O Tempo passa sem parar, como um rio que corre em direcção ao mar, dissipa-se nas brumas da Memória colectiva... É o Tempo que serve a memória ou é a memória que serve o Tempo?
Os Videoclipes, como são conhecidos agora ou telediscos como se chamavam à alguns anos, são pequenos filmes ilustrados com suporte musical que na maior parte das vezes, serve para ajudar na promoção de um grupo, de uma canção ou mesmo de um álbum.
O vídeo musical tem antecedentes directos no cinema vanguardista dos anos 20 do século passado, nomeadamente as experimentações de Dziga Vertov e Walther Ruttmann, cineastas europeus que tentaram articular montagem, música e efeitos para criar um novo tipo de narrativa do meio audivisual que se afastasse da literatura e do teatro. As obras-primas que criaram "O Homem com a Camêra" e "Berlim: Sinfonia da Cidade", têm muitas semelhanças com a estética do vídeo musical dos dias de hoje.
O Filme Musical influenciou muito o vídeo musical
Durante as décadas de 30 até 50, época de ouro do filme musical e estes foram considerados como um dos grandes percursores dos vídeos musicais e muitos desses vídeos são baseados e imitam quase na perfeição a estética e a linguagem deste género cinematográfico ímpar. "Material Girl" de Madonna é um dos melhores exemplos.
Foi com os Beatles que, em meados da década de 60, se começaram a utilizar pequenos filmes que viriam a ser os percursores dos vídeoclipes. O grupo tinha muitas solicitações para se apresentarem ao vivo e como não lhes era humanamente possível ir a todas, começaram então a gravar as suas actuações e depois apresentavam-nas na televisão. Mais tarde, alguns desses vídeos começaram a assumir uma forma semelhante aos de hoje. Em 1965, o grupo começou a fazer clips (então chamados "insertos filmados"), para promover e distribuir os seus álbuns noutros países, não tendo assim que fazer aparições em público. Quando terminaram de fazer tournées, em finais de 1966, os clipes promocionais tinham-se tornado mais sofisticados. A estratégia resultou pois antes do final da década, grupos como "The Byrds", "The Doors", "Rolling Stones", "The Who", ou cantores como Bob Dylan, Joni Mitchell, o duo Sonny & Cher, entre outros, estavam também a usar esta técnica.
Em 1970, "Woodstock, realizado por Michael Wadleigh, ganha o Oscar para Melhor Documentário e as coisas mudam radicalmente. As imagens de concertos, misturadas com clips onde se utilizam truques de camera, efeitos especiais e dramatização de letras de canções, são o prato forte dos vários concertos que são filmados no inicio da década como "Joe Cocker's Mad Dogs and Englishmen, ou Pink Floyd's Live at Pomeii". Ao longo da década vai-se assistir a uma cada vez maior proliferação dos chamados "filme-concerto" em que todo o filme gira em volta de um qualquer concerto de um qualquer grupo. Aqui destaca-se "The Song Remains the Same" (Christopher Crowe, 1975) onde se assiste aos preparativos para um concerto dos Led Zeppelin e ao próprio concerto quase integral onde o realizador utiliza um truque que já Michael Wadleigh utilizara em "Woodstock": o écran tripartido, ou seja, dividido em três partes para uma melhor perspectiva do concerto; ou "The Last Waltz - A Última Valsa" (Martin Scorsese, 1978) em que o realizador filma aquele que foi o memorável último concerto do grupo "The Band", além de enorme quantidade de convidados musicais, os temas são intercalados com excertos das conversas de Scorsese com os membros do grupo, o que torna o filme uma daquelas experiências gratificantes de se assistir.
O canal responsável pelo boom dos vídeos musicais
Em 1981, o tema "Video Killed the Radio Star" dos Buggles era exibido na estreia do canal MTV, que marcou o inicio duma nova era na música que passou a dispôr de um canal que exibia música e vídeos musicais 24 horas por dia. Com esta nova ferramenta, a música popular viria a ter um papel central no mercado internacional. Foi também nesta altura que muitos realizadores saltaram para a ribalta, graças ao trabalho apurado em forma e estilo que puseram nos vídeos que realizaram, usando efeitos cada vez mais sofisticados, na mistura de vídeo e filme ou adicionando um argumento ou uma situação aos seus vídeos musicais. Ocasionalmente os vídeos eram feito de modo "não representativo", no qual o artista ou o grupo não aparecia. Bons exemplos desta forma foram os vídeos de Bruce Springsteen para o tema "Atlantic City", realizado por Arnold Levine, o tema "Under Pressure" de Queen e David Bowie, realizado por David Mallet, ou "The Chauffeur" dos Duran Duran e realizado por Ian Emes. Ao longo da década de 80, os vídeos tornaram-se parte integrante para a maior parte dos grupos e artistas de todos os quadrantes musicais, o que levou á inevitável paródia por parte de vários programas de televisão e, inclusivamente, Frank Zappa no seu estilo inconfundível e satírico, fez um tema, em 1984, a parodiar a sede dos seus contemporâneos musicais em fazer vídeos, "Be in my vídeo" desenrola-se durante um concerto de Zappa e a sua genailidade é incontestável.
"Thriller" mudou para sempre a face do vídeo musical
Porém, em 1983, a face do vídeo musical muda radicalmente e encosta-se ao cinema. Para esta mudança contribuiu inevitavelmente "Thriller" de Michael Jackson, tema-título daquele que ainda hoje é o álbum mais vendido da história da música, e que se tornou no vídeo de maior sucesso de todos os tempos. John Landis, o seu realizador, transformou uma canção de cerca de seis minutos e meio num vídeo de 14 minutos que mais parece uma curta-metragem, onde o espectador se sente como se estivesse no cinema, tal é a técnica empregue neste vídeo, onde tudo encanta e nada falta, a começar na coreografia excepcional criada pelo artista, passando pela bela, vítima da fome dos Zombies, Michael a dançar rodeado de mortos-vivos até à voz arrepiante e macabra de Vincent Price, actor veterano em produções série B de terror, que na altura custou cerca de 500.000 dólares e que estabeleceu novos valores de produção. Em 1989, Martin Scorsese seguiria as pisadas de Landis e transformaria "Bad", outro tema de Michael Jackson, numa versão moderna de "West Side Story" com cerca de 10 minutos de duração, onde reconstitui o combate que põe frente a frente os Jets e os Sharks, os gangs rivais no filme em mais uma coreografia genial idealizada pelo próprio Jackson.
A década não terminaria sem dois outros vídeos fazerem história e lançar as bases do que hoje se faz no tocante a vídeos musicais: em 1985 o tema "Money For Nothing" do grupo Dire Straits, foi pioneiro na utilização de animações gráficas computorizadas e transformou-se num enorme sucesso mundial. A grande ironia é que o tema em si faz um comentário sardónico acerca do fenómeno dos vídeos musicais, é cantado do ponto de vista de um aparelho de entregas, que se sente ao mesmo tempo atraído e repelido pelas imagens bizarras e personalidades que aparecem na MTV; um ano depois, Peter Gabriel e o seu tema "Sledgehammer" tornar-se-iam um fenómeno de enorme sucesso à escala planetária. O vídeo, ao utilizar efeitos especiais e técnicas de animação desenvolvidas de propósito para o tema, viria a ganhar nove prémios MTV.
O Vídeo Musical no Séc.XXI
Já em pleno século XXI, a MTV e outros canais semelhantes, abandonam a exibição de vídeos para se dedicarem em exclusivo á apresentação de "Reality Shows", que são, hoje em dia, muito mais populares que a exibição de vídeos e que, de certa maneira, a própria MTV ajudou a criar quando exibiu o programa "The real World" em 1992. Em 2005 apareceu o "YouTube", que tornou o visionamento de vídeos online, mais rápido e mais fácil, Tal como Google Vídeos, Yahoo, Facebook, ou MySpace, que além de tecnologia vídeo, usam tecnologia similar e tiveram um profundo efeito na maneira de ver vídeos musicais e alguns grupos e artistas começaram a obter sucesso a partir de vídeos exibidos parcial ou totalmente na internet que se tornou na ferramenta principal para as editoras e os vídeos que lançam, como o fez a Apple quando inicialmente apresentou o ITunes e este continha uma secção de vídeos musicais de alta-qualidade, que se podiam descarregar gratuitamente. Mais recentemente, o ITunes começou a vender vídeos musicais para serem utilizados em Ipods, leitores .com capacidade de reprodução de vídeo.
