sábado, 31 de março de 2012

A Conquista dos Céus - Apontamentos para uma História da Aviação



 São jovens, são portugueses, são entusiastas do Aeromodelismo, e, por extensão, destas coisas da aviação. Pertencem ao Clube de Jovens Os Aerocalminhas de Tomar  e apresentam-nos aqui um trabalho que deveria passar a fazer parte dos cursos de pilotagem, tanto na Força Aérea como na Aviação Civil, tal é o empenho que, apesar da sua juventude, exibem ao apresentar as diversas secções que compõem estre trabalho de fôlego.
   O documentário começa com os jovens, num dia como qualquer outro, na sua sede, a prepararem os seus modelos para os experimentar e lançar, enquanto, um a um, se vão apresentando.  É uma maneira simples, simpática e cativante de preparar o público para a “aula” de mais ou menos hora e meia que se vai seguir.
   Neste DVD, dividido em 17 capítulos, cada um devidamente apresentado pelos nossos anfitriões, somos conduzidos numa verdadeira "viagem" ao mundo da aviação desde os primórdios até ao século XXI...com generosos e interessantes contributos de pilotos e outros técnicos ainda no activo, este documentário é uma mais valia para um universo pouco explorado em Portugal.
  Particularmente interessante é o capítulo 11 onde visitamos a fábrica da Airbus em Hamburgo e assistimos, ainda na linha de montagem, à construção de aviões modelo A320, A330 e A380, onde ficamos com a noção da quantidade de mão-de-obra, humana e material que se emprega na construção dum avião
  Mas, para mim (e isto é apenas uma opinião pessoal), o mais interessante deste documentário é o capítulo 16, onde nos é mostrado todo o trabalho que se faz na Torre de Controle do Aeroporto de  Lisboa e na Nav (Centro de Controle de Tráfego Aéreo) onde ficamos a conhecer um pouco daquilo que não é visível ao público em geral: o trabalho que os Controladores de Tráfego Aéreo fazem diariamente, como o fazem, área em que actuam e o elevado grau de responsabilidade que lhes é pedido, não está ao alcance de qualquer um. Não desmerecendo qualquer outro capítulo deste DVD, este é, sem dúvida, o mais interessante do conjunto. Vale a pena determo-nos um pouco nele e pensar no que aconteceria se por acaso algo corresse mal naquele sector?
  Está, pois de parabéns, João Roque pelo trabalho realizado e também os Aerocalminhas por conseguirem com o seu à-vontade cativar ainda mais os interessados nestas coisas da aviação. 
   Sussurram-me ao ouvido que poderá haver um segundo volume desta “Conquista dos Céus”. Também sei que já não serei o primeiro a dizê-lo mas aqui vai: façam-no por favor! Este trabalho é um trabalho exemplar e sério e deve ser encarado como tal!!
   Uma última informação para quem gosta destas coisas da aviação, este DVD encontra-se à venda nas lojas FNAC.   


sexta-feira, 30 de março de 2012

O Lugar do Morto - A Qualidade do Cinema Português


    
                                            


    A década de 80 do século passado assistiu à ruptura do cinema português com o passado. O cinema nacional precisava duma lufada de ar fresco e para isso tinha que romper com os seus próprios limites.  muitos foram os filmes que, de uma forma ou doutra, marcaram a década. Mas nenhum teve o sucesso e a importância de "O Lugar do Morto". Inicialmente o filme foi pouco compreendido, mas depois a curiosidade do público viria a torná-lo no maior êxito de bilheteira de sempre na produção nacional.
    Álvaro Serpa, jornalista, divorciado pára uma madrugada na marginal. Assiste a uma discussão entre um casal e pouco depois a mulher entra no seu carro e pede-lhe para o levar dali. O jornalista, intrigado,  acede só para pouco depois, novamente a pedido dela, regressar ao local onde encontram o homem morto. A mulher foge e Álvaro apenas sabe que ela se chama Ana.
António-Pedro Vasconcelos
     A realização de António-Pedro Vasconcelos é segura e ágil o que faz com que o filme nunca resvale para a monotonia. Para isso, contribuí também, de forma definitiva, o argumento escrito de parceria entre o realizador e Carlos Saboga. É uma história de sedução e mistério em que todas as personagens são vivas, participam na acção e não são meros elementos decorativos. Os elementos técnicos são de primeira classe, principalmente som e imagem. A fotografia de João Rocha consegue ser misteriosa e apelativa na cena inicial na passagem de nível sob a qual decorre o genérico;  melancólica e quase sobrenatural na cena em que Álvaro segue Ana numa Lisboa matinal.
       Do elenco, seja ele profissional ou não, é de louvar a homogeneidade do todo, contribuindo para a mais valia do produto final. O destaque vai as interpretações de Pedro Oliveira e Ana Zanatti. Se o  primeiro, que é jornalista de profissão na vida real e como tal só tinha que ser ele próprio, cumpre com todo o rigor o seu papel, é Ana Zanatti, no papel de Ana Mónica, a mulher fatal e misteriosa, dona duma beleza fora do comum, capaz de pôr a cabeça de qualquer homem a andar à roda e que arrasta aqueles que a rodeiam para um final inevitável, quem domina o elenco. Bonita e talentosa, Ana Zanatti, antiga locutora de continuidade, depois apresentadora e actriz ocasional em filmes, séries e telenovelas, tem aqui o melhor papel da sua longa carreira, interpretado com rigor e credibilidade. No elenco secundário destacam-se Teresa Madruga, Isabel Mota, Ruy Furtado, Carlos Coelho e o apresentador/entertainer de rádio Luis Filipe Barros.
Uma história de mistério e sedução
     Construído como um exercício de cinema negro dos anos 40 e 50 (aqui, em vez dum detective privado, temos um jornalista a investigar, a ser sedutor e seduzido), destinado a homenagear de uma vez só o policial e o thriller, cujo melhor exemplo está na referida cena da passagem de nível que perto do final volta a surgir, remetendo-nos para a frase inicial do filme "Não é por correr que se escapa ao Destino", indiciando que o de Álvaro Serpa já está traçado desde o início, géneros pouco utilizados na produção nacional, é na sua estrutura narrativa, labiríntica (as pistas conduzem a novas pistas e por vezes a becos sem saída) e principalmente no seu final em aberto (algo nunca visto antes na produção nacional), que contribuiu para as  inúmeras discussões públicas, que está o grande sucesso de "O Lugar do Morto", filme incontornável na produção nacional e, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes portugueses de sempre. Aquele último plano de Ana Mónica em que a imagem congela no seu rosto crispado, ficará como uma das melhores e mais fortes imagens da cinematografia portuguesa, assim como a pergunta que nos atormenta desde os primeiros minutos: quem vai no lugar do morto?

