quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Passagem para a Índia - O regresso do grande Espectáculo!


      

                 


    Para fazer frente à constante concorrência da televisão, o cinema criou um subgénero de filmes a que chamou superproduções e que tiveram o seu ponto alto no final da década de 50 e durante a década de 60 do século passado. Algumas superproduções surgiram já fora de tempo, nos anos 80. Foi o caso deste "Passagem para a Índia".
   Adele Quested (Judy Davis) viaja para a Índia na companhia da sua futura sogra, Mrs.Moore (Peggy Aschcroft) para ir ao encontro do noivo Ronny Heaslop (Nigel Havers), adido da embaixada inglesa. Quando lá chegam as duas senhoras vão confrontar-se com diferenças culturais que irão influenciar o seu comportamento, essas diferenças irão ser determinantes nos acontecimentos decorrentes dum passeio organizado às grutas Marabat.


   O filme é baseado no romance homónimo de E.M.Forster, escrito em 1924 e baseado nas suas experiência na Índia, e também na peça teatral de Santha Rama Rau, escrita em 1960 e inspirada pelo romance, ainda a Índia era uma colónia Britânica, e espelha bem as diferenças culturais existentes entre a "Índia real" que Mrs.Moore e Adele querem conhecer e o ambiente Anglicano de Cricket, Pólo, o chá ao final da tarde, que os Britânicos criam para si próprios, num equilíbrio perfeito graças ao argumento escrito num estilo muito claro.
O regresso triunfal de um mestre
   A realização e a adaptação do livro pertenceram a David Lean, veterano realizador e antigo editor, que aqui também se encarregou da montagem, aos 76 anos de idade e depois 14 anos sem realizar, voltou à ribalta com esta superprodução (obra a que a "Times" dedicou nada menos do que dez páginas!)  que, se exceptuarmos, "Gandhi" ( Richard Attenborough, 1982), é o filme que melhor mostra a Índia misteriosa e desconhecida. Lean foi o realizador de obras-primas do cinema como "A Ponte do Rio Kwai", "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago" ou o bonito e muito ignorado "A Filha de Ryan".
Um elenco quase perfeito
    Muito perfeccionista, qualidade que está presente em toda a sua obra e muito particularmente neste filme, Lean torna-o menos misterioso e enigmático que o romance e transformando-o numa obra provocante, cheia de personagens vivas interpretadas, quase na perfeição, por um elenco onde se destacam os nomes de Alec Guiness, Peggy Aschcroft e Victor Bannerjee, adequando-os aos cenários mostrando uma ìndia misteriosa e exótica (ver as cenas do templo em ruínas que Adele visita, ou as grutas Marabar), junta-se uma fotografia excepcional (como na cena da monção, ou aquela em que Mrs.Moore e Dr.Aziz conversam na Mesquita sob o luar que ilumina o rio Ganges), misturamos a banda sonora envolvente de Maurice Jarre (apesar de   não ser uma das sua bandas sonoras memoráveis, ainda assim é um trabalho de fôlego do compositor) e monta-se tudo com a enorme dedicação de quem sabe o que faz. 
   O resultado é uma das melhores adaptações cinematográficas de literatura para o cinema. Lean filma planos belíssimos, sem se importar com a sua duração desde que fiquem como ele quer (como a cena em que um comboio atravessa uma planície numa noite de luar ou toda a sequência da visita às grutas Marabar onde a fotografia brilhante da luz do dia contrasta  com a luz misteriosa das grutas) e consegue que o filme não seja monótono, mas sim uma obra em constante evolução. 
   Nomeado para 11 Óscares da Academia, incluindo nomeações para Melhor Filme e Melhor realizador,"Passagem para a Índia" venceria apenas nas categorias de Melhor Actriz Secundária (Peggy Aschcroft) e Banda Sonora.
   Derradeira obra-prima de um realizador (viria a falecer em 1991), que sempre viveu para o cinema, o soube dignificar com uma série de obras cinematográficas, hoje clássicos, incontestáveis representantes de um certo cinema que fez a sua história na sétima arte.
O regresso triunfante de um mestre a não perder!
  
Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Amadeus - Genialidade Absoluta!

                                        
                                                     

      Poucos são os filmes que contam uma história fictícia sobre uma personagem real e conseguem chegar ao público, à critíca e obter um enorme sucesso. "Amadeus" foi um desses filmes.
Viena de Aústria, 1823, Antoni Salieri ex-compositor da corte do rei Joseph II, é internado num hospital para doentes mentais após uma tentativa de suicídio. No dia seguinte um padre vem visitá-lo e ouvir a sua confissão no que respeita ao facto de Salieri dizer que matou Mozart um dos maiores compositores de sempre. Terá sido mesmo assim?

Milos Forman 
     Vagamente inspirada em "Mozart e Salieri" de Aleksandr Pushkin, transformada em Ópera por Nikolai Rimsky-Korsakov, que Peter Shaffer viu e onde se inspirou para fazer a peça de teatro que serviria de base ao filme. Utilizando uma significativa parte de música de Mozart e também de Antonio Salieri, além de outros compositores da época, "Amadeus" resulta numa experiência cinematográfica única.
   
Realizado por Milos Forman que já nos dera uma obra-prima de estudo do comportamento humano chamada "Voando sobre um Ninho de Cucos" (1975), uma "trip" de drogas e protestos contra o envolvimento americano no Vietname com "Hair"(1979), ou o mal apreciado "period piece" chamado "Ragtime" (1981). Se "Voando sobre um ninho de Cucos" foi rápidamente considerado uma obra-prima, por ser um dos únicos três filmes em toda a história do cinema a vencer os cinco óscares principais (filme, realizador, actor, actriz e argumento), "Amadeus" não tardaria a seguir-lhe as pisadas no que respeita à classificação de obra-prima, porque o filme é isso mesmo. O trabalho de Forman é simplesmente brilhante. Não hà, no filme, uma cena, um fotograma, uma interpretação que esteja fora do contexto. 
      As cenas das Óperas estão brilhantemente encenadas, com destaque para "Don Giovanni", onde toda a genialidade da realização de Forman, aliada à música de Mozart, vem ao de cima, estão feitas de modo a que o espectador se sinta transportado para a época e quando assim é, pouco ou nada mais há a dizer. Devemos apenas sentar e deixarmo-nos envolver nesta experiência.
    Sendo baseado numa peça de teatro, o filme teria que ter pelo menos um actor com experiência de palco. Tom Hulce, actor que chamara a atenção de Peter Shaffer ao interpretar um dos papéis da sua peça "Equus" (1977), foi escolhido pelo próprio para interpretar o papel de Mozart e fá-lo com grande convicção. Ao ler-se uma biografia de Mozart, não conseguimos dissociar Hulce daquela personagem irrequieta, um pouco louca, mas genial. O próprio actor também o não conseguiu porque toda a sua carreira no cinema acabou reduzida àquela personagem. 