Qual será o próximo estádio da evolução do vídeo musical? não sabemos...só o tempo o dirá...
Nota: Todas as imagens e vídeos utilizado neste texto foram retirados da Internet
O épico foi um género de cinema muito em voga no inicio da década de 50 do século passado. O género resumia-se a enfatizar o drama humano em grande escala. Èpicos eram filmes cujo âmbito ia muito para além de qualquer outro género, embora tenha passado por quase todos eles, a sua ambição natural ultrapassava os géneros que mais próximos lhe estavam, tais como filmes de época ou até o próprio filme de aventuras. Eram marcados por altos padrões de produção, um elenco de milhares (entre os quais obrigatoriamente tinha de haver alguns nomes sonantes do cinema), por vezes uma banda sonora avassaladora ( a maior parte das vezes era um compositor de renome na indústria cinematográfica), que colocava estes filmes entre os mais caros de produzir. O termo épico vem da poesia e inspirado em obras poéticas de grande fôlego como "A Ilíada", "A Odisseia", ou "O Mahabharata", poemas de grande fôlego e drama humano.
O primeiro épico do cinema
O chamado épico habitualmente é passado ou em tempo de guerra ou durante alguma crise social e cobre um longo espaço de tempo, em termos quer dos acontecimentos retratados e em duração. Tipicamente, estes filmes têm uma base histórica e a maior parte das vezes o conflito central têm consequências a longo prazo e acabam por alterar o curso da história e as acções das personagens principais são decisivas na resolução deste ou daquele conflito. O épico está entre os mais antigos géneros de cinema cujo exemplo mais antigo é "Cabiria", realizado por Giovanni Pastrone em 1914, um filme mudo de mais de três horas sobre as Guerras Púnicas e que, de certa maneira, preparou o terreno para os épicos de D.W.Griffith "The Birth of a Nation - O Nascimento de Uma Nação" (1915) ou "Intolerance - Intolerância" (1916).
Foi nas décadas de 50 e 60 que o épico atingiu a sua maior popularidade, numa altura em que Hollywood colaborava frequentemente com estúdios de cinema estrangeiros, nomeadamente os famosos estúdios da Cinecittá, em Roma, para usar localizações exóticas em Espanha, Marrocos e outros sitíos para produzir os filmes épicos. Diz-se que este auge de co-produções internacionais terminou em 1963 com o megalómano e problemático "Cleópatra" de Joseph L. Mankiewicz, apesar de outros épicos como "The Fall of the Roman Empire - A Queda do Império Romano" de Anthony Mann (1964 ) ou o fabuloso "Doctor Zhivago - Doutor Jivago" de David Lean (1965) ou ainda esse grandioso exemplo do cinema épico que é "War and Peace - Guerra e paz", realizado por Sergei Bondarchuk em 1968 na então União Soviética e que se diz ser o filme mais caro de sempre, terem sido feitos depois.
Alguns dos mais famosos épicos da história do cinema foram chamados "Épicos Históricos e Religiosos", porque a acção dos primeiros passa-se num passado em cujos protagonistas alteraram o curso da história, principalmente aqueles que foram feitos nas décadas de 50 e 60 e que eram passados na antiguidade, particularmente em Roma, Grécia ou Egipto e cujas particularidades principais que os distinguem de outro tipo de épicos são os seus cenários extremamente elaborados e grande quantidade de extras.Tais são os casos de, por exemplo, "Quo Vadis" (Melvin Le Roy, 1951, em que o forcado português Nuno Salvação Barreto, tem o seu momento grande ao fazer uma pega de caras a um touro na cena do Coliseu); "Ben-Hur" (William Wyler, 1959); "Spartacus" (Stanley Kubrick, 1960); "Lawrence da Arábia" (David Lean, 1962), ou o já citado "Cleopatra", para só referir alguns dos mais conhecidos.
A separação das águas em "Os Dez Mandamentos"
Os segundos tinham uma índole mais religiosa e eram baseados em histórias religiosas ou retiradas da Bíblia, do Novo e Antigo Testamentos e mantinham as mesmas bases dos primeiros mas mostravam uma vertente mais religiosa como "The Ten Commandments - Os Dez Mandamentos" (Cecil B. DeMille, 1956); "The King of Kings - O Rei dos Reis" (Nicholas Ray, 1961); "The Greatest Story Ever Told - A Maior História de Todos os Tempos"(George Stevens, 1965); ou "The Bible - A Bíblia" (John Huston, 1966)
Outro tipo de épico é o chamado "Romance Épico" em que, usando na mesma um fundo histórico, o romance é utilizado como contraponto à guerra, conflito social ou polítitíco inserindo-se no mesmo contexto histórico usado. O mais famoso exemplo deste sub-género é, ainda hoje, considerado o maior clássico da história do cinema, "Gone With the Wind - E Tudo o Vento Levou", realizado em 1939 por Victor Fleming em que a história de amor entre Scarlett O'Hara (Vivian Leigh) e Rhett Butler (Clark Gable) tendo como pano de fundo a Guerra de Secessão Americana, é practicamente imortal e, mesmo depois da famosa deixa de Rhett para Scarlett ("Frankly my dear, I don't give a damm!"), inesquecível.
Podemos incluir no épico também os filmes de guerra que conseguem retratar grandes batalhas numa escala raramente vista quer em grandiosidade quer em rigor, indo, alguns desses filmes, ao pormenor de filmar nos próprios locais onde se deu o confronto. Aqui David Lean foi o mestre incontestado, no pormenor e rigor com que filmou a sua chamada "trilogia épica": "A Ponte do Rio Kwai" (1957), "Lawrence da Arábia" (1962) e "Doutor Jivago" (1965), que lhe granjearam 19 Oscares da Academia!.
Outros filmes que se destacaram pela seu rigor e pormenor neste género foram, por exemplo "Seven Samurai - Os Sete Samurais" (Akira Kurosawa, 1954); "The Longest Day - O Dia mais Longo" (Bernhard Wicki, Andrew Marton e Ken Annakin, 1962); "Waterloo" (Sergei Bondarchuck, 1970); "A Bridge too Far - Uma Ponte Longe Demais" (Richard Attenborough, 1977); ou mais recentemente "Saving Private Ryan - O Resgate do Soldado Ryan" (Steven Spielberg, 1998) em que o realizador recria uma parte do desembarque na Normandia de uma maneira extremamente realista e violenta como nunca se tinha visto em cinema ou televisão e com a qual elevou o cinema, e o filme de guerra em particular, a patamares nunca antes atingidos.
Ao longo dos mais de 100 anos de existência do cinema, o filme épico percorreu praticamente todos os géneros, o que contribuiu para a boa aceitação por parte do público do género e a propagação do mesmo ao longo do tempo e que em pleno século XXI, alguns dos maiores sucessos de bilheteira sejam épicos, basta lembrar o sucesso e a onda de entusiasmo gerada pelos três filmes de "O Senhor dos Anéis (Peter Jackson, 2001-2003) ou "Avatar" (James Cameron, 2009) para só citar os mais recentes sucessos de bilheteira..
O filme épico continua a ser produzido, apesar de nos dias de hoje se usarem na maior parte dos casos imagens geradas por computador em vez do exército de extras que se utilizavam há 50 ou 60 anos atrás.
Em 2006, num daqueles raros momentos de brilhantismo cinematográfico, os filmes Épicos foram reconhecidos e consagrados quanto à sua importância, numa montagem exibida durante a cerimónia dos Oscares desse ano.