quarta-feira, 21 de março de 2012

2001: Odisseia no Espaço - Ainda hoje...uma obra de arte!




                                      
    Passaram-se mais de 40 anos desde que este filme estreou...e a face da ficção cientifica nunca mais foi a mesma. Anos antes de "Star Wars - A Guerra das Estrelas"(George Lucas, 1977), quase duas décadas antes de "Blade Runner - Perigo Eminente" (Ridley Scott, 1982) e quase 30 anos antes de "Matrix" (Larry e Andy Wachowski, 1999), apareceu esta obra-prima, este marco do cinema que ainda hoje nos seduz e fascina...apetece dizer que é como o Vinho do Porto, quanto mais velho melhor!
Os "culpados" por esta obra-prima
    Inicialmente o projecto, segundo Stanley Kubrick e Arthur C.Clarke, era para se intitular "How the Solar System was won", uma homenagem ao western épico "How the West was won - A Conquista do Oeste", realizado em 1962.
    Apesar de parcialmente inspirado num pequeno conto chamado "The Sentinel" de Arthur C.Clarke, o escritor e o realizador escreveram o livro e o argumento simultâneamente, Clarke acabou por optar por explicações tendentes a clarificar o misterioso monólito no livro, Kubrick decidiu deixar o filme num tom enigmático mantendo diálogos e explicações no minímo, acabando por fazer aquilo que poucos conseguiram ou conseguem fazer; um filme que fica para a posteridade e que será lembrado e falado muito depois dos seus autores terem desaparecido.

    Foi pouco depois de ter completado "Dr.Strangelove...." (1964) que o realizador se deixou fascinar pela possibilidade de vida extraterrestre e estava determinado a fazer, nas suas próprias palavras, "o proverbial bom filme de ficção científica". Procurando um colaborador adequado dentro da comunidade de ficção científica, foi aconselhado a procurar o então famoso escritor Arthur C.Clarke. Os dois encontraram-se em Nova York pela primeira vez e foi a partir deste encontro que começaram a discutir o projecto que lhes iria ocupar dois anos de vida.
   Dividido em quatro partes, representando vários estádios da evolução humana  têm apenas uma coisa em comum: o Monólito negro (inteligência? conhecimento?) que interage com as personagens, levando-as a evoluir nos seus diferentes estádios: no primeiro segmento (O Aparecimento do Homem), o monólito é o caminho da sobrevivência e da racionalização. No segundo segmento, o monólito é descoberto enterrado na lua e que, quando examinado pelos cientistas, emite um sinal em direcção a Júpiter e depois fica silencioso. No terceiro segmento (Missão Júpiter), depois da missão ter corrido mal, um monólito, maior do que os anteriores, aparece junto ao planeta, abre-se e conduz o único sobrevivente da missão numa viagem psicadélica que nos conduz ao quarto segmento (Júpiter e além do Infinito) onde um envelhecido, senil e moribundo Dave Bowman jaz deitado numa cama num quarto todo iluminado, onde se encontra com o monólito novamente. Bowman "entra" nele antes de se transformar numa criança-estrela (ou renascer como tal!) e regressar à terra representando o próximo estádio de evolução humana.  
Stanley Kubrick, perfeccionista lendário
   Aliando o seu perfeccionismo lendário e uma realização rigorosa, Kubrick criou imagens e cenas que são hoje lendárias: a primeira aparição do Monólito aos Primatas, aliás em toda esta cena, fica patente a importância que a imagem tem na obra do realizador: é uma cena sem um único diálogo em que a força das imagens sustenta a história; O triunfo do Homem sob as outras espécies na  cena em que o macaco (homem?),depois de derrotar o seu oponente, atira o osso para o ar e, num belissimo plano, este transforma-se em nave espacial, suprimindo assim milhares de anos de evolução; O maravilhoso baile das naves espaciais ao som de "O Danúbio Azul" de Johann Strauss ; não esquecendo o tema "Assim falava Zaratrusta" de Richard Strauss no inicio do filme com o alinhamento da lua, da terra e do sol sob o genérico, criando aquela que será talvez a melhor e mais arrepiante abertura cinematográfica de todos os tempos; O jogging de Frank Poole  na "Discovery I" em que Kubrick, num plano simetricamente inequívoco, nos põe literalmente a cabeça à roda; A morte de Poole que, simbolicamente, representa o breve triunfo da máquina sobre o homem, já que logo a seguir assistimos à "destruição" de HAL, o super-computador de bordo onde ficamos com a sensação de regressar ao início com novo triunfo do homem;  

