segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os Intocáveis - A Lei de Chicago!



                                                      




    Vários são os filmes baseados em séries de televisão que fazem justiça à fonte inspiradora. Citamos por exemplo "Missão Impossível" (Brian DePalma, 1996), baseado na série de sucesso da década de 60 do século passado, que foi um grande sucesso de bilheteira quando estreou. Mas, anos antes, este mesmo realizador acertava em cheio com outro sucesso de bilheteira inspirado na televisão, que, de resto, foi o inicío da carreira do realizador.
Os Intocáveis da série de televisão
    Baseado numa série de televisão chamada "The Untouchables", ela própria baseada no livro de memórias de Elliot Ness intitulado "The Untouchables",  exibida entre 1959 e 1963, em que o agente federal Elliot Ness e outros agentes, cuja incorruptabilidade, lhes granjeia o nome de "Os Intocáveis", lutavam contra o crime organizado  em Chicago, durante a Lei Seca, na década de 30
    O filme de De Palma, igualmente baseado na obra, conta a história de Elliot Ness (Kevin Costner) um oficial do Tesouro Americano que quer acabar com o império do mais famoso gangster da década de 30: Al Capone (Robert De Niro), para isso conta com um pequeno grupo de outros agentes da lei a que alguém, a dado momento no filme  chama, lhes chama "Intocáveis".
    Realizado  por Brian De Palma, autor de, entre outros, "Carrie" (1976), "Vestida para Matar" (1980), "Blow-Out - A Explosão" (1981) ou "Scarface - A Força do Poder" (1983), este último, pode, de certa forma,  considerar-se como o percursor de "Os Intocáveis", já que o assunto é o tráfico de droga e a luta pelo poder levada a cabo por um exilado Cubano.
Os Intocáveis de De Palma
   Ajudado por um elenco excepcional onde se salienta Kevin Costner, num dos seus melhores papéis, como Elliot Ness, o agente que quer acabar com Al Capone e o seu império do mal;  Sean Connery (vencedor do Oscar de Melhor Actor Secundário), é Jimmy Malone, o policia que vai influenciar Ness e que o convence a não desistir da luta na fabulosa cena da igreja onde diz ao agente federal como é que se deve agir em Chicago, é uma interpretação acima da média de quem inúmeras vezes interpretou no cinema o agente secreto mais famoso do mundo; Andy Garcia, aqui a dar os seus primeiros passos no cinema, é George Stone, aluno da Academia  da policia que Malone recruta devido à sua excepcional pontaria e inteligência de raciocínio em situações de pressão; Charles Martin Smith, é Oscar Wallace, contabilista emprestado pelo FBI a Ness, que descobre a maneira de se apanhar Al Capone e que se vê arrastado na acção muito mais do que pretendia; e Robert De Niro num registo secundário mas de grande vigor, é Al Capone, numa interpretação "bigger than life", a que o actor já nos habituou.

  O filme é um festival de boas interpretações, um especial cuidado de direcção artística na reconstituição da Chicago da década de 30, uma banda sonora composta pelo mestre Ennio Morricone, que capta na perfeição os sons da época, com eles  percorre todo o filme marcando uma certa cadência na acção e, principalmente, um argumento excepcional escrito por David Mamet.  Tudo isto faz de "Os Intocáveis" um filme inesquecível.
Brian De Palma, um realizador competente
    Graças à técnica de realização apurada de DePalma, que utiliza planos, movimentos e rotações de camera absolutamente incriveis, muitos deles em "slow motion", para que o espectador se sinta parte integrante da acção, fruto de uma montagem habilidosa, patente em todos os filmes do realizador acima citados, algumas cenas são de antologia como por exemplo a carga dos intocáveis e da polícia montada Canadiana; a da morte de Malone ou ainda aquela que fica na memória de toda a gente: a sequência do tiroteio na estação de comboios que é absolutamente brilhante em termos técnicos, onde o virtuosismo do realizador está mais patente e vai muito para além duma qualquer cena convencional.
Uma homenagem ao cinema
   Qualquer espectador mais atento perceberá que essa cena é uma homenagem ao próprio cinema e, particularmente, ao pai da montagem cinematográfica moderna: Sergei Eisenstein, na fabulosa  sequência do massacre das escadas de Odessa  em "Couraçado Potemkin" (Sergei Eisenstein,1925). A cena em que o carrinho de bébé desce a escada sózinho, é decalcada plano-a-plano do original.São 75 segundos de puro brilhantismo cinematográfico que De Palma estica e homenageia até à exaustão.
Um clássico moderno e obrigatório.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mystic River - Clint Eastwood não sabe fazer maus filmes!

   Três jovens brincam e jogam hóquei na rua, escrevem os seus nomes no cimento fresco. Surge um carro com dois homens que se fazem passar por polícias. Um dos jovens é raptado e sujeito a abusos sexuais. Consegue escapar mas nunca mais volta a ser o mesmo.Vinte e cinco anos depois, os três voltam a encontrar-se.  É assim que começa "Mystic River", thriller poderoso e violento, realizado por Clint Eastwood.
    Mais de 50 anos de carreira, 40 dos quais como realizador, 4 Óscares da Academia, outras tantas nomeações como Actor, produtor e realizador, inúmeros prémios internacionais, servem de apresentação a este verdadeiro ícone do cinema americano.
Clint Eastwood