Nota: Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet
II - Uma Segunda Vida e as incertezas do futuro (1980 - .... )
A década de 80, viria a encontrar um Tommi Iommi desanimado e sem força para continuar o projecto Black Sabbath. Em 1979 vira-se forçado a despedir Ozzy Osbourne devido á sua forte dependência das drogas e do álcool.
Foi Sharon Arden (futura Sra.Osbourne) quem sugeriu o nome do substituto de Osbourne para voz do grupo. Ela indicou o nome de Ronnie James Dio, ex-vocalista do grupo Rainbow. Foi em Junho de 1979 que Dio fez os primeiros ensaios com o grupo e a escrever temas para um novo álbum. Com um estilo vocal diferente de Ozzy, o novo vocalista trouxe mudanças ao som do grupo e também nos concertos ao vivo onde Dio introduziu os "Cornos do Metal", um gesto supersticioso que, segundo o vocalista se destinava a afastar todo o Mau Olhado, e que se viria a popularizar na música, particularmente nos concertos de heavy metal.
Sem Geezer Butler, que temporariamente saiu do grupo e foi substituido por Geoff Nicholls, o grupo entra em estúdio em Novembro de 1979 para gravar novo álbum. "Heaven and Hell" seria editado em Abril de 1980 e aclamado pela crítica e público que já desesperava por ouvir um álbum à Black Sabbath. Temas como "Neon Knights", "Die Young" ou o próprio tema-título, marcam o regresso ao mais puro som do grupo e tornaram-se emblemáticos em qualquer concerto ao lado dos outros temas do grupo, agora interpretados com outra voz e arranjos diferentes. O àlbum chegou a número 9 na Inglaterra e número 28 nos Estados Unidos. Desde "Sabotage" que um álbum do grupo não vendia tão bem. Com novo alento, Butler regressara entretanto e Nicholls passou a dar apoio nos teclados, embarcaram numa tounée mundial a começar na Alemanha com Dio a estrear-se a 17 de Abril. Mas este estado de graça não iria durar muito tempo. Em Agosto de 1980, depois de um concerto na leg americana, Bill Ward é despedido do grupo por dependência do álcool e substituído durante o resto da tournée por Vinnie Appice.
Em Fevereiro de 1981, depois de terminada a tournée de "Heaven and Hell", o grupo entra em estúdio para começar a trabalhar no material do álbum seguinte.
Black Sabbath em 1980-82
Em Outubro do mesmo ano "Mob Rules" é editado e bem recebido pelos fans, mas já a crítica olhou-o de esguelha. O álbum foi Disco de Ouro e chegou a número 10 nos tops de Inglaterra. Os dois tema-fortes do álbum são composições de Dio, "The Sign of the Southern Cross" e "Mob Rules" reflectem o bom andamento desta nova fase do grupo. Durante todo o ano de 1982 andam em tournée e começam a pensar em gravar um álbum ao vivo.
Em 1980 uma editora tinha pegado em algumas gravações de concertos de 1973 e tinha lançado um álbum-pirata intitulado "Live at Last" sem o conhecimento ou autorização dos membros do grupo. A verdade é que o álbum vendeu bem, apesar da fraca qualidade do som. Aproveitando alguns concertos americanos gravados e filmados durante a tournée de suporte a "Mob Rules", o grupo decide então lançar o tão aguardado álbum ao vivo. É durante o processo de misturas do álbum que as tensões entre Ronnie James Dio e Tommi Iommi, resultantes num problema de liderança em que o primeiro acusa o segundo de desonestidade para com ele relacionado com as fotografias escolhidas para ilustrar o álbum e em que o guitarrista aparecia destacado do vocalista e do resto do grupo (de resto os nomes de Tommi Iommi e Geezer Butler aparecem dum lado e os de Dio e Vinnie Appice do outro) o que, na opinião de Dio era uma completa desconsideração para consigo, aumentam e levam a que o vocalista abandone o grupo levando consigo Vinnie Appice em Novembro de 1982.
"Live Evil" é editado em Janeiro de 1983 mas passa quase despercebido porque Ozzy Osbourne tinha editado "Speak of the Devil", um álbum ao vivo constituído unicamente por canções da sua passagem pelos Black Sabbath e que foi Disco de Platina, cinco meses antes. "Live Evil" acaba por ser um um excelente documento da força dos Black Sabbath ao vivo e tem uma das mais bonitas e originais capas do grupo. Nela vê-se um desembarque numa praia, em noite de tempestade, duma série de figuras que são nada mais, nada menos do que ilustrações dos temas que preenchem o álbum.
O gesto que tanta fama deu a Dio
Mas a vida tinha de continuar e os dois membros restantes, começaram a procurar novo vocalista e dos muitos cantores que foram ouvidos, Tommi Iommi e Geezer Butler acabaram por escolher Ian Gillan, ex-vocalista dos Deep Purple em Dezembro de 1982. Era para ser um projecto musical novo, mas pressões da editora, levaram a banda a manter o nome. Em Junho de 1983, vão para estúdio, e com eles vai um regressado e sóbrio Bill Ward para a bateria mas que avisa que ainda não está devidamente preparado para suportar as pressões da estrada e na tournée seguinte será substituido por Bev Bevan, ex- Electric Light Orchestra. "Born Again", o álbum seguinte será devastado pela crítica e recebido a medo pelo público que receia que a mistura entre Black Sabbath e Ian Gillan fosse não resulte lá muito bem. Apesar da recepção algo negativa, o álbum chegou a número 4 no top britãnico e a um mero número 39 no top americano. A tournée duraria até Março de 1984 quando Ian Gillan abandona o grupo para se juntar a uns reformulados Deep Purple. Uma vez mais Black Sababth estava sem vocalista e também sem baterista porque Bevan seguiu as mesmas pisadas de Gillan. Tommi Iommi decide dar umas merecidas férias ao grupo e dedicar-se a projectos a solo.
No Live Aid em 1985
O grupo voltaria a reunir-se em inúmeras ocasiões no futuro. A primeira seria a 13 de Junho de 1985 no histórico "Live Aid"de Bob Geldof e marcou a primeira vez que a formação original tocava junta desde 1978. Foram momentos de grande emoção, não só entre os músicos, como também para o público, que serviram para mostrar que , quando quisesse, Ozzy teria sempre um lugar no grupo. De volta aos seus projectos, Tommi Iommi gravou "Seventh Star", editado em Janeiro de 1986, que era inicialmente um projecto a solo mas que acabou por se tornar num álbum de Black Sabbath.
Durante a segunda metade da década de 80 e na década de 90, o grupo nunca conseguiu manter uma formação por mais do que um ano, assim como nunca conseguiu voltar ao auge que tinha sido a década de 70.
Entre 1987 e 1995 gravaram seis álbuns de originais com várias formações nas quais o único membro que se manteve desde o inicio foi Tommi Iommi que várias vezes deu o projecto Black Sabbath por encerrado e dedicou-se á produção e ao lançamento de outros músicos. Participou em vários álbuns de amigos, entre os quais Brian May, guitarrista dos Queen que ainda o convidou a alinhar em palco com os restantes membros do grupo no concerto-tributo a Freddie Mercury (falecido em 1991) que teve lugar nos estádio de Wembley em 1992.
Black Sabbath em 1998 no concerto "Reunion"
Após "Forbidden", último álbum de originais de Black Sabbath editado em 1995 e que foi um grande fracasso de vendas, Iommi suspende o projecto em 1997 para o reactivar logo em 1998 com os restantes três elementos da formação original para uma série de concertos em Birmingham, sua cidade natal. O grupo gravou dois dos três espectáculos agendados que resultaram em "Reunion", um duplo álbum ao vivo onde o melhor da formação original de Black Sabbath em palco veio á superfície. Foi número 11 na Inglaterra e Disco de Platina nos Estados Unidos. O tema "Iron Man" deu ao grupo o seu primeiro e único Grammy para Melhor Performance de Heavy Metal ao vivo em 2000, 30 anos depois do tema ter sido editado. Para os fans foi o reencontro com o melhor do grupo e com um extra: o álbum trazia dois originais de estúdio o que deixava antever um novo álbum do grupo, hipótese que se manteve até meados de 2001 quando Ozzy abandona uma vez mais o grupo para ultimar temas do seu próximo álbum a solo. Caía por terra a esperança de um novo álbum do grupo.