     No final do filme, com o olhar sereno da criança-estrela apontado para o planeta terra (e eu sei que vou suscitar comentários diversos!) que poderá muito bem ser  interpretado como um prólogo àquele que seria o filme seguinte de Kubrick, essa obra-prima chamada "Laranja Mecânica" (1971) ; inesquecível é também a viagem de Dave Bowman através das estrelas (e da criação do universo) em que o realizador utiliza toda a panóplia de efeitos especiais existentes na altura e que viriam a ser muito justamente premiados, criando a mais famosa "trip" cinematográfica de que há memória (convém não esquecer que estávamos nos anos 60, em pleno movimento hippie!).
       Mesmo depois de terminado, Kubrick fez numerosas alterações à versão final. Pouco depois de ter exibido a obra aos executivos da MGM, o realizador cortou cerca de 20 minutos de cenas, a maior parte delas constituiam o quotidiano na base lunar, outras tantas giravam à volta da vida dos astronautas a bordo da "Discovery I", reduzindo assim a duração do filme de 162 minutos para 139. Foi esta a versão que Estreou nos Estados Unidos e no resto do mundo em 1968 e que se manteve a única versão exibida durante anos. Em 2000, depois da morte do realizador, os seus familiares autorizaram a inclusão de cerca de 9 minutos de cenas descobertas dentro de latas na garagem do realizador, elevando a metragem para os 148 minutos que se mantêm até hoje.
     
Filme incontornável na história do cinema, "2001:Odisseia no espaço" mantém ainda hoje a frescura e a mesma inovação de hà mais de 40 anos, convidando-nos em cada novo visionamento a questionarmo-nos sobre o que seria do cinema se ele não existisse? sobre o filme Stanley Kubrick disse "...todos são livres para especular acerca do significado filosófico e alegórico de 2001..." posto isto, quem somos nós para duvidar da sua palavra?


Nota:Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet


                                          


    

