e com futuro radioso á sua frente. A história gira em torno da rivalidade entre estas duas classes e nem mesmo o principio de um romance entre um "greaser" e uma "soc" consegue evitar os confrontos e as consequências que daí resultam. 
Francis F. Coppola e alguns dos seus "Marginais"
     Realizado com a habitual mestria e bom gosto patentes em obras-primas anteriores como a trilogia "O Padrinho", "O Vigilante" (1974) ou "Apocalypse Now" (1979), Coppola consegue captar de forma brilhante e simples a transição entre a infância e a adolescência, simbolizado pela cenas inicial e final: Ponyboy, sentado a escrever o seu livro com o tema "Stay Gold" de Stevie Wonder como fundo;  também quando Ponyboy e Johnny assistem ao nascer do sol e o primeiro recita o poema "Nothing gold can Stay" de Robert Frost e nas cenas em que Ponyboy e Johnny lêem o clássico "E Tudo o Vento Levou" de Margaret Mitchell; O desapontamento da idade adulta (simbolizado pela personagem de Dallas). Cenas como o confronto no parque de diversões, o combate nocturno à chuva entre "greasers" e "socs", ou ainda a cena da morte de Dallas transformado em marginal pelas suas próprias acções. Mas a cena mais marcante de todo o filme é a da morte de Johnny, as suas últimas palavras resumem a mensagem de toda a história: é inútil lutar,  remetem-nos para o que de mais clássico se fez no cinema, género muito acarinhado pelo realizador que lhe presta a devida homenagem. 
  Com um elenco de jovens talentos, que inclui nomes como: Matt Dillon, Patrick Swayze, Ralph Macchio, Diane Lane, C.Thomas Howell, Emilio Estevez ou o ainda relativamente desconhecido Tom Cruise, "Os Marginais" transformou-se num grande êxito de bilheteira e foi o veículo definitivo para a maior parte do seu elenco que, ao longo das décadas seguintes, veriam as suas carreiras subir sem parar.
 Juntamente com "Rumble Fish - Juventude Inquieta" (Francis Ford Coppola,1983), "Os Marginais"constitui o diptíco definitivo sobre uma certa geração que teimava em não crescer e transformar-se em adultos.
  Em 2005, Francis Ford Coppola lançou uma edição especial deste filme que intitulou "The Outsiders - The Complete Novel" onde integrou cerca de 22 minutos de cenas adicionais que trazem mais profundidade, sentido e paixão, aum filme que já tinha tudo isto, tornando a adaptação muito mais fiel ao original de S.E.Hinton. Talvez o único senão desta fabulosa nova versão seja a banda sonora, mais virada para estilo "Rockabilly" em detrimento da beleza dramática das orquestrações de Carmine Coppola, tão importantes em algumas cenas da versão original. Infelizmente esta edição permanece inédita em Portugal.

O Poema  à  Juventude
   Há alguns anos, Coppola disse que pretendeu, com este filme, criar um épico para os jovens, mas o que o realizador conseguiu fazer foi muito mais que isso: conseguiu um épico em que reavive as memórias que existem em todos nós, da alegria de ser jovem, ódio, medo, paixão, ansiedade e também a tentativa de fazer parte da sociedade seja de que geração for.
  
Nota: As Imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet


sábado, 31 de março de 2012

A Conquista dos Céus - Apontamentos para uma História da Aviação



 São jovens, são portugueses, são entusiastas do Aeromodelismo, e, por extensão, destas coisas da aviação. Pertencem ao Clube de Jovens Os Aerocalminhas de Tomar  e apresentam-nos aqui um trabalho que deveria passar a fazer parte dos cursos de pilotagem, tanto na Força Aérea como na Aviação Civil, tal é o empenho que, apesar da sua juventude, exibem ao apresentar as diversas secções que compõem estre trabalho de fôlego.
   O documentário começa com os jovens, num dia como qualquer outro, na sua sede, a prepararem os seus modelos para os experimentar e lançar, enquanto, um a um, se vão apresentando.  É uma maneira simples, simpática e cativante de preparar o público para a “aula” de mais ou menos hora e meia que se vai seguir.
   Neste DVD, dividido em 17 capítulos, cada um devidamente apresentado pelos nossos anfitriões, somos conduzidos numa verdadeira "viagem" ao mundo da aviação desde os primórdios até ao século XXI...com generosos e interessantes contributos de pilotos e outros técnicos ainda no activo, este documentário é uma mais valia para um universo pouco explorado em Portugal.
  Particularmente interessante é o capítulo 11 onde visitamos a fábrica da Airbus em Hamburgo e assistimos, ainda na linha de montagem, à construção de aviões modelo A320, A330 e A380, onde ficamos com a noção da quantidade de mão-de-obra, humana e material que se emprega na construção dum avião
  Mas, para mim (e isto é apenas uma opinião pessoal), o mais interessante deste documentário é o capítulo 16, onde nos é mostrado todo o trabalho que se faz na Torre de Controle do Aeroporto de  Lisboa e na Nav (Centro de Controle de Tráfego Aéreo) onde ficamos a conhecer um pouco daquilo que não é visível ao público em geral: o trabalho que os Controladores de Tráfego Aéreo fazem diariamente, como o fazem, área em que actuam e o elevado grau de responsabilidade que lhes é pedido, não está ao alcance de qualquer um. Não desmerecendo qualquer outro capítulo deste DVD, este é, sem dúvida, o mais interessante do conjunto. Vale a pena determo-nos um pouco nele e pensar no que aconteceria se por acaso algo corresse mal naquele sector?
  Está, pois de parabéns, João Roque pelo trabalho realizado e também os Aerocalminhas por conseguirem com o seu à-vontade cativar ainda mais os interessados nestas coisas da aviação. 
   Sussurram-me ao ouvido que poderá haver um segundo volume desta “Conquista dos Céus”. Também sei que já não serei o primeiro a dizê-lo mas aqui vai: façam-no por favor! Este trabalho é um trabalho exemplar e sério e deve ser encarado como tal!!
   Uma última informação para quem gosta destas coisas da aviação, este DVD encontra-se à venda nas lojas FNAC.   