Em 2005 o grupo foi incluído no "Hall of Fame" da música Britânica e em 2006 entraram no "Hall of Fame do Rock" nos Estados Unidos.
2007 viu sair a colectãnea "Black Sabbath: The Dio Years" que reunia material dos álbuns em que Ronnie James Dio tinha participado. Sanadas que estavam as questões que os tinham afastado no passado, Iommi e Dio reunem a formação desses tempos e embarcam numa nova tournée a que chamaram "Heaven & Hell" e que decorreu durante alguns meses, no final houve especulação sobre um novo álbum do grupo que estaria na forja já que durante os concertos o grupo tinha tocado temas inéditos. No final do ano o grupo confirma que vai entrar em estúdio e gravar um novo álbum e a formação será a mesma dos tempos de "Heaven and Hell" e "Mob Rules".
Em 2008 é anunciado o nome do novo álbum do grupo "The Devil You Know" e fala-se numa nova tournée . mas um processo legal interposto por Ozzy aos restantes membros do grupo por uso abusivo do nome deixa o novo álbum em "stand-by mode" até 2010 quando se conclui o processo.
A morte de Ronnie James Dio, ocorrida a 16 de Maio de 2010, inviabiliza a tournée e o lançamento desse último álbum e veio uma vez mais adiar nova junção dos membros da banda.
Apesar de terem passado por muitas formações e mudanças de estilo musical, a sua sonoridade macabra e sinistra e as suas letras negras, marcaram uma época e, contrastando com a música popular da década de 70, influenciaram muito o género e são responsáveis pelo surgimento de novos sub-géneros do heavy metal como o black metal, o doom metal ou o stone metal e foram também os primeiros a transformar música gótica num género musical, e as bandas que surgiram depois deles dentro desses sub-géneros, sem terem recebido muito tempo de antena nas ondas aéreas da rádio.
Quando se fala de Hard Rock ou na sua mutação seguinte, o Heavy Metal, o nome de Black Sabbath é muitas vezes citado, ao lado do dos Led Zeppelin ou até dos Deep Purple, como sendo um dos grupos pioneiros que ajudaram a definir o género.
O embrião dos Black Sabbath surgiu em 1966 em Aston, Birmingham, na Inglaterra. Tony Iommi, guitarrista e Bill Ward, baterista, cruzam-se com Ozzy Osbourne, um antigo colega de Iommi. Ao saberem que ele cantava, resolvem, os três, formar uma banda musical. Juntamente com outros dois amigos, com quem Ozzy costumava tocar nos pubs, formam os "Polka Tulk Blues Band", ao fim de algum tempo, encurtam o nome para "Polka Turk" que se transforma, mais tarde, nos "Earth". Mas, em 1969, descobrem que estão a ser confundidos com outro grupo e decidem, uma vez mais, mudar de nome.
A Origem do nome do grupo
A escolha do novo nome partiu de Geezer Butler, baixista, que entrara para o grupo ainda na altura dos "Polka Turk", que vira um filme de 1963 intitulado "I Tre Volti Della Paura - As Três Faces do Medo", com Boris Karloff e realizado por Mario Bava, que fora exibido em Inglaterra com o nome de "Black Sabbath" e que, pela originalidade, foi aceite imediatamente. Inspirados pelo nome escolhido e por um sonho de Butler, em que este via um encapuçado junto da sua cama, ele e Ozzy escrevem uma canção intitulada "Black Sabbath". O tom ameaçador da música, a voz desesperada de Ozzy, associadas a uma letra sinistra, conduziram o grupo em direcção a sonoridades mais negras em contraste com o som dominante do "Flower Power", musica folk e a cultura Hippie do final da década de 60. Decidiram então focar-se nesta temática negra, numa tentativa de criar o equivalente musical aos filmes de terror.
Capa do primeiro álbum do grupo
O primeiro álbum do grupo, intitulado "Black Sabbath" foi editado a uma sexta-feira 13, em fevereiro de 1970, foi um grande sucesso, chegando a número 8 nas tabelas inglesas. temas como "Black Sabbath", "The Wizard" ou "N.I.B.", foram, por muitos, considerados como a inauguração de um rock pesado, mais original, mais denso, completamente diferente do hard/heavy que era produzido por outras bandas. A temática sombria das letras, com referências a demónios e ocultismo, não tardou a criar alguma polémica em torno do grupo e levou a que grupos associados com essas mesmas temáticas, os convidassem a participar em missas negras e outros rituais. O grupo viu-se na necessidade ir à televisão explicar que nada tinham a ver com aqueles rituais e que apenas tinham escolhido o nome por ser diferente e nos concertos todos os elementos usavam crucifixos pendurados para não serem associados a tais organizações.
Para aproveitar o sucesso obtido com o primeiro disco, após uma pequena tounée, o grupo volta ao estúdio em Junho de 1970 para gravar o segundo álbum, que só será editado em Janeiro do ano seguinte devido a questões relacionadas com o título, que inicialmente era para ser "War Pigs", cujo tema-título era uma crítica feroz à guerra do Vietname. A editora mudou o nome do álbum para "Paranoid" quase na véspera do lançamento e o tema foi escrito no último dia de gravações. Ao contrário do seu antecessor, o som do grupo virou-se para temas mais comuns como guerra ou ficção científica. Canções como "Electric Funeral", Iron Man", "War Pigs" ou o próprio "Paranoid" são representativos desta nova direcção musical e fizeram com que o álbum fosse o maior sucesso comercial do grupo.
Entre concertos de um lado e de outro do Atlãntico, o grupo entra, em Fevereiro de 1971, novamente em estúdio e grava o terceiro álbum, "Master of Reality", que é editado em Julho do mesmo ano. Este é provavelmente o álbum mais obscuro e introspectivo do grupo, num quase regresso ás temáticas de "Black Sabbath", que são mostradas em temas como "Sweet Leaf", "Lord of this World" ou "Into the Void". Surgem aqui também os primeiros temas acústicos do grupo. O álbum foi um sucesso de vendas notável e levou o grupo finalmente a uma tournée mundial, após a qual o grupo teve direito a uma férias merecidas após três anos consecutivos entre concertos e a gravação de álbuns. Porém, incapazes de estar muito tempo parados, o ano não haveria de terminar sem um novo trabalho do grupo.
O princípio da mudança sonora do grupo
"Black Sabbath Vol.4" assim se chamou o trabalho seguinte e viu a luz do dia, por entre inúmeros problemas dentro do grupo relacionados com uso e abuso de drogas, em Setembro de 1972. Chegou a aparecer com o título de "Snowblind", tema relacionado com o uso de cocaína e hoje um dos hinos do grupo, mas a companhia discográfica acabou por lhe mudar o título para "Black Sabbath Vol.4" contra vontade dos elementos do grupo, que o acharam ridículo pelo facto de não existirem os Volumes 1, 2 e 3. Recebido com algum desdém pela crítica, atingiu o Disco de Ouro por vendas acima 500.000 cópias em menos de um mês após o lançamento e foi o quarto álbum consecutivo da banda a conseguir tal facto. Com mais tempo de estúdio, o grupo pode finalmente experimentar novas texturas, como piano, cordas e orquestrações. O tema "Changes", universalmente ligado ao grupo foi o melhor exemplo destas novas experiências. A voz cristalina de Ozzy, acompanhado pelo piano de Spock Wall, que é um pseudónimo de Rick Wakeman, teclista do grupo Yes, fez e ainda faz as delícias dos fans. "Tomorrow's Dream", "Snowblind", "Wheels of Confusion" são alguns dos temas que pontuam neste álbum onde o grupo se mantém fiel ao seu som. "Under The Sun" é o tema que encerra o disco, é um tema magnifico com um final espectacular e denota alguma influência de Rock Progressivo. Segue-se nova tounée mundial com muitas datas nos Estados Unidos e primeiros concertos na Austrália e Nova Zelândia durante o ano de 1973. O álbum seguinte do grupo só veria a luz do dia em Dezembro...para os fans foi uma espera interminável, mas valeria bem a pena!