     Para trás ficam além da "Trilogia dos Dólares", onde interpreta o homem sem nome e "Dirty Harry", onde dá corpo a um inspector da polícia com métodos muito pouco ortodoxos. Entre esses filmes e este "Mystic River", surgem dois títulos que sobressaem na sua longa filmografia, são eles "Bird" uma biografia sobre Charlie Parker, músico de jazz ( músico e género de quem Eastwood se considera um confesso fân) e "Imperdoável", o último grande western feito no cinema. Sobre o primeiro, trata-se de uma obra-prima em que o tempo e a Europa (continente em que o o actor-realizador tem grande aceitação) se encarregaram de elevar a tal patamar. Sobre "Imperdoável" pouco ou nada hà a dizer, pois os prémios que ganhou, encarregaram-se de o transformar numa obra-prima.
      Em relação a "Mystic River" trata-se de um soberbo Thriller com excelentes interpretações, personagens fortes como Eastwood não exibia desde o Inspector Harry Callahan ( "Dirty" Harry para os amigos!),  não só dos actores premiados, como de todo o elenco secundário, particularmente Marcia Gay Harden como a amargurada Celeste Boyle que acredita que o seu marido está envolvido em algo muito mau, dividida entre acreditar no seu marido ou denunciá-lo ás autoridades, enquanto tenta viver com isso  e Laura Linney, como Annabeth  Markum, esposa apaixonada, cuja transformaçao durante a  conversa final com o marido, depois de consumados os actos, onde ela o abraça e reafirma a sua fidelidade aos princípios dele e apoiá-lo em todos os seus actos, é muito mais do que um diálogo, é um exercicio lírico para a posteridade.  
    O destaque vai, claro, para a interpretação de Sean Penn como Jimmy Markum, vencedor do Oscar de Melhor Actor, pode dizer-se que é ele que carrega o peso do filme aos ombros e fá-lo da melhor maneira possível; veja-se a maravilhosa cena em que ele percebe que o corpo descoberto é, nada mais, nada menos que o de sua filha, dá largas à sua dor, captada de modo absolutamente brilhante por um plano de camera vertical que se vai afastando e, no mesmo plano, focar o corpo dela,de um modo, que se pode dizer, quase cruel,  só e abandonado numa jaula. Kevin Bacon é Sean Devlin, o policia encarregue de resolver o caso do assassinato de Katie. Funciona como uma espécie de intermediário entre as duas partes da verdade e não sabe em quem deve acreditar, é o elemento apaziguador do trio central. A interpretação do actor, não sendo tão brilhante como dos dois principais, não deixa, no entanto, de ser interessante e uma das melhores da sua carreira.    
  Tim Robbins, também vencedor de Oscar para Melhor Actor Secundário, é  Dave Boyle, um homem ensombrado por um acontecimento, na sua juventude, que o marcou e do qual nunca recuperou totalmente, tem uma prestação muito acima da média, principalmente na cena em que se confronta com Jimmy e os irmãos Savage, a sua expressão, o seu olhar é de alguém que anseia libertar-se dum passado ao qual ficou preso uma vida inteira, está disposto a aceitar algo como uma redenção á sua vida, à sua fatalidade. É uma interpretação poderosa, brilhante mesmo, quase ao nível  de Sean Penn. Aliás desde "Ben-Hur" (William Wyler, 1959) que dois actores dum mesmo filme não eram premiados pela Academia. "Mystic River" acaba por ser um filme baseado nas interpretações de todo um elenco, e não em efeitos especiais, tiros, perseguições automóveis e é, na minha opinião, uma das grandes obras do cinema contemporâneo.
   A Realização de Clint Eastwood é excelente, ele não deixa os seus créditos por mãos alheias e praticamente todas as técnicas de realização, todos os truques de como contar uma história sem nunca distrair o espectador com pormenores de somenos importância, aqui o argumento, negro e sombrio, de Brian Helgeland é perfeito, estão presentes na medida certa numa obra que nos deixa em suspense, desde as primeiras imagens, de inocência (crianças a brincar numa rua sem saberem o que as espera), passando pelo desejo de vingança de Jimmy pela morte de sua filha, até ás imagens finais dos nomes escritos no cimento e a camera, num belo plano sobre o rio, parece mergulhar nele como que a querer livrar-se e lavar-se dos pecados cometidos, como diz Jimmy perto do final, ao longo do filme, tornam esta obra perturbante, intensa e avassaladora. 
Uma verdadeira obra-prima!


