terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Twin Peaks - Da Televisão para o Cinema I


Quem matou Laura Palmer?
    Nunca se tinha assistido a a um fenómeno televisivo como este. Em 1990, "Twin Peaks", uma série da ABC, pôs, literalmente falando, os espectadores a fazer a mesma pergunta: "Quem matou Laura Palmer?".
    Twin Peaks passava-se numa cidade fictícia nos estado de Washington que dava nome à série e nela  Laura Palmer (a lindíssima actriz Sheryl  Lee), popular rainha da beleza local, aparece morta. Enquanto a familia e a cidade estão envoltas na dor, o agente especial do FBI, Dale Cooper ( estupendo Kyle Maclachlan, no papel da sua vida), é enviado para investigar o estranho crime e o que se lhe  depara vai muito além do simples crime.
Os criadores: David Lynch (esq.) e Mark Frost (dir.)
   Criado por David Lynch e Mark Frost, "Twin Peaks" tornou-se, no inicio da década de 90 do século passado, num enorme fenómeno de popularidade, tanto a nível nacional como internacional, não só pela abordagem original do tema, como também por ter rompido com as convenções televisivas existentes: a personagem principal aparece morta logo no inicio (Laura Palmer); a própria duração da série: oito episódios incluindo um episódio-piloto) na primeira temporada, cujo sucesso levou à criação duma segunda série (esta já dentro dos parâmetros habituais de televisão com cerca de 20 episódios);  ao contrário do que estava convencionado, o mistério não fica resolvido no final da série, pelo contrário, adensa-se ainda mais relegando a resolução do crime para o meio da segunda série (que, graças ao génio criativo de Lynch e Frost, se torna mais negra e melhor enquanto avança em direcção ao final abrupto a que foi sujeita deixando alguns mistérios por resolver).
    Chamando alguns dos seus actores  habituais (o já referido Kyle Maclachlan, mas também Jack Nance e Everett McGill), Lynch juntou-lhes Michael Ontkean, Dana Ashbrook, James Marshall, entre outros e também se lhes juntou além de Sheryl Lee, alguns dos mais belos rostos femininos que vimos em televisão: Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Mädchen Amick, Peggy Lipton, Joan Chen, entre outras.Todos fazem parte da galeria de personagens que povoam os filmes de Lynch: únicas e bizarras que formam uma teia minuciosa de personalidades contrária à aparência da cidade, acrescentando, a uma já atmosfera surrealista, de que o melhor exemplo são os sonhos recorrentes do agente do FBI, Dale Cooper, nos quais lhe são dadas pistas de um modo sobrenatural que podem levar, ou não, à resolução do crime e que podem também ser fruto da sua própria imaginação, um toque sobrenatural comum a toda a obra anterior e posterior do realizador. 
   Tal como   toda a obra de Lynch, torna-se dificil defini-la num género só: estilisticamente, a série assemelha-se ás  premissas do tom sobrenatural dos filmes de terror, tão ao gosto do realizador,  nomeadamente o seu magnifico "Blue Velvet - Veludo Azul" (1986), do qual esta série foi, de certa maneira, uma continuação dos caminhos abertos por essa obra já que a acção também se passa numa pequena cidade americana e Lynch explora, em ambas as obras, o fosso existente entre as aparências da respeitabilidade duma pequena cidade e as vidas secretas que nela proliferam, mas também oferece algum tom cómico parodiando as "soaps" (telenovelas) americanas através da exibição de personagens  extravagantes, de moral dúbia.
   Em "Twin Peaks" existem personagens que têm vidas duplas que vão sendo descobertas à medida que a série avança, na mesma medida em que expõe o lado negro de vidas inocentes. 
   graças ao seu estilo ambicioso, paranormal e a capacidade implícita de envolvimento numa história de crime e mistério, "Twin Peaks" obteve um êxito sem precedentes, principalmente durante a primeira série onde atingiu o seu ponto mais alto passando a fazer parte da cultura popular. Os prémios não tardaram: 14 nomeações para os Emmy's (Oscares de televisão), onde venceu em apenas duas categorias técnicas; enquanto nos Globos de Ouro venceu nas categorias de Melhor Série Dramática, Melhor Actor Drama em Série de Televisão (Kyle Maclachlan) e também a veterana Piper Laurie ganhou na categoria de Melhor Actriz Secundária em Série de Televisão.
   O episódio-piloto foi editado em VHS na europa em finais de 1990. Continha mais cerca de 20 minutos, em relação ao que fora exibido nos Estados Unidos, de cenas montadas, retiradas dos outros episódios e um final diferente (a cena do quarto vermelho onde Cooper encontra Laura Palmer e o Homem que Veio de Outro Lugar, que encerra o segundo episódio, foi originalmente filmada para este especial), de modo a torná-lo numa espécie de telefilme para exibição fora do circuito americano.
 A recepção foi entusiasmante, até porque o realizador tinha ganho a Palma de Ouro em Cannes  meses antes, com "Wild at Heart - Coração Selvagem".   Um ano depois, Lynch anunciava a sua intenção de regressar ao universo de Twin Peaks.
                                                                                                                   (continua)  


Nota: as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet   







    

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Saga Asiática de James Clavell

James Clavell,  Escritor (1924-1994)
    James Clavell (1924-1994), escritor Britânico, nascido na Austrália devido ao facto do seu  pai, comandante na Marinha Britânica e vice-comandante na marinha britanico-australiana, ter vivido praticamente toda a sua vida no continente australiano.
   Quando rebentou a II Guerra Mundial, James Clavell, que seguira a vida militar para manter a tradição familiar, foi enviado para a Malásia para combater os japoneses, acabou por ser feito prisioneiro e enviado para um campo de concentração onde ficaria até ao final da guerra. Em 1946, um acidente de mota pôs fim à sua carreira militar. Inscreveu-se na Universidade de Birmingham para fazer uma licenciatura e onde permaneceria até 1953 quando decidiu ir tentar a sua sorte nos Estados Unidos.
   Além de escritor, Clavell foi também argumentista de cinema, em filmes de sucesso como "The Great Escape - A Grande Evasão" (John Sturges, 1963), "633 Squadron - Esquadrão 633" (Walter Grauman, 1964) ou "Satan Bug - O Veneno do Diabo" (John Sturges, 1965), entre outros. Foi também realizador de obras como "To Sir, with Love - O Ódio que gerou o Amor" (1967) ou "The Last Valley - O Vale Perdido" (1970). Em 1963, Clavell naturalizar-se-ia americano. Entre a sua vasta obra literária, conta-se uma séries de romances que ficaram conhecidos como "The Asian Saga - A Saga Asiática" e que foram a sua coroa de glória.
A Saga Asiática de James Clavell
   "A Saga Asiática" é composta por seis romances, escritos entre 1962 e 1993, e centram-se todos no estabelecimento e relacionamento dos europeus na ásia e exploram o impacto causado no oriente e no ocidente pelo choque das duas civilizações. Inicialmente, Clavell nunca nunca teve a intenção de que os livros formassem uma saga compacta, aliás, o termo só foi aplicado após o lançamento de "Shógun", o que levou a que alguns peritos em literatura e também em história universal o vissem como o inicio duma saga que já estava em desenvolvimento e começaram a referir-se a eles com uma ordem narrativa. Toda a obra pode ler-se na seguinte ordem cronológica:
- "Shogun" (1975) a acção decorre em 1600 no Japão Feudal;
- "Tai-Pan" (1966) a acção situa-se em Hong Kong em 1841;
- "Gai-Jin" (1993) situado no Japão em 1862;
- "King Rat - Rei Rato" (1962) cuja acção se situa num campo de prisioneiros japonês, em Singapura, em 1945;
- "Noble House - Casa Nobre" (1981) passado em Hong Kong, 1963
- "Whirlwind" com a acção situada no Irão, em 1979;

    "Shogun" é o primeiro romance da saga asiática de James Clavell. Tem inicio em 1600, no Japão feudal, vários meses antes da batalha de Sekigahara, que iria definir o futuro do país, conta a história da ascensão de Toranaga, um senhor feudal, ao shogunato, o mais alto cargo militar do país (uma espécie de ditador), visto através dos olhos de um marinheiro inglês a bordo de um navio holandês que é o primeiro dum país protestante a chegar ao japão. 
     Pode ser lido independente dos outros livros da série, apesar de "Gai-Jin", terceiro livro da saga, fazer a ponte entre "Shogun" e as aventuras de da familia Struan, já que se passa no japão, cerca de 20 anos depois dos acontecimentos narrados em "Tai-Pan" e acompanha a história de Malcolm Struan, neto de Dirk Struan, futuro Tai Pan da Casa Nobre, no Japão. O livro mergulha profundamente na situação politica do japão  e nas hostilidades sentidas pelos ocidentais num pais que ainda não saíra do feudalismo.
    "Tai-Pan", cronologicamente é o segundo volume da saga, marca o inicio da história da Casa Nobre da Ásia (assim apelidada pelos chineses devido á supremacia que a Struan's adquire no romance sobre as outras casas comerciais). No inicio da história, em 1841, a Inglaterra acabou de tomar posse de Hong Kong  e pretende iniciar relações comercias com China, então ainda fechada sobre si mesma. Dirk Struan e Tyler Brock, donos das duas maiores casas comerciais  de Hong Kong. Os dois eram amigos e antigos marinheiros e agora são dois ferozes adversários e a sua luta, comercial e pessoal, está no centro da acção da história, já que  Struan é o "Tai-Pan" (Chefe Supremo) e Tyler quer destruí-lo de forma a tornar-se ele o Chefe Supremo.
     "Rei Rato", quarto livro da saga asiática de James Clavell, passa-se em 1945, em  Changi, campo de prisioneiros japonês situado em Singapura e conta a história da amizade entre um cabo americano, conhecido simplesmente como "O Rei", já que se tornou no mais conhecido traficante e negociante dentro de Changi, e Peter Marlowe, Tenente-Aviador Britãnico, feito prisioneiro em 1942. A personagem de Marlowe é baseada  no próprio James Clavell e nos três anos que passou prisioneiro dos japoneses.
     "Casa Nobre" é o quinto volume da saga asiática e também o que obteve maior sucesso, talvez devido à proximidade da transferência de soberania de Hong Kong  da Grâ-Bretanha para a República Popular da China (que viria a ocorrer em 1997), a acção decorre em 1963 onde encontramos a Casa Nobre e o seu Tai-Pan, Ian Dunross, a tentarem salvar-se da situação financeira precária deixada pelo anterior Tai-Pan enquanto mantém a luta com o seu arqui-rival Quillan Gornt. A acção do livro decorre numa semana onde tudo acontece, desde assassinatos, bancarrotas, aquisições hostis até espionagem internacional que envolve o KGB e o MI6. Todo o saber e conhecimentos que James Clavell possuia estão  incluídos neste livro que, apesar das suas mais de 1000 páginas, se lê com enorme agrado e, sem querer, somos arrastados numa literatura envolvente.
    "Whirlwind", último livro da saga asiática, passa-se no Irão no inicio de 1979, e acompanha as aventuras dum grupo de pilotos de helicóptero da "Struan's", oficiais iranianos, prospectores de petróleo e respectivas familias nos dias que se seguiram à queda da Monarquia Iraniana e do Shah Reza Pahlevi e a ascensão do Ayatollah Khomeini. Pormenorizado e longo (mais de 1000 páginas), como todos os livros de Clavell, com diversas pequenas histórias, todas relacionadas entre si e entrelaçadas na cultura iraniana, além dum numeroso elenco de personagens. Em "Whirlwind", fica-se com essa ideia, não seria o último livro da saga. Soube-se, posteriormente, que o autor pretendia continuar a saga, o que infelizmente, por morte do autor, não chegou a acontecer.
     O cinema e a televisão descobriram o filão que os livros de Clavell constituiam e trataram de os adaptar. Assim em 1965, Bryan Forbes transformou "King Rat" em "O Rei de um Inferno", com George Segal no principal papel; "Shogun" foi adaptado em 1980 pela NBC para  mini-série com Richard Chamberlain e Toshiro Mifune. As 9 horas da mini série foram depois editadas e reduzidas para uma versão de cinema de duas horas em 1981;"Tai Pan" foi adaptado para cinema por Daryl Duke em 1986, com Bryan Brown e Joan Chen; "Noble House" foi adaptado para televisão em 1988 numa mini-série com Pierce Brosnan e John Rhys-Davies e foi também a única adaptação cujo tempo de acção foi mudando, passando a decorrer na década de 80.

 
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Robert Ludlum

Robert Ludlum (1927- 2001)
    Escritor Americano, nascido a 25 de Maio de 1927, em Nova York, mas, porque o seu pai era um homem de negócios, Os Ludlum nunca tinham um poiso certo. Robert  teve lições privadas em casa e fez o parte da sua aprendizagem enquanto crescia em New Jersey, na Rectory School e mais tarde completou a sua educação na Academia de Chesire, no Connecticut. Aos 16 anos teve a sua primeira experiência de palco  e começou a aparecer regularmente em produções teatrais da escola. Mas a sua grande ambição era ser ponta-de-lança no futebol americano.
     Durante a II Guerra Mundial, Ludlum tentou entrar na Força Aérea Canadiana, mas não conseguiu e acabou por ingressar nos Marines onde serviu entre 1945-47. Colocado no Pacifico Sul, escreveu um manuscrito de cerca de 200 páginas com as sua impressões. Desmobilizado, ingressou na Universidade de Wesleyan (que anos mais tarde iria servir de modelo ao seu livro "The Matlock Paper - O Papel Prateado") , no Connecticut, onde se formou em 1951. Durante a década de 50, Ludlum foi actor de teatro e televisão, em 1957 tornou-se produtor de teatro e durante a década de 60 produziu mais de 300 espectáculos em Nova York. Mas queria mudar e fazer algo de mais importante na vida.
     Em 1971 Robert Ludlum publica o seu primeiro livro "The Scarlatti Inheritance - A Herança Scarlatti", uma história que gira à volta de nazis e financeiras internacionais. A ideia nasceu a partir de um artigo de jornal em que se via uma fotografia dum alemão a empurrar um carrinho de mão cheio de notas. Apesar de inicialmente ter sido rejeitado por diversas vezes, acabou por ser um best-seller e facilitou a continuação da sua carreira como escritor. No livro seguinte de Ludlum, "The Osterman Weekend - Operação Omega",  publicado em 1973, um apresentador e produtor executivo de noticiários de televisão, John Tanner, é recrutado pela CIA para desmascarar uma rede de agentes soviéticos infiltrados nos Estados Unidos e que são os seus amigos mais próximos. É a partir deste livro e de John Tanner, que se forma o protótipo de protagonista de Robert Ludlum nos seus livros, é mais sortudo e engenhoso do que os seus inimigos podem imaginar e que tem dificuldade em confiar nas pessoas que o rodeiam. Desde meados da década de 70, que Ludlum se tornou escritor a tempo inteiro e viajou imenso pelo mundo inteiro para recolher dados para os seus livros. Paris tornou-se a sua cidade favorita.
     Em muitos dos seus livros, as intrigas multinacionais, quase sempre de direita, nascem de razões económicas. Além de muitos paralelos que estabelece entre os nazis e fanáticos modernos sedentos de poder. Em "The Aquitaine Progression - A Conspiração dos Generais" (1984), a dado momento uma das personagens tem esta linha de raciocinio "Quando o caos se tornar intolerável, é chegada a hora de fazer avançar as forças militares, assumir o controle e inicialmente estabelecer a Lei Marcial". Ou em "The Matarese Circle - O Círculo Matarese" (1979), A CIA e o KGB juntam-se, tal como os Estados Unidos e a União Soviética na II guerra mundial, para lutar contra um círculo de terroristas que conspiram contra as superpotências. A dinastia Matarese regressaria à obra do autor em "The Matarese Countdown", publicado em 1997, no qual alguns membros estão infiltrados na CIA e tentam estabelecer uma nova ordem económica. Alias esta não seria a primeira vez em que o autor revisita a sua obra.
    Em 1980 Robert Ludlum inicia uma série de livros em que um super assassino contratado se confronta, com um seu igual de nome Carlos (supostamente baseado em "Carlos, O Chacal", assassino capturado em 1994) em diversas partes do mundo. Até aqui nada de novo, parece que já lemos isto milhares de vezes, mas Ludlum introduz algo inovador, que torna esta série diferente de tantas outras: O super assassino perdeu a memória e ficou amnésico! assim em "The Bourne Identity - A Identidade de Bourne", o protagonista é encontrado semi-morto e sem qualquer memória de quem é. Vem a descobrir que a CIA lhe criou uma identidade de nome Jason Bourne, cuja missão principal é encontrar e eliminar "Carlos", um assassino profissional, ao mesmo tempo que tenta descobrir qual a sua verdadeira identidade, mas que é traído pelos seus superiores. No segundo livro "The Bourne Supremacy - A Supremacia de Bourne" publicado em 1986, surge em cena um sósia de Bourne que assassina pessoas em Hong Kong com requintes sádicos. Finalmente, em 1990, no terceiro livro da série "The Bourne Ultimatum - O Ultimato de Bourne", o confronto final entre Bourne e Carlos tem lugar na Rússia e só um sairá vencedor. Após a morte de Ludlum, em 2001, os seus herdeiros autorizaram Eric Van Lustbader a dar continuidade às aventuras deste quase alter-ego de Ludlum, cujo primeiro livro (ou quarto como se quiser ler) intitulado "The Bourne Legacy" foi publicado em 2004.
   Autor de inúmeros romances de sucesso quer em nome próprio, como "The Gemini Contenders - Os Gémeos Rivais"(1976 onde a procura de um documento perdido há séculos, caso seja encontrado, pode alterar a história e lançar a civilização num caos; "The Chancellor Manuscript - O Manuscrito Chancellor" (1977) onde se especula se J.Edgar Hoover, criador do FBI morreu de morte natural ou terá sido assassinado por uma organização infiltrada bem dentro do governo dos Estados Unidos; "The Holcroft Covenant - O Convénio de Holcroft"(1978) onde o Quarto Reich aguarda o momento da nascer e apenas um homem pode impedir que isso aconteça,  ou utilizando vários pseudónimos, como "Trevayne - Nos Bastidores do Poder" (1973); "The Cry of the Hallidon" ( 1974), ambos sob o nome de Jonathan Ryder; "The Road to Gandolfo - A Estrada para Gandolfo" (1975), sob o nome de Michael Shepherd. Posteriormente, na década de 80 e 90, alguns destes títulos seriam reeditados em nome próprio. 

    Ludlum, é também autor de dois livros que se tornaram obras-primas da literatura de acção e espionagem: o primeiro é "The Parsifal Mosaic - O Mosaico Parsifal" lançado em 1982. Michael Havelock, funcionário do Departamento de defesa norte-americano, assiste, impotente, à morte de Jenna Karas, que se provou ser  espia do KGB. Dois anos depois, Michael vê-a na estação ferroviária de Roma e dá inicio a uma corrida contra tudo e contra todos para a encontrar. Neste livro ficam patentes o ambiente da guerra fria e possibilidade de guerra nuclear, que caracteriza alguma da obra do autor e a sua aversão ao fanatismo. É um daqueles livros que não se consegue parar de ler.

     A outra obra-prima chama-se "The Icarus Agenda - Agenda Ícaro"  ,publicado em 1988 e é quase um retrato fiel do que se passa nos dias de hoje. Em Masqat, capital do Sultanato de Omã, a embaixada americana é tomada de assalto por terroristas e são feitos reféns. Graças aos conhecimentos que mantém no país, Evan Kendrick, congressista americano consegue a libertação dos reféns , não sem a perda de vidas. Um ano depois Kendrick está prestes a ser nomeado candidato á vice-presidência, quando o seu passado vem a lume e a partir daquele momento. ele é um alvo a bater, não só pelos árabes, como também por assassinos domésticos. O livro trata novamente da temática de fanatismo. Mantém um ritmo imparável, talvez seja o livro de Ludlum com mais acção por capítulo. Apesar das suas mais de 600 páginas, lê-se com muito agrado. É considerado como uma sequela de "O Manuscrito Chancellor", já que são apresentadas personagens neste livro que voltaram a aparecer em "A Agenda Ícaro".
   O seu último foi romance foi "The Prometheus Deception" lançado em 2000 e é considerado o  livro mais profético de toda a sua obra. Na história acontecem uma serie de atentados terroristas envolvidos numa conspiração internacional para restringir os Direitos Civis da população e aumentar a vigilância electrónica por razões de segurança. A ideia é boa: proteger as cooperações e impedir guerras e crimes de acontecerem.  Ludlum deixa um aviso claro: não se deve aceitar como dados adquiridos tudo o que é geralmente aceite como verdade clara, assim como não se deve tomar por verdadeira a palavra dum líder mundial ou até mesmo do Secretário-Geral das Nações Unidas!. Uma vez mais temos o agente, rodeado de inimigos, a lutar contra tudo e todos, incluindo organizações governamentais, a CIA, o FBI, o KGB, e muitos outros.
   Claro que o cinema e a televisão estiveram atentos ao sucesso deste escritor e, com maior ou menor qualidade, transpuseram alguns dos seus livros para o écran:  "The Rhinemann Exchange" (Burt Kennedy, 1977) foi adaptado para televisão, assim como "The Bourne Identity - Memória à flor da Pele" (Roger Young, 1988). Já o cinema soube tirar melhor partido de alguns títulos do escritor: "The Osterman Weekend - O Fim-de-semana de Osterman" (Sam Peckinpah, 1983); "The Holcroft Covenant - O Documento Secreto" (John Frankenheimer, 1985). Mas seria  já depois da morte do autor que viria a melhor adaptação dos livros de Ludlum: "The Bourne Identity - Identidade Desconhecida" (Doug Liman, 2002) com Matt Damon,. A adaptação actualiza a história para o século XXI e põe ao seu serviço toda uma parafernália de efeitos especiais e uma realização dinâmica fazem do actor uma estrela e do filme um sucesso, que levou a que as duas continuações também fossem adaptadas ao cinema. "Bourne Supremacy - Supremacia" e   "Bourne Ultimatum - Ultimato" foram adaptados em 2004 e 2007 por Paul Greengrass, tendo o último obtido um sucesso à escala planetária e ganho três Oscares da Academia.
   Autor de uma obra que redefiniu o género de acção, mestre incontestado da espionagem, tem vindo a ser descoberto por um público novo. Robert Ludlum tinha o dom especial de captar a imaginação dos seus leitores desde as primeiras páginas  e mantê-los absortos na história até ao final, capacidade que, como é sabido, somente alguns é que a têm.


Nota: Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet
   
   

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Barry Lyndon - Os Quadros de Stanley Kubrick

   
                                                                                                         


      Kubrick sempre quis fazer um filme histórico. Uma biografia de napoleão foi um projecto que ele acarinhou durante muitos anos mas que nunca lhe foi possível realizar porque nunca obteve financiamentos para isso. Herdou "Spartacus" (1960) de Anthony Man, depois deste ter sido despedido pelo produtor do filme. Mas a sua associação a "Personas non gratas" em Hollywood como Kirk Douglas, ou Howard Fast, autor do livro em que se baseia o filme, restringiram-lhe a sua liberdade criativa e levaram-no a ter problemas na distribuição da obra em terras americanas. Em 1975 "Barry Lyndon" acabou por ser a sua única obra histórica.
    Redmond Barry é um jovem Irlandês sem eira nem beira, vive com a mãe viúva e apaixona-se por uma prima que, no entanto, está prometida a um capitão do exército Inglês. Não suportando ser trocado por um oficial britânico, Redmond desafia-o para um duelo e mata-o sendo obrigado a fugir do país começando assim a sua odisseia por uma europa turbulenta em busca da sua própria identidade.
     Baseado num romance de William Makepeace Thackeray,"The Memoirs of Barry Lyndon, Esquire", escrito em 1844, onde se conta a história, as tribulações, provações e a má sorte de um irlandês, contada a partir do seu ponto de vista. "Barry Lyndon", divide-se em duas partes e um epílogo, como se de um livro se tratasse,  passa-se no século XVIII, um período conturbado na história da europa assolada por guerras, palco onde Redmond se vai tentar afirmar. De soldado britânico a jogador de cartas profissional e por fim Lord, mercê de sua inteligência e de um ou outro golpe, umas vezes de sorte outras de azar, a ascensão de Barry é quase meteórica, ao contrário do filme que avança lentamente, sem nunca ser monótono, graças ao perfeccionismo visual e  técnico a que a obra foi sujeita.
 Produção sumptuosa e uma reconstituição histórica rigorosa, aliados a uma fotografia nada menos que fabulosa fazem de "Barry Lyndon" uma obra que não envelhece com o tempo...Kubrick tinha esse dom: fazer filmes que nunca passam de moda!
    A sua realização é, como sempre, genial e inventiva (as marcas fortes de Stanley Kubrick), sem mácula. Utilizando, como já o fizera em "Laranja Mecânica"(1971), uma narrativa em voz off, Kubrick consegue, em tons irónicos por vezes, dramáticos noutras, ilustrar o filme com imagens e cenas que deliciam qualquer cinéfilo que se preze de o ser. Cada imagem é como se fosse uma tela onde o artista (neste caso Stanley Kubrick) pinta (filma) criando cenas de uma beleza tal que faziam inveja a qualquer pintor ou fotógrafo.
Em "Barry Lyndon" Kubrick tira partido de toda a luz natural não usando para o efeito nenhum holofote para iluminar os cenários, nem mesmo nas cenas nocturnas ou de interiores onde usou a luz de velas para filmar o que dá um efeito real, mas ao mesmo tempo sobrenatural e grotesco, das personagens em cena, mercê duma lente especial feita pela NASA e adaptada pelo realizador para utilizar nas câmaras de filmar. Mais um ponto a favor do realizador que ao utilizar esta técnica inovadora, elevou a história da fotografia a outros patamares.
    Para interpretar Redmond Barry, Kubrick chamou Ryan O'Neal, conhecido pelo seu papel em "Love Story" (Arthur Hiller, 1970), um dos filmes-referência da década de 70 do século passado. História de amor entre um rapaz de classe social alta e uma rapariga de baixa condição social e os problemas que se lhes deparam. Ryan O'Neall junta à sua carreira um papel que lhe deu alguma projecção mas que nunca passou disso.
Para o papel de Lady Lyndon, o realizador foi buscar uma ex-top model da revista "Vogue" para a qual Kubrick trabalhara no inicio da sua carreira como fotógrafo e onde conhecera a modelo. Usando a sua beleza algo melancólica, Kubrick consegue alguns dos mais belos planos jamais fotografados: A cena em que Lady Lyndon, completamente abstraída da realidade toma banho semi-nua, ladeada pelas suas duas criadas é duma beleza plástica dificil de igualar.
Utilizando uma banda sonora maioritáriamente de compositores como Haendel, Schubert,Vivaldi, Bach ou Mozart, Kubrick consegue a melhor banda sonora para o seu filme e conferir-lhe o realismo necessário para o tornar credível ao olhar mais incrédulo que possa surgir.
    O trabalho de Kubrick neste filme é, como habitualmente, irrepreensível. Já não há adjectivos que o possam qualificar, apenas podemos repetir o que já foi dito por tanta gente que comentou e comenta a sua obra: um génio absoluto e que muita falta faz ao cinema de hoje.
     De "Barry Lyndon" retemos algumas cenas que são absolutamente inesquecíveis: O prólogo onde a voz off introduz a obra, onde vemos um duelo de pistola e a realização nos enquadra na cena; As cenas de batalha em que Redmond se destingue e onde são apresentadas ambas as perpspectivas
do campo de batalha; A cena do funeral de Byran onde o trabalho de realização e a banda sonora se fundem num momento sublime de cinema: um grande plano dum caixão vai abrindo gradualmente e o tema "Sarabande " de Haendel faz as honras daquela que será talvez a imagem mais marcante de todo o filme: o cortejo fúnebre; O confronto entre Lord Bullington e Barry Lyndon em que o brilhantismo de realização o torna no duelo  mais longo da história do cinema. São cenas assim que tornam este filme num momento único.
    Pode-se também dizer que este filme não surgiu por acaso na filmografia do realizador. Ao aparecer a seguir a "Laranja Mecânica", Kubrick, que nesse filme delapida um futuro pouco radioso à sociedade, quis com "Barry Lyndon", além de fazer o seu filme histórico, dizer que a estupidez humana pode levar àquela situação; por outras palavras, quis dizer que, se a humanidade não aprender com o seu passado (aqui o séc.XVIII, que foi, em termos de guerras, tão mau, como o foi o séc.XX), poderemos muito bem estar perto do tempo da acção de "Laranja Mecãnica". Kubrick era isto mesmo: um visionário capaz de olhar para o passado e criticá-lo assim em "Barry Lyndon", mas também olhar para o futuro e torná-lo tão credível como o presente. Tal capacidade é previlégio só de alguns!
    Nomeado para sete Óscares da Academia, "Barry Lyndon" venceu quatro, todos de categoria técnica incluindo o de Melhor Fotografia que seria um verdadeiro atentado se tal prémio não viesse parar a este filme.
    Filme tantas vezes referenciado na obra do realizador, mas algo ignorado no seio da sua filmografia. Será que se pensou que este filme, tal como "Eyes Wide Shut" (Stanley Kubrick, 1999), nunca seria feito tal era o desagrado do realizador nesta época? nunca o saberemos. O que sabemos é que "Barry Lyndon" é, e será sempre, um filme de Stanley Kubrick, incontestávelmente um dos melhores realizadores de todos os tempos, cuja obra continuará a ser um manancial da sétima arte.
A não perder.

Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet

sábado, 10 de dezembro de 2011

Viagem no Tempo/História Alternativa - Um Exemplo Cinematográfico

     Há algum tempo atrás, publiquei dois textos, um que falava de viagens no tempo e outro em que falava das Histórias Alternativas, o "E se...?" no imaginário popular. Por serem assuntos sugestivos e apelativos para quem gosta destas coisas, resolvi abordá-los novamente mas do ponto de vista cinematográfico através dum filme que os toca ligeiramente.
    Durante uma patrulha de rotina no Pacífico, o "USS Nimitz", o porta-aviões mais poderoso do mundo, é apanhado numa tempestade magnética que, sem que os seus ocupantes se apercebam disso, os faz recuar no tempo, até ao dia 6 de Dezembro de 1941, nas vésperas do ataque a Pearl Harbor! . Sem saber o que lhes aconteceu, sem conseguirem comunicar com ninguém, assumem que o mundo está em guerra e entram em estado de alerta. Quando finalmente descobrem onde estão realmente,  Matt Yelland (Kirk Douglas numa prestação razoável), comandante do porta-aviões, vê-se perante uma realidade inevitável e onde tem que tomar a decisão mais importante da sua vida: deixa que a história siga o seu curso normal ou impede o ataque Japonês que irá lançar os Estados Unidos na II Guerra Mundial e altera a história mundial? É há volta desta premissa original que "The Final Countdown - A Contagem Final" vai girar.
     A realização de Don Taylor é segura e equilibrada, gerindo bem o material que dispunha, resistindo à tentação de banalizar o assunto (apesar da chama que se acende entre o Comandante Owens e Laurel), antes pelo contrário, o filme ganha embalagem, não através das suas cenas de acção, que até são escassas (mas fica-nos a sensação que o realizador era um apaixonado por aviões de combate, tal é o gosto com que filma os F-14, em vôo, a descolarem e aterrarem no Nimitz), mas sim doseando bem os diversos estados por que passa a tripulação do porta-aviões antes de perceberem onde se encontram até quase ao final quando novamente surge a tempestade magnética.
   Não é tanto pelos aspectos técnicos do filme que até contou com a colaboração do Departamento de Defesa Norte-Americano que facilitou a rodagem do mesmo a bordo do verdadeiro "Uss Nimitz", nem é pelas sequências aéreas, que foram um "must" na altura, (ainda se estava longe de "Top Gun"), nem pelas cenas de acção; o que torna  "A Contagem Final" num bom filme e não o deixa cair na banalidade são as conversas que decorrem ao longo da acção entre os protagonistas: primeiro, o receio de que aquela seja uma situação extrema de guerra nuclear para a qual estão preparados; depois vem a constatação da situação em que se encontram. Aqui percebe-se que nem todos os presentes querem ir combater, as suas opiniões e pontos de vista bem expressos, mas a decisão tem que ser tomada e cabe ao comandante decidir (talvez o melhor momento do filme seja aquele em que o comandante diz que o "Nimitz" é um navio da marinha dos Estados Unidos e como tal é sua missão defender o país seja em que tempo for e acatar assim as responsabilidades que daí advenham, mesmo que implique alterar a história dos anos vindouros).
   "A Contagem Final" é  um  drama de ficção científica/fantasia que utiliza o conceito de viagem no tempo e o leva um pouco mais à frente que as produções habituais já que foi dos primeiros a analisar as consequências e decisões que dele emanassem, resultando num interessante filme de acção,  que se vê e revê com satisfação.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet





domingo, 4 de dezembro de 2011

Expresso da Meia-Noite - Um Filme Maldito!

                                                 
                                                 



    Há filmes que, pelo simples facto de existirem, adquirem uma importância única na história da sétima arte. Em 1978, “Expresso da Meia-Noite” foi um desses filmes.

   Billy Hayes é um jovem turista americano que se encontra de férias na Turquia com a sua namorada. No dia da partida, Billy compra dois quilos de droga para levar para os Estados Unidos para os amigos. Apanhado por uma rusga policial junto ao avião e depois de ser torturado e interrogado pelas autoridades, começa, para Billy, uma verdadeira descida aos infernos , quando as autoridades Turcas resolvem fazer dele um exemplo condenando-o a 30 anos de prisão.
Alan Parker, um realizador maldito

    Realizado por Alan Parker, autor de uma filmografia de temática variada onde se incluem, entre outros, “Bugsy Malone” (1976), sátira aos filmes de gangsters e interpretado por um elenco de jovens prácticamente desconhecidos, entre os quais se incluía uma jovem chamada Jodie Foster; “Fama” (1980), sobre uma escola de artes e os sonhos dos alunos que lá estudam. Novamente com um elenco desconhecido mas o sucesso obtido pelo filme, que daria origem a uma série de televisão, se encarregaria de lançar para a fama; “Pink Floyd, The Wall” (1982), adaptação, quase psicadélica, para o grande écran do fabuloso “concept album” dos Pink Floyd com Bob Geldof no principal papel; "Angel Heart- Nas Portas do Inferno" (1987), história detectivesca com contornos de terror;  “Mississipi em Chamas” (1988), outro filme-denúncia de uma história verídica que gira á volta do desaparecimento de três trabalhadores dos Direitos Civis na América dos anos 60; ou "Evita" (1996) baseado na famosa  peça musical da  Broadway de Tim Rice. 
   Parker filma o interior das prisões turcas com um realismo verdadeiramente impressionante (graças ás descrições que Hayes, que também foi consultor técnico do filme, pôs na obra que escreveu), a  violência, nua e crua, é atroz: desde as torturas a que são sujeitos os prisioneiros, passando pela droga que circula lá dentro como meio dos prisioneiros se alhearem da realidade, pela homosexualidade latente, sem esquecer os “bufos” que tudo fazem para agradar ao chefe, culminando naquilo com que todos sonham: apanhar o “Expresso da Meia-Noite”, que é como quem diz, a fuga; mas o dito Expresso, como diz,a dado momento, Max (fabuloso John Hurt) a Billy, não passa por aquela prisão. 

    Feito de grandes cenas como por exemplo quando Billy, depois de Max ser levado para outra ala da prisão, se atira a Rifki, o bufo, enche-o de pancada e depois arranca-lhe a língua à dentada para, literalmente, o silenciar; ou a cena passada na ala dos lunáticos onde Billy, para não enlouquecer, começa a andar em sentido contrário dos outros, não obstante, alguns o tentarem impedir de contrariar a máquina. “Expresso da Meia-Noite” tem magnificas interpretações de Brad Davis, Randy Quaid, John Hurt , Paul Smith, entre outros que contribuem para a elevada qualidade do filme.

    Baseado numa história verídica, o argumento, escrito por Oliver Stone, antes de se tornar realizador, apesar de alterar algumas partes e acrescentar outras, retrata fielmente as situações por que Hayes passou; desde ter que ir ao para local onde fez a compra da droga para tentar identificar os traficantes , passando pela tentativa de fuga que tenta encetar nessa mesma altura, até ao inferno que passa na prisão turca antes de conseguir fugir para a liberdade. É precisamente a situação que se passava nas prisões turcas que, após a denúncia feita por este filme, foi objecto de investigação por uma comissão de Direitos Humanos enviada pelas Nações Unidas. Após meses de negociações, de muitos recuos e outros tantos avanços, a Turquia cede e entra num processo de troca e libertação de prisioneiros.

   Nomeado para seis Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador, ganhou dois: um pelo argumento e outro pela Banda Sonora de Giorgio Moroder. “Expresso da Meia-Noite” deu a Alan Parker a alcunha de “Realizador Maldito” pela denúncia que o filme faz e tornou-se um dos primeiros filmes a gerar uma enorme controvérsia que, ainda continua presente.

Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet 


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Passagem para a Índia - O regresso do grande Espectáculo!


      

                 


    Para fazer frente à constante concorrência da televisão, o cinema criou um subgénero de filmes a que chamou superproduções e que tiveram o seu ponto alto no final da década de 50 e durante a década de 60 do século passado. Algumas superproduções surgiram já fora de tempo, nos anos 80. Foi o caso deste "Passagem para a Índia".
   Adele Quested (Judy Davis) viaja para a Índia na companhia da sua futura sogra, Mrs.Moore (Peggy Aschcroft) para ir ao encontro do noivo Ronny Heaslop (Nigel Havers), adido da embaixada inglesa. Quando lá chegam as duas senhoras vão confrontar-se com diferenças culturais que irão influenciar o seu comportamento, essas diferenças irão ser determinantes nos acontecimentos decorrentes dum passeio organizado às grutas Marabat.


   O filme é baseado no romance homónimo de E.M.Forster, escrito em 1924 e baseado nas suas experiência na Índia, e também na peça teatral de Santha Rama Rau, escrita em 1960 e inspirada pelo romance, ainda a Índia era uma colónia Britânica, e espelha bem as diferenças culturais existentes entre a "Índia real" que Mrs.Moore e Adele querem conhecer e o ambiente Anglicano de Cricket, Pólo, o chá ao final da tarde, que os Britânicos criam para si próprios, num equilíbrio perfeito graças ao argumento escrito num estilo muito claro.
O regresso triunfal de um mestre
   A realização e a adaptação do livro pertenceram a David Lean, veterano realizador e antigo editor, que aqui também se encarregou da montagem, aos 76 anos de idade e depois 14 anos sem realizar, voltou à ribalta com esta superprodução (obra a que a "Times" dedicou nada menos do que dez páginas!)  que, se exceptuarmos, "Gandhi" ( Richard Attenborough, 1982), é o filme que melhor mostra a Índia misteriosa e desconhecida. Lean foi o realizador de obras-primas do cinema como "A Ponte do Rio Kwai", "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago" ou o bonito e muito ignorado "A Filha de Ryan".
Um elenco quase perfeito
    Muito perfeccionista, qualidade que está presente em toda a sua obra e muito particularmente neste filme, Lean torna-o menos misterioso e enigmático que o romance e transformando-o numa obra provocante, cheia de personagens vivas interpretadas, quase na perfeição, por um elenco onde se destacam os nomes de Alec Guiness, Peggy Aschcroft e Victor Bannerjee, adequando-os aos cenários mostrando uma ìndia misteriosa e exótica (ver as cenas do templo em ruínas que Adele visita, ou as grutas Marabar), junta-se uma fotografia excepcional (como na cena da monção, ou aquela em que Mrs.Moore e Dr.Aziz conversam na Mesquita sob o luar que ilumina o rio Ganges), misturamos a banda sonora envolvente de Maurice Jarre (apesar de   não ser uma das sua bandas sonoras memoráveis, ainda assim é um trabalho de fôlego do compositor) e monta-se tudo com a enorme dedicação de quem sabe o que faz. 
   O resultado é uma das melhores adaptações cinematográficas de literatura para o cinema. Lean filma planos belíssimos, sem se importar com a sua duração desde que fiquem como ele quer (como a cena em que um comboio atravessa uma planície numa noite de luar ou toda a sequência da visita às grutas Marabar onde a fotografia brilhante da luz do dia contrasta  com a luz misteriosa das grutas) e consegue que o filme não seja monótono, mas sim uma obra em constante evolução. 
   Nomeado para 11 Óscares da Academia, incluindo nomeações para Melhor Filme e Melhor realizador,"Passagem para a Índia" venceria apenas nas categorias de Melhor Actriz Secundária (Peggy Aschcroft) e Banda Sonora.
   Derradeira obra-prima de um realizador (viria a falecer em 1991), que sempre viveu para o cinema, o soube dignificar com uma série de obras cinematográficas, hoje clássicos, incontestáveis representantes de um certo cinema que fez a sua história na sétima arte.
O regresso triunfante de um mestre a não perder!
  
Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Amadeus - Genialidade Absoluta!

                                        
                                                     

      Poucos são os filmes que contam uma história fictícia sobre uma personagem real e conseguem chegar ao público, à critíca e obter um enorme sucesso. "Amadeus" foi um desses filmes.
Viena de Aústria, 1823, Antoni Salieri ex-compositor da corte do rei Joseph II, é internado num hospital para doentes mentais após uma tentativa de suicídio. No dia seguinte um padre vem visitá-lo e ouvir a sua confissão no que respeita ao facto de Salieri dizer que matou Mozart um dos maiores compositores de sempre. Terá sido mesmo assim?

Milos Forman 
     Vagamente inspirada em "Mozart e Salieri" de Aleksandr Pushkin, transformada em Ópera por Nikolai Rimsky-Korsakov, que Peter Shaffer viu e onde se inspirou para fazer a peça de teatro que serviria de base ao filme. Utilizando uma significativa parte de música de Mozart e também de Antonio Salieri, além de outros compositores da época, "Amadeus" resulta numa experiência cinematográfica única.
   
Realizado por Milos Forman que já nos dera uma obra-prima de estudo do comportamento humano chamada "Voando sobre um Ninho de Cucos" (1975), uma "trip" de drogas e protestos contra o envolvimento americano no Vietname com "Hair"(1979), ou o mal apreciado "period piece" chamado "Ragtime" (1981). Se "Voando sobre um ninho de Cucos" foi rápidamente considerado uma obra-prima, por ser um dos únicos três filmes em toda a história do cinema a vencer os cinco óscares principais (filme, realizador, actor, actriz e argumento), "Amadeus" não tardaria a seguir-lhe as pisadas no que respeita à classificação de obra-prima, porque o filme é isso mesmo. O trabalho de Forman é simplesmente brilhante. Não hà, no filme, uma cena, um fotograma, uma interpretação que esteja fora do contexto. 
      As cenas das Óperas estão brilhantemente encenadas, com destaque para "Don Giovanni", onde toda a genialidade da realização de Forman, aliada à música de Mozart, vem ao de cima, estão feitas de modo a que o espectador se sinta transportado para a época e quando assim é, pouco ou nada mais há a dizer. Devemos apenas sentar e deixarmo-nos envolver nesta experiência.
    Sendo baseado numa peça de teatro, o filme teria que ter pelo menos um actor com experiência de palco. Tom Hulce, actor que chamara a atenção de Peter Shaffer ao interpretar um dos papéis da sua peça "Equus" (1977), foi escolhido pelo próprio para interpretar o papel de Mozart e fá-lo com grande convicção. Ao ler-se uma biografia de Mozart, não conseguimos dissociar Hulce daquela personagem irrequieta, um pouco louca, mas genial. O próprio actor também o não conseguiu porque toda a sua carreira no cinema acabou reduzida àquela personagem. 

O invejoso Antonio Salieri
    Já Antonio Salieri de F.Murray Abraham é outra conversa. O actor é a personagem e a interpretação, aliás muito justamente premiada com o Oscar de Melhor Actor, percorre todo o filme. A sua transformação progressiva desde a curiosidade que move o então Compositor da Corte em querer conhecer o jovem talentoso Mozart, até ao velho amargurado, louco, que, no final do filme, abençoa todos os alienados do hospital, passando pelo ser humano que, corroído pela inveja, declara Deus como seu inimigo por ter dado tanto talento aquela "criatura"(como ele próprio chama Mozart), quando ele (Salieri) apenas desejava servir Deus através da sua música, e que o leva a planear o assassinato do compositor, é verdadeiramente assombrosa, inesquecível mesmo. Ofusca em alguns momentos o próprio Wolfgang Amadeus Mozart, perpetuamente assolado por gargalhadas, e o seu actor. O melhor papel de F.Murray Abraham na sua considerávelmente longa carreira onde nos lembramos também do Inquisidor-Chefe Bernardo Gui de "O Nome da Rosa" (Jean-Jacques Annaud, 1986).

     Filme cheio de cenários opulentos e pormenores históricos que atestam o grande cuidado posto na direcção artística,  grandes interpretações e de cenas inesquecíveis como aquela em que Mozart aparece a primeira vez ante o olhar reprovador de Salieri; Ou aquela em que Mozart toca a sua versão da marcha de boas-vindas composta por Salieri, reduzindo-a  uma insignificante peça musical repetitiva; A magnifica cena em que Salieri, cheio de inveja, atira um crucifixo para a lareira declarando a Deus "A partir de agora Tu e eu somos inimigos!"; a já citada cena final em que salieri abençoa todos os alienados; inesquecível é também todo o terço final do filme ao som do Requiem a culminar no enterro em vala comum do compositor, "Amadeus" entrou assim na galeria das obras-primas do cinema pela porta da frente. Pena é que o seu realizador nunca mais esteve ao nível desta obra, parecendo ter entrado numa espiral descendente, excepção feita a "Valmont" (1989), outra "period piece".
    Nomeado para onze Óscares, "Amadeus" ganhou oito incluindo o de Melhor Filme e Melhor Realizador e nesse ano ganhou prácticamente tudo aquilo que havia para ganhar em termos de festivais de cinema um pouco por todo o mundo.
    Não se consegue ficar indiferente perante um filme destes. É um filme intemporal e cada vez mais referenciado e, tal como a música de Mozart, permanecerá como objecto de culto.
Genial.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

                                                               Grease - Um fenómeno musical fora de tempo!          Alguém disse, um ...