A Obra-Prima
Com uma série de arranjos complexos que integraram cordas e sintetizadores, envolvido numa atmosfera ainda mais tendencialmente progressiva, "Sabbath Bloody Sabbath" recebeu, pela primeira vez críticas muito positivas e foi unanimemente considerado como a obra-prima do grupo. O álbum contou novamente com a participação de Spock Wall (Rick Wakeman) em temas como "Spiral Architect", "A National Acrobact" ou "Who are You", que são marcadamente temas de Rock Progressivo, enquanto que temas como "Sabbath Bloody Sabbath" ou "Killling Yoursef to Live" mantinham viva a veia mais heavy metal do grupo. O álbum contém ainda "Fluff" a mais bonita peça instrumental do grupo. O álbum foi um triunfo absoluto para o grupo, além de chegarem ao "Disco de Platina", com mais de um milhão de venda a nível internacional, o álbum foi número quatro em Inglaterra e número onze nos Estados Unidos. O grupo nunca mais conseguiu igualar este álbum que é considerado um dos 100 melhores álbuns da história do rock.
Em 1975, depois duma extensa tounée mundial que durou todo o ano de 1974 e onde se revelaram as primeiras querelas dentro do grupo, entraram em estúdio para gravar novo álbum. Desta vez queriam fazer algo diferente, queriam um álbum de rock puro e duro. Assim nasceu "Sabotage" que, apesar de manter o grupo na boa opinião dos críticos e de alguns temas fortes como "Am I Going Insane", "Hole in the Sky" ou "Symptom of the Universe", não foi mais longe que um modesto número 20 em ambos os lados do Atlântico, a que uma tounée encurtada por um acidente de mota de Ozzy, também não ajudou.
1976 viu nascer "Techical Ecstacy" com o qual o grupo pretendia redimir-se do fracasso que fora o álbum anterior. Mas parecia que o grupo tinha perdido o som agressivo e sombrio que caracterizara os primeiros álbuns em troca de uma maior utilização de sintetizadores e um som mais flexível, do qual só se aproveitou o tema "Dirty Women" e a surpresa que é ouvir Bill Ward a cantar o tema "It's Alright". Pela segunda vez na sua carreira, o grupo não consegue atingir Disco de Ouro. Mesmo assim entre Novembro de 1976 e Abril de 1977, o grupo faz concertos na Europa e estados Unidos. Com cisões cada vez maiores dentro do grupo e enquanto ensaiavam para o que seria o seu próximo álbum, Ozzy Osboune abandona o grupo devido a problema pessoas, familiares e a uma cada vez maior dependência de álcool e drogas deixando temporariamente os Black Sabbath sem vocalista e á deriva . Dave walker, ex-vocalista dos Fleetwood Mac, é contratado em Outubro de 1977 para substituir Osbourne e o grupo recomeça a trabalhar em novas canções. Mas em Janeiro de 1978 um arrependido Ozzy regressa, três dias apenas antes do grupo entrar em estúdio para gravar um novo álbum.
O grupo passou então cinco meses consecutivos em estúdio a gravar "Never say Die!" que foi lançado em Setembro de 1978 contra uma resposta negativa quer da crítica quer do público que consideraram o álbum um desvio absoluto do som que o grupo tinha, apesar de temas como "Junior's Eyes", "Hard Road" ou o tema -título, o único a fazer justiça ao bom nome do grupo e levaria mais de 20 anos até o álbum receber "Disco de Ouro". A tounée de suporte ao álbum começara em Maio e duraria até Dezembro, mas eram visíveis as tensões dentro do grupo com Ozzy cada vez mais afastado dos restantes membros e com os quais faria um último concerto no Novo México a 11 de Dezembro. Em 1979 Ozzy foi despedido do grupo por uso abusivo de drogas e álcool. Era o fim anunciado de um dos grupos mais marcantes da música.
(Continua)
Nota: Todas as imagens vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet
Quando nada o fazia prever...eis que 16 anos depois de "O Padrinho Parte II", surge a terceira parte daquele que já era um diptíco incontornável na história do cinema...16 anos depois de um dos mais belos planos de solidão de um ser humano (Michael Corleone sentado numa cadeira no meio de um silêncio total), ficamos a saber qual vai ser o destino da familia Corleone. Mas este não foi um parto fácil. No tempo que passou, a ideia de um terceiro capítulo esteve sempre presente na mente dos cabecilhas dos estúdios da Paramount e várias foram as tentativas de fazer Coppola regressar ao tema e este resistiu sempre. Mesmo antes do seu regresso, todo o processo de criação foi tortuoso e sofreu inúmeros reveses.
A ideia tomou forma em Julho de 1977 com uma ideia delineada por Michael Eisner, na altura um dos administradores da Paramount, apresentou um primeiro rascunho que rapidamente foi arquivado. O mesmo aconteceu com outro rascunho, escrito por Mario Puzo e Charles Bludhorn, outro administrador da Paramount, em 1978.
Um ano depois, Dean Riesner apresentou um argumento em que a familia Corleone, uma outra familia da Mafia e a CIA estavam em conflito aberto. Não houve qualquer desenvolvimento até 1985 quando Nicholas Gage, produtor e argumentista, reescreveu o argumento de modo a situá-lo na década de 70 com Michael a tentar legalizar o negócio da familía. Novamente a ideia presente no filme anterior ganhava aqui uma forma mais actual e tornava possível o tão ansiado novo capítulo na saga. Então, em 1986, foi pedido a Mario Puzo que escrevesse outro rascunho utilizando as ideias de Gage, o que o escritor fez.
Até 1987, nada menos que quatro rascunhos foram apresentados. Os dois primeiros, focavam a sua atenção mais na década de 30 do que no presente. Por serem semelhantes ao argumento de "O Padrinho - Parte II" foram recusados. O terceiro, fazia o contrário dos dois primeiros e também foi recusado. Finalmente, em Março de 1987, um quarto rascunho foi apresentado e aceite (não diferia muito do terceiro mas, segundo o estúdio, era bem melhor!).
No outono de 1988, Frank Mancuso, na altura administrador da Paramount,mandou chamar Francis "Ford" Coppola para conversarem sobra a possibilidade deste realizar o terceiro capítulo de "O Padrinho". Os seus últimos filmes não tinha tido o tão esperado sucesso que o realizador almejava. O seu último sucesso tinha sido "Peggy Sue got Married - Peggy Sue Casou-se" em 1986 e ele precisava dum grande sucesso. Coppola aceitou fazer o filme mas impôs condições para voltar. Uma delas era que o filme se chamasse "Mario Puzo's the Death of Michael Corleone". O estúdio recusou a ideia dizendo que o título era dúbio e considerava-o muito sombrio e negativo, preferindo o título de "Godfather - Part III" que Coppola eventualmente aceitou mesmo considerando que a saga era constituída apenas por dois filmes e que o terceiro deveria ser considerado como um epílogo que fechava a história num círculo perfeito. Durante alguns anos, Mario Puzo acalentou a ideia de um quarto filme cuja acção se situaria no início do reinado de Don Vito Corleone, mas que a sua morte, ocorrida em 1999, não deixou ver a luz do dia.
Finalmente a 27 de Novembro de 1989 começou a rodagem de "O Padrinho - Parte III" e que iria durar até Maio de 1990, num total de 125 dias, dividindo-se entre Atlanta, Nova York, os estúdios da Cineccitá em Roma (onde Fellini rodou a maior parte dos seus filmes) e Palermo. A rodagem decorreu sem sobressaltos, ao contrário do que acontecera com o primeiro filme. O resto do ano, como acontecera com os filmes anteriores, foi passado na sala de montagem para que o filme estreasse a tempo de se apresentar para a cerimónia dos Oscares.