terça-feira, 6 de março de 2012

Ficção Científica - Género Maior da Literatura

    A Ficção Científica é um género de literatura de ficção cujo conteúdo se relaciona, de um modo plausível, com universos e tecnologias futuristas, viagens espaciais, aliens e habilidades paranormais. 
    O termo "ficção científica" ou simplesmente "sci fi" foi utilizado pela primeira vez por Forrest J.Ackerman,  criador da comunidade "science fiction fandom" para fans de ficção científica e fantasia, coleccionador de livros e filmes de ficção científica, numa conferência na UCLA (Universidade de Cinema de Los Angeles) em 1954, como termo comparável ao muito utilizado "hi-fi", numa altura em que a ficção científica já fazia parte da cultura popular, escritores e fans do género estavam a começar a associar o termo com as produções de baixo orçamento e pouca inovação tecnológica que acontecia nos filmes e em alguma produção literária de ficção científica.
    Explorar as consequências das inovações tecnológicas é um dos seus vários propósitos, tornando-a numa literatura de ideias. Muita da ficção científica é baseada em escritos acerca da racionalidade de mundos alternativos e possíveis futuros. É semelhante ao género de fantasia, mas é nestes aspectos que se afasta dela. Os seus cenários são geralmente contrários à realidade, embora se mantenham num patamar de descrença que se torna acessível ao leitor através de potenciais explicações ou soluções aos diversos elementos ficcionais.
Os Elementos de Ficção Científica incluem:
- A acção é passada num tempo futuro, numa cronologia alternativa ou num passado histórico contrário aos factos e história conhecida ou nos registos arqueológicos.
- Um cenário espacial ou noutros mundos ou ainda numa Terra subterrânea.
- Personagens que incluam aliens, mutantes, androides ou robots.
- Tecnologia futurista
- Princípios cientificos que contradigam as leis universalmente aceites, tais como viagens no tempo.
- Novos e diferentes estados sociais e politícos.
- Habilitações paranormais tais como controle de mente, telepatia, telecinésia, teleportação, etc.
     Apesar das primeiras referências à ficção cientifica remontarem aos tempos da Mitologia, o seu início como género literário aparece referenciado em obras como "Lucian's True History" datada do século II; em alguns contos das "Arabian Nights - 1001 Noites"; em "The Tale of the Bamboo Cutter" que surgiu por volta do século X ou em "Theologus Autodidactus" de Ibn al-Nafis, por volta do século XIII.
    Mas foi por alturas da chamada Idade da Razão (séc.XVII) e do desenvolvimento da ciência moderna que surgem as primeiras obras literárias do género: "As Viagens de Gulliver" (1726)  de Jonathan Swift; "Micromégas" (1752) de Voltaire ou "Somnium" de Johannes Kepler (1620-1630), que Carl Sagan e Isaac Asimov consideraram ser a primeira história de ficção científica do mundo moderno. Nela conta-se a história duma viagem à  lua e como se via  de lá o movimento da terra.
    Seguindo o desenvolvimento, no século XVIII, da novela como forma de literatura, no século XIX os livros "Frankenstein" e "The Last Man", ambos de Mary  Shelley, assim como "The Unparalleled Adventures of  One Hans Pfaal" de Edgar Alan Poe, que descreve um vôo até à Lua;  "Viagem ao Centro da Terra" (1864); "20000 Léguas Submarinas" (1870); "Da Terra à Lua" (1865) e a sua "sequela" "À Volta da Lua" (1870), todos de Júlio Verne, ajudaram a definir a forma da ficção científica.
    Com o advento das novas tecnologias como a electricidade, o telégrafo, escritores, como Júlio Verne ou H.G.Wells, publicaram obras que se tornaram mais-valias para a literatura, e foram extremamente populares entre as diversas camadas da população. Além dos trabalhos já citados de Verne, foi o livro de H.G.Wells, "A Guerra dos Mundos", publicado em 1898, que mais impacto criou entre a população. Nele descreve-se uma Inglaterra victoriana que é alvo duma invasão de Marcianos que usam máquinas trípodes e armamento avançado. É um primeiro esboço duma invasão alienígena à terra.
    Já no século XX, revistas como a "Amazing Stories" (1926) de Hugo Gernsback ou mais tarde a "Astounding Science Fiction" (1939), de John W.Campbell, ajudaram a desenvolver o género e a revelar novos autores que formariam uma geração  de escritores de ficção científica. Nomes como Isaac Asimov, Frederic Pohl, James Blish, E.E."Doc" Smith,  Robert A. Heinlein,  Arthur C.Clarke, A.E.van Vogt, Stanislaw Lem, entre outros,  iniciaram aquela que ficou conhecida como "A Idade Dourada da Ficção Científica",  iriam atravessar todo o século e cujos escritos ainda hoje influenciam muitos autores. Em 1912 Edgar Rice Burroughs, antes de se tornar conhecido como o criador de Tarzan, escreveu uma série de contos acerca de John Carter, um héroi da Guerra Civil Americana, raptado por aliens, que, ao salvar uma princesa em marte, envolve-se nas guerras marcianas. Os contos acabaram por se tornar numa longa série de livros escritos ao longo de mais 30 anos e que ficaram conhecidos com "As Crónicas de Barsoom". Em 1928 é publicada na revista "Amazing Stories a primeira história de Buck Rogers intitulada "Armageddon 2419" da autoria de Philip Nolan, que se tornaria num marco do género e que levaria à aparição de "comics" com Buck Rogers (1929),  Brick Bradford (1933) e Flash Gordon (1934) que se transformariam em séries que viriam a popularizar a ficção científica.
    A década de 50, viu surgir a geração "beat" da ficção cientifica. Escritores  como William S. Burroughs, começaram a introduzir uma nova tendência no género. A escrita especulativa, marcada pelo experimentalismo, tanto na forma como no conteúdo, duma escrita sob influência, explorava novas ideias e estilos de escrita que se viria a acentuar durante as décadas de 60 e 70, principalmente na Grâ-Bretanha, enquanto autores como Frank Herbert, Roger Zelazny ou Harlan Ellison se tornavam adeptos desta nova tendência, outros como Larry Niven, Poul Anderson, redefiniam o termo ficção cientifica de modo torná-lo mais próximo dos tempos que se viviam. Outros houve, como Ursula K.LeGuin, que se tornaram pioneiros duma ficção cientifica mais suave.
    A década de 80, viu surgir uma outra geração, encabeçada por William Gibson, Bruce Sterling e Neal Stephenson, que se afastou radicalmente do optimismo da ficção cientifica e defendia o progresso do género para outras áreas. Visando mais a história e as personagens em detrimento duma certeza cientifica. Beneficiando mais a exploração de vidas extraterrestres do que os desafios complexos da ciência. Esta nova tendência viria a influenciar o género nas décadas seguintes, mas agora associada a novos desafios.
     Na década de 90, temas emergentes como o ambiente, as implicações da comunidade global, a expansão do universo da informação, questões relacionadas com Biotecnologia e Nanotecnologia, bem como temas relacionados com o pós-guerra fria e  as cicatrizes que deixou nalgumas sociedades,  que "The Diamond Age" de Neal Stephenson, explora profundamente. 
    As temáticas tornam-se recorrentes, orientando toda uma geração de escritores para essas preocupações, sem nunca, no entanto, perder de vista a ficção cientifica, género que os continua a motivar no século XXI.
  

Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet


   

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Os Crimes dos Rios de Púrpura - Thriller "Made in França"