O invejoso Antonio Salieri
    Já Antonio Salieri de F.Murray Abraham é outra conversa. O actor é a personagem e a interpretação, aliás muito justamente premiada com o Oscar de Melhor Actor, percorre todo o filme. A sua transformação progressiva desde a curiosidade que move o então Compositor da Corte em querer conhecer o jovem talentoso Mozart, até ao velho amargurado, louco, que, no final do filme, abençoa todos os alienados do hospital, passando pelo ser humano que, corroído pela inveja, declara Deus como seu inimigo por ter dado tanto talento aquela "criatura"(como ele próprio chama Mozart), quando ele (Salieri) apenas desejava servir Deus através da sua música, e que o leva a planear o assassinato do compositor, é verdadeiramente assombrosa, inesquecível mesmo. Ofusca em alguns momentos o próprio Wolfgang Amadeus Mozart, perpetuamente assolado por gargalhadas, e o seu actor. O melhor papel de F.Murray Abraham na sua considerávelmente longa carreira onde nos lembramos também do Inquisidor-Chefe Bernardo Gui de "O Nome da Rosa" (Jean-Jacques Annaud, 1986).

     Filme cheio de cenários opulentos e pormenores históricos que atestam o grande cuidado posto na direcção artística,  grandes interpretações e de cenas inesquecíveis como aquela em que Mozart aparece a primeira vez ante o olhar reprovador de Salieri; Ou aquela em que Mozart toca a sua versão da marcha de boas-vindas composta por Salieri, reduzindo-a  uma insignificante peça musical repetitiva; A magnifica cena em que Salieri, cheio de inveja, atira um crucifixo para a lareira declarando a Deus "A partir de agora Tu e eu somos inimigos!"; a já citada cena final em que salieri abençoa todos os alienados; inesquecível é também todo o terço final do filme ao som do Requiem a culminar no enterro em vala comum do compositor, "Amadeus" entrou assim na galeria das obras-primas do cinema pela porta da frente. Pena é que o seu realizador nunca mais esteve ao nível desta obra, parecendo ter entrado numa espiral descendente, excepção feita a "Valmont" (1989), outra "period piece".
    Nomeado para onze Óscares, "Amadeus" ganhou oito incluindo o de Melhor Filme e Melhor Realizador e nesse ano ganhou prácticamente tudo aquilo que havia para ganhar em termos de festivais de cinema um pouco por todo o mundo.
    Não se consegue ficar indiferente perante um filme destes. É um filme intemporal e cada vez mais referenciado e, tal como a música de Mozart, permanecerá como objecto de culto.
Genial.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

sábado, 19 de novembro de 2011

História Alternativa - O ...E Se...? na Ficção popular

   
                             