Passaram-se quase 20 anos desde que Michael Corleone iniciou a tentativa de legitimar a sua familia mas os tempos são dificeis e as adversidades mais que muitas. Mesmo não querendo, ele vai ser de novo arrastado para a voragem da violência.
Tal como nos filmes anteriores, e para dar a ideia de continuidade, vê-se um écran escuro, surge o título "The Godfather, Part III"(embora na edição do DVD com o restauro de Coppola lançada em 2008, o inicio seja ligeiramente diferente), depois o filme abre com a última cena de "O Padrinho - Parte II", onde se vê Michael no meio da sua solidão, em seguida vemos imagens, da propriedade da familia Corleone em estado de completo abandono, que se dissolvem umas nas outras sob um céu escuro vê-se a silhueta da estátua da Virgem Maria, tudo isto ao som do famoso tema de "O Padrinho" e sobre este ouve-se a voz rouca, idosa, de Michael a falar...só depois é que percebemos que ele está a escrever uma carta aos seus filhos.
Algumas partes do filme do filme são baseadas em acontecimentos verídicos tais como o final do reinado do Papa Paulo VI ou o colapso do Banco Ambrosiano, escândalo que assolou a Cidade do Vaticano em 1982. Mas o mais assustadoramente próximo da realidade histórica é a eleição do Cardeal Lamberto (grande interpretação, embora secundária, de Raf Vallone, principalmente na cena em que escuta a confissão de Michael) como Papa João Paulo I, que sucedeu a Paulo VI, e que é encontrado morto pouco mais de um mês depois da sua eleição. O mesmo aconteceu na realidade com o verdadeiro Papa João Paulo I, que reinou apenas 33 dias antes de ser encontrado morto nos seus aposentos. Por vezes a ficção tem bases assustadoramente reais...
A Fotografia da "Famiglia" Corleone
Quase todo o elenco das duas partes anteriores regressa, excepção feita a Robert Duvall que recusou retomar o seu papel de Tom Hagen a não ser que fosse pago de igual modo que Al Pacino e Diane Keaton, o que lhe foi recusado pelos produtores, então os argumentos, para explicar a sua ausência, inventaram a sua morte e substituíram-no por um discreto mas competente George Hamilton no papel do novo "Consigliere" da familia Corleone, B.J. Harrison. Aos repetentes juntam-se os nomes de Andy Garcia, como Vincent Mancini, filho bastardo de Sonny e protegido pela tia Connie (Talia Shire, no seu melhor papel), Joe Mantegna, como Joe Zaza, um dos inimigos da família Corleone, Bridget Fonda, como Grace Hamilton, jornalista apaixonada por Vincent, Eli Wallach, veterano actor que aqui faz o papel de Don Altobello, o padrinho de Connie, entre outros.
Mas o filme pertence todo a Al Pacino. A sua interpretação é, talvez, a melhor da sua já longa carreira. Ou será que alguém consegue ficar indiferente à cena perto do final em que Michael vê a filha morrer nos seus braços, a sua expressão, o grito, que embora não se ouça, um achado brilhante do realizador, retrata toda a dor de um pai que quase não conheceu os seus filhos; inesquecível!
Sofia Coppola
Mas todas as obras-primas têm o seu senão. Aqui, ela chama-se Sofia Coppola. Para interpretar Mary Corleone, Coppola precisava de alguém que estivesse à altura do papel que é, nem mais, nem menos, o segundo mais importante do filme e ela não estava, claramente, nem à altura, nem à vontade no papel. Inicialmente várias actrizes foram considerados para o papel de Mary Corleone. Nomes como Uma Thurman, Madeleine Stowe, Diane Lane (quase uma veterana na obra do realizador), Mary Stuart Masterson, Jennifer Grey, Molly Ringwald, até Julia Roberts, fizeram testes, mas por uma ou outra razão, não ficaram com o papel. A primeira escolha acabou por ser Wynona Ryder, mas, pouco antes do inicio da rodagem, a actriz alegou um enorme cansaço psicológico e desistiu. Entrou em cena Madonna que queria interpretar o papel, mas Coppola achou que ela era velha de mais para interpretar uma rapariga de pouco mais de vinte anos. Com o calendário da rodagem a apertar, o realizador virou-se para a sua filha, Sofia, que no ano anterior colaborara com ele no argumento de um dos segmentos de "New York Stories- Histórias de Nova York", um filme a três mãos e, de resto, já participara no primeiro filme da saga (é o bebé que é baptizado no filme). A sua muita criticada interpretação resultou numa troca de impressões menos agradável entre o realizador e a imprensa e que prejudicou grandemente o filme quando estreou.
O génio por detrás da trilogia
O filme é fabuloso, com uma realização magnifica, um argumento sólido e um trabalho de montagem absolutamente estonteante principalmente na sequência da òpera montada em paralelo com a eliminação dos adversários de Michael, a fazer lembrar o primeiro filme na sequência do ajuste de contas e do baptizado. Mas Coppola é um mestre na arte de fazer cinema e demonstra-o uma vez mais na cena final do filme em que vemos Michael, muito velho, sentado numa cadeira, a pensar nas mulheres da sua vida e vêmo-lo em fases distintas da sua vida: primeiro na Sicília (Apollonia), depois no Nevada (Kay) e por fim em Nova York (Mary), e, num plano de camera afastado, vemo-lo cair da cadeira e morrer, tal como o seu pai, Don Vito e sózinho como sempre vivera.
Nomeado para sete Oscares da Academia, incluindo Melhor Filme e Melhor realizador, "O Padrinho - Parte III", ficou-se por aí mesmo, sendo derrotado por "Danças com Lobos", realizado por Kevin Costner, embora se ache que o filme ter ficado a zero no tocante a prémios, tenha sido um bocado exagerado porque existem cenas no filme que são de brilhantismo cinematográfico puro.
Assombrado pelo peso dos dois filmes anteriores, "O Padrinho Parte III", ressente-se disso em termos de temática e de estilo, acabando por não ser tão brilhante em termos técnicos como os dois primeiros filmes, não deixa, no entanto, de ser uma obra importante no cinema, um triunfo para o realizador, um epílogo, como Coppola gosta de dizer, da mais famosa trilogia sobre a Mafia da história da sétima arte...depois disto, os filmes de gangsters nunca mais foram a mesma coisa!!
Nota: As imagens e vídeos que ilustram o texto foram retirados da Internet
Tal como em "O Padrinho", o inicio desta segunda parte começa com um écran escuro e depois vemos a última cena do primeiro filme na qual se vê Michael Corleone e alguns dos seus mais próximos que o felicitam, beijando-lhe a mão e ajoelhando-se num gesto de deferência para com o "Novo Padrinho" indicando ao espectador que esta é uma continuaçao directa do primeiro filme e que devem ser vistos como um todo, antes de surgir o titulo do filme "The Godfather Part II". Coppola disse que este foi o primeiro filme a conter no seu título a indicação de "Parte II", apesar da oposição dos chefes do estúdio que estavam reluctantes em relação ao filme se chamar "O Padrinho - Parte II", alegavam que o público acharia que, uma vez que já tinham visto "O Padrinho", não faria sentido acrescentar fosse o que fosse ao filme original. O sucesso, sem precedentes e em todos os aspectos, que "O Padrinho - Parte II" iria alcançar, provaria o contrário e viria a estabelecer a tradição de em Hollywood se fazerem continuações de quase todos os tipos de filmes de sucesso ( O termo sequela só surgiria lá mais para a frente, no início da década de 80.
A principio Francis F.Coppola não queria fazer este filme. Depois de todos os problemas de produção com o primeiro filme, ele não estava muito interessado em voltar ao tema. Queria aproveitar o sucesso que o primeiro filme obtivera e regressar aos seus projectos pessoais que tinham preenchido a primeira metade da sua carreira. Antes de embarcar novamente neste projecto ambicioso, Coppola fez uma pequena obra-prima pessoal chamada "The Conversation" ( O Vigilante, 1974) sobre o mundo das escutas e até que ponto este influencia cada ser humano. Apresentado em Cannes, venceu a Palma de Ouro e colocou o realizador novamente na rota dos grandes estúdios.