sexta-feira, 30 de março de 2012

O Lugar do Morto - A Qualidade do Cinema Português


    
                                            


    A década de 80 do século passado assistiu à ruptura do cinema português com o passado. O cinema nacional precisava duma lufada de ar fresco e para isso tinha que romper com os seus próprios limites.  muitos foram os filmes que, de uma forma ou doutra, marcaram a década. Mas nenhum teve o sucesso e a importância de "O Lugar do Morto". Inicialmente o filme foi pouco compreendido, mas depois a curiosidade do público viria a torná-lo no maior êxito de bilheteira de sempre na produção nacional.
    Álvaro Serpa, jornalista, divorciado pára uma madrugada na marginal. Assiste a uma discussão entre um casal e pouco depois a mulher entra no seu carro e pede-lhe para o levar dali. O jornalista, intrigado,  acede só para pouco depois, novamente a pedido dela, regressar ao local onde encontram o homem morto. A mulher foge e Álvaro apenas sabe que ela se chama Ana.
António-Pedro Vasconcelos
     A realização de António-Pedro Vasconcelos é segura e ágil o que faz com que o filme nunca resvale para a monotonia. Para isso, contribuí também, de forma definitiva, o argumento escrito de parceria entre o realizador e Carlos Saboga. É uma história de sedução e mistério em que todas as personagens são vivas, participam na acção e não são meros elementos decorativos. Os elementos técnicos são de primeira classe, principalmente som e imagem. A fotografia de João Rocha consegue ser misteriosa e apelativa na cena inicial na passagem de nível sob a qual decorre o genérico;  melancólica e quase sobrenatural na cena em que Álvaro segue Ana numa Lisboa matinal.
       Do elenco, seja ele profissional ou não, é de louvar a homogeneidade do todo, contribuindo para a mais valia do produto final. O destaque vai as interpretações de Pedro Oliveira e Ana Zanatti. Se o  primeiro, que é jornalista de profissão na vida real e como tal só tinha que ser ele próprio, cumpre com todo o rigor o seu papel, é Ana Zanatti, no papel de Ana Mónica, a mulher fatal e misteriosa, dona duma beleza fora do comum, capaz de pôr a cabeça de qualquer homem a andar à roda e que arrasta aqueles que a rodeiam para um final inevitável, quem domina o elenco. Bonita e talentosa, Ana Zanatti, antiga locutora de continuidade, depois apresentadora e actriz ocasional em filmes, séries e telenovelas, tem aqui o melhor papel da sua longa carreira, interpretado com rigor e credibilidade. No elenco secundário destacam-se Teresa Madruga, Isabel Mota, Ruy Furtado, Carlos Coelho e o apresentador/entertainer de rádio Luis Filipe Barros.
Uma história de mistério e sedução
     Construído como um exercício de cinema negro dos anos 40 e 50 (aqui, em vez dum detective privado, temos um jornalista a investigar, a ser sedutor e seduzido), destinado a homenagear de uma vez só o policial e o thriller, cujo melhor exemplo está na referida cena da passagem de nível que perto do final volta a surgir, remetendo-nos para a frase inicial do filme "Não é por correr que se escapa ao Destino", indiciando que o de Álvaro Serpa já está traçado desde o início, géneros pouco utilizados na produção nacional, é na sua estrutura narrativa, labiríntica (as pistas conduzem a novas pistas e por vezes a becos sem saída) e principalmente no seu final em aberto (algo nunca visto antes na produção nacional), que contribuiu para as  inúmeras discussões públicas, que está o grande sucesso de "O Lugar do Morto", filme incontornável na produção nacional e, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes portugueses de sempre. Aquele último plano de Ana Mónica em que a imagem congela no seu rosto crispado, ficará como uma das melhores e mais fortes imagens da cinematografia portuguesa, assim como a pergunta que nos atormenta desde os primeiros minutos: quem vai no lugar do morto?

                                                               Grease - Um fenómeno musical fora de tempo!          Alguém disse, um ...