A História Alternativa é um tipo de ficção em cuja acção decorre em universos onde a história divergiu da história mundial tal como a conhecemos.
Pode ser vista como um sub-género da ficção literária, ficção científica e ficção histórica.
   A literatura de história alternativa  parte de uma premissa muito simples: faz a seguinte pergunta "o que aconteceria se a história tivesse decorrido de maneira diferente?", a maioria das obras deste género são baseadas em acontecimentos históricos reais, embora os aspectos sociais, políticos, económicos se tenham desenvolvido de maneira diferente. Na maior parte das vezes os acontecimentos divergem no passado e fazem com que a sociedade se desenvolva de maneira distinta da nossa. Alguns géneros de ficção foram confundidos com histórias alternativas. Na ficção cientifica, por exemplo, "2001: Odisseia no Espaço" de Arthur C. Clarke ou "1984" de George Orwell, foram situados naquilo que seria o futuro, mas que agora é passado, não devem ser consideradas histórias alternativas porque os autores não fizeram nenhuma alteração ao passado.
A referência mais antiga a uma história alternativa
   O mais antigo exemplo de história alternativa registado  é o  Livro IX, secções 17-19 de "Ab Urbe condita" de Tito Lívio, historiador romano, que contempla um século IV a.C. alternativo onde Alexandre, o Grande expande o seu Império para o ocidente em vez do oriente. Tito Lívio pergunta "O que poderia ter acontecido a Roma se esta se envolvesse numa guerra com Alexandre?". Já em 1490 o romance épico de Joanot Martorell "Tirant lo Blanc", numa altura em que a perda de Constantinopla para os Turcos (1453) ainda se revelava traumática para a europa, conta a história de Tyrant , o Branco, um cavaleiro britânico que parte para a capital do que resta do  Império Bizantino, torna-se comandante dos seus exércitos e consegue salvar a cidade de ser invadida pelos exércitos Otomanos e de se tornar parte do império Islâmico e ainda empurra os turcos para fora de terras que na realidade histórica pertenceram ao império turco.
   Foi no século XIX que as histórias alternativas ganham alguma receptividade entre o povo, nomeadamente com a publicação de "Histoire de la Monarchie Universelle: Napoléon et la conquête du Monde (1812-1832) de Louis Geoffroy em 1836, na qual Napoleão e o Primeiro Império Francês saem vitoriosos da campanha da rússia em 1811 e, em 1814 invadem a Inglaterra e mais tarde consegue unificar o mundo sob a sua liderança. Em 1895 é publicado o primeiro romance de história alternativa em inglês, "Aristopia" de Castello Holford, onde os primeiros colonos na Virgínia descobrem um recife feito de ouro puro e com ele constroem uma sociedade utópica na América do Norte.
   O século XX e a II Guerra Mundial possibilitaram a criação de inúmeros romances, alguns de propaganda, Ingleses e Americanos, em que os autores descrevem invasões dos seus respectivos países. O mais famoso destes romances é "The Man in the High Castle - O Homem do Castelo Alto", escrito em 1962 por Philip K. Dick, uma história alternativa na qual a Alemanha Nazi e o Japão Imperial ganham a II Guerra Mundial e dividem entre si o mundo. Neste romance surge o conceito de história "Alternativa-Alternativa", já que uma das personagens é autor de um livro em que os aliados vencem a guerra.
   Em outras obras de outros autores, o tema da vitória das forças Nazis e/ou os poderes do Eixo (constituído pelos Nazis, o Japão e a Itália) conquistam o mundo; noutras conquistam a maior parte do mundo, excepto "A Fortaleza Americana" que resiste a todos os cercos e tentativas de conquista. Já em 2002 Philip Roth publica "The Plot Against America - Conspiração contra a América" onde  num 1940 alternativo,  Franklin D. Roosevelt perde a eleição para o seu terceiro mandato como presidente, para Charles Lindbergh, o que mergulha a américa no fascismo e anti-semitismo.
   Também Vladimir Nabokov pegou na ideia de Philip K. Dick e utilizou-a no romance "Ada or Ardor:  A Family Chronicle", de 1969 em que parte duma  América do Norte alternativa é colonizada por Russos Czaristas, que se apercebem que esta é uma espécie de cópia ou negativo do nosso planeta, criando uma espécie de "Contra-Terra" que chamam "Anti-Terra",  e cujo gémeo é a verdadeira "Terra". Divergem não apenas na história, mas também no facto de toda a ciência e a tecnologia em "Anti-Terra" ser baseada na água e não na electircidade.
   As últimas décadas do século XX e o inicio do século XXI viram as histórias alternativas no romance popular ganharem uma maior importância á medida que a própria história mudava também. Entre muitos autores que se dedicaram a este sub-género, Destacou-se Harry Turtledove que, entre vários romances, publicou "Ruled Britannia - O Dilema de Shakespeare" em 2002, em que a "Invencível Armada" espanhola venceu os ingleses  e  ocuparam a Inglaterra da rainha Elizabeth e a William Shakespeare é dada a tarefa de escrever a peça que irá motivar os ingleses para derrotar os seus invasores.
   O cinema e a televisão não ficaram indiferentes a este sub-género de ficção literária. Quanto ao primeiro, os filmes sobre universos alternativos focaram-se mais no individuo do que nos acontecimentos históricos, por exemplo em filmes com "It's a Wonderful Life - Do Céu caiu uma Estrela" (Frank Capra, 1946), "Back to the Future - Regresso ao Futuro" (Robert Zemeckis, 1985-90), "The Butterfly Effect - O Efeito Borboleta" (Eric Bress e J.Mackye Gruber, 2004), "Frequency - Frequência" (Gregory Hoblit, 2000) ou "Inglourious Basterds - Sacanas sem Lei" (Quentin Tarantino, 2009). Quanto à segunda, o conceito de história alternativa também foi explorado em séries como "Dr.Who" (1963), "the Tomorrow People" (1973), ou "Lost - Perdidos" (2004).


    Mesmo tendo a cultura como fonte, por vezes a história e geografia, apesar de alteradas, perdem importância e então a história alternativa e toda a ficção a ela associada, entram nos dominios da fantasia. Mas isso é outra história...


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da internet



                                       

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os Intocáveis - A Lei de Chicago!



                                                      




    Vários são os filmes baseados em séries de televisão que fazem justiça à fonte inspiradora. Citamos por exemplo "Missão Impossível" (Brian DePalma, 1996), baseado na série de sucesso da década de 60 do século passado, que foi um grande sucesso de bilheteira quando estreou. Mas, anos antes, este mesmo realizador acertava em cheio com outro sucesso de bilheteira inspirado na televisão, que, de resto, foi o inicío da carreira do realizador.
Os Intocáveis da série de televisão
    Baseado numa série de televisão chamada "The Untouchables", ela própria baseada no livro de memórias de Elliot Ness intitulado "The Untouchables",  exibida entre 1959 e 1963, em que o agente federal Elliot Ness e outros agentes, cuja incorruptabilidade, lhes granjeia o nome de "Os Intocáveis", lutavam contra o crime organizado  em Chicago, durante a Lei Seca, na década de 30
    O filme de De Palma, igualmente baseado na obra, conta a história de Elliot Ness (Kevin Costner) um oficial do Tesouro Americano que quer acabar com o império do mais famoso gangster da década de 30: Al Capone (Robert De Niro), para isso conta com um pequeno grupo de outros agentes da lei a que alguém, a dado momento no filme  chama, lhes chama "Intocáveis".
    Realizado  por Brian De Palma, autor de, entre outros, "Carrie" (1976), "Vestida para Matar" (1980), "Blow-Out - A Explosão" (1981) ou "Scarface - A Força do Poder" (1983), este último, pode, de certa forma,  considerar-se como o percursor de "Os Intocáveis", já que o assunto é o tráfico de droga e a luta pelo poder levada a cabo por um exilado Cubano.
Os Intocáveis de De Palma
   Ajudado por um elenco excepcional onde se salienta Kevin Costner, num dos seus melhores papéis, como Elliot Ness, o agente que quer acabar com Al Capone e o seu império do mal;  Sean Connery (vencedor do Oscar de Melhor Actor Secundário), é Jimmy Malone, o policia que vai influenciar Ness e que o convence a não desistir da luta na fabulosa cena da igreja onde diz ao agente federal como é que se deve agir em Chicago, é uma interpretação acima da média de quem inúmeras vezes interpretou no cinema o agente secreto mais famoso do mundo; Andy Garcia, aqui a dar os seus primeiros passos no cinema, é George Stone, aluno da Academia  da policia que Malone recruta devido à sua excepcional pontaria e inteligência de raciocínio em situações de pressão; Charles Martin Smith, é Oscar Wallace, contabilista emprestado pelo FBI a Ness, que descobre a maneira de se apanhar Al Capone e que se vê arrastado na acção muito mais do que pretendia; e Robert De Niro num registo secundário mas de grande vigor, é Al Capone, numa interpretação "bigger than life", a que o actor já nos habituou.