Robert Evans, chefe de produção da Paramount, ofereceu a Coppola um milhão de dólares para ele realizar a continuação, Coppola recusou e sugeriu o nome de Martin Scorsese para o fazer. Mas a produção queria Coppola e, juntamente com Al Pacino, que foi decisivo nas negociações entre realizador e estúdio, pois foi quem o convenceu a regressar ao projecto, fizeram "uma proposta irrecusável" ao realizador e este ditou as suas condições: estas incluíam a não interferência do estúdio na feitura do argumento, na escolha do elenco e uma liberdade criativa completa em todos os outros aspectos da produção do filme (a manutenção do título foi uma delas). O estúdio aceitou sem grandes discussões e Coppola aceitou fazer o filme. Em boa hora isso aconteceu porque o resultado ultrapassou as expectativas.
Vito Corleone em Nova York, 1920
Com luz verde da produção, a rodagem teve inicio a 1 de Outubro de 1973, terminando a 19 de Junho de 1974. Coppola dá largas ao seu génio criativo. Escrevendo o argumento novamente com a ajuda de Mario Puzo, "Padrinho - Parte II" é, ao mesmo tempo uma continuação e um início da história (o termo próprio é prequela, mas em 1974, tal como o termo sequela, aquele ainda não existia) do primeiro filme, ambas as histórias são contadas paralelamente. Por um lado continua a história de Michael Corleone (Al Pacino), durante a década de 50, como o novo Padrinho, por outro volta ao passado, através duma série de flashbacks inseridos na narrativa, fruto de um trabalho de montagem magnífico e conta a história de Vito Corleone (Robert DeNiro) desde a sua fuga da Sicília em 1901 até à fundação da Família Corleone em Nova York. O maior momento deste filme está contido na cena final que acontece num flashback, em Dezembro de 1941, que mostra a familia reunida a preparar uma festa-surpresa para Don Vito. Sonny apresenta Carlo Rizzi à familia e principalmenta á sua irmã mais nova, Connie, com quem virá a casar. Tessio, um dos homens de confiança de Don Vito, chega e fala do ataque recente dos Japoneses a Pearl Harbor, a conversa recai sobre isso. A meio da conversa, Michael anuncia que se alistou no exército para ir combater e ficam todos chocados com a revelação. Sonny discute com o irmão, chegando mesmo a ridicularizá-lo aos olhos dos outros. Entretanto chega Don Vito que todos, menos Michael, que fica sózinho na sala, vão cumprimentar e felicitar. Inicialmente a cena era para se ver Don Vito, rodeado de todos os seus filhos. Apesar de Brando não querer regressar para filmar esta cena, Coppola manteve-a, alterando apenas a presença de Don Vito, enfatizando ainda mais a sombra do velho Don na cena
Pondo de lado a violência que caracterizara o primeiro filme, é no elenco, todo ele excepcional, que inclui novamente Al Pacino, Diane Keaton, Robert Duvall, John Cazale, Talia Shire,juntamente com nomes como Robert De Niro, Lee Straberg, Michael V. Gazzo, G.D.Spradlin, entre outros, que recai a responsabilidade de levar o filme a bom porto e isto é plenamente conseguido ao longo das mais de três horas de filme.
O destaque vai, claro, para as interpretações de Pacino e De Niro como o jovem Vito, esta última vencedora de um Oscar para o Melhor Actor Secundário.
Al Pacino ultrapassa-se com esta interpretação ao transformar-se naquilo que nunca quisera no primeiro filme: um verdadeiro monstro, como lhe diz Kay no meio duma discussão, que, após destruir a sua própria família e se desembaraçar dos seus inimigos, é um homem só e amargurado ( é absolutamente fabuloso o plano final, em que se vê Michael sentado sózinho com um olhar perdido e o único som que se ouve é o vento e folhas a voar, incorporando toda a solidão do mundo). A grande qualidade de Pacino é perfeitamente patente na cena do confronto, na casa do lago, entre Michael e Fredo (John Cazale), seu irmão mais velho, após descobrir que fora ele quem o atraiçoara: é absolutamente brilhante e violenta ao mesmo tempo, a prestação dos dois actores. A familia, de resto, tem sempre uma importância enorme nos filmes de Coppola. Desde "O Padrinho" quando Don Vito diz a Sonny, após uma reunião com Virgil Sollozzo, para nunca se opôr à família, ou quando Michael manda executar Carlo por este ter atraiçoado Sonny e, por extensão , a família, até a "O Padrinho - Parte II" quando, após anos de afastamento, Connie (Talia Shire, irmã de Coppola na vida real), jura obediência total ao irmão, ou quando Michael ordena a morte de Fredo, percebemos que a família está acima de tudo e de todos.
Tecnicamente brilhante em todos os aspectos, a segunda parte de "O Padrinho" superou o primeiro filme na bilheteira, ao fazer uns surpreendentes 193 milhões de dólares, tornando-se no segundo grande sucesso da Paramount em 1974, atrás de "Chinatown" (Roman Polanski, 1974) é hoje visto como a Melhor Sequela de sempre da história do cinema, assim como é igualmente considerado, tal como o primeiro filme, um dos Melhores Filmes de Todos os Tempos. Muitos críticos consideram-no superior ao primeiro filme, embora quando se trata de listas de "Maiores Filmes", aparece sempre depois de "O Padrinho".
Uma Obra-Prima vencedora a todos os níveis
Nomeado para 11 Oscares da Academia, "O Padrinho - Parte II" venceu seis, incluindo Melhor Realizador e Melhor Filme do Ano, sendo a única sequela a conseguir tal feito até agora. Curiosamente "The Conversation" também foi nomeado para Melhor Filme o que resultou no facto de Francis "Ford"Coppola se tornar no segundo realizador a ter dois filmes em competição para o Oscar de Melhor Filme. Antes fora Alfred Hitchcock em 1940 com "Foreign Correspondent - Correspondente de Guerra" e "Rebecca", que acabou por ganhar. Outra curiosidade neste ano foi que Coppola teve de se confrontar novamente com Bob Fosse e o seu "Lenny". Com "Cabaret" em 1972, nomeado para dez Oscares, tal como "O Padrinho", Bob Fosse ganhou oito Oscares, incluindo o de Melhor Realizador enquanto o filme de Coppola ganhou apenas três, mas um deles foi de Melhor Filme do Ano, o que não impediu a vitória de ter um sabor a derrota já que o realizador não ganhou o prémio. Em 1974 "O Padrinho - Parte II" foi o grande vencedor da noite e "Lenny" foi o grande derrotado ao não ver nenhuma das suas seis nomeações chegar ao prémio principal.
Em 1976, Francis "Ford" Coppola montou os dois filmes para apresentação na televisão, incorporando cerca de 75 minutos de cenas não incluídas nos filmes e montados por ordem cronológica. Esta versão chamou-se "The Godfather: A Novel for Television" ou "The Godfather Saga" e foi exibida na NBC em Novembro de 1977 e foi a base para uma versão mais suave, com menos violência, sexo e linguagem mais moderada, chamada "The Godfather 1902-1959: The Complete Epic". Como nenhuma destas versões está disponível no mercado, fica ao critério de cada um como quer apreciar os filmes: como um diptíco ou como uma trilogia. Em qualquer uma das formas, a minha opinião é sempre a mesma: são filmes obrigatórios!