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet



















sábado, 22 de outubro de 2011

Robert A. Heinlein e a História do Futuro

    Uma história do futuro é uma narrativa que se ocupa do futuro da humanidade. É um sub-género utilizado por escritores de ficção científica, muitas vezes, para consolidar os eventos duma história, ou fornecer um fundo no qual o leitor poderá reconstruir a ordem das histórias e dos acontecimentos a partir da informação por elas fornecida.
     Robert Anson Heinlein (1907-1988), foi um escritor de ficção cientifica. Popular, influente e controverso, foi dos primeiros autores a escrever romances-tipo com os quais obteve sucesso no mercado moderno e um daqueles autores promissores que John W.Campbell Jr., editor da prestigiada revista "Astounding Science Fiction Magazine", gostava de apostar. Juntamente com Arthur C.Clarke e Isaac Asimov, é considerado um dos "três grandes" da ficção cientifica
   O seu livro mais famoso "Stranger in a Strange Land - Um Estranho numa Terra Estranha", foi publicado em 1961 e, devido ás temáticas que abordou como o individualismo, libertanismo e a livre-expressão de amor, físico e emocional, foi uma das bíblias do movimento hippie que nasceu na década de 60 do século passado.
   Entre as muitas temáticas que abordou, ao longo da sua vasta obra, a capacidade de antever o mundo de amanhã, que não andou muito longe da realidade, foi a que mais marcas deixou, embora não tenha sido inteiramente compreendida na época onde chegou a ser acusado de alarmista.
   "A História do Futuro", assim se chama esta série romances e contos que Heinlein escreveu ao longo de quase   cinco décadas. Nela relata-se a história da humanidade, em particular dos Estados Unidos, durante cerca de 700 anos, desde  1951 até a 2600 d.C., vista por Lazarus Long. O seu nome verdadeiro é Woodrow Wilson Smith, nascido em 1912 e produto da terceira geração dum longo processo de selecção reprodutiva levado a cabo pela familia Howard e vêm-se a saber, ao longo da série, que ele é o homem mais velho do mundo, que vive bem, com cerca de 2000 anos de idade, com a ajuda ocasional de alguns tratamentos de rejuvesnascimento. 
    Introduzido pela primeira vez em "Methuselah's Children - Os Filhos de Matusalém" (embora não seja o primeiro volume da série), escrito em 1941, ele admite ter 224 anos de idade e a acção passa-se durante cerca de 75 anos e que termina quando a primeira forma de rejuvenescimento está a ser desenvolvida, apesar de grande parte destes anos serem passados a viajar distâncias interestelares a velocidades próximas da da luz, o tempo passado é contado, não em termos da sua vida, mas em termos da sua ausência.Todos os livros em que a personagem de Lazarus Long surge, nomeadamente "Time Enough for Love" (1973) e "The Number of the Beast, (1980) envolvem viagens no tempo, dimensões paralelas, amor-livre, incesto e um conceito que Heinlein chamou "O Mundo como  Mito", uma teoria de que os universos são criados pelo acto de os imaginar!
   A maior parte desta História do Futuro foi escrita no inicio da carreira de Heinlein, entre 1939 e 1941 e entre 1945 e 1950. O termo foi inventado por John W.Campbell, quando publicou um primeiro esboço daquele que é considerado o primeiro volume da série, embora Heinlein nunca o tenha confirmado, "For Us, The Living" (1939), na revista "Astounding Science Fiction Magazine", em Março de 1941.
   A História do Futuro, longe de ser um relato de simples maravilhas e progressos tecnológicos, é, no seu todo, uma análise impressionante das vantagens e problemas que esse progresso trará à humanidade. Não é uma simples epopeia, mas sim uma sucessão de esperanças e desilusões, de vitórias e derrotas, de luz e de trevas.
Primeiro livro da série "A História do Futuro"
    O que se pode considerar quase como uma clarividência de Heinlein, ao definir a estrutura desta sua série, fica provado logo na publicação do (agora sim!) primeiro volume da série "The Man who sold the Moon - O Homem que vendeu a Lua", em 1950, ele previa para a década de 60, consideráveis avanços técnicos, acompanhados por uma gradual deterioração de costumes, da orientação, e das instituições sociais, terminando em psicoses colectivas (não será aquilo a que, em pleno século XXI, se assiste?). Para este período, Heinlein previa já foguetes e mísseis intercontinentais, assim como o começo de uma "Falsa Alvorada" que terminaria com a primeira viagem à lua.
   No segundo volume da série "The Moon is a harsh Mistress - A Revolta na Lua", depois duma grande crise financeira e social, no final da década de 60, começaria a reconstrução da sociedade, que coincidiria com "Período da Exploração Espacial" ou seja,  a conquista e colonização da Lua e do sistema solar, entre 1970 e 2020.  Período esse que terminaria com uma revolta e posterior independência das colónias extraterrestres e que é relatado em pormenor no livro "Revolt in 2100 - Revolta em 2100", um dos menos conhecidos volumes da série, escrito em 1953, mas de igual importância, já que essa revolta consequentemente leva a uma interrupção nas viagens interplanetárias, entre 2020 e 2072 e que nos Estados Unidos se traduziria por um ressurgimento do fanatismo religioso, o estabelecimento de uma Teocracia e posterior rebelião contra ela, naquilo que se chamaria "A Segunda Revolução Americana"  .
    Em "Time Enough for Love - A História do Futuro",  Lazarus Long relata pormenores da sua vida, através de flashbacks e flashforwards detalhados e que compreendem o período que vai desde o seu nascimento até ao ano 4272. Ao longo dos seus mais de 2000 anos de vida, ele diz ter trabalhado em praticamente todo o tipo de profissões e participado em quase todos os grandes acontecimentos da história.
   Nos últimos  livros da série "The Number of the Beast - O Número do Monstro" e " The Cat who Walks through Walls - O Gato que Atravessava Paredes", Lazarus Long surge já com personagem secundária mas ainda tem importância no desenvolvimento dos mesmos. Em "Number of the Beast" é-nos relatada a viagem da nave "Gay Deceiver" e dos seus quatro ocupantes em seis dimensões espacio-temporais: as três dimensões espaciais que existem na realidade e mais três que existem apenas no tempo, uma delas permite que se viaje até mundos fictícios como o reino de Oz por exemplo, assim como através do espaço e do universo. Essas viagens são relatadas em forma de diário pelos quatro ocupantes que registam aquilo que vêem nos universos paralelos por onde passam e que encontrarão numa dessas viagens Lazarus Long que vive num mundo desconhecido, cujas acções serão decisivas no resultado final.
   Começa quase como um livro policial "The Cat who Walks through Walls", escrito em 1985,   mas logo passa para o universo de Heinlein e da sua história do futuro. Colin Campbell é escritor e vê morrer junto de si, com um tiro, um homem que nunca viu na sua vida. Ajudado por uma bela e misteriosa jovem chamada Gwen Novak que o ajuda a ir até à lua para tentar resolver aquele mistério. Obcecada em esclarecer  que levou a comunidade lunar a revoltar-se contra a terra, ela afirma ter estado presente apesar de ainda ser uma criança, Campbel desconfia. Depois de várias peripécias encontram Lazarus Long que é o chefe duma organização chamada "Time Cops" que aceita ajudá-los nas suas missões. Este livro pode ser considerado tanto como uma continuação de "Number of the Beast", como de "Moon is a harsh Mistress", já que personagens de ambos os livros aparecem na acção e só se considera como parte da história do futuro por que Heinlein lança mais alguma luzes sobre os acontecimentos de ambos os livros.
   "To Sail Beyond the Sunset", escrito em 1987,  é oficialmente o último livro da história do futuro tal como foi escrita e pensada por Robert Heinlein. Maureen Johnson Smith Long, mãe de Lazarus, grava as suas memórias enquanto aguarda com incerteza o seu destino. Ela, nascida em 1882, reflecte sobre a sua vida ao longo das muitas gerações que por ela passaram. Tudo isto tendo como pano de fundo um século XX alternativo.
   Em 1966 "A História do Futuro" foi nomeada para o prémio Hugo de "Melhor Série de Todos os Tempos", juntamente com "Barsoom" de Edgar Rice Burroughs, "Lensmen" de E.E."doc"Smith, "Fundação" de Isaac Asimov,  e "O Senhor dos Anéis" de J.R.R.Tolkien. Perdeu para a "Fundação" de Asimov.
   Apesar de muita da sua obra já se encontrar editada em Portugal, Robert Heinlein ainda permanece um autor desconhecido e que merecia ser descoberto pelo público amante de ficção científica.


Nota: Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

                                                                  
Parte de "A História do Futuro"
                                                                             

  

                           

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Taxi Driver - A Alienação Urbana!













     Nova York tem sido um cenário previlegiado da sétima arte. Começou em 1926 quando Fritz Lang se encantou com o seu visual e a escolheu para cenário dessa obra prima incomparável que é "Metropolis" (1927). Sucessivamente cimos a cidade em ruínas, ser destruída por armas nucleares, por tempestades meteorológicas, inundada, povoada por superheróis de banda desenhada e continuou sempre a ser a cidade que nunca dorme e nunca perdeu o seu encanto por mais catástrofes que tenha sofrido. Se exceptuarmos Woody Allen e o seu "Manhattan" (1979), nunca houve outro cineasta que a filmasse tão bem como Martin Scorsese.
   Travis Bickle é um ex-combatente do vietname, mentalmente instável e que sofre de insónias. Para tentar resolver o seu problema, aceita um emprego como motorista de táxi em Nova York, cujas ruas percorre, dia após dia, onde assiste, impotente, à decadência humana. O contacto com uma jovem prostituta faz com que decida agir independentemente do que lhe possa acontecer.
    Excepcionalmente bem realizado por Martin Scorsese, "Taxi Driver" é, juntamente com "Touro Enraivecido" (1980), "Tudo Bons Rapazes" (1990) e Gangs de Nova York" (2002), uma obra-prima sem mácula. Apesar de datado, o filme não envelheceu e, pelo contrário, continua mais actual que nunca. O argumento brilhante escrito por Paul Schrader reflecte muito da época em que o filme foi feito: Enquanto a sombra do escândalo de Watergate paira discretamente sobre o filme, as cicatrizes deixadas pela guerra do Vietname na sociedade estão patentes em Travis Bickle ( a sua insónia, a sua constante procura de diversões como os filmes pornográficos e a frustração por não ter uma vida normal são disso exemplo) e a política está soberbamente representada na figura do Senador Charles Pallantine que, ao pretender atingir a nomeação para as eleições presidênciais que se aproximam, promete mudanças dramáticas na sociedade (já ouvimos isto em qualquer lado não ouvimos?).
Conseguem adivinhar quem é o passageiro que Bickle transporta?
   Graças ao trabalho meticuloso de Scorsese, nunca o anónimato foi tão bem reflectido no écran (as cenas de multidão filmadas em câmara lenta com a voz off de Bickle e a sua presença anónima, qual zé-ninguém à procura da sua identidade, são absolutamente brilhantes). Raramente vimos no cinema um táxi tão bem filmado (prácticamente não hà nenhum ângulo, nenhum pormenor da viatura que não seja filmado) e também percebemos porque é que um táxi pode ser confortável e seguro (quando Bickle anda nas ruas, estas são estranhas e ameaçadoras se nos pusermos no papel do condutor/passageiro e as vemos de dentro para fora) e perigoso (a cena do passageiro psicopata que quer matar a mulher é um dos momentos mais tensos do filme e que espelha perfeitamente a sociedade da época mas que também pode ser aplicada aos dias de hoje), "Taxi Driver" permanece hoje como um dos filmes mais perturbantes da década de 70 do século passado.

   Magnificamente interpretado por Robert DeNiro, que já trabalhara com Scorsese em "Cavaleiros do Asfalto" (1973) e com quem veio a estabelecer uama parceria realizador/actor em, até agora, mais seis filmes, cuja entrega ao personagem do motorista de taxi mentalmente instável foi total e representou mais um degrau nas ascensão do jovem actor que já ganhara um Óscar da Academia pelo seu fabuloso desempenho como Actor Secundário nessa obra-prima do cinema chamada "Padrinho - Parte II" (Francis Ford Coppola, 1974). 
    Aliás o seu perfeccionismo obsessivo em viver intensamente as personagens que representa (para "Taxi Driver, andou semanas com os motoristas de Nova York para aprender a falar como eles, a viver como eles e até a maneira de conduzir um taxi numa grande cidade) é famoso e viria a recompensá-lo com com um segundo Óscar da Academia para Melhor Actor em "Touro Enraivecido" (1980). A sua interpretação é tão intensa e credível que até o próprio realizador quis vê-lo "in loco" (o passageiro psicopata que Travis transporta é o próprio Scorsese) e que já tinha tido outra aparição no filme (quando vemos Cybill Shepherd, a entrar na  sede de candidatura de Pallantine, é o individuo que está sentado na beira da escada). 
Uma das mais perturbantes cenas do cinema
   Inesquecível e famoso é o monólogo que Bickle mantém ao espelho quando procura uma pose de duro: as palavras "estás a falar comigo?", a cena, só por si quase que vale  o filme todo, é fruto de um excelente trabalho de realização e de montagem: nunca temos a certeza se é  a personagem ou o seu reflexo  que fala, tal é a perfeição do trabalho envolvido, foram imitadas até à exaustão e continuam a constituir outro grande momento da carreira do actor; assim como a cena quase no final, em que depois do tiroteio no bordel, vemos um grande plano de Travis Bickle satisfeito por ter salvo Iris (Jodie Foster num dos seus primeiros papéis no cinema) da prostituição, mas frustrado por não ter balas para se suicidar e, num plano elevado de câmara que vai recuando, vemos o massacre levado a cabo pelo motorista de táxi e que só termina já na rua com a chegada das ambulâncias e no meio da curiosidade geral: genial e perturbante o trabalho da dupla actor e realizador.
   A completar o elenco do filme temos ainda Harvey Keitel (outro dos actores habituais na filmografia de Scorsese), Peter Boyle, Cybill Shepherd, Albert Brooks que também contribuem para tornar este filme obrigatório.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, "Taxi Driver" posicionava-se para a corrida dos Óscares desse ano ao ser nomeado para quatro Óscares (Martin Scorsese nem sequer foi nomeado!) mas acabaria por ser derrotado por "Rocky"(!) (John G.Avildsen) que levaria os prémios principais...incompreensível!
   Uma daquelas presenças obrigatórias em qualquer top de cinema, "Taxi Driver" continua a ser um dos filmes mais amados do seu realizador, apesar de ignorado na altura, teria de esperar ainda trinta anos até ser reconhecido pelos seus pares, na minha opinião, por um filme menor, se bem que não menos importante, na sua filmografia "The Departed: Entre Inimigos", 2006, pena é que não o tenha sido hà mais tempo.
Ver filmes com esta qualidade é cada vez mais dificil.
Absolutamente obrigatório!


Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet



                                          

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Vídeos Musicais

   Os Videoclipes, como são conhecidos agora ou  telediscos como se chamavam à alguns anos, são pequenos filmes ilustrados com suporte musical que na maior parte das vezes, serve para ajudar na promoção de um grupo, de uma canção ou mesmo de um álbum.
   O vídeo musical tem antecedentes directos no cinema vanguardista dos anos 20 do século passado, nomeadamente as experimentações de Dziga Vertov e Walther Ruttmann, cineastas europeus que tentaram articular montagem, música e efeitos para criar um novo tipo de narrativa do meio audivisual que se afastasse da literatura e do teatro. As obras-primas que criaram "O Homem com a Camêra" e "Berlim: Sinfonia da Cidade", têm muitas semelhanças com a estética do vídeo musical dos dias de hoje.
O Filme Musical influenciou muito o vídeo musical
   Durante as décadas de 30 até 50, época de ouro do filme  musical e estes foram considerados como um dos grandes percursores dos vídeos musicais e muitos desses vídeos são baseados e imitam quase na perfeição a estética e a linguagem deste género cinematográfico ímpar. "Material Girl" de Madonna é um dos melhores exemplos.
   Foi com os Beatles que, em meados da década de 60, se começaram a utilizar pequenos filmes que viriam a ser os percursores dos vídeoclipes. O grupo tinha muitas solicitações para se apresentarem ao vivo e como não lhes era humanamente possível ir a todas, começaram então a gravar as suas actuações e depois apresentavam-nas na televisão. Mais tarde, alguns desses vídeos começaram a assumir uma forma semelhante aos de hoje. Em 1965, o grupo começou a fazer clips (então chamados "insertos filmados"), para promover e distribuir os seus álbuns noutros países, não tendo assim que fazer aparições em público. Quando terminaram de fazer tournées, em finais de 1966, os clipes promocionais tinham-se tornado mais sofisticados. A estratégia resultou pois antes do final da década, grupos como "The Byrds", "The Doors", "Rolling Stones", "The Who",  ou cantores como Bob Dylan, Joni Mitchell, o duo Sonny & Cher, entre outros, estavam também a usar esta técnica.
   Em 1970, "Woodstock,  realizado por Michael Wadleigh, ganha o Oscar para Melhor Documentário e as coisas mudam radicalmente. As imagens de concertos, misturadas com clips onde se utilizam truques de camera, efeitos especiais e dramatização de letras de canções, são o prato forte dos vários concertos que são filmados no inicio da década como "Joe Cocker's Mad Dogs and Englishmen, ou Pink Floyd's Live at Pomeii". Ao longo da década vai-se assistir a uma cada vez maior proliferação dos chamados "filme-concerto" em que todo o filme gira em volta de um qualquer concerto de um qualquer grupo. Aqui destaca-se "The Song Remains the Same" (Christopher Crowe, 1975) onde se assiste aos preparativos para um concerto dos Led Zeppelin e ao próprio concerto quase integral onde o realizador utiliza um truque que já Michael Wadleigh utilizara em "Woodstock": o écran tripartido, ou seja, dividido em três partes para uma melhor perspectiva do concerto; ou "The Last Waltz - A Última Valsa" (Martin Scorsese, 1978) em que o realizador filma aquele que foi o memorável último concerto do grupo "The Band", além de enorme quantidade de convidados musicais, os temas são intercalados com excertos das conversas de Scorsese com os membros do grupo, o que torna o filme uma daquelas experiências gratificantes de se assistir.
O canal  responsável pelo boom dos vídeos musicais
   Em 1981, o tema "Video Killed the Radio Star" dos Buggles era exibido na estreia do canal  MTV, que marcou o inicio duma nova era na música que passou a dispôr de um canal que exibia música e vídeos musicais 24 horas por dia. Com esta nova ferramenta, a música popular viria a ter um papel central no mercado internacional. Foi também nesta altura que muitos realizadores saltaram para a ribalta, graças ao trabalho apurado em forma e estilo que puseram nos vídeos que realizaram, usando efeitos cada vez mais sofisticados, na mistura de vídeo e filme ou adicionando um argumento ou uma situação aos seus vídeos musicais. Ocasionalmente os vídeos eram feito de modo "não representativo", no qual o artista ou o grupo não aparecia. Bons exemplos desta forma foram os vídeos de Bruce Springsteen para o tema "Atlantic City", realizado por Arnold Levine, o tema "Under Pressure" de Queen e David Bowie, realizado por David Mallet, ou "The Chauffeur" dos Duran Duran e realizado por Ian Emes. Ao longo da década de 80, os vídeos tornaram-se parte integrante para a maior parte dos grupos e artistas de todos os quadrantes musicais, o que levou á inevitável paródia por parte de vários programas de televisão e, inclusivamente, Frank Zappa no seu estilo inconfundível e satírico, fez um tema, em 1984, a parodiar a sede dos seus contemporâneos musicais em fazer vídeos, "Be in my vídeo" desenrola-se durante um concerto de Zappa e a sua genailidade é incontestável.
"Thriller" mudou para sempre a face do vídeo musical
   Porém, em 1983, a face do vídeo musical muda radicalmente e encosta-se ao cinema. Para esta mudança  contribuiu inevitavelmente "Thriller" de Michael Jackson, tema-título daquele que ainda hoje é o álbum mais vendido da história da música, e que se tornou no vídeo de maior sucesso de todos os tempos. John Landis, o seu realizador, transformou uma canção de cerca de seis minutos e meio num vídeo de 14 minutos que mais parece uma curta-metragem, onde o espectador se sente como se estivesse no cinema, tal é a técnica empregue neste vídeo, onde tudo encanta  e nada falta, a começar na coreografia excepcional criada pelo artista, passando pela bela, vítima da fome dos Zombies, Michael a dançar rodeado de mortos-vivos até à voz arrepiante e macabra de Vincent Price, actor veterano em produções série B de terror,  que na altura custou cerca de 500.000 dólares e que estabeleceu novos valores de produção. Em 1989, Martin Scorsese seguiria as pisadas de Landis e transformaria "Bad", outro tema de Michael Jackson, numa versão moderna de "West Side Story" com cerca de 10 minutos de duração, onde reconstitui o combate que põe frente a frente os Jets e os Sharks, os gangs rivais no filme em mais uma coreografia genial idealizada pelo próprio Jackson.


   A década não terminaria sem dois outros vídeos fazerem história e lançar as bases do que hoje se faz no tocante a vídeos musicais: em 1985 o tema "Money For Nothing" do grupo Dire Straits, foi pioneiro na utilização de animações gráficas computorizadas e transformou-se num enorme sucesso mundial. A grande ironia é que o tema em si faz um comentário sardónico acerca do fenómeno dos vídeos musicais, é cantado do ponto de vista de um aparelho de entregas, que se sente ao mesmo tempo atraído e repelido pelas imagens bizarras e personalidades que aparecem na MTV; um ano depois, Peter Gabriel e o seu tema "Sledgehammer" tornar-se-iam um fenómeno de enorme sucesso à escala planetária. O vídeo, ao utilizar efeitos especiais e técnicas de animação desenvolvidas de propósito para o tema, viria a ganhar nove prémios MTV.
O Vídeo Musical no Séc.XXI
   Já em pleno século XXI, a MTV e outros canais semelhantes, abandonam a exibição de vídeos para se dedicarem em exclusivo á apresentação de "Reality Shows", que são, hoje em dia, muito mais populares que a exibição de vídeos e que, de certa maneira, a própria MTV ajudou a criar quando exibiu o programa "The real World" em 1992. Em 2005 apareceu o "YouTube", que tornou o visionamento de vídeos online, mais rápido e mais fácil, Tal como Google Vídeos, Yahoo, Facebook, ou MySpace, que além de tecnologia vídeo, usam tecnologia similar e tiveram um profundo efeito na maneira de ver vídeos musicais e alguns grupos e artistas começaram a obter sucesso a partir de vídeos exibidos parcial ou totalmente na internet que se tornou na ferramenta principal  para as editoras e os vídeos que lançam, como o fez a Apple quando inicialmente apresentou o ITunes e este continha uma secção de vídeos musicais de alta-qualidade, que se podiam descarregar gratuitamente. Mais recentemente, o ITunes começou a vender vídeos musicais para serem utilizados em Ipods, leitores .com capacidade de reprodução de vídeo.
   Qual será o próximo estádio da evolução do vídeo musical? não sabemos...só o tempo o dirá...


Nota: Todas as imagens e vídeos utilizado neste texto foram retirados da Internet



terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Cinema Épico

 

O épico foi um género de cinema muito em voga no inicio da década de 50 do século passado. O género resumia-se a enfatizar o drama humano em grande escala. Èpicos eram filmes cujo âmbito ia muito para além de qualquer outro género, embora tenha passado por quase todos eles, a sua ambição natural ultrapassava os géneros que mais próximos lhe estavam, tais como filmes de época ou até o próprio filme de aventuras. Eram marcados por altos padrões de produção, um elenco de milhares (entre os quais obrigatoriamente tinha de haver alguns nomes sonantes do cinema), por vezes uma banda sonora avassaladora ( a maior parte das vezes era um compositor de renome na indústria cinematográfica), que colocava estes filmes entre os mais caros de produzir.  O termo épico vem da  poesia e inspirado em obras poéticas de grande fôlego como "A Ilíada",  "A Odisseia", ou "O Mahabharata", poemas de grande fôlego e drama humano.
O primeiro épico do cinema
    O chamado épico habitualmente é passado ou em tempo de guerra ou durante alguma crise social e cobre um longo espaço de tempo, em termos quer dos acontecimentos retratados e em duração. Tipicamente, estes filmes  têm uma base histórica e a maior parte das vezes o conflito central  têm consequências a longo prazo e acabam por alterar o curso da história e as acções das personagens principais são decisivas na resolução deste ou daquele conflito. O épico está entre os mais antigos géneros de cinema cujo exemplo mais antigo é "Cabiria", realizado por Giovanni Pastrone em 1914, um filme mudo de mais de três horas sobre as Guerras Púnicas e que, de certa maneira, preparou o terreno para os épicos  de D.W.Griffith  "The Birth of a Nation - O Nascimento de Uma Nação" (1915) ou "Intolerance - Intolerância" (1916).
   Foi nas décadas de 50 e 60 que o épico atingiu a sua maior popularidade, numa altura em que Hollywood colaborava frequentemente com estúdios de cinema  estrangeiros, nomeadamente os famosos estúdios da Cinecittá, em Roma, para usar localizações exóticas em Espanha, Marrocos e outros sitíos para produzir os filmes épicos. Diz-se que este auge de co-produções internacionais terminou em 1963 com o megalómano e problemático "Cleópatra" de Joseph L. Mankiewicz, apesar de outros épicos como "The Fall of the Roman Empire - A Queda do Império Romano" de Anthony Mann (1964 ) ou o fabuloso "Doctor Zhivago - Doutor Jivago" de David Lean (1965) ou ainda esse grandioso exemplo do cinema épico que é "War and Peace - Guerra e paz", realizado por Sergei Bondarchuk em 1968 na então União Soviética e que se diz ser o filme mais caro de sempre, terem sido feitos depois.
   Alguns dos mais famosos épicos da história do cinema foram chamados "Épicos Históricos e Religiosos", porque a acção dos primeiros passa-se num passado em cujos protagonistas alteraram o curso da história, principalmente aqueles que foram feitos nas décadas de 50 e 60 e que eram passados na antiguidade, particularmente em Roma, Grécia ou Egipto e cujas particularidades principais que os distinguem de outro tipo de épicos são os seus cenários extremamente elaborados e grande quantidade de extras.Tais são os casos de, por exemplo, "Quo Vadis" (Melvin Le Roy, 1951, em que o forcado português Nuno Salvação Barreto, tem o seu momento grande ao fazer uma pega de caras a um touro na cena do Coliseu); "Ben-Hur" (William Wyler, 1959); "Spartacus" (Stanley Kubrick, 1960); "Lawrence da Arábia" (David Lean, 1962), ou o já citado "Cleopatra", para só referir alguns dos mais conhecidos.
A separação das águas em "Os Dez Mandamentos"
      Os segundos tinham uma índole mais religiosa e eram baseados em histórias religiosas ou retiradas da Bíblia, do Novo e Antigo Testamentos e mantinham as mesmas bases dos primeiros mas mostravam uma vertente mais religiosa como "The Ten Commandments - Os Dez Mandamentos" (Cecil B. DeMille, 1956); "The King of Kings - O Rei dos Reis" (Nicholas Ray, 1961); "The Greatest Story Ever Told - A Maior História de Todos os Tempos"(George Stevens, 1965); ou "The Bible - A Bíblia" (John Huston, 1966)
   
   Outro tipo de épico é o chamado "Romance Épico" em que, usando na mesma um fundo histórico, o romance é utilizado como contraponto à guerra, conflito social ou polítitíco inserindo-se no mesmo contexto histórico usado. O mais famoso exemplo deste sub-género é, ainda hoje, considerado o maior clássico da história do cinema, "Gone With the Wind - E Tudo o Vento Levou", realizado em 1939 por Victor Fleming em que a história de amor entre Scarlett O'Hara (Vivian Leigh) e Rhett Butler (Clark Gable) tendo como pano de fundo a Guerra de Secessão Americana, é practicamente imortal e, mesmo depois da famosa deixa de Rhett para Scarlett ("Frankly my dear, I don't give a damm!"), inesquecível.
   Podemos incluir no épico também  os filmes de guerra que conseguem retratar grandes batalhas numa escala raramente vista quer em grandiosidade quer em rigor, indo, alguns desses filmes, ao pormenor de filmar nos próprios locais onde se deu o confronto. Aqui David Lean foi o mestre incontestado, no pormenor e rigor com que filmou a sua chamada "trilogia épica": "A Ponte do Rio Kwai" (1957), "Lawrence da Arábia" (1962) e "Doutor Jivago" (1965), que lhe granjearam  19  Oscares da Academia!.
       Outros filmes que se destacaram pela seu rigor e pormenor neste género foram, por exemplo "Seven Samurai - Os Sete Samurais" (Akira Kurosawa, 1954); "The Longest Day - O Dia mais Longo" (Bernhard Wicki, Andrew Marton e Ken Annakin, 1962); "Waterloo" (Sergei Bondarchuck, 1970); "A Bridge too Far - Uma Ponte Longe Demais" (Richard Attenborough, 1977); ou mais recentemente "Saving Private Ryan - O Resgate do Soldado Ryan" (Steven Spielberg, 1998) em que o realizador recria uma parte do desembarque na Normandia de uma maneira extremamente realista e violenta como nunca se tinha visto em cinema ou televisão e com a qual elevou o cinema, e o filme de guerra em particular, a patamares nunca antes atingidos.
   Ao longo dos mais  de 100 anos de existência do cinema, o filme épico percorreu praticamente todos os géneros, o que contribuiu para a boa aceitação por parte do público do género e a propagação do mesmo ao longo do tempo e que em pleno século XXI, alguns dos maiores sucessos de bilheteira sejam épicos, basta lembrar o sucesso e a onda de entusiasmo gerada pelos três filmes de "O Senhor dos Anéis (Peter Jackson, 2001-2003) ou "Avatar" (James Cameron, 2009) para só citar os mais recentes sucessos de bilheteira..
   O filme épico continua a ser produzido, apesar de nos dias de hoje se usarem na maior parte dos casos imagens geradas por computador em vez do exército de extras que se utilizavam há 50 ou 60 anos atrás.
   Em 2006, num daqueles raros momentos de brilhantismo cinematográfico, os filmes Épicos foram reconhecidos e consagrados quanto à sua importância, numa  montagem exibida durante a cerimónia dos Oscares desse ano.



Nota: Todas as imagens  que ilustram este texto foram retiradas da Internet

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Black Sabbath - Entre o Céu e o Inferno II

                      II - Uma Segunda Vida e as incertezas do futuro (1980 - .... )








  
   A  década de 80, viria a encontrar um Tommi Iommi desanimado e sem força para continuar o projecto Black Sabbath. Em 1979 vira-se forçado a despedir Ozzy Osbourne devido á sua forte dependência das drogas e do álcool.
   Foi Sharon Arden (futura Sra.Osbourne) quem sugeriu o nome do substituto de Osbourne para voz do grupo.  Ela indicou o nome de Ronnie James Dio, ex-vocalista do grupo Rainbow. Foi em Junho de 1979 que Dio fez os primeiros ensaios com o grupo e a escrever temas para um novo álbum. Com um estilo vocal diferente de Ozzy, o novo vocalista trouxe mudanças ao som do grupo e também nos concertos ao vivo onde Dio introduziu os "Cornos do Metal", um gesto supersticioso que, segundo o vocalista se destinava a afastar todo o Mau Olhado, e que se viria a popularizar na música, particularmente nos concertos de heavy metal.
   Sem Geezer Butler, que temporariamente saiu do grupo e foi substituido por Geoff Nicholls, o grupo entra em estúdio em Novembro de 1979 para gravar novo álbum. "Heaven and Hell" seria editado em Abril de 1980 e aclamado pela crítica e público que já desesperava por ouvir um álbum à Black Sabbath. Temas como "Neon Knights", "Die Young" ou o próprio tema-título, marcam o regresso ao mais puro som do grupo e tornaram-se emblemáticos em qualquer concerto ao lado dos outros temas do grupo, agora interpretados com outra voz e arranjos diferentes. O àlbum chegou a número 9 na Inglaterra e número 28 nos Estados Unidos. Desde "Sabotage" que um álbum do grupo não vendia tão bem. Com  novo alento, Butler regressara entretanto e Nicholls passou a dar apoio nos teclados, embarcaram numa tounée mundial a começar na Alemanha com Dio a estrear-se a 17 de Abril. Mas este estado de graça não iria durar muito tempo. Em Agosto de 1980, depois de um concerto na leg americana, Bill Ward é despedido do grupo por dependência do álcool e substituído durante o resto da tournée por Vinnie Appice.
   Em Fevereiro de 1981, depois de terminada a tournée de "Heaven and Hell", o grupo entra em estúdio para começar a trabalhar no material do álbum seguinte.
Black Sabbath em 1980-82
     Em Outubro do mesmo ano "Mob Rules" é editado e bem recebido pelos fans, mas já a crítica olhou-o de esguelha. O álbum foi Disco de Ouro e chegou a número 10 nos tops de Inglaterra. Os  dois tema-fortes do álbum são composições de Dio, "The Sign of the Southern Cross" e "Mob Rules" reflectem o bom andamento desta nova fase do grupo. Durante todo o ano de 1982 andam em tournée e começam a pensar em gravar um álbum ao vivo.
   Em 1980 uma editora tinha pegado em algumas gravações de concertos de 1973 e tinha lançado um álbum-pirata intitulado "Live at Last" sem o conhecimento ou autorização dos membros do grupo. A verdade é que o álbum vendeu bem, apesar da fraca qualidade do som. Aproveitando alguns concertos americanos gravados e filmados durante a tournée de suporte a "Mob Rules", o grupo decide então lançar o tão aguardado álbum ao vivo. É durante o processo de misturas do álbum que as tensões entre Ronnie James Dio e Tommi Iommi, resultantes num problema de liderança em que o primeiro acusa o segundo de desonestidade para com ele relacionado com as fotografias escolhidas para ilustrar o álbum e em que o guitarrista aparecia destacado do vocalista e do resto do grupo (de resto os nomes de Tommi Iommi e Geezer Butler aparecem dum lado e os de Dio e Vinnie Appice do outro) o que, na opinião de Dio era uma completa desconsideração para consigo, aumentam e levam a que o vocalista abandone o grupo levando consigo Vinnie Appice em Novembro de 1982.
    "Live Evil" é editado em Janeiro de 1983 mas passa quase despercebido porque Ozzy Osbourne tinha editado "Speak of the Devil", um álbum ao vivo constituído unicamente por canções da sua passagem pelos Black Sabbath e que foi  Disco de Platina, cinco meses antes. "Live Evil" acaba por ser um um excelente documento da força dos Black Sabbath ao vivo e tem uma das mais bonitas e originais capas do grupo. Nela vê-se um desembarque numa praia, em  noite de tempestade, duma série de figuras que são nada mais, nada menos do que ilustrações dos temas que preenchem o álbum.
O gesto que tanta fama deu a Dio
   Mas a vida tinha de continuar e os dois membros restantes, começaram a procurar novo vocalista e dos muitos cantores que foram ouvidos, Tommi Iommi e Geezer Butler acabaram por escolher Ian Gillan, ex-vocalista dos Deep Purple em Dezembro de 1982. Era para ser um projecto musical novo, mas pressões da editora, levaram a banda a manter o nome. Em Junho de 1983, vão para estúdio, e com eles vai um regressado e sóbrio Bill Ward para a bateria mas que avisa que ainda não está devidamente preparado para suportar as pressões da estrada e na tournée seguinte será substituido por Bev Bevan, ex- Electric Light Orchestra. "Born Again", o álbum seguinte será devastado pela crítica  e recebido a medo pelo público que receia que a mistura entre Black Sabbath e Ian Gillan fosse não resulte lá muito bem. Apesar da recepção algo negativa, o álbum chegou a número 4 no top britãnico e a um mero número 39 no top americano. A tournée duraria até Março de 1984 quando Ian Gillan abandona o grupo para se juntar a uns reformulados Deep Purple. Uma vez mais Black Sababth estava sem vocalista e também sem baterista porque Bevan seguiu as mesmas pisadas de Gillan. Tommi Iommi decide dar umas merecidas férias ao grupo e dedicar-se a projectos a solo.

No Live Aid em 1985
   O grupo   voltaria a reunir-se em inúmeras ocasiões no futuro. A primeira seria a 13 de Junho de 1985 no histórico "Live Aid"de Bob Geldof e marcou a primeira vez que a formação original tocava junta desde 1978. Foram momentos de grande emoção, não só entre os músicos, como também para o público, que serviram para mostrar que , quando quisesse, Ozzy teria sempre um lugar no grupo. De volta aos seus projectos, Tommi Iommi gravou "Seventh Star", editado em Janeiro de 1986, que era inicialmente um projecto a solo mas que acabou por se tornar num álbum de Black Sabbath.
   Durante a segunda metade da década de 80 e na década de 90, o grupo nunca conseguiu manter uma formação por mais do que um ano, assim como nunca conseguiu voltar ao auge que tinha sido a década de 70.
    Entre 1987 e 1995 gravaram seis álbuns de originais com várias formações nas quais o único membro que se manteve desde o inicio foi Tommi Iommi que várias vezes deu o projecto Black Sabbath por encerrado e dedicou-se á produção e ao lançamento de outros músicos. Participou em vários álbuns de amigos, entre os quais Brian May, guitarrista  dos Queen que ainda o convidou a alinhar em palco com os restantes membros do grupo no concerto-tributo a Freddie Mercury (falecido em 1991) que teve lugar nos estádio de Wembley em 1992.
Black Sabbath em 1998 no concerto "Reunion"
     Após "Forbidden", último álbum de originais de Black Sabbath editado em 1995 e que foi um grande fracasso de vendas, Iommi suspende o projecto em 1997 para o reactivar  logo em 1998 com os restantes três elementos da formação original para uma série de concertos em Birmingham, sua cidade natal. O grupo gravou dois dos três espectáculos agendados que resultaram em  "Reunion", um duplo álbum ao vivo onde o melhor da formação original de Black Sabbath em palco veio á superfície. Foi número 11 na Inglaterra e Disco de Platina nos Estados Unidos. O tema "Iron Man" deu ao grupo o seu primeiro e único Grammy para Melhor Performance de Heavy Metal ao vivo em 2000, 30 anos depois do tema ter sido editado.  Para os fans foi o reencontro com o melhor do grupo e com um extra: o álbum trazia dois originais de estúdio o que deixava antever um novo álbum do grupo, hipótese que se manteve até meados de 2001 quando Ozzy abandona uma vez mais o grupo para ultimar temas do seu próximo álbum a solo. Caía por terra a esperança de um novo álbum do grupo.
   Em 2005 o grupo foi incluído no "Hall of Fame" da música Britânica e em 2006 entraram no "Hall of Fame do Rock" nos Estados Unidos.
    2007 viu sair a colectãnea "Black Sabbath: The Dio Years" que reunia material dos álbuns em que Ronnie James Dio tinha participado. Sanadas que estavam as questões que os tinham afastado no passado, Iommi e Dio reunem a formação desses tempos e embarcam numa nova tournée  a que chamaram "Heaven & Hell" e que decorreu durante alguns meses, no final houve especulação sobre um novo álbum do grupo que  estaria na forja já que durante os concertos o grupo tinha tocado temas inéditos. No final do ano o grupo confirma que vai entrar em estúdio e gravar um novo álbum e  a formação será a mesma dos tempos de "Heaven and Hell" e "Mob Rules".
    Em 2008 é anunciado o nome do novo álbum do grupo "The Devil You Know" e fala-se numa nova tournée . mas um processo legal interposto por Ozzy aos restantes membros do grupo por uso abusivo do nome deixa o  novo álbum em "stand-by mode" até 2010 quando se conclui o processo.
   A morte de Ronnie James Dio, ocorrida a 16 de Maio de 2010, inviabiliza a tournée e o lançamento desse último álbum e veio uma vez mais adiar  nova junção dos membros da banda.
   Apesar de terem passado por muitas formações e mudanças de estilo musical, a sua sonoridade macabra e sinistra e as suas letras negras, marcaram uma época e, contrastando com a música popular da década de 70, influenciaram muito o género e são responsáveis pelo surgimento de novos sub-géneros do heavy metal como o black metal, o doom metal ou o stone metal e foram também os primeiros a transformar música gótica num género musical,   e as bandas que surgiram depois deles dentro desses sub-géneros, sem terem recebido muito  tempo de antena nas ondas aéreas da rádio.

                                                               Grease - Um fenómeno musical fora de tempo!          Alguém disse, um ...