  O filme é um festival de boas interpretações, um especial cuidado de direcção artística na reconstituição da Chicago da década de 30, uma banda sonora composta pelo mestre Ennio Morricone, que capta na perfeição os sons da época, com eles  percorre todo o filme marcando uma certa cadência na acção e, principalmente, um argumento excepcional escrito por David Mamet.  Tudo isto faz de "Os Intocáveis" um filme inesquecível.
Brian De Palma, um realizador competente
    Graças à técnica de realização apurada de DePalma, que utiliza planos, movimentos e rotações de camera absolutamente incriveis, muitos deles em "slow motion", para que o espectador se sinta parte integrante da acção, fruto de uma montagem habilidosa, patente em todos os filmes do realizador acima citados, algumas cenas são de antologia como por exemplo a carga dos intocáveis e da polícia montada Canadiana; a da morte de Malone ou ainda aquela que fica na memória de toda a gente: a sequência do tiroteio na estação de comboios que é absolutamente brilhante em termos técnicos, onde o virtuosismo do realizador está mais patente e vai muito para além duma qualquer cena convencional.
Uma homenagem ao cinema
   Qualquer espectador mais atento perceberá que essa cena é uma homenagem ao próprio cinema e, particularmente, ao pai da montagem cinematográfica moderna: Sergei Eisenstein, na fabulosa  sequência do massacre das escadas de Odessa  em "Couraçado Potemkin" (Sergei Eisenstein,1925). A cena em que o carrinho de bébé desce a escada sózinho, é decalcada plano-a-plano do original.São 75 segundos de puro brilhantismo cinematográfico que De Palma estica e homenageia até à exaustão.
Um clássico moderno e obrigatório.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mystic River - Clint Eastwood não sabe fazer maus filmes!

   Três jovens brincam e jogam hóquei na rua, escrevem os seus nomes no cimento fresco. Surge um carro com dois homens que se fazem passar por polícias. Um dos jovens é raptado e sujeito a abusos sexuais. Consegue escapar mas nunca mais volta a ser o mesmo.Vinte e cinco anos depois, os três voltam a encontrar-se.  É assim que começa "Mystic River", thriller poderoso e violento, realizado por Clint Eastwood.
    Mais de 50 anos de carreira, 40 dos quais como realizador, 4 Óscares da Academia, outras tantas nomeações como Actor, produtor e realizador, inúmeros prémios internacionais, servem de apresentação a este verdadeiro ícone do cinema americano.
Clint Eastwood

     Para trás ficam além da "Trilogia dos Dólares", onde interpreta o homem sem nome e "Dirty Harry", onde dá corpo a um inspector da polícia com métodos muito pouco ortodoxos. Entre esses filmes e este "Mystic River", surgem dois títulos que sobressaem na sua longa filmografia, são eles "Bird" uma biografia sobre Charlie Parker, músico de jazz ( músico e género de quem Eastwood se considera um confesso fân) e "Imperdoável", o último grande western feito no cinema. Sobre o primeiro, trata-se de uma obra-prima em que o tempo e a Europa (continente em que o o actor-realizador tem grande aceitação) se encarregaram de elevar a tal patamar. Sobre "Imperdoável" pouco ou nada hà a dizer, pois os prémios que ganhou, encarregaram-se de o transformar numa obra-prima.
      Em relação a "Mystic River" trata-se de um soberbo Thriller com excelentes interpretações, personagens fortes como Eastwood não exibia desde o Inspector Harry Callahan ( "Dirty" Harry para os amigos!),  não só dos actores premiados, como de todo o elenco secundário, particularmente Marcia Gay Harden como a amargurada Celeste Boyle que acredita que o seu marido está envolvido em algo muito mau, dividida entre acreditar no seu marido ou denunciá-lo ás autoridades, enquanto tenta viver com isso  e Laura Linney, como Annabeth  Markum, esposa apaixonada, cuja transformaçao durante a  conversa final com o marido, depois de consumados os actos, onde ela o abraça e reafirma a sua fidelidade aos princípios dele e apoiá-lo em todos os seus actos, é muito mais do que um diálogo, é um exercicio lírico para a posteridade.  
    O destaque vai, claro, para a interpretação de Sean Penn como Jimmy Markum, vencedor do Oscar de Melhor Actor, pode dizer-se que é ele que carrega o peso do filme aos ombros e fá-lo da melhor maneira possível; veja-se a maravilhosa cena em que ele percebe que o corpo descoberto é, nada mais, nada menos que o de sua filha, dá largas à sua dor, captada de modo absolutamente brilhante por um plano de camera vertical que se vai afastando e, no mesmo plano, focar o corpo dela,de um modo, que se pode dizer, quase cruel,  só e abandonado numa jaula. Kevin Bacon é Sean Devlin, o policia encarregue de resolver o caso do assassinato de Katie. Funciona como uma espécie de intermediário entre as duas partes da verdade e não sabe em quem deve acreditar, é o elemento apaziguador do trio central. A interpretação do actor, não sendo tão brilhante como dos dois principais, não deixa, no entanto, de ser interessante e uma das melhores da sua carreira.    
  Tim Robbins, também vencedor de Oscar para Melhor Actor Secundário, é  Dave Boyle, um homem ensombrado por um acontecimento, na sua juventude, que o marcou e do qual nunca recuperou totalmente, tem uma prestação muito acima da média, principalmente na cena em que se confronta com Jimmy e os irmãos Savage, a sua expressão, o seu olhar é de alguém que anseia libertar-se dum passado ao qual ficou preso uma vida inteira, está disposto a aceitar algo como uma redenção á sua vida, à sua fatalidade. É uma interpretação poderosa, brilhante mesmo, quase ao nível  de Sean Penn. Aliás desde "Ben-Hur" (William Wyler, 1959) que dois actores dum mesmo filme não eram premiados pela Academia. "Mystic River" acaba por ser um filme baseado nas interpretações de todo um elenco, e não em efeitos especiais, tiros, perseguições automóveis e é, na minha opinião, uma das grandes obras do cinema contemporâneo.
   A Realização de Clint Eastwood é excelente, ele não deixa os seus créditos por mãos alheias e praticamente todas as técnicas de realização, todos os truques de como contar uma história sem nunca distrair o espectador com pormenores de somenos importância, aqui o argumento, negro e sombrio, de Brian Helgeland é perfeito, estão presentes na medida certa numa obra que nos deixa em suspense, desde as primeiras imagens, de inocência (crianças a brincar numa rua sem saberem o que as espera), passando pelo desejo de vingança de Jimmy pela morte de sua filha, até ás imagens finais dos nomes escritos no cimento e a camera, num belo plano sobre o rio, parece mergulhar nele como que a querer livrar-se e lavar-se dos pecados cometidos, como diz Jimmy perto do final, ao longo do filme, tornam esta obra perturbante, intensa e avassaladora. 
Uma verdadeira obra-prima!