Nota: Todos os vídeos e imagens que lustram este texto foram retirados da Internet
"Eu Acredito na América...", é com estas palavras ditas sobre um écran preto que começa a mais famosa saga criminal da história do cinema, "O Padrinho" realizado em 1972 por Francis "Ford" Coppola. Quando se falava de filmes de gangsters, de filmes sobre a Mafia, vinha-nos logo à memória James Cagney ou Edward G. Robinson, nomes a maior parte das vezes ligados a este tipo de produções nos anos 30 e 40 do século passado. Francis F. Coppola não foi a primeira escolha da Paramount para adaptar o romance de Mario Puzo, publicado em 1969, para o grande écran. Antes dele, foi feita uma aproximação a Sergio Leone, que recusou porque já tinha em mente fazer "Once Upon A Time in America - Era uma vez na América" (que só veria a luz do dia em 1983!). Peter Bogdanovich foi o nome que seguiu, mas recusou também alegando estar envolvido em "What's up Doc?". Outro nome falado terá sido o de Sam Peckinpah, que estava nas boas graças dos estúdios graças a "A Quadrilha Selvagem" (1969), um Western violento e estilizado, que fora um dos grandes sucessos da década passada, mas Robert Evans, director dos estúdios da Paramount, rejeitou este realizador alegando que o que ele faria seria transformar o filme numa carnificina. Em finais de 1970, o filme parecia condenado a nunca ver a luz do dia.
O livro que deu origem ao filme
O nome de Coppola não estava nas boas graças dos estúdios, apesar de, ao principio, mostrar vontade de o realizar, acabou por não o fazer por receio de ferir susceptibilidades com a Mafia e também devido à sua descendência Italiana e o estúdio também não fez muito esforço para o contrariar. Sómente quando ele recebeu um Oscar pelo Argumento do filme "Patton" (Franklin J. Schaffner, 1970) é que o estúdio voltou a insistir com ele e este aceitou também muito pressionado por George Lucas, a quem acabara de produzir o filme de estreia "THX 1138" (1971). O relacionamento entre o realizador e o estúdio nunca foi bom. Depois de um inicio relativamente bom, as coisas começaram a correr mal, muito por culpa do realizador, que várias vezes cometeu erros de casting e de produção levando a que produção encarecesse mais do que o estimado. Várias vezes o seu lugar esteve em risco mas que, habilmente, o realizador conseguiu contornar os muitos problemas que lhe surgiram. Inicialmente estavam previstos 83 dias de rodagem, iniciada em Março de 1971, Coppola precisou de apenas 77 para completar o trabalho, terminando em Agosto do mesmo ano. O resto do ano seria passado na sala de montagem para que o filme estivesse pronto a tempo de entrar na corrida aos Oscares.
Um dos grandes problemas do realizador foi escolher o elenco. O estúdio queria nomes como Robert Redford ou Ryan O' Neal para o papel de Michael Corleone, outros nomes como Jack Nicholson, Warren Beatty, Dustin Hoffman ou Martin Sheen, entre outros também foram considerados, até um então desconhecido Robert De Niro chegou a ser considerado para o papel, mas Coppola queria alguém que fosse italo-americano para dar mais realismo ao personagem. Foi-lhe sugerido o nome de Al Pacino que dera nas vistas em "Panic in Needle Park - Pânico em Needle Park" (Jerry Schatzberg, 1971). Como não era um nome sonante, o estúdio não o quis a principio e só quando o realizador ameaçou abandonar o projecto, é que aceitaram a escolha mas impuseram ao realizar que aceitasse Marlon Brando para o papel de Don Corleone. Inicialmente o realizador não quis Brando porque este era conhecido por muitas vezes só parecer nas filmagens quando lhe apetecia e cobrava cachets demasiado altos para os valores desta produção. Coppola acabou pro aceitar incluir o seu nome no elenco e dali para a frente nasceu uma amizade que levou a que o realizador fosse dos poucos com quem o actor trabalharia e com quem se daria bem. Outro problema que o realizador teve de enfrentar foi que ele queria fazer um filme que fosse uma metáfora sobre o capitalismo americano, e os produtores queriam um sucesso que os livrasse da dificil situação financeira em que o estúdio se encontrava e queriam algo que atraísse público. Pressionado, o realizador adicionou algumas cenas de violência para agradar aos produtores e aliviar a pressão a que estava a ser submetido
Francis F. Coppola a preparar uma cena
Antes de " O Padrinho", os filmes de gangsters apresentavam o crime organizado visto duma perspectiva fora-da-lei, banida da sociedade. O contraste entre estas produções e este filme, é que aqui ela é dada através do próprio gangster (Don Corleone), da Mafia, como uma resposta a uma sociedade corruptao que permite que Coppola, inteligentemente, utilize alguns episódios para cimentar essa mesma perspectiva: a cena em casa de Jack Woltz entre este e Tom Hagen; ou a cena em que um Johnny Fontane choroso se queixa ao seu todo poderoso padrinho ( alegadamente o visado nesta cena é Frank Sinatra que para ganhar o seu papel em "Até à Eternidade" de Fred Zinnemann em 1953, teria recorrido aos seus conhecimentos na Mafia, a história, porém, nunca foi confirmada nem desmentida). Outra imagem que o filme fez passar é que a Mafia é uma organização de contornos feudais em que o Don é, ao mesmo tempo, o protector dos pequenos e fracos, fazendo-lhes pequenos favores ou serviços e o cobrador desses mesmos serviços e protecção, (toda a cena inicial durante o casamento ou no final, quando todos se dirigem a Michael e honrosamente o tratam por Don Corleone), são bons exemplos disso mesmo.
A recepção crítica ao filme foi louvável e a do público extremamente entusiasta, que facilmente o tornou num clássico O filme é hoje visto com enorme respeito pela crítica mundial que o considera um dos maiores filmes alguma vez feitos. Numa grande votação levada a cabo no último trimestre de 2000, "O Padrinho" foi considerado o Segundo Melhor Filme de Sempre, atrás de "Citizen Kane - O Mundo a Seus Pés" ( Orson Welles, 1941). Desde os seus primeiros minutos naquilo que parece ser um monólogo e que, através de um subtil movimento de camera, percebemos que afinal alguém escuta atentamente as suas palavras, até aquele plano final, em que Kay, angustiada, percebe que o seu marido, afinal, é igual ao resto da familia, de uma porta a ser fechada, são imagens inesquecíveis, com uma força tal que, só por si, escreveram e ainda escrevem, páginas da história do cinema. A interpretação de todo um elenco principal, e secundário, encimado por Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, a realização magistral de Francis F.Coppola, o argumento de Mario Puzo e do próprio Coppola, música, hoje universalmente associada com o filme, de Nino Rota, transformaram aquele que poderia ter sido um enorme fracasso de bilheteira, num filme poderoso, inigualável e absolutamente brilhante. Um enorme triunfo em todos os campos e, ainda hoje, uma referência obrigatória sempre que se fala de cinema.
Apesar de muito violento, o filme seduz precisamente por causa dessa violência. Coppola encena as cenas de acção e violência como se duma ópera se tratasse e que atinge o seu ponto alto na sequência do baptizado em que, através duma montagem genial, assistimos à execução de todos os inimigos de Michael. Todas as cenas são uma autêntica lição de fazer cinema, ensaiadas até ao mais infímo pormenor, fazem de "O Padrinho" uma experiência cinematográfica única. Nomeado para um total de dez Oscares da Academia, "O Padrinho" venceu três, incluindo o de Melhor Filme do Ano, os outros dois foram para o Melhor Argumento Adaptado e de Melhor Actor para Marlon Brando, que o actor recusa alegando a discriminação a que os índios foram votados pelas autoridades americanas e principalmente pelo tratamento que Hollywood lhes dava. O filme venceu ainda cinco Globos de Ouro, incluindo Melhor Filme na Categoria de Drama e Melhor Realizador e inúmeros outros prémios. Referências podem ser encontradas sob as mais diversas forma desde homenagens, citações, sátiras, paródias até referências visuais ( por exemplo em "Os Sopranos" o bar de Alterne de Tony Soprano chama-se Bada Bing em homenagem a uma frase utilizada por Sonny Corleone em "O Padrinho") onde se percebe quão influente foi o filme desde a sua estreia até ao século XXI. Uma Obra-Prima intemporal.
Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet