quarta-feira, 22 de junho de 2011

Asia - De Asia a Omega...30 anos de carreira!

Nota: Este texto refere-se apenas à formação original do grupo e todas as imagens e vídeos utilizados foram retirados da Internet


   No inicio da década de 80 do século passado, no panorama musical adivinhava-se uma mudança. O Punk dissolvera-se na New Wave e esta quase que já desaparecera, os Neo-Romãnticos perfilavam-se no horizonte, uma nova vaga de rock progressivo (agora com o nome de rock sinfónico) começava a espreitar numa tentativa de recuperar o terreno que perdera durante a segunda metade da década de 70.
   Em 1981 John Kalodner, homem forte da editora A&M, e David Geffen, director da recém-nascida Geffen Records, fazem planos para formar um supergrupo de rock que abale o panorama musical. Juntam então John Wetton e Steve Howe a quem pedem que escrevam temas para um álbum. Em breve juntão-se-lhes Carl Palmer e Geoff Downes e era preciso um nome atractivo. Do nada surgiu a designação "Asia" que reuniu o consenso dos quatro músicos, todos eles oriundos da mesma área musical: John Wetton vinha dos King Crimson, mas antes tocara nos Uriah Heep, nos Roxy-Music e nos Wishbone Ash; Steve Howe vinha dos Yes; Geoff Downes tocara nos Buggles e nos Yes; finalmente Carl Palmer tocara com Crazy World of Arthur Brown, Atomic Rooster e em Emerson Lake and Palmer.
   O primeiro álbum do grupo surge em 1982, chamava-se apenas "Asia". Uma capa simples desenhada por Roger Dean, um dos melhores ilustradores de sempre e responsável pelas capas dos álbuns de Yes, Uriah Heep, Rick Wakeman, entre outros, uma série de temas, hoje clássicos, como "Heat of the Moment", "Sole Survivor", "Only Time will Tell" ou "Wildest Dreams".O álbum  obteve considerável sucesso, esteve nove semanas consecutivas em número1 e vendeu mais de cinco milhões de cópias e encorajarou o grupo a continuar e a trabalhar num novo disco. 
   "Alpha" assim se chamou o álbum seguinte e foi ainda mais ambicioso que o primeiro. Uma capa graficamente bela e extremamente atractiva ( talvez a melhor capa da discografia do grupo, Roger Dean claro!) e uma selecção mais cuidadosa de temas onde "Don't Cry" e "The Smile has left your eyes" são os temas mais fortes, mas também "Open your eyes e "The Heat goes on" são obrigatórios em qualquer concerto do grupo. O álbum conseguiu um modesto sexto lugar no top britânico e foi recebido com alguma indiferença pelos críticos. Tal resultado nas vendas, rapidamente criou alguma tensão dentro do grupo  e começa o entra-e-sai de elementos do grupo que nunca foi devidamente explicado.
   Várias formações e vários álbuns depois, chegamos a 2006, os Asia estão a comemorar 25 anos de carreira. Downes e os outros três membros originais anunciam o seu regresso e uma tournée mundial para assinalar o seu quarto de século de existência. O sucesso é total,  nasce o CD/DVD "Asia: Fantasia live in Tokyo" que documenta os sete concertos que deram no Japão onde obtiveram as maiores audiências da tournée 2006-2007. A meio de 2007 o grupo decide entrar em estúdio e gravar novas canções, o que não acontecia desde 1983.
   Em Abril de 2008 é editado o novo álbum de nome "Phoenix" que não podia ser mais propositado, qual Fénix renascida (a capa exibe uma Fénix em frente ao logotipo do grupo), este renascer das cinzas, indicia um novo rumo  do grupo que esteve patente na tournée que começou nos Estados Unidos e estendeu-se até ao extremo oriente,  apresentando-se pela primeira vez em Portugal em Maio de 2008,  onde deram inicio à "leg" Europeia da "Phoenix World Tour", num concerto que ficou na memória de quem lá esteve (regressariam a Portugal em Junho de 2011). O passado foi revisitado nos temas antigos dos dois primeiros álbuns, assim como o presente em temas como "An Extraordinary Life", "Never Again", "Heroine" ou "I Will remember You". Para a história fica "Parallel Worlds/Vortex/Déyà" que com os seus mais de oito minutos de duração é o maior tema que os os Asia alguma vez escreveram em toda a sua existência onde todo o talento musical do grupo é perfeitamente ilustrado num tema dividido em três partes: uma vocal e duas instrumentais que completam aquele que será sem dúvida um dos melhores temas do grupo.
   O sucesso obtido na tounée  permitiu que, em 2010, o grupo fosse novamente para estúdio gravar o sucessor de "Phoenix", que se chamou "Omega" onde continua a via do sucesso,  com temas como "End   of the World", "There was a  Time" "Holy War", "I Believe" ou "Light the Way" que têm sido os temas mais tocados nos concertos.
   Qual será o futuro do grupo? o título do álbum, pode querer dizer uma de duas coisas: como é sabido Omega é a última letra do alfabeto grego e isto poderá querer dizer que é o último álbum do grupo; por outro lado, poderá ser apenas uma feliz coincidência e que o grupo ainda está para durar...só o tempo o dirá... a demonstrar pelo que se viu nos concertos nacionais, ainda teremos muito Asia nos próximos tempos!

                                                               


                                                            








sábado, 18 de junho de 2011

Morris L. West, Uma vida literária

   Desde muito novo, Morris Langlo West, nascido em 1916 em Melbourne, na Austrália, filho mais velho de seis irmãos, sentiu uma propensão para contar histórias, propensão herdada dos seus pais, principalmente da sua mãe. Durante a sua infância, enquanto estudava num colégio interno, contactou com a religião católica, através da ordem religiosa "Christian Brothers", pondo-se em contacto com o espírito religioso dessa ordem que irá servir durante algum tempo. Terminado o ensino oficial, ingressa na Universidade de Melbourne onde se licencia em 1937. Durante alguns anos dá aulas em vários locais.
   Durante a II Guerra Mundial, West serviu nas forças Australianas no Corpo de Comunicações colocado no Pacifíco sul. Foi durante esta estadia que ele escreveu o seu primeiro romance "A Moon in My Pocket" (1945), baseado nas suas experiências na ordem religiosa, que publicará sob o pseudónimo de Julian Morris, um dos vários que utilizará na sua carreira. O romance, ao questionar práticas religiosas, tornar-se á um sucesso de vendas. Depois de ser disponibilizado do exército, Morris West  foi escriturário, radialista e jornalista, profissões que desempenhou com paixão onde obteve sucesso. Em 1955 abandona a Austrália, indo viver para diversos sítios, passando pela Aústria, Itália, Inglaterra e Estados Unidos da América, para prosseguir a sua carreira de escritor.
   Após a publicação do seu primeiro romance, West sente-se motivado a prosseguir esta nova carreira  e publica, entre 1955 e 1998, mais vinte e oito romances, entre os quais se destacam "Gallows on the Sand" (O Tesouro, 1956), "The Big Story" (A Conspiração, 1957), "Devil's Advocate" (O Advogado do Diabo, 1959), "Daughter of Silence" (A Filha do Silêncio, 1961), "The Shoes of the Fisherman" (As Sandálias do Pescador, 1963), "Cassidy" (Cassidy, 1986), "The Ringmaster" (O Mestre de Cerimónias, 1991), entre outros. os seus romances venderam, no total, perto de 70 milhões de cópias em todo o mundo, estão traduzidas em inúmeras línguas, fazendo de Morris West um nome internacionalmente reconhecido.
   Abordando temas muitas vezes considerados polémicos como o nascimento de um novo Fascismo em Itália em "Salamander" (A Salamandra, 1973), a guerra do Vietname em "The Ambassador" (O Embaixador, 1965), o conflito entre Israel e os países Árabes em "Tower of Babel" ( Conflito no Médio Oriente, 1968), todos os seus livros eram percorridos por uma grande questão: quando tantas organizações usam a violência extrema para atingir os seus fins, quando e em que circunstâncias será moralmente aceitável responder com violência? West costumava dizer que todos os seus livros tratavam de um  aspecto da vida, ou seja, o dilema em que, mais tarde ou mais cedo, estamos perante uma situação daquelas que ninguém sabe o que fazer. Reflectida também em alguma da sua obra  estava a sua fé católica, principalmente nos romances religiosos em que ansiava por uma igreja onde o perdão estivesse primeiro que o castigo.
   Na sua obra encontramos também algo de ficção cientifica e de profético. No primeiro situamos "The Navigator" (O Navegante, 1976) onde uma expedição procura localizar uma ilha desconhecida onde, segunda as lendas, repousavam os grandes navegadores de outrora e "The Clowns of God" (Os Palhaços de Deus, 1981), cuja acção se passa algures no final do século XX. No segundo encontramos "The Ringmaster" (O Mestre de Cerimónia, 1991), onde West antecipa no tempo o desmembramento da União Soviética que aconteceria alguns anos depois e "The Shoes of the Fisherman" (As Sandálias do Pescador), publicado pouco tempo antes da morte do Papa João XXIII, em que em que o escritor antevê a eleição de um Papa de leste...15 anos antes disso acontecer realmente! com este livro, Morris West dava inicio à chamada "Trilogia do Vaticano" que continuou com "Os Palhaços de Deus", que conta a história de um Papa que resigna ao seu Papado por acreditar que o fim do mundo e o Segundo Advento de Cristo estão prestes a acontecer, terminando com "Lazarus" (Lázaro, 1990) em que o Papa reinante é submetido a um "bypass" e transforma-se radicalmente em outro homem.
O maior sucesso literário de Morris West
   Morris West chegou á fama mundial com " O Advogado do Diabo", que foi o seu maior sucesso de vendas. A história do processo de canonização de Giacomo Nerone, um resistente italiano massacrado pelos comunistas Italianos no final da II Guerra Mundial, venerado como um santo pelo povo da sua aldeia e da investigação levada a cabo pela Igreja Católica feita por um padre Britânico que, quer queira quer não, será o Advogado do Diabo em todo o processo, cativou o público, também a crítica literária e deu ao seu autor inúmeros prémios. Muitos estudiosos da obra do autor consideram este livro como parte integrante da série sobre o vaticano, na qual também se deve incluir "Eminence" (Eminência, 1998) com o qual West continua a sua análise do Papado e do Vaticano. Foi o último romance publicado em vida pelo autor. Faleceu em 1999 aos 83 anos de idade.
O romance inacabado de Morris West
   Em 2000 a familia do autor decide editar o seu último romance inacabado, sem nenhuma edição de modo a deixar à imaginação do leitor como é que poderia terminar. "The Last Confession" ( A Última Confissão) conta a história dos últimos dias de Giordano Bruno, um monge dominicano aprisionado e torturado pelo Santo Ofício da Inquisição. Escrito sob a forma de um diário que pretendia cobrir o último mês de vida do monge, por morte de West durante a sua escrita, acaba por só cobrir uns escassos 14 dias.   O prefácio de Thomas Keneally, uma nota do seu editor e um epílogo co-escrito pelo seu assistente e pela sua viúva terminam a obra de um dos grandes contadores de histórias do século XX.
   Morris West tinha um lema próprio, ele costumava dizer que escrevia sobre o que pensava que deveria escrever e que se uma coisa lhe interessava, então também deveria interessar a muitas outras pessoas.
Quem somos nós para questionar tal certeza?
   Também o cinema se deixou enfeitiçar pela obra de West e adaptou alguns dos seus romances para o grande écran: logo em 1965 "The Crooked Road também conhecido como The Big Story" realizado por Don Chaffey; em 1968, Michael Anderson fez a mais conhecida (e melhor ) adaptação com "As Sandálias do Pescador", seguiram-se " O Advogado do Diabo"(não confundir com o filme com o mesmo nome protagonizado por Al Pacino em 1997), realizado em 1977 por Guy Green; "Salamander" realizado em 1981 por Peter Zinner; "Naked Country" de Tim Burstall em 1984; "Second Victory" realizado por Gerald Thomas em 1987 e "Cassidy" realizado  em 1989 por Carl Schultz.
   Se exceptuarmos  o filme de Michael Anderson que, além do elenco de luxo que inclui Anthony Quinn, Laurence Olivier, David Janssen, Oskar Werner, entre outros, consegue captar o espírito do romance e da época ( a guerra fria), nenhuma das outras adaptações está ao nível dos romances do escritor que possuem características próprias e difíceis de captar para o grande écran.




Nota: todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet


  

sábado, 11 de junho de 2011

Laranja Mecânica - A Visão Profética de Stanley Kubrick

                                                                    

                                                                                             

Stanley Kubrick, um perfeccionista obsessivo
   Em 1948 um escritor inglês tinha um texto, para o qual não tinha título. Falava de um mundo futurista com uma ordem totalitária no qual falar, pensar ou agir tinha que ser feito com todo o cuidado pois o "Big Brother" estava sempre vigilante e punia todos os que se revoltassem contra o sistema. George Orwell assim se chamava o escritor, invertendo os últimos dois digítos da data, obtém o título e torna a obra, à data, profética. Entre o livro e a data surgiu "Laranja Mecãnica", onde o mundo imaginado por Orwell adquire uma outra realidade na escrita de Anthony Burgess e no olhar perfeccionista de Stanley Kubrick.
   Inglaterra, algures num futuro próximo, Alex DeLarge e os seus companheiros vagueiam ao sabor da noite espancando, violando e roubando quem se lhes cruza no caminho. Um dia Alex é apanhado pelas forças de segurança, feito prisioneiro e mais tarde será voluntário para um tratamento experimental desenvolvido pelo governo para lidar com os problemas da criminalidade. mas nem tudo corre como Alex pensara e o resultado será imprevisível.
   Brilhantemente realizado por Stanley Kubrick , "Laranja Mecânica" é baseado num livro de Anthony Burgess escrito em 1962 que retratava um bando de jovens delinquentes futuristas baseado nos "Mods" e "Rockers" que lutavam nas praias de Inglaterra no final da década de 50, principio da de 60. O romance trata simplesmente do facto desses jovens se entregarem aos seus desejos de violação, violência, drogas, roubo e outros vícios. Utilizando uma linguagem criada de propósito para o livro, Kubrick consegue, no filme, transmitir todo o sarcasmo presente nas palavras proferidas por Alex, quer em voz-off, quer nos próprios diálogos entre as personagens. O texto de Burgess parece trancrito na integra para a tela fazendo com que aquele rápidamente se tornasse num best-seller na década de 70 do século passado e termos como ultra-violência viessem a fazer parte de alguns dicionários.
   É sabido que Kubrick nunca gostou de sequelas (nem sequer gostava do termo). Na década de 80 do século passado, o realizador recusou fazer mesmo "2010" a continuação do seu mitíco "2001:Odisseia no Espaço" (1968), baseado no livro do mesmo título de Arthur C.Clarke, porque entendeu que nada mais havia a dizer sobre o assunto; o filme foi feito por Peter Hyams em 1984 e o resultado foi...para esquecer!
   Mas hà algo de "2001" em "Laranja Mecânica": atente-se na cena final de "2001" quando o bébé abre os olhos e olha na direcção da terra ao som da fabulosa fanfarra de Richard Strauss "Assim Falava Zaratrusta" e o inicio de "Laranja Mecânica" com o grande plano do olhar de Alex: este pode muito bem ser entendido como uma continuação daquele sem, no entanto, o ser efectivamente. É um contraste absoluto: o olhar sereno do bébé no final de "2001" e o olhar violento, algo malicioso de Alex no inicio de "Laranja". Stanley Kubrick alguma razão terá tido para começar "Laranja Mecãnica" com esse fabuloso grande plano inicial, sob uma voz off, que depois vai recuando progressivamente e vamos vendo o local onde Alex e os seus compinchas se encontram a beber o seu leite antes de irem para a cidade onde espancam um bêbado, lutam com um bando rival que se entretinha a violar uma jovem rapariga, roubam um carro, conduzem que nem uns doidos , assaltam a casa dum escritor, à sua frente violam-lhe a mulher e espancam-no violentamente,  num dos inícios de filme mais violentos que alguma vez se viu...o resto é história!
Stanley Kubrick e Malcolm McDowell
   Malcolm McDowell interpreta Alex, o delinquente que gosta de ultra-violência, violações e Beethoven (excelente aproveitamento musical de peças do compositor e de outros, em versões electrónicas tocadas por Wendy Carlos, que inicialmente assinou a banda sonora como Walter Carlos para não criar problemas ao realizador). O actor é absolutamente fantástico na sua composição. Foi a sua interpretação do jovem aluno rebelde numa instituição privada de ensino em Inglaterra no filme "If..." (Lindsay Anderson, 1968) que chamou a atenção do realizador que viu nele o seu Alex. Aliás toda a carreira do actor girou sempre em torno desta personagem, porque, se exceptuarmos "Calígula" (Tinto Brass, 1979) onde dá vida ao imperador romano, nada mais podemos acrescentar à sua carreira que seja sufucientemente relevante.
O cuidado com a imagem
   Usando e abusando dos grandes planos que depois se tornam médios planos até formarem uma imagem de composição (ver por exemplo a fabulosa cena nocturna do espancamento do velho no tunel ou o já citado inicio), Stanley Kubrick filma cenas inesquecíveis e de uma beleza plástica acima de qualquer reparo: além das já citadas cenas, ver por exemplo a violação da senhora dos gatos; as cenas da prisão governamental ou as cenas do tratamento a que Alex é submetido com a utilização da música de Beethoven: absolutamente violento e ao mesmo tempo irónico,  ironia que se mantém até ao final, quando Alex, depois de ter sido raptado e torturado ao som da "Gloriosa Nona Sinfonia de Beethoven", sente repúdio pela música,  tenta o suicídio que não acontece e vem o próprio ministro, que criou o Método Ludovico para o qual Alex  se voluntariou, oferecer-lhe um emprego com um bom salário em troca duma cooperação com a imprensa. Alex ouve a "Nona de Beethoven" e pensa em ter sexo com uma mulher - sorri, está mesmo curado. É livre para ser perverso novamente. Estamos  perante um "Kubrick vintage".
   O filme provou ser demasiado polémico e, no entender, de alguma imprensa Britânica, único responsável por incidentes onde alguma da sua extrema violência foi imitada por pessoas que diziam ter sido o filme que as levara a isso.  Kubrick defendeu-se dizendo "Tentar atribuir à arte qualquer responsabilidade nos acontecimentos da vida é tentar inverter as coisas...". Este argumento não resultou muito bem e o filme foi proibido de ser exibido publicamente no Reino Unido entre 1974 e 2000, já depois da morte do realizador.
   Obra-prima intemporal, "Laranja Mecânica", 40 anos depois da sua estreia, continua tão actual como então. É um filme que nos convida a refectir sobre o seu tempo e também ( e este é o grande feito do filme!) nos obriga a uma reflexão sobre o tempo em que vivemos. Impressiona ver o que o realizador conseguiu ver antes do tempo e a maneira como transpôs a sua visão para o grande écran.
Inesquecível sempre e obrigatório também.



Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

sábado, 4 de junho de 2011

Bandas Sonoras II

                                                 II - O Processo criativo da Banda Sonora

   A Partitura musical de um filme é, regra geral, fruto do trabalho de um ou mais compositores,  de acordo com as indicações do realizador e/ou produtor, habitualmente tocada por um grupo de músicos onde se incluem uma orquestra, uma banda, coro e vocalistas.
   As partituras musicais abarcam uma variedade de estilos músicais, dependendo do género de filme para a qual se está a trabalhar. Desde sempre que uma partitura musical era um trabalho orquestral com ramificações da música clássica ocidental. Desde os anos 50 que esta tendência mudou afim de incluir influências de Jazz, Pop, Rock, Blues, electrónica, além duma variedade enorme de música étnica , de modo a que uma banda sonora feita actualmente seja um híbrido de música orquestral com elementos de música electrónica.
   O compositor geralmente entra no processo criativo já perto do final da rodagem ou na altura em que o filme está na post-produção, ou seja, na sala de montagem, apesar de, em alguns casos, o compositor estar presente quando é pedido aos actores que tenham de cantar, como acontecia no tempo do musical.
Maurice Jarre e o realizador David Lean
   Ao compositor é então mostrada uma primeira versão (chamada "rough cut") do filme antes da montagem final. Em conjugação com o realizador e /ou produtor, o compositor decide sobre que tipo de música, em termos de tom e estilo, vai ser utilizada no filme. Um e outro assistem ao filme. Durante este processo, o compositor tira notas sobre quais as cenas que vão necessitar de música. Ocasionalmente, ao contrário da norma, o realizador pode montar o filme sobre música previamente composta, como o fez Sergio Leone com o final de "O Bom, o Mau e o Vilão" (1966), ou os seus filmes  "Aconteceu no Oeste" (1968) ou "Era uma Vez na América" (1983) foram montados de acordo com as bandas sonoras de Ennio Morricone, cuja amizade e colaboração com o realizador, lhe permitiu tê-las prontas muito antes das produções estarem completas. Similarmente, a montagem final de "E.T. - O Extraterrestre" (Steven Spielberg, 1982) foi feita de acordo com a banda sonora composta por John Williams, colaborador habitual do realizador. Ao que parece, Spielberg deu liberdade total ao compositor para criar a banda sonora sem o filme.
   Menos frequente é a um compositor ser pedido que componha uma banda sonora baseada nas impressões que ele (a) retirem do argumento, sem verem qualquer imagem filmada, é-lhes dada maior liberdade criativa sem haver necessidade de estarem ligados a qualquer especificação musical ou ao tom musical desta ou daquela cena, como aconteceu com o filme "Sorcerer - O Comboio do Medo" (William Friedkin, 1977) em que a música foi toda composta pelo grupo alemão Tangerine Dream sem nunca terem visto uma imagem ou uma cena  filmada, baseada apenas no argumento que o realizador lhes deu. Esta aproximação  pode ser feita pelo realizador sempre que entender que é o melhor para o seu filme e pode sempre ser inserida durante o processo de post-produção.
O Método tradicional da escrita duma partitura musical
   O método de escrita de uma partitura musical varia de compositor para compositor. Alguns preferem o método tradicional utilizando a pauta musical e, com uma caneta, vão escrevendo notas enquanto executam ao piano as ideias e alterações que vão surgindo; outros preferem escrever directamente em computador usando um equipamento sofisticado para criação de música. Em qualquer um dos métodos, o tempo que o compositor tem para criar a música varia de projecto para projecto: dependendo do tempo que possa levar a post-produção do filme, ele tem desde duas semanas a três meses para fazer o trabalho. Em circunstâncias normais, o processo de escrita, do princípio ao fim, nunca leva menos de seis semanas. Tudo isto depende do tipo de música que se quer para o filme e o que se pretende que ela mostre. Uma banda sonora pode conter centenas de combinações sonoras, de instrumentos, de vozes, pode ter a ver com o período e localização em que decorre a acção, gostos musicais das personagens. Como parte da preparação duma banda sonora, o seu autor tem que fazer uma pesquisa sobre as diferentes técnicas e géneros musicais apropriados para aquele projecto.
A Gravação duma banda sonora
   Depois da escrita, segue-se a fase do arranjo e da gravação. Aqui também varia de compositor para compositor, consoante o tipo de projecto. Mas basicamente, o arranjo pega no trabalho feito pelo compositor, escreve-se a partitura musical para cada instrumento que cada elemento da orquestra vai tocar. A maior parte das vezes, o compositor é também quem faz os arranjos da sua própria partitura podendo assim tirar partido de todo o seu trabalho. Pode dar-se o caso de  o compositor ser menos detalhado e pedir a algum orquestrador que lhe "preencha os espaços em branco", contribuindo este com alguma criatividade para dinamizar mais a banda sonora permitindo que esta se torne parte integrante do filme. Composta a música e feitos os arranjos, a partitura está pronta para ser gravada. Chega a vez da orquestra ou do grupo tocarem o material, a maior parte das vezes com o compositor a conduzir o trabalho. Esta gravação é feita em frente a um écran grande onde passa o filme ou , em alguns casos, uma série de cenas com um contador de tempo que permite ao maestro sincronizar a música com a duração das cenas no filme. Os músicos nunca são creditados no filme e, muitas vezes, nem o são no álbum resultante dessa gravação, mas esta política tem vindo a mudar.
   As bandas sonoras têm uma estrutura própria que é  traduzida em diferentes temas para as personagens, acontecimentos, ideias, objectos, etc., estes são tocados em diferentes variações, de acordo com a situação que querem mostrar, espalhadas por música incidental. O melhor exemplo desta técnica está contido nas bandas sonoras da saga de "Star Wars", compostas por  John Williams e os numerosos temas associados ás personagens como Darth Vader, Luke Skywalker, Princesa Leia Organa e muitos outros que se entrelaçam ao longo de seis filmes e seis bandas sonoras. A mesma técnica tem sido utilizada por outros compositores como Ennio Morricone ou Howard Shore na magnifica trilogia de "O Senhor dos Anéis". Casos há em que a banda sonora original é rejeitada em favor de outra composta por peças musicais já existentes. É o caso de "2001: Odisseia no Espaço" (Stanley Kubrick, 1968) em que o realizador optou por outra banda sonora em detrimento da original composta por Alex North.
   As canções habitualmente não são consideradas como fazendo parte da banda sonora de um filme. A partitura musical nunca contempla canções e deve ser considerada como um todo instrumental. Nas últimas décadas esta tendência tem vindo a modificar-se, com o advento de alguns filmes filmes "ditos musicais",  em que  canções pop ou rock, ganham alguma expressão quando o compositor escreve uma canção específica para enfatizar o tom de determinada cena. Nascem assim as bandas sonoras cujo conteúdo é  constituído por canções  inspiradas no filme ou na sua música.
   As bandas sonoras, sejam elas instrumentais ou não, têm vindo a ganhar algum espaço tanto no filme, como fora dele e, hoje em dia, com o advento dos vídeoclips  e estes a servirem de apresentação a esses mesmos filmes, é quase impossível dissociar uma do outro.


Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet
   

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Bandas Sonoras I

                                                       I - Breve história da música nos filmes

   A Banda Sonora, traduzindo do inglês "Soundtrack", refere-se, na totalidade,  ao conjunto  sonoro relacionado com um filme e estão incluídos, além da música, diálogos, som, efeitos acústicos. Para este texto, interessa apenas focar a importãncia da música no filme. A banda sonora de um filme pode incluir música original criada para o filme ou outras peças musicais como sejam canções ou excertos  de peças musicais anteriores ao filme. Pode dar-se também o caso de um tema musical, já existente, tornar-se universalmente conhecido só pelo simples facto de estar associado a um filme como por exemplo, o tema "Also Spracht Zaratrusta" (Assim Falava Zaratrusta) de Richard Strauss, hoje associado a "2001: Odisseia no Espaço" (Stanley Kubrick, 1968).
   Já em 1895, quando os irmãos Lumiére fizeram a sua famosa projecção de imagens, estas já tinham um acompanhamento musical, mas este não passava de um improviso feito por piano e raramente coincidia com a narrativa do écran. Assim foi no inicio e sómente a partir de 1910 é que se começaram a criar partituras para piano e orquestra, que criavam o clima apropriado para as cenas que passavam no écran. Mantinha-se, no entanto, o problema de sincronizar a acção com a banda sonora (o termo ainda não existia nesta altura, mas serve o seu propósito neste texto) que só seria resolvido na década seguinte quando se começou a "encomendar" os primeiros "Scores", ou seja: música incidental feita exclusivamente para determinado filme.
A Banda Sonora de um filme na década de 20
   O cinema alemão teve grande influência na altura do cinema mudo com filmes como "Os Nibelungos", de Fritz Lang (1924) ou "Metropolis" (Fritz Lang, 1927), contribuindo com bandas sonoras originais acompanhadas de orquestra completa e, no caso de "Nosferatu" (F.W.Murnau, 1922), temáticas.Alguns casos houve em que o compositor misturava, na mesma banda sonora, música de camâra e temas populares Apesar destas variantes, as bandas sonoras completas, nesta altura, ainda  eram raras. Excepção feita a Sergei Prokofiev que, juntamente com Sergei Eisenstein, um dos pais reconhecidos do cinema, criou a música de "Alexander Nevsky" e "Ivan - O Terrível", duas obras-primas cinematográficas difíceis de igualar.
   Com o advento do som, muitos realizadores quase deixaram de usar música nos seus filmes. Fritz Lang foi dos poucos que ainda a utilizou durante algum tempo, passando a utilizar todas as potencialidades que a nova invenção trouxera. Assim, em filmes como "M", onde Peter Lorre assobia uma peça criada especialmente para o filme, não existe práticamente nenhum acompanhamento musical; ou em "O Testamento do Dr.Mabuse", onde incluiu  uma peça musical que apenas se ouve no principio e no fim do filme e que serve  para enfatizar a insanidade da personagem.
   Apesar da década de 40 nada ter acrescentado, em termos de inovação técnica, às bandas sonoras, já os anos 50 viram nascer as bandas sonoras modernas influenciadas por géneros musicais já existentes  como o  Jazz. Elia Kazan, com o seu filme "Um Eléctrico chamado Desejo" (1951) e com a colaboração do compositor Alex North, deu o primeiro passo nesta modernização, ao combinar, na mesma banda sonora, elementos tão dissonantes como o Jazz e os Blues. O resultado deve ter agradado porque não tardaram a aparecer outras bandas sonoras e outros compositores a utilizar a mesma fórmula. Leonard Bernstein aplicou-a com sucesso em "Há Lodo no Cais" (Elia Kazan, 1954); Bernard Hermann, nos dez anos em que trabalhou com Alfred Hitchcock, nas bandas sonoras de filmes como "Vertigo - A Mulher que viveu duas Vezes" (1958), "Psico" (1960) ou "Os Pássaros" (1963), fez quase sempre um trabalho experimental que muito agradou ao realizador; Leonard Rosenman, na composição de "A Leste do Paraíso" (Elia Kazan, 1955) e "Fúria de Viver" (Nicholas Ray, 1955) experimentou criar música sem atonalidade e até Duke Ellington, nome maior do Jazz, ao criar uma banda sonora utilizando um formato de fusão entre Jazz tradicional e Jazz eléctrico para o filme "Anatomia de um Crime" (Otto Preminger, 1959), modernizou o panorama musical dos filmes.
A Banda Sonora como parte integrante do filme
   Nas décadas seguintes, a banda sonora dos filmes continuou a adquirir uma cada vez maior importância. Começa a ser considerada parte integrante do filme e, nalguns casos, como  em  "Lawrence da Arábia" (David Lean, 1962) ou "Doutor Jivago" (David Lean, 1965), a genialidade sonora de Maurice Jarre marca  a cadência da própria acção, com alguns temas,  como por exemplo "Missão: Impossível" (1966) composto por Lalo Schifrin, ou "Star Trek - Caminho das Estrelas" (1966) por Alexander Courage, para  televisão, adquirem uma importância tal que são indissociáveis das séries para que foram criados. Henry Mancini cria "The Pink Panther Theme"  para o filme "A Pantera Cor-de-Rosa" (Blake Edwards, 1963) que viria a ser um sucesso enorme levando à criação de um desenho animado baseado na mesma personagem cor-de-rosa. "Maestro" Ennio Morricone sai do velho continente e adquire reconhecimento mundial graças às brilhantes partituras musicais que criou para os "Western-Spaghetti"  de Sergio Leone. "James Bond-007", torna-se no agente secreto mais famoso do mundo graças ao inconfundivel tema escrito por Monty Norman (1962) e que John Barry se encarregará de perpetuar no tempo através das bandas sonoras que compôs para vários filmes da série.
   Em 1968 o álbum "Yellow Submarine" dos Beatles serve de inspiração para a realização de um filme de animação, com o mesmo nome, realizado por George Dunning, no qual o grupo apenas contribui com as canções e fazem uma aparição no final. Em 1973 "Pat Garret and Billy the Kid" integralmente composta por Bob Dylan, marca o inicio da viragem das bandas sonoras. Pela primeira vez temos um artista popular na composição de música para filmes e um primeiro grande sucesso musical intitulado "Knockin on Heaven's Door". Serão estes sucessos que irão marcar as últimas duas décadas do século XX.
John Williams
   A década de 70 verá nascer algumas das melhores bandas sonoras de sempre, fruto do trabalho apurado de compositores emblemáticos e decisivos nesta e nas décadas seguintes como Jerry Goldsmith, John Barry, Bill Conti ou o incomparável John Williams que, em 1977, com a banda sonora de "Star Wars - Guerra das Estrelas", a maior saga cinematográfica de todos os tempos, mudou para sempre a face das bandas sonoras.
   As décadas de 80 e 90 viram surgir um novo tipo de banda sonora. para além do que já existia, passou a utilizar-se um novo conceito que incluia canções inspiradas pelo filme, ou seja, as edições de bandas sonoras passaram a ser feitas de dois modos distintos: por um lado havia a banda sonora  composta por um ou mais compositores; por outro passámos a ter aquilo que se poderia considerar uma colectânea de temas de vários grupos e cantores, inspirada pelo filme e destinada a complementar a banda sonora própriamente dita e neste campo nem sempre se ganhou em qualidade. De um modo geral, a maior parte das vezes era apenas marketing destinado a atingir a maior parte do público, avesso a músicas instrumentais e muitas vezes orquestrais.
   Em muitos casos a  banda sonora de um filme é tida como uma arte menor, mas no seu melhor, são considerados trabalhos importantes dos compositores instrumentais contemporâneos na música moderna. Cada um que julgue por si!
 

   



   Nota: Os vídeos e imagens que ilustram este texto foram retirados da Internet

sábado, 21 de maio de 2011

Apocalypse Now: O Inferno segundo Francis F. Coppola


     A Guerra do Vietname deverá ter sido o acontecimento que mais marcou o cinema nas últimas três décadas do século XX. Na sua extensa filmografia, podemos encontrar os melhores e os piores exemplos dessa guerra. Mas obras marcantes, usualmente conhecidas como obras-primas, bastam apenas os dedos duma mão para as enumerar. "Apocalypse Now" é o exemplo mais marcante. É um dos filmes que vem logo à cabeça quando se fala do Vietname.
     O Capitão Benjamin Willard encontra-se de licença quando é contactado para levar a cabo uma missão perigosa. Deve ir até ao Cambodja localizar e eliminar um coronel renegado das forças especiais americanas que se entronizou no meio duma tribo local. Ao longo do percurso que faz enquanto sobe o rio, Willard estuda o seu alvo e questiona-se sobre o porquê da sua escolha.
O Cor.Lucas explica a missão a Willard
   Há uma cena logo no inicio, onde nos é apresentado o tema, à volta do qual girará todo o filme: É a cena em que Willard é levado ao comando, onde lhe é explicada, pelo Coronel Lucas (Harrison Ford num papel secundário e discreto), a missão que vai levar a cabo; estão presentes além de Lucas, um civil de nome Jerry que se percebe pertencer aos serviços secretos americanos, e o General Corman (G.D.Spradlin); a dado momento, Corman diz para Willard "...porque existe um conflito no coração de cada ser humano entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal...e o bem nem sempre triunfa (...)...todo o ser humano tem o seu ponto de ruptura...você e eu temos...Walter Kurtz atingiu o seu e óbviamente enlouqueceu..." e é precisamente sobre este conflito permanente entre o racional e o irracional que "Apocalypse Now" caminha. 
   Desde o seu inicio, com as imagens de destruição, o som das pás dos helicópteros aos quais se sobrepõe o tema "The End" dos "The Doors" e que lentamente se vão dissolvendo no som e na imagem duma ventoinha de tecto de um quarto de hotel, até às imagens finais de um Willard completamente transtornado pelo seu acto, de destruição e da imagem final de um ídolo sobre a qual se houve uma voz assombrosa a exclamar "O horror, o horror" antes do écran ficar negro e surgir o genérico final, a ténue linha entre a racionalidade do ser humano e a irracionalidade do mesmo, é perfeitamente delineada em todo o filme.
Francis Ford Coppola a pensar na solução final...
    Juntamente com a trilogia de "O Padrinho" (1972-1990), esta é outra obra-prima que Francis Ford Coppola filmou, mas a um preço que, duvido, qualquer cineasta, digno desse nome, dificilmente gostaria de pagar. Inicialmente a rodagem, que deveria demorar seis meses, demorou dois anos e meio e pelo caminho houve muita adversidade desde a mudança de actor para o papel de Willard (Coppola queria Steve McQueen que recusou, depois teve Harvey Keitel que abandonou as filmagens em conflicto com o realizador, acabou por finalmente ter Martin Sheen), as constantes alterações ao argumento, a falta de financiamento para o projecto até sets destruídos, actores hospitalizados um rol enorme de desgraças que muitas vezes fizeram perigar o projecto. A tudo isto Coppola, visionário como sempre, sobreviveu e brindou-nos com a sua visão (magnifíca) dum conflicto que mudou completamente a face da sociedade americana. 



   A sua mulher, Eleanor, que o acompanhou nesta verdadeira descida aos infernos, escreveu um livro, intitulado "Notes - On the making of Apocalypse Now" (1979)  em forma de diário onde regista, passo a passo, os avanços e recuos do filme e produziu um documentário "Hearts of Darkness: A Filmmaker's Apocalypse" (Fax Behr e George Hickenlooper, 1991) onde é  documentado com testemunhos directos de Martin Sheen, Robert Duvall, Francis F.Coppola, John Millius, ente outros, a aventura que foi filmar "Apocalypse Now".  
   Vagamente baseado no livro "Heart of Darkness" de John Conrad, escrito em 1901, cuja acção se passa no congo belga no final do séc.XIX. Coppola e John Millius aproveitaram a ideia-base e o nome das personagens e transportaram a acção para o Vietname. O livro seria adaptado em 1993 para televisão por Nicolas Roeg com John Malkovich e Tim Roth.
Marlon Brando e Martin Sheen
   Excepcionalmente bem realizado e interpretado por um elenco escolhido a dedo, encabeçado por um Marlon Brando que tem aqui a sua última grande interpretação, apesar de secundária pois só surge no último terço do filme, é hipnotizante e deixa-nos colados ao écran com os seus quase monólogos de um homem atormentado por tudo aquilo por que passou e que se sente grato por ser Willard quem o vem libertar; Martin Sheen, Frederic Forrest, o já citado Harrison Ford (cuja personagem, Lucas, nada mais é de que uma piscadela de olho ao amigo George Lucas), Dennis Hopper, com o seu visual acabado de sair de "Easy Rider" (Dennis Hopper, 1969), Laurence Fishburne completam o elenco onde nem falta Robert Duvall naquele que será talvez o seu melhor papel da sua já longa carreira. Bill Kilgore, conhecido como "Big Duke" (outra piscadela de olho do realizador desta vez a John Wayne o eterno cowboy do cinema), é quem vai pôr Willard a caminho da sua missão e para que isso aconteça, aproveita o facto do grupo do capitão incluir um antigo campeão de surf, ordena um ataque a uma aldeia para permitir que Willard comece a sua missão e satisfazer um capricho seu: fazer surf. Assim começa aquela que é a mais conhecida sequência de todo o filme e uma das melhores sequências de guerra da história do cinema.
Um filme técnicamente brilhante
     Técnicamente brilhante em termos de realização, fotografia, montagem, e superiormente interpretada por Duvall, a cena abre com a chegada do barco de Willard que vem ao encontro da 1ªDivisão aérea do 9ºde Cavalaria (uma piscadela de olho aos westerns do mestre John Ford) onde surge Kilgore, vestido a rigor como nos tempos do velho oeste, a falar mal e depressa, rápidamente ficamos cativos desta magnifica interpretação que foi completamente ignorada na cerimónia dos Óscares (não passou duma nomeação para o actor). 
Robert Duvall no melhor papel da sua carreira
   Robert Duvall, apesar do Óscar de Melhor Actor que ganharia pela sua interpretação em "Tender Mercies-Amor e Compaixão" (Bruce Beresford, 1983), será sempre recordado por esta interpretação do militar fanático por surf. Raramente se viu um papel ser interpretado com tanta convicção e credibilidade. É um dom que só alguns têm: Absolutamente fabulosa e inesquecível. Assim como também o é a sequência do ataque à aldeia onde nem sequer falta a componente musical e onde se comprova, uma vez mais, a genialidade do realizador; ao usar "A Cavalgada das Valquírias" de Richard Wagner, Coppola encontra aquilo que precisava para completar brilhantemente a sequência: a música dá um tom verdadeiramente apocaliptíco e, porque não, demencial a uma cena já por si realista que chegue. 
  Esta é daquelas cenas em que a conjugação da racionalidade e da irracionalidade do ser humano se torna mais que evidente. Coppola sabia-o e mostra-nos isso mesmo, assim como o coronel Kilgore, depois de arrasar uma aldeia para ir fazer surf, não satisfeito, manda bombardear uma floresta inteira e depois de se vangloriar de mais uma das sua acções, diz, em tom de pesar, para um espantado Willard "...sabes um dia esta guerra vai acabar": terrivelmente fabulosa. 
    Coppola gostou tanto de fazer esta sequência que ele próprio faz uma aparição no filme (é o realizador da equipa de televisão que filma o ataque dos americanos). Esta sequência marca, de certa maneira, o fim da parte racional do filme e o triunfo, se quisermos, do bem. Daqui para a frente o tom do filme torna-se mais irracional, onde não faltam cenas a comprovar isso mesmo e onde nos apercebemos também, da verdade contida nas palavras do general Corman quando fala do eterno conflicto humano.
Apresentado pela primeira vez em Cannes, onde foi mostrada uma versão incompleta, montada (que o realizador chamou "A Work in Progress")para o certame, "Apocalypse Now" ganharia a Palma de Ouro juntamente com "O Tambor" (Volker Schlondorff, 1979) e serviria para aguçar a curiosidade do público europeu que viria a tornar o filme num dos maiores sucessos de bilheteira do ano no velho continente enquanto nos estados unidos o filme estreou rodeado de polémica devido ao tempo interminável da rodagem, não passou de um modesto sucesso. 
    Nomeado para oito Óscares da Academia, o filme venceria apenas em duas categorias: Melhor Som e Melhor Fotografia. recompensa pouco modesta para um filme desta envergadura, mas como as cicatrizes da guerra ainda eram muito profundas, entende-se perfeitamente este esquecimento vetado ao filme, tendo em conta que no ano anterior "O Caçador" de Michael Cimino, ganhara os prémios mais importantes da Academia e que, seis anos mais tarde, uma outra visão, esta mais pessoal, do conflicto, viria a vencer os prémios principais da Academia. "Apocalypse Now" apareceu cedo demais e ninguém entendeu o que o realizador quis fazer.
   Em 2001, Francis Ford Coppola remontou o filme, acrescentando-lhe mais 50 minutos de cenas inéditas na versão normal. Não acrescentando nada de novo ao filme, esta versão serve apenas para projectar mais ainda uma visão já de si grandiosa. Se acreditarmos nas palavras do realizador quando fala desta versão a que chamou "Apocalypse Now Redux", percebemos que ainda não foi tudo dito acerca do filme.




 


Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Atlântida - O Continente Misterioso

   É um dos mistérios mais antigos da humanidade, a existência ou não da Atlântida.  A lenda conta que era  uma ilha ou um continente. 
   Nos diálogos de Platão, ela é uma potência naval, cuja capital se situava em "frente das Portas de Hércules" (estreito de Gibraltar), que conquistou muitas partes da Europa Ocidental e África e que, aproximadamente, em 9600 a.C. "num dia e noite de azar" se afundou no oceano Atlântico.
   Estudiosos destas coisas  dividem as suas opiniões entre o facto de Platão ter sido inspirado por antigas histórias perpetuadas na memória colectiva de antigos acontecimentos como a erupção de Thera ou a Guerra de Tróia ou então por acontecimentos contemporâneos à sua existência como a destruição de Helique em 373 a.C. ou a fracassada invasão Ateniense da Sicília entre 415 e 413 a.C.
   Platão menciona pela primeira vez a existência da Atlântida nos seus famosos diálogos "Timeu e Crítias", escritos por volta de 360 a.C., principalmente no primeiro porque, por razões desconhecidas, nunca completou o segundo. Platão conta-nos que foi Sólon, político grego, quem primeiro tomou conhecimento da existência da Atlântida, no decurso de uma das suas viagens pelo Egipto, ele ouve um sacerdote de Sais, no delta do Nilo, falar das tradições ancestrais relacionadas com uma guerra perdida nos anais do tempo entre os Atenienses e o povo atlante. Segundo o sacerdote, o povo da Atlântida viveria numa ilha localizada nos "Pilares de Heracles", onde o Mediterrâneo terminava e o Oceano começava. 
   Ela seria uma ilha rica em vegetais e minerais e não só era prolifíca em depósitos de ouro, prata, cobre, ferro, etc, como ainda era rica em "Oricalco", um metal raríssimo que brilhava como fogo. Os seus reis teriam mandado erguer pontes, canais, passagens fortificadas, os muros das cidades eram revestidos de bronze no exterior e a estanho no interior e os edifícios eram construidos em pedra branca, preta e vermelha. Pouco mais se sabe da Atlântida a não ser que a riqueza e a prosperidade do comércio e a inexpugnável defesa das suas muralhas, se tornariam a imagem de marca que passaria para o futuro.
A hipótese mais provável do destino da Atlântida
   O tema da Atlântida tem servido para diversas interpretações Alguns, mais cépticos, referem-se a ela como uma metáfora referente a uma catástrofe global (estudos recentes neste campo relacionam-na com o Dilúvio escrito no Velho Testamento), que teria sido assimilada pelas tradições orais de diversos povos e culturalmente adaptada segundo as suas próprias regras. Consideram também que a narrativa, inserida numa dada mitologia, pretendia explicar transformações geológicas e geográficas. Outros, mais dedicados ao assunto, acreditam que a Atlântida poderia ser uma mistificação da cultura minóica, que existiu na ilha de Creta até ao final do séc. XIV a.C. Os antepassados dos gregos, os micénicos, tiveram contacto com essa civilização cultural e tecnológicamente muito avançada. Com ela terão aprendido arquitectura, navegação, elementos que serão vitais na cultura helénica posterior. Dois fortes terramotos e maremotos no Mar Egeu terão destruído as cidades e os portos minóicos e a civilização Cretense rápidamente desapareceu. As suas histórias teriam ganho proporções míticas ao longos dos séculos e viriam a culminar no conto de Platão.
A mais fantástica das teorias sobre a Atlântida
   Uma das teorias mais fantásticas sobre a Atlãntida é a chamada "Teoria Extraterrestre" e que consta do seguinte: partindo da descrição apresentada por Platão, a Atlãntida seria então uma gigantesca nave espacial que teria vindo numa missão colonizadora e esteve em vários pontos do planeta onde apenas sobrevoava ou se instalava, esta seria uma das razões pelo facto de existirem relatos onde se dava conta da sua presença ora no Mediterrãneo, ora na Indonésia, ora no Atlântico, ora nos Pólos: Atlântida era sempre a mesma, quer fosse citada nas epopeias dos Egipcíos, dos Maias, dos Astecas ou até dos Sumérios. Ainda segundo esta teoria, o continente (ou nave espacial) não se afundara como sendo parte duma catástrofe global, mas sim intencionalmente por fazer parte do projecto colonizador que o seu povo realizava no planeta. Após permanecer algum tempo no fundo do mar como cidade submarina cumprindo os propósitos da sua missão, a nave partia em direcção ao espaço, provocando com a sua massa e a sua descolagem uma poderosa onda circular (Tsunami) no oceano onde estivera oculta. Os sobreviventes, após a tragédia, teriam julgado que a Atlântida se afundara quando apenas tinha voltado para o seu espaço natal...teoria fantástica, esta, sem dúvida!
Uma das prováveis localizações da Atlântida
   Existem diversas hipóteses sobre onde se situaria a Atlântida realmente e quem seriam os seus habitantes.  Algumas teorias sugerem que a Atlântida seria uma ilha sobre a Dorsal Oceãnica que teria sido destruída pelos movimentos bruscos das placas tectónicas naquela zona  (cujos cumes são Açores, Madeira, Canárias ou Cabo Verde). Esta teoria baseia-se nas coincidências existentes entre os templos construídos em forma de pirâmide na América Central e do Sul, e as pirãmides do Egipto. Essa coincidência só poderia ser explicada com a existência de um povo, no meio do oceano que separa os dois continentes e as civilizações, tecnológicamente avançado para navegar à África e á América para dividir os seus conhecimentos. Tal posição geográfica explicaria a ausência de vestígios arqueológicos sobre este povo.
   A possível existência da Atlântida foi objecto de grande discussão ao longo de toda a Antiguidade Clássica, embora seja normalmente rejeitada e ocasionalmente parodiada por autores modernos. Quase ignorada na Idade Média, a história da Atlântida foi redescoberta pelos Humanistas na Idade Moderna. A descrição de Platão inspirou trabalhos de vários escritores durante a Renascença, principalmente Roger Bacon que, com o seu ensaio "A Nova Atlântida", de 1627, descreve uma sociedade utópica a que chamou Bensalem, que ficaria localizada na Costa Oeste da América. Uma das personagens conta uma história da Atlântida muito semelhante à descrita por Platão e localiza-a na América. Bacon não especifica se se trata da América do Norte ou do Sul.
   Durante o século XIX, ideias sobre a natureza lendária da Atlântida, foram misturadas com histórias de outros continentes perdidos como Lemúria ou Mú e encontram bastante aceitação popular, principalmente aquando do lançamento do livro "Atlantis: the Antediluvian World" em 1882, escrito por Ignatius L. Donnelly, que pareceu estimular ainda mais o interesse pela lenda. Donnelly tenta fazer passar a ideia de que todas as civilizações antigas conhecidas descendiam da Atlântida, a qual ele via como uma cultura tecnológicamente sofisticada, dizendo que os Atlantes tinham inventado a pólvora e a bússola milhares de anos antes de o resto do mundo ter começado a escrever.
   O século XX também não ficaria indiferente ao fenómeno da Atlântida. Uma das primeiras referências à lenda, data de 1923 e foi feita pelo vidente Americano Edgar Cayce que sugere que ela era um continente que se estendia desde o Arquipélago dos Açores até ás Bahamas. Era uma civilização  muito desenvolvida, tinha navios e aviões movidos por uma misteriosa fonte de energia cristalizada. Ele previu que em 1968 ou 1969, partes da Atlântida iriam emergir (!). Em 1938 o conceito da Atlântida também atraiu os teóricos Nazis. Heinrich Himmler, o nº2 do partido Nazi, organiza uma expedição ao Tibet para ir em busca de "Atlantes Arianos", diz-se que o verdadeiro objectivo da expedição era localizar vestígios dos "Europides", uma raça que se dizia ser a génese do povo europeu, da qual os alemães dizem ser os verdadeiros descendentes. Já em 1934, o filósofo e escritor Julius Evola, cuja obra terá inspirado os movimentos neonazis e neofascistas no século XX, dizia que os Atlantes eram Hiperboreanos, uma raça de superhomens Nórdicos que tinha vindo do Pólo Norte.
   A localização da Atlântida no Oceano Atlãntico tem o seu quê de apelativo dada a relativa proximidade de nomes, pelo que a cultura popular gosta de a situar lá, perpetuando assim a localização original de Platão. 
   Ainda hoje, como noutros tempos, a atlântida inspira a literatura ( "A Queda da Atlântida", de Marion Zimmer Bradley; "Atlantis Found" de Clive Cussler ou "Atlãntida" de David Gibbins, para só citar alguns exemplos recentes), a banda desenhada ("O Enigma da Atlântida" de Edgar Pierre Jacobs,1957) e até o cinema ("Atlantis, the Lost Continent" de George Pal, 1961, ou "Atlântida" dos estúdios da Disney) e sempre que se fala sobre civilizações antigas perdidas, o seu nome é uma referência obrigatória e a vontade de se saber mais, continua a aumentar.


Nota: Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

sábado, 7 de maio de 2011

Blade Runner - A História de um Filme-Culto

   Desde que o cinema existe como entretenimento de massas, existiram sempre filmes marcantes e decisivos nesta ou naquela década, neste ou naquele género. Nas últimas décadas do século passado, filmes como "2001: Odisseia no Espaço" (Stanley Kubrick, 1968), as trilogias "Star Wars" (George Lucas, 1977-2005), "Matrix" (Andy & Larry Wachowski, 1999-2003), "Senhor dos Anéis" (Peter Jackson, 2001-2003), foram filmes marcantes nas diversas gerações de espectadores e na evolução do cinema. Mas talvez nenhum filme tenha ganho tanto carisma e sido tão rapidamente elevado ao estatuto de filme-culto como "Blade Runner".
   A acção situa-se em 2019 numa Los Angeles futurista. Após um motim a bordo de uma nave espacial levado a cabo por um grupo de "Replicants"  da série "Nexus-6", os mais avançados do mundo, idênticos aos humanos, mas muito mais fortes, regressam á Terra em busca do seu Criador para que este lhes aumente o tempo de vida limitado a 4 anos. Para os encontrar e "retirar" (matar) é chamado o ex-"Blade Runner",  Rick Deckard,  considerado o melhor no seu trabalho e que relutantemente aceita. O que parecia, à partida, mais uma missão para Deckard, transforma-se, a partir do momento em que conhece Rachel, numa outra busca.
   Publicado em 1968, o livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?" escrito por Philip K. Dick,  chamou desde logo as atenções pela maneira como tendo como pano de fundo uma história policial, o autor levantava questões morais sobre "o que é ser humano? o que é verdadeiro? o  que é falso?"  `as quais Rick Deckard tenta responder enquanto, um a um, vai "retirando" os "replicants". 
   No livro, a população vive em cidades decadentes, a humanidade foi quase destruída por uma guerra e ao posterior envenenamento radioctivo que destrói os genes humanos, os animais estão quase extintos , são raros e os seres humanos  são convidados a ter animais em sua posse para os poderem proteger e preservar, embora muita gente prefira ter um animal sintético por ser mais barato. No principio da história, Deckard teve uma ovelha real mas depois desta morrer, ele substitui-a por uma eléctrica.
   O autor, na altura, foi abordado por Martin Scorsese  que estava interessado em adaptar o livro para o grande écran, mas que nunca optou por o fazer. Durante a década de 70, vários produtores compraram os direitos do livro com intenção de o filmar apareceram mesmo diversos argumentos baseados na obra, mas Philip K. Dick nunca se mostrava suficientemente impressionado com o resultado. Finalmente em 1977, o argumento escrito por Hampton Francher  recebeu luz verde, mas o projecto não tinha pernas para andar.
   No inicio da década de 80, o produtor Michael Deeley interessou-se pelo argumento de Francher e convenceu o realizador Ridley Scott a utilizá-lo para fazer o seu primeiro filme americano. Scott que, anos antes, recusara o projecto, tinha acabado de abandonar a pré-produção de "Dune", queria fazer algo diferente do seu "Alien - O 8ºPassageiro" (1979), juntou-se ao projecto. Quando leu o argumento de Hampton Francher, que se focava mais nas questões ambientais do que nas questões humanas e da fé, que têm grande peso no livro, Scott  quis fazer mudanças. Francher abandona o projecto em divergência com o outro argumentista, David Peoples, que Michael Deeley tinha contratado para reescrever o seu argumento, embora tenha voltado mais tarde para contribuir com novas ideias.
   Philip K. Dick, ao tomar conhecimento deste novo desenvolvimento do projecto, ficou preocupado pois ninguém lhe tinha dito  nada acerca dum eventual filme, uma vez que ele fora muito crítico em relação ao primeiro argumento de Hampton Francher. Quando leu a revisão de David Peoples, Dick mostrou-se muito entusiasmado com o trabalho e com o resultado final para o grande écran que lhe foi mostrado pelo estúdio num visionamento particular. Agradeceu a Ridley Scott por este ter criado um mundo para o filme exactamente como ele tinha o tinha imaginado. Pouco tempo antes da estreia, Philip K. Dick morreu sem poder ver o sucesso que iria obter. O filme foi-lhe dedicado pelo realizador e pelos produtores.
Cartaz Original de 1982
   Apesar de ser primeiramente um filme de ficção científica, "Blade Runner" vai mais longe que isso, opera em múltiplos níveis quer dramáticos quer narrativos e é percorrido pelas convenções do "film noir"  dos anos 40 e 50: a mulher fatal, o protagonista-narrador ( a voz-off numa das primeiras versões para o cinema), a fotografia escura e cheia de sombras, o visual, de questionável moral, do herói (propositadamente, neste caso, usado para incluir reflexões sobre a sua humanidade). É um filme de ficção cientifíca literária cuja temática joga directamente com manipulação genética envolvida com questões filosóficas, religiosas e morais. Estes elementos temáticos providenciam uma atmosfera de incerteza ao longo do tema central de todo o filme: examinar a humanidade. Para isso é usado um teste de empatia, com perguntas acerca do tratamento a animais  designado para provocar uma resposta emocional que define quem é humano e quem não é. Enquanto os replicants mostram alguma compaixão e preocupação uns com os outros, o ser humano é mostrado como sendo  frios e sem personalidade ( as multidões que enchem as ruas de Los Angeles ao longo do filme são disso exemplo). O filme vai tão longe nesta questão que a própria humanidade de  Deckard é posta em dúvida e, através dela, somos levados a reavaliar o que é ser humano. Nem autor, nem realizador, nem argumentistas respondem a esta questão e ela tem sido tema para muitas discussões, contribuindo assim para o crescente interesse em volta do filme.
   A recepção crítica ao filme foi diversa; enquanto alguns ficaram espantados pela grandeza da visão futurista e complexidade temática do filme, outros, mais conservadores, consideram o filme uma traição ao livro ao inverter as personagens de Rick Deckard, que no livro é um homem sem moral, no filme, a sua própria moral é posta em dúvida ao questionar se o que faz é moralmente aceitável ou não e de Roy Batty, o líder dos "Replicants" que no livro não é tão vilão como parece que no filme não olha a meios para ir ao encontro do seu Criador  e atingir a  humanidade. 
Na Europa, a recepção ao filme foi calorosa e foi um dos grandes sucessos de 1982 ( em Portugal foi o 2º filme mais visto, logo a seguir a "E.T. - O Extraterrestre") e hoje  "Blade Runner" é considerado um dos melhores filmes de sempre e um dos mais influentes nas décadas de 80 e 90.
   Desde 1982 que existem ao todo sete versões de "Blade Runner" que resultaram de mudanças feitas pelos executivos dos estúdios que queriam que o filme fosse um sucesso depois do enorme investimento inicial 2, 5 milhões de dólares na pré-produção e de 21,5 milhões de dólares durante a rodagem, que era uma fortuna no início da década de 80. As diferentes versões do filme são:
- A "Workprint version" (1982, 113 minutos), exibida para testar o impacto junto do público. Em 1990      foi exibida como sendo uma "Director's Cut" sem a aprovação de Ridley Scott.
- A "Sneak Preview version", semelhante  à "Workprint version" com três cenas adicionais.
- A "Versão Original" (1982, 116 minutos),  é a mais conhecida de todas as versões. Contém as diversas alterações impostas pelos produtores, incluindo a "voz off" e o final feliz.
- A "Versão Internacional" (1982, 117 minutos), apenas estreada e exibida na Europa e na Ásia, contém mais acção e violência que a versão original. Proibida durante anos nos Estados Unidos, seria editada em "Laser Disc" por ocasião do 10º aniversário do filme em 1992.
- A "Versão para Televisão" (1986, 114 minutos) é a versão original montada para televisão sem as cenas de violência.
- A "Versão do Realizador" (1991, 116 minutos), finalmente o filme idealizado por Ridley Scott e recusado pelos produtores, via a luz do dia e estreava em todo o mundo com grande sucesso. Inclui mudanças significativas na versão original: a "voz off" é removida, acrescenta-se a sequência-sonho do unicórnio e o final feliz, imposto e causa de todas as polémicas entre realizador e produtores, é retirado. Era o renascer de um filme de culto. 
- A "Versão Final" (2007, 116 minutos), no 25º aniversário de "Blade Runner", realizador e produtores estão de acordo e dão liberdade criativa a Ridley Scott para ultimar a versão definitiva do filme. Melhorias a nível de imagem e de som, inclusão de alguns planos deixados de fora em versões anteriores, são o prato forte desta versão final que nada mais é que uma versão remasterizada da versão do realizador.
A Edição definitiva de "Blade Runner"
   Algumas destas versões estão disponíveis, além dum sem número de documentários, entrevistas e outra documentação na excepcional edição de cinco dvd's ou  cinco blu-rays intitulada "The Ultimate Blade Runner Collection", editada em finais de 2007. 
   Sendo baseado num livro de sucesso  teria de acontecer, inevitavelmente tal como no cinema, surgirem sequelas à obra de Philip K. Dick. O encarregado disso foi K.W. Jeter, amigo e seguidor de Dick, escreveu até agora três livros que continuam a história de Rick Deckard e tentam resolver as  muitas diferenças assumidas entre o filme e o livro: "Blade Runner 2 - A Fronteira do Humano" (1995); "Blade Runner - A Noite dos Andróides" (1996) e "Blade Runner - Eye and Talon" (2000).
   Culturalmente influente desde a sua estreia, muito devido ao seu estilo negro e design futurista, "Blade Runner" influenciou grandemente o estilo dos filmes de ficção cientifica subsequentes, animação, vídeojogos e até em séries de televisão, mais recentemente na re-invenção de "Battlestar Galactica" (2003), cujos produtores Ronald D. Moore e David Eick, dizem ter sido influenciados pelo filme de Ridley Scott.

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