terça-feira, 6 de março de 2012

Ficção Científica - Género Maior da Literatura

    A Ficção Científica é um género de literatura de ficção cujo conteúdo se relaciona, de um modo plausível, com universos e tecnologias futuristas, viagens espaciais, aliens e habilidades paranormais. 
    O termo "ficção científica" ou simplesmente "sci fi" foi utilizado pela primeira vez por Forrest J.Ackerman,  criador da comunidade "science fiction fandom" para fans de ficção científica e fantasia, coleccionador de livros e filmes de ficção científica, numa conferência na UCLA (Universidade de Cinema de Los Angeles) em 1954, como termo comparável ao muito utilizado "hi-fi", numa altura em que a ficção científica já fazia parte da cultura popular, escritores e fans do género estavam a começar a associar o termo com as produções de baixo orçamento e pouca inovação tecnológica que acontecia nos filmes e em alguma produção literária de ficção científica.
    Explorar as consequências das inovações tecnológicas é um dos seus vários propósitos, tornando-a numa literatura de ideias. Muita da ficção científica é baseada em escritos acerca da racionalidade de mundos alternativos e possíveis futuros. É semelhante ao género de fantasia, mas é nestes aspectos que se afasta dela. Os seus cenários são geralmente contrários à realidade, embora se mantenham num patamar de descrença que se torna acessível ao leitor através de potenciais explicações ou soluções aos diversos elementos ficcionais.
Os Elementos de Ficção Científica incluem:
- A acção é passada num tempo futuro, numa cronologia alternativa ou num passado histórico contrário aos factos e história conhecida ou nos registos arqueológicos.
- Um cenário espacial ou noutros mundos ou ainda numa Terra subterrânea.
- Personagens que incluam aliens, mutantes, androides ou robots.
- Tecnologia futurista
- Princípios cientificos que contradigam as leis universalmente aceites, tais como viagens no tempo.
- Novos e diferentes estados sociais e politícos.
- Habilitações paranormais tais como controle de mente, telepatia, telecinésia, teleportação, etc.
     Apesar das primeiras referências à ficção cientifica remontarem aos tempos da Mitologia, o seu início como género literário aparece referenciado em obras como "Lucian's True History" datada do século II; em alguns contos das "Arabian Nights - 1001 Noites"; em "The Tale of the Bamboo Cutter" que surgiu por volta do século X ou em "Theologus Autodidactus" de Ibn al-Nafis, por volta do século XIII.
    Mas foi por alturas da chamada Idade da Razão (séc.XVII) e do desenvolvimento da ciência moderna que surgem as primeiras obras literárias do género: "As Viagens de Gulliver" (1726)  de Jonathan Swift; "Micromégas" (1752) de Voltaire ou "Somnium" de Johannes Kepler (1620-1630), que Carl Sagan e Isaac Asimov consideraram ser a primeira história de ficção científica do mundo moderno. Nela conta-se a história duma viagem à  lua e como se via  de lá o movimento da terra.
    Seguindo o desenvolvimento, no século XVIII, da novela como forma de literatura, no século XIX os livros "Frankenstein" e "The Last Man", ambos de Mary  Shelley, assim como "The Unparalleled Adventures of  One Hans Pfaal" de Edgar Alan Poe, que descreve um vôo até à Lua;  "Viagem ao Centro da Terra" (1864); "20000 Léguas Submarinas" (1870); "Da Terra à Lua" (1865) e a sua "sequela" "À Volta da Lua" (1870), todos de Júlio Verne, ajudaram a definir a forma da ficção científica.
    Com o advento das novas tecnologias como a electricidade, o telégrafo, escritores, como Júlio Verne ou H.G.Wells, publicaram obras que se tornaram mais-valias para a literatura, e foram extremamente populares entre as diversas camadas da população. Além dos trabalhos já citados de Verne, foi o livro de H.G.Wells, "A Guerra dos Mundos", publicado em 1898, que mais impacto criou entre a população. Nele descreve-se uma Inglaterra victoriana que é alvo duma invasão de Marcianos que usam máquinas trípodes e armamento avançado. É um primeiro esboço duma invasão alienígena à terra.
    Já no século XX, revistas como a "Amazing Stories" (1926) de Hugo Gernsback ou mais tarde a "Astounding Science Fiction" (1939), de John W.Campbell, ajudaram a desenvolver o género e a revelar novos autores que formariam uma geração  de escritores de ficção científica. Nomes como Isaac Asimov, Frederic Pohl, James Blish, E.E."Doc" Smith,  Robert A. Heinlein,  Arthur C.Clarke, A.E.van Vogt, Stanislaw Lem, entre outros,  iniciaram aquela que ficou conhecida como "A Idade Dourada da Ficção Científica",  iriam atravessar todo o século e cujos escritos ainda hoje influenciam muitos autores. Em 1912 Edgar Rice Burroughs, antes de se tornar conhecido como o criador de Tarzan, escreveu uma série de contos acerca de John Carter, um héroi da Guerra Civil Americana, raptado por aliens, que, ao salvar uma princesa em marte, envolve-se nas guerras marcianas. Os contos acabaram por se tornar numa longa série de livros escritos ao longo de mais 30 anos e que ficaram conhecidos com "As Crónicas de Barsoom". Em 1928 é publicada na revista "Amazing Stories a primeira história de Buck Rogers intitulada "Armageddon 2419" da autoria de Philip Nolan, que se tornaria num marco do género e que levaria à aparição de "comics" com Buck Rogers (1929),  Brick Bradford (1933) e Flash Gordon (1934) que se transformariam em séries que viriam a popularizar a ficção científica.
    A década de 50, viu surgir a geração "beat" da ficção cientifica. Escritores  como William S. Burroughs, começaram a introduzir uma nova tendência no género. A escrita especulativa, marcada pelo experimentalismo, tanto na forma como no conteúdo, duma escrita sob influência, explorava novas ideias e estilos de escrita que se viria a acentuar durante as décadas de 60 e 70, principalmente na Grâ-Bretanha, enquanto autores como Frank Herbert, Roger Zelazny ou Harlan Ellison se tornavam adeptos desta nova tendência, outros como Larry Niven, Poul Anderson, redefiniam o termo ficção cientifica de modo torná-lo mais próximo dos tempos que se viviam. Outros houve, como Ursula K.LeGuin, que se tornaram pioneiros duma ficção cientifica mais suave.
    A década de 80, viu surgir uma outra geração, encabeçada por William Gibson, Bruce Sterling e Neal Stephenson, que se afastou radicalmente do optimismo da ficção cientifica e defendia o progresso do género para outras áreas. Visando mais a história e as personagens em detrimento duma certeza cientifica. Beneficiando mais a exploração de vidas extraterrestres do que os desafios complexos da ciência. Esta nova tendência viria a influenciar o género nas décadas seguintes, mas agora associada a novos desafios.
     Na década de 90, temas emergentes como o ambiente, as implicações da comunidade global, a expansão do universo da informação, questões relacionadas com Biotecnologia e Nanotecnologia, bem como temas relacionados com o pós-guerra fria e  as cicatrizes que deixou nalgumas sociedades,  que "The Diamond Age" de Neal Stephenson, explora profundamente. 
    As temáticas tornam-se recorrentes, orientando toda uma geração de escritores para essas preocupações, sem nunca, no entanto, perder de vista a ficção cientifica, género que os continua a motivar no século XXI.
  

Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet


   

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Os Crimes dos Rios de Púrpura - Thriller "Made in França"


     O Thriller, sub-género cinematográfico situado, entre o policial e o filme de terror, uma das últimas criações a juntar-se ao longo historial do cinema, tem raízes um pouco por todo o mundo e tem constituido uma das melhores formas de entretenimento dos últimos anos. "Os Crimes dos Rios de Púrpura" é um desses exemplos.
   No Campus Universitário de Guernon, vila situada nos Alpes Franceses, acontece a estranha e horrível descoberta de um corpo assassinado e mutilado de uma jovem estudante da Universidade. É chamado para investigar o Comissário Pierre Niemans, uma espécie de Sherlock Holmes dos crimes em série, cuja perspicácia só é ultrapassada pelo seu pânico de cães. Ao mesmo tempo, um Tenente da Polícia local Max Kerkerian, investiga uma violação duma sepultura ocorrida numa outra vila próxima. Rapidamente se descobre que os casos estão, de algum modo, relacionados e os dois policías vão enveredar esforços para tentar resolver o  mistério. Aquilo que aparentemente seria uma investigação normal de um crime, torna-se algo bem mais complexo há medida que os corpos vão aparecendo.
O realizador e argumentista Mathieu Kassovitz
   Co-adaptado por Jean-Christopher Grangé, autor do romance original e  pelo realizador Mathieu Kassovitz, que já nos dera, entre outras obras, o fabuloso "O Ódio" (1995), centrado nas temáticas das diferenças de classes sociais,   raça, violência e brutalidade policial, filmado num preto-e-branco intenso que lhe confere o realismo necessário e projectou o realizador para a fama; "Gothika"(2003), um thriller fantástico em que nem a presença de Halle Berry ou Penelope Cruz o impediram de ser um fracasso comercial. 
   "Os Crimes dos Rios de Púrpura", consegue ser um thriller eficaz, algo violento, com alguns toques de terror, como se percebe logo no inicio, com a cena do cadáver a ser comido pelos vermes, e isto é apenas o principio, porque ao longo de todo o filme somos confrontados com outras situações próximas. Mas são estes pequenos toques ligeiros no género, que tornam o filme interessante graças a uma realização inteligente de Kassovitz que, utilizando panorâmicas e movimentos de camera, tirando máximo partido do cenário, homenageia o cinema (a cena em que a camera segue quase obsessivamente o carro  de Pierre Niemans enquanto este se aproxima da primeira cena do crime, é uma homenagem à abertura de "Shining" de Stanley Kubrick,  de quem o realizador é admirador confesso), usando todas as ferramentas ao seu dispôr, nos oferece um filme recheado de voltas e reviravoltas que só peca por se tornar demasiado evidente perto do final.
Vincent Kassel e Jean Reno em acção
   Jean Reno, na pele do Comissário Niemans, a jogar em casa, dá-nos uma interpretação poderosa, a que já nos habituou noutras produções como "Vertigem Azul" (Luc Besson,1988) ou "Leon - O Profissional" (Luc Besson,1994) ou "Código DaVinci" (Ron Howard, 2006), entre muitas outras, não fosse ele um dos actores franceses mais solicitados internacionalmente nos últimos anos. Perfeitamente secundado por Vicente Cassel, no papel de  Max Kerkerian, policia pouco ortodoxo, que não olha a meios para obter as confissões,nem que para isso tenha de andar à pancada com os seus possíveis suspeitos ( a cena do bar, com os skinheads, é disso exemplo). Cassel, aqui contracenado com o seu pai, Jean-Pierre Cassel, é um actor habituado a interpretar personagens que fervem em pouca água, emotivas e violentas como demonstrou em "O Ódio", ou no controverso e perturbante "Irreversível" (Gaspar Noé, 2002)  .
   "Os Crimes dos Rios de Púrpura" obteve um grande sucesso, principalmente em França, quer de público quer de crítica, o que levou a uma sequela "Os Anjos do Apocalypse" (Oliver Dahan, 2004) igualmente protagonizado por Jean Reno mas de qualidade inferior ao original.
Thriller europeu ao mais alto nível "Os Crimes dos Rios de Púrpura" é garantia de um bom espectáculo e onde se prova que no velho continente também se podem fazer bons filmes.
                                         
                                     
Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Twin Peaks - Da Televisão para o Cinema II

    Em 1992, a curiosidade em torno do novo projecto de David Lynch era grande. Por um lado tratava.-se de regressar ao universo de  Twin Peaks, cujo fraco "share" obtido pela segunda série, estava ela a meio, levara à decisão de a cancelar no final da temporada. Por outro lado, perguntava-se, haveria ainda alguma coisa a dizer ou fazer naquele universo surreal, fantástico e genialmente criado por David Lynch? o realizador respondeu afirmativamente e fez "Twin Peaks - Fire walk with me - Os Últimos sete dias de Laura Palmer".
    O filme começa com a investigação da morte de Teresa Banks, uma "zé-ninguém", como é referido no filme, mas rapidamente passa para os últimos dias de Laura Palmer, estudante e rainha da beleza de Twin Peaks, mas cedo se descobre que tem alguns segredos que a tornam "não tão inocente" como a primeira vez em que a vemos (um belo plano médio de Laura a caminhar no passeio).
A morte de Teresa Banks: o principio de tudo
    Funcionando como uma espécie de prólogo, já que ligando os dois crimes, que eram o mistério central da série, David Lynch faz a ponte entre as duas obras; mas pode também ser considerado como uma sequela/epílogo, graças a uma narrativa bem entrelaçada por David Lynch e Robert Engels, já que explica alguns mistérios da série, bem como qual o destino do Agente Especial do FBI, Dale Cooper, que ficara suspenso no final da segunda temporada (que o apressado final não explicou claramente). Para Lynch, o tempo é uma incerteza, e isso está bem patente tanto nas séries como no filme, ele  faz-nos acreditar que tudo aquilo aconteceu, ou pode vir a acontecer. 
      A enigmática cena final, quando o espírito de Laura "acorda" no quarto vermelho do Black Lodge, sente-se triste, só e abandonada, vê o seu anjo aparecer no ar, primeiro começa a chorar e depois ri, a seu lado está o Agente do FBI que lhe passa o braço pelos ombros, terminando  com um belissimo plano do rosto dela sob um fundo branco, é disso exemplo.
   Lynch quis fazer o filme porque, segundo as suas próprias palavras "...eu não me conseguia imaginar fora do universo de Twin Peaks...eu estava apaixonado pela personagem de Laura Palmer e as suas próprias contradições: alegre e jovial por fora, mas a morrer por dentro...eu queria vê-la viva...a mexer-se, a rir, a falar...adorava aquele universo...entendi que ainda havia muito para explorar...foi o que pretendi fazer...".
Dale Cooper, Agente Especial do FBI e a "secretária" portátil
    Percebe-se que estamos situados no universo do realizador: desde a cena inicial em que se vislumbra uma televisão sem emissão nem som, sob a qual decorre o genérico, indicando um silêncio absoluto que logo a seguir é quebrado pelo partir da mesma ao mesmo tempo que se ouve um grito feminino, alguém acaba de ser assassinado, ficamos a saber a seguir que esse alguém é Teresa Banks; passando pela investigação dos dois agentes do FBI (Chris Isaak, cantor e músico, numa pausa da sua carreira musical e um Kiefer Sutherland, numa versão Jack Bauer, pré "24")  de um dos famosos casos "Rosa Azul", dos quais não pode falar, segundo diz Chester Desmond, do seu chefe Gordon Cole (interpretação carismática de David Lynch) e pelas premonições que Dale Cooper dá conta à sua "secretária" portátil (um gravador de voz), onde receia que o assassino de Teresa Banks voltará a atacar; terminando na aparição do corpo de Laura na praia e a referida cena final, tudo isto é David Lynch no seu melhor. Contando também com a preciosa ajuda da banda sonora, tanto no filme como na série, da responsabilidade de Angelo Badalamenti, colaborador habitual do realizador desde "Veludo Azul" (1986), onde a sua sonoridade única se demarcou do filme, mas, ao mesmo tempo, completando-o. Em "Twin Peaks", acontece o mesmo: é impossível demarcar a banda sonora daquele universo: os temas que compôs para as personagens são, só por si, um cartão de apresentação de qualidade inegável. Mal ouvimos qualquer acorde, seja do tema de alguma personagem, seja o próprio tema principal, somos imediatamente transportados para aquele universo imaginado e criado por David Lynch, como se a banda sonora tivesse uma vida própria, adequada ao ambiente de ambas as obras.
    Tal como acontecera com a série, também o filme quebrou algumas convenções estipuladas. Por um lado tínhamos uma "prequela" (o termo ainda não se utilizava no inicio da década) em vez duma continuação ou sequela como se começara a utilizar alguns anos antes; Por outro lado, tínhamos um filme que, pela primeira se inspirava numa série e não o contrário (hoje já é prática comum fazer-se isto, basta ver, por exemplo, os filmes inspirados na série de culto "Missão: Impossível").
     Praticamente todo o elenco da série transitou para o filme retomando as suas personagens, com as excepções de Lara Flynn Boyle (Donna Hayward), Sherilyn Fenn (Audrey Horne) e Richard Beymer (Benjamin Horne), mas nem todos aparecem na versão final do filme o que provocou um vazio enorme, já que algumas dessas personagens tinham-se tornado familiares ao espectador da série. Para quem só conheceu este universo a partir do filme, não dá por esse vazio apesar de se aperceber de alguns cortes abruptos nas cenas; mas quem conheceu e acompanhou este universo desde a televisão, apercebe-se logo do enorme vazio provocado por essas ausências, mais, percebe que o próprio filme se ressente desse facto.
     Lynch, originalmente, filmou mais de cinco horas de filme, mas, a pedido do seu produtor que receava que  o filme fosse um fracasso, aceitou reduzi-lo para uma duração de duas horas e quinze minutos, ficando grande parte do elenco sem cenas completas, ou simplesmente nem aparecem. O realizador pediu desculpas, pessoalmente, por tê-los excluído da versão final.
     Apresentado no festival de Cannes em Maio, "Twin Peaks - Fire walk with me", foi recebido com vaias e assobios do público e críticas negativas de quase toda a imprensa presente no evento. Estreou nos Estados Unidos em Agosto e foi um fracasso de bilheteira. Aparentemente o efeito "Twin Peaks"extinguira-se logo após o cancelamento da série, um ano antes. Na Europa, onde o realizador era idolatrado, o filme rendeu razoavelmente e recebeu algumas críticas moderadas. No Japão, a recepção ao filme foi diferente, já que o realizador gozava de grande fama entre as mulheres japonesas, que viram na "sua" Laura uma projecção do sofrimento e ânsia de libertação da mulher numa sociedade repressiva (neste caso, o universo "Twin Peaks") e em agradecimento a esta visão, tornaram o filme num sucesso de bilheteira.
    O filme pode ser visto de forma independente da série, apesar de remeter muitas situações para esta, mas, para uma melhor análise e compreensão deste universo, deve ver-se com um todo, começando pelo filme e depois prosseguir com as duas temporadas da série. A experiência, garantidamente, é única.
    Era intenção de David Lynch fazer mais dois filmes que continuariam e concluiriam a história, mas, devido ao fracasso nas bilheteiras, deu por encerrado o assunto. Ás vezes o melhor mesmo é abandonar uma temática, por muito boa que ela seja ou por muito boa vontade que se tenha em trabalhá-la, deixar que o tempo faça o respectivo distanciamento e a eleve até ao respectivo estatuto.


                                                                
    

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Twin Peaks - Da Televisão para o Cinema I


Quem matou Laura Palmer?
    Nunca se tinha assistido a a um fenómeno televisivo como este. Em 1990, "Twin Peaks", uma série da ABC, pôs, literalmente falando, os espectadores a fazer a mesma pergunta: "Quem matou Laura Palmer?".
    Twin Peaks passava-se numa cidade fictícia nos estado de Washington que dava nome à série e nela  Laura Palmer (a lindíssima actriz Sheryl  Lee), popular rainha da beleza local, aparece morta. Enquanto a familia e a cidade estão envoltas na dor, o agente especial do FBI, Dale Cooper ( estupendo Kyle Maclachlan, no papel da sua vida), é enviado para investigar o estranho crime e o que se lhe  depara vai muito além do simples crime.
Os criadores: David Lynch (esq.) e Mark Frost (dir.)
   Criado por David Lynch e Mark Frost, "Twin Peaks" tornou-se, no inicio da década de 90 do século passado, num enorme fenómeno de popularidade, tanto a nível nacional como internacional, não só pela abordagem original do tema, como também por ter rompido com as convenções televisivas existentes: a personagem principal aparece morta logo no inicio (Laura Palmer); a própria duração da série: oito episódios incluindo um episódio-piloto) na primeira temporada, cujo sucesso levou à criação duma segunda série (esta já dentro dos parâmetros habituais de televisão com cerca de 20 episódios);  ao contrário do que estava convencionado, o mistério não fica resolvido no final da série, pelo contrário, adensa-se ainda mais relegando a resolução do crime para o meio da segunda série (que, graças ao génio criativo de Lynch e Frost, se torna mais negra e melhor enquanto avança em direcção ao final abrupto a que foi sujeita deixando alguns mistérios por resolver).
    Chamando alguns dos seus actores  habituais (o já referido Kyle Maclachlan, mas também Jack Nance e Everett McGill), Lynch juntou-lhes Michael Ontkean, Dana Ashbrook, James Marshall, entre outros e também se lhes juntou além de Sheryl Lee, alguns dos mais belos rostos femininos que vimos em televisão: Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Mädchen Amick, Peggy Lipton, Joan Chen, entre outras.Todos fazem parte da galeria de personagens que povoam os filmes de Lynch: únicas e bizarras que formam uma teia minuciosa de personalidades contrária à aparência da cidade, acrescentando, a uma já atmosfera surrealista, de que o melhor exemplo são os sonhos recorrentes do agente do FBI, Dale Cooper, nos quais lhe são dadas pistas de um modo sobrenatural que podem levar, ou não, à resolução do crime e que podem também ser fruto da sua própria imaginação, um toque sobrenatural comum a toda a obra anterior e posterior do realizador. 
   Tal como   toda a obra de Lynch, torna-se dificil defini-la num género só: estilisticamente, a série assemelha-se ás  premissas do tom sobrenatural dos filmes de terror, tão ao gosto do realizador,  nomeadamente o seu magnifico "Blue Velvet - Veludo Azul" (1986), do qual esta série foi, de certa maneira, uma continuação dos caminhos abertos por essa obra já que a acção também se passa numa pequena cidade americana e Lynch explora, em ambas as obras, o fosso existente entre as aparências da respeitabilidade duma pequena cidade e as vidas secretas que nela proliferam, mas também oferece algum tom cómico parodiando as "soaps" (telenovelas) americanas através da exibição de personagens  extravagantes, de moral dúbia.
   Em "Twin Peaks" existem personagens que têm vidas duplas que vão sendo descobertas à medida que a série avança, na mesma medida em que expõe o lado negro de vidas inocentes. 
   graças ao seu estilo ambicioso, paranormal e a capacidade implícita de envolvimento numa história de crime e mistério, "Twin Peaks" obteve um êxito sem precedentes, principalmente durante a primeira série onde atingiu o seu ponto mais alto passando a fazer parte da cultura popular. Os prémios não tardaram: 14 nomeações para os Emmy's (Oscares de televisão), onde venceu em apenas duas categorias técnicas; enquanto nos Globos de Ouro venceu nas categorias de Melhor Série Dramática, Melhor Actor Drama em Série de Televisão (Kyle Maclachlan) e também a veterana Piper Laurie ganhou na categoria de Melhor Actriz Secundária em Série de Televisão.
   O episódio-piloto foi editado em VHS na europa em finais de 1990. Continha mais cerca de 20 minutos, em relação ao que fora exibido nos Estados Unidos, de cenas montadas, retiradas dos outros episódios e um final diferente (a cena do quarto vermelho onde Cooper encontra Laura Palmer e o Homem que Veio de Outro Lugar, que encerra o segundo episódio, foi originalmente filmada para este especial), de modo a torná-lo numa espécie de telefilme para exibição fora do circuito americano.
 A recepção foi entusiasmante, até porque o realizador tinha ganho a Palma de Ouro em Cannes  meses antes, com "Wild at Heart - Coração Selvagem".   Um ano depois, Lynch anunciava a sua intenção de regressar ao universo de Twin Peaks.
                                                                                                                   (continua)  


Nota: as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet   







    

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Saga Asiática de James Clavell

James Clavell,  Escritor (1924-1994)
    James Clavell (1924-1994), escritor Britânico, nascido na Austrália devido ao facto do seu  pai, comandante na Marinha Britânica e vice-comandante na marinha britanico-australiana, ter vivido praticamente toda a sua vida no continente australiano.
   Quando rebentou a II Guerra Mundial, James Clavell, que seguira a vida militar para manter a tradição familiar, foi enviado para a Malásia para combater os japoneses, acabou por ser feito prisioneiro e enviado para um campo de concentração onde ficaria até ao final da guerra. Em 1946, um acidente de mota pôs fim à sua carreira militar. Inscreveu-se na Universidade de Birmingham para fazer uma licenciatura e onde permaneceria até 1953 quando decidiu ir tentar a sua sorte nos Estados Unidos.
   Além de escritor, Clavell foi também argumentista de cinema, em filmes de sucesso como "The Great Escape - A Grande Evasão" (John Sturges, 1963), "633 Squadron - Esquadrão 633" (Walter Grauman, 1964) ou "Satan Bug - O Veneno do Diabo" (John Sturges, 1965), entre outros. Foi também realizador de obras como "To Sir, with Love - O Ódio que gerou o Amor" (1967) ou "The Last Valley - O Vale Perdido" (1970). Em 1963, Clavell naturalizar-se-ia americano. Entre a sua vasta obra literária, conta-se uma séries de romances que ficaram conhecidos como "The Asian Saga - A Saga Asiática" e que foram a sua coroa de glória.
A Saga Asiática de James Clavell
   "A Saga Asiática" é composta por seis romances, escritos entre 1962 e 1993, e centram-se todos no estabelecimento e relacionamento dos europeus na ásia e exploram o impacto causado no oriente e no ocidente pelo choque das duas civilizações. Inicialmente, Clavell nunca nunca teve a intenção de que os livros formassem uma saga compacta, aliás, o termo só foi aplicado após o lançamento de "Shógun", o que levou a que alguns peritos em literatura e também em história universal o vissem como o inicio duma saga que já estava em desenvolvimento e começaram a referir-se a eles com uma ordem narrativa. Toda a obra pode ler-se na seguinte ordem cronológica:
- "Shogun" (1975) a acção decorre em 1600 no Japão Feudal;
- "Tai-Pan" (1966) a acção situa-se em Hong Kong em 1841;
- "Gai-Jin" (1993) situado no Japão em 1862;
- "King Rat - Rei Rato" (1962) cuja acção se situa num campo de prisioneiros japonês, em Singapura, em 1945;
- "Noble House - Casa Nobre" (1981) passado em Hong Kong, 1963
- "Whirlwind" com a acção situada no Irão, em 1979;

    "Shogun" é o primeiro romance da saga asiática de James Clavell. Tem inicio em 1600, no Japão feudal, vários meses antes da batalha de Sekigahara, que iria definir o futuro do país, conta a história da ascensão de Toranaga, um senhor feudal, ao shogunato, o mais alto cargo militar do país (uma espécie de ditador), visto através dos olhos de um marinheiro inglês a bordo de um navio holandês que é o primeiro dum país protestante a chegar ao japão. 
     Pode ser lido independente dos outros livros da série, apesar de "Gai-Jin", terceiro livro da saga, fazer a ponte entre "Shogun" e as aventuras de da familia Struan, já que se passa no japão, cerca de 20 anos depois dos acontecimentos narrados em "Tai-Pan" e acompanha a história de Malcolm Struan, neto de Dirk Struan, futuro Tai Pan da Casa Nobre, no Japão. O livro mergulha profundamente na situação politica do japão  e nas hostilidades sentidas pelos ocidentais num pais que ainda não saíra do feudalismo.
    "Tai-Pan", cronologicamente é o segundo volume da saga, marca o inicio da história da Casa Nobre da Ásia (assim apelidada pelos chineses devido á supremacia que a Struan's adquire no romance sobre as outras casas comerciais). No inicio da história, em 1841, a Inglaterra acabou de tomar posse de Hong Kong  e pretende iniciar relações comercias com China, então ainda fechada sobre si mesma. Dirk Struan e Tyler Brock, donos das duas maiores casas comerciais  de Hong Kong. Os dois eram amigos e antigos marinheiros e agora são dois ferozes adversários e a sua luta, comercial e pessoal, está no centro da acção da história, já que  Struan é o "Tai-Pan" (Chefe Supremo) e Tyler quer destruí-lo de forma a tornar-se ele o Chefe Supremo.
     "Rei Rato", quarto livro da saga asiática de James Clavell, passa-se em 1945, em  Changi, campo de prisioneiros japonês situado em Singapura e conta a história da amizade entre um cabo americano, conhecido simplesmente como "O Rei", já que se tornou no mais conhecido traficante e negociante dentro de Changi, e Peter Marlowe, Tenente-Aviador Britãnico, feito prisioneiro em 1942. A personagem de Marlowe é baseada  no próprio James Clavell e nos três anos que passou prisioneiro dos japoneses.
     "Casa Nobre" é o quinto volume da saga asiática e também o que obteve maior sucesso, talvez devido à proximidade da transferência de soberania de Hong Kong  da Grâ-Bretanha para a República Popular da China (que viria a ocorrer em 1997), a acção decorre em 1963 onde encontramos a Casa Nobre e o seu Tai-Pan, Ian Dunross, a tentarem salvar-se da situação financeira precária deixada pelo anterior Tai-Pan enquanto mantém a luta com o seu arqui-rival Quillan Gornt. A acção do livro decorre numa semana onde tudo acontece, desde assassinatos, bancarrotas, aquisições hostis até espionagem internacional que envolve o KGB e o MI6. Todo o saber e conhecimentos que James Clavell possuia estão  incluídos neste livro que, apesar das suas mais de 1000 páginas, se lê com enorme agrado e, sem querer, somos arrastados numa literatura envolvente.
    "Whirlwind", último livro da saga asiática, passa-se no Irão no inicio de 1979, e acompanha as aventuras dum grupo de pilotos de helicóptero da "Struan's", oficiais iranianos, prospectores de petróleo e respectivas familias nos dias que se seguiram à queda da Monarquia Iraniana e do Shah Reza Pahlevi e a ascensão do Ayatollah Khomeini. Pormenorizado e longo (mais de 1000 páginas), como todos os livros de Clavell, com diversas pequenas histórias, todas relacionadas entre si e entrelaçadas na cultura iraniana, além dum numeroso elenco de personagens. Em "Whirlwind", fica-se com essa ideia, não seria o último livro da saga. Soube-se, posteriormente, que o autor pretendia continuar a saga, o que infelizmente, por morte do autor, não chegou a acontecer.
     O cinema e a televisão descobriram o filão que os livros de Clavell constituiam e trataram de os adaptar. Assim em 1965, Bryan Forbes transformou "King Rat" em "O Rei de um Inferno", com George Segal no principal papel; "Shogun" foi adaptado em 1980 pela NBC para  mini-série com Richard Chamberlain e Toshiro Mifune. As 9 horas da mini série foram depois editadas e reduzidas para uma versão de cinema de duas horas em 1981;"Tai Pan" foi adaptado para cinema por Daryl Duke em 1986, com Bryan Brown e Joan Chen; "Noble House" foi adaptado para televisão em 1988 numa mini-série com Pierce Brosnan e John Rhys-Davies e foi também a única adaptação cujo tempo de acção foi mudando, passando a decorrer na década de 80.

 
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Robert Ludlum

Robert Ludlum (1927- 2001)
    Escritor Americano, nascido a 25 de Maio de 1927, em Nova York, mas, porque o seu pai era um homem de negócios, Os Ludlum nunca tinham um poiso certo. Robert  teve lições privadas em casa e fez o parte da sua aprendizagem enquanto crescia em New Jersey, na Rectory School e mais tarde completou a sua educação na Academia de Chesire, no Connecticut. Aos 16 anos teve a sua primeira experiência de palco  e começou a aparecer regularmente em produções teatrais da escola. Mas a sua grande ambição era ser ponta-de-lança no futebol americano.
     Durante a II Guerra Mundial, Ludlum tentou entrar na Força Aérea Canadiana, mas não conseguiu e acabou por ingressar nos Marines onde serviu entre 1945-47. Colocado no Pacifico Sul, escreveu um manuscrito de cerca de 200 páginas com as sua impressões. Desmobilizado, ingressou na Universidade de Wesleyan (que anos mais tarde iria servir de modelo ao seu livro "The Matlock Paper - O Papel Prateado") , no Connecticut, onde se formou em 1951. Durante a década de 50, Ludlum foi actor de teatro e televisão, em 1957 tornou-se produtor de teatro e durante a década de 60 produziu mais de 300 espectáculos em Nova York. Mas queria mudar e fazer algo de mais importante na vida.
     Em 1971 Robert Ludlum publica o seu primeiro livro "The Scarlatti Inheritance - A Herança Scarlatti", uma história que gira à volta de nazis e financeiras internacionais. A ideia nasceu a partir de um artigo de jornal em que se via uma fotografia dum alemão a empurrar um carrinho de mão cheio de notas. Apesar de inicialmente ter sido rejeitado por diversas vezes, acabou por ser um best-seller e facilitou a continuação da sua carreira como escritor. No livro seguinte de Ludlum, "The Osterman Weekend - Operação Omega",  publicado em 1973, um apresentador e produtor executivo de noticiários de televisão, John Tanner, é recrutado pela CIA para desmascarar uma rede de agentes soviéticos infiltrados nos Estados Unidos e que são os seus amigos mais próximos. É a partir deste livro e de John Tanner, que se forma o protótipo de protagonista de Robert Ludlum nos seus livros, é mais sortudo e engenhoso do que os seus inimigos podem imaginar e que tem dificuldade em confiar nas pessoas que o rodeiam. Desde meados da década de 70, que Ludlum se tornou escritor a tempo inteiro e viajou imenso pelo mundo inteiro para recolher dados para os seus livros. Paris tornou-se a sua cidade favorita.
     Em muitos dos seus livros, as intrigas multinacionais, quase sempre de direita, nascem de razões económicas. Além de muitos paralelos que estabelece entre os nazis e fanáticos modernos sedentos de poder. Em "The Aquitaine Progression - A Conspiração dos Generais" (1984), a dado momento uma das personagens tem esta linha de raciocinio "Quando o caos se tornar intolerável, é chegada a hora de fazer avançar as forças militares, assumir o controle e inicialmente estabelecer a Lei Marcial". Ou em "The Matarese Circle - O Círculo Matarese" (1979), A CIA e o KGB juntam-se, tal como os Estados Unidos e a União Soviética na II guerra mundial, para lutar contra um círculo de terroristas que conspiram contra as superpotências. A dinastia Matarese regressaria à obra do autor em "The Matarese Countdown", publicado em 1997, no qual alguns membros estão infiltrados na CIA e tentam estabelecer uma nova ordem económica. Alias esta não seria a primeira vez em que o autor revisita a sua obra.
    Em 1980 Robert Ludlum inicia uma série de livros em que um super assassino contratado se confronta, com um seu igual de nome Carlos (supostamente baseado em "Carlos, O Chacal", assassino capturado em 1994) em diversas partes do mundo. Até aqui nada de novo, parece que já lemos isto milhares de vezes, mas Ludlum introduz algo inovador, que torna esta série diferente de tantas outras: O super assassino perdeu a memória e ficou amnésico! assim em "The Bourne Identity - A Identidade de Bourne", o protagonista é encontrado semi-morto e sem qualquer memória de quem é. Vem a descobrir que a CIA lhe criou uma identidade de nome Jason Bourne, cuja missão principal é encontrar e eliminar "Carlos", um assassino profissional, ao mesmo tempo que tenta descobrir qual a sua verdadeira identidade, mas que é traído pelos seus superiores. No segundo livro "The Bourne Supremacy - A Supremacia de Bourne" publicado em 1986, surge em cena um sósia de Bourne que assassina pessoas em Hong Kong com requintes sádicos. Finalmente, em 1990, no terceiro livro da série "The Bourne Ultimatum - O Ultimato de Bourne", o confronto final entre Bourne e Carlos tem lugar na Rússia e só um sairá vencedor. Após a morte de Ludlum, em 2001, os seus herdeiros autorizaram Eric Van Lustbader a dar continuidade às aventuras deste quase alter-ego de Ludlum, cujo primeiro livro (ou quarto como se quiser ler) intitulado "The Bourne Legacy" foi publicado em 2004.
   Autor de inúmeros romances de sucesso quer em nome próprio, como "The Gemini Contenders - Os Gémeos Rivais"(1976 onde a procura de um documento perdido há séculos, caso seja encontrado, pode alterar a história e lançar a civilização num caos; "The Chancellor Manuscript - O Manuscrito Chancellor" (1977) onde se especula se J.Edgar Hoover, criador do FBI morreu de morte natural ou terá sido assassinado por uma organização infiltrada bem dentro do governo dos Estados Unidos; "The Holcroft Covenant - O Convénio de Holcroft"(1978) onde o Quarto Reich aguarda o momento da nascer e apenas um homem pode impedir que isso aconteça,  ou utilizando vários pseudónimos, como "Trevayne - Nos Bastidores do Poder" (1973); "The Cry of the Hallidon" ( 1974), ambos sob o nome de Jonathan Ryder; "The Road to Gandolfo - A Estrada para Gandolfo" (1975), sob o nome de Michael Shepherd. Posteriormente, na década de 80 e 90, alguns destes títulos seriam reeditados em nome próprio. 

    Ludlum, é também autor de dois livros que se tornaram obras-primas da literatura de acção e espionagem: o primeiro é "The Parsifal Mosaic - O Mosaico Parsifal" lançado em 1982. Michael Havelock, funcionário do Departamento de defesa norte-americano, assiste, impotente, à morte de Jenna Karas, que se provou ser  espia do KGB. Dois anos depois, Michael vê-a na estação ferroviária de Roma e dá inicio a uma corrida contra tudo e contra todos para a encontrar. Neste livro ficam patentes o ambiente da guerra fria e possibilidade de guerra nuclear, que caracteriza alguma da obra do autor e a sua aversão ao fanatismo. É um daqueles livros que não se consegue parar de ler.

     A outra obra-prima chama-se "The Icarus Agenda - Agenda Ícaro"  ,publicado em 1988 e é quase um retrato fiel do que se passa nos dias de hoje. Em Masqat, capital do Sultanato de Omã, a embaixada americana é tomada de assalto por terroristas e são feitos reféns. Graças aos conhecimentos que mantém no país, Evan Kendrick, congressista americano consegue a libertação dos reféns , não sem a perda de vidas. Um ano depois Kendrick está prestes a ser nomeado candidato á vice-presidência, quando o seu passado vem a lume e a partir daquele momento. ele é um alvo a bater, não só pelos árabes, como também por assassinos domésticos. O livro trata novamente da temática de fanatismo. Mantém um ritmo imparável, talvez seja o livro de Ludlum com mais acção por capítulo. Apesar das suas mais de 600 páginas, lê-se com muito agrado. É considerado como uma sequela de "O Manuscrito Chancellor", já que são apresentadas personagens neste livro que voltaram a aparecer em "A Agenda Ícaro".
   O seu último foi romance foi "The Prometheus Deception" lançado em 2000 e é considerado o  livro mais profético de toda a sua obra. Na história acontecem uma serie de atentados terroristas envolvidos numa conspiração internacional para restringir os Direitos Civis da população e aumentar a vigilância electrónica por razões de segurança. A ideia é boa: proteger as cooperações e impedir guerras e crimes de acontecerem.  Ludlum deixa um aviso claro: não se deve aceitar como dados adquiridos tudo o que é geralmente aceite como verdade clara, assim como não se deve tomar por verdadeira a palavra dum líder mundial ou até mesmo do Secretário-Geral das Nações Unidas!. Uma vez mais temos o agente, rodeado de inimigos, a lutar contra tudo e todos, incluindo organizações governamentais, a CIA, o FBI, o KGB, e muitos outros.
   Claro que o cinema e a televisão estiveram atentos ao sucesso deste escritor e, com maior ou menor qualidade, transpuseram alguns dos seus livros para o écran:  "The Rhinemann Exchange" (Burt Kennedy, 1977) foi adaptado para televisão, assim como "The Bourne Identity - Memória à flor da Pele" (Roger Young, 1988). Já o cinema soube tirar melhor partido de alguns títulos do escritor: "The Osterman Weekend - O Fim-de-semana de Osterman" (Sam Peckinpah, 1983); "The Holcroft Covenant - O Documento Secreto" (John Frankenheimer, 1985). Mas seria  já depois da morte do autor que viria a melhor adaptação dos livros de Ludlum: "The Bourne Identity - Identidade Desconhecida" (Doug Liman, 2002) com Matt Damon,. A adaptação actualiza a história para o século XXI e põe ao seu serviço toda uma parafernália de efeitos especiais e uma realização dinâmica fazem do actor uma estrela e do filme um sucesso, que levou a que as duas continuações também fossem adaptadas ao cinema. "Bourne Supremacy - Supremacia" e   "Bourne Ultimatum - Ultimato" foram adaptados em 2004 e 2007 por Paul Greengrass, tendo o último obtido um sucesso à escala planetária e ganho três Oscares da Academia.
   Autor de uma obra que redefiniu o género de acção, mestre incontestado da espionagem, tem vindo a ser descoberto por um público novo. Robert Ludlum tinha o dom especial de captar a imaginação dos seus leitores desde as primeiras páginas  e mantê-los absortos na história até ao final, capacidade que, como é sabido, somente alguns é que a têm.


Nota: Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet
   
   

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Barry Lyndon - Os Quadros de Stanley Kubrick

   
                                                                                                         


      Kubrick sempre quis fazer um filme histórico. Uma biografia de napoleão foi um projecto que ele acarinhou durante muitos anos mas que nunca lhe foi possível realizar porque nunca obteve financiamentos para isso. Herdou "Spartacus" (1960) de Anthony Man, depois deste ter sido despedido pelo produtor do filme. Mas a sua associação a "Personas non gratas" em Hollywood como Kirk Douglas, ou Howard Fast, autor do livro em que se baseia o filme, restringiram-lhe a sua liberdade criativa e levaram-no a ter problemas na distribuição da obra em terras americanas. Em 1975 "Barry Lyndon" acabou por ser a sua única obra histórica.
    Redmond Barry é um jovem Irlandês sem eira nem beira, vive com a mãe viúva e apaixona-se por uma prima que, no entanto, está prometida a um capitão do exército Inglês. Não suportando ser trocado por um oficial britânico, Redmond desafia-o para um duelo e mata-o sendo obrigado a fugir do país começando assim a sua odisseia por uma europa turbulenta em busca da sua própria identidade.
     Baseado num romance de William Makepeace Thackeray,"The Memoirs of Barry Lyndon, Esquire", escrito em 1844, onde se conta a história, as tribulações, provações e a má sorte de um irlandês, contada a partir do seu ponto de vista. "Barry Lyndon", divide-se em duas partes e um epílogo, como se de um livro se tratasse,  passa-se no século XVIII, um período conturbado na história da europa assolada por guerras, palco onde Redmond se vai tentar afirmar. De soldado britânico a jogador de cartas profissional e por fim Lord, mercê de sua inteligência e de um ou outro golpe, umas vezes de sorte outras de azar, a ascensão de Barry é quase meteórica, ao contrário do filme que avança lentamente, sem nunca ser monótono, graças ao perfeccionismo visual e  técnico a que a obra foi sujeita.
 Produção sumptuosa e uma reconstituição histórica rigorosa, aliados a uma fotografia nada menos que fabulosa fazem de "Barry Lyndon" uma obra que não envelhece com o tempo...Kubrick tinha esse dom: fazer filmes que nunca passam de moda!
    A sua realização é, como sempre, genial e inventiva (as marcas fortes de Stanley Kubrick), sem mácula. Utilizando, como já o fizera em "Laranja Mecânica"(1971), uma narrativa em voz off, Kubrick consegue, em tons irónicos por vezes, dramáticos noutras, ilustrar o filme com imagens e cenas que deliciam qualquer cinéfilo que se preze de o ser. Cada imagem é como se fosse uma tela onde o artista (neste caso Stanley Kubrick) pinta (filma) criando cenas de uma beleza tal que faziam inveja a qualquer pintor ou fotógrafo.
Em "Barry Lyndon" Kubrick tira partido de toda a luz natural não usando para o efeito nenhum holofote para iluminar os cenários, nem mesmo nas cenas nocturnas ou de interiores onde usou a luz de velas para filmar o que dá um efeito real, mas ao mesmo tempo sobrenatural e grotesco, das personagens em cena, mercê duma lente especial feita pela NASA e adaptada pelo realizador para utilizar nas câmaras de filmar. Mais um ponto a favor do realizador que ao utilizar esta técnica inovadora, elevou a história da fotografia a outros patamares.
    Para interpretar Redmond Barry, Kubrick chamou Ryan O'Neal, conhecido pelo seu papel em "Love Story" (Arthur Hiller, 1970), um dos filmes-referência da década de 70 do século passado. História de amor entre um rapaz de classe social alta e uma rapariga de baixa condição social e os problemas que se lhes deparam. Ryan O'Neall junta à sua carreira um papel que lhe deu alguma projecção mas que nunca passou disso.
Para o papel de Lady Lyndon, o realizador foi buscar uma ex-top model da revista "Vogue" para a qual Kubrick trabalhara no inicio da sua carreira como fotógrafo e onde conhecera a modelo. Usando a sua beleza algo melancólica, Kubrick consegue alguns dos mais belos planos jamais fotografados: A cena em que Lady Lyndon, completamente abstraída da realidade toma banho semi-nua, ladeada pelas suas duas criadas é duma beleza plástica dificil de igualar.
Utilizando uma banda sonora maioritáriamente de compositores como Haendel, Schubert,Vivaldi, Bach ou Mozart, Kubrick consegue a melhor banda sonora para o seu filme e conferir-lhe o realismo necessário para o tornar credível ao olhar mais incrédulo que possa surgir.
    O trabalho de Kubrick neste filme é, como habitualmente, irrepreensível. Já não há adjectivos que o possam qualificar, apenas podemos repetir o que já foi dito por tanta gente que comentou e comenta a sua obra: um génio absoluto e que muita falta faz ao cinema de hoje.
     De "Barry Lyndon" retemos algumas cenas que são absolutamente inesquecíveis: O prólogo onde a voz off introduz a obra, onde vemos um duelo de pistola e a realização nos enquadra na cena; As cenas de batalha em que Redmond se destingue e onde são apresentadas ambas as perpspectivas
do campo de batalha; A cena do funeral de Byran onde o trabalho de realização e a banda sonora se fundem num momento sublime de cinema: um grande plano dum caixão vai abrindo gradualmente e o tema "Sarabande " de Haendel faz as honras daquela que será talvez a imagem mais marcante de todo o filme: o cortejo fúnebre; O confronto entre Lord Bullington e Barry Lyndon em que o brilhantismo de realização o torna no duelo  mais longo da história do cinema. São cenas assim que tornam este filme num momento único.
    Pode-se também dizer que este filme não surgiu por acaso na filmografia do realizador. Ao aparecer a seguir a "Laranja Mecânica", Kubrick, que nesse filme delapida um futuro pouco radioso à sociedade, quis com "Barry Lyndon", além de fazer o seu filme histórico, dizer que a estupidez humana pode levar àquela situação; por outras palavras, quis dizer que, se a humanidade não aprender com o seu passado (aqui o séc.XVIII, que foi, em termos de guerras, tão mau, como o foi o séc.XX), poderemos muito bem estar perto do tempo da acção de "Laranja Mecãnica". Kubrick era isto mesmo: um visionário capaz de olhar para o passado e criticá-lo assim em "Barry Lyndon", mas também olhar para o futuro e torná-lo tão credível como o presente. Tal capacidade é previlégio só de alguns!
    Nomeado para sete Óscares da Academia, "Barry Lyndon" venceu quatro, todos de categoria técnica incluindo o de Melhor Fotografia que seria um verdadeiro atentado se tal prémio não viesse parar a este filme.
    Filme tantas vezes referenciado na obra do realizador, mas algo ignorado no seio da sua filmografia. Será que se pensou que este filme, tal como "Eyes Wide Shut" (Stanley Kubrick, 1999), nunca seria feito tal era o desagrado do realizador nesta época? nunca o saberemos. O que sabemos é que "Barry Lyndon" é, e será sempre, um filme de Stanley Kubrick, incontestávelmente um dos melhores realizadores de todos os tempos, cuja obra continuará a ser um manancial da sétima arte.
A não perder.

Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet

sábado, 10 de dezembro de 2011

Viagem no Tempo/História Alternativa - Um Exemplo Cinematográfico

     Há algum tempo atrás, publiquei dois textos, um que falava de viagens no tempo e outro em que falava das Histórias Alternativas, o "E se...?" no imaginário popular. Por serem assuntos sugestivos e apelativos para quem gosta destas coisas, resolvi abordá-los novamente mas do ponto de vista cinematográfico através dum filme que os toca ligeiramente.
    Durante uma patrulha de rotina no Pacífico, o "USS Nimitz", o porta-aviões mais poderoso do mundo, é apanhado numa tempestade magnética que, sem que os seus ocupantes se apercebam disso, os faz recuar no tempo, até ao dia 6 de Dezembro de 1941, nas vésperas do ataque a Pearl Harbor! . Sem saber o que lhes aconteceu, sem conseguirem comunicar com ninguém, assumem que o mundo está em guerra e entram em estado de alerta. Quando finalmente descobrem onde estão realmente,  Matt Yelland (Kirk Douglas numa prestação razoável), comandante do porta-aviões, vê-se perante uma realidade inevitável e onde tem que tomar a decisão mais importante da sua vida: deixa que a história siga o seu curso normal ou impede o ataque Japonês que irá lançar os Estados Unidos na II Guerra Mundial e altera a história mundial? É há volta desta premissa original que "The Final Countdown - A Contagem Final" vai girar.
     A realização de Don Taylor é segura e equilibrada, gerindo bem o material que dispunha, resistindo à tentação de banalizar o assunto (apesar da chama que se acende entre o Comandante Owens e Laurel), antes pelo contrário, o filme ganha embalagem, não através das suas cenas de acção, que até são escassas (mas fica-nos a sensação que o realizador era um apaixonado por aviões de combate, tal é o gosto com que filma os F-14, em vôo, a descolarem e aterrarem no Nimitz), mas sim doseando bem os diversos estados por que passa a tripulação do porta-aviões antes de perceberem onde se encontram até quase ao final quando novamente surge a tempestade magnética.
   Não é tanto pelos aspectos técnicos do filme que até contou com a colaboração do Departamento de Defesa Norte-Americano que facilitou a rodagem do mesmo a bordo do verdadeiro "Uss Nimitz", nem é pelas sequências aéreas, que foram um "must" na altura, (ainda se estava longe de "Top Gun"), nem pelas cenas de acção; o que torna  "A Contagem Final" num bom filme e não o deixa cair na banalidade são as conversas que decorrem ao longo da acção entre os protagonistas: primeiro, o receio de que aquela seja uma situação extrema de guerra nuclear para a qual estão preparados; depois vem a constatação da situação em que se encontram. Aqui percebe-se que nem todos os presentes querem ir combater, as suas opiniões e pontos de vista bem expressos, mas a decisão tem que ser tomada e cabe ao comandante decidir (talvez o melhor momento do filme seja aquele em que o comandante diz que o "Nimitz" é um navio da marinha dos Estados Unidos e como tal é sua missão defender o país seja em que tempo for e acatar assim as responsabilidades que daí advenham, mesmo que implique alterar a história dos anos vindouros).
   "A Contagem Final" é  um  drama de ficção científica/fantasia que utiliza o conceito de viagem no tempo e o leva um pouco mais à frente que as produções habituais já que foi dos primeiros a analisar as consequências e decisões que dele emanassem, resultando num interessante filme de acção,  que se vê e revê com satisfação.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet





                                                               Grease - Um fenómeno musical fora de tempo!          Alguém disse, um ...