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet



















sábado, 22 de outubro de 2011

Robert A. Heinlein e a História do Futuro

    Uma história do futuro é uma narrativa que se ocupa do futuro da humanidade. É um sub-género utilizado por escritores de ficção científica, muitas vezes, para consolidar os eventos duma história, ou fornecer um fundo no qual o leitor poderá reconstruir a ordem das histórias e dos acontecimentos a partir da informação por elas fornecida.
     Robert Anson Heinlein (1907-1988), foi um escritor de ficção cientifica. Popular, influente e controverso, foi dos primeiros autores a escrever romances-tipo com os quais obteve sucesso no mercado moderno e um daqueles autores promissores que John W.Campbell Jr., editor da prestigiada revista "Astounding Science Fiction Magazine", gostava de apostar. Juntamente com Arthur C.Clarke e Isaac Asimov, é considerado um dos "três grandes" da ficção cientifica
   O seu livro mais famoso "Stranger in a Strange Land - Um Estranho numa Terra Estranha", foi publicado em 1961 e, devido ás temáticas que abordou como o individualismo, libertanismo e a livre-expressão de amor, físico e emocional, foi uma das bíblias do movimento hippie que nasceu na década de 60 do século passado.
   Entre as muitas temáticas que abordou, ao longo da sua vasta obra, a capacidade de antever o mundo de amanhã, que não andou muito longe da realidade, foi a que mais marcas deixou, embora não tenha sido inteiramente compreendida na época onde chegou a ser acusado de alarmista.
   "A História do Futuro", assim se chama esta série romances e contos que Heinlein escreveu ao longo de quase   cinco décadas. Nela relata-se a história da humanidade, em particular dos Estados Unidos, durante cerca de 700 anos, desde  1951 até a 2600 d.C., vista por Lazarus Long. O seu nome verdadeiro é Woodrow Wilson Smith, nascido em 1912 e produto da terceira geração dum longo processo de selecção reprodutiva levado a cabo pela familia Howard e vêm-se a saber, ao longo da série, que ele é o homem mais velho do mundo, que vive bem, com cerca de 2000 anos de idade, com a ajuda ocasional de alguns tratamentos de rejuvesnascimento. 
    Introduzido pela primeira vez em "Methuselah's Children - Os Filhos de Matusalém" (embora não seja o primeiro volume da série), escrito em 1941, ele admite ter 224 anos de idade e a acção passa-se durante cerca de 75 anos e que termina quando a primeira forma de rejuvenescimento está a ser desenvolvida, apesar de grande parte destes anos serem passados a viajar distâncias interestelares a velocidades próximas da da luz, o tempo passado é contado, não em termos da sua vida, mas em termos da sua ausência.Todos os livros em que a personagem de Lazarus Long surge, nomeadamente "Time Enough for Love" (1973) e "The Number of the Beast, (1980) envolvem viagens no tempo, dimensões paralelas, amor-livre, incesto e um conceito que Heinlein chamou "O Mundo como  Mito", uma teoria de que os universos são criados pelo acto de os imaginar!
   A maior parte desta História do Futuro foi escrita no inicio da carreira de Heinlein, entre 1939 e 1941 e entre 1945 e 1950. O termo foi inventado por John W.Campbell, quando publicou um primeiro esboço daquele que é considerado o primeiro volume da série, embora Heinlein nunca o tenha confirmado, "For Us, The Living" (1939), na revista "Astounding Science Fiction Magazine", em Março de 1941.
   A História do Futuro, longe de ser um relato de simples maravilhas e progressos tecnológicos, é, no seu todo, uma análise impressionante das vantagens e problemas que esse progresso trará à humanidade. Não é uma simples epopeia, mas sim uma sucessão de esperanças e desilusões, de vitórias e derrotas, de luz e de trevas.
Primeiro livro da série "A História do Futuro"
    O que se pode considerar quase como uma clarividência de Heinlein, ao definir a estrutura desta sua série, fica provado logo na publicação do (agora sim!) primeiro volume da série "The Man who sold the Moon - O Homem que vendeu a Lua", em 1950, ele previa para a década de 60, consideráveis avanços técnicos, acompanhados por uma gradual deterioração de costumes, da orientação, e das instituições sociais, terminando em psicoses colectivas (não será aquilo a que, em pleno século XXI, se assiste?). Para este período, Heinlein previa já foguetes e mísseis intercontinentais, assim como o começo de uma "Falsa Alvorada" que terminaria com a primeira viagem à lua.
   No segundo volume da série "The Moon is a harsh Mistress - A Revolta na Lua", depois duma grande crise financeira e social, no final da década de 60, começaria a reconstrução da sociedade, que coincidiria com "Período da Exploração Espacial" ou seja,  a conquista e colonização da Lua e do sistema solar, entre 1970 e 2020.  Período esse que terminaria com uma revolta e posterior independência das colónias extraterrestres e que é relatado em pormenor no livro "Revolt in 2100 - Revolta em 2100", um dos menos conhecidos volumes da série, escrito em 1953, mas de igual importância, já que essa revolta consequentemente leva a uma interrupção nas viagens interplanetárias, entre 2020 e 2072 e que nos Estados Unidos se traduziria por um ressurgimento do fanatismo religioso, o estabelecimento de uma Teocracia e posterior rebelião contra ela, naquilo que se chamaria "A Segunda Revolução Americana"  .
    Em "Time Enough for Love - A História do Futuro",  Lazarus Long relata pormenores da sua vida, através de flashbacks e flashforwards detalhados e que compreendem o período que vai desde o seu nascimento até ao ano 4272. Ao longo dos seus mais de 2000 anos de vida, ele diz ter trabalhado em praticamente todo o tipo de profissões e participado em quase todos os grandes acontecimentos da história.
   Nos últimos  livros da série "The Number of the Beast - O Número do Monstro" e " The Cat who Walks through Walls - O Gato que Atravessava Paredes", Lazarus Long surge já com personagem secundária mas ainda tem importância no desenvolvimento dos mesmos. Em "Number of the Beast" é-nos relatada a viagem da nave "Gay Deceiver" e dos seus quatro ocupantes em seis dimensões espacio-temporais: as três dimensões espaciais que existem na realidade e mais três que existem apenas no tempo, uma delas permite que se viaje até mundos fictícios como o reino de Oz por exemplo, assim como através do espaço e do universo. Essas viagens são relatadas em forma de diário pelos quatro ocupantes que registam aquilo que vêem nos universos paralelos por onde passam e que encontrarão numa dessas viagens Lazarus Long que vive num mundo desconhecido, cujas acções serão decisivas no resultado final.
   Começa quase como um livro policial "The Cat who Walks through Walls", escrito em 1985,   mas logo passa para o universo de Heinlein e da sua história do futuro. Colin Campbell é escritor e vê morrer junto de si, com um tiro, um homem que nunca viu na sua vida. Ajudado por uma bela e misteriosa jovem chamada Gwen Novak que o ajuda a ir até à lua para tentar resolver aquele mistério. Obcecada em esclarecer  que levou a comunidade lunar a revoltar-se contra a terra, ela afirma ter estado presente apesar de ainda ser uma criança, Campbel desconfia. Depois de várias peripécias encontram Lazarus Long que é o chefe duma organização chamada "Time Cops" que aceita ajudá-los nas suas missões. Este livro pode ser considerado tanto como uma continuação de "Number of the Beast", como de "Moon is a harsh Mistress", já que personagens de ambos os livros aparecem na acção e só se considera como parte da história do futuro por que Heinlein lança mais alguma luzes sobre os acontecimentos de ambos os livros.
   "To Sail Beyond the Sunset", escrito em 1987,  é oficialmente o último livro da história do futuro tal como foi escrita e pensada por Robert Heinlein. Maureen Johnson Smith Long, mãe de Lazarus, grava as suas memórias enquanto aguarda com incerteza o seu destino. Ela, nascida em 1882, reflecte sobre a sua vida ao longo das muitas gerações que por ela passaram. Tudo isto tendo como pano de fundo um século XX alternativo.
   Em 1966 "A História do Futuro" foi nomeada para o prémio Hugo de "Melhor Série de Todos os Tempos", juntamente com "Barsoom" de Edgar Rice Burroughs, "Lensmen" de E.E."doc"Smith, "Fundação" de Isaac Asimov,  e "O Senhor dos Anéis" de J.R.R.Tolkien. Perdeu para a "Fundação" de Asimov.
   Apesar de muita da sua obra já se encontrar editada em Portugal, Robert Heinlein ainda permanece um autor desconhecido e que merecia ser descoberto pelo público amante de ficção científica.


Nota: Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

                                                                  
Parte de "A História do Futuro"
                                                                             

  

                           

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Taxi Driver - A Alienação Urbana!













     Nova York tem sido um cenário previlegiado da sétima arte. Começou em 1926 quando Fritz Lang se encantou com o seu visual e a escolheu para cenário dessa obra prima incomparável que é "Metropolis" (1927). Sucessivamente cimos a cidade em ruínas, ser destruída por armas nucleares, por tempestades meteorológicas, inundada, povoada por superheróis de banda desenhada e continuou sempre a ser a cidade que nunca dorme e nunca perdeu o seu encanto por mais catástrofes que tenha sofrido. Se exceptuarmos Woody Allen e o seu "Manhattan" (1979), nunca houve outro cineasta que a filmasse tão bem como Martin Scorsese.
   Travis Bickle é um ex-combatente do vietname, mentalmente instável e que sofre de insónias. Para tentar resolver o seu problema, aceita um emprego como motorista de táxi em Nova York, cujas ruas percorre, dia após dia, onde assiste, impotente, à decadência humana. O contacto com uma jovem prostituta faz com que decida agir independentemente do que lhe possa acontecer.
    Excepcionalmente bem realizado por Martin Scorsese, "Taxi Driver" é, juntamente com "Touro Enraivecido" (1980), "Tudo Bons Rapazes" (1990) e Gangs de Nova York" (2002), uma obra-prima sem mácula. Apesar de datado, o filme não envelheceu e, pelo contrário, continua mais actual que nunca. O argumento brilhante escrito por Paul Schrader reflecte muito da época em que o filme foi feito: Enquanto a sombra do escândalo de Watergate paira discretamente sobre o filme, as cicatrizes deixadas pela guerra do Vietname na sociedade estão patentes em Travis Bickle ( a sua insónia, a sua constante procura de diversões como os filmes pornográficos e a frustração por não ter uma vida normal são disso exemplo) e a política está soberbamente representada na figura do Senador Charles Pallantine que, ao pretender atingir a nomeação para as eleições presidênciais que se aproximam, promete mudanças dramáticas na sociedade (já ouvimos isto em qualquer lado não ouvimos?).
Conseguem adivinhar quem é o passageiro que Bickle transporta?
   Graças ao trabalho meticuloso de Scorsese, nunca o anónimato foi tão bem reflectido no écran (as cenas de multidão filmadas em câmara lenta com a voz off de Bickle e a sua presença anónima, qual zé-ninguém à procura da sua identidade, são absolutamente brilhantes). Raramente vimos no cinema um táxi tão bem filmado (prácticamente não hà nenhum ângulo, nenhum pormenor da viatura que não seja filmado) e também percebemos porque é que um táxi pode ser confortável e seguro (quando Bickle anda nas ruas, estas são estranhas e ameaçadoras se nos pusermos no papel do condutor/passageiro e as vemos de dentro para fora) e perigoso (a cena do passageiro psicopata que quer matar a mulher é um dos momentos mais tensos do filme e que espelha perfeitamente a sociedade da época mas que também pode ser aplicada aos dias de hoje), "Taxi Driver" permanece hoje como um dos filmes mais perturbantes da década de 70 do século passado.

   Magnificamente interpretado por Robert DeNiro, que já trabalhara com Scorsese em "Cavaleiros do Asfalto" (1973) e com quem veio a estabelecer uama parceria realizador/actor em, até agora, mais seis filmes, cuja entrega ao personagem do motorista de taxi mentalmente instável foi total e representou mais um degrau nas ascensão do jovem actor que já ganhara um Óscar da Academia pelo seu fabuloso desempenho como Actor Secundário nessa obra-prima do cinema chamada "Padrinho - Parte II" (Francis Ford Coppola, 1974). 
    Aliás o seu perfeccionismo obsessivo em viver intensamente as personagens que representa (para "Taxi Driver, andou semanas com os motoristas de Nova York para aprender a falar como eles, a viver como eles e até a maneira de conduzir um taxi numa grande cidade) é famoso e viria a recompensá-lo com com um segundo Óscar da Academia para Melhor Actor em "Touro Enraivecido" (1980). A sua interpretação é tão intensa e credível que até o próprio realizador quis vê-lo "in loco" (o passageiro psicopata que Travis transporta é o próprio Scorsese) e que já tinha tido outra aparição no filme (quando vemos Cybill Shepherd, a entrar na  sede de candidatura de Pallantine, é o individuo que está sentado na beira da escada). 
Uma das mais perturbantes cenas do cinema
   Inesquecível e famoso é o monólogo que Bickle mantém ao espelho quando procura uma pose de duro: as palavras "estás a falar comigo?", a cena, só por si quase que vale  o filme todo, é fruto de um excelente trabalho de realização e de montagem: nunca temos a certeza se é  a personagem ou o seu reflexo  que fala, tal é a perfeição do trabalho envolvido, foram imitadas até à exaustão e continuam a constituir outro grande momento da carreira do actor; assim como a cena quase no final, em que depois do tiroteio no bordel, vemos um grande plano de Travis Bickle satisfeito por ter salvo Iris (Jodie Foster num dos seus primeiros papéis no cinema) da prostituição, mas frustrado por não ter balas para se suicidar e, num plano elevado de câmara que vai recuando, vemos o massacre levado a cabo pelo motorista de táxi e que só termina já na rua com a chegada das ambulâncias e no meio da curiosidade geral: genial e perturbante o trabalho da dupla actor e realizador.
   A completar o elenco do filme temos ainda Harvey Keitel (outro dos actores habituais na filmografia de Scorsese), Peter Boyle, Cybill Shepherd, Albert Brooks que também contribuem para tornar este filme obrigatório.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, "Taxi Driver" posicionava-se para a corrida dos Óscares desse ano ao ser nomeado para quatro Óscares (Martin Scorsese nem sequer foi nomeado!) mas acabaria por ser derrotado por "Rocky"(!) (John G.Avildsen) que levaria os prémios principais...incompreensível!
   Uma daquelas presenças obrigatórias em qualquer top de cinema, "Taxi Driver" continua a ser um dos filmes mais amados do seu realizador, apesar de ignorado na altura, teria de esperar ainda trinta anos até ser reconhecido pelos seus pares, na minha opinião, por um filme menor, se bem que não menos importante, na sua filmografia "The Departed: Entre Inimigos", 2006, pena é que não o tenha sido hà mais tempo.
Ver filmes com esta qualidade é cada vez mais dificil.
Absolutamente obrigatório!


Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet



                                          

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Vídeos Musicais

   Os Videoclipes, como são conhecidos agora ou  telediscos como se chamavam à alguns anos, são pequenos filmes ilustrados com suporte musical que na maior parte das vezes, serve para ajudar na promoção de um grupo, de uma canção ou mesmo de um álbum.
   O vídeo musical tem antecedentes directos no cinema vanguardista dos anos 20 do século passado, nomeadamente as experimentações de Dziga Vertov e Walther Ruttmann, cineastas europeus que tentaram articular montagem, música e efeitos para criar um novo tipo de narrativa do meio audivisual que se afastasse da literatura e do teatro. As obras-primas que criaram "O Homem com a Camêra" e "Berlim: Sinfonia da Cidade", têm muitas semelhanças com a estética do vídeo musical dos dias de hoje.
O Filme Musical influenciou muito o vídeo musical
   Durante as décadas de 30 até 50, época de ouro do filme  musical e estes foram considerados como um dos grandes percursores dos vídeos musicais e muitos desses vídeos são baseados e imitam quase na perfeição a estética e a linguagem deste género cinematográfico ímpar. "Material Girl" de Madonna é um dos melhores exemplos.
   Foi com os Beatles que, em meados da década de 60, se começaram a utilizar pequenos filmes que viriam a ser os percursores dos vídeoclipes. O grupo tinha muitas solicitações para se apresentarem ao vivo e como não lhes era humanamente possível ir a todas, começaram então a gravar as suas actuações e depois apresentavam-nas na televisão. Mais tarde, alguns desses vídeos começaram a assumir uma forma semelhante aos de hoje. Em 1965, o grupo começou a fazer clips (então chamados "insertos filmados"), para promover e distribuir os seus álbuns noutros países, não tendo assim que fazer aparições em público. Quando terminaram de fazer tournées, em finais de 1966, os clipes promocionais tinham-se tornado mais sofisticados. A estratégia resultou pois antes do final da década, grupos como "The Byrds", "The Doors", "Rolling Stones", "The Who",  ou cantores como Bob Dylan, Joni Mitchell, o duo Sonny & Cher, entre outros, estavam também a usar esta técnica.
   Em 1970, "Woodstock,  realizado por Michael Wadleigh, ganha o Oscar para Melhor Documentário e as coisas mudam radicalmente. As imagens de concertos, misturadas com clips onde se utilizam truques de camera, efeitos especiais e dramatização de letras de canções, são o prato forte dos vários concertos que são filmados no inicio da década como "Joe Cocker's Mad Dogs and Englishmen, ou Pink Floyd's Live at Pomeii". Ao longo da década vai-se assistir a uma cada vez maior proliferação dos chamados "filme-concerto" em que todo o filme gira em volta de um qualquer concerto de um qualquer grupo. Aqui destaca-se "The Song Remains the Same" (Christopher Crowe, 1975) onde se assiste aos preparativos para um concerto dos Led Zeppelin e ao próprio concerto quase integral onde o realizador utiliza um truque que já Michael Wadleigh utilizara em "Woodstock": o écran tripartido, ou seja, dividido em três partes para uma melhor perspectiva do concerto; ou "The Last Waltz - A Última Valsa" (Martin Scorsese, 1978) em que o realizador filma aquele que foi o memorável último concerto do grupo "The Band", além de enorme quantidade de convidados musicais, os temas são intercalados com excertos das conversas de Scorsese com os membros do grupo, o que torna o filme uma daquelas experiências gratificantes de se assistir.
O canal  responsável pelo boom dos vídeos musicais
   Em 1981, o tema "Video Killed the Radio Star" dos Buggles era exibido na estreia do canal  MTV, que marcou o inicio duma nova era na música que passou a dispôr de um canal que exibia música e vídeos musicais 24 horas por dia. Com esta nova ferramenta, a música popular viria a ter um papel central no mercado internacional. Foi também nesta altura que muitos realizadores saltaram para a ribalta, graças ao trabalho apurado em forma e estilo que puseram nos vídeos que realizaram, usando efeitos cada vez mais sofisticados, na mistura de vídeo e filme ou adicionando um argumento ou uma situação aos seus vídeos musicais. Ocasionalmente os vídeos eram feito de modo "não representativo", no qual o artista ou o grupo não aparecia. Bons exemplos desta forma foram os vídeos de Bruce Springsteen para o tema "Atlantic City", realizado por Arnold Levine, o tema "Under Pressure" de Queen e David Bowie, realizado por David Mallet, ou "The Chauffeur" dos Duran Duran e realizado por Ian Emes. Ao longo da década de 80, os vídeos tornaram-se parte integrante para a maior parte dos grupos e artistas de todos os quadrantes musicais, o que levou á inevitável paródia por parte de vários programas de televisão e, inclusivamente, Frank Zappa no seu estilo inconfundível e satírico, fez um tema, em 1984, a parodiar a sede dos seus contemporâneos musicais em fazer vídeos, "Be in my vídeo" desenrola-se durante um concerto de Zappa e a sua genailidade é incontestável.
"Thriller" mudou para sempre a face do vídeo musical
   Porém, em 1983, a face do vídeo musical muda radicalmente e encosta-se ao cinema. Para esta mudança  contribuiu inevitavelmente "Thriller" de Michael Jackson, tema-título daquele que ainda hoje é o álbum mais vendido da história da música, e que se tornou no vídeo de maior sucesso de todos os tempos. John Landis, o seu realizador, transformou uma canção de cerca de seis minutos e meio num vídeo de 14 minutos que mais parece uma curta-metragem, onde o espectador se sente como se estivesse no cinema, tal é a técnica empregue neste vídeo, onde tudo encanta  e nada falta, a começar na coreografia excepcional criada pelo artista, passando pela bela, vítima da fome dos Zombies, Michael a dançar rodeado de mortos-vivos até à voz arrepiante e macabra de Vincent Price, actor veterano em produções série B de terror,  que na altura custou cerca de 500.000 dólares e que estabeleceu novos valores de produção. Em 1989, Martin Scorsese seguiria as pisadas de Landis e transformaria "Bad", outro tema de Michael Jackson, numa versão moderna de "West Side Story" com cerca de 10 minutos de duração, onde reconstitui o combate que põe frente a frente os Jets e os Sharks, os gangs rivais no filme em mais uma coreografia genial idealizada pelo próprio Jackson.


   A década não terminaria sem dois outros vídeos fazerem história e lançar as bases do que hoje se faz no tocante a vídeos musicais: em 1985 o tema "Money For Nothing" do grupo Dire Straits, foi pioneiro na utilização de animações gráficas computorizadas e transformou-se num enorme sucesso mundial. A grande ironia é que o tema em si faz um comentário sardónico acerca do fenómeno dos vídeos musicais, é cantado do ponto de vista de um aparelho de entregas, que se sente ao mesmo tempo atraído e repelido pelas imagens bizarras e personalidades que aparecem na MTV; um ano depois, Peter Gabriel e o seu tema "Sledgehammer" tornar-se-iam um fenómeno de enorme sucesso à escala planetária. O vídeo, ao utilizar efeitos especiais e técnicas de animação desenvolvidas de propósito para o tema, viria a ganhar nove prémios MTV.
O Vídeo Musical no Séc.XXI
   Já em pleno século XXI, a MTV e outros canais semelhantes, abandonam a exibição de vídeos para se dedicarem em exclusivo á apresentação de "Reality Shows", que são, hoje em dia, muito mais populares que a exibição de vídeos e que, de certa maneira, a própria MTV ajudou a criar quando exibiu o programa "The real World" em 1992. Em 2005 apareceu o "YouTube", que tornou o visionamento de vídeos online, mais rápido e mais fácil, Tal como Google Vídeos, Yahoo, Facebook, ou MySpace, que além de tecnologia vídeo, usam tecnologia similar e tiveram um profundo efeito na maneira de ver vídeos musicais e alguns grupos e artistas começaram a obter sucesso a partir de vídeos exibidos parcial ou totalmente na internet que se tornou na ferramenta principal  para as editoras e os vídeos que lançam, como o fez a Apple quando inicialmente apresentou o ITunes e este continha uma secção de vídeos musicais de alta-qualidade, que se podiam descarregar gratuitamente. Mais recentemente, o ITunes começou a vender vídeos musicais para serem utilizados em Ipods, leitores .com capacidade de reprodução de vídeo.
   Qual será o próximo estádio da evolução do vídeo musical? não sabemos...só o tempo o dirá...


Nota: Todas as imagens e vídeos utilizado neste texto foram retirados da Internet



                                                               Grease - Um fenómeno musical fora de tempo!          Alguém disse, um ...