     O Thriller, sub-género cinematográfico situado, entre o policial e o filme de terror, uma das últimas criações a juntar-se ao longo historial do cinema, tem raízes um pouco por todo o mundo e tem constituido uma das melhores formas de entretenimento dos últimos anos. "Os Crimes dos Rios de Púrpura" é um desses exemplos.
   No Campus Universitário de Guernon, vila situada nos Alpes Franceses, acontece a estranha e horrível descoberta de um corpo assassinado e mutilado de uma jovem estudante da Universidade. É chamado para investigar o Comissário Pierre Niemans, uma espécie de Sherlock Holmes dos crimes em série, cuja perspicácia só é ultrapassada pelo seu pânico de cães. Ao mesmo tempo, um Tenente da Polícia local Max Kerkerian, investiga uma violação duma sepultura ocorrida numa outra vila próxima. Rapidamente se descobre que os casos estão, de algum modo, relacionados e os dois policías vão enveredar esforços para tentar resolver o  mistério. Aquilo que aparentemente seria uma investigação normal de um crime, torna-se algo bem mais complexo há medida que os corpos vão aparecendo.
O realizador e argumentista Mathieu Kassovitz
   Co-adaptado por Jean-Christopher Grangé, autor do romance original e  pelo realizador Mathieu Kassovitz, que já nos dera, entre outras obras, o fabuloso "O Ódio" (1995), centrado nas temáticas das diferenças de classes sociais,   raça, violência e brutalidade policial, filmado num preto-e-branco intenso que lhe confere o realismo necessário e projectou o realizador para a fama; "Gothika"(2003), um thriller fantástico em que nem a presença de Halle Berry ou Penelope Cruz o impediram de ser um fracasso comercial. 
   "Os Crimes dos Rios de Púrpura", consegue ser um thriller eficaz, algo violento, com alguns toques de terror, como se percebe logo no inicio, com a cena do cadáver a ser comido pelos vermes, e isto é apenas o principio, porque ao longo de todo o filme somos confrontados com outras situações próximas. Mas são estes pequenos toques ligeiros no género, que tornam o filme interessante graças a uma realização inteligente de Kassovitz que, utilizando panorâmicas e movimentos de camera, tirando máximo partido do cenário, homenageia o cinema (a cena em que a camera segue quase obsessivamente o carro  de Pierre Niemans enquanto este se aproxima da primeira cena do crime, é uma homenagem à abertura de "Shining" de Stanley Kubrick,  de quem o realizador é admirador confesso), usando todas as ferramentas ao seu dispôr, nos oferece um filme recheado de voltas e reviravoltas que só peca por se tornar demasiado evidente perto do final.
Vincent Kassel e Jean Reno em acção
   Jean Reno, na pele do Comissário Niemans, a jogar em casa, dá-nos uma interpretação poderosa, a que já nos habituou noutras produções como "Vertigem Azul" (Luc Besson,1988) ou "Leon - O Profissional" (Luc Besson,1994) ou "Código DaVinci" (Ron Howard, 2006), entre muitas outras, não fosse ele um dos actores franceses mais solicitados internacionalmente nos últimos anos. Perfeitamente secundado por Vicente Cassel, no papel de  Max Kerkerian, policia pouco ortodoxo, que não olha a meios para obter as confissões,nem que para isso tenha de andar à pancada com os seus possíveis suspeitos ( a cena do bar, com os skinheads, é disso exemplo). Cassel, aqui contracenado com o seu pai, Jean-Pierre Cassel, é um actor habituado a interpretar personagens que fervem em pouca água, emotivas e violentas como demonstrou em "O Ódio", ou no controverso e perturbante "Irreversível" (Gaspar Noé, 2002)  .
   "Os Crimes dos Rios de Púrpura" obteve um grande sucesso, principalmente em França, quer de público quer de crítica, o que levou a uma sequela "Os Anjos do Apocalypse" (Oliver Dahan, 2004) igualmente protagonizado por Jean Reno mas de qualidade inferior ao original.
Thriller europeu ao mais alto nível "Os Crimes dos Rios de Púrpura" é garantia de um bom espectáculo e onde se prova que no velho continente também se podem fazer bons filmes.
                                         
                                     
Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Twin Peaks - Da Televisão para o Cinema II

    Em 1992, a curiosidade em torno do novo projecto de David Lynch era grande. Por um lado tratava.-se de regressar ao universo de  Twin Peaks, cujo fraco "share" obtido pela segunda série, estava ela a meio, levara à decisão de a cancelar no final da temporada. Por outro lado, perguntava-se, haveria ainda alguma coisa a dizer ou fazer naquele universo surreal, fantástico e genialmente criado por David Lynch? o realizador respondeu afirmativamente e fez "Twin Peaks - Fire walk with me - Os Últimos sete dias de Laura Palmer".
    O filme começa com a investigação da morte de Teresa Banks, uma "zé-ninguém", como é referido no filme, mas rapidamente passa para os últimos dias de Laura Palmer, estudante e rainha da beleza de Twin Peaks, mas cedo se descobre que tem alguns segredos que a tornam "não tão inocente" como a primeira vez em que a vemos (um belo plano médio de Laura a caminhar no passeio).
A morte de Teresa Banks: o principio de tudo
    Funcionando como uma espécie de prólogo, já que ligando os dois crimes, que eram o mistério central da série, David Lynch faz a ponte entre as duas obras; mas pode também ser considerado como uma sequela/epílogo, graças a uma narrativa bem entrelaçada por David Lynch e Robert Engels, já que explica alguns mistérios da série, bem como qual o destino do Agente Especial do FBI, Dale Cooper, que ficara suspenso no final da segunda temporada (que o apressado final não explicou claramente). Para Lynch, o tempo é uma incerteza, e isso está bem patente tanto nas séries como no filme, ele  faz-nos acreditar que tudo aquilo aconteceu, ou pode vir a acontecer. 
      A enigmática cena final, quando o espírito de Laura "acorda" no quarto vermelho do Black Lodge, sente-se triste, só e abandonada, vê o seu anjo aparecer no ar, primeiro começa a chorar e depois ri, a seu lado está o Agente do FBI que lhe passa o braço pelos ombros, terminando  com um belissimo plano do rosto dela sob um fundo branco, é disso exemplo.
   Lynch quis fazer o filme porque, segundo as suas próprias palavras "...eu não me conseguia imaginar fora do universo de Twin Peaks...eu estava apaixonado pela personagem de Laura Palmer e as suas próprias contradições: alegre e jovial por fora, mas a morrer por dentro...eu queria vê-la viva...a mexer-se, a rir, a falar...adorava aquele universo...entendi que ainda havia muito para explorar...foi o que pretendi fazer...".
Dale Cooper, Agente Especial do FBI e a "secretária" portátil
    Percebe-se que estamos situados no universo do realizador: desde a cena inicial em que se vislumbra uma televisão sem emissão nem som, sob a qual decorre o genérico, indicando um silêncio absoluto que logo a seguir é quebrado pelo partir da mesma ao mesmo tempo que se ouve um grito feminino, alguém acaba de ser assassinado, ficamos a saber a seguir que esse alguém é Teresa Banks; passando pela investigação dos dois agentes do FBI (Chris Isaak, cantor e músico, numa pausa da sua carreira musical e um Kiefer Sutherland, numa versão Jack Bauer, pré "24")  de um dos famosos casos "Rosa Azul", dos quais não pode falar, segundo diz Chester Desmond, do seu chefe Gordon Cole (interpretação carismática de David Lynch) e pelas premonições que Dale Cooper dá conta à sua "secretária" portátil (um gravador de voz), onde receia que o assassino de Teresa Banks voltará a atacar; terminando na aparição do corpo de Laura na praia e a referida cena final, tudo isto é David Lynch no seu melhor. Contando também com a preciosa ajuda da banda sonora, tanto no filme como na série, da responsabilidade de Angelo Badalamenti, colaborador habitual do realizador desde "Veludo Azul" (1986), onde a sua sonoridade única se demarcou do filme, mas, ao mesmo tempo, completando-o. Em "Twin Peaks", acontece o mesmo: é impossível demarcar a banda sonora daquele universo: os temas que compôs para as personagens são, só por si, um cartão de apresentação de qualidade inegável. Mal ouvimos qualquer acorde, seja do tema de alguma personagem, seja o próprio tema principal, somos imediatamente transportados para aquele universo imaginado e criado por David Lynch, como se a banda sonora tivesse uma vida própria, adequada ao ambiente de ambas as obras.
    Tal como acontecera com a série, também o filme quebrou algumas convenções estipuladas. Por um lado tínhamos uma "prequela" (o termo ainda não se utilizava no inicio da década) em vez duma continuação ou sequela como se começara a utilizar alguns anos antes; Por outro lado, tínhamos um filme que, pela primeira se inspirava numa série e não o contrário (hoje já é prática comum fazer-se isto, basta ver, por exemplo, os filmes inspirados na série de culto "Missão: Impossível").
     Praticamente todo o elenco da série transitou para o filme retomando as suas personagens, com as excepções de Lara Flynn Boyle (Donna Hayward), Sherilyn Fenn (Audrey Horne) e Richard Beymer (Benjamin Horne), mas nem todos aparecem na versão final do filme o que provocou um vazio enorme, já que algumas dessas personagens tinham-se tornado familiares ao espectador da série. Para quem só conheceu este universo a partir do filme, não dá por esse vazio apesar de se aperceber de alguns cortes abruptos nas cenas; mas quem conheceu e acompanhou este universo desde a televisão, apercebe-se logo do enorme vazio provocado por essas ausências, mais, percebe que o próprio filme se ressente desse facto.
     Lynch, originalmente, filmou mais de cinco horas de filme, mas, a pedido do seu produtor que receava que  o filme fosse um fracasso, aceitou reduzi-lo para uma duração de duas horas e quinze minutos, ficando grande parte do elenco sem cenas completas, ou simplesmente nem aparecem. O realizador pediu desculpas, pessoalmente, por tê-los excluído da versão final.
     Apresentado no festival de Cannes em Maio, "Twin Peaks - Fire walk with me", foi recebido com vaias e assobios do público e críticas negativas de quase toda a imprensa presente no evento. Estreou nos Estados Unidos em Agosto e foi um fracasso de bilheteira. Aparentemente o efeito "Twin Peaks"extinguira-se logo após o cancelamento da série, um ano antes. Na Europa, onde o realizador era idolatrado, o filme rendeu razoavelmente e recebeu algumas críticas moderadas. No Japão, a recepção ao filme foi diferente, já que o realizador gozava de grande fama entre as mulheres japonesas, que viram na "sua" Laura uma projecção do sofrimento e ânsia de libertação da mulher numa sociedade repressiva (neste caso, o universo "Twin Peaks") e em agradecimento a esta visão, tornaram o filme num sucesso de bilheteira.
    O filme pode ser visto de forma independente da série, apesar de remeter muitas situações para esta, mas, para uma melhor análise e compreensão deste universo, deve ver-se com um todo, começando pelo filme e depois prosseguir com as duas temporadas da série. A experiência, garantidamente, é única.
    Era intenção de David Lynch fazer mais dois filmes que continuariam e concluiriam a história, mas, devido ao fracasso nas bilheteiras, deu por encerrado o assunto. Ás vezes o melhor mesmo é abandonar uma temática, por muito boa que ela seja ou por muito boa vontade que se tenha em trabalhá-la, deixar que o tempo faça o respectivo distanciamento e a eleve até ao respectivo estatuto.


                                                                
    

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Twin Peaks - Da Televisão para o Cinema I


Quem matou Laura Palmer?
    Nunca se tinha assistido a a um fenómeno televisivo como este. Em 1990, "Twin Peaks", uma série da ABC, pôs, literalmente falando, os espectadores a fazer a mesma pergunta: "Quem matou Laura Palmer?".
    Twin Peaks passava-se numa cidade fictícia nos estado de Washington que dava nome à série e nela  Laura Palmer (a lindíssima actriz Sheryl  Lee), popular rainha da beleza local, aparece morta. Enquanto a familia e a cidade estão envoltas na dor, o agente especial do FBI, Dale Cooper ( estupendo Kyle Maclachlan, no papel da sua vida), é enviado para investigar o estranho crime e o que se lhe  depara vai muito além do simples crime.
Os criadores: David Lynch (esq.) e Mark Frost (dir.)
   Criado por David Lynch e Mark Frost, "Twin Peaks" tornou-se, no inicio da década de 90 do século passado, num enorme fenómeno de popularidade, tanto a nível nacional como internacional, não só pela abordagem original do tema, como também por ter rompido com as convenções televisivas existentes: a personagem principal aparece morta logo no inicio (Laura Palmer); a própria duração da série: oito episódios incluindo um episódio-piloto) na primeira temporada, cujo sucesso levou à criação duma segunda série (esta já dentro dos parâmetros habituais de televisão com cerca de 20 episódios);  ao contrário do que estava convencionado, o mistério não fica resolvido no final da série, pelo contrário, adensa-se ainda mais relegando a resolução do crime para o meio da segunda série (que, graças ao génio criativo de Lynch e Frost, se torna mais negra e melhor enquanto avança em direcção ao final abrupto a que foi sujeita deixando alguns mistérios por resolver).
    Chamando alguns dos seus actores  habituais (o já referido Kyle Maclachlan, mas também Jack Nance e Everett McGill), Lynch juntou-lhes Michael Ontkean, Dana Ashbrook, James Marshall, entre outros e também se lhes juntou além de Sheryl Lee, alguns dos mais belos rostos femininos que vimos em televisão: Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Mädchen Amick, Peggy Lipton, Joan Chen, entre outras.Todos fazem parte da galeria de personagens que povoam os filmes de Lynch: únicas e bizarras que formam uma teia minuciosa de personalidades contrária à aparência da cidade, acrescentando, a uma já atmosfera surrealista, de que o melhor exemplo são os sonhos recorrentes do agente do FBI, Dale Cooper, nos quais lhe são dadas pistas de um modo sobrenatural que podem levar, ou não, à resolução do crime e que podem também ser fruto da sua própria imaginação, um toque sobrenatural comum a toda a obra anterior e posterior do realizador. 
   Tal como   toda a obra de Lynch, torna-se dificil defini-la num género só: estilisticamente, a série assemelha-se ás  premissas do tom sobrenatural dos filmes de terror, tão ao gosto do realizador,  nomeadamente o seu magnifico "Blue Velvet - Veludo Azul" (1986), do qual esta série foi, de certa maneira, uma continuação dos caminhos abertos por essa obra já que a acção também se passa numa pequena cidade americana e Lynch explora, em ambas as obras, o fosso existente entre as aparências da respeitabilidade duma pequena cidade e as vidas secretas que nela proliferam, mas também oferece algum tom cómico parodiando as "soaps" (telenovelas) americanas através da exibição de personagens  extravagantes, de moral dúbia.
   Em "Twin Peaks" existem personagens que têm vidas duplas que vão sendo descobertas à medida que a série avança, na mesma medida em que expõe o lado negro de vidas inocentes. 
   graças ao seu estilo ambicioso, paranormal e a capacidade implícita de envolvimento numa história de crime e mistério, "Twin Peaks" obteve um êxito sem precedentes, principalmente durante a primeira série onde atingiu o seu ponto mais alto passando a fazer parte da cultura popular. Os prémios não tardaram: 14 nomeações para os Emmy's (Oscares de televisão), onde venceu em apenas duas categorias técnicas; enquanto nos Globos de Ouro venceu nas categorias de Melhor Série Dramática, Melhor Actor Drama em Série de Televisão (Kyle Maclachlan) e também a veterana Piper Laurie ganhou na categoria de Melhor Actriz Secundária em Série de Televisão.
   O episódio-piloto foi editado em VHS na europa em finais de 1990. Continha mais cerca de 20 minutos, em relação ao que fora exibido nos Estados Unidos, de cenas montadas, retiradas dos outros episódios e um final diferente (a cena do quarto vermelho onde Cooper encontra Laura Palmer e o Homem que Veio de Outro Lugar, que encerra o segundo episódio, foi originalmente filmada para este especial), de modo a torná-lo numa espécie de telefilme para exibição fora do circuito americano.
 A recepção foi entusiasmante, até porque o realizador tinha ganho a Palma de Ouro em Cannes  meses antes, com "Wild at Heart - Coração Selvagem".   Um ano depois, Lynch anunciava a sua intenção de regressar ao universo de Twin Peaks.
                                                                                                                   (continua)  


Nota: as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet   







    

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Saga Asiática de James Clavell

James Clavell,  Escritor (1924-1994)
    James Clavell (1924-1994), escritor Britânico, nascido na Austrália devido ao facto do seu  pai, comandante na Marinha Britânica e vice-comandante na marinha britanico-australiana, ter vivido praticamente toda a sua vida no continente australiano.
   Quando rebentou a II Guerra Mundial, James Clavell, que seguira a vida militar para manter a tradição familiar, foi enviado para a Malásia para combater os japoneses, acabou por ser feito prisioneiro e enviado para um campo de concentração onde ficaria até ao final da guerra. Em 1946, um acidente de mota pôs fim à sua carreira militar. Inscreveu-se na Universidade de Birmingham para fazer uma licenciatura e onde permaneceria até 1953 quando decidiu ir tentar a sua sorte nos Estados Unidos.
   Além de escritor, Clavell foi também argumentista de cinema, em filmes de sucesso como "The Great Escape - A Grande Evasão" (John Sturges, 1963), "633 Squadron - Esquadrão 633" (Walter Grauman, 1964) ou "Satan Bug - O Veneno do Diabo" (John Sturges, 1965), entre outros. Foi também realizador de obras como "To Sir, with Love - O Ódio que gerou o Amor" (1967) ou "The Last Valley - O Vale Perdido" (1970). Em 1963, Clavell naturalizar-se-ia americano. Entre a sua vasta obra literária, conta-se uma séries de romances que ficaram conhecidos como "The Asian Saga - A Saga Asiática" e que foram a sua coroa de glória.
A Saga Asiática de James Clavell
   "A Saga Asiática" é composta por seis romances, escritos entre 1962 e 1993, e centram-se todos no estabelecimento e relacionamento dos europeus na ásia e exploram o impacto causado no oriente e no ocidente pelo choque das duas civilizações. Inicialmente, Clavell nunca nunca teve a intenção de que os livros formassem uma saga compacta, aliás, o termo só foi aplicado após o lançamento de "Shógun", o que levou a que alguns peritos em literatura e também em história universal o vissem como o inicio duma saga que já estava em desenvolvimento e começaram a referir-se a eles com uma ordem narrativa. Toda a obra pode ler-se na seguinte ordem cronológica:
- "Shogun" (1975) a acção decorre em 1600 no Japão Feudal;
- "Tai-Pan" (1966) a acção situa-se em Hong Kong em 1841;
- "Gai-Jin" (1993) situado no Japão em 1862;
- "King Rat - Rei Rato" (1962) cuja acção se situa num campo de prisioneiros japonês, em Singapura, em 1945;
- "Noble House - Casa Nobre" (1981) passado em Hong Kong, 1963
- "Whirlwind" com a acção situada no Irão, em 1979;

    "Shogun" é o primeiro romance da saga asiática de James Clavell. Tem inicio em 1600, no Japão feudal, vários meses antes da batalha de Sekigahara, que iria definir o futuro do país, conta a história da ascensão de Toranaga, um senhor feudal, ao shogunato, o mais alto cargo militar do país (uma espécie de ditador), visto através dos olhos de um marinheiro inglês a bordo de um navio holandês que é o primeiro dum país protestante a chegar ao japão. 
     Pode ser lido independente dos outros livros da série, apesar de "Gai-Jin", terceiro livro da saga, fazer a ponte entre "Shogun" e as aventuras de da familia Struan, já que se passa no japão, cerca de 20 anos depois dos acontecimentos narrados em "Tai-Pan" e acompanha a história de Malcolm Struan, neto de Dirk Struan, futuro Tai Pan da Casa Nobre, no Japão. O livro mergulha profundamente na situação politica do japão  e nas hostilidades sentidas pelos ocidentais num pais que ainda não saíra do feudalismo.
    "Tai-Pan", cronologicamente é o segundo volume da saga, marca o inicio da história da Casa Nobre da Ásia (assim apelidada pelos chineses devido á supremacia que a Struan's adquire no romance sobre as outras casas comerciais). No inicio da história, em 1841, a Inglaterra acabou de tomar posse de Hong Kong  e pretende iniciar relações comercias com China, então ainda fechada sobre si mesma. Dirk Struan e Tyler Brock, donos das duas maiores casas comerciais  de Hong Kong. Os dois eram amigos e antigos marinheiros e agora são dois ferozes adversários e a sua luta, comercial e pessoal, está no centro da acção da história, já que  Struan é o "Tai-Pan" (Chefe Supremo) e Tyler quer destruí-lo de forma a tornar-se ele o Chefe Supremo.
     "Rei Rato", quarto livro da saga asiática de James Clavell, passa-se em 1945, em  Changi, campo de prisioneiros japonês situado em Singapura e conta a história da amizade entre um cabo americano, conhecido simplesmente como "O Rei", já que se tornou no mais conhecido traficante e negociante dentro de Changi, e Peter Marlowe, Tenente-Aviador Britãnico, feito prisioneiro em 1942. A personagem de Marlowe é baseada  no próprio James Clavell e nos três anos que passou prisioneiro dos japoneses.
     "Casa Nobre" é o quinto volume da saga asiática e também o que obteve maior sucesso, talvez devido à proximidade da transferência de soberania de Hong Kong  da Grâ-Bretanha para a República Popular da China (que viria a ocorrer em 1997), a acção decorre em 1963 onde encontramos a Casa Nobre e o seu Tai-Pan, Ian Dunross, a tentarem salvar-se da situação financeira precária deixada pelo anterior Tai-Pan enquanto mantém a luta com o seu arqui-rival Quillan Gornt. A acção do livro decorre numa semana onde tudo acontece, desde assassinatos, bancarrotas, aquisições hostis até espionagem internacional que envolve o KGB e o MI6. Todo o saber e conhecimentos que James Clavell possuia estão  incluídos neste livro que, apesar das suas mais de 1000 páginas, se lê com enorme agrado e, sem querer, somos arrastados numa literatura envolvente.
    "Whirlwind", último livro da saga asiática, passa-se no Irão no inicio de 1979, e acompanha as aventuras dum grupo de pilotos de helicóptero da "Struan's", oficiais iranianos, prospectores de petróleo e respectivas familias nos dias que se seguiram à queda da Monarquia Iraniana e do Shah Reza Pahlevi e a ascensão do Ayatollah Khomeini. Pormenorizado e longo (mais de 1000 páginas), como todos os livros de Clavell, com diversas pequenas histórias, todas relacionadas entre si e entrelaçadas na cultura iraniana, além dum numeroso elenco de personagens. Em "Whirlwind", fica-se com essa ideia, não seria o último livro da saga. Soube-se, posteriormente, que o autor pretendia continuar a saga, o que infelizmente, por morte do autor, não chegou a acontecer.
     O cinema e a televisão descobriram o filão que os livros de Clavell constituiam e trataram de os adaptar. Assim em 1965, Bryan Forbes transformou "King Rat" em "O Rei de um Inferno", com George Segal no principal papel; "Shogun" foi adaptado em 1980 pela NBC para  mini-série com Richard Chamberlain e Toshiro Mifune. As 9 horas da mini série foram depois editadas e reduzidas para uma versão de cinema de duas horas em 1981;"Tai Pan" foi adaptado para cinema por Daryl Duke em 1986, com Bryan Brown e Joan Chen; "Noble House" foi adaptado para televisão em 1988 numa mini-série com Pierce Brosnan e John Rhys-Davies e foi também a única adaptação cujo tempo de acção foi mudando, passando a decorrer na década de 80.

 
 

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